CAPITULO VIIIAdalberto dava que pensar á senhora Tourtebonne.Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vêem começar. D'este numero era a honesta vendedeira, que nós ouvimos fazer perguntas a Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mão, seguindo com os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua necessidade de expansão; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica occupação era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem{99}ou não; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso acontecia constantemente acabar de contar á mulher do cortador a historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era obsequiadora, como o são em geral as pessoas que gostam de se metter em tudo. Não temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse preciso para fazer um serviço fallar tres horas seguidas, teria fallado quatro.Como já havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cór as ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta folhear para se achar a palavra que se procura com as indicações desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava, graças ao seu commercio e á sua perspicacia, que tinha sido chamada bastantes vezes como testemunha, perante a justiça. Esses dias tinham sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era tão fiel, as suas observações tão minuciosas, a sua palavra tão facil, que na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que se tratava. Tambem, as pessoas que não andavam pelo bom caminho evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal, como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.Voltando ao que nos interessa; apenas a tia{100}Tourtebonne perdeu o rasto de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação. Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má vontade o que lhe quizesse contar.—Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de harenques, nem de queijo, fezhum!com voz forte e rouca. Era uma maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito ao seu duplo commercio.O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal tranquillidade.Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero. A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,{101}quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella. Este famosohumque o bom do homem applicava a tudo não a satisfez nada, e replicou vivamente:—Viu-o, não é assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o? diga?Como ohumde Baptista não era um som vão, e que elle não empregasse muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada de um signal affirmativo com a cabeça.O que tudo junto queria dizersim, tanto quanto era possivel, porque o senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um cantão da Normandia, onde as tradições se tinham conservado intactas desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos freguezes mais alguma coisa do quehuns. Usava então de rodeios engenhosos, de interjeições expressivas, mas nunca chegava osimcompromettedor.Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque não?... o que pensa?... vamos!...O FREGUEZ.Os seus arenques são frescos?O VENDEDOR.Ainda o pergunta!{102}O FREGUEZ.São os que lhe trouxeram esta manhã?O VENDEDOR.Então quaes haviam de ser?O FREGUEZ.São os mais frescos que tem? não é assim?O VENDEDOR.Julga que eu era capaz de lhe mostrar má fazenda? Diga lá.O FREGUEZ.Está bom, dê-me seis.O VENDEDOR.Aqui estão e dos bons. Agora ha de querer queijo, não é verdade?O FREGUEZ.Não pense n'isso.O VENDEDOR.Pois é bom e estomacal. Quem não come queijo sente peso no estomago.O FREGUEZ.Parece-lhe?O VENDEDOR.A prova é que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me conheço; portanto...O FREGUEZ.Pois sim, dê-me um pouco, não muito.O VENDEDOR.O que quizer.O FREGUEZ.D'esse não; está muito duro, não está?{103}O VENDEDOR.Excellente!O FREGUEZ.Este deve ser melhor.O VENDEDOR.Optimo!O FREGUEZ.De qual ha de ser.O VENDEDOR.Leve d'ambos.O FREGUEZ.Oh! não, basta-me um, e já é de mais.O VENDEDOR.Corta-se em dois, o que faz com que só se veja metade.O FREGUEZ.Este parece-me menos sêcco.O VENDEDOR.Com certeza.O FREGUEZ.E o outro?O VENDEDOR.O outro tambem.O FREGUEZ.Conservar-se-ha?O VENDEDOR.Depois me dirá.O FREGUEZ.Responde por isso?O VENDEDOR.Se o não achar bom torne a trazel-o.{104}D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez, cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer é que cheirem bastante.Tal era o senhor Baptista, não fallando por sua vontade senão para os seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, não era facil escapar-lhe; por isso continuava com viva emoção e no interesse da moral:—Pois é verdade, já não ha crianças! quem tal havia de imaginar? Um pequenote que não responde quando a gente lhe quer fazer um serviço? Ah! se o papá tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. É preciso ser bem creado e não voltar as costas quando alguem falla.Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha dado meia volta á direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fêl-o parar, sem querer, no limiar da porta.—Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que não sabe o caminho devia estimar muito que eu deixasse as maçãs para lhe dar attenção. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que{105}enfia pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos filhos como se elles fossem de pedra e isto não os prende em casa. As crianças basta só castigal-as, não se devem espancar. Este pobre pequeno é talvez muito infeliz. Ainda agora estava á porta do carvoeiro com sua irmã mais velha e duas outras crianças, um rapaz e uma pequenita. Viu-os senhor Baptista?Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda d'ella com o talhum!que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres signaes com a cabeça d'alto a baixo, o que equivalia asim,sim,sim.—Ah!vossemecêviu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah! se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é preciso chamal-o.{106}—Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma fita doirada no cabello?O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira, emquanto esta continuava:—Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle corre. Mas é preciso quevossemecêo ache. Escute, se o rapaz quer fazer das suas, vou ensinar-lhe avossemecêo meio de o apanhar. Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda e para a direita; eu vou conduzil-o lá,vossemecêdiz-lhe o seu negocio e elle lhe fará achar o pequeno.Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja, deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe eram familiares.{107}Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para lhe dizer:—Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no commissario de policia?—Hum!—Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza, e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista,vossemecêque teve um filho, o seu pobre Augusto?Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu á tia Tourtebonne;—Penso comovossemecê, que é uma criança roubada.O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca{108}se invocava em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista sahia sempre do seu adormecimento.—Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos, infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto, pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que nunca tinha visto.Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as impressões succediam-se rapidamente.—Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista?vossemecêque gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o tivessem roubado?{109}—Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente; deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias, necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha; e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha, rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma amiga de infancia.Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia:—Toma lá, meu pequeno, péga n'esta maçã,{110}está meia podre; se eu fosse rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.E quando a pobre criança dizia obrigado, respondia:—Não por isso, meu canito; dá-me gosto vêr-t'a roer.Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro palavras e algunshuns!O senhor commisario registou a declaração e disse que estes depoimentos poderiam mais tarde ou mais cedo ajudar a infeliz criança a achar a sua familia.O senhor Baptista e a tia Tourtebonne retiraram-se de braço dado, como tinham vindo, e para acabar esta tarde de emoções o carrinho poz-se a caminho até á habitação da excellente mulher, que morava exactamente n'uma das ultimas casas da cidade, do lado pelo qual Adalberto tinha fugido para a planicie.Como ella não só tinha bom coração, mas tambem o espirito inventivo, não adormeceu senão muito tarde, bem decidida a não perder de vista este negocio, e a empregar toda a sua finura e toda a sua perspicacia no serviço da criança perdida. Durante este tempo, o nosso amiguinho estava, como nós vimos, em um subterraneo e contava bem tristemente as horas do seu captiveiro.{111}Image pg111Offereceu cortezmente o braço. (Pag. 109.){112}{113}CAPITULO IXAdalberto tinha fomeDeixámos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitação no seu tenebroso isolamento.Esta solidão durou muitas horas. Tão depressa julgava que a ratazana estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A sua imaginação criava mil soffrimentos que não existiam.Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupação que, livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira. Assimilhava-se a um{114}marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta. Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente, descançando apparentemente; mas então a immobilidade era absoluta, o silencio completo, nem respirar se ouvia.Quando Adalberto poz na idéa, que estava um homem do outro lado da porta e na escuridão, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado, via-se á mercê de um estranho que podia ser outro malvado, um ladrão de crianças!Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bôcca para dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as vezes faltava-lhe a voz como em um sonho máu. Graças a esta extraordinaria inquietação, tinha esquecido o rato, lembrando-se só do operario.Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois, este individuo trabalhava ás escuras mais outra coisa para admirar!Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que é uma grande vergonha quando se está destinado{115}a ser um homem, a conduzir, a governar, é provavel que adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe mesmo provado, que, as bulhas que se não podem explicar logo, são quasi sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que elles tinham, começado a mostrar algum discernimento.Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lições praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso. Valia-lhe isto na sua cruel posição, porque, no meio das suas afflicções, não deixava de ser o mais razoavel que a sua idade permittia.Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma pessoa que se affastasse.A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha adormecido.O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar poderosamente{116}os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam, que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre, como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações, penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação; mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir sempre.Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes. Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente, havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer{117}gravar na parte de dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.Quando Adalberto era pequeno, se havia sidobonito, obtinha da sua mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que representava o seu nome.Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:—Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã beijava-o; acabava sempre assim.Este annel representava um grande papel na educação maternal do pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer, que tinha dito umnãopensandosim, que tinha, n'uma palavra,mentido, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder, mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno não tinha mentido mais desde esse dia.Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de{118}receio. O resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse tão devagarinho:—Pequeno, estas tu ahi?Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia, não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.{119}Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle, sósinho, e longe dos seus bons paes?Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha, de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas, um tonel,{120}uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó; devia parecer exactamente um limpa-chaminés.—Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na cabeça.Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado, nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.Image pg121Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)Se elle tivesse podido arrastar o tonel para{121}{122}{123}debaixo da fresta e pôr-lhe em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel; Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança de resultado.Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a chorar, porque homens não choram por tolices.»O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.Sósinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o trabalhador não dava signal de vida, Adalberto experimentou um sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo. Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. «Ah! se eu tivesse{124}sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?» Graças a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer, Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por este lado não teve mais inquietação. Este socego deu-lhe vagar para pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou não alli?O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fóra, e a criança apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico intermedio entre elle e o mundo.Comtudo, o solitario conseguira vêr assim distinctamente o que o rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de forma semi-circular, e sobre o chão uma poeira amarellada que não era mais do que a madeira reduzida a pó por um trabalho perseverante. A criança, que tinha uma imaginação viva, sabia aproveitar as suas recordações. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado: «Ai! que ruins bichos! pois não parece que isto foi feito por um marceneiro?»{125}E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo andar tinha accrescentado: «Na verdade, se eu esta noite não soubesse que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.»Adalberto applicou á circumstancia estas diversas lembranças, e, comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto marceneiro tinha passado a noite no canto da adêga, e não era outro senão o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de começar a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma verdadeira consolação; mas esta mesma consolação permittiu-lhe pensar mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes mais ameaçador. O que era?A criança bocejava a cada instante; não era o somno que causava estes bocejos repetidos.Sentia um incommodo desconhecido; parecia que lhe apertavam a cabeça carregando-lhe nas fontes, e o seu estomago, que tinha tido tempo para esquecer a ordinaria sopa dos Ciganos, pedia imperiosamente alimento.Cada momento augmentava este soffrimento, e a pendula, que se ouvia na casa de cima, parecia cantar as horas de vida que restavam ao joven Valneige. Os mais tristes pensamentos o{126}perseguiam. Como estava bastante adiantado nos estudos para uma criança da sua idade, tinha lido as aventuras de viajantes, que tinham ido parar a ilhas desertas, sem saberem a sorte que os esperava.Comtudo, havia dois ou tres coqueiros cujos fructos elles comiam, uma ave brava que assavam bem ou mal, ou pelo menos um rochedo de que arrancavam algumas ostras; mas n'este subterraneo, nada, nada, senão carvão, madeira, garrafas vazias; era preciso sahir d'alli a todo o custo, ou então morrer á fome.Á medida que o dia ia passando a cabeça do prisioneiro enfraquecia-se, e, sem querer, a coragem abandonava-o.Não se atrevia a andar, tendo notado que a sua dôr de estomago se tornava insupportavel quando se mexia. Encolhido ao pé do tonel contra o qual encostava a sua pobre cabeça, e olhando para a fresta, esperava ainda, porque sabia que não estava completamente abandonado. Deus via-o, e, para responder ás suas innocentes supplicas, enviava-lhe de tempos a tempos pensamentos dôces e beneficos, como tudo quanto nos vem do céo.O cativo lembrava-se de ter aprendido de cór a linda historia de José, que a Providencia tinha retirado de uma cisterna, onde seus maus irmãos, o tinham deitado; e disse comsigo:—José era quasi tão infeliz como eu, e pensava{127}em Jacob como eu penso no papá; mas elle ao menos não tinha deixado Rachel!... Devia ter tido grande medo, e, comtudo, sahiu da cisterna. E eu tambem hei de sahir d'este subterraneo. Não é assim, meu Deus, vós me enviareis alguem! eu sou um outro pequeno José, tende compaixão de mim!D'este modo a esperança renascia no seu coração, e um quarto d'hora depois uma tristeza profunda o acabrunhava.Voltavam então todas as recordações de Valneige; estas recordações despedaçavam-no. Parecia-lhe que tudo estava perdido, e chorando lagrimas amargas sobre a sua desobediencia, dizia baixinho, como se o podessem ouvir!—Perdão papá! perdão mamã! perdão todos!Uma idéa pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraça; lembrou-se que n'aquelle mesmo dia, ás nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia 3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasiões, havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criança que nascia era mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha juntava alguns pasteis feitos pela sua mão. O senhor de Valneige estava n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus{128}filhos, fechando os olhos ás ligeiras infracções do regulamento. Se por desgraça dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para não ser obrigado a castigar.Em quanto á doce e paciente Adilia bastava não sahir dos seus habitos quotidianos para a sua presença tornar todos felizes; e não ha duvida que se ella faltasse á reunião todos exclamariam: «Onde está então a festa? falta a mamã aqui.»—Que farão lá em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando. Ninguem dirá em voz alta: é hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente o pensará. Não haverá festa; o papá ficará na sua poltrona a ler o jornal, e póde ser que ao jantar diga: «Então, Adilia, tu não comes?» Mas não perguntará porque á mamã. Saberá que é por causa do seu filhinho. Oh! que desgraça! meu Deus, que desgraça!A pobre criança era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma d'estas inquietações pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam. Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de revez, tendo tanto horror de os vêr como de os esborrachar. Uma enorme aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade no seu officio de tecedeira, que{129}o pequeno não lhe dava grande attenção; eram os bichos pretos que o atormentavam.Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas, porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperança que o sol dá aos desgraçados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus pezares as vagas tristezas da escuridão.Então a pobre criança pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As suas forças diminuiam, sentia a cabeça pesada, todo o seu corpo se tornava molle e perguiçoso, como se fosse dormir o seu ultimo somno. Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta. Adalberto via o dia acabar, e não julgava tornal-o a ver mais.Por um profundo sentimento de ternura, teve a idéa de pegar n'um bocado de carvão e de escrever na parede os nomes de todos aquelles que amava. Levantou-se com custo, e com a mão que a fraqueza e a ternura fazia tremula escreveu: Papá, mamã, Camilla; e as lagrimas saltavam-lhe a cada palavra que lhe lembrava a sua familia. Arrependia-se do fundo do seu{130}coração, não só da sua ultima desobediencia, mas de todas aquellas que tinha commettido durante annos; não só das que seus paes tinham castigado, mas tambem d'aquellas, mais numerosas, que só Deus tinha visto.No seu arrependimento, o desgraçado pequeno, pôz-se de joelhos, e, com o coração despedaçado pelo desgosto, escreveu com grandes lettras: «Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!»O dia acabou de todo, e Adalberto foi de novo encolher-se sobre a sua taboa com as costas para o tonel. Um silencio de morte deixava-lhe ouvir a sua respiração desigual, e até os seus menores movimentos.Um pouco mais tarde, a chuva começou a cahir fóra e o vento fez gemer as faias que guarneciam o caminho deserto. A criança quasi desfallecida de fome, de pena e de miseria, fechou os olhos, e, julgando que se chamava morrer ao que sentia, abaixou a sua cabecinha e disse baixinho: Mamã!{131}CAPITULO XAdalberto hesitava.Havia muito tempo que o filho da senhora de Valneige não se mexia, e que julgava realmente as suas forças esgotadas. O relogio acabava de dar oito horas. Como o céo estava escuro e a tempestade agitava a natureza, a estrella não appareceu, aquella estrella a que na vespera tinha chamado Adilia; estava pois alli sem consolação, esperando, sem saber mesmo o que esperava.De repente, sentiu passos, depois a bulha de um vestido sobre o varão de ferro que atravessava a fresta, e uma voz muito doce que dizia baixinho:{132}—Pequeno, estás ahi?Bateu-lhe com força o coração; levantou-se de uma vez, espantado da força que a emoção lhe dava; mas bem depressa julgou sonhar porque não ouviu mais nada.Cheio de anxiedade, escuta... Repetem baixinho:—Pequeno, estás ahi?—Sim, sim, estou, gritou Adalberto, tira-me d'aqui! tira-me d'aqui!O prisioneiro acabava de reconhecer a voz de Gella, voz boa e doce quando ella fallava baixo e amigavelmente. A rapariga tinha-se inclinado sobre a fresta; uma luz fraca deixava vêr debaixo a sua cabeça, sem que se podesse distinguir mais do que um vulto negro.—Escuta, diz ella, eu trouxe uma escada de corda; vou atal-a ao varão de ferro e tu vais subir. Uma vez cá em cima eu te ajudarei a sahir.Ao mesmo tempo Gella punha em pratica o que dizia; e Adalberto via vagamente uma coisa que descia pela parede. Não se assustou muito d'este meio de salvação porque em Valneige mais de uma vez tinha feito esse exercicio gymnastico.Os seus dedos apalpando podiam já apanhar a escada de corda, quando começou entre elle e a filha do Saltimbanco, um dialogo que pintava a luta horrorosa, do espirito contra as aspirações da vida e da esperança.{133}—Menina Gella, se eu subir, vai levar-me para a casa do saltimbanco?—Sim.—Antes quero ficar.—Mas, meu pobre pequeno, tu vais morrer de fome.—Custa muito?—Oh! se custa! muito!—Não importa, antes quero morrer.Respondendo antes quero morrer, o desgraçado tocava instinctivamente na escada de corda, unica ligação entre elle e o mundo. Comtudo, por outro lado, tinha tão grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um ultimo esforço, foi pôr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde a rapariga podesse talvez vêl-o, e, estendendo-lhe os braços, como se ella fosse a Providencia, disse-lhe:—Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que me tomem por um ladrão e que me mettam n'uma prisão, e então terei de comer. Mas, rogo-lhe, não me leve! Oh! não me leve! deixe-me fugir!—É impossivel, meu pobre pequeno!—É sim! verá que é possivel! Oh! não diga que não; supplico-lhe pelo amor Deus!Adalberto lembrou-se que não conheciam Deus na casa do saltimbanco. Disse-lhe então com ternura.—Tenha dó de mim, pelo amor d'aquelles que estima.{134}E, como ella não respondia, perguntou-lhe:—Nunca gostou de ninguem?—Palavra que não, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno, e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te não fariam mal.—Gosta de mim?Immediatamente a criança cessou de chorar; pondo o pé sobre o degrau da escada subiu, e, quando sentiu as mãos fortes de Gella tocar-lhe na cabeça, respirou mais livremente, porque tambem gostava da rapariga.Ella, com o maior geito, ajudou os movimentos da criança, que, apoiando as mãos no varão de ferro e os pés na escada de corda, conseguiu, não sem custo, sahir do subterraneo.Quando se viu em pé no chão, o seu primeiro pensamento foi lançar-se nos braços d'essa rapariga esfarrapada que acabava de lhe salvar a vida.—Então, disse-lhe ella, já não tens medo de mim?—Oh! não.—Porque tinhas tu medo?—É que eu não sabia se tinhas coração, disse ingenuamente Adalberto.Gella, depois de um grande suspiro, respondeu:—Ai, filho! no nosso modo de vida quasi não se sabe se o temos ou não. O officio assim{135}o quer; mas nada temas. Tomemos por este atalho. Podes tu andar depressa?—Oh! não! tenho muita fome!—É verdade, já não me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu pão que guardei para ti; come.Adalberto precipitou-se sobre o pão que lhe davam. O filho do senhor de Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre dançarina de feira. De mais, este pão não era o pão da miseria, era o pão da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de Adalberto fraquejavam.A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixão; pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no estado de fraqueza em que elle se achava.N'esse momento, o vento abrandou, o céo aclarou-se, e Gella viu que o pequeno estava todo preto.—Que tens tu, Mustaphá?Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella não se admirou; fôra o desejo de escapar a seu pae, a sua avó, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos pés por baixo dos seus robustos braços, encaminhou-se para um grupo de carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era{136}grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com aquelle abandono que nasce de repente das situações extremas.—Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adêga. Porque não me respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me então muito má?—Não sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchès, não dizias nada.—Podéra! isso succede tantas vezes, que já não se faz caso. E depois, é tão tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que não é feliz. Mas, vês tu, quando se é creado com pancadas não se faz caso das que levam os outros.—Tem ar de bom, Natchès.—Dize antes que tem ar de tolo. Não comprehende, nada, a não ser uma cambalhota. Quanto mais cresce mais tolo se torna.—Menina Gella, é talvez porque ninguem gosta d'elle.—É possivel; nunca tinha pensado n'isso.—Tu, ouve, chama-me só Gella; não sabes que eu gosto de ti?—Oh! sim! visto que lhe deram pancada por minha causa! que bondade! Mas diga-me o que se passou quando viram que eu tinha fugido.—Digo: o pae entrou furioso e disse-me que eu respondia por ti, Mustaphá.{137}—Oh! Gella, quer fazer-me um favor?—Sim, mas qual?—Não me trate nunca por esse feio nome quando estivermos sós; diga como diziam lá em casa: Adalberto.—Oh! meu filho, o que me pedes tu? é impossivel.—Está bem, chame-me como ainda agora quando me dizia baixinho:Pequeno, estás ahi?—Pois sim. Dizia eu que o pae estava furioso. Poz-se a procurar pela cidade; uma mulher fel-o parar e fallou-lhe do commissario de policia. Elle então disse que te avistava e safou-se. Quando nos juntámos, elle e eu, sem te havermos achado, cahiu sobre mim e deu-me pancada! oh! mas que pancadas! a tal ponto que eu, que tive sempre medo d'elle, zanguei-me e resisti-lhe.—Como! teve animo?—É verdade, sentia-me fóra de mim. Disse-lhe que estava bem contente de te haver perdido, porque se era muito infeliz com elle, e accrescentei: «Sei onde elle está, mas não irei buscal-o com medo que o espanques. Se elle fallar, tanto peior para ti.» Elle tornou a praguejar e a bater-me...—Pobre Gella, tudo por amor de mim!—E acabei por lhe gritar: «Pois olha não has de tel-o, só se prometteres não lhe bater se eu o trouxer.» Ainda não sei como esta palavra o acalmou; deixou de me maltratar e disse-me:{138}«Vai buscal-o, que lhe não tocarei, e prohibo a mãe de o castigar.»—Oh! boa Gella! quanto lhe agradeço! Mas sabia então que eu estava n'aquella adêga?—Estava certa d'isso. Tive pena, mas pena como nunca tive de ninguem! Dizia commigo: se o deixo ali dentro, que triste morte! e se o levo, que triste vida!—Gella, visto gostar de mim, porque me não deixa fugir?—Oh! meu pobre pequeno! Toda a cidade está álerta por se ter perdido uma criança. Se te escapas, far-te-hão perguntas, prenderão meu pae, mas antes de o levarem matar-me-ha elle, e serás o culpado. Queres fazer-me mal?—Não, não, minha boa Gella, prommetto-lhe que hei de ter juizo, respondeu affectuosamente Adalberto, que o reconhecimento já prendia á sua protectora.Não disse mais nada; mas olhava de longe para uma lanterna, que dava uma luz baça sobre os carvalhos. Era a da carruagem.A uns cem passos de distancia, Gella poz o pequeno no chão e deu-lhe a mão.Elle não pensou mais em fugir. Que o Hercules fosse preso, e que elle, Adalberto, fosse a causa, parecia-lhe uma desgraça bem pequena; mas excitar a vingança de um homem como aquelle, e entregar á sua terrivel colera Gella, que o salvára... que ingratidão! Caminhava{139}devagar ao pé d'ella dando dois passos em quanto ella dava um.Quando chegaram poz-se a tremer; a boa rapariga apertou-lhe a mão e socegou-o. Gella, era uma authoridade.Tornando a tomar por natureza e tambem por calculo os seus modos asperos, disse bruscamente:—Aqui o tens, elle aqui está, o teupequenote. Vamos, Mustaphá, sobe, avia-te.Todos dormiam, excepto o homem de ferro que não disse palavra. A criança morria de medo por tornar a entrar na carruagem; Gella seguio-a e a porta da casa do saltimbanco fechou-se sobre elles.Adalberto ousava apenas respirar.Teve então logar uma scena horrorosa, que se não pode descrever. A colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha crescido de hora para hora; fez explosão. Tinha promettido não bater no fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os boatos que não deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e entrecortadas sahiram primeiro dos seus beiços contrahidos pela raiva, depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas{140}palavras imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre a desgraçada espancou-a!Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo, pedindo perdão!... Inutil! o pae, fóra-de-si, parecia ter-se esquecido de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.O pobre pequeno, estendia os braços para a sua victima, recebia algumas vezes sôcos e pontapés, que eram destinados para ella, e ninguem se mexia na casa do saltimbanco, a não ser a pobre Tilly que, apenas coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mãos postas, como um anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio. Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.
Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vêem começar. D'este numero era a honesta vendedeira, que nós ouvimos fazer perguntas a Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mão, seguindo com os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.
A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua necessidade de expansão; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica occupação era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem{99}ou não; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso acontecia constantemente acabar de contar á mulher do cortador a historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era obsequiadora, como o são em geral as pessoas que gostam de se metter em tudo. Não temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse preciso para fazer um serviço fallar tres horas seguidas, teria fallado quatro.
Como já havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cór as ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta folhear para se achar a palavra que se procura com as indicações desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava, graças ao seu commercio e á sua perspicacia, que tinha sido chamada bastantes vezes como testemunha, perante a justiça. Esses dias tinham sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era tão fiel, as suas observações tão minuciosas, a sua palavra tão facil, que na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que se tratava. Tambem, as pessoas que não andavam pelo bom caminho evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal, como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.
Voltando ao que nos interessa; apenas a tia{100}Tourtebonne perdeu o rasto de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação. Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má vontade o que lhe quizesse contar.
—Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?
O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de harenques, nem de queijo, fezhum!com voz forte e rouca. Era uma maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito ao seu duplo commercio.
O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal tranquillidade.
Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero. A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,{101}quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella. Este famosohumque o bom do homem applicava a tudo não a satisfez nada, e replicou vivamente:
—Viu-o, não é assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o? diga?
Como ohumde Baptista não era um som vão, e que elle não empregasse muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada de um signal affirmativo com a cabeça.
O que tudo junto queria dizersim, tanto quanto era possivel, porque o senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um cantão da Normandia, onde as tradições se tinham conservado intactas desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos freguezes mais alguma coisa do quehuns. Usava então de rodeios engenhosos, de interjeições expressivas, mas nunca chegava osimcompromettedor.
Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque não?... o que pensa?... vamos!...
O FREGUEZ.
Os seus arenques são frescos?
O VENDEDOR.
Ainda o pergunta!{102}
O FREGUEZ.
São os que lhe trouxeram esta manhã?
O VENDEDOR.
Então quaes haviam de ser?
O FREGUEZ.
São os mais frescos que tem? não é assim?
O VENDEDOR.
Julga que eu era capaz de lhe mostrar má fazenda? Diga lá.
O FREGUEZ.
Está bom, dê-me seis.
O VENDEDOR.
Aqui estão e dos bons. Agora ha de querer queijo, não é verdade?
O FREGUEZ.
Não pense n'isso.
O VENDEDOR.
Pois é bom e estomacal. Quem não come queijo sente peso no estomago.
O FREGUEZ.
Parece-lhe?
O VENDEDOR.
A prova é que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me conheço; portanto...
O FREGUEZ.
Pois sim, dê-me um pouco, não muito.
O VENDEDOR.
O que quizer.
O FREGUEZ.
D'esse não; está muito duro, não está?{103}
O VENDEDOR.
Excellente!
O FREGUEZ.
Este deve ser melhor.
O VENDEDOR.
Optimo!
O FREGUEZ.
De qual ha de ser.
O VENDEDOR.
Leve d'ambos.
O FREGUEZ.
Oh! não, basta-me um, e já é de mais.
O VENDEDOR.
Corta-se em dois, o que faz com que só se veja metade.
O FREGUEZ.
Este parece-me menos sêcco.
O VENDEDOR.
Com certeza.
O FREGUEZ.
E o outro?
O VENDEDOR.
O outro tambem.
O FREGUEZ.
Conservar-se-ha?
O VENDEDOR.
Depois me dirá.
O FREGUEZ.
Responde por isso?
O VENDEDOR.
Se o não achar bom torne a trazel-o.{104}
D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez, cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer é que cheirem bastante.
Tal era o senhor Baptista, não fallando por sua vontade senão para os seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, não era facil escapar-lhe; por isso continuava com viva emoção e no interesse da moral:
—Pois é verdade, já não ha crianças! quem tal havia de imaginar? Um pequenote que não responde quando a gente lhe quer fazer um serviço? Ah! se o papá tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. É preciso ser bem creado e não voltar as costas quando alguem falla.
Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha dado meia volta á direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fêl-o parar, sem querer, no limiar da porta.
—Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que não sabe o caminho devia estimar muito que eu deixasse as maçãs para lhe dar attenção. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que{105}enfia pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos filhos como se elles fossem de pedra e isto não os prende em casa. As crianças basta só castigal-as, não se devem espancar. Este pobre pequeno é talvez muito infeliz. Ainda agora estava á porta do carvoeiro com sua irmã mais velha e duas outras crianças, um rapaz e uma pequenita. Viu-os senhor Baptista?
Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda d'ella com o talhum!que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres signaes com a cabeça d'alto a baixo, o que equivalia asim,sim,sim.
—Ah!vossemecêviu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah! se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é preciso chamal-o.{106}
—Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma fita doirada no cabello?
O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira, emquanto esta continuava:
—Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle corre. Mas é preciso quevossemecêo ache. Escute, se o rapaz quer fazer das suas, vou ensinar-lhe avossemecêo meio de o apanhar. Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda e para a direita; eu vou conduzil-o lá,vossemecêdiz-lhe o seu negocio e elle lhe fará achar o pequeno.
Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja, deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.
Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe eram familiares.{107}
Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para lhe dizer:
—Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no commissario de policia?
—Hum!
—Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza, e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista,vossemecêque teve um filho, o seu pobre Augusto?
Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu á tia Tourtebonne;
—Penso comovossemecê, que é uma criança roubada.
O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca{108}se invocava em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista sahia sempre do seu adormecimento.
—Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos, infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.
A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto, pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que nunca tinha visto.
Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as impressões succediam-se rapidamente.
—Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista?vossemecêque gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o tivessem roubado?{109}
—Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente; deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.
Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias, necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha; e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha, rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma amiga de infancia.
Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia:
—Toma lá, meu pequeno, péga n'esta maçã,{110}está meia podre; se eu fosse rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.
E quando a pobre criança dizia obrigado, respondia:
—Não por isso, meu canito; dá-me gosto vêr-t'a roer.
Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro palavras e algunshuns!
O senhor commisario registou a declaração e disse que estes depoimentos poderiam mais tarde ou mais cedo ajudar a infeliz criança a achar a sua familia.
O senhor Baptista e a tia Tourtebonne retiraram-se de braço dado, como tinham vindo, e para acabar esta tarde de emoções o carrinho poz-se a caminho até á habitação da excellente mulher, que morava exactamente n'uma das ultimas casas da cidade, do lado pelo qual Adalberto tinha fugido para a planicie.
Como ella não só tinha bom coração, mas tambem o espirito inventivo, não adormeceu senão muito tarde, bem decidida a não perder de vista este negocio, e a empregar toda a sua finura e toda a sua perspicacia no serviço da criança perdida. Durante este tempo, o nosso amiguinho estava, como nós vimos, em um subterraneo e contava bem tristemente as horas do seu captiveiro.{111}
Image pg111Offereceu cortezmente o braço. (Pag. 109.)
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Offereceu cortezmente o braço. (Pag. 109.)
Deixámos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitação no seu tenebroso isolamento.
Esta solidão durou muitas horas. Tão depressa julgava que a ratazana estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A sua imaginação criava mil soffrimentos que não existiam.
Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupação que, livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.
Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira. Assimilhava-se a um{114}marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta. Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente, descançando apparentemente; mas então a immobilidade era absoluta, o silencio completo, nem respirar se ouvia.
Quando Adalberto poz na idéa, que estava um homem do outro lado da porta e na escuridão, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado, via-se á mercê de um estranho que podia ser outro malvado, um ladrão de crianças!
Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bôcca para dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as vezes faltava-lhe a voz como em um sonho máu. Graças a esta extraordinaria inquietação, tinha esquecido o rato, lembrando-se só do operario.
Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois, este individuo trabalhava ás escuras mais outra coisa para admirar!
Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que é uma grande vergonha quando se está destinado{115}a ser um homem, a conduzir, a governar, é provavel que adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe mesmo provado, que, as bulhas que se não podem explicar logo, são quasi sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que elles tinham, começado a mostrar algum discernimento.
Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lições praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso. Valia-lhe isto na sua cruel posição, porque, no meio das suas afflicções, não deixava de ser o mais razoavel que a sua idade permittia.
Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma pessoa que se affastasse.
A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha adormecido.
O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar poderosamente{116}os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam, que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre, como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações, penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação; mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.
Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir sempre.
Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes. Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente, havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer{117}gravar na parte de dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.
Quando Adalberto era pequeno, se havia sidobonito, obtinha da sua mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que representava o seu nome.
Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:
—Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!
Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã beijava-o; acabava sempre assim.
Este annel representava um grande papel na educação maternal do pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer, que tinha dito umnãopensandosim, que tinha, n'uma palavra,mentido, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder, mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno não tinha mentido mais desde esse dia.
Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de{118}receio. O resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.
Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse tão devagarinho:
—Pequeno, estas tu ahi?
Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia, não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.{119}
Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle, sósinho, e longe dos seus bons paes?
Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha, de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas, um tonel,{120}uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó; devia parecer exactamente um limpa-chaminés.
—Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.
N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na cabeça.
Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado, nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!
Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.
Image pg121Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)
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Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)
Se elle tivesse podido arrastar o tonel para{121}{122}{123}debaixo da fresta e pôr-lhe em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel; Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança de resultado.
Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a chorar, porque homens não choram por tolices.»
O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.
Sósinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o trabalhador não dava signal de vida, Adalberto experimentou um sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo. Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. «Ah! se eu tivesse{124}sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?» Graças a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer, Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por este lado não teve mais inquietação. Este socego deu-lhe vagar para pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou não alli?
O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fóra, e a criança apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico intermedio entre elle e o mundo.
Comtudo, o solitario conseguira vêr assim distinctamente o que o rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de forma semi-circular, e sobre o chão uma poeira amarellada que não era mais do que a madeira reduzida a pó por um trabalho perseverante. A criança, que tinha uma imaginação viva, sabia aproveitar as suas recordações. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado: «Ai! que ruins bichos! pois não parece que isto foi feito por um marceneiro?»{125}
E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo andar tinha accrescentado: «Na verdade, se eu esta noite não soubesse que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.»
Adalberto applicou á circumstancia estas diversas lembranças, e, comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto marceneiro tinha passado a noite no canto da adêga, e não era outro senão o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de começar a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma verdadeira consolação; mas esta mesma consolação permittiu-lhe pensar mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes mais ameaçador. O que era?
A criança bocejava a cada instante; não era o somno que causava estes bocejos repetidos.
Sentia um incommodo desconhecido; parecia que lhe apertavam a cabeça carregando-lhe nas fontes, e o seu estomago, que tinha tido tempo para esquecer a ordinaria sopa dos Ciganos, pedia imperiosamente alimento.
Cada momento augmentava este soffrimento, e a pendula, que se ouvia na casa de cima, parecia cantar as horas de vida que restavam ao joven Valneige. Os mais tristes pensamentos o{126}perseguiam. Como estava bastante adiantado nos estudos para uma criança da sua idade, tinha lido as aventuras de viajantes, que tinham ido parar a ilhas desertas, sem saberem a sorte que os esperava.
Comtudo, havia dois ou tres coqueiros cujos fructos elles comiam, uma ave brava que assavam bem ou mal, ou pelo menos um rochedo de que arrancavam algumas ostras; mas n'este subterraneo, nada, nada, senão carvão, madeira, garrafas vazias; era preciso sahir d'alli a todo o custo, ou então morrer á fome.
Á medida que o dia ia passando a cabeça do prisioneiro enfraquecia-se, e, sem querer, a coragem abandonava-o.
Não se atrevia a andar, tendo notado que a sua dôr de estomago se tornava insupportavel quando se mexia. Encolhido ao pé do tonel contra o qual encostava a sua pobre cabeça, e olhando para a fresta, esperava ainda, porque sabia que não estava completamente abandonado. Deus via-o, e, para responder ás suas innocentes supplicas, enviava-lhe de tempos a tempos pensamentos dôces e beneficos, como tudo quanto nos vem do céo.
O cativo lembrava-se de ter aprendido de cór a linda historia de José, que a Providencia tinha retirado de uma cisterna, onde seus maus irmãos, o tinham deitado; e disse comsigo:
—José era quasi tão infeliz como eu, e pensava{127}em Jacob como eu penso no papá; mas elle ao menos não tinha deixado Rachel!... Devia ter tido grande medo, e, comtudo, sahiu da cisterna. E eu tambem hei de sahir d'este subterraneo. Não é assim, meu Deus, vós me enviareis alguem! eu sou um outro pequeno José, tende compaixão de mim!
D'este modo a esperança renascia no seu coração, e um quarto d'hora depois uma tristeza profunda o acabrunhava.
Voltavam então todas as recordações de Valneige; estas recordações despedaçavam-no. Parecia-lhe que tudo estava perdido, e chorando lagrimas amargas sobre a sua desobediencia, dizia baixinho, como se o podessem ouvir!
—Perdão papá! perdão mamã! perdão todos!
Uma idéa pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraça; lembrou-se que n'aquelle mesmo dia, ás nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia 3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasiões, havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criança que nascia era mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha juntava alguns pasteis feitos pela sua mão. O senhor de Valneige estava n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus{128}filhos, fechando os olhos ás ligeiras infracções do regulamento. Se por desgraça dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para não ser obrigado a castigar.
Em quanto á doce e paciente Adilia bastava não sahir dos seus habitos quotidianos para a sua presença tornar todos felizes; e não ha duvida que se ella faltasse á reunião todos exclamariam: «Onde está então a festa? falta a mamã aqui.»
—Que farão lá em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando. Ninguem dirá em voz alta: é hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente o pensará. Não haverá festa; o papá ficará na sua poltrona a ler o jornal, e póde ser que ao jantar diga: «Então, Adilia, tu não comes?» Mas não perguntará porque á mamã. Saberá que é por causa do seu filhinho. Oh! que desgraça! meu Deus, que desgraça!
A pobre criança era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma d'estas inquietações pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam. Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de revez, tendo tanto horror de os vêr como de os esborrachar. Uma enorme aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade no seu officio de tecedeira, que{129}o pequeno não lhe dava grande attenção; eram os bichos pretos que o atormentavam.
Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas, porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperança que o sol dá aos desgraçados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus pezares as vagas tristezas da escuridão.
Então a pobre criança pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As suas forças diminuiam, sentia a cabeça pesada, todo o seu corpo se tornava molle e perguiçoso, como se fosse dormir o seu ultimo somno. Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta. Adalberto via o dia acabar, e não julgava tornal-o a ver mais.
Por um profundo sentimento de ternura, teve a idéa de pegar n'um bocado de carvão e de escrever na parede os nomes de todos aquelles que amava. Levantou-se com custo, e com a mão que a fraqueza e a ternura fazia tremula escreveu: Papá, mamã, Camilla; e as lagrimas saltavam-lhe a cada palavra que lhe lembrava a sua familia. Arrependia-se do fundo do seu{130}coração, não só da sua ultima desobediencia, mas de todas aquellas que tinha commettido durante annos; não só das que seus paes tinham castigado, mas tambem d'aquellas, mais numerosas, que só Deus tinha visto.
No seu arrependimento, o desgraçado pequeno, pôz-se de joelhos, e, com o coração despedaçado pelo desgosto, escreveu com grandes lettras: «Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!»
O dia acabou de todo, e Adalberto foi de novo encolher-se sobre a sua taboa com as costas para o tonel. Um silencio de morte deixava-lhe ouvir a sua respiração desigual, e até os seus menores movimentos.
Um pouco mais tarde, a chuva começou a cahir fóra e o vento fez gemer as faias que guarneciam o caminho deserto. A criança quasi desfallecida de fome, de pena e de miseria, fechou os olhos, e, julgando que se chamava morrer ao que sentia, abaixou a sua cabecinha e disse baixinho: Mamã!{131}
Havia muito tempo que o filho da senhora de Valneige não se mexia, e que julgava realmente as suas forças esgotadas. O relogio acabava de dar oito horas. Como o céo estava escuro e a tempestade agitava a natureza, a estrella não appareceu, aquella estrella a que na vespera tinha chamado Adilia; estava pois alli sem consolação, esperando, sem saber mesmo o que esperava.
De repente, sentiu passos, depois a bulha de um vestido sobre o varão de ferro que atravessava a fresta, e uma voz muito doce que dizia baixinho:{132}
—Pequeno, estás ahi?
Bateu-lhe com força o coração; levantou-se de uma vez, espantado da força que a emoção lhe dava; mas bem depressa julgou sonhar porque não ouviu mais nada.
Cheio de anxiedade, escuta... Repetem baixinho:
—Pequeno, estás ahi?
—Sim, sim, estou, gritou Adalberto, tira-me d'aqui! tira-me d'aqui!
O prisioneiro acabava de reconhecer a voz de Gella, voz boa e doce quando ella fallava baixo e amigavelmente. A rapariga tinha-se inclinado sobre a fresta; uma luz fraca deixava vêr debaixo a sua cabeça, sem que se podesse distinguir mais do que um vulto negro.
—Escuta, diz ella, eu trouxe uma escada de corda; vou atal-a ao varão de ferro e tu vais subir. Uma vez cá em cima eu te ajudarei a sahir.
Ao mesmo tempo Gella punha em pratica o que dizia; e Adalberto via vagamente uma coisa que descia pela parede. Não se assustou muito d'este meio de salvação porque em Valneige mais de uma vez tinha feito esse exercicio gymnastico.
Os seus dedos apalpando podiam já apanhar a escada de corda, quando começou entre elle e a filha do Saltimbanco, um dialogo que pintava a luta horrorosa, do espirito contra as aspirações da vida e da esperança.{133}
—Menina Gella, se eu subir, vai levar-me para a casa do saltimbanco?
—Sim.
—Antes quero ficar.
—Mas, meu pobre pequeno, tu vais morrer de fome.
—Custa muito?
—Oh! se custa! muito!
—Não importa, antes quero morrer.
Respondendo antes quero morrer, o desgraçado tocava instinctivamente na escada de corda, unica ligação entre elle e o mundo. Comtudo, por outro lado, tinha tão grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um ultimo esforço, foi pôr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde a rapariga podesse talvez vêl-o, e, estendendo-lhe os braços, como se ella fosse a Providencia, disse-lhe:
—Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que me tomem por um ladrão e que me mettam n'uma prisão, e então terei de comer. Mas, rogo-lhe, não me leve! Oh! não me leve! deixe-me fugir!
—É impossivel, meu pobre pequeno!
—É sim! verá que é possivel! Oh! não diga que não; supplico-lhe pelo amor Deus!
Adalberto lembrou-se que não conheciam Deus na casa do saltimbanco. Disse-lhe então com ternura.
—Tenha dó de mim, pelo amor d'aquelles que estima.{134}
E, como ella não respondia, perguntou-lhe:
—Nunca gostou de ninguem?
—Palavra que não, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno, e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te não fariam mal.
—Gosta de mim?
Immediatamente a criança cessou de chorar; pondo o pé sobre o degrau da escada subiu, e, quando sentiu as mãos fortes de Gella tocar-lhe na cabeça, respirou mais livremente, porque tambem gostava da rapariga.
Ella, com o maior geito, ajudou os movimentos da criança, que, apoiando as mãos no varão de ferro e os pés na escada de corda, conseguiu, não sem custo, sahir do subterraneo.
Quando se viu em pé no chão, o seu primeiro pensamento foi lançar-se nos braços d'essa rapariga esfarrapada que acabava de lhe salvar a vida.
—Então, disse-lhe ella, já não tens medo de mim?
—Oh! não.
—Porque tinhas tu medo?
—É que eu não sabia se tinhas coração, disse ingenuamente Adalberto.
Gella, depois de um grande suspiro, respondeu:
—Ai, filho! no nosso modo de vida quasi não se sabe se o temos ou não. O officio assim{135}o quer; mas nada temas. Tomemos por este atalho. Podes tu andar depressa?
—Oh! não! tenho muita fome!
—É verdade, já não me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu pão que guardei para ti; come.
Adalberto precipitou-se sobre o pão que lhe davam. O filho do senhor de Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre dançarina de feira. De mais, este pão não era o pão da miseria, era o pão da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de Adalberto fraquejavam.
A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixão; pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no estado de fraqueza em que elle se achava.
N'esse momento, o vento abrandou, o céo aclarou-se, e Gella viu que o pequeno estava todo preto.
—Que tens tu, Mustaphá?
Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella não se admirou; fôra o desejo de escapar a seu pae, a sua avó, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos pés por baixo dos seus robustos braços, encaminhou-se para um grupo de carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era{136}grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com aquelle abandono que nasce de repente das situações extremas.
—Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adêga. Porque não me respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me então muito má?
—Não sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchès, não dizias nada.
—Podéra! isso succede tantas vezes, que já não se faz caso. E depois, é tão tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que não é feliz. Mas, vês tu, quando se é creado com pancadas não se faz caso das que levam os outros.
—Tem ar de bom, Natchès.
—Dize antes que tem ar de tolo. Não comprehende, nada, a não ser uma cambalhota. Quanto mais cresce mais tolo se torna.
—Menina Gella, é talvez porque ninguem gosta d'elle.
—É possivel; nunca tinha pensado n'isso.
—Tu, ouve, chama-me só Gella; não sabes que eu gosto de ti?
—Oh! sim! visto que lhe deram pancada por minha causa! que bondade! Mas diga-me o que se passou quando viram que eu tinha fugido.
—Digo: o pae entrou furioso e disse-me que eu respondia por ti, Mustaphá.{137}
—Oh! Gella, quer fazer-me um favor?
—Sim, mas qual?
—Não me trate nunca por esse feio nome quando estivermos sós; diga como diziam lá em casa: Adalberto.
—Oh! meu filho, o que me pedes tu? é impossivel.
—Está bem, chame-me como ainda agora quando me dizia baixinho:Pequeno, estás ahi?
—Pois sim. Dizia eu que o pae estava furioso. Poz-se a procurar pela cidade; uma mulher fel-o parar e fallou-lhe do commissario de policia. Elle então disse que te avistava e safou-se. Quando nos juntámos, elle e eu, sem te havermos achado, cahiu sobre mim e deu-me pancada! oh! mas que pancadas! a tal ponto que eu, que tive sempre medo d'elle, zanguei-me e resisti-lhe.
—Como! teve animo?
—É verdade, sentia-me fóra de mim. Disse-lhe que estava bem contente de te haver perdido, porque se era muito infeliz com elle, e accrescentei: «Sei onde elle está, mas não irei buscal-o com medo que o espanques. Se elle fallar, tanto peior para ti.» Elle tornou a praguejar e a bater-me...
—Pobre Gella, tudo por amor de mim!
—E acabei por lhe gritar: «Pois olha não has de tel-o, só se prometteres não lhe bater se eu o trouxer.» Ainda não sei como esta palavra o acalmou; deixou de me maltratar e disse-me:{138}«Vai buscal-o, que lhe não tocarei, e prohibo a mãe de o castigar.»
—Oh! boa Gella! quanto lhe agradeço! Mas sabia então que eu estava n'aquella adêga?
—Estava certa d'isso. Tive pena, mas pena como nunca tive de ninguem! Dizia commigo: se o deixo ali dentro, que triste morte! e se o levo, que triste vida!
—Gella, visto gostar de mim, porque me não deixa fugir?
—Oh! meu pobre pequeno! Toda a cidade está álerta por se ter perdido uma criança. Se te escapas, far-te-hão perguntas, prenderão meu pae, mas antes de o levarem matar-me-ha elle, e serás o culpado. Queres fazer-me mal?
—Não, não, minha boa Gella, prommetto-lhe que hei de ter juizo, respondeu affectuosamente Adalberto, que o reconhecimento já prendia á sua protectora.
Não disse mais nada; mas olhava de longe para uma lanterna, que dava uma luz baça sobre os carvalhos. Era a da carruagem.
A uns cem passos de distancia, Gella poz o pequeno no chão e deu-lhe a mão.
Elle não pensou mais em fugir. Que o Hercules fosse preso, e que elle, Adalberto, fosse a causa, parecia-lhe uma desgraça bem pequena; mas excitar a vingança de um homem como aquelle, e entregar á sua terrivel colera Gella, que o salvára... que ingratidão! Caminhava{139}devagar ao pé d'ella dando dois passos em quanto ella dava um.
Quando chegaram poz-se a tremer; a boa rapariga apertou-lhe a mão e socegou-o. Gella, era uma authoridade.
Tornando a tomar por natureza e tambem por calculo os seus modos asperos, disse bruscamente:
—Aqui o tens, elle aqui está, o teupequenote. Vamos, Mustaphá, sobe, avia-te.
Todos dormiam, excepto o homem de ferro que não disse palavra. A criança morria de medo por tornar a entrar na carruagem; Gella seguio-a e a porta da casa do saltimbanco fechou-se sobre elles.
Adalberto ousava apenas respirar.
Teve então logar uma scena horrorosa, que se não pode descrever. A colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha crescido de hora para hora; fez explosão. Tinha promettido não bater no fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os boatos que não deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e entrecortadas sahiram primeiro dos seus beiços contrahidos pela raiva, depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas{140}palavras imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre a desgraçada espancou-a!
Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo, pedindo perdão!... Inutil! o pae, fóra-de-si, parecia ter-se esquecido de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.
O pobre pequeno, estendia os braços para a sua victima, recebia algumas vezes sôcos e pontapés, que eram destinados para ella, e ninguem se mexia na casa do saltimbanco, a não ser a pobre Tilly que, apenas coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mãos postas, como um anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio. Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.
O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.