Image pg141Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag. 140.)Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito: «Gosto de{141}{142}{143}ti,» e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria, pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.—Tu vês, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraçado pequeno esqueceu o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu só o sangue que corria por amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoção profunda e de um igual reconhecimento, deitou-se aos pés da pobre rapariga e fez este juramento:—Ó Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno de Valneige e respondeu apenas:—Acredito-te.A criança viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os cabellos ensanguentados; não sabia o que havia de imaginar para lhe fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: «Coragem! porque ha um céo!»No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como esmagado pelo seu juramento: era não só o prisioneiro d'esse homem barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.{144}CAPITULO XIAdalberto tinha escripto o seu nome na parede.Com a volta da primavera tinham-se aberto as taboinhas d'aquella casa branca: e que singela e bonita ella era!Vêde como está feliz a familia que a habita, por tornar a achar-se n'ella! Longe do bulicio das cidades parece um ninho entre as folhas. Não é a riqueza; não é tambem a pobreza. Pode viver-se alli socegado, sem custar muito parecel-o. Felizes aquelles que se contentam com pouco!D'este numero eram os tranquillos donos d'aquella pequena casa. Tinham sido novos como toda a gente, mas já o não eram. N'elles{145}o gosto pelo campo era natural. O senhor e a senhora Deschamps tinham passado os seus primeiros annos dizendo, a passear, mau grado seu, nas ruas de uma grande cidade: «quando os nossos filhos casarem iremos plantar as nossas couves.»Ora, as crianças apenas começavam a comer e ainda usavam touca. Foi preciso esperar trinta annos.Nunca se viu esposos que melhor se combinassem. O reciproco desejo da felicidade tinha apagado as pequenas differenças, de modo que o senhor, que detestava o créme de chocolate, tinha acabado por comer d'elle. Ainda mais, a senhora, que antipathisava com os cães, supportava de boa vontade o valente Tom, de que seu marido gostava.O senhor e a senhora Deschamps dedicavam o inverno ás suas filhas casadas, vivendo como ellas e ajudando-as com os seus cuidados, os seus conselhos e o seu amor. Chegado o verão, faziam dez leguas em diligencia para o irem passar socegado na casa que um parente lhes tinha legado, com um pequeno bosque cheio de sombra, um jardim cheio de flôres, um pequeno lago abundante de peixes, e por toda a parte sol, perfumes, o campo, emfim, como elles d'antes sonhavam. O isolamento d'aquelle logar era o seu maior encanto. Seria preciso dar duzentos passos, pelo menos, para ouvir dizer mal d'alguem.Todos se estimavam n'essa casa, a começar{146}pelos donos d'ella. Eram servidos por uma estimavel criada chamada Sophia, que justificava o seu nome pela prudencia, ordem e economia que tinha em todas as coisas. Não se podia dizer se ella era cosinheira, criada de quarto, encarregada da capoeira ou da dispensa. Dependia tudo das horas e das circumstancias.Para simplificar chamavam-lhe agovernantaSeu marido, o honrado Julião, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado, n'uma palavrafactotum. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bonscasaesem tudo.Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais coração do que cabeça; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma moderação!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de acordo; Tom, não vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha acabado, á falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era recommendavel por muitas razões, bem criado, não arranhando, tendo o roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim, parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava á querida senhora um enternecimento quasi perpetuo.Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha um pardal sem pretenção, mas bomrapaz, o qual lhe fazia cortezias. Comtudo, tendo-se notado{147}que tomava ares de aborrecido, contra os usos da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitação. Todas as manhãs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de chá. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o achava bom.Uma grande preocupação, era o cuidado no lago. O nome, é preciso convir, era pomposo, mas emfim supportava-se para não se dizer o charco... Havia n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido Raymundo tinha uma paixão, a menos buliçosa de todas as paixões, mas tambem a mais perseverante.Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse; não que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!Era preciso vêl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os pés na herva molhada o braço estendido como uma taboleta de loja, com a linha de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino peixe para frigir.—Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps,{148}que elle tem o seu capote forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortiça nos sapatos, e que tem tamancos. Bem sei que se lhe não vêem os olhos, nem as orelhas, mas só um bocadinho do nariz; não importa; eu preferia, quando chove, saber que está em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos sem fim da escripturação, entretinha-se com diversas obras de marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher apressou-se a pôr-lhe cortinas verdes para que a claridade não fosse forte, e um pequeno fogão para quando a estação ia adiantada. Gostava de ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete não o incommodava nem o sol, que poderia fazer-lhe mal á cabeça, nem a humidade tão perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o á chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.Mas é lá possivel dar boas razões aos amadores da pesca? Como está decidido que os peixes, ao contrario de nós, passeiam de boa vontade quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos pés á cabeça sempre que o ceo estava escuro. Por condescendencia com sua{149}mulher, consentia é verdade em se abafar mais;cache-nez, lenço de seda, gravata grande, e chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de maneira que punha o chapeu á banda, como quem dizia: «Que me importa! Não serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?»A senhora Deschamps, no interesse da paz, não fazia mais do que um sermão respeitoso, depois do qual abandonava o marido á sua desgraçada sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporação. Sophia, n'estes casos, não deixava de fazer uma cara de piedade, e de dizer, pensando em Julião:—Ai! minha senhora, não me falle em homens; não ha nada peior do que elles!Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu marido pelasamendoasou no dia dos seusannos, em quanto que a senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa branca, bom calçado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa que lhe punham á mão, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao armario; portanto não se esquecia mesmo do lenço d'assoar.{150}Julgam talvez que esta excellente senhora amaldiçoava o lago, que fazia sombra á sua felicidade?Não, teria sido uma d'essas opposições vulgares, que se encontram em toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um coração dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um chorão tão alto como ella, que em poucos annos, á força de cuidados, tinha conseguido crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se para ao pé da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes d'aquellas ondas. Não porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distracção, e bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, á mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de proposito, um bocado de pão cortado para isso. D'isto resultava que os peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava sempre, e vinham ao encontro da senhora, que não gostava d'elles.Pode fazer-se idéa, depois d'esta pequena descripção, como a vida era doce e agradavel n'aquella modesta habitação a que chamavam a{151}casa branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solidão sobre o fundo verde dos prados e sobre as diversas côres dos alamos e das faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse nome, que, se tivessem tido a lugubre idéa de lhe pintar as quatro frentes de preto, é provavel que se continuasse a chamar aCasa branca.O corpo e o espirito repousavam á vontade entre essas quatro paredes, tão chegadas umas ás outras, e á sombra da pequena propriedade. Uma criança, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se só um, o bastante para dar vida e animação.Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia tão socegada entre as couves e as ervilhas.E a horta! que delicia! Ajudado por Julião, o senhor Deschamps revolvia a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se não semeavam. Não era grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos podiam dizer como a cantiga:Ha quatro canteirosNo jardim de minha tia...{152}A alegria dos doiscasaesera em grande parte devida á horta. O senhor dirigia e participava do trabalho de Julião, tendo cuidado, bem entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha arrumado e acondicionado da traça o seu fato de inverno com tanto empenho, que parecia uma rapariga. É que o coração conserva-se muito tempo novo quando a tempestade o não sacode, e está solidamente amarrado a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas filhas, em nada invejava a sua habitação de inverno. De mais a mais tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer os seus preparativos de jornada.Durante o inverno não ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear{153}tudo quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos á propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher tanto gostava.Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro anno de casados, era estimado não só como objecto d'arte, mas tambem como uma lembrança. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa até á adêga. Representava a nobre mãe dos Gracchos animando seus filhos a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. Não se entrava em duvida que a excellente senhora tivesse bastante força moral para preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, não tendo tido senão filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mães de familia bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle, e sua mãe dizia que valiam tres vezes mais.Estava-se a vinte e dois de Março, dia escolhido{154}n'esse anno para se mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudança! Repartia-se o trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julião as teias de aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedição, e, como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differença de que abria caminho á civilisação, representada por Sophia.Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfregão, e só retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente, como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda, melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraçada, a boa Sidonia começava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando Julião, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o feliz dono da casa não podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurança: «Como se está bem aqui!»{155}Julgava então sua mulher ter conquistado o bastão de marechal, porque não imaginava maior satisfação do que a alegria do seu Raymundo.Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia começou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chaminé da cosinha, dirigiu-se para a adêga, com uma véla de cebo na mão para ir buscar um pouco de carvão miudo e duas ou tres achas grossas.Desce, entra, e o que ha de vêr? Uma taboa ao pé do tonel; o pouco carvão que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adêga tão bem fechada, Sophia experimentou uma sensação de medo, bem natural. Comtudo, como não queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo d'ella, a cosinheira, vendo que não havia, no fim de contas, nem um gato na adêga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada Julião e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.Os homens admiraram-se; quanto á senhora Deschamps, sendo uma das suas fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a occasião. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.{156}Começou então o capitulo das supposições; foi comprido e interessante. Quando já não havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto não fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas palavras escritas com carvão na parede. Diz a historia, que o rei Balthazar tremeu de medo, vendo uma mão mysteriosa traçar sobre a parede da sala do festim tres palavras, que elle não podia ler. A pobre Sidonia teve, pelo menos, o espirito tão perturbado como elle, lendo esses nomes lançados no subterraneo como outras tantas exclamações de afflicção:Papá! mamã! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julião, que tinha sido soldado, não poude deixar de proferir dois ou tres palavrões, que lhe desculpavam nas grandes occasiões. Quanto á cosinheira, abandonada de todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que, sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adêga, e que ella nunca mais lá voltava.—Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa, é melhor pensar do que ter medo, que é a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui, não ha duvida; mas o diabo ataca as almas e não as garrafas vazias; e não escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordações de familia.Sophia respirou um pouco melhor, porque{157}tinha pelo senhor Deschamps um verdadeiro respeito, fundado na discrição da sua opinião, quando se não tratava da pesca.Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o, para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras que ainda não tinham visto.—Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!A senhora leu com profunda emoção.—Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!Mais abaixo havia ainda:—Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite faço nove annos... tenho fome!É preciso ser mãe para comprehender o que sentia a boa senhora Deschamps. Uma criança tinha estado fechada n'este subterraneo, só, abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.Levantou a fita doirada e disse com uma profunda tristeza!—Oh! meu Deus! quando penso que esta criança tem mãe!E dizendo isto, a excellente senhora não poude conter o chôro. Seu marido pegou-lhe na mão:—Vamos, vamos, socéga, minha boa amiga, não te afflijas mais. Irei, mesmo ámanhã, a casa do commissario de policia, virão lavrar o auto, e, se Deus quizer, chegaremos talvez a encontrar o rasto d'esse desgraçadinho.—Meu querido Raymundo, eu guardo a{158}fita, mostral-a-hei se for preciso, mas não quero desfazer-me d'ella.—Porque?—Porque, vês tu, quando entregarem esta criança a sua mãe, mandar-lhe-hei a fita. Pobre mulher! ha de conserval-a toda a vida como uma lembrança.—Não muito alegre, accrescentou Sophia.—Ah! Sophia! Você nunca teve filhos!... Dirá, como toda a gente, que esta fita é triste á vista; mas, quando estiver sósinha, ha de olhar para ella, ha de tocar-lhe. Oh! eu bem sei, o que ella ha de sentir.Em quanto subiam todos juntos, o amor maternal despertou-se por tal forma no coração da boa Sidonia, que começou a scismar com verdadeira inquietação na sua neta Genoveva que, quando passeava, ia sempre um pouco longe de seus paes ou da sua mestra, não se lembrando senão de ir atraz do arquinho.—É preciso que eu escreva ámanhã de manhã á sua mãe, exclamou ella! Deus meu! se furtassem aquella pequena!D'este modo cada um se achou no vestibulo com uma idéa differente, mas as quatro idéas tinham a mesma origem. Ao senhor Deschamps, como homem pratico e escrupuloso, não se lhe tirava da idéa o commissario, uma busca, os agentes de policia, uma circular, algumas linhas nos jornaes, e por fim dois ou tres artigos do codigo.{159}{160}{161}Image pg159Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)A senhora Deschamps pensava na pena da pobre mamã de Adalberto, e agourava um desgosto igual para ella e suas filhas.Sophia, muito consolada porque o demonio não tinha vindo á sua adêga, fazia tenção de contar o caso durante toda a estação e fazer ler as palavras mysteriosas a todos os seus conhecimentos; pensava mais que as cebolas, que queria deitar no assado, não poderiam coser-se bem, porque o acontecimento, a tinha demorado.Julião, que sabia calcular, e que, n'outra posição social, teria sido um bom mathematico, perguntava a si mesmo como demonio tinha feito o rapazinho para sahir pela fresta. Entrar percebia-se, mas sahir! acabou por achar a necessidade d'alguem o ter ajudado. Ao mesmo tempo, como era cuidadoso, amaldiçoava o mofino rato que tinha roido a porta da adêga, e, sem nunca deixar de pensar em Adalberto, cuidava tambem em tapar aquelle buraco e vêr se quanto antes matava os ratos.{162}CAPITULO XIIAdalberto era o assumpto de todas as conversações.—Ora, até que emfim chegaram!—É como diz, e trazemos o bom tempo.—Já tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de andar sobre o molhado.—Faço idéa.—Que quer, senhora Juliana, quando se está no mundo é preciso aceitar o tempo como Deus o manda.—Vendeu bastante ao menos?—Ora,vossemecêbem sabe, maçãs sempre maçãs. Em quanto as ha vive-se. As violetas não renderam quasi nada; e agora ainda as coisas vão peior.{163}—Então porque?—Porque a batata temporã já tarda.—Ai! que preguiçosa.—É assim mesmo. Ah! mas tudo isto são pequenas miserias; ha outras no mundo muito maiores, senhora Juliana.—Oh! se ha! senhora Tourtebonne!Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam de pé ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande prazer; era uma distracção encontrarem-se duas vezes por semana, sempre no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, não se separaram. Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma coisa.Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata temporã, não se prestando ás confidencias, foi Sophia quem começou, voltando á sua primeira idéa, á falta d'outra melhor.—É verdade, eis-nos outra vez de volta... não me dá cuidado; eu gosto do campo. Aqui ha só uma coisa que aborrece, é a solidão.—Não diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha tão bonita!—Mesmo por isso; se nós estivessemos a dez passos era melhor.—Faz-me rir, senhora Juliana.Vossemecênão era medrosa.—Não era, mas sou agora.—Queira desculpar, mas a razão vem com{164}a idade. Ora diga, como quer que entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.—Apesar d'isso, entraram.—Pelo buraco da chave?—Não, pela fresta da adêga.—O que!vossemecêestá a mangar; não cabe uma perna minha.É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a duvidar accrescentou:—Não me acredita? Pois bem, venha vêr.Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana, acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.—Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas, aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o architecto?Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno, Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto, as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o{165}{166}{167}que tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as palavras escritas com carvão.Image pg165Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)Quando chegou a isto: «Chamo-me Adalberto...»Parou de repente, e exclamou:—É elle minha querida, é elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! É possivel!...A emoção foi tão repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e por pouco não cahiu sobre as garrafas vazias.—Tome cuidado! disse Sophia.A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em sentido contrario, e poz os seus enormes pés no pó de carvão, que, não tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou até ao avental branco da vendedeira. Pois ella tão aceada, tão cuidadosa, não fez caso d'isso, e repetiu tantas vezes: «É elle! é elle!» que Sophia julgou que ella tinha endoidecido. Bem depressa viu que não era assim; a sua antiga conhecida tirou o lenço da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe{168}tinha escorregado dos dedos; era a sua expressão favorita.Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido testemunha, e a declaração de ambos feita n'aquella mesma tarde.Se o carrinho cheio de fructa não tivesse ficado lá em cima, e se um bom bocado de vitella sobre o lume não reclamasse os cuidados da cosinheira, não se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na adêga.As supposições da tia Tourtebonne não tinham fim; a imaginação ajudando o seu bom coração, rodeava a criança de chimeras; tinha chegado a querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: omeurapazinho.Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne com o mais vivo interesse. Felicissima por vêr o negocio em boas mãos, disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus discursos, ainda que só acreditasse em metade, indicios de que poderia tirar partido.A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperança, porque, depois da descoberta, não tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criança a sua mãe. Ainda mais, acabou por{169}sonhar acordada, o que era a maneira de arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao desfecho.É incrivel! apezar dos seus cincoenta e cinco annos e o seu glorioso titulo de avó, a boa Sidonia deixou-se assaltar por uma grande quantidade de idéas, de projectos, decastellos no ar, todos dedicados aopequeno da adêga, como dizia Sophia. De todas estas coisas pouco dizia a seu marido, que teria feito caçoada d'ella; ora o coração tem as suas criancices, e não gosta que o juizo d'outrem lh'as faça sentir. O senhor Deschamps, tão bom marido, não percebia absolutamente nada de sonhos, de supposições e de commentarios; quando se achava n'outro sitio que não fosse á borda do seu lago em dia de chuva, era positivo até ao ultimo ponto; e por isso apreciava Julião, que tudo fazia com methodo.De tempos a tempos queixava-se, sem se zangar, de que se fallava um pouco de mais em Adalberto, e, se sua mulher entristecia, fazia-lhe notar que uma só das suas indagações, feita a tempo e a horas, adiantaria mais os negocios que todos os discursos e todos os suspiros que se podem imaginar: a isto a boa Sidonia, não achando que responder puxava a agulha e fallava de outra coisa.{170}CAPITULO XIIIAdalberto tinha já passado dezoito mezes na casa do saltimbanco.Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito, suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de consolação physica, mas o seu espirito e o seu coração revoltavam-se.Não perdia, comtudo, nem a esperança nem a coragem, e não esquecia que muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que torna um homem menos forte do que a desgraça é a falta de animo.—Eu, pensava elle, sou um homem como o papá, excepto a idade e a altura; é preciso ter coragem.{171}O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordações de familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. Não achava prazer algum na companhia do bom Natchès, que só tinha a intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos desgraçado do que parecia, porque não sentia o horror da sua situação.Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, tão fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria despertado a sollicitude d'uma mãe; mas Tilly não chegava a saber o que era uma mãe. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda pretextos para ralhos.Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os progressos do que ella chamava o seudefluxo. Esse defluxo era uma indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:—Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.As duas crianças raras vezes conversavam.{172}Desde a sua fuga, Adalberto era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto lhe custava chamar-lheavósinha. Esta querida criança ficou espantada, quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.—Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?—Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza, quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se ama a Deus de todo o coração.—Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me, acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para o Céo?—Essas coisas não se sabem.{173}—Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.—Pode ser, não entendo d'isso.D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes, e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro nome:—Adalberto! Adalberto!Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão, fazendo-lhe mil pequenos serviços.Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.Na ingenua criança, não havia difficuldade{174}em aprender; mas na morena filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:—Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de mim, o teu Deus!Adalberto respondia:—A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e vê todas as caras.O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice, que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria moral humilhava-a diante do prisioneiro.Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e, comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de esconder.Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.—Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno professor.{175}—Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrevero oe,a a, o que é preciso para escreverpae... vós... eu...etc. etc., cá tenho as minhas razões.O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem todos os dias lhe fazia estudar o que chamava osseus exercicios, quer dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças, dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella, fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka, saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para{176}ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso, humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa; que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este{177}favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos burros.Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza, comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com isso.O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que mereciam grandes gargalhadas da multidão.{178}O pequeno Valneige acabava ás vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda em cima, pagavam um vintem.A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas, um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora, que não era senão grande barulho a compasso.O final de todas as representações, o mais lindo do programma, era a dança de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos movimentos de braços attrahiam a multidão e a juntavam de roda do theatro, Adalberto não deixava de cahir em um espanto visinho da admiração. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lançavam faiscas; havia{179}o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares: Gella, aAndaluza. Tocava muito bem castanholas, e dançava lindamente a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe dedicava, teria querido vêl-a sempre occupada com trabalhos de costura ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho grosseiro, que não a respeitava.O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que chamavamum triumpho, não parecia mais feliz por isso. Pelo contrario uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a Adalberto:—Vês tu, meu pequeno, eu canso-me porque é o meu officio; mas se julgas que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que os proprios burros.Exprimindo por esta forma nobres pensamentos{180}na sua linguagem trivial, a filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella, juntava uma verdadeira estima.{181}Image pg181Dançava lindamente. (Pag. 179).{182}{183}
Image pg141Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag. 140.)
Image pg141
Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag. 140.)
Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito: «Gosto de{141}{142}{143}ti,» e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria, pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.
—Tu vês, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!
N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraçado pequeno esqueceu o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu só o sangue que corria por amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoção profunda e de um igual reconhecimento, deitou-se aos pés da pobre rapariga e fez este juramento:
—Ó Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!
Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno de Valneige e respondeu apenas:
—Acredito-te.
A criança viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os cabellos ensanguentados; não sabia o que havia de imaginar para lhe fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: «Coragem! porque ha um céo!»
No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como esmagado pelo seu juramento: era não só o prisioneiro d'esse homem barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.{144}
Com a volta da primavera tinham-se aberto as taboinhas d'aquella casa branca: e que singela e bonita ella era!
Vêde como está feliz a familia que a habita, por tornar a achar-se n'ella! Longe do bulicio das cidades parece um ninho entre as folhas. Não é a riqueza; não é tambem a pobreza. Pode viver-se alli socegado, sem custar muito parecel-o. Felizes aquelles que se contentam com pouco!
D'este numero eram os tranquillos donos d'aquella pequena casa. Tinham sido novos como toda a gente, mas já o não eram. N'elles{145}o gosto pelo campo era natural. O senhor e a senhora Deschamps tinham passado os seus primeiros annos dizendo, a passear, mau grado seu, nas ruas de uma grande cidade: «quando os nossos filhos casarem iremos plantar as nossas couves.»
Ora, as crianças apenas começavam a comer e ainda usavam touca. Foi preciso esperar trinta annos.
Nunca se viu esposos que melhor se combinassem. O reciproco desejo da felicidade tinha apagado as pequenas differenças, de modo que o senhor, que detestava o créme de chocolate, tinha acabado por comer d'elle. Ainda mais, a senhora, que antipathisava com os cães, supportava de boa vontade o valente Tom, de que seu marido gostava.
O senhor e a senhora Deschamps dedicavam o inverno ás suas filhas casadas, vivendo como ellas e ajudando-as com os seus cuidados, os seus conselhos e o seu amor. Chegado o verão, faziam dez leguas em diligencia para o irem passar socegado na casa que um parente lhes tinha legado, com um pequeno bosque cheio de sombra, um jardim cheio de flôres, um pequeno lago abundante de peixes, e por toda a parte sol, perfumes, o campo, emfim, como elles d'antes sonhavam. O isolamento d'aquelle logar era o seu maior encanto. Seria preciso dar duzentos passos, pelo menos, para ouvir dizer mal d'alguem.
Todos se estimavam n'essa casa, a começar{146}pelos donos d'ella. Eram servidos por uma estimavel criada chamada Sophia, que justificava o seu nome pela prudencia, ordem e economia que tinha em todas as coisas. Não se podia dizer se ella era cosinheira, criada de quarto, encarregada da capoeira ou da dispensa. Dependia tudo das horas e das circumstancias.
Para simplificar chamavam-lhe agovernantaSeu marido, o honrado Julião, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado, n'uma palavrafactotum. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bonscasaesem tudo.
Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais coração do que cabeça; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma moderação!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de acordo; Tom, não vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha acabado, á falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era recommendavel por muitas razões, bem criado, não arranhando, tendo o roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim, parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava á querida senhora um enternecimento quasi perpetuo.
Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha um pardal sem pretenção, mas bomrapaz, o qual lhe fazia cortezias. Comtudo, tendo-se notado{147}que tomava ares de aborrecido, contra os usos da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.
No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitação. Todas as manhãs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de chá. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o achava bom.
Uma grande preocupação, era o cuidado no lago. O nome, é preciso convir, era pomposo, mas emfim supportava-se para não se dizer o charco... Havia n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido Raymundo tinha uma paixão, a menos buliçosa de todas as paixões, mas tambem a mais perseverante.
Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse; não que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!
Era preciso vêl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os pés na herva molhada o braço estendido como uma taboleta de loja, com a linha de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino peixe para frigir.
—Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps,{148}que elle tem o seu capote forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortiça nos sapatos, e que tem tamancos. Bem sei que se lhe não vêem os olhos, nem as orelhas, mas só um bocadinho do nariz; não importa; eu preferia, quando chove, saber que está em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:
E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos sem fim da escripturação, entretinha-se com diversas obras de marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher apressou-se a pôr-lhe cortinas verdes para que a claridade não fosse forte, e um pequeno fogão para quando a estação ia adiantada. Gostava de ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete não o incommodava nem o sol, que poderia fazer-lhe mal á cabeça, nem a humidade tão perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o á chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.
Mas é lá possivel dar boas razões aos amadores da pesca? Como está decidido que os peixes, ao contrario de nós, passeiam de boa vontade quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos pés á cabeça sempre que o ceo estava escuro. Por condescendencia com sua{149}mulher, consentia é verdade em se abafar mais;cache-nez, lenço de seda, gravata grande, e chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de maneira que punha o chapeu á banda, como quem dizia: «Que me importa! Não serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?»
A senhora Deschamps, no interesse da paz, não fazia mais do que um sermão respeitoso, depois do qual abandonava o marido á sua desgraçada sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporação. Sophia, n'estes casos, não deixava de fazer uma cara de piedade, e de dizer, pensando em Julião:
—Ai! minha senhora, não me falle em homens; não ha nada peior do que elles!
Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu marido pelasamendoasou no dia dos seusannos, em quanto que a senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa branca, bom calçado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa que lhe punham á mão, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao armario; portanto não se esquecia mesmo do lenço d'assoar.{150}
Julgam talvez que esta excellente senhora amaldiçoava o lago, que fazia sombra á sua felicidade?
Não, teria sido uma d'essas opposições vulgares, que se encontram em toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um coração dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um chorão tão alto como ella, que em poucos annos, á força de cuidados, tinha conseguido crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.
Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se para ao pé da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes d'aquellas ondas. Não porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distracção, e bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, á mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de proposito, um bocado de pão cortado para isso. D'isto resultava que os peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava sempre, e vinham ao encontro da senhora, que não gostava d'elles.
Pode fazer-se idéa, depois d'esta pequena descripção, como a vida era doce e agradavel n'aquella modesta habitação a que chamavam a{151}casa branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solidão sobre o fundo verde dos prados e sobre as diversas côres dos alamos e das faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse nome, que, se tivessem tido a lugubre idéa de lhe pintar as quatro frentes de preto, é provavel que se continuasse a chamar aCasa branca.
O corpo e o espirito repousavam á vontade entre essas quatro paredes, tão chegadas umas ás outras, e á sombra da pequena propriedade. Uma criança, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se só um, o bastante para dar vida e animação.
Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia tão socegada entre as couves e as ervilhas.
E a horta! que delicia! Ajudado por Julião, o senhor Deschamps revolvia a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se não semeavam. Não era grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos podiam dizer como a cantiga:
Ha quatro canteirosNo jardim de minha tia...{152}
A alegria dos doiscasaesera em grande parte devida á horta. O senhor dirigia e participava do trabalho de Julião, tendo cuidado, bem entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.
Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha arrumado e acondicionado da traça o seu fato de inverno com tanto empenho, que parecia uma rapariga. É que o coração conserva-se muito tempo novo quando a tempestade o não sacode, e está solidamente amarrado a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas filhas, em nada invejava a sua habitação de inverno. De mais a mais tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer os seus preparativos de jornada.
Durante o inverno não ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear{153}tudo quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.
O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos á propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher tanto gostava.
Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro anno de casados, era estimado não só como objecto d'arte, mas tambem como uma lembrança. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa até á adêga. Representava a nobre mãe dos Gracchos animando seus filhos a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.
A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. Não se entrava em duvida que a excellente senhora tivesse bastante força moral para preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, não tendo tido senão filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mães de familia bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle, e sua mãe dizia que valiam tres vezes mais.
Estava-se a vinte e dois de Março, dia escolhido{154}n'esse anno para se mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudança! Repartia-se o trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julião as teias de aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedição, e, como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differença de que abria caminho á civilisação, representada por Sophia.
Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfregão, e só retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente, como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.
Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda, melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraçada, a boa Sidonia começava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando Julião, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o feliz dono da casa não podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurança: «Como se está bem aqui!»{155}
Julgava então sua mulher ter conquistado o bastão de marechal, porque não imaginava maior satisfação do que a alegria do seu Raymundo.
Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia começou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chaminé da cosinha, dirigiu-se para a adêga, com uma véla de cebo na mão para ir buscar um pouco de carvão miudo e duas ou tres achas grossas.
Desce, entra, e o que ha de vêr? Uma taboa ao pé do tonel; o pouco carvão que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...
Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adêga tão bem fechada, Sophia experimentou uma sensação de medo, bem natural. Comtudo, como não queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo d'ella, a cosinheira, vendo que não havia, no fim de contas, nem um gato na adêga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada Julião e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.
Os homens admiraram-se; quanto á senhora Deschamps, sendo uma das suas fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a occasião. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.{156}
Começou então o capitulo das supposições; foi comprido e interessante. Quando já não havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto não fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas palavras escritas com carvão na parede. Diz a historia, que o rei Balthazar tremeu de medo, vendo uma mão mysteriosa traçar sobre a parede da sala do festim tres palavras, que elle não podia ler. A pobre Sidonia teve, pelo menos, o espirito tão perturbado como elle, lendo esses nomes lançados no subterraneo como outras tantas exclamações de afflicção:
Papá! mamã! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!
O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julião, que tinha sido soldado, não poude deixar de proferir dois ou tres palavrões, que lhe desculpavam nas grandes occasiões. Quanto á cosinheira, abandonada de todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que, sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adêga, e que ella nunca mais lá voltava.
—Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa, é melhor pensar do que ter medo, que é a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui, não ha duvida; mas o diabo ataca as almas e não as garrafas vazias; e não escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordações de familia.
Sophia respirou um pouco melhor, porque{157}tinha pelo senhor Deschamps um verdadeiro respeito, fundado na discrição da sua opinião, quando se não tratava da pesca.
Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o, para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras que ainda não tinham visto.
—Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!
A senhora leu com profunda emoção.
—Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!
Mais abaixo havia ainda:
—Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite faço nove annos... tenho fome!
É preciso ser mãe para comprehender o que sentia a boa senhora Deschamps. Uma criança tinha estado fechada n'este subterraneo, só, abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.
Levantou a fita doirada e disse com uma profunda tristeza!
—Oh! meu Deus! quando penso que esta criança tem mãe!
E dizendo isto, a excellente senhora não poude conter o chôro. Seu marido pegou-lhe na mão:
—Vamos, vamos, socéga, minha boa amiga, não te afflijas mais. Irei, mesmo ámanhã, a casa do commissario de policia, virão lavrar o auto, e, se Deus quizer, chegaremos talvez a encontrar o rasto d'esse desgraçadinho.
—Meu querido Raymundo, eu guardo a{158}fita, mostral-a-hei se for preciso, mas não quero desfazer-me d'ella.
—Porque?
—Porque, vês tu, quando entregarem esta criança a sua mãe, mandar-lhe-hei a fita. Pobre mulher! ha de conserval-a toda a vida como uma lembrança.
—Não muito alegre, accrescentou Sophia.
—Ah! Sophia! Você nunca teve filhos!... Dirá, como toda a gente, que esta fita é triste á vista; mas, quando estiver sósinha, ha de olhar para ella, ha de tocar-lhe. Oh! eu bem sei, o que ella ha de sentir.
Em quanto subiam todos juntos, o amor maternal despertou-se por tal forma no coração da boa Sidonia, que começou a scismar com verdadeira inquietação na sua neta Genoveva que, quando passeava, ia sempre um pouco longe de seus paes ou da sua mestra, não se lembrando senão de ir atraz do arquinho.
—É preciso que eu escreva ámanhã de manhã á sua mãe, exclamou ella! Deus meu! se furtassem aquella pequena!
D'este modo cada um se achou no vestibulo com uma idéa differente, mas as quatro idéas tinham a mesma origem. Ao senhor Deschamps, como homem pratico e escrupuloso, não se lhe tirava da idéa o commissario, uma busca, os agentes de policia, uma circular, algumas linhas nos jornaes, e por fim dois ou tres artigos do codigo.{159}{160}{161}
Image pg159Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)
Image pg159
Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)
A senhora Deschamps pensava na pena da pobre mamã de Adalberto, e agourava um desgosto igual para ella e suas filhas.
Sophia, muito consolada porque o demonio não tinha vindo á sua adêga, fazia tenção de contar o caso durante toda a estação e fazer ler as palavras mysteriosas a todos os seus conhecimentos; pensava mais que as cebolas, que queria deitar no assado, não poderiam coser-se bem, porque o acontecimento, a tinha demorado.
Julião, que sabia calcular, e que, n'outra posição social, teria sido um bom mathematico, perguntava a si mesmo como demonio tinha feito o rapazinho para sahir pela fresta. Entrar percebia-se, mas sahir! acabou por achar a necessidade d'alguem o ter ajudado. Ao mesmo tempo, como era cuidadoso, amaldiçoava o mofino rato que tinha roido a porta da adêga, e, sem nunca deixar de pensar em Adalberto, cuidava tambem em tapar aquelle buraco e vêr se quanto antes matava os ratos.{162}
—Ora, até que emfim chegaram!
—É como diz, e trazemos o bom tempo.
—Já tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de andar sobre o molhado.
—Faço idéa.
—Que quer, senhora Juliana, quando se está no mundo é preciso aceitar o tempo como Deus o manda.
—Vendeu bastante ao menos?
—Ora,vossemecêbem sabe, maçãs sempre maçãs. Em quanto as ha vive-se. As violetas não renderam quasi nada; e agora ainda as coisas vão peior.{163}
—Então porque?
—Porque a batata temporã já tarda.
—Ai! que preguiçosa.
—É assim mesmo. Ah! mas tudo isto são pequenas miserias; ha outras no mundo muito maiores, senhora Juliana.
—Oh! se ha! senhora Tourtebonne!
Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam de pé ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande prazer; era uma distracção encontrarem-se duas vezes por semana, sempre no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, não se separaram. Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma coisa.
Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata temporã, não se prestando ás confidencias, foi Sophia quem começou, voltando á sua primeira idéa, á falta d'outra melhor.
—É verdade, eis-nos outra vez de volta... não me dá cuidado; eu gosto do campo. Aqui ha só uma coisa que aborrece, é a solidão.
—Não diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha tão bonita!
—Mesmo por isso; se nós estivessemos a dez passos era melhor.
—Faz-me rir, senhora Juliana.Vossemecênão era medrosa.
—Não era, mas sou agora.
—Queira desculpar, mas a razão vem com{164}a idade. Ora diga, como quer que entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.
—Apesar d'isso, entraram.
—Pelo buraco da chave?
—Não, pela fresta da adêga.
—O que!vossemecêestá a mangar; não cabe uma perna minha.
É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a duvidar accrescentou:
—Não me acredita? Pois bem, venha vêr.
Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana, acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.
—Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas, aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o architecto?
Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno, Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto, as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o{165}{166}{167}que tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as palavras escritas com carvão.
Image pg165Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)
Image pg165
Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)
Quando chegou a isto: «Chamo-me Adalberto...»
Parou de repente, e exclamou:
—É elle minha querida, é elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! É possivel!...
A emoção foi tão repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e por pouco não cahiu sobre as garrafas vazias.
—Tome cuidado! disse Sophia.
A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em sentido contrario, e poz os seus enormes pés no pó de carvão, que, não tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou até ao avental branco da vendedeira. Pois ella tão aceada, tão cuidadosa, não fez caso d'isso, e repetiu tantas vezes: «É elle! é elle!» que Sophia julgou que ella tinha endoidecido. Bem depressa viu que não era assim; a sua antiga conhecida tirou o lenço da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe{168}tinha escorregado dos dedos; era a sua expressão favorita.
Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido testemunha, e a declaração de ambos feita n'aquella mesma tarde.
Se o carrinho cheio de fructa não tivesse ficado lá em cima, e se um bom bocado de vitella sobre o lume não reclamasse os cuidados da cosinheira, não se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na adêga.
As supposições da tia Tourtebonne não tinham fim; a imaginação ajudando o seu bom coração, rodeava a criança de chimeras; tinha chegado a querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: omeurapazinho.
Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne com o mais vivo interesse. Felicissima por vêr o negocio em boas mãos, disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus discursos, ainda que só acreditasse em metade, indicios de que poderia tirar partido.
A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperança, porque, depois da descoberta, não tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criança a sua mãe. Ainda mais, acabou por{169}sonhar acordada, o que era a maneira de arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao desfecho.
É incrivel! apezar dos seus cincoenta e cinco annos e o seu glorioso titulo de avó, a boa Sidonia deixou-se assaltar por uma grande quantidade de idéas, de projectos, decastellos no ar, todos dedicados aopequeno da adêga, como dizia Sophia. De todas estas coisas pouco dizia a seu marido, que teria feito caçoada d'ella; ora o coração tem as suas criancices, e não gosta que o juizo d'outrem lh'as faça sentir. O senhor Deschamps, tão bom marido, não percebia absolutamente nada de sonhos, de supposições e de commentarios; quando se achava n'outro sitio que não fosse á borda do seu lago em dia de chuva, era positivo até ao ultimo ponto; e por isso apreciava Julião, que tudo fazia com methodo.
De tempos a tempos queixava-se, sem se zangar, de que se fallava um pouco de mais em Adalberto, e, se sua mulher entristecia, fazia-lhe notar que uma só das suas indagações, feita a tempo e a horas, adiantaria mais os negocios que todos os discursos e todos os suspiros que se podem imaginar: a isto a boa Sidonia, não achando que responder puxava a agulha e fallava de outra coisa.{170}
Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito, suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de consolação physica, mas o seu espirito e o seu coração revoltavam-se.
Não perdia, comtudo, nem a esperança nem a coragem, e não esquecia que muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que torna um homem menos forte do que a desgraça é a falta de animo.
—Eu, pensava elle, sou um homem como o papá, excepto a idade e a altura; é preciso ter coragem.{171}
O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordações de familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. Não achava prazer algum na companhia do bom Natchès, que só tinha a intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos desgraçado do que parecia, porque não sentia o horror da sua situação.
Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, tão fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria despertado a sollicitude d'uma mãe; mas Tilly não chegava a saber o que era uma mãe. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda pretextos para ralhos.
Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os progressos do que ella chamava o seudefluxo. Esse defluxo era uma indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:
—Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.
As duas crianças raras vezes conversavam.{172}Desde a sua fuga, Adalberto era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto lhe custava chamar-lheavósinha. Esta querida criança ficou espantada, quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.
—Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?
—Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza, quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se ama a Deus de todo o coração.
—Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me, acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para o Céo?
—Essas coisas não se sabem.{173}
—Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.
—Pode ser, não entendo d'isso.
D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes, e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro nome:
—Adalberto! Adalberto!
Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão, fazendo-lhe mil pequenos serviços.
Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.
Na ingenua criança, não havia difficuldade{174}em aprender; mas na morena filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:
—Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de mim, o teu Deus!
Adalberto respondia:
—A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e vê todas as caras.
O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice, que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria moral humilhava-a diante do prisioneiro.
Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e, comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de esconder.
Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.
—Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno professor.{175}
—Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrevero oe,a a, o que é preciso para escreverpae... vós... eu...etc. etc., cá tenho as minhas razões.
O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.
Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem todos os dias lhe fazia estudar o que chamava osseus exercicios, quer dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças, dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella, fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka, saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para{176}ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso, humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.
Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa; que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.
Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este{177}favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos burros.
Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza, comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.
Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com isso.
O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que mereciam grandes gargalhadas da multidão.{178}O pequeno Valneige acabava ás vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda em cima, pagavam um vintem.
A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas, um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora, que não era senão grande barulho a compasso.
O final de todas as representações, o mais lindo do programma, era a dança de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos movimentos de braços attrahiam a multidão e a juntavam de roda do theatro, Adalberto não deixava de cahir em um espanto visinho da admiração. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lançavam faiscas; havia{179}o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares: Gella, aAndaluza. Tocava muito bem castanholas, e dançava lindamente a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe dedicava, teria querido vêl-a sempre occupada com trabalhos de costura ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho grosseiro, que não a respeitava.
O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que chamavamum triumpho, não parecia mais feliz por isso. Pelo contrario uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a Adalberto:
—Vês tu, meu pequeno, eu canso-me porque é o meu officio; mas se julgas que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que os proprios burros.
Exprimindo por esta forma nobres pensamentos{180}na sua linguagem trivial, a filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella, juntava uma verdadeira estima.{181}
Image pg181Dançava lindamente. (Pag. 179).
Image pg181
Dançava lindamente. (Pag. 179).
{182}{183}