CAPITULO XIVAdalberto teria sido o decimo quarto.Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige; só elles não estavam tristes, porque não tinham conhecido Adalberto. Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados, contentes de vêr suas mães, e de respirar uma suave frescura.As mil occupações de uma grande exploração punham em movimento todos da quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda{184}o trabalho e a esperança da proxima colheita que preparavam de longe.O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que differença entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e triste, que presentemente havia.Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua mãe. No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem á sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordação.A senhora de Valneige sabia bem que as crianças não supportam a tristeza; que na sua idade o espirito é muito inconstante e o coração muito pouco formado, para não necessitarem uma grande distracção.Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que podem haver no campo, como passeios a pé e de carruagem, jantares sobre a relva etc. Tinham installado umtirono parque para se exercitarem, e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio juntava-se o encanto d'um grande mysterio.Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em questão; não se sabia{185}o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a dizer:—Mas o que será?...O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as ferias sem o menor cuidado. Não que elle tivesse menos boas intenções do que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desapparição de seu filho, a sua debil saude paralysava-lhe os esforços, e bem contra a sua vontade a inquietação matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas, feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar só, e nunca pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua dôr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha Rosinha, que não se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito querido pequeno. Mesmo quando estava só, a boa mulher murmurava, continuando a fazer meia, que parecia não acabar nunca:—E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria succedido! Uma criança não conhece o perigo; é a obediencia que o livra de todos os males.Em quanto os corações dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos, as ferias ião andando o seu caminho. Nada as fazia parar;{186}ainda mais dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, não deixavam de pensar muito; não porque temessem o estudo como rapazes preguiçosos, que querem passar o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a sociedade exige d'aquelles que a hão de governar um dia. Sentiam tambem quanto é vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relações, que estabelecem entre camaradas a semelhança das idades e a vida em commum. Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras ás horas do recreio, cujos encantos são bem conhecidos, apezar das nodoas negras que em geral se seguem.Só dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao pé de sua extremosa mãe, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem gravada n'essa memoria do coração, que acompanha nos estudos as crianças affectuosas.—Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoço, chegou o momento de conferir ao vencedor o premio mysterioso.—Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor fraternal.—Não quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom humor como rapazes de juizo, conheço que o coração deve{187}estar muito opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.—Tem muita razão, minha querida mamã. E Frederico e Eugenio abraçavam sua mãe, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:—É ámanhã ao jantar, á sobremeza que eu hei de dar os premios.—Como, os premios!—Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O papá fez a conta dos tiros; um de vocês tem vantagem, mas o outro segue-o de tão perto, que, na verdade, não posso deixal-os partir sem lhes dar um testemunho honroso. Terão, pois, um primeiro premio, e um segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de Champagne!...Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da visinhança: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que é uma grande coisa! Estes sujeitinhos só comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos{188}vem dos antigos: «para ámanhã os negocios sérios.»Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a palavragrandequeria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o coração nas mãos.No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano. Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha. Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque, sendo Frederico{189}{190}{191}o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tressenhoresdentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder impedir que fossem todos para o fundo.Image pg189Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)Estes divertimentos, interrompidos só por um bomluncheon, duraram até ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção. Eduardo exclamou de repente:—Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com jantares de treze:—Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo rindo.O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.—Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?—É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que, entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte{192}do Justo por excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda, que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz effectivamente mais barulho do que mal.Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que accrescentou com meiguice.—Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem sequer notaste o numero treze.—Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.—E porque, dize?A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre,{193}perturbou-se; arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido, como, que lhe escapou esta resposta:—Porque elle teria sido o decimo quarto!Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se, abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis: Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja relojoeiros!{194}Quando Frederico acabou de vêr o relogio e de o agradecer á sua mamã, tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava já achando os preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio umporte-monaiebem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio animadissimo dispôz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, tão vivas são as emoções dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia, e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.Todos partilharam sinceramente a alegria das crianças, e até seu pae sahiu da seriedade em que tinha cahido. De repente, e quando uma conversação animada demorava á meza tão intima sociedade, eis que a velha Rosinha se precipita na sala do jantar, levada por um pensamento que lhe faz esquecer todas as ceremonias.—Desculpe-me, senhor, disse ella vivamente, o carteiro veio ha pouco e deixou para o senhor uma carta que pôz sobre o buffete n'um cantinho, entre o candieiro e a rolha do frasco da conserva. Parece que bebeu de mais, o que é bem ridiculo para um carteiro! Tem uma lettra tão exquisita, a carta. Não será isto d'alguem que nos dê noticias do pequenino?O senhor de Valneige, muito impressionado pela perturbação da boa velha, tirou-lhe das mãos a carta mal dobrada, escripta em papel ordinario com uma especie de tinta vermelha{195}apenas legivel, sem ordem, nem orthographia.A senhora de Valneige ficou immovel, os convidados estavam anciosos e Rosinha esperou de bocca aberta.O senhor de Valneige leu em alta voz:«O seu pequeno está bem sou eu que sou a filha do homem que o tem se me dão a sua palavra de honra que não fazem mal a meu pae eu o entregarei.—resposta para o correio a M. XXX em Nantua.»{196}CAPITULO XVAdalberto ficou sabendo porque Gella escrevia na areia.Um dia de manhã tinham mandado Gella fazer compras a Nantua, porque era perto d'esta cidade que estavam então acampados.O pequeno Mustaphá acompanhava a rapariga para ajudar a trazer as provisões. O unico prazer que tinha na vida era de longe em longe um passeio com Gella. N'esse dia, á volta, e em quanto caminhava junto d'ella, disse-lhe a sua protectora:—Olha, tomemos este atalho, d'onde se não vê a carruagem, e vamos-nos sentar um instante; tenho uma coisa para te dizer.—O que é, minha boa Gella?{197}—Oh! grandes negocios; mas primeiro vais prometter-me não dizer palavra da nossa conversa.—Ah! Gella, não tenha medo. Para que ha de desconfiar de mim? Posso eu fazer-lhe mal? E não vê que ha seis mezes, que não tento fugir, com medo que seu pae se enfureça comsigo?—És muito bom rapaz, bem sei. Ouve: tu não podes viver assim, é preciso acabar com isto. Tenho muita pena quando penso que tens papá, mamã, uma casa, e que podias ser feliz.—Eu tambem tenho pena, mas o que hei de fazer, se gosto da minha Gella? Ir-me-hia embora, acredite, se não fosse o receio de lhe fazer levar pancadas, e sabe Deus o que mais!—Pois bem, tudo se ha de arranjar; vou dizer-te o meu segredo.—Um segredo?—Sim, um grande segredo. Eu escrevi a teu pae.—A meu pae? para que?—Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?—Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e faltar; que um dia em Valneige o papá tinha ralhado com Frederico, por me ter dado a sua palavra de honra de que não faria trapaça ao jogo da bola e{198}tel-a feito. O papá zangou-se muito e disse a meu irmão: Bem se vê que não sabes o que é palavra de honra; quando um homem honrado a dá, está compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer faltar á tua palavra, não te chamarei mais meu filho. D'aqui até lá, responde sim ou não, é quanto basta.—Conheço essa historia, já m'a contaste e disse commigo n'esse dia: Visto que se educam tão bem as crianças em Valneige, é porque é boa gente; quando dizem sim é sim, quando dizem não é não.—Oh! de certo, lá em casa é assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que escreveu ao papá?Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criança e com um tom grave respondeu-lhe:—Pedi-lhe a sua palavra de honra de que não faria mal a meu pae; elle deu-m'a e então eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.—Como! fez isso?—É verdade. Fizeste-me doer o coração com tudo quanto me tens dito de tua mamã, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irmã, toda de branco, fez a sua primeira communhão. Queres saber? ás vezes chorava de noite e dizia commigo: pois tu, desgraçada,{199}vais deixar este innocente n'um sitio onde elle vê só o mal, podendo salval-o com uma palavra?—Que boa que é, minha querida Gella! tornarei então a vêr meus paes?—Sim, has de vêl-os, meu pequeno.—Mas a Gella o que ha de fazer para não a matarem? Dizia...—Eu não corro risco, do momento em que te levarem, quando me não estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de representação. Não importa, se fiz o que fiz é porque tenho confiança em ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre é pae. O meu é aspero, é verdade, não me faz feliz; mas apezar disso se gosta d'alguem n'este mundo é de mim.—Deveras? disse Adalberto espantado, porque não podia comprehender, que aquelle homem amasse alguem.—Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle estava como doido, e um dia, talvez não acredites, sentado ao pé da minha cama, vi-o chorar.—Está fallando sério?!—É a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. São máos, têem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que será julgado, condemnado, mandal-o-hão para os trabalhos{200}forçados, sósinho, desgraçado, e, se fôr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas vezes pancadas, é verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu era pequena, que me livrou dos máos, e emfim é meu pae! Mas agora, que eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, não receio nada.—Oh! não; não receie! Meu pae não a atraiçôa! Oh! como estou contente! Nem sei o que digo, parece que até me falta o ar.—Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes serviços; sem ti ignorava que houvesse um Céo, nunca m'o tinham dito, e do teu Deus nunca me tinham fallado.—Agora, que Gella o conhece, póde bem servil-o.—Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim, é talvez servil-o separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecerás quando fores feliz?—Nunca, disse a criança, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar de Gella á mamã que tambem lhe ha de querer muito.—Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fôres embora, meu Deus! meu Deus!...Dizendo isto, Gella olhava para o Céo, como se começasse a comprehender a vontade de Deus, e a criança viu duas grandes lagrimas, que lhe desciam pelas faces. Era a primeira{201}vez que chorava na sua presença. Diante da commoção d'esta natureza tão rude e forte, sentiu-se profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno pensava no seu papá, na sua mamã, nos seus irmãos e irmãs e tão commovido estava que não podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar; mas não sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!—Oh! que felicidade! disse o meu nome!—Querido pequeno, bem cedo será tua mãe quem t'o dirá.—Bem cedo?—Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que façam o resto. Têem as necessarias indicações para te encontrarem.—Mas como poude escrever-lhes? Não vejo na carruagem tinta nem penas.—Ora! é bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de páu para fazer de penna; mas para ter tinta é que eu não sabia como havia de ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei{202}que o melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu sangue.—Pobre Gella! fez-lhe muito mal?—Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, já se sabe, mas o teu pae poude ler porque me respondeu no dia seguinte.—Oh! mostre-me a sua carta! só a letra.—Não percebes que já a queimei?—Ah! é verdade. Se a achassem, que desgraça! E como era o sobrescripto?—Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia ás vezes buscar cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim fez-se.Agora é esperar.—Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!—Espero que sim. Teus paes só te davam bons conselhos, é preciso seguil-os. Has de dizer á tua mamã, que sempre te aconselhei bem. Oh! não lhe deixes suppôr que eu sou má rapariga.—Oh! socegue!Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo. Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do saltimbanco, ouviu uma grande questão entre o Hercules e o seu filho, que, exagerando{203}{204}{205}os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro; a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.Image pg203Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)Entrando para a carruagem Adalberto sentiu-se desesperado. A sua sorte pareceu-lhe então mais horrorosa, comparando-a com as dôces imagens que a esperança lhe tinha feito conceber. Com receio de se achar envolvido n'esta ignobil scena foi sentar-se sem dizer palavra n'um velho banco, perto da porta, e Gella, que começava a ser boa para todos, esforçou-se por apaziguar seu pae e por afastar a velha Praxedes, que se regalava em o irritar com os seus ditos.Quando a zanga não era excitada pela propria filha, o Hercules deixava-lhe ás vezes bastante poder para pacificar a todos. É que a rapariga era como um raio de sol n'estas trevas moraes, em que todos se agitavam. Seu pae, é verdade, era capaz de tudo em um momento de colera, mas gostava d'ella a seu modo, como ella dizia, e a sua bella Andaluza, como elle lhe chamava nos seus raros momentos de bom humor, era o anjo bom d'aquelle coração semi-barbaro.{206}CAPITULO XVIAdalberto estava ali.Que lindo tempo! nem uma nuvem no Céo! um perfeito dia de primavera!Josephina, bonita alsacianna de treze para quatorze annos, tinha acabado de se enfeitar e de se pentear com muita pommada. Estava contentissima, fazendo tenir na algibeira a sua pequena fortuna de tres tostões, e esperando á porta que os seus amigos passassem e a levassem como se tinha ajustado. Estes amigos eram a tia Tourtebonne e o senhor Baptista; iam á feira de M...O tempo corria, e a rapariguinha não deixava de estar inquieta, vendo demorar-se um{207}prazer ha tanto tempo esperado. É que a tia Tourtebonne, a quem seus paes a confiavam era a exactidão em pessoa, e, por força, alguma circumstancia independente da sua vontade a demorava. Effectivamente não se enganou; eis o que tinha succedido.Deve primeiro saber-se, que a feira de M... occupava muito o pensamento da tia Tourtebonne. Havia mais de quarenta annos que se não lembrava de faltar a ella uma só vez. Fazia negocios todo o anno, mas esta feira, que durava tres dias, achava-a invariavelmente em optima disposição de espirito. Fazia tenção de se divertir, e por isso se divertia muito. Era um d'esses genios felizes que qualquer coisa distrahe, que ri porque os outros riem, que está contente porque os outros estão contentes.Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem, porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha um excellente meio de transporte; a carroça do senhor Baptista. Ia-se bem saccudido, é verdade, e a velha Manon não deixava de tropeçar, mas afinal chegava-se. O bom do homem, que não tinha nada de divertido, ia simplesmente á feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques, esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar relações. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que tinha insupportaveis dôres de dentes, que o não deixavam{208}dormir, e porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de M..., os arrancavasem dôr. Estas palavras têem um poder magico sobre o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda não tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco da sua simplicidade nativa no trato dos cidadãos. Por isso não acreditava senão metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.Em consequencia d'esta falta de fé, demorava a partida de minuto para minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos nós sabemos não ser caso de pressa.Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual da velha Manon. N'um instante abraça a sua mamã e eil-a na carroça.—Até que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e como nos vamos divertir!Josephina no meio d'estas alegres expansões, olhou para a cara do senhor Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dôr de dentes, justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforço supremo e ameaçava uma grande inchação. O desgraçado, para{209}{210}{211}conjurar tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme parche d'algodão em rama, seguro por um lenço azul atado por baixo da barba. Tinha além d'isto amarrado a cabeça com outro lenço vermelho, e por cima um barrete d'algodão branco, sobre o qual se enrolava como um turbante um terceiro e grande lenço de seda côr de vinho; e apezar d'esta armação ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista tinha agarrado por costume, no seu forte boné de lontra, e tinha-o pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!Image pg209Os arrancavasem dôr. (Pag. 208.)Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para não perder o seu sério, ainda que o seu bom coração se resentisse dos soffrimentos do seu companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas saccudidelas, que lhe augmentavam a dôr, a boa da mulher tomou sob a sua responsabilidade o animal e o seu tropeçar, e, de redeas na mão, começou a governar. «Hi! hi! anda, anda Manon!» Esta maneira de a animar acompanhada do continuo movimento de braço eram necessarias, para que Manon não parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e não gostava de mudar de logar.Quanto ao seu dono estava absorvido pelas{212}dôres de dentes, o que é facil de perceber, porque não ha nada que absorva tanto.Houve antigamente philosophos que negaram a dôr. Oh! de certo que não tinham tido dôres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso para se assemelhar a estes senhores, e não seria elle com certeza quem negasse a dôr. Pelo contrario não se passavam cinco minutos sem dizer ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presença do inimigo. Como era naturalmente laconico, não dizia mais; mas a sua cara dizia o resto. Não sahia de todo aquelle preparo de algodão e de lenço e companhia, senão uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido, um meio nariz sem expressão e um canto da bocca tristemente descahido, signal d'uma grande desconsolação. Nem pensava no feliz cachimbo, que, com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella tranquilla existencia; emfim não achava n'este mundo senão aquelles repellões!.... Pobre homem!Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraçãosinho bom e lamentava o senhor Baptista. Quanto á sua visinha teria de boa vontade acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro; disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dôres.{213}Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do que costumava.Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo prado guardando as vaccas de sua mãe; tinha um viver doce mas um pouco monotono. Dava portanto grande apreço aos divertimentos, e a feira estava tão bonita, tão bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha é a base de todas as festas populares, e não faltava n'esta. Os cavallos, os bois, as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava, mugia, balava e grunhia sem se querer calar.Os cães ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que todos com os seus continuados e magnificosco-co-ro-cós... Dir-se-hia que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multidão, que, para não perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlatão, chamava toda a gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os olhos vendados. Á direita os cães sabios faziam exercicio; á esquerda os macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande tentação para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho nunca faz mal; sabia-o elle bem, e{214}por isso bebia um muitas vezes; mas hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.Entre todos estes divertimentos, todas estas distracções, acima de todo este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria os admiraveis e estrondososbumbuns!mil vezes repetidos pelo grande tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos começar!Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vêr, sem perder nada, os jogos, as danças e as cambalhotas. Josephina esperava divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia, só via as suas dôres de dentes, e a todos succederia outro tanto.A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita não pensaria mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?O pobre homem não se atrevia a desapprovar á sua visinha que tinha toda a razão, por{215}isso não respondia senão:hum!n'um certo tom, que equivalia a dizer:amen!Comtudo fazia o que podia para não vêr por em quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que não tinha dôres de dentes, via muito bem.Se lhe diziam: «Olhe, ali á tem!» experimentava no mesmo instante um grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de algum illustre ventriloquo.Josephina era cruel; sabia que não se estabeleceriam na feira sem fazer a operação; não pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre esta multidão, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um lenço pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de rigor para ser admittido ás recepções.A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se livida em vez de pallida.—Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem. De que tem medo? Olhe que não é coisa do outro mundo.Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o paciente, que com a coragem que póde ter um cobarde envergonhado, dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente as dôres{216}de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se adiantado muito, ficou por honra de firma.Ainda que o charlatão não cessasse de declarar com emphase que arrancava os dentes sem dôr, não se sahia das suas mãos sem a cara transtornada e as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer, mas o annuncio não mentia, era pois a clientela que se enganava. Um tinha mexido a cabeça, outro o pé; este estava mal disposto, aquelle tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operação; alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os dentes apertados. Estas justificações, que o ultimo cliente nunca acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de esperança.O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio. O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de plumas e mangas arregaçadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e, com ar altivo, preparou-se para vencer pela força o que lhe oppozesse resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem n'este caso.Não se póde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque não póde deixar de ser, mas parece que a cabeça vai atraz d'elle.{217}O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com effeito, não se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas só umrrran! rataplan! pan! pan!depois uma musica alegre, e mais longe um realejo, que tocava desde a aurora oGalope de Gustavo. O senhor Baptista pagou e desceu depressa, depressa; tão azafamado estava o operador.O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem dôr é que não. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha provavelmente mexido sem querer. Não disse palavra, não proferiu uma queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo todo o caminho; não havia outra coisa a fazer.Afinal a emoção, a sacudidela, e oGalope de Gustavoainda em cima acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era, fez com que elle se sentasse.Josephina, graças aos seus quatorze annos, ficou espantada. Julgava que uma vez este negocio terminado o bom do visinho passaria a divertir-se muito, e que todos os abafos seriam desnecessarios. Quanto se enganava! O senhor Baptista juntou aos outros o lenço da algibeira, com que tapou a bocca, e declarou que tinha mais uma dôr de cabeça furiosa.Que desengano! Josephina assustou-se com{218}a idéa de tornar a subir para a carreta, mas felizmente não foi preciso. O honrado mercador de queijo installou-se n'uma pequena casa de pasto improvisada, estabelecida por tres dias debaixo de uma barraca parda, e em vez de fazer ali algum gasto entregou-se pelo mesmo preço ao aborrecimento resultante do seu incommodo.Ainda que d'uma apparencia muito feia o bom do homem não era nada egoista; exigiu pois dos seus companheiros de viagem que não fizessem mesmo caso d'elle. Josephina achou esta idéa magnifica; mas a senhora Tourtebonne prometteu vir de vez em quando perguntar como elle estava, e partir no meio do dia se o seu incommodo se tornasse insupportavel.Josephina resignou-se e andou com a sua digna conductora uns duzentos passos n'uma hora; tantas coisas havia para admirar!Apezar de se extasiar vendo isto e aquillo, a boa rapariguinha exclamou:—Oh! o que eu desejo vêr, mais do que tudo, são os saltimbancos.—E eu tambem, minha pequena.—Bem sei eu porque. Está pensando no seu rapazinho?—Justamente. Desde esta manhã que só penso n'elle, e toda a noite sonhei com aquelle desgraçadinho querido filho!—E acha que poderia reconhecel-o?—Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um principe, e que se{219}chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle tem mãe! É horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal desgraça endoidecia.E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que não tinha.A conversação sobre Adalberto não podia interromper-se; ambas repetiam:—Está talvez ali! Quem sabe?De repente, no meio da multidão avistam os caros amigos Julião e sua mulher, que seus amos tinham mandado á festa, para que se divertissem um bocado.Este encontro foi theatral; prometteram não se separarem; e o bondoso Baptista, feliz por vêr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasião para se retirar. Julião tinha tratado de segurar meio de conducção para a volta; combinaram que partiriam todos quatro juntos, e começaram a gozar tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenções de esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os dentes sem dôr.Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostões. Comprou bolos que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu um vintem{220}a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas. Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma grande preoccupação.Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia Tourtebonne e Sophia não cessavam tambem de pensar nopequeno da adêga, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, não duvidava da sua presença, chegando a parecer-lhe impossivel que elle não estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma idéa.Sophia dava tudo para poder levar á sua ama a criança, cuja sorte ella não cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que sentiria a pobre mãe dopequeno da adêga, quando lhe levassem o seu querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma aventura, uma emoção; teria sido uma felicidade para todos e um divertimento para ella; o senhor Julião, amigo zeloso da justiça e pontual antes de tudo, só queria uma coisa—denunciar aos policias a infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladrões pagarem na cadeia o crime commettido; era tambem esta a opinião de seu amo.Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela feira; um lindo dia{221}favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia entendedores com idéas negras que repetiam: «Vamos ter agua!» Josephina achava que se não devia dizer uma coisa a que ninguem prestava attenção. Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho que conduzia á carruagem. Umas nuvens negras ameaçavam chuva, havendo já quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.A cincoenta passos da carruagem Julião exclamou:—Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vêr! Dez minutos mais ou dez minutos menos não faz nada ao caso.Josephina approvou Julião.—Como ella é bonita! accrescentou o marido de Sophia.—E como ella dança bem, com as suas flôres de romã na cabeça, respondeu a tia Tourtebonne, que se não fartava de a admirar, dizendo a todo o instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos lhe gritavam: «bis! bis!» A pobre rapariga saudava, dançava e tornava a saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criança vestida como um dançarino de corda rompeu{222}por entre a turba com uma bandeja na mão; parecia que o signal para partir estava dado, toda aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta á direita ou á esquerda, para não despender um vintem e conservar a sua dignidade aos olhos dos outros.O movimento instantaneo de toda a multidão tinha é verdade differentes causas: a dansa acabára, Gella tinha desapparecido, a noite aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em debandada.Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas chuvas, os outros cobriam a cabeça com o lenço.Era uma scena de barulho, de confusão, de gritos, de mau humor, de que se não póde fazer idéa.A encantadora e loira criança continuava o seu peditorio.Chegou perto de Josephina, que não tirava os olhos d'ella. A pequena alsacianna, levada pela sua idéa, puxou-lhe pelo braço e disse-lhe com um ar absoluto:—Não é verdade que te roubaram, e que te chamas Adalberto?O pequeno não pareceu nada admirado, olhou com toda a confiança para Josephina e disse-lhe que sim.—Conheço-te! conheço-te! exclamou a tia Tourtebonne abrindo-lhe os braços.O pobre pequeno lançou-se n'elles sem hesitar;{223}parecia adevinhar toda a bondade d'aquelle coração.Ao mesmo tempo a chuva cahia em torrentes, o tumulto tinha chegado ao seu auge e mal se via na escuridão, que augmentava, um pequeno pellotiqueiro, que tres ou quatro pessoas arrastavam precipitadamente para a estrada.A criança subia já para a carruagem, quando Julião disse ás mulheres:—Partam sem mim, quero fallar com os policias, o negocio não ha de ficar assim.—Deixa os policias e vem comnosco, Julião; uma vez que pilhámos o pequeno é tudo quanto queremos.—Nada, nada. A cadeia não foi feita para os cães.Julião desappareceu.Ao mesmo tempo, uma mulher com vestuario de camponeza, bonita, pallida e tremula precipitou-se para a carruagem gritando com desespero:—És tu?Sophia, assustada, cobriu com o seu grande chale a cabeça do pequeno, e a sua companheira disse ao conductor:—Partamos! partamos!O cavallo partiu a trote, e a desgraçada mulher, encostando-se a uma arvore, desmaiou e cahiu por terra.{224}
Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige; só elles não estavam tristes, porque não tinham conhecido Adalberto. Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados, contentes de vêr suas mães, e de respirar uma suave frescura.
As mil occupações de uma grande exploração punham em movimento todos da quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda{184}o trabalho e a esperança da proxima colheita que preparavam de longe.
O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que differença entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e triste, que presentemente havia.
Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua mãe. No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem á sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordação.
A senhora de Valneige sabia bem que as crianças não supportam a tristeza; que na sua idade o espirito é muito inconstante e o coração muito pouco formado, para não necessitarem uma grande distracção.
Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que podem haver no campo, como passeios a pé e de carruagem, jantares sobre a relva etc. Tinham installado umtirono parque para se exercitarem, e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio juntava-se o encanto d'um grande mysterio.
Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em questão; não se sabia{185}o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a dizer:
—Mas o que será?...
O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as ferias sem o menor cuidado. Não que elle tivesse menos boas intenções do que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desapparição de seu filho, a sua debil saude paralysava-lhe os esforços, e bem contra a sua vontade a inquietação matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas, feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar só, e nunca pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua dôr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha Rosinha, que não se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito querido pequeno. Mesmo quando estava só, a boa mulher murmurava, continuando a fazer meia, que parecia não acabar nunca:
—E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria succedido! Uma criança não conhece o perigo; é a obediencia que o livra de todos os males.
Em quanto os corações dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos, as ferias ião andando o seu caminho. Nada as fazia parar;{186}ainda mais dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, não deixavam de pensar muito; não porque temessem o estudo como rapazes preguiçosos, que querem passar o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a sociedade exige d'aquelles que a hão de governar um dia. Sentiam tambem quanto é vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relações, que estabelecem entre camaradas a semelhança das idades e a vida em commum. Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras ás horas do recreio, cujos encantos são bem conhecidos, apezar das nodoas negras que em geral se seguem.
Só dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao pé de sua extremosa mãe, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem gravada n'essa memoria do coração, que acompanha nos estudos as crianças affectuosas.
—Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoço, chegou o momento de conferir ao vencedor o premio mysterioso.
—Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor fraternal.
—Não quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom humor como rapazes de juizo, conheço que o coração deve{187}estar muito opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.
—Tem muita razão, minha querida mamã. E Frederico e Eugenio abraçavam sua mãe, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:
—É ámanhã ao jantar, á sobremeza que eu hei de dar os premios.
—Como, os premios!
—Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O papá fez a conta dos tiros; um de vocês tem vantagem, mas o outro segue-o de tão perto, que, na verdade, não posso deixal-os partir sem lhes dar um testemunho honroso. Terão, pois, um primeiro premio, e um segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de Champagne!...
Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.
D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da visinhança: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que é uma grande coisa! Estes sujeitinhos só comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos{188}vem dos antigos: «para ámanhã os negocios sérios.»
Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a palavragrandequeria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o coração nas mãos.
No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano. Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha. Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque, sendo Frederico{189}{190}{191}o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tressenhoresdentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder impedir que fossem todos para o fundo.
Image pg189Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)
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Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)
Estes divertimentos, interrompidos só por um bomluncheon, duraram até ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.
Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção. Eduardo exclamou de repente:
—Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com jantares de treze:
—Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo rindo.
O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.
—Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?
—É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que, entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte{192}do Justo por excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda, que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz effectivamente mais barulho do que mal.
Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que accrescentou com meiguice.
—Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem sequer notaste o numero treze.
—Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.
—E porque, dize?
A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre,{193}perturbou-se; arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido, como, que lhe escapou esta resposta:
—Porque elle teria sido o decimo quarto!
Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.
Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se, abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis: Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja relojoeiros!{194}
Quando Frederico acabou de vêr o relogio e de o agradecer á sua mamã, tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava já achando os preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio umporte-monaiebem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio animadissimo dispôz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, tão vivas são as emoções dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia, e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.
Todos partilharam sinceramente a alegria das crianças, e até seu pae sahiu da seriedade em que tinha cahido. De repente, e quando uma conversação animada demorava á meza tão intima sociedade, eis que a velha Rosinha se precipita na sala do jantar, levada por um pensamento que lhe faz esquecer todas as ceremonias.
—Desculpe-me, senhor, disse ella vivamente, o carteiro veio ha pouco e deixou para o senhor uma carta que pôz sobre o buffete n'um cantinho, entre o candieiro e a rolha do frasco da conserva. Parece que bebeu de mais, o que é bem ridiculo para um carteiro! Tem uma lettra tão exquisita, a carta. Não será isto d'alguem que nos dê noticias do pequenino?
O senhor de Valneige, muito impressionado pela perturbação da boa velha, tirou-lhe das mãos a carta mal dobrada, escripta em papel ordinario com uma especie de tinta vermelha{195}apenas legivel, sem ordem, nem orthographia.
A senhora de Valneige ficou immovel, os convidados estavam anciosos e Rosinha esperou de bocca aberta.
O senhor de Valneige leu em alta voz:
«O seu pequeno está bem sou eu que sou a filha do homem que o tem se me dão a sua palavra de honra que não fazem mal a meu pae eu o entregarei.—resposta para o correio a M. XXX em Nantua.»{196}
Um dia de manhã tinham mandado Gella fazer compras a Nantua, porque era perto d'esta cidade que estavam então acampados.
O pequeno Mustaphá acompanhava a rapariga para ajudar a trazer as provisões. O unico prazer que tinha na vida era de longe em longe um passeio com Gella. N'esse dia, á volta, e em quanto caminhava junto d'ella, disse-lhe a sua protectora:
—Olha, tomemos este atalho, d'onde se não vê a carruagem, e vamos-nos sentar um instante; tenho uma coisa para te dizer.
—O que é, minha boa Gella?{197}
—Oh! grandes negocios; mas primeiro vais prometter-me não dizer palavra da nossa conversa.
—Ah! Gella, não tenha medo. Para que ha de desconfiar de mim? Posso eu fazer-lhe mal? E não vê que ha seis mezes, que não tento fugir, com medo que seu pae se enfureça comsigo?
—És muito bom rapaz, bem sei. Ouve: tu não podes viver assim, é preciso acabar com isto. Tenho muita pena quando penso que tens papá, mamã, uma casa, e que podias ser feliz.
—Eu tambem tenho pena, mas o que hei de fazer, se gosto da minha Gella? Ir-me-hia embora, acredite, se não fosse o receio de lhe fazer levar pancadas, e sabe Deus o que mais!
—Pois bem, tudo se ha de arranjar; vou dizer-te o meu segredo.
—Um segredo?
—Sim, um grande segredo. Eu escrevi a teu pae.
—A meu pae? para que?
—Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?
—Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e faltar; que um dia em Valneige o papá tinha ralhado com Frederico, por me ter dado a sua palavra de honra de que não faria trapaça ao jogo da bola e{198}tel-a feito. O papá zangou-se muito e disse a meu irmão: Bem se vê que não sabes o que é palavra de honra; quando um homem honrado a dá, está compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer faltar á tua palavra, não te chamarei mais meu filho. D'aqui até lá, responde sim ou não, é quanto basta.
—Conheço essa historia, já m'a contaste e disse commigo n'esse dia: Visto que se educam tão bem as crianças em Valneige, é porque é boa gente; quando dizem sim é sim, quando dizem não é não.
—Oh! de certo, lá em casa é assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que escreveu ao papá?
Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criança e com um tom grave respondeu-lhe:
—Pedi-lhe a sua palavra de honra de que não faria mal a meu pae; elle deu-m'a e então eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.
—Como! fez isso?
—É verdade. Fizeste-me doer o coração com tudo quanto me tens dito de tua mamã, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irmã, toda de branco, fez a sua primeira communhão. Queres saber? ás vezes chorava de noite e dizia commigo: pois tu, desgraçada,{199}vais deixar este innocente n'um sitio onde elle vê só o mal, podendo salval-o com uma palavra?
—Que boa que é, minha querida Gella! tornarei então a vêr meus paes?
—Sim, has de vêl-os, meu pequeno.
—Mas a Gella o que ha de fazer para não a matarem? Dizia...
—Eu não corro risco, do momento em que te levarem, quando me não estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de representação. Não importa, se fiz o que fiz é porque tenho confiança em ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre é pae. O meu é aspero, é verdade, não me faz feliz; mas apezar disso se gosta d'alguem n'este mundo é de mim.
—Deveras? disse Adalberto espantado, porque não podia comprehender, que aquelle homem amasse alguem.
—Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle estava como doido, e um dia, talvez não acredites, sentado ao pé da minha cama, vi-o chorar.
—Está fallando sério?!
—É a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. São máos, têem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que será julgado, condemnado, mandal-o-hão para os trabalhos{200}forçados, sósinho, desgraçado, e, se fôr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas vezes pancadas, é verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu era pequena, que me livrou dos máos, e emfim é meu pae! Mas agora, que eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, não receio nada.
—Oh! não; não receie! Meu pae não a atraiçôa! Oh! como estou contente! Nem sei o que digo, parece que até me falta o ar.
—Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes serviços; sem ti ignorava que houvesse um Céo, nunca m'o tinham dito, e do teu Deus nunca me tinham fallado.
—Agora, que Gella o conhece, póde bem servil-o.
—Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim, é talvez servil-o separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecerás quando fores feliz?
—Nunca, disse a criança, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar de Gella á mamã que tambem lhe ha de querer muito.
—Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fôres embora, meu Deus! meu Deus!...
Dizendo isto, Gella olhava para o Céo, como se começasse a comprehender a vontade de Deus, e a criança viu duas grandes lagrimas, que lhe desciam pelas faces. Era a primeira{201}vez que chorava na sua presença. Diante da commoção d'esta natureza tão rude e forte, sentiu-se profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno pensava no seu papá, na sua mamã, nos seus irmãos e irmãs e tão commovido estava que não podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar; mas não sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!
—Oh! que felicidade! disse o meu nome!
—Querido pequeno, bem cedo será tua mãe quem t'o dirá.
—Bem cedo?
—Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que façam o resto. Têem as necessarias indicações para te encontrarem.
—Mas como poude escrever-lhes? Não vejo na carruagem tinta nem penas.
—Ora! é bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de páu para fazer de penna; mas para ter tinta é que eu não sabia como havia de ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei{202}que o melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu sangue.
—Pobre Gella! fez-lhe muito mal?
—Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, já se sabe, mas o teu pae poude ler porque me respondeu no dia seguinte.
—Oh! mostre-me a sua carta! só a letra.
—Não percebes que já a queimei?
—Ah! é verdade. Se a achassem, que desgraça! E como era o sobrescripto?
—Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia ás vezes buscar cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim fez-se.
Agora é esperar.
—Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!
—Espero que sim. Teus paes só te davam bons conselhos, é preciso seguil-os. Has de dizer á tua mamã, que sempre te aconselhei bem. Oh! não lhe deixes suppôr que eu sou má rapariga.
—Oh! socegue!
Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo. Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do saltimbanco, ouviu uma grande questão entre o Hercules e o seu filho, que, exagerando{203}{204}{205}os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro; a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.
Image pg203Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)
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Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)
Entrando para a carruagem Adalberto sentiu-se desesperado. A sua sorte pareceu-lhe então mais horrorosa, comparando-a com as dôces imagens que a esperança lhe tinha feito conceber. Com receio de se achar envolvido n'esta ignobil scena foi sentar-se sem dizer palavra n'um velho banco, perto da porta, e Gella, que começava a ser boa para todos, esforçou-se por apaziguar seu pae e por afastar a velha Praxedes, que se regalava em o irritar com os seus ditos.
Quando a zanga não era excitada pela propria filha, o Hercules deixava-lhe ás vezes bastante poder para pacificar a todos. É que a rapariga era como um raio de sol n'estas trevas moraes, em que todos se agitavam. Seu pae, é verdade, era capaz de tudo em um momento de colera, mas gostava d'ella a seu modo, como ella dizia, e a sua bella Andaluza, como elle lhe chamava nos seus raros momentos de bom humor, era o anjo bom d'aquelle coração semi-barbaro.{206}
Que lindo tempo! nem uma nuvem no Céo! um perfeito dia de primavera!
Josephina, bonita alsacianna de treze para quatorze annos, tinha acabado de se enfeitar e de se pentear com muita pommada. Estava contentissima, fazendo tenir na algibeira a sua pequena fortuna de tres tostões, e esperando á porta que os seus amigos passassem e a levassem como se tinha ajustado. Estes amigos eram a tia Tourtebonne e o senhor Baptista; iam á feira de M...
O tempo corria, e a rapariguinha não deixava de estar inquieta, vendo demorar-se um{207}prazer ha tanto tempo esperado. É que a tia Tourtebonne, a quem seus paes a confiavam era a exactidão em pessoa, e, por força, alguma circumstancia independente da sua vontade a demorava. Effectivamente não se enganou; eis o que tinha succedido.
Deve primeiro saber-se, que a feira de M... occupava muito o pensamento da tia Tourtebonne. Havia mais de quarenta annos que se não lembrava de faltar a ella uma só vez. Fazia negocios todo o anno, mas esta feira, que durava tres dias, achava-a invariavelmente em optima disposição de espirito. Fazia tenção de se divertir, e por isso se divertia muito. Era um d'esses genios felizes que qualquer coisa distrahe, que ri porque os outros riem, que está contente porque os outros estão contentes.
Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem, porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha um excellente meio de transporte; a carroça do senhor Baptista. Ia-se bem saccudido, é verdade, e a velha Manon não deixava de tropeçar, mas afinal chegava-se. O bom do homem, que não tinha nada de divertido, ia simplesmente á feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques, esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar relações. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que tinha insupportaveis dôres de dentes, que o não deixavam{208}dormir, e porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de M..., os arrancavasem dôr. Estas palavras têem um poder magico sobre o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda não tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco da sua simplicidade nativa no trato dos cidadãos. Por isso não acreditava senão metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.
Em consequencia d'esta falta de fé, demorava a partida de minuto para minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos nós sabemos não ser caso de pressa.
Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual da velha Manon. N'um instante abraça a sua mamã e eil-a na carroça.
—Até que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e como nos vamos divertir!
Josephina no meio d'estas alegres expansões, olhou para a cara do senhor Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dôr de dentes, justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforço supremo e ameaçava uma grande inchação. O desgraçado, para{209}{210}{211}conjurar tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme parche d'algodão em rama, seguro por um lenço azul atado por baixo da barba. Tinha além d'isto amarrado a cabeça com outro lenço vermelho, e por cima um barrete d'algodão branco, sobre o qual se enrolava como um turbante um terceiro e grande lenço de seda côr de vinho; e apezar d'esta armação ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista tinha agarrado por costume, no seu forte boné de lontra, e tinha-o pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!
Image pg209Os arrancavasem dôr. (Pag. 208.)
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Os arrancavasem dôr. (Pag. 208.)
Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para não perder o seu sério, ainda que o seu bom coração se resentisse dos soffrimentos do seu companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas saccudidelas, que lhe augmentavam a dôr, a boa da mulher tomou sob a sua responsabilidade o animal e o seu tropeçar, e, de redeas na mão, começou a governar. «Hi! hi! anda, anda Manon!» Esta maneira de a animar acompanhada do continuo movimento de braço eram necessarias, para que Manon não parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e não gostava de mudar de logar.
Quanto ao seu dono estava absorvido pelas{212}dôres de dentes, o que é facil de perceber, porque não ha nada que absorva tanto.
Houve antigamente philosophos que negaram a dôr. Oh! de certo que não tinham tido dôres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso para se assemelhar a estes senhores, e não seria elle com certeza quem negasse a dôr. Pelo contrario não se passavam cinco minutos sem dizer ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presença do inimigo. Como era naturalmente laconico, não dizia mais; mas a sua cara dizia o resto. Não sahia de todo aquelle preparo de algodão e de lenço e companhia, senão uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido, um meio nariz sem expressão e um canto da bocca tristemente descahido, signal d'uma grande desconsolação. Nem pensava no feliz cachimbo, que, com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella tranquilla existencia; emfim não achava n'este mundo senão aquelles repellões!.... Pobre homem!
Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraçãosinho bom e lamentava o senhor Baptista. Quanto á sua visinha teria de boa vontade acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro; disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dôres.{213}
Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do que costumava.
Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo prado guardando as vaccas de sua mãe; tinha um viver doce mas um pouco monotono. Dava portanto grande apreço aos divertimentos, e a feira estava tão bonita, tão bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha é a base de todas as festas populares, e não faltava n'esta. Os cavallos, os bois, as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava, mugia, balava e grunhia sem se querer calar.
Os cães ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que todos com os seus continuados e magnificosco-co-ro-cós... Dir-se-hia que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multidão, que, para não perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlatão, chamava toda a gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os olhos vendados. Á direita os cães sabios faziam exercicio; á esquerda os macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande tentação para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho nunca faz mal; sabia-o elle bem, e{214}por isso bebia um muitas vezes; mas hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.
Entre todos estes divertimentos, todas estas distracções, acima de todo este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria os admiraveis e estrondososbumbuns!mil vezes repetidos pelo grande tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos começar!
Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vêr, sem perder nada, os jogos, as danças e as cambalhotas. Josephina esperava divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia, só via as suas dôres de dentes, e a todos succederia outro tanto.
A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:
Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita não pensaria mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?
O pobre homem não se atrevia a desapprovar á sua visinha que tinha toda a razão, por{215}isso não respondia senão:hum!n'um certo tom, que equivalia a dizer:amen!Comtudo fazia o que podia para não vêr por em quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que não tinha dôres de dentes, via muito bem.
Se lhe diziam: «Olhe, ali á tem!» experimentava no mesmo instante um grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de algum illustre ventriloquo.
Josephina era cruel; sabia que não se estabeleceriam na feira sem fazer a operação; não pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre esta multidão, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um lenço pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de rigor para ser admittido ás recepções.
A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se livida em vez de pallida.
—Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem. De que tem medo? Olhe que não é coisa do outro mundo.
Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o paciente, que com a coragem que póde ter um cobarde envergonhado, dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente as dôres{216}de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se adiantado muito, ficou por honra de firma.
Ainda que o charlatão não cessasse de declarar com emphase que arrancava os dentes sem dôr, não se sahia das suas mãos sem a cara transtornada e as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer, mas o annuncio não mentia, era pois a clientela que se enganava. Um tinha mexido a cabeça, outro o pé; este estava mal disposto, aquelle tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operação; alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os dentes apertados. Estas justificações, que o ultimo cliente nunca acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de esperança.
O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio. O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de plumas e mangas arregaçadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e, com ar altivo, preparou-se para vencer pela força o que lhe oppozesse resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem n'este caso.
Não se póde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque não póde deixar de ser, mas parece que a cabeça vai atraz d'elle.{217}
O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com effeito, não se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas só umrrran! rataplan! pan! pan!depois uma musica alegre, e mais longe um realejo, que tocava desde a aurora oGalope de Gustavo. O senhor Baptista pagou e desceu depressa, depressa; tão azafamado estava o operador.
O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem dôr é que não. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha provavelmente mexido sem querer. Não disse palavra, não proferiu uma queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo todo o caminho; não havia outra coisa a fazer.
Afinal a emoção, a sacudidela, e oGalope de Gustavoainda em cima acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era, fez com que elle se sentasse.
Josephina, graças aos seus quatorze annos, ficou espantada. Julgava que uma vez este negocio terminado o bom do visinho passaria a divertir-se muito, e que todos os abafos seriam desnecessarios. Quanto se enganava! O senhor Baptista juntou aos outros o lenço da algibeira, com que tapou a bocca, e declarou que tinha mais uma dôr de cabeça furiosa.
Que desengano! Josephina assustou-se com{218}a idéa de tornar a subir para a carreta, mas felizmente não foi preciso. O honrado mercador de queijo installou-se n'uma pequena casa de pasto improvisada, estabelecida por tres dias debaixo de uma barraca parda, e em vez de fazer ali algum gasto entregou-se pelo mesmo preço ao aborrecimento resultante do seu incommodo.
Ainda que d'uma apparencia muito feia o bom do homem não era nada egoista; exigiu pois dos seus companheiros de viagem que não fizessem mesmo caso d'elle. Josephina achou esta idéa magnifica; mas a senhora Tourtebonne prometteu vir de vez em quando perguntar como elle estava, e partir no meio do dia se o seu incommodo se tornasse insupportavel.
Josephina resignou-se e andou com a sua digna conductora uns duzentos passos n'uma hora; tantas coisas havia para admirar!
Apezar de se extasiar vendo isto e aquillo, a boa rapariguinha exclamou:
—Oh! o que eu desejo vêr, mais do que tudo, são os saltimbancos.
—E eu tambem, minha pequena.
—Bem sei eu porque. Está pensando no seu rapazinho?
—Justamente. Desde esta manhã que só penso n'elle, e toda a noite sonhei com aquelle desgraçadinho querido filho!
—E acha que poderia reconhecel-o?
—Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um principe, e que se{219}chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle tem mãe! É horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal desgraça endoidecia.
E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que não tinha.
A conversação sobre Adalberto não podia interromper-se; ambas repetiam:
—Está talvez ali! Quem sabe?
De repente, no meio da multidão avistam os caros amigos Julião e sua mulher, que seus amos tinham mandado á festa, para que se divertissem um bocado.
Este encontro foi theatral; prometteram não se separarem; e o bondoso Baptista, feliz por vêr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasião para se retirar. Julião tinha tratado de segurar meio de conducção para a volta; combinaram que partiriam todos quatro juntos, e começaram a gozar tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenções de esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os dentes sem dôr.
Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostões. Comprou bolos que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu um vintem{220}a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.
Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas. Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma grande preoccupação.
Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia Tourtebonne e Sophia não cessavam tambem de pensar nopequeno da adêga, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, não duvidava da sua presença, chegando a parecer-lhe impossivel que elle não estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma idéa.
Sophia dava tudo para poder levar á sua ama a criança, cuja sorte ella não cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que sentiria a pobre mãe dopequeno da adêga, quando lhe levassem o seu querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma aventura, uma emoção; teria sido uma felicidade para todos e um divertimento para ella; o senhor Julião, amigo zeloso da justiça e pontual antes de tudo, só queria uma coisa—denunciar aos policias a infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladrões pagarem na cadeia o crime commettido; era tambem esta a opinião de seu amo.
Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela feira; um lindo dia{221}favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia entendedores com idéas negras que repetiam: «Vamos ter agua!» Josephina achava que se não devia dizer uma coisa a que ninguem prestava attenção. Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho que conduzia á carruagem. Umas nuvens negras ameaçavam chuva, havendo já quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.
A cincoenta passos da carruagem Julião exclamou:
—Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vêr! Dez minutos mais ou dez minutos menos não faz nada ao caso.
Josephina approvou Julião.
—Como ella é bonita! accrescentou o marido de Sophia.
—E como ella dança bem, com as suas flôres de romã na cabeça, respondeu a tia Tourtebonne, que se não fartava de a admirar, dizendo a todo o instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!
Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos lhe gritavam: «bis! bis!» A pobre rapariga saudava, dançava e tornava a saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criança vestida como um dançarino de corda rompeu{222}por entre a turba com uma bandeja na mão; parecia que o signal para partir estava dado, toda aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta á direita ou á esquerda, para não despender um vintem e conservar a sua dignidade aos olhos dos outros.
O movimento instantaneo de toda a multidão tinha é verdade differentes causas: a dansa acabára, Gella tinha desapparecido, a noite aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em debandada.
Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas chuvas, os outros cobriam a cabeça com o lenço.
Era uma scena de barulho, de confusão, de gritos, de mau humor, de que se não póde fazer idéa.
A encantadora e loira criança continuava o seu peditorio.
Chegou perto de Josephina, que não tirava os olhos d'ella. A pequena alsacianna, levada pela sua idéa, puxou-lhe pelo braço e disse-lhe com um ar absoluto:
—Não é verdade que te roubaram, e que te chamas Adalberto?
O pequeno não pareceu nada admirado, olhou com toda a confiança para Josephina e disse-lhe que sim.
—Conheço-te! conheço-te! exclamou a tia Tourtebonne abrindo-lhe os braços.
O pobre pequeno lançou-se n'elles sem hesitar;{223}parecia adevinhar toda a bondade d'aquelle coração.
Ao mesmo tempo a chuva cahia em torrentes, o tumulto tinha chegado ao seu auge e mal se via na escuridão, que augmentava, um pequeno pellotiqueiro, que tres ou quatro pessoas arrastavam precipitadamente para a estrada.
A criança subia já para a carruagem, quando Julião disse ás mulheres:
—Partam sem mim, quero fallar com os policias, o negocio não ha de ficar assim.
—Deixa os policias e vem comnosco, Julião; uma vez que pilhámos o pequeno é tudo quanto queremos.
—Nada, nada. A cadeia não foi feita para os cães.
Julião desappareceu.
Ao mesmo tempo, uma mulher com vestuario de camponeza, bonita, pallida e tremula precipitou-se para a carruagem gritando com desespero:
—És tu?
Sophia, assustada, cobriu com o seu grande chale a cabeça do pequeno, e a sua companheira disse ao conductor:
—Partamos! partamos!
O cavallo partiu a trote, e a desgraçada mulher, encostando-se a uma arvore, desmaiou e cahiu por terra.{224}