CAPITULO XVIIAdalberto volta para o subterraneo.Não se póde descrever a alegria da senhora Deschamps quando lhe levaram em triumpho o rapazinho, que logo conheceu acasa branca. Imaginava a boa senhora ter encontrado um dos seus netos, e provava-lhe com os seus carinhos verdadeiramente maternaes um tal affecto, que Adalberto, em pouco tempo, estava perfeitamente á vontade. Desde muito que elle só via miseria de roda de si; póde por isso fazer-se idéa do que sentia percorrendo aquella casa tão aceada, tão bonita e que se não mexia!Josephina e a sua gorda amiga não o deixaram sem lhe prometter tornar a vêl-o, promessa{225}que elle acceitou de todo o coração, porque sentia por ellas o mais vivo e justo reconhecimento.O senhor Deschamps, homem positivo, tinha opposto ao primeiro enthusiasmo uma certa incredulidade; mas a duvida não podia resistir diante das respostas do rapazinho ás mais indagadoras perguntas.Sophia desejára conduzil-o logo ao subterraneo. Seu amo não consentiu sem o ter interrogado. Adalberto fallou do carvão com que tinha escripto o seu nome e todos os nomes da sua familia; da fita doirada que tinha deitado no chão; soube dizer o que havia na adêga; indicou o logar onde estavam as garrafas vazias, o logar do tonel e o das tabuas. Fallou tambem dos bichos pretos e do rato que tinha roido a porta. O que notaram sobretudo foi o sobresalto do pequeno á primeira vez que ouviu dar horas na pendula da sala, cujo som elle reconheceu.Quando Sophia, acompanhada pelos seus amos, o fez descer á adêga, Adalberto olhou para todos os lados com tristeza e fixou a vista na fresta, o que o fez contar a historia da estrella e tudo quanto podia dizer a respeito de Gella.Passou-se uma meia hora n'estas primeiras emoções. O senhor Deschamps, que já sabia por Adalberto a residencia de seus paes, dispunha-se a escrever-lhes para que a carta partisse{226}no dia seguinte de manhã, quando sua mulher pensou que o seu protegido devia ter fome.Por mais que este dissesse que durante o caminho Josephina lhe tinha feito comer bolos, nozes e maçãs, a boa senhora julgava que elle cahia de fraqueza.Como Julião ainda não tinha voltado das suas buscas e Sophia, ensopada pela chuva, tinha ido mudar de fato, a senhora Deschamps quiz preparar pela sua mão o comer para a criança. Havia na copa carne fria, dôces e fructa; mas, por instincto maternal, imaginou um caldo bem quente e um ovo fresco cosido a que se seguiria uma fatia de carne assada fria e muitas outras coisas boas. Foi para ella uma alegria o ter de aquecer o caldo, e fazer ferver a agua para coser o ovo; sentia-se activa, estava risonha e contente.Depois de cada volta que tinha de dar como dona de casa entrava na sala um momento, só para dizer pela trigessima vez:—Oh! meu querido pequeno, como tua mãe Vae ser feliz!Adalberto acceitou com prazer o caldo e o ovo, mas não poude comer mais nada. O que o encantava sobretudo era o arranjo, o guardanapo branco, a bonita faca, a colher e o garfo de prata.Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como lhe fizessem{227}novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. Á medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava, que tinha tido um máu sonho e que conhecia desde muito os donos dacasa branca. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:—Oh! Gella! minha boa Gella!—Gostas então deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor Deschamps?—Como não hei de eu gostar d'ella se foi tão boa, tão boa para mim!Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e começou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchès, que estava meio estupido, mas tão submisso e inoffensivo.Por mais confiança que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho não dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua familia, que devia a sua liberdade aos bons corações que a Providencia tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fóra das provisões de Gella. Esta, ao contrario, não podia duvidar de que a desapparição do pequeno saltimbanco{228}fosse o fructo das suas diligencias; e com effeito assim parecia, mas não era.A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canapé no seu proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois do outro alegrar acasa branca.Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licença ao senhor Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu pae.—Escreverei ámanhã a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha lettra.Acharam a idéa delicada, e a criança, que havia dois annos não tinha pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:«Meus queridos papás.Sou eu; adoro-os de todo o meu coração.Seu filho Adalberto.»Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de proposito, deitado lá a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.A sua affectuosa protectora correu para elle de braços abertos e beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.O rapazinho disse a sua oração, que não tinha esquecido, e sentiu-se feliz vendo-se de joelhos{229}defronte d'um Christo de marfim semelhante áquelle que via em Valneige no quarto de sua mamã.Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, até ás onze horas da manhã! Respeitaram aquelle somno depois de tão vivas emoções. A senhora Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julião, que tinha chegado durante a noite.O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto, que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversação.Julião com um modo rude e inflexivel, fallava, não sem praguejar um pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignação da turba, as maldições de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a andaluza e duas crianças, e que estavam todos quatro na cadêa. Quanto ao chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.Adalberto começou a chorar, tanto mais que Julião accrescentava com bastante indifferença, que aAndaluza, para defender seu pae e favorecer a sua fuga tinha cahido de umas taboas mal seguras o que a magoára bastante.{230}Uma coisa sobretudo entristecia Adalberto. Tinha um coração delicado e leal que lhe dizia: «A pobre Gella teve confiança no papá, que lhe deu a sua palavra de honra. Agora que está presa e que o Hercules é perseguido, vae julgar que a enganámos, que eu sou um ingrato e que o papá não cumpre a sua palavra. Oh! que desgraça, meu Deus, que desgraça!»A senhora Deschamps não comprehendeu bem o desgosto de Adalberto, mas tentou consolal-o. O senhor Deschamps entreveio e repetiu umas poucas de vezes muito seriamente, que a rapariga estando sob o poder de seu pae e não tendo feito senão suavisar a sorte do prisioneiro, não se lhe faria mal algum, e que lhe dariam com certeza a liberdade logo que o chefe fosse preso e julgado; quanto a esse miseravel, accrescentou o senhor Deschamps, não merece compaixão alguma.Estas palavras só socegaram em parte a inquietação do pequeno, e nenhuma das pessoas com quem elle estava percebia como e porque elle se interessava tanto pelo Hercules, o homem que o tinha arrancado tão rudemente ao amor da sua familia. Julião pensava e dizia simplesmente, que o pequeno tinha desarranjo de cabeça.O mais engraçado foi quando a senhora Tourtebonne, empurrando o seu carrinho, veio de tarde saber noticias do pequeno da adêga.{231}Quasi que o não conheceu com o fato com que a senhora Deschamps o tinha vestido. Quando lhe disseram que o seu protegido estava triste, e que soube a causa da tristeza, a boa da mulher exclamou:—É possivel! pois não gostaria de vêr aquelle maroto condemnado ás galés para o resto dos seus dias?—Oh! não!—Desculpe-me dizer-lhe que tem bondade de mais. Da rapariga não digo nada; a velha mesmo, passa; mas o chefe? É um monstro, e se eu fosse governo em vez de ser vendedeira de fruta, havia de fazer cortar a cabeça a todos os que roubam crianças.Estas palavras fizeram estremecer Adalberto; mas tranquilisou-se, pensando que a boa da mulher era realmente vendedeira de fruta.Para combater esta tristeza inesperada, a excellente senhora Deschamps levou Adalberto ao jardim. Um olhar que elle deitou para o lago fêl-o presumir que a pesca seria para elle uma distracção. Fallou logo n'isso a seu marido, que organisou a mais bonita pescaria que se póde imaginar. Deu o melhor apparelho ao seu hospede, ensinando-lhe com bondade todas as finuras da arte, e levando-o, por uma felicidade espantosa, a um verdadeiro triumpho. Cada peixe que cahia causava ao pescador um tal prazer, que os pensamentos penosos que o opprimam socegaram visivelmente. Voaram as{232}horas n'este util passatempo, e tendo-lhe passado de todo a dôr de cabeça, de que o pequeno se queixára, pediu papel, penna, tinta e poz-se a escrever:«Meu querido papá e minha querida mamã.«Quasi que já não sei escrever, apenas o bastante para lhes dizer que os amo sobre todas as coisas, e que desejo muito vêl-os e abraçal-os, assim como á minha irmã e meus irmãos. Tenho tantas coisas a dizer que não direi nada para não ser muito extenso. Ai! ha quanto tempo os não vejo! Estou em casa de um senhor muito bom e de uma senhora muito boa, no quarto de quem eu fico. Ella deu-me umas calças muito boas e uma jaqueta igual. O seu marido ensinou-me a pescar e apanhei cinco peixes; são para frigir. Oh! que felicidade quando eu abraçar os meus papás! Que desgraça que foi a minha desobediencia! Tudo quanto me tem succedido, foi por minha culpa; merecia ser castigado; mas se soubessem como eu tenho sido infeliz! Gella era muito boa, e eu gosto muito d'ella. Meu querido papá, veja que lhe não façam mal, e que lhe não prendam o pae.«Ella está ferida n'um pé! Ha aqui pessoas que querem fazer condemnar o pae. Oh! venham depressa, peço-lh'o muito, por causa do que sabem e que se não póde dizer. Não me atrevo a fallar n'isso porque é segredo e receio{233}que se não devam confiar segredos ao correio. Este senhor e esta senhora sabiam que eu tinha cahido na sua adêga ha quasi seis mezes. Hei de contar-lhes tudo, e a minha mamãsinha ha de chorar, com certeza. Ha coisas bem exquisitas: ha pessoas tão bondosas que gostam de mim como se me conhecessem muito. Foi uma rapariguinha que me puxou pelo braço dizendo-me o meu nome, quando eu pedia esmola. Julguei que ella tinha sido mandada pelos meus papás, segui-a immediatamente; chovia, eu estava como atordoado. Empurraram-me, empurraram-me até á carruagem. Uma mulher gritou:«És tu?»«Tinha a voz da minha querida mamã, mas era uma camponeza. Emfim, eis-me a salvo e de um modo diverso do que eu esperava. Penso que foi Nosso Senhor que arranjou isto, visto que é elle quem faz tudo. Oh! como eu gosto dos meus papás!«Adeus, querido papá e querida mamã, eu estou aqui muito bem, mas gostaria muito de voltar para casa. Abraço muito muito Camilla, Eugenio e Frederico. Oh! como nós vamos ser felizes! Abraço tambem Rosinha, de quem nunca me esqueci. Gosto de todos de Valneige, digam-no ao Philippe, ao Gervasio e aos outros.«Ah! Como eu hei de ficar contente quando os tornar a vêr. Mas façam com que não prendam{234}aquelle horrivel homem, para que Gella não seja desgraçada por minha causa.«Do seu filhinho«Adalberto».O senhor Deschamps lacrou a carta do pequeno diante d'elle sem a ler, depois mandou Julião ao correio.Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher não deixou de lhe fallar em Adalberto, e como Julião desejava immenso que a justiça não deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua opinião e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto sabia.Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a inchação da cara do senhor Baptista, e essa inchação absorvia-o a ponto que apenas lhe restava a força de responder com os seus famososhuns! Só a idéa de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se fanatico por elle, em presença d'esta incommoda inchação; e quando a sua antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforço supremo:{235}—Visto que o pequeno se achou, não é preciso mais nada.—Não, não, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na prisão torcia as mãos de desespero. Ella que só tinha feito bem ao pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na fé jurada, julgava-se perdida pela criança que tanto amára e na sua afflicção exclamava:—Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! não foi isto o que tu me ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faça o bem pelo mal, e todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto dando-me a sua palavra de honra. Devia não ter acreditado n'ella; acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu mentiste e todos me enganaram! Farão condemnar meu pae! Sou eu a causa disso, morrerei de pena, e és tu que me matarás, tu Adalberto!Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um pé, ameaçada de todas as desgraças a um tempo, não duvidava que o pequeno francez não tivesse sido levado pelos seus paes, graças aos esclarecimentos d'ella.Infelizmente Gella não era a unica a queixar-se. Na vespera á tarde, os camponezes, deixando a festa no meio da confusão causada por uma chuva torrencial, tinham visto ao pé d'uma{236}arvore uma mulher do campo desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mãos brancas contrastavam com a simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que não era certamente seu marido, nem seu irmão, esforçava-se para a fazer voltar a si, não lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella mulher?{237}Image pg237Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.){238}{239}CAPITULO XVIIIAdalberto não era um ingrato.Haviam passado dez dias que tinham mudado o aspecto a muitas coisas. A velha Praxedes, que desde muito tempo parecia ter apenas um resto de vida, mas um resto muito mau, a velha Praxedes tinha succumbido ao choque, e o seu desapparecimento d'este mundo não deixára saudades. As duas crianças, Natchès e Tilly, das quaes Adalberto tinha narrado as tristes aventuras, tinham sido recolhidas provisoriamente pelos bons moradores da casa branca. Tilly tossia a todo o momento, e todos sentiam por esta rapariguinha uma grande compaixão.{240}Continuavam as indagações, mas cessaram de perseguir o Hercules; a boa Gella, transportada da prisão para o hospicio, estava n'uma cama muito aceiada, rodeada de cuidados, de que a sua ferida carecia. A sua expressão era serena; sabia já que a fuga do pequeno tinha sido um dom da Providencia. Conhecia e explicava a si propria o encadeamento de successos que tinham preparado a libertação de Adalberto; e, tranquilla do futuro, já não dizia: elles enganaram-me!Mas o que se havia passado em Valneige? O pae não tinha partido apressadamente logo que recebera a carta do senhor Deschamps? Não.A mãe não tinha escripto, para mostrar pelo menos o seu reconhecimento? Não.Comtudo havia-se recebido uma resposta de Valneige, mas era de Camilla e redigida nestes termos:«Senhor.«Escrevo da parte de meu pae, doente ha um mez e reduzido pela febre a uma extrema fraqueza. A sua carta ha de cural-o de certo, porque o seu mal é o pezar que o opprime desde que perdemos o meu manosinho.«A mamã teria partido immediatamente se estivesse aqui, mas um negocio muito grave obrigou deixar meu pae para emprehender uma longa viagem, acompanhada por um dos nossos criados. Escrevi-lhe esta manhã, e{241}mandei com a minha a sua carta, que lhe explicará tudo. Pobre mãe, como ella vai ser feliz depois de ter chorado tantas lagrimas! Em poucos dias ella irá a sua casa, e póde crer que terá restituido a vida a meu pae, a alegria a minha querida mamã, e a felicidade a uma familia toda.«Meu pae encarrega-me de lhe dizer que meu irmão falla-lhe na sua carta de uma rapariga chamada Gella, que prenderam, e que foi sempre muito boa para com elle, e que nós não desejamos perseguil-a, visto ella não lhe ter feito mal algum, mas ao contrario ter concorrido para suavisar a triste sorte de meu irmão. Por isso meu pae deseja que se não castigue esta rapariga, e que a mandem para o hospital se estiver doente.«Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje mesmo ás authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que não continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir á senhora Deschamps o que nós quizeramos dizer-lhe de viva voz, e agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o que elle soffreu entre aquella má gente. Aceite os protestos de profundo respeito de«Camilla de Valneige.»Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.{242}«Meu queridinho.«Abraço-te muito, muito. A mamã partiu, ha oito dias, vestida de camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem tenção de ir a todas as feiras indicadas por... A nossa querida mãe estava de certo alli ante-hontem; mas de longe e no meio da multidão não te viu ou não te conheceu.«O papá está bastante doente; comtudo começa a melhorar desde hontem. Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e chorava, como a mamã choraria se estivesse aqui.«Não te atormentes, tudo se ha de arranjar. Não se fará mal a ninguem, e cuidar-se-ha em fazer bem á boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que estão no collegio. A nossa velha Rosinha está doida de contente; todos te querem muito e desejam vêr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao pé de mim, no nosso Valneige, no meio de todos nós.«Tua irmã«Camilla».Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de não o deixar perceber. Não se devia saber que sua mãe,{243}disfarçada em camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicações d'alguem. Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar á palavra d'honra pedida e dada; ora é impossivel faltar á sua palavra de honra sem se deshonrar. O pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, tão boa rapariga e tanto para lamentar como filha d'um salteador.Como se póde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes não conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que não teria levado tão longe as attenções, e que ao mesmo tempo que protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir seu pae até á fronteira; Julião accrescentava até ao fim do mundo.A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e não pensava senão em divertir a criança, em pentear os cabellos de que a sua mamã tanto gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma moral muito pura se disfarçava sob os gracejos infantis.{244}Emfim era uma mãe a proteger o filho de outra mãe!Sophia só dava attenção a uma coisa; a criança estava pallida e magra e ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte culinaria é para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e engordasse mais depressa. Como só havia tres ou quatro dias para esta grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e offerecia-lhe entre as refeições uma meia duzia de bons petiscos.Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel á tentação, e, seguindo as insinuações de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradições de Valneige; «uma criança bem educada, tinham-lhe dito cem vezes, não deve nunca comer fóra d'horas; é golodice, torna o homemmaterial, quer dizer, favorece n'elle os instinctos do animal.»Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse á senhora Juliana, que lhe agradecia as suas attenções, mas que tendo comido muito bem desde que estava na casa branca, não se lembrava já das sopas da velha Praxedes, e que não queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua mamã.{245}—Mas a sua mamã não está cá.—Não importa; comer sem necessidade fóra d'horas seria desobedecer-lhe, e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.Sophia concordou que o querido pequeno era muito rasoavel, e mudou de systema. Comtudo viu com verdadeira alegria e alguma vaidade, que o pequeno ia engordando, que os seus olhos se animavam, e que tinha melhor côr.O que a felicidade e a liberdade tinham feito em grande parte, attribuia-o Sophia só aos seus manjares; e d'este modo todos ficaram contentes.Havia seis dias que Adalberto vivia debaixo d'este tecto tão affectuosamente hospitaleiro, quando uma senhora d'um aspecto grave e distincto, seguida por um criado, bateu á porta da casa branca. Julião abriu, mas antes de ter tido tempo de lhe dirigir a palavra, correu ella para a criança, que brincava no pateo com Tom, e apertou-a estreitamente nos seus braços maternaes. Toda a gente accudiu. Foi grande a commoção. O proprio senhor Deschamps perturbou-se, e Julião disse baixinho a Gervasio, que chorava d'alegria:—Palavra, que até estou a tremer! Faz mais impressão do que o attaque de Sebastopol!Depois d'este primeiro instante de surpreza entraram na sala, e, por um rasgo de sensibilidade, a senhora Deschamps disse a seu marido:{246}—Deixemol-a só com elle.Ambos sahiram da sala e fecharam a porta.Foi então que a senhora de Valneige comprehendeu o grau da sua felicidade.Não fallava, mas olhava para seu filho, como se quizesse ler na sua alma. Parecia-lhe, pobre senhora! tornar a tomar posse d'este pequeno ser, que Deus lhe tinha dado. Pegava-lhe nas mãos, que apertava nas suas, como para affirmar os seus direitos, e restabelecer esta dôce cadêa, que nos impõe os affectos do coração. Oh! que de lagrimas que cahiam dos seus olhos! Seu filho estava alli e adorava-a!A vida tornava a ter os seus encantos. A senhora de Valneige já se não sentia infeliz.A presença de Adalberto ia curar seu marido, que só soffria pela sua auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa, commovida... Foi o momento que o bom coração de Sophia escolheu para offerecer uma bellaomelettede dois ovos frescos, ou biscoitos, ou vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia só receiava uma coisa nas grandes agitações da alma; era vêr a sua gente morrer de fraqueza. A senhora de Valneige, como é facil de suppor, não tinha a menor vontade de comer umaomelette; recusou-a, pois, o mais graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.{247}Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel Gervasio. N'isto não fazia mais do que seguir os costumes da casa. A senhora Deschamps não podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer, como nossos paes, o pão e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porém, demasiadamente as sensações delicadas, para não as confundir com umaomeletteou qualquer outra cousa. É inutil explicar o genero de relações, que se estabeleceu entre as duas mães. Parecia que se conheciam ha muito. É porque, effectivamente, as almas nobres reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas ás outras sem embargo de distancias.A senhora de Valneige fallava á sua nova amiga essa lingoagem do coração, que só elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.Para ella não era a desconhecida mais do que a mãe da criança perdida, da criança que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao trio, a conversação tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do futuro, porque as duas mães só tinham visto o presente. Começaram então{248}as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.A castellã informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros. Tudo se disse e tornou a dizer; a mãe estava insaciavel, fazia repetir tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz descer áquelle sitio, que por pouco não tinha sido um tumulo; viram-na ler com horror as palavras escriptas na parede. Á noite mostrou desejo de lá descer outra vez, e alli, só, no subterraneo com o seu filhinho Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o coração é capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse vêr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle chamara Adilia.—Mamã, querida mamã, dizia o rapazinho beijando as queridas mãos de sua mãe, é preciso procural-a no céo para que o papá a conheça e tambem goste d'ella.—Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para ti, o que te fez bem.E, como a terna mãe olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a criança, por uma delicada inquietação, perguntou timidamente:{249}—O papá já não está zangado?—Zangado porque?—Por eu ter desobedecido. Não me quer mal por isso?—Quem te ha de querer mal, meu pobre filho? Não foste tu bem castigado? Teu pae espera-te para melhorar. Ama-te muito, isso sim.Então Adalberto lançou-se nos braços que sua mamã lhe estendia, e, submisso para sempre, á força de soffrimento, fez este juramento:—Prometto que nunca mais torno a desobedecer.A mãe e a criança cheios de felicidade e de ternura, ficaram alli, em pé n'aquella adêga, e achavam-se bem. O silencio, a escuridão, tudo os isolava; sem darem por isso ficaram immoveis, porque ninguem queria dizer primeiro: «Partamos».O rapasinho, commovido pela ternura da mãe, balbuciou baixinho, como se aquella solidão ainda não fosse bastante para ouvir um segredo:—E Gella, mamã, Gella que me quiz salvar?—Irei vel-a ao hospital.—Oh! que felicidade!A hora ia adiantada. Na casa branca não se recolhiam tarde. A pendula da sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu, ouvindo aquella bulha,{250}que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castiçal na mão, se dirigiu para o seu quarto.A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como são os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoção que tinham mudado para aquelle quarto oleito-canapé. A senhora Deschamps, delicada em tudo, quiz que a mãe visse o filho dormir.No dia seguinte a senhora de Valneige, não sem excitar alguma curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que queria vêr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu só com seu filho. Vendo-a, Gella sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraça, pelo crime de seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em desalinho, revelava assim a humilhação da sua alma inculta e como que abandonada.A criança, cheia de confiança, abraçou-a como a unica amiga que tinha tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas mãos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de seu coração. Depois sentou-se á cabeceira do leito, e fallou muito tempo baixinho; a{251}rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa, Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluços entrecortavam:—Não, minha senhora, eu não sou digna de tantas bondades! Dar-me trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vêr todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae não tem outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe pão se lhe faltar; elle que já começa a estar velho.Meu irmão não ficará com elle, porque só a força é que o prende; ha de então ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora, trabalharei, não como d'antes, porque o medico diz que eu fico côxa; mas estou costumada a coser, e não me faltará boa vontade. Irei encontrar meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas, é verdade, para comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de eu fazer, minha senhora, é meu pae!A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: «Nunca desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.»Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto não tinha podido dizer-lhe sobre a alma e o céo. Tudo se tornava possivel n'estes dias de reclusão absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller ia instruil-a,{252}e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o berço de uma nova existencia, faria a sua primeira communhão, e unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criança tinha dito: «Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.»Oh! como ella seria recompensada dos seus esforços, e como se sentia bem abençoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mão sobre a testa da doente, que abrazava, lhe disse:—Sê, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vossês toda a minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres, minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflicção que te aches, dirige-te a mim.Amo-te e abençoo-te.Gella seguiu com a vista a mãe e o filho, quando ambos a deixaram, e quando Adalberto se voltou para a vêr ainda, disse-lhe ella, com o coração cheio de reconhecimento:—Obrigada pelo bem que me fizeste.{253}Image pg253Eu não sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.){254}{255}CAPITULO XIXAdalberto era obediente.Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze á meza. Todos conversavam todos riam; que animação! que contentamento! Eugenio e Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor, em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a saude e a alegria.A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto nas algibeiras, mas, que apenas apparecêra, havia banido todo o mal e todos os aborrecimentos.Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias; estava pallido{256}e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os espiritos e favoreciam as expansões.Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á inquietação que então pesava sobre todos.Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á meza.Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:—É talvez a morte que vem, e depois o céo.Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida para sempre, e estesemprenão podia durar muito. O peito delicado d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados tinham dito: «Sem esperança!»E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a solidão! as agonias! a frieza!»{257}A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do seu captiveiro:—Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.Quanto ao bom e gordo Natchès, roubado assim como Tilly, tudo n'elle, tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, não se entretendo senão na cosinha, extasiando-se diante d'uma caçarola ou d'um petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia d'elle um instrumento commodo entre as mãos de Julião e de Sophia; foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes, varrendo o pateo, regando, penteando o cão. Fazia geralmente as coisas mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que começavam sempre assim:—Quando eu era palhaço...Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade; achou tudo isso nacasa branca, e recebia mais, a luz sufficiente aos espiritos grosseiros para servirem{258}o Senhor justo, que não pede contas ao homem, senão do pouco que lhe confiou.Não tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para estudar a posição de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da maneira mais util.Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos, encaminhando-se para o Rheno, deviam parar nacasa brancae descansar na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam Rosinha a poupar-se ás fadigas d'uma grande viagem no começo do inverno; fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o momento escolhido por ella para ir á sua terra, achou que não podia ir sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e começou então a fazer os seus arranjos. Não eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma chapeleira velha.—Não te esqueças do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de roda d'ella.—Não tem perigo! Quero-lhe como ás meninas dos meus olhos; por isso o dependurei ao meu pescoço.—Ao teu pescoço? Mostra-m'o...A criança viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoço de Rosinha; esta caixa continha{259}o botão e a nódoa de tinta que tinha trazido do exilio! Adalberto abraçou de todo o coração a sua velha governante.Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.A demora tinha sido grande; houve inquietação e incerteza; o senhor de Valneige, não achando o seu wagon, disse a seu filho:—Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estação.Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as portinhollas—iam partir. O pae lançou-se precipitadamente na carruagem onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:—Estamos aqui muito mal; mas é só por um quarto d'hora.No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feições accentuadas chamavam sobre elle a attenção.Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho empallidecer.—Que tens tu, perguntou-lhe.—Nada.—Sentes-te mal?—Não, papá.{260}O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho respondeu-lhe transido de medo:—É o homem!Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o á justa vingança d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha testemunhas, provas: o botão, a nódoa de tinta, a fita doirada, as palavras escritas na adêga, a deposição de Baptista e da vendedora; Julião, Sophia, Josephina tudo lhe vinha á memoria, tudo o levava a proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella, que se fiava na sua palavra. É verdade que as suas previsões não se tinham realisado; mas tinha dado indicações em troca D'uma promessa. O senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:—Ó meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra é um juramento, que um homem não pode violardebaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma circumstancia.Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos; chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beiços brancos, e Adalberto soltou um grito. O desmaio durou só um instante; as companheiras, de viagem abriram as vidraças para dar ar{261}ao doente. Todos olharam para elle e para seu filho.Esta grande emoção passou. Na primeira estação o pae e o filho desceram.O homem de ferro desceu tambem, e não tornou a subir.Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia a familia, chegaram ácasa branca. Tudo em azafama! Faziam as camas, punham a meza etc. Não faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais uma fornalha acêza, porque Sophia não descansava.Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de amizade.Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a um dos seus netos.Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa, variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de perfeito contentamento:—Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer{262}habilidades nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram perfeitamente e acordaram bem dispostos.No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para a criança.—Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de tratar por tu o pequeno, e ajuntou:{263}
Não se póde descrever a alegria da senhora Deschamps quando lhe levaram em triumpho o rapazinho, que logo conheceu acasa branca. Imaginava a boa senhora ter encontrado um dos seus netos, e provava-lhe com os seus carinhos verdadeiramente maternaes um tal affecto, que Adalberto, em pouco tempo, estava perfeitamente á vontade. Desde muito que elle só via miseria de roda de si; póde por isso fazer-se idéa do que sentia percorrendo aquella casa tão aceada, tão bonita e que se não mexia!
Josephina e a sua gorda amiga não o deixaram sem lhe prometter tornar a vêl-o, promessa{225}que elle acceitou de todo o coração, porque sentia por ellas o mais vivo e justo reconhecimento.
O senhor Deschamps, homem positivo, tinha opposto ao primeiro enthusiasmo uma certa incredulidade; mas a duvida não podia resistir diante das respostas do rapazinho ás mais indagadoras perguntas.
Sophia desejára conduzil-o logo ao subterraneo. Seu amo não consentiu sem o ter interrogado. Adalberto fallou do carvão com que tinha escripto o seu nome e todos os nomes da sua familia; da fita doirada que tinha deitado no chão; soube dizer o que havia na adêga; indicou o logar onde estavam as garrafas vazias, o logar do tonel e o das tabuas. Fallou tambem dos bichos pretos e do rato que tinha roido a porta. O que notaram sobretudo foi o sobresalto do pequeno á primeira vez que ouviu dar horas na pendula da sala, cujo som elle reconheceu.
Quando Sophia, acompanhada pelos seus amos, o fez descer á adêga, Adalberto olhou para todos os lados com tristeza e fixou a vista na fresta, o que o fez contar a historia da estrella e tudo quanto podia dizer a respeito de Gella.
Passou-se uma meia hora n'estas primeiras emoções. O senhor Deschamps, que já sabia por Adalberto a residencia de seus paes, dispunha-se a escrever-lhes para que a carta partisse{226}no dia seguinte de manhã, quando sua mulher pensou que o seu protegido devia ter fome.
Por mais que este dissesse que durante o caminho Josephina lhe tinha feito comer bolos, nozes e maçãs, a boa senhora julgava que elle cahia de fraqueza.
Como Julião ainda não tinha voltado das suas buscas e Sophia, ensopada pela chuva, tinha ido mudar de fato, a senhora Deschamps quiz preparar pela sua mão o comer para a criança. Havia na copa carne fria, dôces e fructa; mas, por instincto maternal, imaginou um caldo bem quente e um ovo fresco cosido a que se seguiria uma fatia de carne assada fria e muitas outras coisas boas. Foi para ella uma alegria o ter de aquecer o caldo, e fazer ferver a agua para coser o ovo; sentia-se activa, estava risonha e contente.
Depois de cada volta que tinha de dar como dona de casa entrava na sala um momento, só para dizer pela trigessima vez:
—Oh! meu querido pequeno, como tua mãe Vae ser feliz!
Adalberto acceitou com prazer o caldo e o ovo, mas não poude comer mais nada. O que o encantava sobretudo era o arranjo, o guardanapo branco, a bonita faca, a colher e o garfo de prata.
Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como lhe fizessem{227}novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. Á medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava, que tinha tido um máu sonho e que conhecia desde muito os donos dacasa branca. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:
—Oh! Gella! minha boa Gella!
—Gostas então deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor Deschamps?
—Como não hei de eu gostar d'ella se foi tão boa, tão boa para mim!
Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e começou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchès, que estava meio estupido, mas tão submisso e inoffensivo.
Por mais confiança que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho não dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.
Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua familia, que devia a sua liberdade aos bons corações que a Providencia tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fóra das provisões de Gella. Esta, ao contrario, não podia duvidar de que a desapparição do pequeno saltimbanco{228}fosse o fructo das suas diligencias; e com effeito assim parecia, mas não era.
A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canapé no seu proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois do outro alegrar acasa branca.
Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licença ao senhor Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu pae.
—Escreverei ámanhã a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha lettra.
Acharam a idéa delicada, e a criança, que havia dois annos não tinha pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:
«Meus queridos papás.
Sou eu; adoro-os de todo o meu coração.
Seu filho Adalberto.»
Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de proposito, deitado lá a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.
A sua affectuosa protectora correu para elle de braços abertos e beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.
O rapazinho disse a sua oração, que não tinha esquecido, e sentiu-se feliz vendo-se de joelhos{229}defronte d'um Christo de marfim semelhante áquelle que via em Valneige no quarto de sua mamã.
Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, até ás onze horas da manhã! Respeitaram aquelle somno depois de tão vivas emoções. A senhora Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julião, que tinha chegado durante a noite.
O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto, que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversação.
Julião com um modo rude e inflexivel, fallava, não sem praguejar um pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignação da turba, as maldições de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a andaluza e duas crianças, e que estavam todos quatro na cadêa. Quanto ao chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.
Adalberto começou a chorar, tanto mais que Julião accrescentava com bastante indifferença, que aAndaluza, para defender seu pae e favorecer a sua fuga tinha cahido de umas taboas mal seguras o que a magoára bastante.{230}
Uma coisa sobretudo entristecia Adalberto. Tinha um coração delicado e leal que lhe dizia: «A pobre Gella teve confiança no papá, que lhe deu a sua palavra de honra. Agora que está presa e que o Hercules é perseguido, vae julgar que a enganámos, que eu sou um ingrato e que o papá não cumpre a sua palavra. Oh! que desgraça, meu Deus, que desgraça!»
A senhora Deschamps não comprehendeu bem o desgosto de Adalberto, mas tentou consolal-o. O senhor Deschamps entreveio e repetiu umas poucas de vezes muito seriamente, que a rapariga estando sob o poder de seu pae e não tendo feito senão suavisar a sorte do prisioneiro, não se lhe faria mal algum, e que lhe dariam com certeza a liberdade logo que o chefe fosse preso e julgado; quanto a esse miseravel, accrescentou o senhor Deschamps, não merece compaixão alguma.
Estas palavras só socegaram em parte a inquietação do pequeno, e nenhuma das pessoas com quem elle estava percebia como e porque elle se interessava tanto pelo Hercules, o homem que o tinha arrancado tão rudemente ao amor da sua familia. Julião pensava e dizia simplesmente, que o pequeno tinha desarranjo de cabeça.
O mais engraçado foi quando a senhora Tourtebonne, empurrando o seu carrinho, veio de tarde saber noticias do pequeno da adêga.{231}Quasi que o não conheceu com o fato com que a senhora Deschamps o tinha vestido. Quando lhe disseram que o seu protegido estava triste, e que soube a causa da tristeza, a boa da mulher exclamou:
—É possivel! pois não gostaria de vêr aquelle maroto condemnado ás galés para o resto dos seus dias?
—Oh! não!
—Desculpe-me dizer-lhe que tem bondade de mais. Da rapariga não digo nada; a velha mesmo, passa; mas o chefe? É um monstro, e se eu fosse governo em vez de ser vendedeira de fruta, havia de fazer cortar a cabeça a todos os que roubam crianças.
Estas palavras fizeram estremecer Adalberto; mas tranquilisou-se, pensando que a boa da mulher era realmente vendedeira de fruta.
Para combater esta tristeza inesperada, a excellente senhora Deschamps levou Adalberto ao jardim. Um olhar que elle deitou para o lago fêl-o presumir que a pesca seria para elle uma distracção. Fallou logo n'isso a seu marido, que organisou a mais bonita pescaria que se póde imaginar. Deu o melhor apparelho ao seu hospede, ensinando-lhe com bondade todas as finuras da arte, e levando-o, por uma felicidade espantosa, a um verdadeiro triumpho. Cada peixe que cahia causava ao pescador um tal prazer, que os pensamentos penosos que o opprimam socegaram visivelmente. Voaram as{232}horas n'este util passatempo, e tendo-lhe passado de todo a dôr de cabeça, de que o pequeno se queixára, pediu papel, penna, tinta e poz-se a escrever:
«Meu querido papá e minha querida mamã.
«Quasi que já não sei escrever, apenas o bastante para lhes dizer que os amo sobre todas as coisas, e que desejo muito vêl-os e abraçal-os, assim como á minha irmã e meus irmãos. Tenho tantas coisas a dizer que não direi nada para não ser muito extenso. Ai! ha quanto tempo os não vejo! Estou em casa de um senhor muito bom e de uma senhora muito boa, no quarto de quem eu fico. Ella deu-me umas calças muito boas e uma jaqueta igual. O seu marido ensinou-me a pescar e apanhei cinco peixes; são para frigir. Oh! que felicidade quando eu abraçar os meus papás! Que desgraça que foi a minha desobediencia! Tudo quanto me tem succedido, foi por minha culpa; merecia ser castigado; mas se soubessem como eu tenho sido infeliz! Gella era muito boa, e eu gosto muito d'ella. Meu querido papá, veja que lhe não façam mal, e que lhe não prendam o pae.
«Ella está ferida n'um pé! Ha aqui pessoas que querem fazer condemnar o pae. Oh! venham depressa, peço-lh'o muito, por causa do que sabem e que se não póde dizer. Não me atrevo a fallar n'isso porque é segredo e receio{233}que se não devam confiar segredos ao correio. Este senhor e esta senhora sabiam que eu tinha cahido na sua adêga ha quasi seis mezes. Hei de contar-lhes tudo, e a minha mamãsinha ha de chorar, com certeza. Ha coisas bem exquisitas: ha pessoas tão bondosas que gostam de mim como se me conhecessem muito. Foi uma rapariguinha que me puxou pelo braço dizendo-me o meu nome, quando eu pedia esmola. Julguei que ella tinha sido mandada pelos meus papás, segui-a immediatamente; chovia, eu estava como atordoado. Empurraram-me, empurraram-me até á carruagem. Uma mulher gritou:
«És tu?»
«Tinha a voz da minha querida mamã, mas era uma camponeza. Emfim, eis-me a salvo e de um modo diverso do que eu esperava. Penso que foi Nosso Senhor que arranjou isto, visto que é elle quem faz tudo. Oh! como eu gosto dos meus papás!
«Adeus, querido papá e querida mamã, eu estou aqui muito bem, mas gostaria muito de voltar para casa. Abraço muito muito Camilla, Eugenio e Frederico. Oh! como nós vamos ser felizes! Abraço tambem Rosinha, de quem nunca me esqueci. Gosto de todos de Valneige, digam-no ao Philippe, ao Gervasio e aos outros.
«Ah! Como eu hei de ficar contente quando os tornar a vêr. Mas façam com que não prendam{234}aquelle horrivel homem, para que Gella não seja desgraçada por minha causa.
«Do seu filhinho
«Adalberto».
O senhor Deschamps lacrou a carta do pequeno diante d'elle sem a ler, depois mandou Julião ao correio.
Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher não deixou de lhe fallar em Adalberto, e como Julião desejava immenso que a justiça não deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua opinião e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto sabia.
Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a inchação da cara do senhor Baptista, e essa inchação absorvia-o a ponto que apenas lhe restava a força de responder com os seus famososhuns! Só a idéa de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se fanatico por elle, em presença d'esta incommoda inchação; e quando a sua antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforço supremo:{235}
—Visto que o pequeno se achou, não é preciso mais nada.
—Não, não, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.
Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na prisão torcia as mãos de desespero. Ella que só tinha feito bem ao pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na fé jurada, julgava-se perdida pela criança que tanto amára e na sua afflicção exclamava:
—Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! não foi isto o que tu me ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faça o bem pelo mal, e todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto dando-me a sua palavra de honra. Devia não ter acreditado n'ella; acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu mentiste e todos me enganaram! Farão condemnar meu pae! Sou eu a causa disso, morrerei de pena, e és tu que me matarás, tu Adalberto!
Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um pé, ameaçada de todas as desgraças a um tempo, não duvidava que o pequeno francez não tivesse sido levado pelos seus paes, graças aos esclarecimentos d'ella.
Infelizmente Gella não era a unica a queixar-se. Na vespera á tarde, os camponezes, deixando a festa no meio da confusão causada por uma chuva torrencial, tinham visto ao pé d'uma{236}arvore uma mulher do campo desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mãos brancas contrastavam com a simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que não era certamente seu marido, nem seu irmão, esforçava-se para a fazer voltar a si, não lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella mulher?{237}
Image pg237Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)
Image pg237
Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)
{238}{239}
Haviam passado dez dias que tinham mudado o aspecto a muitas coisas. A velha Praxedes, que desde muito tempo parecia ter apenas um resto de vida, mas um resto muito mau, a velha Praxedes tinha succumbido ao choque, e o seu desapparecimento d'este mundo não deixára saudades. As duas crianças, Natchès e Tilly, das quaes Adalberto tinha narrado as tristes aventuras, tinham sido recolhidas provisoriamente pelos bons moradores da casa branca. Tilly tossia a todo o momento, e todos sentiam por esta rapariguinha uma grande compaixão.{240}
Continuavam as indagações, mas cessaram de perseguir o Hercules; a boa Gella, transportada da prisão para o hospicio, estava n'uma cama muito aceiada, rodeada de cuidados, de que a sua ferida carecia. A sua expressão era serena; sabia já que a fuga do pequeno tinha sido um dom da Providencia. Conhecia e explicava a si propria o encadeamento de successos que tinham preparado a libertação de Adalberto; e, tranquilla do futuro, já não dizia: elles enganaram-me!
Mas o que se havia passado em Valneige? O pae não tinha partido apressadamente logo que recebera a carta do senhor Deschamps? Não.
A mãe não tinha escripto, para mostrar pelo menos o seu reconhecimento? Não.
Comtudo havia-se recebido uma resposta de Valneige, mas era de Camilla e redigida nestes termos:
«Senhor.
«Escrevo da parte de meu pae, doente ha um mez e reduzido pela febre a uma extrema fraqueza. A sua carta ha de cural-o de certo, porque o seu mal é o pezar que o opprime desde que perdemos o meu manosinho.
«A mamã teria partido immediatamente se estivesse aqui, mas um negocio muito grave obrigou deixar meu pae para emprehender uma longa viagem, acompanhada por um dos nossos criados. Escrevi-lhe esta manhã, e{241}mandei com a minha a sua carta, que lhe explicará tudo. Pobre mãe, como ella vai ser feliz depois de ter chorado tantas lagrimas! Em poucos dias ella irá a sua casa, e póde crer que terá restituido a vida a meu pae, a alegria a minha querida mamã, e a felicidade a uma familia toda.
«Meu pae encarrega-me de lhe dizer que meu irmão falla-lhe na sua carta de uma rapariga chamada Gella, que prenderam, e que foi sempre muito boa para com elle, e que nós não desejamos perseguil-a, visto ella não lhe ter feito mal algum, mas ao contrario ter concorrido para suavisar a triste sorte de meu irmão. Por isso meu pae deseja que se não castigue esta rapariga, e que a mandem para o hospital se estiver doente.
«Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje mesmo ás authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que não continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir á senhora Deschamps o que nós quizeramos dizer-lhe de viva voz, e agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o que elle soffreu entre aquella má gente. Aceite os protestos de profundo respeito de
«Camilla de Valneige.»
Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.{242}
«Meu queridinho.
«Abraço-te muito, muito. A mamã partiu, ha oito dias, vestida de camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem tenção de ir a todas as feiras indicadas por... A nossa querida mãe estava de certo alli ante-hontem; mas de longe e no meio da multidão não te viu ou não te conheceu.
«O papá está bastante doente; comtudo começa a melhorar desde hontem. Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e chorava, como a mamã choraria se estivesse aqui.
«Não te atormentes, tudo se ha de arranjar. Não se fará mal a ninguem, e cuidar-se-ha em fazer bem á boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que estão no collegio. A nossa velha Rosinha está doida de contente; todos te querem muito e desejam vêr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao pé de mim, no nosso Valneige, no meio de todos nós.
«Tua irmã
«Camilla».
Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de não o deixar perceber. Não se devia saber que sua mãe,{243}disfarçada em camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicações d'alguem. Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar á palavra d'honra pedida e dada; ora é impossivel faltar á sua palavra de honra sem se deshonrar. O pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, tão boa rapariga e tanto para lamentar como filha d'um salteador.
Como se póde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes não conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que não teria levado tão longe as attenções, e que ao mesmo tempo que protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir seu pae até á fronteira; Julião accrescentava até ao fim do mundo.
A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e não pensava senão em divertir a criança, em pentear os cabellos de que a sua mamã tanto gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma moral muito pura se disfarçava sob os gracejos infantis.{244}Emfim era uma mãe a proteger o filho de outra mãe!
Sophia só dava attenção a uma coisa; a criança estava pallida e magra e ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte culinaria é para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e engordasse mais depressa. Como só havia tres ou quatro dias para esta grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e offerecia-lhe entre as refeições uma meia duzia de bons petiscos.
Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel á tentação, e, seguindo as insinuações de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.
Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradições de Valneige; «uma criança bem educada, tinham-lhe dito cem vezes, não deve nunca comer fóra d'horas; é golodice, torna o homemmaterial, quer dizer, favorece n'elle os instinctos do animal.»
Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse á senhora Juliana, que lhe agradecia as suas attenções, mas que tendo comido muito bem desde que estava na casa branca, não se lembrava já das sopas da velha Praxedes, e que não queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua mamã.{245}
—Mas a sua mamã não está cá.
—Não importa; comer sem necessidade fóra d'horas seria desobedecer-lhe, e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.
Sophia concordou que o querido pequeno era muito rasoavel, e mudou de systema. Comtudo viu com verdadeira alegria e alguma vaidade, que o pequeno ia engordando, que os seus olhos se animavam, e que tinha melhor côr.
O que a felicidade e a liberdade tinham feito em grande parte, attribuia-o Sophia só aos seus manjares; e d'este modo todos ficaram contentes.
Havia seis dias que Adalberto vivia debaixo d'este tecto tão affectuosamente hospitaleiro, quando uma senhora d'um aspecto grave e distincto, seguida por um criado, bateu á porta da casa branca. Julião abriu, mas antes de ter tido tempo de lhe dirigir a palavra, correu ella para a criança, que brincava no pateo com Tom, e apertou-a estreitamente nos seus braços maternaes. Toda a gente accudiu. Foi grande a commoção. O proprio senhor Deschamps perturbou-se, e Julião disse baixinho a Gervasio, que chorava d'alegria:
—Palavra, que até estou a tremer! Faz mais impressão do que o attaque de Sebastopol!
Depois d'este primeiro instante de surpreza entraram na sala, e, por um rasgo de sensibilidade, a senhora Deschamps disse a seu marido:{246}
—Deixemol-a só com elle.
Ambos sahiram da sala e fecharam a porta.
Foi então que a senhora de Valneige comprehendeu o grau da sua felicidade.
Não fallava, mas olhava para seu filho, como se quizesse ler na sua alma. Parecia-lhe, pobre senhora! tornar a tomar posse d'este pequeno ser, que Deus lhe tinha dado. Pegava-lhe nas mãos, que apertava nas suas, como para affirmar os seus direitos, e restabelecer esta dôce cadêa, que nos impõe os affectos do coração. Oh! que de lagrimas que cahiam dos seus olhos! Seu filho estava alli e adorava-a!
A vida tornava a ter os seus encantos. A senhora de Valneige já se não sentia infeliz.
A presença de Adalberto ia curar seu marido, que só soffria pela sua auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa, commovida... Foi o momento que o bom coração de Sophia escolheu para offerecer uma bellaomelettede dois ovos frescos, ou biscoitos, ou vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia só receiava uma coisa nas grandes agitações da alma; era vêr a sua gente morrer de fraqueza. A senhora de Valneige, como é facil de suppor, não tinha a menor vontade de comer umaomelette; recusou-a, pois, o mais graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.{247}
Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel Gervasio. N'isto não fazia mais do que seguir os costumes da casa. A senhora Deschamps não podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer, como nossos paes, o pão e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porém, demasiadamente as sensações delicadas, para não as confundir com umaomeletteou qualquer outra cousa. É inutil explicar o genero de relações, que se estabeleceu entre as duas mães. Parecia que se conheciam ha muito. É porque, effectivamente, as almas nobres reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas ás outras sem embargo de distancias.
A senhora de Valneige fallava á sua nova amiga essa lingoagem do coração, que só elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.
Para ella não era a desconhecida mais do que a mãe da criança perdida, da criança que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.
Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao trio, a conversação tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do futuro, porque as duas mães só tinham visto o presente. Começaram então{248}as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.
A castellã informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros. Tudo se disse e tornou a dizer; a mãe estava insaciavel, fazia repetir tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz descer áquelle sitio, que por pouco não tinha sido um tumulo; viram-na ler com horror as palavras escriptas na parede. Á noite mostrou desejo de lá descer outra vez, e alli, só, no subterraneo com o seu filhinho Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o coração é capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse vêr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle chamara Adilia.
—Mamã, querida mamã, dizia o rapazinho beijando as queridas mãos de sua mãe, é preciso procural-a no céo para que o papá a conheça e tambem goste d'ella.
—Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para ti, o que te fez bem.
E, como a terna mãe olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a criança, por uma delicada inquietação, perguntou timidamente:{249}
—O papá já não está zangado?
—Zangado porque?
—Por eu ter desobedecido. Não me quer mal por isso?
—Quem te ha de querer mal, meu pobre filho? Não foste tu bem castigado? Teu pae espera-te para melhorar. Ama-te muito, isso sim.
Então Adalberto lançou-se nos braços que sua mamã lhe estendia, e, submisso para sempre, á força de soffrimento, fez este juramento:
—Prometto que nunca mais torno a desobedecer.
A mãe e a criança cheios de felicidade e de ternura, ficaram alli, em pé n'aquella adêga, e achavam-se bem. O silencio, a escuridão, tudo os isolava; sem darem por isso ficaram immoveis, porque ninguem queria dizer primeiro: «Partamos».
O rapasinho, commovido pela ternura da mãe, balbuciou baixinho, como se aquella solidão ainda não fosse bastante para ouvir um segredo:
—E Gella, mamã, Gella que me quiz salvar?
—Irei vel-a ao hospital.
—Oh! que felicidade!
A hora ia adiantada. Na casa branca não se recolhiam tarde. A pendula da sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu, ouvindo aquella bulha,{250}que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castiçal na mão, se dirigiu para o seu quarto.
A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como são os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoção que tinham mudado para aquelle quarto oleito-canapé. A senhora Deschamps, delicada em tudo, quiz que a mãe visse o filho dormir.
No dia seguinte a senhora de Valneige, não sem excitar alguma curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que queria vêr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu só com seu filho. Vendo-a, Gella sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraça, pelo crime de seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em desalinho, revelava assim a humilhação da sua alma inculta e como que abandonada.
A criança, cheia de confiança, abraçou-a como a unica amiga que tinha tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas mãos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de seu coração. Depois sentou-se á cabeceira do leito, e fallou muito tempo baixinho; a{251}rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa, Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluços entrecortavam:
—Não, minha senhora, eu não sou digna de tantas bondades! Dar-me trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vêr todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae não tem outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe pão se lhe faltar; elle que já começa a estar velho.
Meu irmão não ficará com elle, porque só a força é que o prende; ha de então ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora, trabalharei, não como d'antes, porque o medico diz que eu fico côxa; mas estou costumada a coser, e não me faltará boa vontade. Irei encontrar meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas, é verdade, para comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de eu fazer, minha senhora, é meu pae!
A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: «Nunca desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.»
Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto não tinha podido dizer-lhe sobre a alma e o céo. Tudo se tornava possivel n'estes dias de reclusão absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller ia instruil-a,{252}e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o berço de uma nova existencia, faria a sua primeira communhão, e unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criança tinha dito: «Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.»
Oh! como ella seria recompensada dos seus esforços, e como se sentia bem abençoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mão sobre a testa da doente, que abrazava, lhe disse:
—Sê, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vossês toda a minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres, minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflicção que te aches, dirige-te a mim.
Amo-te e abençoo-te.
Gella seguiu com a vista a mãe e o filho, quando ambos a deixaram, e quando Adalberto se voltou para a vêr ainda, disse-lhe ella, com o coração cheio de reconhecimento:
—Obrigada pelo bem que me fizeste.{253}
Image pg253Eu não sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.)
Image pg253
Eu não sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.)
{254}{255}
Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze á meza. Todos conversavam todos riam; que animação! que contentamento! Eugenio e Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor, em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a saude e a alegria.
A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto nas algibeiras, mas, que apenas apparecêra, havia banido todo o mal e todos os aborrecimentos.
Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias; estava pallido{256}e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os espiritos e favoreciam as expansões.
Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á inquietação que então pesava sobre todos.
Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á meza.
Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:
—É talvez a morte que vem, e depois o céo.
Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.
A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida para sempre, e estesemprenão podia durar muito. O peito delicado d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados tinham dito: «Sem esperança!»
E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a solidão! as agonias! a frieza!»{257}
A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do seu captiveiro:
—Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.
Quanto ao bom e gordo Natchès, roubado assim como Tilly, tudo n'elle, tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, não se entretendo senão na cosinha, extasiando-se diante d'uma caçarola ou d'um petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia d'elle um instrumento commodo entre as mãos de Julião e de Sophia; foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes, varrendo o pateo, regando, penteando o cão. Fazia geralmente as coisas mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que começavam sempre assim:
—Quando eu era palhaço...
Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade; achou tudo isso nacasa branca, e recebia mais, a luz sufficiente aos espiritos grosseiros para servirem{258}o Senhor justo, que não pede contas ao homem, senão do pouco que lhe confiou.
Não tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para estudar a posição de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da maneira mais util.
Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos, encaminhando-se para o Rheno, deviam parar nacasa brancae descansar na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.
Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam Rosinha a poupar-se ás fadigas d'uma grande viagem no começo do inverno; fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o momento escolhido por ella para ir á sua terra, achou que não podia ir sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e começou então a fazer os seus arranjos. Não eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma chapeleira velha.
—Não te esqueças do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de roda d'ella.
—Não tem perigo! Quero-lhe como ás meninas dos meus olhos; por isso o dependurei ao meu pescoço.
—Ao teu pescoço? Mostra-m'o...
A criança viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoço de Rosinha; esta caixa continha{259}o botão e a nódoa de tinta que tinha trazido do exilio! Adalberto abraçou de todo o coração a sua velha governante.
Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.
A demora tinha sido grande; houve inquietação e incerteza; o senhor de Valneige, não achando o seu wagon, disse a seu filho:
—Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estação.
Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as portinhollas—iam partir. O pae lançou-se precipitadamente na carruagem onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:
—Estamos aqui muito mal; mas é só por um quarto d'hora.
No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feições accentuadas chamavam sobre elle a attenção.
Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho empallidecer.
—Que tens tu, perguntou-lhe.
—Nada.
—Sentes-te mal?
—Não, papá.{260}
O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho respondeu-lhe transido de medo:
—É o homem!
Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.
Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o á justa vingança d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha testemunhas, provas: o botão, a nódoa de tinta, a fita doirada, as palavras escritas na adêga, a deposição de Baptista e da vendedora; Julião, Sophia, Josephina tudo lhe vinha á memoria, tudo o levava a proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella, que se fiava na sua palavra. É verdade que as suas previsões não se tinham realisado; mas tinha dado indicações em troca D'uma promessa. O senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:
—Ó meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra é um juramento, que um homem não pode violardebaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma circumstancia.
Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos; chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beiços brancos, e Adalberto soltou um grito. O desmaio durou só um instante; as companheiras, de viagem abriram as vidraças para dar ar{261}ao doente. Todos olharam para elle e para seu filho.
Esta grande emoção passou. Na primeira estação o pae e o filho desceram.
O homem de ferro desceu tambem, e não tornou a subir.
Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia a familia, chegaram ácasa branca. Tudo em azafama! Faziam as camas, punham a meza etc. Não faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais uma fornalha acêza, porque Sophia não descansava.
Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de amizade.
Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a um dos seus netos.
Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa, variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!
Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de perfeito contentamento:
—Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer{262}habilidades nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!
Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram perfeitamente e acordaram bem dispostos.
No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.
A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para a criança.
—Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.
Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de tratar por tu o pequeno, e ajuntou:{263}