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VNão ha atalho sem trabalhoTransportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra.As duas portas da fachada estão fechadas, mas um estreito postigo, que abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por elle, e, seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as paredes, que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor.É uma especie de dormitorio ladrilhado com portas á direita e á esquerda, provavelmente accommodações dos creados do palacio, quando fôra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, ameaçam cahir sobre a cabeça, e aqui e acolá montes de caliça dos muros esboroados promettem um desabamento proximo. No topo uma porta derreia-se pendente a meio cutelo do ultimo leme enferrujado.Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, com duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e guiemo-nos pela claridade baça, e pelo alarido que da extremidade de outro corredornos estão avisando de que na estancia immediata conversam, ou disputam muitos homens.No fim do corredor apercebem-se os vãos de duas escadas interiores, cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma fenda larga racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas com travessas cerram a entrada das escadas, lançadas dos lados em ramos divergentes para o andar de cima.Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a fadiga a que nos sujeitámos.É a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao fundo e chaminés enormes. Uma immensa pia de pedra á direita, e uma mesa tambem de pedra á esquerda, compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam grossos troncos de arvores, cortadas em verdes, e á roda da chamma afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas tres janellas lateraes sem vidraças sopra o temporal ás rajadas, e a chuva salpica dentro fustigada pelo vento; dos canos das chaminés, meio alluidas, escorre a agua, e geme o vendaval, afogando os silvos em sussurros prolongados. O clarão dos relampagos, golfando quasi sem interrupção, allumia de phantasticos e subitos clarões as paredes e o chão lageado da enfumnada, sombria, e vasta quadra.No recanto, formado pelo angulo da chaminé, e pelo angulo de um grande armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de caracol, toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta da sahida dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bôccas de furna, communicam para acavee para a arrecadação, ambas subterraneas e extensas.Uma especie de lampião, em que são mais as folhas de papel azeitado, do que os vidros, balouça-se pendente de cadeia de ferro presa no tecto.Uma tosca mesa de quatro pés, coberta de toalha, cuja alvura desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda; dois cangirões de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de laranjas ao pé de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam a peça capital do brodio campesino, um cabrito acerejado, rodeado de batatas, e credor de tentar a gula do mais austero cenobita.Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de cabeções, do talho pouco airoso dos chamados Josésinhos, com um tronco por travesseiro, e um panno ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a immobilidade rigida dos membros, e duas vellas uma aos pés, outra á cabeceira, dizem claramente ser um cadaver.De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem, que a trombeta final, soando mais cêdo, o despertasse. O sargento Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, oSapo, as pessoas conspicuas da assembléa nocturna, em que a nossa indiscreção introduz o leitor, são as que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista n'aquelle corpo inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um suor de mau agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas. Dariam tudo por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo sangue o seu remorso, como que está avivando mais em manchasvermelhas sobre o sudario, que lhes esconde o rosto.Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios.Comecêmos pelo chefe, como é razão.A physionomia de Estevam Cabrinha não desmente a reputação. Conta pelo menos sessenta annos, mas póde melhor com elles, do que outros, menos robustos, poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimída lembra a fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhança. Faces encovadas, beiços sorvidos, barba revirada, e por cima da pelle uma côr assanhada de amora mansa, não lhe permittem suppor-se por certo nenhum Cupido, nem seccar-se, como Narciso, de paixão pela belleza propria.O nariz, adunco, em fórma de bico de papagaio, caía como apagador, ornado de botões vinosos, sobre a bôcca. Os olhos, cujo raio visual se torcia com sinistra expressão, tinham aquelle tom baço e frio de pupillas, que revela quasi sempre as almas traiçoeiras. Curto de pescoço, largo de hombros, e prendado com uma corcova assás volumosa, imita nos movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes.O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que agradecer á providencia as graças do busto. Os cabellos hirsutos, empastados na testa, alargam-se como duas orelhas derrubadas sobre as fontes, e terminam por um rabicho esplendido de meio covado de comprido, dançando enfeitado de seu laço de fita preta sobre a farda, polvilhando-a de pós, e ensebando-a de banha.Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente,afinam perfeitamente o typo singular e repugnante d'este personagem funesto, que as desgraças civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, mas que as galés cêdo, ou tarde, hão de recolher, como filho prodigo, se as iras populares se lhes não anteciparem.Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botões e vivos brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os calções de uniforme e as polainas atraiçoavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha preta e copos de roca descançava fóra do boldrié a seu lado, e a alabarda, insignia do posto, via-se encostada da outra parte.OSapomerecia a alcunha. Teria trinta annos. Era todo branco-papel, cara e cabellos, como se um moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de farinha, mas d'aquelle branco livido e sepulcral, que nos enoja e repugna, quando contemplâmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em pequeno tinha-lhe deixado em memoria a deslocação da perna esquerda, que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a andar aos saltos como a rã, ou a agachar-se, como o animal immundo, cujo nome o baptismo dos visinhos substituira ao seu.Quasi sem nariz e beiços, vesgo, e da altura de um rapaz de nove annos, não mostrava no rosto ponta de barba, e quando se ria escarnava as gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe chamavam por escarneo o bôcca de tubarão. Agil e matreiro, como a raposa, a sua actividade era incansavel, a sua consciencia larga como o peccado, o seu coração duro como um penhasco. Caçador dos mais destros, andarilho infatigavel apezar das pernas, curioso e falador como um cento de comadres, ouvia, sabia, e aproveitava tudo.Accusavam-o de não perdoar aos outros afealdade propria, e de se felicitar com os alheios males. Auctor de alguns furtos industriosos, espião e delator por officio, assassino por vocação, Gaspar Preto, como o imperador romano, desejaria ao genero humano uma só cabeça para lh'a decepar de golpe. Vestia calções curtos atacados sobre as meias de lã, botas de couro branco e salto de prateleira, collete e vestia de belbutina com botões ôccos de metal amarello, e cinta escarlate muito apertada ao corpo.A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre á mão, e a tiracolo encruzavam-se-lhe sobre o peito as correias do polvorinho e do chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de osso, que trazia na cintura, era afamada em toda a comarca pela habilidade, com que a jogava, ou com que sabia atiral-a de arremesso aonde punha o alvo.Os cinco homens da milicia e da ordenança, que acompanharam o sargento na diligencia ao Casal do Ouro, não merecem menção especial. Aldeãos corpulentos cabeceavam de somno ao calor do lume, e bocejavam de fome ao tinir dos pratos, que um creado do João da Ventosa principiava a pôr em cima da mesa. O João, sim, esse é que destaca de todo o grupo pela figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. Será homem de quarenta e cinco annos, mas não inculca mais de trinta e oito. Bem posto e proporcionado de membros, mais esbelto, do que robusto, á primeira vista, mais engraçado, do que forçoso na apparencia. A cara redonda e os beiços grossos e sensuaes, o olhar fino e malicioso, e a bôcca cheia de riso, na sua mocidade tinham feito d'elle o enlevo e o adonis das bellas e namoradas raparigas d'aquelles contornos; porém debaixo d'estas fórmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar, assimcomo o sorriso meio travesso, que lhe bailava nos labios, disfarçava uma firmeza e penetração mui pouco usuaes.Sabia ler, escrever, e contar como um mestre—eschola. Se tivesse nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! Outros muito peiores deu já á luz a urna rural. São os que, cerzindo umas abas de paletó á jaqueta hereditaria, mascarram de interpellações boçaes e de apoiados taurinos e beocios o extracto das sessões, acotovellando-se nos aditos da tribuna.O nosso amigo contentava-se, porém, com os seus trinta a quarenta moios de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia nos seus lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, honra e orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, magistratura exercida a contento de clero, nobreza e povo.O João da Ventosa, ou João Bonito, como lhe chamavam as mulheres da sua edade, gosava álém d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na charneca, fazia dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de louras. Solteiro e jovial vivia só em companhia de um sobrinho de quatorze annos, e de dois creados.Ao pôr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de passeio rondar as hortas e o olival, tinha deitado depois até ás abegoarias, e na volta de uma das arribanas, por encurtar caminho, viera descair á azinhaga, aonde a espingarda doSapoacabára de deitar por terra Antonio Simões da Aramanha.O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar o passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino já tinha saltado o vallado, e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi noite, choviscava rijo, e oribombo dos trovões amiudava. Inclinou-se para o morto, conheceu n'elle um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma praga contra o homicida, e, depois de alguns momentos de hesitação, levantou-o nos braços, como se o peso não o devesse ajoujar, e deitando-lhe a cabeça sobre o hombro, sem vergar, encaminhou-se com elle para casa. Á porta chamou o maioral e o abegão, e todos tres transportaram o cadaver para a cozinha.Duas horas depois batia á porta o sargento Cabrinha com os seus milicianos, e da parte da justiça pedia agasalho por aquella noite para elles e para os presos. O João da Ventosa, ao que parece, estava occupado, porque os deixou repetir o recado terceira e quarta vez.Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu o sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao andar nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia, parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu ao aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a que dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e não socegou senão depois de ter fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de chave nas duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado do resto da casa, enchendo de pedra e cal o vão das portas.—A menos de não lhes nascerem azas de repente, murmurava o sargento, para voarem, ou de passarem como espiritos através dos muros, os dois estão seguros. A evasão pelasjanellas, vista a altura, equivale a um suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como não ha senão uma escada e uma saida, e ambas vão dar á cozinha, aonde conto acampar, qualquer tentativa serviria só de os tornar a metter nas goelas do lobo!Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, ácerca da generosidade, que lhe suppunha de não consentir que elle e os seus jejuassem só com o leve almoço, esmoido no largo passeio do Casal do Ouro á Ponte da Asseca. João da Ventosa respondeu ás gargalhadas, que de sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, mandou trazer luz e accender o lume.N'este momento entrou oSapo.Rondando as visinhanças o virtuoso assessor do sargento achou a porta meio cerrada, ouviu de fóra a voz aspera e roufenha do amo, e sem mais ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o corredor, e veiu farejar a ceia e a pousada.A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de um tanque, e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excursão de que se recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e não poude conter uma exclamação em alta voz, exclamação de susto e de alegria ao mesmo tempo, que não escapou á curiosa attenção, com que o João da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de longa data.As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado ácerca dos verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se.Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para elle os não accusar secretamente do delicto, e não vêr as mãos de ambos tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio Simões, não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar as costellas do sargento e doSapo, e o mau conceito que formava d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um plano concertado com a deliberação e perversidade, que tanto caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas.Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa lisongeava-se de os codilhar a ambos em esperteza, e armára uma rede, em que haviam de cair por força. Calou-se, pois, e esperou.D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e cansado lampião, cuja luz mortiça só começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz outro creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clarões, lambendo as paredes da vasta chaminé, derramaram por toda a casa viva e repentina claridade. De subito o sargento, que se achava com oSapojunto da mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e irresistivel extendeu a mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto. A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito de espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres rubicundas amorteceram-se, e, se não se ampara com a hombreira, resvalava redondono chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos.Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até á parede com as mãos abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as pupillas envidraçadas, e tal convulsão em todo o corpo, que o frio de uma sezão mortal não podéra ser maior.Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da devoçãodenenhum d'elles.João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para não se prender no mesmo laço, que tecia aos outros.Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa, desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes.Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o conhecia de vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus exposto no caminho toda a noite. Não havia outra casa decente, aonde esperasse a sepultura christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o compassivo João accendia de vagar duas vellas de cêra, amarelladas dos ocios da gavêta, e cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha uma aos pés e outra á cabeceira do morto, completando com todo o socego, e de proposito, a exposição funebre, que arripiava os circumstantes, e especialmente o sargento e seu confidente, constrangidosa associar toda a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem, que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais!Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!VIRessurreição de LazaroDecorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem balbuciava. Só a pouco e pouco é que se foi restaurando do susto, e maldizendo oSapo, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio desvairado uma evasiva para desculpar o pavôr, que o accommettêra, e que não era senhor de disfarçar.Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue e do cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher! Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que havia de santo no céu e na terra, que o não obrigassem a velar a noite ao pé do morto, se em vez de um, não queriam enterrar dois cadaveres.João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor, depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir cuidar dos hospedes presos, que desejava receber como pessoas nobres, e quea má reputação da casa por certo assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o coração batia-lhe com tal força, que parecia querer saltar fóra do peito.O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de tres bicos, pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mão, e começou a subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de tartamudo de mêdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a gaiola, como dissera antes, era solida, e não deixaria escapar os passaros.Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o alento dos milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangirão e dois canecos de estatura descommunal, destinados ás libações. Os soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto, esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e oSapo, o qual, agachado como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava signal de vida nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros.A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia executando com a mão vagarosa por entre as orações resmungadas entre dentes a Santa Barbara e a S. Simeão Stelita, advogados contra os trovões.Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho fino e defumados, recheio das arcas dolavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao pé do morto. Finalmente os moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto dos presos para os servir.Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e metteu a chave no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver defronte. Essa é que se lhe representava um supplicio insupportavel; e se não fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos, teria pedido um pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e iria para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. Não se atreveu, porém. De cabeça baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e não podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao brazeiro, do outro lado, defronte doSapo. Ao mesmo tempo o João da Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia, se não queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de fraqueza.—Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do lume, mandriões? Para temperar umas migas será preciso chamar o cozinheiro do patriarcha? OhPedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais gostosas. Dêem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima, que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a inferneira que logo ahi vae em sendomeia noite! E então com esta visita em casa! E apontava para o morto. É preciso que o demonio e as almas do outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago, limpos de coração, e lavados de consciencia... Que tal é esse vinhinho, camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu discurso petrificára os movimentos, conservando a taça rustica a meia distancia da mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas, para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já um espectro em cada canto.—Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bôcca á moda hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias.O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em pé e desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a arder. OSapoagachou-se mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes.—A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das vozes com fortes punhadas em cima da mesa.Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas, saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr a mesa, a correr trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas e as laranjas. O cangirão refrescado por segunda visita á adega estava cheio até á borda.—Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meuSapo, com essa cara de alvaiade vae para alli. És curioso, e quero que me espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de ferro. A pratita, que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que vivemos, digam lá o que disserem, sempre é o mais seguro... Nada de tristezas! Longe vá quem mal nos quer! Senhor sargento á nossa! É bom copo, tenho ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me esse caneco até cima, e despeje-m'o de um trago, senão digo que o vinho é mau, ou que debaixo de boa capa ruim bebedor!Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. Não tinha sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada momento alevantada por cima dos hombros. OSaponão padecia menor tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca, tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma corrida louca; mas os pés estavam grudados ao c não padecia menor tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca, tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma corrida louca; mas os pés estavam grudados ao chão e as pernas mal o sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de Antonio Simões, e ouvia o grito que elle arrancára caindo ferido. O suor escorria-lhe embagas da testa, e os beiços tremulos denunciavam a intensidade da agonia.O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua jovialidade cresciam á proporção, que iam aggravando-se as dores moraes de ambos.—Que é isso,Sapo? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado. Que é feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com cara de enterro. Terás tu morte de homem ás costas, diabo?!!...A esta interpellação directa, que o rendeiro disfarçou em uma risada larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles no tribunal de Deus. Á pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas não poderam responder: não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até ás mais fundas cavernas do coração.João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais longe para não se descobrir, e vendo os dois de pé, mudos, e pasmados, tractou de os tranquillizar a seu modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por outro modo.—Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no coração com o tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa não são bons, sei muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha quem o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o dente do siso, e... É melhor não tocar em cousas más. Mas sempre lhe digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um reboliço lá por cima de cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que vinham os sobrados abaixo...—E nunca viu nada, senhor João? atalhouum dos milicianos meio engasgado com um pedaço de cabrito, que o susto causado pelas reflexões caridosas do rendeiro lhe atravessára na garganta.Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da farda, e pelas frestas da camisa aberta mostrava o peito vellôso como o de um cerdo. Tinha os cotovellos na mesa, a cabeça entre as mãos, e os olhos espantados.Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras horas.Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, tão esquecidos de Deus e da justiça humana, desmaiavam como creanças deante da sombra do seu crime e dos pavores do invisivel.—Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de repente, e fazendo suppor com a reticencia, que não tinha animo para dizer tudo.—Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos menos timidos, mas que era de certo dos mais curiosos.—Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... respondeu João da Ventosa. É melhor falarmos de cousas alegres.—Não. Não! Diga!—Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e cuidei logo que ficaria fechada lá em cima. A esse tempo ainda eu não tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e aonde estão os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres salas. Apitei, chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto maisescuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabeça torcida!... Não sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes. Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim até á porta, que hoje está entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a luz, um clarão bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão alta e transparente, que se via através das roupas e do corpo (se era corpo!) como através de um vidro fino. Não posso dizer-lhes o que senti, mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mão, quiz fugir e fiquei parado.«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas mãos! Nenhum matador sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella morta jazia aos pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser peior... Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós tem de lavar as mãos de sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de prata. É a hora da senzala principiar lá por cima. Não se assustem! O vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. Nossa Senhora, minha madrinha, não ha de desamparar-nos.»A consolação acabou de petrificar o auditorio, que a narração já não tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua sentença que o espectro annunciára pela bôcca do lavrador? Os canecos ficaram cheios sobre a mesa;o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; e só o dono da casa levou aos beiços, e exgotou a libação, que propozera. O volumoso relogio de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos. Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel, poz-se de pé, e exclamou:—Meia noite! Deus seja comnosco!N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores á scena alli representada, um furacão espantoso saccudiu e abalou todo o palacio com rugidos prolongados, um trovão rebentou perpendicular com o estrondo de cem canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva, açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros, enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu quasi extinguir o lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo tempo as duas portas pregadas com travessas á entrada das escadas, que desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal, envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima.Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois correndo, comoloucos, investiram pelo corredor, e como rebanho tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas nos pés, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia!O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da appariçãoinopinada, sem saber já de si, e sem ver o morto alçar-se, trepou em dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos aposentos dos presos, tão cego e attonito que atropellou na carreira a velha servente na sua cama, e foi cair de bruços ao pé da mesa, aonde se apagava em vascas a véla consumida de um castiçal.OSapo, que observámos paralyzado momentos antes, vendo surgir o fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si, quando o cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva, deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. Então, como o tigre que rompe a jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego, sem voz, e sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa.Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroço, não escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto levantar-se e saccudir os véus funebres, assaltou-o tal convulsão de mêdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no chão do alto das andas, em que estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro!Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam terminadas. No momento, em que, afogado em riso, o João da Ventosa accudia a levantar o fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela escada, bradando possesso de espanto. Não era sem causa!Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo tolhido de rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em anagua de estopa, benzendo-se, e invocando todos os santos da côrte do céu, quando aquelle furacão humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello. Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era peior do que o perigo, e tractou de apressar a retirada.Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era malsim na alma e nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma véla e abriu as cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia! Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso, que não se bolira, fôra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse coração diria que era o coração! Não o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por minutos estatico a contemplar aquella solidão, obra visivel do demonio.Por fim este ultimo golpe e uns suspirosem tremulos, exhalados do outro lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservára. Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos, porém com menos felicidade. Quiz descer a escada, os pés atraiçoaram-o, e mediu-a com as costellas de cima até baixo. Quando tornou a si com a dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados perderam a luz de assombro e de pavor.No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de pé, encarava-o sombrio e terrivel. Ao pé da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lençoes, extendia o braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles João da Ventosa, mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar, como se o convidasse a fugir. Não poude mais. Atou as mãos na cabeça e caíu sem sentidos.VIISegredos em toda a parteOs aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, que guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade não acabára tambem de desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caçadas, batalhas e scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de ennegrecidos, os moveis ainda resistíam em parte aos seculos e ao caruncho.O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio, um monumento, pelo descommunal das proporções. Um pesado baldaquino de seda desbotada cobria o céu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo desciam dos lados a arrastar pelo chão.Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára pelo esplendor dos dourados, masque na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de Veneza em cima, comido e manchado no aço, sustentava duas jarras do Japão da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho, completavam a mobilia.Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vão inteiro. O bofete liso com tinteiro de bronze antigo, e asquatrocadeiras que constituiam todooseu adorno, não accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e as colgaduras[1]de couro, rotas ou tão coçadas, que não tinham já côr possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal.O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da escrevaninha, e começou machinalmente a traçar linhas e dezenhos informes em um papel. Desde o Casal do Ouro até alli não descerrára os labios, nem para falar á companheira do seu infortunio; e só o ardor sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de lagrimas.Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoçou-lhe a expressão severa. Cedendo ao carinho de tão suaves caricias, e tornando os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha. Cingindo-lhe depois o collo com os braços, cobria-lhe de osculos os cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietação.Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver ás desgraças da patria é porque não queria deixal-a orphã e desamparada n'uma edade, em que as illusões armam tantos laços á candura e á innocencia.Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, nem á donzella. Quando para a consolar affirmára, que um vago presentimento lhe augurava, que não chegaria a entrar na prisão da villa, via-a aberta para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar! Quando lhe lembrava, que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho, e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da invenção, porque ignorava se a sorte d'elles não seria egual, ou peior n'este momento!Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das almas, que são todas sentimento, é adivinharem os verdadeiros motivos dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para não atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluços.Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa do sargento de sentinella, como vimos, á hospitalidade do rendeiro, interromperam a conversação cortada, com que os dois se distraíam, e apenas as portas tornaram a fechar-se,e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada uma refeição mais do que sobria, e já cansados de dissimular, despediram-se e cada um se recolheu á sua camara.A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro.Leonor aproximou-se então do espelho, lançou sobre as espaduas núas um penteador de cassa, e principiou a desatar as tranças, que, desfeitas, se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu. Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella nuvem leve de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que fala com tanta eloquencia; e prende com tão irresistivel poder até os mais isentos. A bôcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas, berços de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a expressão contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo esbelto, disputando alvura ás açucenas, pousava-se com graça; as faces e a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em que as rosas nascem e desmaiam á mais leve commoção, radiosa carnação, que tanto realça a belleza meridional, mesmo quando não cede ás mulheres do norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava sobresaltado. A mão estreita e leve deslaçava impaciente os nós de fita do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulações airosas a todos os movimentos.Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação do animo combatido de apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e assustava a timidez da paixão entre hesitações e receios, mais fortes que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão da esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo da sua alma só encontraria n'ella duas imagens—a do pae extremosamente querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma ternura invencivel avivava a cada palpitação do peito!Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as mãos e a vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna sobre o papel, e começou a retratar as tristezas do captiveiro e os sonhos do coração.Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, tão veridicas como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do hombro da linda escriptora ao qual o véu diafano das rendas mais faz sobresaír o marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á medida que ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D. Marianna de Sousa,mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa.Escutemos a conversação travada a distancia entre ellas. É de crer que nos diga mais, do que extensos commentarios ácerca dos principaes personagens, cujas aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e escrupulo proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á lisonja.Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma prisão, e talvez, ai! tremo dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas mãos. Offendi-lhe o orgulho; é capaz de tudo; e conto com a vingança promettida. Não me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo, e esperavas resignada a tua sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou nenhum caso faria d'elle... O despreso até mata a aversão, e de certo ninguem o despresa tanto, e com mais rasão.«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubiça as terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!), e por desgraça poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que não conheço, que me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa é mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e bem pódes imaginar o espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta,que me offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi! Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareço com meu pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos desejos de ser homem! Mulher, senão fosse o mundo!... Ha affrontas, porque choro amargamente a nossa fraqueza!«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. Não sossobrou com o revés, começando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei que não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. Não tardou. Veiu tirar-me para dançar, louvou o meu toucado, o meu vestido, a delicadeza das mãos, a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz... Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de dois gumes. Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor consumado. Depois, e no fim de tudo, por acanhada e esquerda não queria deshonrar a nossa educação do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela provinciana boçal e nescia, que ao principio cuidára encontrar...«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, que não envergonhei as lições do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua cabelleira empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e acceitei-lhe o braço. Démos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas,junto de um tremó carregado de flores, teve o despejo de renovar a supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão diziam assaz que era uma ordem.«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sultão me atirava o lenço em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da gloria e ornamento dos bailes de París e das recepções das Tulherias, que a rosa do occidente iria realçar com seus encantos!... Contive-me. Subiu-me em ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! Não é possivel exprimir-te o que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal fórma transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira sómente cobiçada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava.«Perguntarás, talvez, porque não fiz o que já tinha feito, porque o não deixei? Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem; olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista com a ira, fitando-an'elle com um desdem tão altivo e firme que o obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes. Percebi que não esperava tanto, e que se perturbava. Retirando então o meu braço, dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés com aquelle olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar, que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. Não sei se foi esse, ou outro peior, o que sei é que recuou lentamente e quasi pasmado deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a mendicidade até, á ignominia de me vêr em leilão na praça, á vergonha de acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades hypocritas de um galanteio, julgando-me tão pouco que se propunha amar e pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa, esconder o sorriso nos cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços com tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se. Á roda de mim tremiam todos. Eu levantára a voz, e tinha-o constrangido a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que não me perdoou.«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas não o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo será egual... Antes a clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas de uma prisão, do que a infamia de um laço apertado sem amor pela avidez! Lagarde não tornou a falar-me. Sómente poucos dias depois, sahi acavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda mais perverso. Pararam para me vêr passar. Sabes que sou cavalleira, e que um animal fogoso não me assusta. Montava a Estrella, a egua valida de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco já não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflicção para os habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o poder dos estrangeiros.«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto meu pae é altivo e decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me o coração, e não tenho animo de cuidar!... Não! Não! A providencia não o póde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr que padeço são tão crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa prisão... com o seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque é um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, é capaz de entrar só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz do sol e deante de todos. Não rias?! Não creias que estou pintando de imaginação um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!? Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade do orgulho, quando a inexperiente educandate divertia com seus encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo, amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o coração com tanta confiança, como se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se és a amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um pouco triste, é o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais não é facil em affeições e elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em muitas cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não lisonjeia, que até o contraria em algum dos habitos e idéas mais arraigadas, vale um juramento para elle. Entre estes dois affectos, tão doces e acerbos, reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a mim propria, qual é maior, ou mais absoluto!...«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. Lês nos meus segredos como em livro aberto. Amo, como não se torna a amar, como não imaginava que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os vôos dos passarinhos, que chalreando não nos deixavam um instante?!... Não tens saudades d'ellas e das brandas illusões, com que nos embalavamos no meio das flores d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão depressa desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia palpitar!... Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestações, e que amuos logo esquecidosentre dois beijos! O nosso mundo era tão pequeno, que alli principiava eacabava então!«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o vi ir direito á sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de agua. O que o prendia era o receio de me deixar orphã, era a certeza de que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroçavam a terra com vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois, ás escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo. Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e só alli me disseram que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem de prisão contra meu pae. Não lhe custou a implical-o na devassa, e contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia...«Desde então trocámos o socego domestico pela vida attribulada, que ha mezes nos não consente uma hora de repouso. Acossados, como feras, vagueando de homizio em homizio, e de solidão em solidão, por toda a parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem risco, nos foi leal e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa digna de subido premio, achámos na bondade rude, mas sincera, dos casaes, corações de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça.«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu. Perseguidoscomo réos de grandes crimes, todos os braços se abriram para nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos guardar... Descansámos, por fim, mas á porta de uma prisão, e nas mãos de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se defender... Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! Chegámos a tempos em que é delicto até o valor! Um malvado, cego e venal instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á traição...«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos aguardava fóra das grades da nossa prisão dourada!... Com que vaidade infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor, que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus! Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma! A ternura, que sinto por elle é tão grande, que me quebra a vontade e o orgulho.«Felizmente adoro um homem digno do meu coração. Mas se o não fosse! Marianna! Não me vejas córar, não me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o não fosse... Perdôa! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-odo mesmomodo, sei que o amava tanto, porque mais é impossivel!... E agora terás dó de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo indifferente a todos os cultos?!...«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o coração não vive senão do que é de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanças, todo o futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê como o préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando iamos sentar-nos debaixo dasmadresilvas do caramanchão do convento, em quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos, que só despertam com o primeiro alvoroço, quando entre jubilos e sobresaltos o peito começa a agitar-se? Não sei se outras são assim. Vivo desde que principiei a amar. Até ahi dormia. Era uma estatua! O meu coração como que esperavapor ellepara se abrir e brotar essa flor tão mimosa, que um nada queima, tão rara que uma vez só na vida a sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me saber invejada. Que loucuras! Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem querer, ao espelho baço e empanado da minha prisão, por esta noite medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...»Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára de formar as ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de que a travessura da revelação lhe animára o semblante, ergueu de repente os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o vêr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta. Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella não. Fez-se pallida, sentiu-se fria, porém não articulou palavra, nem deixou escapar um grito. De pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia. Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e á entrada da passagem occulta, quefechava, appareceu uma figura com um castiçal na mão, avultando á medida que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto, não era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da fortaleza do seu espirito a visão tinha-lhe paralyzado os membros, e o coração, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote de cabeções, e as largas abas do chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras. Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e recommendou silencio. No movimento de braço o capote descobriu os canos luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de uma espada larga e curta.A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O hospede punha entretanto os pés no sobrado, roto e carunchoso, com tanto resguardo, e pisava com tão grande subtileza, que os passos eram surdos, como se caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, encarou de perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera admiração inculcou que não contára encontrar tanto valor.—Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais animo, do que muitos homens. É digna do que tentâmos para a salvar e a seu pae!—Mas quem é?... D'onde vem?... Como está aqui?!... perguntou a donzella atropelladamente, mas no mesmo tom submisso.—Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os milicianos de longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, é nosso, e ensinou o modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir.—Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor córando.—Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os momentos são preciosos. Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar seu pae sem bulha e dizer-lhe?...—Já! Vou immediatamente. São dois minutos em quanto volto com elle.—Pois sim. Aqui espero.De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe dizia em voz baixa:—Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão da Costa e Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, Manuel Coutinho vem já caminho da Ponte... São mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem...—Quando quizer. Para onde?...—Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que póde estar, ahi será o mais seguro.Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha.O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o rasto de seus presos.


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