VIIIEntre os bastidoresLá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da prisão saírem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a resurreição dos mortos na casa maldita, e esboçar em duas palavras a biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo para assustar os valorosos milicianos da comarca, ás ordens do sargento, baqueou das andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de pé tendo-o visto entrar em braços dos creados.Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo.Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente são e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de levantar da sepultura esteLazaro de japona para confusão e ruina dos inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e só accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia noite, hora fadada a visões, a trasgos e a feitiços?As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor énatural. Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á verdade, que o sabido condão do palacio deserto fôra o auctor de todos os prodigios, porém somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na imaginação escandecida de alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da má reputação da Casa Negra.Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu á sexta hora de entre os mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A bala doSaporoçou-lhe pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o por terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça.Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João da Ventosa se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeço ouvira o tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque oSapo, correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda como se recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem lesão grave, e apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas.—Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiroextendendo a mão ao amigo e contentissimo de o ter vivo. Com que então os caçadores andam pelo sitio, e fizeram-lhe alvo da cabeça? Safa demonio! ajuntou examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e não queria perder a polvora. Upa!... Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a engulir... Se foi só isso não é nada. Mas!...—Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu soubesse quem me fez a esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife! Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr João, vossa mercê acaso veria quem foi o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabeça a mó do moinho a zoar, e que me anda tudo á roda! Ora esta!...—Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em baixo, na fonte, ata um lenço molhado na cabeça, e lá em casa lhe diremos o que vimos. Agarre-se a mim, não tenha vergonha. Forte historia!—Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me ficar inteiro uma semana o ladrão, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de descer vestido e calçado em busca d'elle aos infernos...—Não será preciso, homem!... Agarra-o cá em cima sem ir tão longe. Mas ha de fazer o que eu disser.—Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se leva a rir.—Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma idéa!... Emfim! O que for soará...Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque Manuel Simões de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava nobremente vagados. Era noite fechada,quando avistaram a Ponte da Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo.O João da Ventosa, que em todo o tempo não soltára palavra, labutando, contava elle depois, com a sua idéa, virou-se então para o fazendeiro e disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía chamar os creados.—Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh sôr compadre?! exclamou o ferido. E para quê com um milheiro de cobras?...—Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você não sabe, homem!? Não vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima... Estire-se-me já n'esse chão, não venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela lingua morre o peixe.—Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que então ainda em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bôcca a cadeado?... Vá lá! Por esta não esperava eu. Arrenego!—Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? Vamos. Esse corpanzil já por terra, e caluda! Não me demoro.Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no sitio mais enchuto.Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, em grandes lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por morto em braços até á cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois assassinos.Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força herculea do João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado só com aquelle corpo, tão pesado, desde a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os braços derreados só de o trazerem de tão perto!O lavrador mandou accender fogo, e pôragua ao lume; pediu um alentado cangirão de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a tia Margarida, ministro feminino de todas as repartições domesticas da granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, e desviar da cozinha a vista e as orelhas dos curiosos.Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte principal. Estava já menos de meio o cangirão, quando a voz esganiçada de José Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em altercação com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os dois campeões a suspender as hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos pés.Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a porta, e com um—Olá!—que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do rapaz.José Vardasca não vinha só. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em capotes de baetão grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas derrubadas, os quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle désse ao tio o seu recado.Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que falaram, mas os creados viram desapparecer oamo e os hospedes por detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedaço o João da Ventosa só, em ar de quem se não tinha cansado com o passeio. As conjecturas dos servos não foram adeante. Cuidaram que elle saíra a metter os tres embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter dado agasalho em sua casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a podiam os cães beber de pé!Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, que não somos de segredos, e que não receiamos que a policia dos francezes nos tome contas em 1864, das conspirações de 1808, não duvidaremos revelar as razões do seu procedimento.Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á restauração da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte. Tinham atado relações em todo o Ribatejo com os homens que podiam ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de assoprarem de mais perto a irritação popular, e de irem dispondo os animos para a sublevação geral, que meditavam, apenas as cousas lhes proporcionassem ensejo favoravel.João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos, iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia da familia real, e em presença do jugo estrangeiro,representava para elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz.O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade—pelo rei e pela patria—largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a maior submissão.A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os conspiradores, não só para pernoitar, mas afim de celebrarem as conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo dos fantasmas não vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta, disfarçada com um tapume de tábuas, e introduziu-os nas salas e aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil, ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu trazer-lhes vinho e refrescos.A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginação do malicioso rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e os assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e sua filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á immobilidade, assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingança, e para não omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso José Vardasca o papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como a hora mais opportuna para o feliz exito do drama.Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, oSapocorrendo até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido José Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de que não estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz não se rendeu á evidencia, senão depois que viu e apalpou como S. Thomé.O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o cajado, ou antes a clava de Manuel Simões, e que o João da Ventosa não trabalhou pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi levado para cima de um catre e vigiado por um dos moços com ordem de chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha, mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua, e partiu para casa a descançar, não sem primeiro rezar um responso ás costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de Gaspar Preto, aonde quer que os encontrasse.O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si não via senão fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o.O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a fuga dos seus presos! Não podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz saír. Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperança de ainda pôr a mão em cima da presa.Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos Manuel Coutinho e o Antonio daCruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de emprehenderem a campanha planeada por ambos.Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, garoto leve como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo á descoberta até á Casa Negra com ordem expressa de não se deixar agarrar, e de espreitar em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se a agua lhe não batesse em cima ás torrentes, e uma hora depois voltava com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o sargento, oSapo, e os milicianos ceiavam regaladamente com o João da Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador, e jazia com uma véla aos pés e outra á cabeceira na mesma cozinha, aonde o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando.Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel volubilidade, o que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o cadaver do fazendeiro da Aramanha não desapparecêra, como se dizia, por artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia só de cuidar que poderia encontrar-se com elle um só instante!—Ah José! disse depois de certa pausa. Então o sôr João da Ventosa é que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo? Viste?...—Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah patrão, quediluivode agua quevae por ahi abaixo! Parece que quer alagar-se hoje o mundo. Credo!...—É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa não te pesa e estás tiritando que parece que te apanhou uma sezão...O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e o amo despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras.—Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, para enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles são oito, ou nove, mas nós dois bem armados e decididos?!...—Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda é de dois canos e a choupa está amolada... V. s.aquer a outra espingarda? É um instante em quanto se carrega?—Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim se for preciso.—Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este braço, que não me deixam senão quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do sargento e na cabeça d'aquelle alma ruim doSapo...—Não as perdem, mas espera!... Que bebam até caír. Nós os faremos erguer. Podes fumar homem!—Com sua licença.O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabeça entre os punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as mós se tinham grão, abriu o ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar ainda o patrão na mesmaposição com o relogio deante de si e os olhos cravados nos ponteiros.—Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia noite! Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o boldrié da espada mais alto, e pegou na espingarda.O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do braço esquerdo, e empunhou com a mão direita o inseparavel varapau rematado pela choupa. No momento, em que estava dando volta á chave da porta um immenso clarão livido abriu os céus, o outeiro illuminou-se de fulgores sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovão perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi assombrados até ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos olhando um para o outro.—Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa cabeça...—Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco defronte da porta.Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á luz d'elle viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais parecia na velocidade um furacão, do que um homem.—Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui á meia noite?! Quem temos? É bom vêr sempre!...Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o braço, e segurar pela gollao impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de canhão, e atira-o ao chão, porque trazia força para arrombar portas e paredes.—Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual affeito a apanhar na praça os bois de cara, amarrava ao limiar com o vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou arquejante e sem poder falar.Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que ella se não prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e voltando-se para elle disse-lhe:—É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patrão, desate-me já a lingua, como desatava as pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi quem é, e o que faz correndo por esta linda noite até á porta da gente de bem!... Vamos, desembuche, senão!...—Sou... Sou...—É! É... Quem? Cousa boa, não decerto. Com a breca! Entre que lhe queremos ver o focinho á candeia. Melros ás escuras podem saír morcegos!...E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e voltando-se para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello:—Aposto que v. s.anão é capaz de adivinharquem o diabo nos trouxe por aqui? Sabe quem é este cara de fuinha?...—Nunca o vi. Não o conheço.—Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá dos sitios... Nem mais nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, por alcunha oSapo!...—OSapo? Já te ouvi esse nome... Será?!...—O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a esta hora, não é natural! O sargento Cabrinha não anda longe, aposto!... Este velhaco é o seu braço direito...—Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão aoSapo, e saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava desconjuntal-o. Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe...—Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não importa. Veiu por guloso? Pagará as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser ámanhã é hoje. Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma de minha mãe te juro, e sabes que nunca jurei em vão, que deixas aqui a pelle pelos nós d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado...—Sôr Antonio, por quem é!...—Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir.—Nunca lhe fiz mal...—Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde vens?—Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos milicianos.—Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio póde levar-nos longe.Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confissão geral tão sincera, que até o segredo do tiro dado em Manuel Simões lhe saltou quasi todo da bôcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o.—E affirmas não estar já ninguem na casa, senão os presos?—Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres...—E o sargento?—Desappareceu. Foi o primeiro.—Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco.—Eu!... Eu!...—Tu sim!—Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... redarguiu o malsim contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe estivessem dando tratos.—Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas então como espia! Está bom. Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!...—Eu!... Suspirou tremulo o miseravel.—Quem te mandou?—O sargento... Que eu por mim!...—Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se mentes!...Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse não poude pronunciar uma syllaba.—Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e encarando o assassino com terrivel gesto.—Não sei... Não sei...—Sabes e viste. Essa cara de réo o está confessando. Fala. Quem foi?—Eu!... por descuido...—Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora vê lá!... O sargento não te tinha dito nada?...Houve uma pausa longa. OSapochorava, supplicava, mas não redarguia á interrogação.—V. s.ajá viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver. Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle muro.—Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a perder!...—O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado.—Jesus!... Não me mate!—Sabia ou não?...—Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror.—Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de graça não o disparavas.—Agora isso não! Póde matar-me, mas não confesso.—Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come pão de graça.—Então entrega-me?!...—Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a verdade, homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de pendurar-te na forca, já está fiada e torcida...—Se eu disser não me descobre?—Não! O teu crime te descobrirá. Quanto?—Seis moedas...—Por conta, ou ao todo?—Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando levassemos os presos.—Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e até no tiro dado em Manuel Simões não hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te mandou fazer aos outros...—Matal-o?!... exclamou oSapo, cuja vista feroz se inflammou.—Não, maldito! A justiça que o mate, quando o sentencear!—Então?!...—Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto elle fizer? Percebeste?—Sim senhor...—Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te!—Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito obrigado.—Não me dês mel pelos beiços, que não sou abelha. Cuidado commigo. Depois!...—Já lhe disse. Fique descançado.—Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco á Casa Negra.—Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua boa sorte, tudo quanto mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o chão aonde pozer os pés, mas tornar alli... isso não!—Ah! Tens medo do diabo?...—Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas não volto lá.E as feições repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o espanto, e revelavam uma resolução tão decidida de se expor a tudo para não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de Antonio da Cruz.—Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua pé e brôa. Mas sentido! Olha que te quero encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de almas do outro mundo!...—Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma branco alto como um cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai Jesus! Parece que os estouvendo ainda! Quando me lembro cuido que enlouqueço!...—Está bom! Está bom! Até logo! Com que viste o defunto e o fantasma?... insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo enleio.—Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!...Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e saíu. O Antonio não teve mais remedio senão seguil-o, mas apezar de todo o seu valor benzeu-se, e o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se visse um touro partir contra elle enfurecido.IXQue talvez podesse servir de prologoDeixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia, em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel.Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao quadro, difficilmente formará o leitor exacta idéa d'elle.Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o Brazil, o principe regente entregára em suas mãos o reino sem defeza. As ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais, que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da invasão.Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A obediencia, tão elogiada por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda não encerrava os ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio estrangeiro.O regimen absoluto, que as reformas domarquez de Pombal não conseguiram remoçar, adoecia de incuravel decrepidez.Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que não podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco.Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos conquistadores.Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estação, e da aspereza do transito o general em chefe cançou-se de dissimular, falando com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede!Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As guardas de Lisboa confiadas só aos francezes; o emprestimo forçado imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso decreto de Milão condemnando como sujeito a resgate o reino que não fôra conquistado; as armas reaes picadas do frontão dos edificios publicos; e a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores, que a saudade da independencia registrou como ultrajes.Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras, mandára baixar o pavilhão das quinas deante das aguiasdo Sena, nunca mais houve paz entre a nação offendida e os invasores. A luva ficou desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a levantasse; porém, decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder á provocação, envidando valor egual aos brios.Atraz da occupação da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve um dos inimigos implacaveis de sua ambição, pouco se dilatou a invasão de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios, Carlos IV não percebeu que firmava a propria abdicação.Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios. Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má vontade de todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietação, a decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes.As dissensões da côrte, filhas da lucta do herdeiro da corôa com os soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelação dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés, facilitaram a occasião appetecida por Napoleão I, precipitando a queda do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicação de Carlos IV, e apressando a saída de Fernando VII para Bayona.Vendo por terra o diadema dos Bourbonsde Hespanha Bonaparte não o restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se, mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou suffocar a sublevação pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista com o imperio. A nação respondeu aos canhões, aos fuzis, e ás execuções militares com a resolução indomita, que as adversidades confortam, e os triumphos exaltam.A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servidão resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco, de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os oppressores até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil. N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legiões de heroes. O chão fugia debaixo dos pés aos veteranos da Italia e do Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do estrangeiro, negando-lhes a paz do tumulo!Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, que suas montanhas tinham sido berço e asylo da renascença christã, alçou ousada o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça, Tortosa, e Galliza, não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrõesfrancezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, já não chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam.As juntas de salvação e defeza, á medida que as terras se iam sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas legitimas da revolução, os revezes e os sacrificios não as desanimavam. Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros voados e as torres arrazadas das praças de guerra e das antigas cidades, todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a cerviz.Os successos correram como a impaciencia dos contendores.A invasão, que talára a provincia de Granada, derrotadas por Castaños as tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulação de Bailen quebrou o prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados de posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto da nação armada, só pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais ousados aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforço de um povo unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas.A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em Valençay, e assumiu a suprema direcção, conferida pelas necessidades e o heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos mares, disputando a Napoleão em todos os campos de batalha a primazia no continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, econtemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo.Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, não foi tão prompta a explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, não rompeu por isso com menor violencia.No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as auctoridades francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa seis homens, que nenhuma distincção hierarchica apontava para chefes, mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira e André da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presença de Deus empregar as forças, os bens, e a vida com fervor até conseguirem restituir ao principe regente, a sua corôa, e á patria o seu esplendor e liberdade.Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em casa dos outros, e desde logo se occuparam de minar o chão debaixo dos passos dos invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar a sua disposição, apurando aquelles com que podia contar.Esboçada a conspiração, e protegida por inviolavel segredo, principiaram os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos cumplices. Á policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta empreza,que, tomando corpo á proporção que os acontecimentos caminhavam, era já na primavera de 1808 uma verdadeira potencia, fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela coadjuvação de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes respeitadas do clero, da toga, e do commercio.Quando Junot embarcou em virtude da capitulação de Cintra, só os cabeças de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão dos adherentes, excediam decento e oitenta, e os homens, de que podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peças de artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas!Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808, e observemos o estado das cousas já bastante alterado no curto espaço de sete mezes.Determinára a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a repressão cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a falsa alliança dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de outras terras importantes no dia 30 de maio, e á sua voz principiou a provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos portos do Ferrol e da Corunha, e a sua população briosa e accumulada, não hesitou egualmente em saccudir o jugo.Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do general Taranco obedeciam ao marechal de campo D.Domingos Ballesta, receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados, de que podessem apoderar-se.Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela patria, responderam alguns.O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo José Pinheiro, arvorou a bandeira portugueza, e a guarnição communicou com o brigue inglezEclipse, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da costa. O povo não se moveu. A occasião ainda não estava madura.Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I.A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreição das tropas hespanholas e da prisão de Quesnel.O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes.A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de infanteria, de um regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em desejos de imitar seus irmãos de armas, provocada pelos emissarios expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se. Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e desarmados, embarcavam para bordo dos pontões francezes, e sómente poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria Luiza conseguiam escapar-se.Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a animosidade dos habitantes irritados. Loisonsaíu a 17 de Almeida sobre o Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da Junta de Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a outra margem, abençoando a precipitação boçal dos camponezes, que o salvára quasi por milagre de uma ruina completa.O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison além de Mesãofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e desfiladeiros immortalizados pela sua derrota!Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mãos dos batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restauração da dynastia de Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das duas provincias.No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia 19 foinomeadaa primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão importante nos successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o exemplo do Porto, e a insurreição crescendo e alargando-se, batia pouco depois ás portas de Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e Beja levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de vozes.Antes de combater a insurreição a ferro, o duque de Abrantes chamou em seu auxilio o braço ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populações armadas.Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, declarando a culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta profanação sacrilega serviu só de aviltar aos olhos do paiz os ministros do altar, que não se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o beijo de Judas contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores. Os raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes deante da resolução e da perseverança dos que pelejavam pela patria, e a famosa proclamação ao Divino, despresada como merecia, não roubou ás fileiras nacionaes um só defensor.A resposta de Bonaparte em Bayona á deputação portugueza foi mais eloquente para fazer de nós soldados, do que as excommunhões dictadas no quartel general francez. O imperador, julgando a occupação de Portugal legitima depois da partida da familia de Bragança, tractava o pequeno reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza!Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a confiança dos novos subditos. Não os temia nem o preoccupava o que havia de dispor afinal ácerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor, tinha procurado attrahil-os, e chegára a linsongear-se com a esperança de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela força afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra ogovernador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos seus desejos, pintando a nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A explosão das provincias e os murmurios da capital vieram depressa acordal-o d'este sonho!Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal reprimidos, ou adhesões falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posição. O cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75 réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral. A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleão, proporcionou ao juiz do povo José de Abreu Campos, a occasião appetecida de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque de Abrantes, de que se achava só e detestado com o seu exercito no meio de populações hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade e o throno de seus principes.No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. Admirado do arrojo com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legiões aguerridas, Junot exclamava: «Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo desetemezes de paz e harmonia, porque razão correis ás armas?» Concluindo com a lei marcial, ameaçava as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidadãos com a morte!Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo por que a França respondêra heroicamente aos que lhe apontaram a espada ao peito dizendo o mesmo.XTolda-se o tempoTransportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion, emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807 lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus confidentes.Deixemos passar esses vultos, que pisam ossobrados nas pontas dos pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado do silencio, em que a supporta ha sete mezes!O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega, seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra já os tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um official superior reluz na extremidade de extensocorredor. Os subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o, temos a certeza de não encontrar obstaculos.Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e empurrou de leve um dos batentes da porta, a discussão já se havia travado, segundo parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos diversos membros do governo, sentados á roda da comprida mesa, coberta de couro, e cingida até ao chão de um rodapé de tela encarnada. A mesa occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa presença, e garbo do porte, achava-se em pé junto da cabeceira, com o rosto inflammado, e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua esquerda, analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traçando com a penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou antes livido, retratava no rosto a astucia unida á expressão repulsiva de um cynismo cruel e glacial.Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado, com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao primeiro volver de olhos a reputação de melindre e de primor, merecida desde que se estreára na carreira publica exercendo as funcções de consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca de lemiste talhada á franceza com botões de metal e golla alta, collete branco aberto, que deixava sobresaír a finissima cambraia da camisa e da tira engommadas em pregas miudissimas, calções de seda, meia a estalar naperna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rapé, mais preciosa pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa.O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella as murmurações populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justiça, escutava de pé, e com mostras de não pequeno sobresalto, talvez provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom, estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito produzido no animo dos ouvintes.A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamação de alegria do duque de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão até ahi contida das paixões e receios mal reprimidos. Todos diriam que o Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o suffocava, dando largas á expressão sincera dos verdadeiros sentimentos.—Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer que faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?...—Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatasCarlotaeBenjamin...—E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e encarando o capitão de mar e guerra.—Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros. Entretanto...—Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os grãos que tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa.—É possivel. Os inglezes animados pela sublevação dos hespanhoes, meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave.—Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o conde da Ega.—Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não hão de forçar-nos a barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observação entre as torres a fragataGraça Phenixe mais dois vasos de alto bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem estão fundeadas tres charruas...—Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bôcca de nossos canhões, Magendie! Oxalá que todas as tempestades nos viessem só do mar... O peior de tudo, senhores, é que o chão treme debaixo dos pés, e...—Que a traição vela á nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia.—É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e não nos dizieis nada!...—Para que? Quando uma nação inteira está conjurada, general, a policia passa, vê, e dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, senão de a irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e escolher a occasião de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo golpe, eis o segredo dos que sabem dominar.—Sim! Bem sei! É a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!...—E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega, tão nosso amigo...—Eu!... Pois eu!...—Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora mesmo contra o governo de sua magestade o imperador e rei?!... proseguiu o intendente com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do córte de uma serra.—Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra nós?!... notou Junot vagarosamente.—E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando o general com a vista afiada e ironica.Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, tinha conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos.O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte annuviada, como se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem responder á allusão, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoção. Os olhos dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por calculo, ou por ignorancia, não denunciava na physionomia, senão a indifferença apathica, prova real da mais virtuosaconfiança. Herman e Lagarde trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade na innocencia apparente do fidalgo portuguez.N'este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as prégas do pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maços cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu sentar-se na ampla cadeira de braços, d'onde se erguêra minutos antes. Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e intrepido, a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar a capa, os que o conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitação momentanea, notavel em caracter tão firme, porque seguramente inculcava mais do que sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel fechado, que não lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio.—Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem entender nada, e agora cá estamos nós para carregar com o peso de todas as culpas!... Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; não contentes fizeram suas alliadas duas nações inteiras. Veremos agora como desatam o nó!E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as mãos, sem fazer caso do espantoexcitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria meditação.—O que é? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a Herman.—Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o malicioso diplomata, encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!...—Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas chammejavam, cujo sorriso era uma contorsão diabolica. Estamos sobre um vulcão.—Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaça, mas por fim faz-se d'ella o que se quer. Em lhes não tocando nos seus lausperennes, nos seus frades, e nas suas procissões, todos andam mansos como borregos... Estes não me mettem medo a mim; oxalá!...—Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido, e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu cavallo e o meu chicote!...—Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes são homens e soldados. Mais de uma vez o têem provado. Perguntae aos hespanhoes... e ao senhor conde da Ega, que hão de conhecel-os.Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O coração indignado convidava-o a repellil-a, porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. Não acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando arriscava-se... Calou-se!Junot caíu depressa em si. O seu animo erageneroso, embora cedesse aos impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera, que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da embriaguez da raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas affeições lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios.—Senhor capitão Magendie, a plebe não é a nação. Os portuguezes são para muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em quanto era tempo!... O erro não o commetti eu. Este povo é bom, generoso, e paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se... Preferimos tractal-o como vencido, e fazer d'elle um inimigo!... Paciencia! Colheremos os fructos que semeámos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter a guerra!... O segundo acto da tragedia começa em Portugal. A Hespanha deu-nos o primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes sublevados no Marão, em Amarante, e em Chaves!...—Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem cabeça depressa se dispersam. Observou Lagarde.—É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em Traz-os-Montes o principe regente...—Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu Lunyt sorrindo.—Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e adorado!... As provincias do norte estão, ou estarão todas em armas dentro de oito dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou vão seguil-o...—Temos o Porto, e em quanto for nosso,facilmente daremos a mão aos nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman.—O Porto!... Lêde!... E passando o officio ao ministro do reino, Junot, em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo a sala em todo o comprimento.—O Porto? É tarde! já não lhe accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e dá o exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. Não nos lisongeemos com illusões...—O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie. As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e...—As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o general em chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna vira-nos as costas. As divisões aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei José saíu de Madrid. Estamos sós e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso...—Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida é arriscada. Não a julgo, porém, perdida.—Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!...—Ameaça-nos a capitulação de Dupont em Bailen?!... accudiu Lagarde, batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!...—Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é menos gloriosa, que o triumpho, quando ocampo de batalha proclama o heroismo dos vencidos... Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso poder póde ser ao mesmo tempo segura base de operações, e precioso penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela tranquillidade de Lisboa?...Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado, olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto, e para o general, e hesitava.—Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque arrebatado. Hoje é o dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de Lisboa?...—Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo.Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a alavanca de Archimedes!...—Só depois de ámanhã em deante!... concluiu o intendente engasgado, e convulso.—Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes pareciam reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! Não sois medroso. Conheço-vos! Esse papel trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que ha. O peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber!E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle costumava affrontar a morte nas batalhas.Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revolução traçada para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo de Deus.Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentesoccasiões, mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do trama excedia, porém, d'esta vez quanto podia prever-se de audaz e decidido. O rompimento havia de começar de tarde, ás seis horas, muito depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do Paço, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas, seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praças.O assombro dos vogaes do governo durante a communicação, que acabâmos de resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A idéa de se ver colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que, recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo a leitura, e desengatilhando de sua expressão severa o rosto dos que a sua hilaridade não admirava menos, do que o plano de sublevação forjado para a capital.—Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas. Parece-meque osestou vendo d'aqui a esses illustres conspiradores de rabicho e samarra, decidindo á pluralidade de votos o theor das ordens, que hei de escrever depois de prisioneiro!... Masé um entremez puro o que esta boa gente imaginou: art.º 1.º O general Junot será apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Paço e do Rocio!... art.º 2.º (porque o não puzeram tambem?) O presente decreto será registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria! Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar tristezas.Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie, militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam todo o edificio de suas esperanças na prisão de Junot, e essa prisão era justamente o que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria que sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de poucos homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se achassem recolhidos na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo essencial no grande drama da restauração da patria.—Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou Lagarde!...—O plano é fraco, porém a intenção...—De intenções, boas, más, e pessimas está calçado o inferno! Tendes acaso receio de me vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os como se respeita a innocencia. Conjuradosassim inventam-se, quando se não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... Art.º 1.º O general Junot será apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana! Ah! Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio? Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A conspiração dá ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!...—Informam-me que José de Seabra no principio déra alguns conselhos, mas que hoje...—Não quer saber d'elles para nada!?... É evidente! José de Seabra, duas vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum... Art.º 1.º O general Junot!... Desculpem, mas é incrivel! Os desembargadores e os padres de Lisboa cuidam que um general francez é algum passaro raro, que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes, fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compõe este bemaventurado Conselho. Dae graças a Deus pela sua existencia, e não os incommodeis. D'alli não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse parte d'elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. O Porto ainda poderia salvar-se!—Mas, general, o dia de ámanhã parece-me critico, observou o intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco. Não é só gente da capital a que sae ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procissão, e prender por algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos populares...—Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!... Assustam-vos tanto osplanos ridiculos de uns poucos de dementes, que vos não envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de saír. Nada de prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas. É quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem ámanhã. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeisapprehenderos nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho Conservador acabam todos lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos communicar... isto é se não receiais que o general Junotseja apprehendidono caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe offereço um posto perigoso.E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde e do secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e com o gesto.—O que devo fazer? perguntou o intendente.—Nada. É o melhor!—Mas!...—Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... não está de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro rindo. Socegue!Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha eo seu assessor Gaspar Preto, por alcunha oSapo.Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.