XIAchilles e NestorEm quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos personagens, que deixámos na Ponte de Asseca, n'aquella tempestuosa noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a evasão de Paulo deAzevedo, e as artes diabolicas do astuto lavrador João da Ventosa.Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava as cortinas de caça, que por detraz das quatro janellas da frontaria substituiam os modernos e elegantesstores. A casa, de um só andar, caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, grades, hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo rodeava o jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras plantas, subindo pelas paredes,vinham debruçar do espigão seus festões floridos e recendentes.Um preto quasi anão, grosso, roliço, com a carapinha semeada de cans, indicio de provecta edade, e brincos de prata nas orelhas, acabava de varrer, gemendo e rosnando, os tres degraus de pedra, que desciam da porta da entrada para a viella quasi deserta.No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos recortados, rangia debaixo dos pés de duas pessoas, que passeavam, conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as terras, um mirante entrelaçado de caracoleiros e jasmins, offerecia em seus bancos de cortiça commodo assento aos que desejassem recrear a vista, espairecendo-a pelos largos horisontes, que d'alli se descobriam.—Não perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel Coutinho! Lembre-se de quem é, e creia mais em si, e em nós... deixe-me ter tambem um momento de vaidade!... Deus ha de ser por este reino, e não ha de permittir...O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto, trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e nas maneiras, a prudencia que dão os annos, e a experiencia do mundo unida á confiança e ao enthusiasmo sereno, que nascem do coração, que ardem com viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os gelos da edade nem amortecem, nem apagam.O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e com a expressão de desalento retratada em suas feições abatidas.Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas commoções, logo percebia, que, se um assomo repentino de duvida, ou desconforto podéra abalar por instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a reacção a havia de despertar do lethargo, e que pouco depois, em logar de ser necessario reanimal-a, todo o poder da persuasão seria pequeno para a conter dentro de limites razoaveis.—Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima phrase do ancião, e volvendo ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga desesperação. Não se esqueceu Elle de nós? Não está com os inimigos do seu nome e da nossa liberdade?!...—Não diga isso. Caia em si. Não vê que accusa a divina justiça? Deixe-a caminhar...—Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço e militar, desculpe-me, mas não posso supportar com paciencia christã o espectaculo de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?! Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados á voz de Bonaparte?...—Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!—Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras choram escravas o seu martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica esperança que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de incendiadas as suas moradas,de infamadas suas esposas e filhas, e de dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus avós?!...—Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? Quantos seculos durou a perseguição da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje, d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas, memorias, e a cruz triumphante alçada no Vaticano!... Tranquillize-se, conforme-se, espere...—Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam? Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim aos laços do infame Lagarde? Está no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que ha de julgal-o, tem sêde do seu sangue... Hoje, ámanhã, de uma hora para a outra, as balas de um pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!... Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua filha, a desgraçada, que já não tem lagrimas que verter, que sente a todos os instantes no coração o frio da morte, ameaçando o que mais ama e estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o morrer?!...—Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está em perigo, porém ainda não morreu...—É verdade. Mas para o salvar?!...—Havemos de empregar todas as nossas forças.—Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel expressão. Pelo menos esse não se rirá impune, festejando o ultimo suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou oseu juiz, e a minha justiça não coxêa, nem dorme, como a da Providencia.—Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da usurpação estão contados. Quem sabe! Ãmanhã mesmo talvez troquemos o lucto da escravidão pelas galas...—Sonho! Irrisão!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com força o braço do seu interlocutor. Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé ás proclamações e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas, sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua sombra, ousarão nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel matassem, então sim, mas!...—Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades são mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de que puzemos a cabeça em cima do cepo, e de que estamos resignados a padecer!... Não esperava que o escarneo caÃsse da sua bôcca sobre nós! Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle póde ferir, e se todos estamos decididos a jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos honra, bens, e vida pela patria...—Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino...—O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe disse que estavamos nas vesperas da victoria...—O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!... Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou quasi louco!Conte com o meu braço, com o meu sangue. Ha alguma esperança?...—Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia.Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que lhe offerecia, correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás faces, as pupillas faiscaram, e uma expressão de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe as feições.—O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora! Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em armas!... Os inglezes em Cork, ou já no mar para desembarcarem!...E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada lettra do escripto.—Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte d'elle.—Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansidão, ainda acha que a justiça divina coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca fé?! Pois bem! Já vê que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O milagre fez-se, e um bispo é quem ha de no Porto presidir, ao governo do reino restaurado. Sei-o de certeza.—Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mãos do mancebo se elevaram ao céu em um gesto sublime de gratidão e de crença fervorosa. Depois a cabeça inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os braços descaÃram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do coração, e correram vagarosas pelas faces.O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes fugitivos da lucta das paixões.Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a prisão, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou de exhalar em um suspiro a maior oppressão, que lhe confrangia o peito.—Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei da Providencia no momento em que ella nos accudia!...—Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos falliveis em presença da sabedoria eterna?! Arrepende-se? É o essencial. Vamos ao que importa. Já viu D. Leonor?...—Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer áquella infeliz, ferida de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, visão lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como não amei minha mãe, como não estremeço meus irmãos, como não adoro... ia soltar uma blasphemia!... Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura nossas duas almas ha muito que não fazem senão uma. O que ella sente e chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo, aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu branco da noiva será em breve o negro fumo da orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei, adivinho, que um claustro começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella, aonde nós havemos de descançar ambos!... Não sem eu me vingar primeiro!—Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja soldado! Tem uma espada, não faça d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor está mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu respeito...—E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!...—Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e havemos de salval-o. Tenha mais fé. Não atormente com os delirios da sua paixão a existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo, que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflicção...—Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio.—Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe aconselhar depois?...—Dou. O segredo?...—A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. É o penhor com que Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento...—Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!...—Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa.—Sou mudo. Sou uma estatua.—Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo. Pediu-lhe a mão em Mafraha mezes, foi repellido, e vingou-se perseguindo o cavalheiro e sua filha...—Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o mancebo impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de...—Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as. Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de Azevedo, tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça para vencer a filha; mas no fim é tão interessado como nós em conservar vivo o unico fiador de suas esperanças!... O conselho de guerra não se reune, e mesmo que chegue a ser convocado, a sentença não passa do papel.—E Leonor?!...—Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do cadafalso de seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdão por um preço vil...—Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos homens!... Como se chama o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito á força, cujo papel, tão nobre (!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?... accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de ironia cruenta avivava a expressão.—Porque o pergunta?—Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas.—Já se esqueceu da sua promessa?—Não! Mas!...—Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... então falarei. Agora não.Sabe que ámanhã, depois da procissão do Corpo de Deus, se esperam grandes novidades?—Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!...—Em Lisboa. Aonde queria que fosse?...—E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?... Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver...—Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, demore-se pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas...—Visitas!... De quem?...—Segredo de estado. Depois saberá...—Porém!...—Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito! Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... digo, quando as visitas chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui pela escada do meu gabinete?...—Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!...—Supponha o que quizer. Jura?...—A minha confiança na sua virtude é tal, que de olhos fechados me entrego em suas mãos. Juro!—Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava subir...—Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são então de inimigos?...—Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa, recebo-as como hospedes, é quanto basta, julgo!...—Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar...—O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... nós o chamaremos.—Obrigado! Como instrumento cego?!...—Não. Como um coração generoso, como um amigo seguro, porém... perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou...—Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr. bispo!...—Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em poucas horas, Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e ás vezes accordamos velhos. Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo. É grande medico. Adeus! Vou tractar de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal está enfermo e não póde esperar.E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de bondade, o velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraças abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de pedra, que subia para as salas do primeiro andar.XIIArcades ambo!—Está certo do que affirma? Veja lá!... A policia não gosta de representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes póde ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?...—Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não ganha para sustos...—Está bom! E como soube que vinham para a revolução, que os inimigos de sua magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã durante a procissão do corpo de Deus? Olhe bem! Não se allucine...—Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar, chega-te! S. ex.ª dá licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca.—Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale.O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor já percebeu de certo,entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o seu assessor Gaspar Preto.Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges nada menos do que uma boa conspiração para attrahir sobre si a chuva de ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os serviços relevantes dos seus agentes.Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito ás longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fôra oSapo, apezar de meio homiziado depois da prisão de Paulo de Azevedo, devida, como sabemos, á sua traiçoeira actividade, quem, espreitando os passos do Antonio da Cruz e do João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca, principiára a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos.Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não roubára a alcunha por que era conhecido.Cozeu-se, como oSapo, com as pedras caÃdas, que do lado da porta do João da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios e fomes, tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu fim.Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da noite, por um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos.Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado muito, os ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o demonio, cujo era, não lh'o negou.Quando se Ãa já sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a serpente, os conspiradores saÃram. Principiava a aclarar a madrugada. Um d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes:—Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos sitios de Leiria, e assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por minha conta! Não havemos de ser menos que os de Bragança e Villa Real! Viva o principe regente, nosso senhor!Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão eram tão extensos, que este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a solidão e a noite o não cubrissem. Entretanto os amigos, menos intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos. O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se então um pouco. Quiz o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante para o trahir!Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Manuel da Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, que bastaria um d'elles extender o braço para o agarrar, não foi senhor de si. Vinham atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que não vinham por curiosos. OSapo, frio de neve, e todo um calafrio de medo, ennovellou-sen'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cêra se permittisse, que nenhum dos cinco désse com elle alapado n'aquella toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao hombro, não o erraria de certo em nenhum caso.Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros cuidados.Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe:—Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. És lá preciso!—Se meu amo mandar!—De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com as ordens... E você, sôr João da Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem o Antonio á côrte?—Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente lá vae fazer?!...—Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se despovoam aldêas e logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o seu cajado talvez não fique por lá parado!... Gosta dos francezes?...—Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem que me fizeram!...—Pois vá, homem, que póde ser que não perca o seu tempo. Ãs vezes d'onde menos se espreita sae coelho...—V. s.aque diz isso!... Está bom. Não é preciso mais. Senhor mandar, preto obedecer!... E tu, Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar? Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? Tens medo dos francezes, homem?—Salva tal logar, sôr compadre! Mas quequer você que eu vá fazer á côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por lá bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungadoSapo, ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!...—Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de Lisboa...—Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso é outra cousa: pernas a caminho. N'um sopro deito o albardão á égua... Não morro quieto se não racho de meio a meio aquelles dois patifes.—OSapofica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei de cumprir. Você, sôr João, que me diz da figueira de José Lopes, alli em cima, no alto do logar?—Ora essa! Que é boa arvore. Porque?...—Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. Antonio me não chame eu se não pendurar do pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar Preto antes do dia do natal!...—Você sempre tem cousas, sôr Antonio!—Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o não vir.—Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?...—Saberá v. s.aque nós todos tres!—Ora assim é que é. Gosto de os vêr de feição. Bebam por lá um copo, ou dois, de vinho á minha saude, e outro á do principe regente, nosso senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para gloria da patria e da santa religião!...E o morgado, assim como o E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a reverencia comobons catholicos e vassallos fieis e respeitosos.—Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que nós cá estamos, e que o que fêr soará. Sôr João! Volte depressa. A caldeira está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria a casa...—Quando v. s.amandar, sôr morgado.—Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum barulho, não me metta as mãos nas algibeiras. Dê-lhes com alma, desanque-me os jacobinos moa-m'os como farinha, hein?...—Vá v. s.adescançado.—Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. Até á volta. São horas.Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto.Quem não tinha vontade de dormir era oSapo, o qual, arrastando-se do esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braços, mais morto do que vivo.A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre, e por vezes sentia já em imaginação os gorgomillos tão apertados como se lh'os estreitasse a promettida e fatal corda!A reputação merecida do moleiro de não quebrar palavra dada fazia-o de mil côres, e a voz da consciencia, que só o susto tinha o condão de accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, não uma, porém cem vezes, o castigo.Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual, tendo-o poupado, o julgára grato? Não fôra causa da prisão do Cavalheirode Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora mesmo, não colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a tantas pessoas?Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida era irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes, isto é, accumulando novas traições. Coxeando e rastejando partiu para a villa, aonde amanheceu á porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela certeza de ter servido de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas, soube artificiosamente exaltar. OSapoacabou de o petrificar, narrando-lhe as ameaças do Antonio Simões da Aramanha, e o plano, interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois da procissão do Corpo de Deus.A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em pessoa o portador d'ella.A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o moleiro em seu nome á capital, confirmou as informações do agente. Gaspar, a troco de pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao camponez boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em Lisboa. Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo não tinha mais leal amigo.Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a jornada até Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as peças de 7$500, que Lagarde não cisava aos que o serviam zelosamente: oSapo, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira do alto do Valle,depois, para ter o gosto de vêr mettidos na enxovia do Limoeiro, graças á sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Antonio Simões.Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante não caÃram na bôcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no gabinete do ministro, no exercicio de suas funcções, convem notarmos, que tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens fieis aos interesses proprios, e devotos da causa que abraçavam.Lagarde escutára com attenção o depoimento lucido e conciso, que oSapo, sem trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de cór, admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecêra este ente quasi disforme e rachitico, que, encarado á primeira vista, não promettia, senão fraqueza e estulticia.Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se silencioso por momentos, scismando profundamente.—A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui estão as provas d'ella; mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A mim compete-me velar para que riam sem perigo.Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas ordens, acrescentou:—Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe dirá o que ha de fazer.Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a audiencia estava terminada.SaÃram logo, mas ainda Lagarde não tinha tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta, realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era seu sobrinho Armand de Aubry.XIIIDois parentesO intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde que a Santa Inquisição reinava dentro d'ellas.—Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para se reprimir. Que duas figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no corredor!... Pelo que vejo a procissão de ámanhã leva anjos, demonios, serpentes, e até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois são magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É admiravel!—Porque? atalhou Lagarde.—Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella cabeça de anão, aquella cara de papel, e os saltos de rã da perna coxa promettem á festa um palhaço soberbo. Por quantose aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber o que elle custa á policia de sua magestade o imperador e rei?!...E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que trazia na mão.—Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem. Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu...—Essepareceué delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos.—Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos.—Quem tal diria! Então é um diamante bruto?...—Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe...—Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia conta distraÃr os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar, e escripturando polichinellos?—Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A policia aspira a funcções mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda como as do Oriente, começa já a ser outra cousa... As ruas...—Tá! Tá! Meu tio. Esse elogio dos serviços da policia, na sua bôcca é capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito! Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens como janizaros. Hontem á meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo! Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o anão, de que tractâmos, será nomeado executor da altajustiça contra as matilhas famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e não desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro patibular!...—Armand! Não te cansaste ainda?!...—Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua longanimidade. Parece incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que emanações asquerosas. É de engulhar até o estomago a um tubarão!...—Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou obrigado a admittir...—Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a verdade. Os melhores dir-se-Ãam desenterrados das enxovias, ou das galés...—Então! O que deploro, mais do que isso, é essa tua leviandade incuravel. O homem, que estás escarnecendo, prestou-nos a ambos um serviço relevante...—Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funcções de palhaço ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente!—Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres da tua posição?—Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se não levasse a vida a rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver ámanhã, outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria; cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez em revez até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice? Por alma de meu pae! Nasci e heide acabar com esta sina. Sou assim feito. Não tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou, tornando-se um tanto grave, creia que este coração, facil em se alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a côr é indifferente uma vez que sejam formosos (!), é incapaz de trahir a honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preço...—Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos estouvado. Não póde ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha deSapo...—Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? Preciso abraçal-o! OSapo?! Mas é verdadeiramente um sapo o seu homem, meu tio! Bom! Não se agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como uma estatua... Diga!—Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...—Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me ouvir-lhe dizer que duas vezes...—O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas diligencias? É verdade. Não te enganaste. Mas á terceira fomos mais felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e esteSapo, que ainda promette ser melhor...—Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vêl-o convertido em Plutarco de similhante monstro...—Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em familia. O que te resta dos bens de tua casa?...—Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime.—Nada mais?...—Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com que me entreter toda a minha vida.—Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro, prata... não possues absolutamente nada?!...—Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só por uma audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei ainda... trago-o aos hombros... são as dragonas!—Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas para o futuro?...—Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, que devo á minha compleição, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo como muitas outras buxas de canhão, que valem menos do que eu.—És louco!...—Sou philosopho!—Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te...—A sua benção e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu tio?! As Aspasias de ParÃs, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas da opera vendem os sorrisos caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e com tal graça para mim, que as mãos abriram-se-me sem as sentir... Quando caà na realidade... sabia de cór todas as piruetas e saltos de Vestris, todos os passeios e casas depasto de mais fama, e podia dar licções de gosto e de ouvido a todas as platéas civilizadas... Mas nem um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me soldado.—Bem sei. Porém a herança de tua tia?!...—Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas poucas horas de melancholia, que tenho penado em minha vida.—Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras...—Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por economia.—Mattas e pinhaes!?...—Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me não entristecerem.—Uma casa de residencia vasta com jardins?...—A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins.—Uma mobilia antiga, mas rica?!—Custava-me muito caro o transporte, cedi-a.—Percebo!... N'esse caso estás?...—Como diz o livro de Job: Nú saà do ventre de minha mãe, e despido de bens da fortuna descerei á cova.—Admiro o teu sangue frio. Não te parece já tempo de assentar, e de mudares de vida...—Conforme a mudança! Saltar da agua fria para caÃr no fogo, não sei se é peior.—Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua mulher...—Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!—Mais do que isso. É preciso que dê para uma capa nova.—Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto.—Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo...—É moça?...—Dezoito annos.—Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?...—Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense.—Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as perfeições, guardou até hoje o seu coração livre á espera de um perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de Jorge Dandin?...—Repito. É uma menina séria, prendada, e espirituosa...—Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés sempre me assustou muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?...—Leonor! Leonor de Azevedo...—É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava justa a cazar com um cavalheiro, tambem fidalgo, official, capitão, creio eu, do segundo regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se não erro, elle chama-se?...—Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca promessa de cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes...—Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calçar sapatos de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma pergunta, meu tio?... Hei deser sempre noivo por procuração? Conta cazar-me sem eu vêr nunca minha mulher... nem até no oratorio da policia?...Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois ao de leve a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam hesitação e perplexidade.—Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de Deus! Quem te metteu isso na cabeça?—Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos...—Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos postas a escolha.—Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece essencial desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?...—Um dia cêdo! Ãmanhã talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas.—E porque não ha de ser hoje. Sou tão curioso!...—Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero...—O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje, ou nunca!Alea jacta! como nós diziamos no collegio. Os bons palpites aproveitam-se. O matrimonio é um grilhão de ferro coberto de flôres... Quem sabe se ámanhã eu terei medo da felicidade conjugal, e me arrependerei? Seja docil! Deixe-me vêr hoje esse portento encoberto...—Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do bolso, e consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te espero.—Viva o melhor dos tios! bradou Armand,rindo, e abraçando-o. Diz o rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar com a maré. É verdade que na Ponte da Asseca, em um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e que um troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo de um fantasma?...—Porque?—Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e desejava certas informações sobre o paraizo e sobre o purgatorio...—Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o ministro agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e punir.—Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não represente de tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa missão a mim. Adoro as aventuras, e Cazote é o meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar algum diabo amoroso?—Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas já te previno. O que lá acharás são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. Não te esqueças. Ao meio dia em ponto!—Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.XIVAmorQuando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que tornava tão nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua prisão do castello, com a morte eminente e a vingança de poderosos inimigos suspensa sobre a cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego, com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distraÃdo em uma partida de caça, não tractaria com indifferença mais soberana as vigilias e amarguras do carcere.Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com que era guardado,attribuindo-aá scena comica da sua evasão no palacio da Ponte da Asseca.Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao mancebo muita paciencia e conformidade, e resignação para atravessar os dias dolorosos do captiveiro.Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho alguns episodios de suas peregrinações pelas aldeias e casaes do Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr. Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela estupidez, e pela voracidade.Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados á donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava ácerca da alvura da tez e das rosas pallidas, tão festejadas no seu rosto, deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que só ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservação de successivas gerações de adoradores.Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração paterno pelo seu, sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista á proporção que a Ãa lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava facilmente as apprehensões e os tormentos, que aquellas lettras escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado por uma vontade forte.A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço nù do cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraças abertas sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucosdegraus deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes estucadas. Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um tremó, entre flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mão pouco antes de rasgar anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a talagarça na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio. Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao tremó e ao espelho.—A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectação. Um corpete, dos que então se chamavamMimosos, de seda preta com guarnições singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graças. Uma fita larga, com laço e pontas caidas, unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, não era menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e balões de verga de aço a magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exageração denominaria verdadeiro collo de garça. O penteado, não menos singular para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e rematando no alto da cabeça por uma flor natural cravada nas tranças. Sapatosde setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o pé mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para modelo das extremidades de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o braço, que na pureza e correcção das linhas não desmentia a formosura do semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expressão nobre, quasi altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia.Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente apenas córava por momentos, e com aquella melancholia tão feiticeira pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o que a cercava, um pagão, se a contemplasse de repente, hesitaria entre Juno e Diana, mas de certo não equivocaria sua belleza casta com os encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos.Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em annos e attractivos, deteve-se suspenso de admiração, não se atrevendo a despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o coração tem sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor, logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um sorriso em que a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrára, e que a amante, baixando das illusões do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem tristes, da existencia, e da paixão.Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo, calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, queesmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o sobresalto da alegria e as tremulas palpitações do peito. O mancebo, não menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, adorando-a, quasi como se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento só póde concebel-o quem já gosou tambem as delicias por vezes acres das expansões do primeiro amor. à donzella ria a esperança na bôcca e nas pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias, que acabára de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoções, como vão e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia.Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mão que não fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de Azevedo.Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado, e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só dos olhos. Leonor disse-lhe:—Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o esperava!...—Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me que não dará nunca a outro esta mão, que tenho nas minhas, como penhor da nossa ventura...—Juramentos?! Já se não contenta com menos? Não crê em mim?!...—Como em Deus!—É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de meu pae? Será possivel ao menos demorar a sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... Manuel! E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se prepara para a morte... que será tambem aminha, porque, se o perder, sei que não posso, que não hei de sobreviver-lhe!...—Não diga isso. Seu pae está mais perto da liberdade, do que da morte...—Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas só confia em Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeço ha tantos dias, chorando quasi orphã aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda esperança?...—Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram nada?...—Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A boa nova será para mim mais risonha!—O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o mesmo!... Os francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!...—Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os ferros do captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de prantos, nem já a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir justiça!... O dia da liberdade começa a raiar. Manuel! O seu posto não é aqui, é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem pela patria...—Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o.—Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o seu resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr aventuras, e não os premiavam senão coroados de louros. Quer ser meu cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel.—Não o sou já? Que votos póde fazer que eu não cumpra?—Vá! A empreza é gloriosa. Ajudará a restaurar a patria, a restituir o throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braços da sua filha!... Porque não sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!...—Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas não voltarão!...—Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que posso. Elles são briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja temerario! Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!...—Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se!—E eu?!... Ficarei só entre dois amores, que são toda a minha esperança, entre duas saudades, que prendem toda a minha alma! Só! Não sem outra companhia mais do que receios e cuidados, sem outras armas senão as minhas lagrimas e orações!... Attentando, depois, na confissão que acabava de soltar, vermelha de pejo como uma roza, cobriu o rosto, e o pranto, rebentando, principiou a deslisar-se-lhe por entre os dedos. O mancebo, exaltado, lançou-se outra vez a seus pés, e em vozes suffocadas e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor levantou a face orvalhada d'aquellas lagrimas tão suaves para ambos, e os bellos olhos sorriram humidos, como o sol de abril por entre chuveiros finos. Uma vista longa e apaixonada beijou com ineffavel delirio a vista do amante, que se sentia desfallecer de jubilo, e que sem forças para exprimir com palavras o alvorço, amiudava os osculos frementes nas mãos, que tremiam, entregando-se a seus carinhos.—Leonor! disse depois de alguns momentos.Agora póde vir a morte, póde redobrar o infortunio, achar-me-hão forte! Sei que sou amado! Levo commigo a confissão da sua ternura!...—Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter adivinhado!?... Não sabia que a ninguem, a mais ninguem... depois de meu pae, tenho a affeição...—Porque não diz o amor!... Teme ver-me feliz?!...—Pois sim! O amor! redarguiu, alçando a fronte com nobre altivez, e fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. Porque hei de encobrir o que sinto; porque hei de negar o que não posso esconder? Amo!... Desde a nossa infancia jurei que não teria outro esposo. Não é crime escutar o coração! Amo-o, Manuel Coutinho!...—Leonor!...—Agora ouça! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus estamos unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria triste d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia póde ser larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, hei de ser digna mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa n'esta solidão metade da sua alma em troca da minha que leva toda... Quero vêl-o victorioso, coberto de gloria, mas!... Que eu não fique viuva sem ser esposa! Tem outra amante que vae servir, a patria! Sacrifique por ella... tudo... tudo! menos a vida que me pertence! Adeus agora! Preciso de socegar o animo para uma visita, que espero, e da qual depende talvez a sorte de meu pae...—Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente. Porque se sujeitaa ouvir esse monstro, auctor de nossas desgraças?—Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe, para salvar meu pae? Oxalá que viesse pedir-me todo o meu sangue em preço do sangue d'elle!—Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido.—Sei! contestou ella serenamente.—E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso.—Não lhe disse que o amava? Duvida do meu coração, ou da minha fé!? Pela vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do seu nome, que é sagrada, e a minha alma, que é livre... O esposo, que posso ter, já o escolhi.—Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas, então porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?...—É o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo menos vender-me, ou aviltar-me!... Não ouviu rodar uma carruagem? É a d'elle! Sáia por aquella porta... Não! Não! ajuntou, notando a agitação do amante. Não lhe devo occultar nada! Entre para aquelle gabinete!... Mas jure-me, que ouça o que ouvir, veja o que vir, mesmo que eu fosse ameaçada... o seu braço, a sua voz, a sua presença, é como se estivessem ausentes...—Juro! Mas se elle ousar!...—Não ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. Agora vá! Um momento! Deixe-me colher forças para o combate!... E pousando-lhe na fronte os labios de rosa afagou-lh'a com um beijo.—Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo.—Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma é a paciencia. Não o sente? Sobea escada... Vá! Nem um gesto, nem uma palavra! Responde pela vida de meu pae!E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete, cuja porta de vidraças recatavam duas cortinas de seda despregadas quasi até ao chão.Depois, levando a mão ao peito, como se quizesse contel-o, alçou a vista com expressão sublime e magoada, e aguardou que a porta se abrisse.Não tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os umbraes.