XLI

XLIOs meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os amores; direi melhor:—iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar, enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das raias{109}da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo é que alliciam almas generosas.¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já encontraram prevenida.Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas sinceros, nos occorreram.Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as cubiças umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:Jam modo non possum contentus vivere parvo.XLII¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que{110}sonhos magnificos não havia de sonhar toda essa gente!¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seuRobinson Crusoé, e um Wyss com o seu ainda mais utilRobinson suisso!¡Pois oMedico da aldeia, oVigario das Ardennase oCura campestrede Balzac!¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a suaArcadiae a sua républica de felizes!¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus subditos!¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do Vivaret em vergel de afortunados!¡Pois a parochia de Jocelyn!¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D. Francisco Gomes do Avellar!Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a primeira das sabedorias.Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios, concertados{111}com as estações, e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor, que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis, as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as conquistas.A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem{112}paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades (flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados moiriscados.A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, oFlos Sanctorum, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e netos pelos tempos fóra.Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, ¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade licções, livros, conselhos.¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e prosperrimas{113}culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, quando deveras se desejam.Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[5].XLIIIOra pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo indispensavel para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não viessem a ser muitas, sempre seriam algumas, produziram todavia seu effeito benefico em nós mesmos. Tão boa coisa é de si a caridade, que, mesmo não aproveitando para fóra, unge e fortalece a alma em que se hospéda.Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores novos a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as temerarias{114}resoluções, que muitos annos depois se haviam de manifestar, na criação de um Methodo humano de ensino elementar, e nos esforços para o diffundir e estabelecer.Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois livrinhos, que ainda hoje amo,Felicidade pela Agricultura, eFelicidade pela Instrucção, não foram talvez senão reminiscencias d'aquelle prazo da minha vida.XLIVOra eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o podia ser; o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os factos, de que a mim me parece poder-se concluir com verosimilhança: que a fortuna e a natureza andaram concordes em sequestrarem da multidão, para o deixarem só e exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem eu fui herdeiro, e de que agora em parte sou biographo desapaixonado; por isso declaro com igual sinceridade:—que a par com estas utopias beneficas e civilisadoras, a que o espirito de meu irmão se dava todo, cá no meu nunca deixaram de vicejar os outros generos de poesia menos alta e mais egoista, de que a indole e o costume me tinham feito necessidade.A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei, as traducções dasMetamorphosese dosAmoresde Ovidio, muitas das bagatellas encorporadas nasExcavações Poeticas, aNoite do Castello, e osCiumes do Bardo, ciumes que, dilo-hei agora de passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que venho conversando.D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes politicas, as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não descuidaria.{115}Assim como elle o era para mim, era eu para elle transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter para o outro uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu espirito poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais especial, que volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e vem de flores para flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa todavia suspeitar que ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de cerrar as azas, aninhar-se, e permanecer.XLVUma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas cogitações, no que chamavam meuTemplo das Musas, veio elle ter comigo, trazendo com alegria uma carta recemchegada de Vairão.Era o meu afamadoTemplo das Musasuma barraca engenhada de cannas, vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se cabia reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe guarneciam o interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella de um só vidro, e outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás viraçoes frescas, e aos rumores proximos ou longinquos da vasta natureza exterior. Pompeava esta solitaria e majestosa fabrica junto a um alto denominado daPedra Branca, fóra do passal, e á beira do sobreiral de S. Sebastião; desafrontado posto, donde se descortinavam terras de quatro Bispados, com horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era miradoiro, e era escuta tudo junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos nós, poucos annos depois, o rolar dos trovões da artilheria na acção da Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe, no cerco do Porto! ¡sons lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço encher de enigmas e sustos a nossa descuidosa solidão!Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com seus{116}furta-côres de deleites e alegrias. Estava-se bem ali; e se occorria desejar-se por entre sonhos alguma outra coisa, era antes para que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para se ir procurál-a fóra d'elle.¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito; mudanças até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a Egreja e a Residencia; mas do meuTemplo das Musas, nem vestigio: os invernos e os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu dormia ou scismava deleites, dominando do meu castello rosado pela aurora, doirado pelo sol, prateado pela lua, espaços infinitos... estavam outra vez as queirozes em pacifica posse do seu torrão, a vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de terem afinal triumphado de quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas descendentes de um rebanho que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga tinham já de tal edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda voz que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo que não desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim não me via ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me denunciava, com medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era entreabrir subtilmente a vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe estar por ali furtando melodias para os meus devaneios.Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o mato e as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e innocente, como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois, um bello dia, convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça, rebanho, passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina que estou dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se ha-de apagar.Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não deslisava apice da que se manifestára e fôra{117}desde todo o principio; e encerrava realmente no seu complexo todos os requisitos para a felicidade de um homem, que, possuindo paz e amores, já não cançaria o Ceo com grandes votos.—«Vamos—exclamou meu irmão, abraçando-me;—tenho promovido tantos casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o setimo sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e mereço ver tambem alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria amenisar emfim a nossa Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito para ella por baixo da fonte do passal, com bastantes narcisos, que lhe recordem a primeira revelação que te ella fez da sua ternura.«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre; não havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado), quando os meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa cara Poesia, terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo tempo te exalte a inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais poetica; os versos dictados para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem nascidos.«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a alegria, como de toda a vivenda.«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto juizo,{118}de coração tão amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»—Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.Verdade verdade:—está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.XLVITinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a mim proprio.{119}A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.A elegiaErmitagem da montanhatinha sido poucos dias antes phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos disse:Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes.Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma, fez rebentar o meu ultimo canto—A Esperança.¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio{120}um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!XLVIIEm 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que meus, oAmor e Melancolia.Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao seu desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a sêde, jazia ainda bem remoto.Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a amiudarem-se!O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha altura, fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra ave exploradora, voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de oliveira. Recerrava-se o postigo, e ficava-se inerte á espera de melhores dias. Entretanto os trovões, ora mais ora menos longinquos, não despegavam, e os relampagos espreitavam ferozes por todas as fendas.¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para immunidade.¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas, ou veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros nos vãos dos altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar papeis! ¡que vigiar do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do ninho, para regressar a elle palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto por quão longo tempo! até que, levantado já quasi o cerco do Porto, atterrados com o ultimo e inevitavel perigo de sermos monteados e perdidos, commettemos á desesperação o salvamento e, atravessando ainda por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e chuvosa, lográmos acolher-nos á Cidade eterna.E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes{121}podia lembrar-se de construir e pendurar em ramos que todos rangiam e estalavam, cestinha de amores para onde chamasse companheira. Não podia ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle fosse.Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem mandados tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de poesia affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se evaporando terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu, condoe-se:Non ignara mali...............Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por melhor. Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se poderia imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos poetas, pelo menos o meu, tem não sei que elasticidade com que resiste ás quedas e ás durezas mais asperas dos precipicios: torce-se, e não quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o adversidades, e logo depois, elle por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado um sobresalto, um terror, um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um tanto, voltava a bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle o viver semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos os esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de todas as profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da trovoada, voltam á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os rebanhos, os pastores, o viço, a musica, o alvoroço.¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um d'elles que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro, que eu mesmo trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e{122}que, ha já annos, cobre com a sua sombra balsamica o telhado hervoso da casinha, pradaria das pombas domesticas, e alem do telhado boa metade do terreiro.Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!XLVIIISentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e esquecido de que havia mundo.Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.—Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,eis-te já no teu novo domicilio,eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!Gente do presbyterio, afervorae-vos,entrançae danças, coroae-vos todos,cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!Anjos que protejeis a Naturezavossa amavel irman filha do Eterno,que entre vós repartistes as montanhas,o arvoredo das Dryades palreiras,e a urna fresca das occultas Náyades,vinde, adoptae no seu primeiro diado filho de David a arvore antiga.D'entre os ramosos tufos elevadoseu cume se remonte á patria vossa,e aponte os Ceos ao pensamento humilde.Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;a vós o cedro; o cedro, inda saudoso{123}e altivo do seu Libano, inda cheiodas lembranças da Biblia, inda soberbode hospedar em jardins, palacios, templos,Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.Assim glorioso e mistico, o bom cedro,o cedro-rei, viu supplice prostrar-seIsrael ora a Deus, ora á fortuna,aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!co'a verdenegra copa não desdenhesacoitar o singelo presbyterio.Premeia o generoso desint'ressedo plantador que desce todo á campa.Sagradas são as dividas do affecto;os cuidados que assiduos te protegem,invoca o tempo de os pagar co'as sombras.Dias virão nos teus crescentes dias,em que nobre ante a porta da virtudecom ternura e respeito hão-de saudar-teos montanhezes descobrindo a fronte.Lembrarás os antigos patriarchas,que ao-pé da movel tenda no desertopertenciam aos Ceos pela esperança,e ao patrio mundo pelo amor dos homens.—Ali—dirão—na sésta reclinadoo pobre ancião, pastor d'estas aldeias,ao circulo inquieto dos meninosensina a amar a Deus, a si, aos outros,ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;e, abraçando-os risonho á despedida,distribue co'a mão tremula aos melhoresem premio doce disputados frutos.——Ali—dirão tambem—sentou-se um dia,e gabou a frescura das ramadas,um Bispo antigo e santo; ali tomavao seu café, resando o breviario;meu avô, bem que rustico e indigente,falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!essa arvore o cobriu, ficou sagrada.—Hospede e amigo do adoptado albergue,firma-te ao solo com raizes promptas;exalça a fronte aerea, alto, gigante;{124}abre os cem braços co'os tufões em lucta.Piedoso Briarêu, não temas raio;o raio atrôe as serras, cegue, abrazeo altivo topo ás arvores soberbas;tu, não tremas; eu quero no futuroque um novo talisman te adorne e ampare,possante contra furias de elementos,contra o machado algoz, contra demonios:Se dos teus annos na madura forçaa mão que ora te planta inda for viva,essa mesma, já tremula e inda amiga,inda meiga ao seu cedro, e já caduca,no tronco te abrirá com tardo exforçograciosa capellinha, onde sorriaum San-João, o Santo alegre do ermo:trajo de pelles, juvenil frescura,olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.N'essa noite poetica e devota,em que o prazer, centuplicando aspectos,povoa, anima, encanta o mundo inteiro;agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;em que a velhice, a mocidade, a infancia,sympathisam no vago da alegria;em que n'alma insaciavel de deliciasse juntam com mistura inexplicavelo saudoso passado, os bens presentes,ao contente futuro ebrio de esp'ranças;em que n'um laço mystico se aggregamda vida e eternidade os pensamentos,gozos, superstições, fraquezas, cultos,como um ramo de rosas e ciprestesna caprichosa mão das feiticeiras;n'essa noite das noites invejada,té dos casaes lá do ultimo horizontea ti concorrerão por toda a partedançantes bandos que a viola impéra.Verás girar seus bailes rebatidosem redor das estridulas fogueiras;ouvirás os seus canticos em corodevoto e namorado; a bomba foge,zune fugindo, e solapada estoira;o buscapé no ar caracolandomorde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,{125}dispersa os grupos, gasta-se raivando,e entre os risos rebenta atroando os ares;aqui, circula em vertice perennea roda leve espadanando incendios,chovendo oiro luzente e estrellas alvas;ali, floreia o fulgido valverde,vulcão sonoro que arremette ás nuvens;vôa, remonta impaciente aos astroso ignívomo foguete estrepitoso.¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!e essa mão dada a furto, e a furto acceita!¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudesda meia noite em ponto! e a flôr crestada!¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,e muitas mais a próvida malicia!¡e a fonte que amanhece entre descantes,e pasma rindo de se ver c'roadade festões verdes e enlaçadas flores!...¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphoste aguardam no porvir, me estão na mente!Mas se ao neto do Libano silvestre,se á arvore do templo, ao cedro antigo,mais contenta sublime austeridade,religioso é o chão que te sustenta,santa e severa a muda visinhança.D'esse lado, essa relva avelludadafoi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;onde a oliveira está, surgia a torre;bradava aos eccos dos remotos cumeso sino da oração, lá onde agoraestá cantando o melro; e pasce a ovelha,balando o seu amor ao filho ausente,onde a moça aldeana ajoelhadaem noite do Natal, ante o presepioacalentava em côro o Deus Menino.Nem portas, nem degraus, nem muros restam!¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!D'aqui, filho do antigo, o novo templote alveja em face. Em fundo de sepulcrospor ossos vãos enredarás raizes.{126}¡Que vezes para o ceo voarão juntoso perfume do incenso e o teu perfume,o teu sussurro e os canticos da Biblia!Escutarás por baixo do teu cumeos mysterios, a supplica chorosa,as lições da moral, do Eterno as glorias,o voto humilde, a gratidão serena,o tom pesado dos funereos Psalmos,a infancia d'entre as aguas renascida,os protestos do amor que acceita e córa;e o mais que o mal previne e o mal espia,gera, vigora o bem e o bem premeia,suavisa as dores, o prazer modera,adoça a vida, aperfeiçoa os homens,e por c'roa da paz a paz promette.Assim, quasi debaixo de teus ramos,juntarás o que a mil faria illustres:a raça que milita, e a que triumpha;os cultos da saudade, e os cultos vivos.Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.Alto, em frente do humilde presbyterio,torna-te a sentinella das montanhas.Se o peregrino, attonito, espantado,errar nos cumes alongando os olhos;se vires muito ao longe os passos frouxos,o curvo dorso, o pallido semblante,e as cans sem honra do ancião mendigo;indica-lhes a senda hospitaleira,mostra-lhes em teu lar os seus penates;e dize ao peregrino:—Eis a poisada;—e ao mendigo:—Bom velho, andas perdido;reconhece o teu fumo, a tua porta,teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.—¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!beneficencia, paz, respeito, gozos,¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivosseculos são se á rosa se comparam,mas passam como a rosa a par dos cedros.Para ti, de anno em anno a primaveravirá com pompa nova e novas galas;{127}para nós, menos flores de anno em annolhe virão no regaço; menos fogonos olhos, no sorrir menos ternura.Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,para quem toda a alegre Naturezaera animada, meiga, inspiradora;que doce delirava entre as violetas,entendia o favonio e a voz das fontes,entrava co'a andorinha em seus prazeres,co'o rouxinol em seus segredos ternos;que do meu estro nas visões formosasarvoredos, oiteiros, grutas, rios,povoava das priscas divindades,e n'um mundo só meu, vivia todo...hoje, ¡quão frouxa pela mente nuasinto raiar a inspiração que imploro!Do genio a seiva, a primavera da alma,langue; raro floresce, a longe, a longe.¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçosoque a grinalda poetica se esfolhe!¡Lyra que apenas entoou preludios,já desafina, e jazerá sem honra!¿Serão estes os canticos do cysne?Ó meus delirios, nuncios meus de gloria¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para semprelagrimas, illusões, ternura, cantos?!¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!E tu tambem, tu morrerás um dia.As raizes cançadas de nutrir-tenão pedirão mais succo á larga terra.¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!A copa verde que hospedava as nuvens,ludibrio d'auras, arida esvoaça.Mas ao menos feliz impresciencia,don melhor que mil dons, te coube em sorte.Dominas vastamente o ar e a terra,sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,e baqueias sonhando eternidades.¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desataem nossos dias tua umbrosa pompa!{128}Emquanto a raça ephemera dos homensvai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,medra pelo descanço; igual hospéda,sorrindo sempre, as estações oppostas;presta-te aos soes e ás luas, que sem contovolverão sobre ti; sê caro asyloao favonio que em braços te adormeça,e ás aves que em teu seio se aninharem,e soffre ou goza o teu destino immenso.¡Ai, nunca de teus ares dominandopela terra de Luso oiças ou vejasda civil guerra as armas fratricidas!Inda agora nos eccos d'estes montesos seus trovões sacrilegos retroam.Inda em nossos ouvidos estremecemquadrupedante estrepito, relinchos,retinir d'armas, rufos de tambores,rolar de carros, vozear de chefes,e os gritos do clarim, pregões da morte,¡Que esposas inda agora estão carpindo!¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!Do sangue a côr maldita inda denigreesses campos de horror; e as sepulturasdos sem numero extinctos nos combates,não florirão inda esta primavera.Do raio o fumo a Lusitania assombra.Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,da innocencia e do amor irman e amiga,alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.De opulentos avós mesquinhos netos,já não pedimos bens: aos descendentesdo povo infesto a Roma e Rei do mundo,basta um pouco de pão em paz comido.Sobre os antigos loiros desfolhadoscaiba-lhe ao menos respirar dormindo,¡Que ideia tão inhospita e gelada!...¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!Ó lua, vem propicia á joven planta;e tu, doirado sol, propicio volta.{129}¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!enchei-lhe a taça, beberemos todos.Conduziram-n-o ao lar; da farta ceialeval-o-hão consolado á foufa cama.Agora, que estou só, que apenas oiçoo mui longe cantar das fiandeirasna aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nosao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,candida imagem de Maria ausente!segredarás aquella de que és sombra,que para ella está guardada a gloriade casar algum dia uma roseiraao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblemada quêda e flórea vida, enlevo de ambos!XLIXVersos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por mais que faça.O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá dentro seductores phantasmas de mulheres.Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios terrestres formosissimos.Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a escutál-o.Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle{130}vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o que se escrevia; era sim o que se me iade noite em leves sonhos que mentiam,de dia em pensamentos que voavam;lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:—É um visionario, ou está sonhando;—e não é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto áPedra Branca, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos{131}ventos, de rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado aos bustos de Sapho{132}e Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por baixo de cada passo.LAhi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.O immortal autor daEpopeia naval portuguesa, o meu bom e velho amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que obsequiosa—lisonjeira.Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde asCartas d'Ecco,Primavera,Amor e Melancolia, até ás presentes paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno simplicissimo.Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se no Universo.{133}Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha{134}predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor senão de ternuras.Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.LICom ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema geral e perfeitissimo.Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade{135}¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do Camões:Transforma-se o amador na coisa amadapor virtude do muito imaginar.Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas trevas, alimentam e aditam a existencia.Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria{136}de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e abranger em descripção ou cómputo.No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz, pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem, como a divina Iris no firmamento.¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella de proposito armado pela{137}Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios:Mundum tradidit Deus disputationi hominum.N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.LII—¿Mas como é—insistem—que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?—Do mesmo modo,{138}pouco mais ou menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros a meu gosto.Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram, agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes, saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje saudades de vinte e tantos annos.Já desde Homero, em tráficos do Pindo,amigo meu Sendim, não roda o oiro.Versos, bustos, paineis, primor das graças,pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,se muito ha que do autor deu cabo a fome.Lisonja em metro, em marmores, em côres,encommende-a o mimoso da fortuna;pague com seus dobrões a gloria alheia.Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,vivemos facil vida anachoretapor solidões de imaginario mundo;que os loiros para nós por nós plantadosouvimos sussurrar por sobre o colmoda ermidinha onde as musas nos visitam;nós, nós, a quem deu alma a Natureza,não terrea, não mortal, não simples alma,de instinctos animaes fugaz composto,mas generosa, esplendida, sublime,mixto da etherea luz, do olor das rosas,do gorgeio do cysne, e do profundobramir do Oceano, e do beijar das rolas,e do albor melancolico da lua,e da calma do estio, e das sonorasbafagens tuas, Héspero, e do lumetrémulo e scismador dos longes astros,não pomos preço vil ao que é sem preço.Como lá n'outra edade, entre homens simplices,colono, pescador, monteiro, artifice,de mão a mão seus commodos trocavam,tal dura e durará commercio nosso.{139}Irmans, e não rivaes, as artes-bellasapertem mais e mais seus mutuos laços;sua origem commum, seus fins os mesmos,impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,umas ás outras realçar o encanto.Mais, muito mais que irmans, são todas uma;em nome, em fórma varia, é uma a essencia:a belleza, a verdade, anceiam todas.Pinta o Meónio, poetisa Apelles,Phydias derrama em marmore a harmonia,Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.Não ha mais que um só Deus, uma verdade,uma belleza só; mostral-a em côres,em figuras, em sons, em phrases podes;são cultos de um só nume em linguas várias.A amendoeira em flôr é primavera,primavera é como ella o ceo macio,primavera a violeta, os ninhos novos.Unica e pura a eterna luz do engenhodos sentidos no prisma se refrange,e sai cambiada em fulgidos matizes.Como as côres são luz, são estro as artes.De nossa industria os fructos permutemos.O mago teu pincel doou-me aos evos;se os versos meus aos evos resistirem,nos versos meus reflorirá teu nome.¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todoá estampadora pedra o confiaste,capaz de confundir maternos olhos,¡não poder eu tambem pintar no metrogenio, vida, expressão, physionomiade quadros, onde a mente aos olhos fala!Desegual foi comnosco a Natureza:amante seu feliz tu gozas d'ella,abráçal-a com extasi, sorri-te,descobre-te um a um seus mil encantos;e, como se um tal bem não fosse immenso,diz-te:—«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»—¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longefugaz e esquiva se entremostra, e passa;{140}como visão por sonhos vaporosos;como scena confusa e namoradade já perdido livro; como ideiada mui longinqua infancia, que inda a medopor sob as cans revôa ao pé das urnas;ou como o astro da noite em selva umbrosa;ou como as vozes de um serão do estio,quando da aldeia as virações as levamsoltas e vagas ao curioso ouvidode erradio viandante; ou como o vultode ingrata amada em vão, que evita encontros,leve atravez das arvores refoge,sem deixar mais de si que a viva imagemde alva roupa esvoaçada e gostos idos!Realiso as que a Grecia fabuláraimpaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,doido de amor, frenetico, debaldea vedada Arethusa andou buscando:«Nympha, vi-te—clamava—¡ai! ¡quero ver-te!»e oai, com que as florestas apiedava,não apiedava o coração da isenta.Á beira de suas aguas fugitivasdepois cançado e triste ia encostar-se,a procurar pelo animo saudosoque feições enxergou, quaes poderiamser as mais que não viu; compunha-a toda,linda sim, mas phantastica; e por ellacom longo affecto os eccos entretinha.Por isso ninguem peça inteiro cantona harpa quebrada. A voz de outros poetasque o solte; não me assombra: a solfa inteiraperante os olhos seus se desenrola.Minha harpa incerta, em solidões, por noite,não apontados sons pendente exhala,a capricho de um zephyro que adeja.De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,(pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)taes não subiram, se ás geladas trevasdesde a infancia atro genio os condemnára.Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegreme alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevode que o minimo insecto ignaro goza,{141}riqueza de que é rico o mundo todo,luz, com pródiga mão dos céos lançada,vida, belleza, luz! palavra etherea,a unica de um Deus no grão momento,em que ao formado mundo erguia o panno...¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?não; pródigo, indiff'rente, como todos,vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me derad'essas horas doiradas um minuto,uma só gotta d'essas fontes amplaspor este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que seden'um só momento me vingára de annos!¡que joias no poetico thesoiroavido para um seculo ajuntára!¡Como ás imagens pallidas, que á forçate arranco, ó Natureza, como arrancao oiro entre fezes duro escravo á mina,como a tantas imagens desbotadas,rico legado do menino ao homem,revivêra o matiz, o fogo, o lustre!Então, para pintar florestas, mares,não precisára de espreitar confusoum ramo a folha e folha, ou já no copo,agil movido, o rutilar da lympha.Se ouvisse descrever a majestadede um rosto varonil, de uma formosao encanto, de um menino as graças lindas,tudo isso o variára a mente facil.O aspecto do varão nem sempre fôraa paterna presença. Além de Amalia,de meus brincos pueris ligeira socia,mais formosas houvera, e mais formososanjos mortaes que o meu gentil do espelho,de olhos tão vivos, tão córado aspecto,riso tão doce, e que eu amava tanto!¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,róla a mente em seu mundo infindos mares,campos lhe alastra de opulencia extranha,circumvolve-o de céos fervendo em astros.Tal de Agenor o filho a patria perde;mas se lei deshumana o lança em fuga,oraculo phebêu condul-o a thronos;por Tyro que perdeu lá funda Thebas,{142}a de cem portas nos canoros muros.Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.¡Feliz o para quem da vida as portasjá se abriram sem luz! Só tem metadedo humano apego ao mundo e horror á morte:não viu, chupando o leite, o seio amigo,o sorrir brando, os olhos, e nos olhoso coração materno; as irmans suasnão foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;movimento, o passeio; o sol, quentura;um monte, a estiva noite; as Graças... nada.¡Longe outra vez, e para sempre longe,saudades vans, desejos vãos e acerbos!¿Que me importam canções? ¿que outrem descrevacom mais proprio matiz do mundo os quadros?¿que tenha ou não mais azas para um voo?¿que importa que um volume de poesiaseja um thesoiro para mim sem chave?¿e que dos seios do animo rebentemmeus versos caudalosos, sem que eu possaco'a propria dextra abrir-lhes a passagem,por onde ávidas paginas inundem?¿Não me rege inda a luz os cautos passos?¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?livros... pluma... olhos meus e dextra minhaquando jámais n'outroeume falleceram,n'outroeuonde os amei e os amo em dobro?¡Graças a amor, á Natureza graças!logrei constante, e lograrei perpétuonos laços fraternaes consorcio d'almas,nos de hymeneu fraternidade nova;meu ente n'estes entes se completa,já bardo sou tambem... sahi, meus versos;pura mão, don dos céos que eu pago em beijossollícita vos abre ao mundo estrada;sahi, voae! da gratidão ferventeaos olhos de Sendim levae meus votos!{143}

Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os amores; direi melhor:—iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.

O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar, enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.

N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das raias{109}da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.

Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.

Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo é que alliciam almas generosas.

¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!

Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já encontraram prevenida.

Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas sinceros, nos occorreram.

Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as cubiças umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:

Jam modo non possum contentus vivere parvo.

¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que{110}sonhos magnificos não havia de sonhar toda essa gente!

¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!

¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!

¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!

¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seuRobinson Crusoé, e um Wyss com o seu ainda mais utilRobinson suisso!

¡Pois oMedico da aldeia, oVigario das Ardennase oCura campestrede Balzac!

¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a suaArcadiae a sua républica de felizes!

¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!

¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus subditos!

¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do Vivaret em vergel de afortunados!

¡Pois a parochia de Jocelyn!

¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D. Francisco Gomes do Avellar!

Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a primeira das sabedorias.

Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.

Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios, concertados{111}com as estações, e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.

¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.

Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor, que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis, as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as conquistas.

A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem{112}paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»

Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades (flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados moiriscados.

A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, oFlos Sanctorum, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e netos pelos tempos fóra.

Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, ¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.

Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade licções, livros, conselhos.

¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e prosperrimas{113}culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!

O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, quando deveras se desejam.

Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.

Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[5].

Ora pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo indispensavel para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não viessem a ser muitas, sempre seriam algumas, produziram todavia seu effeito benefico em nós mesmos. Tão boa coisa é de si a caridade, que, mesmo não aproveitando para fóra, unge e fortalece a alma em que se hospéda.

Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores novos a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as temerarias{114}resoluções, que muitos annos depois se haviam de manifestar, na criação de um Methodo humano de ensino elementar, e nos esforços para o diffundir e estabelecer.

Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois livrinhos, que ainda hoje amo,Felicidade pela Agricultura, eFelicidade pela Instrucção, não foram talvez senão reminiscencias d'aquelle prazo da minha vida.

Ora eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o podia ser; o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os factos, de que a mim me parece poder-se concluir com verosimilhança: que a fortuna e a natureza andaram concordes em sequestrarem da multidão, para o deixarem só e exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem eu fui herdeiro, e de que agora em parte sou biographo desapaixonado; por isso declaro com igual sinceridade:—que a par com estas utopias beneficas e civilisadoras, a que o espirito de meu irmão se dava todo, cá no meu nunca deixaram de vicejar os outros generos de poesia menos alta e mais egoista, de que a indole e o costume me tinham feito necessidade.

A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei, as traducções dasMetamorphosese dosAmoresde Ovidio, muitas das bagatellas encorporadas nasExcavações Poeticas, aNoite do Castello, e osCiumes do Bardo, ciumes que, dilo-hei agora de passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que venho conversando.

D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes politicas, as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.

Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não descuidaria.{115}Assim como elle o era para mim, era eu para elle transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter para o outro uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.

Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu espirito poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais especial, que volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e vem de flores para flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa todavia suspeitar que ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de cerrar as azas, aninhar-se, e permanecer.

Uma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas cogitações, no que chamavam meuTemplo das Musas, veio elle ter comigo, trazendo com alegria uma carta recemchegada de Vairão.

Era o meu afamadoTemplo das Musasuma barraca engenhada de cannas, vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se cabia reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe guarneciam o interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella de um só vidro, e outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás viraçoes frescas, e aos rumores proximos ou longinquos da vasta natureza exterior. Pompeava esta solitaria e majestosa fabrica junto a um alto denominado daPedra Branca, fóra do passal, e á beira do sobreiral de S. Sebastião; desafrontado posto, donde se descortinavam terras de quatro Bispados, com horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era miradoiro, e era escuta tudo junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos nós, poucos annos depois, o rolar dos trovões da artilheria na acção da Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe, no cerco do Porto! ¡sons lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço encher de enigmas e sustos a nossa descuidosa solidão!

Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com seus{116}furta-côres de deleites e alegrias. Estava-se bem ali; e se occorria desejar-se por entre sonhos alguma outra coisa, era antes para que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para se ir procurál-a fóra d'elle.

¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito; mudanças até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a Egreja e a Residencia; mas do meuTemplo das Musas, nem vestigio: os invernos e os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu dormia ou scismava deleites, dominando do meu castello rosado pela aurora, doirado pelo sol, prateado pela lua, espaços infinitos... estavam outra vez as queirozes em pacifica posse do seu torrão, a vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de terem afinal triumphado de quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas descendentes de um rebanho que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga tinham já de tal edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.

Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda voz que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo que não desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim não me via ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me denunciava, com medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era entreabrir subtilmente a vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe estar por ali furtando melodias para os meus devaneios.

Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o mato e as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e innocente, como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois, um bello dia, convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.

¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça, rebanho, passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina que estou dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se ha-de apagar.

Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não deslisava apice da que se manifestára e fôra{117}desde todo o principio; e encerrava realmente no seu complexo todos os requisitos para a felicidade de um homem, que, possuindo paz e amores, já não cançaria o Ceo com grandes votos.

—«Vamos—exclamou meu irmão, abraçando-me;—tenho promovido tantos casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o setimo sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e mereço ver tambem alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria amenisar emfim a nossa Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito para ella por baixo da fonte do passal, com bastantes narcisos, que lhe recordem a primeira revelação que te ella fez da sua ternura.

«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre; não havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado), quando os meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa cara Poesia, terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo tempo te exalte a inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais poetica; os versos dictados para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem nascidos.

«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a alegria, como de toda a vivenda.

«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto juizo,{118}de coração tão amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»—

Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.

Verdade verdade:—está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.

Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a mim proprio.{119}

A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.

Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.

A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.

A elegiaErmitagem da montanhatinha sido poucos dias antes phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos disse:

Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes.

Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?

A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma, fez rebentar o meu ultimo canto—A Esperança.

¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio{120}um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!

Em 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que meus, oAmor e Melancolia.

Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao seu desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a sêde, jazia ainda bem remoto.

Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a amiudarem-se!

O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha altura, fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra ave exploradora, voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de oliveira. Recerrava-se o postigo, e ficava-se inerte á espera de melhores dias. Entretanto os trovões, ora mais ora menos longinquos, não despegavam, e os relampagos espreitavam ferozes por todas as fendas.

¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para immunidade.

¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas, ou veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros nos vãos dos altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar papeis! ¡que vigiar do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do ninho, para regressar a elle palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto por quão longo tempo! até que, levantado já quasi o cerco do Porto, atterrados com o ultimo e inevitavel perigo de sermos monteados e perdidos, commettemos á desesperação o salvamento e, atravessando ainda por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e chuvosa, lográmos acolher-nos á Cidade eterna.

E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes{121}podia lembrar-se de construir e pendurar em ramos que todos rangiam e estalavam, cestinha de amores para onde chamasse companheira. Não podia ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle fosse.

Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem mandados tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de poesia affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se evaporando terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu, condoe-se:

Non ignara mali...............

Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por melhor. Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.

Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se poderia imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos poetas, pelo menos o meu, tem não sei que elasticidade com que resiste ás quedas e ás durezas mais asperas dos precipicios: torce-se, e não quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o adversidades, e logo depois, elle por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado um sobresalto, um terror, um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um tanto, voltava a bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle o viver semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos os esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de todas as profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da trovoada, voltam á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os rebanhos, os pastores, o viço, a musica, o alvoroço.

¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um d'elles que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro, que eu mesmo trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e{122}que, ha já annos, cobre com a sua sombra balsamica o telhado hervoso da casinha, pradaria das pombas domesticas, e alem do telhado boa metade do terreiro.

Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.

¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!

Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.

Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e esquecido de que havia mundo.

Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.—Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.

¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,eis-te já no teu novo domicilio,eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!Gente do presbyterio, afervorae-vos,entrançae danças, coroae-vos todos,cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!Anjos que protejeis a Naturezavossa amavel irman filha do Eterno,que entre vós repartistes as montanhas,o arvoredo das Dryades palreiras,e a urna fresca das occultas Náyades,vinde, adoptae no seu primeiro diado filho de David a arvore antiga.D'entre os ramosos tufos elevadoseu cume se remonte á patria vossa,e aponte os Ceos ao pensamento humilde.Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;a vós o cedro; o cedro, inda saudoso{123}e altivo do seu Libano, inda cheiodas lembranças da Biblia, inda soberbode hospedar em jardins, palacios, templos,Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.Assim glorioso e mistico, o bom cedro,o cedro-rei, viu supplice prostrar-seIsrael ora a Deus, ora á fortuna,aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!co'a verdenegra copa não desdenhesacoitar o singelo presbyterio.Premeia o generoso desint'ressedo plantador que desce todo á campa.Sagradas são as dividas do affecto;os cuidados que assiduos te protegem,invoca o tempo de os pagar co'as sombras.Dias virão nos teus crescentes dias,em que nobre ante a porta da virtudecom ternura e respeito hão-de saudar-teos montanhezes descobrindo a fronte.Lembrarás os antigos patriarchas,que ao-pé da movel tenda no desertopertenciam aos Ceos pela esperança,e ao patrio mundo pelo amor dos homens.—Ali—dirão—na sésta reclinadoo pobre ancião, pastor d'estas aldeias,ao circulo inquieto dos meninosensina a amar a Deus, a si, aos outros,ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;e, abraçando-os risonho á despedida,distribue co'a mão tremula aos melhoresem premio doce disputados frutos.——Ali—dirão tambem—sentou-se um dia,e gabou a frescura das ramadas,um Bispo antigo e santo; ali tomavao seu café, resando o breviario;meu avô, bem que rustico e indigente,falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!essa arvore o cobriu, ficou sagrada.—Hospede e amigo do adoptado albergue,firma-te ao solo com raizes promptas;exalça a fronte aerea, alto, gigante;{124}abre os cem braços co'os tufões em lucta.Piedoso Briarêu, não temas raio;o raio atrôe as serras, cegue, abrazeo altivo topo ás arvores soberbas;tu, não tremas; eu quero no futuroque um novo talisman te adorne e ampare,possante contra furias de elementos,contra o machado algoz, contra demonios:Se dos teus annos na madura forçaa mão que ora te planta inda for viva,essa mesma, já tremula e inda amiga,inda meiga ao seu cedro, e já caduca,no tronco te abrirá com tardo exforçograciosa capellinha, onde sorriaum San-João, o Santo alegre do ermo:trajo de pelles, juvenil frescura,olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.N'essa noite poetica e devota,em que o prazer, centuplicando aspectos,povoa, anima, encanta o mundo inteiro;agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;em que a velhice, a mocidade, a infancia,sympathisam no vago da alegria;em que n'alma insaciavel de deliciasse juntam com mistura inexplicavelo saudoso passado, os bens presentes,ao contente futuro ebrio de esp'ranças;em que n'um laço mystico se aggregamda vida e eternidade os pensamentos,gozos, superstições, fraquezas, cultos,como um ramo de rosas e ciprestesna caprichosa mão das feiticeiras;n'essa noite das noites invejada,té dos casaes lá do ultimo horizontea ti concorrerão por toda a partedançantes bandos que a viola impéra.Verás girar seus bailes rebatidosem redor das estridulas fogueiras;ouvirás os seus canticos em corodevoto e namorado; a bomba foge,zune fugindo, e solapada estoira;o buscapé no ar caracolandomorde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,{125}dispersa os grupos, gasta-se raivando,e entre os risos rebenta atroando os ares;aqui, circula em vertice perennea roda leve espadanando incendios,chovendo oiro luzente e estrellas alvas;ali, floreia o fulgido valverde,vulcão sonoro que arremette ás nuvens;vôa, remonta impaciente aos astroso ignívomo foguete estrepitoso.¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!e essa mão dada a furto, e a furto acceita!¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudesda meia noite em ponto! e a flôr crestada!¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,e muitas mais a próvida malicia!¡e a fonte que amanhece entre descantes,e pasma rindo de se ver c'roadade festões verdes e enlaçadas flores!...¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphoste aguardam no porvir, me estão na mente!Mas se ao neto do Libano silvestre,se á arvore do templo, ao cedro antigo,mais contenta sublime austeridade,religioso é o chão que te sustenta,santa e severa a muda visinhança.D'esse lado, essa relva avelludadafoi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;onde a oliveira está, surgia a torre;bradava aos eccos dos remotos cumeso sino da oração, lá onde agoraestá cantando o melro; e pasce a ovelha,balando o seu amor ao filho ausente,onde a moça aldeana ajoelhadaem noite do Natal, ante o presepioacalentava em côro o Deus Menino.Nem portas, nem degraus, nem muros restam!¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!D'aqui, filho do antigo, o novo templote alveja em face. Em fundo de sepulcrospor ossos vãos enredarás raizes.{126}¡Que vezes para o ceo voarão juntoso perfume do incenso e o teu perfume,o teu sussurro e os canticos da Biblia!Escutarás por baixo do teu cumeos mysterios, a supplica chorosa,as lições da moral, do Eterno as glorias,o voto humilde, a gratidão serena,o tom pesado dos funereos Psalmos,a infancia d'entre as aguas renascida,os protestos do amor que acceita e córa;e o mais que o mal previne e o mal espia,gera, vigora o bem e o bem premeia,suavisa as dores, o prazer modera,adoça a vida, aperfeiçoa os homens,e por c'roa da paz a paz promette.Assim, quasi debaixo de teus ramos,juntarás o que a mil faria illustres:a raça que milita, e a que triumpha;os cultos da saudade, e os cultos vivos.Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.Alto, em frente do humilde presbyterio,torna-te a sentinella das montanhas.Se o peregrino, attonito, espantado,errar nos cumes alongando os olhos;se vires muito ao longe os passos frouxos,o curvo dorso, o pallido semblante,e as cans sem honra do ancião mendigo;indica-lhes a senda hospitaleira,mostra-lhes em teu lar os seus penates;e dize ao peregrino:—Eis a poisada;—e ao mendigo:—Bom velho, andas perdido;reconhece o teu fumo, a tua porta,teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.—¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!beneficencia, paz, respeito, gozos,¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivosseculos são se á rosa se comparam,mas passam como a rosa a par dos cedros.Para ti, de anno em anno a primaveravirá com pompa nova e novas galas;{127}para nós, menos flores de anno em annolhe virão no regaço; menos fogonos olhos, no sorrir menos ternura.Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,para quem toda a alegre Naturezaera animada, meiga, inspiradora;que doce delirava entre as violetas,entendia o favonio e a voz das fontes,entrava co'a andorinha em seus prazeres,co'o rouxinol em seus segredos ternos;que do meu estro nas visões formosasarvoredos, oiteiros, grutas, rios,povoava das priscas divindades,e n'um mundo só meu, vivia todo...hoje, ¡quão frouxa pela mente nuasinto raiar a inspiração que imploro!Do genio a seiva, a primavera da alma,langue; raro floresce, a longe, a longe.¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçosoque a grinalda poetica se esfolhe!¡Lyra que apenas entoou preludios,já desafina, e jazerá sem honra!¿Serão estes os canticos do cysne?Ó meus delirios, nuncios meus de gloria¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para semprelagrimas, illusões, ternura, cantos?!¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!E tu tambem, tu morrerás um dia.As raizes cançadas de nutrir-tenão pedirão mais succo á larga terra.¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!A copa verde que hospedava as nuvens,ludibrio d'auras, arida esvoaça.Mas ao menos feliz impresciencia,don melhor que mil dons, te coube em sorte.Dominas vastamente o ar e a terra,sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,e baqueias sonhando eternidades.¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desataem nossos dias tua umbrosa pompa!{128}Emquanto a raça ephemera dos homensvai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,medra pelo descanço; igual hospéda,sorrindo sempre, as estações oppostas;presta-te aos soes e ás luas, que sem contovolverão sobre ti; sê caro asyloao favonio que em braços te adormeça,e ás aves que em teu seio se aninharem,e soffre ou goza o teu destino immenso.¡Ai, nunca de teus ares dominandopela terra de Luso oiças ou vejasda civil guerra as armas fratricidas!Inda agora nos eccos d'estes montesos seus trovões sacrilegos retroam.Inda em nossos ouvidos estremecemquadrupedante estrepito, relinchos,retinir d'armas, rufos de tambores,rolar de carros, vozear de chefes,e os gritos do clarim, pregões da morte,¡Que esposas inda agora estão carpindo!¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!Do sangue a côr maldita inda denigreesses campos de horror; e as sepulturasdos sem numero extinctos nos combates,não florirão inda esta primavera.Do raio o fumo a Lusitania assombra.Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,da innocencia e do amor irman e amiga,alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.De opulentos avós mesquinhos netos,já não pedimos bens: aos descendentesdo povo infesto a Roma e Rei do mundo,basta um pouco de pão em paz comido.Sobre os antigos loiros desfolhadoscaiba-lhe ao menos respirar dormindo,¡Que ideia tão inhospita e gelada!...¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!Ó lua, vem propicia á joven planta;e tu, doirado sol, propicio volta.{129}¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!enchei-lhe a taça, beberemos todos.Conduziram-n-o ao lar; da farta ceialeval-o-hão consolado á foufa cama.Agora, que estou só, que apenas oiçoo mui longe cantar das fiandeirasna aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nosao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,candida imagem de Maria ausente!segredarás aquella de que és sombra,que para ella está guardada a gloriade casar algum dia uma roseiraao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblemada quêda e flórea vida, enlevo de ambos!

Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.

¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por mais que faça.

O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.

S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá dentro seductores phantasmas de mulheres.

Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios terrestres formosissimos.

Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a escutál-o.

Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.

Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle{130}vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.

O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o que se escrevia; era sim o que se me ia

de noite em leves sonhos que mentiam,de dia em pensamentos que voavam;

lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:—É um visionario, ou está sonhando;—e não é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.

D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.

Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto áPedra Branca, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos{131}ventos, de rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:

Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.

Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!

Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.

¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado aos bustos de Sapho{132}e Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.

Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por baixo de cada passo.

Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.

Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.

O immortal autor daEpopeia naval portuguesa, o meu bom e velho amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que obsequiosa—lisonjeira.

Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde asCartas d'Ecco,Primavera,Amor e Melancolia, até ás presentes paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno simplicissimo.

Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se no Universo.{133}

Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.

Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.

Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.

¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.

Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha{134}predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor senão de ternuras.

Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.

Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema geral e perfeitissimo.

Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade{135}¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do Camões:

Transforma-se o amador na coisa amadapor virtude do muito imaginar.

Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas trevas, alimentam e aditam a existencia.

Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.

Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria{136}de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e abranger em descripção ou cómputo.

No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz, pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem, como a divina Iris no firmamento.

¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.

¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella de proposito armado pela{137}Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios:Mundum tradidit Deus disputationi hominum.

N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.

O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.

Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?

Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.

—¿Mas como é—insistem—que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?—Do mesmo modo,{138}pouco mais ou menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros a meu gosto.

Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram, agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes, saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje saudades de vinte e tantos annos.

Já desde Homero, em tráficos do Pindo,amigo meu Sendim, não roda o oiro.Versos, bustos, paineis, primor das graças,pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,se muito ha que do autor deu cabo a fome.Lisonja em metro, em marmores, em côres,encommende-a o mimoso da fortuna;pague com seus dobrões a gloria alheia.Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,vivemos facil vida anachoretapor solidões de imaginario mundo;que os loiros para nós por nós plantadosouvimos sussurrar por sobre o colmoda ermidinha onde as musas nos visitam;nós, nós, a quem deu alma a Natureza,não terrea, não mortal, não simples alma,de instinctos animaes fugaz composto,mas generosa, esplendida, sublime,mixto da etherea luz, do olor das rosas,do gorgeio do cysne, e do profundobramir do Oceano, e do beijar das rolas,e do albor melancolico da lua,e da calma do estio, e das sonorasbafagens tuas, Héspero, e do lumetrémulo e scismador dos longes astros,não pomos preço vil ao que é sem preço.Como lá n'outra edade, entre homens simplices,colono, pescador, monteiro, artifice,de mão a mão seus commodos trocavam,tal dura e durará commercio nosso.{139}Irmans, e não rivaes, as artes-bellasapertem mais e mais seus mutuos laços;sua origem commum, seus fins os mesmos,impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,umas ás outras realçar o encanto.Mais, muito mais que irmans, são todas uma;em nome, em fórma varia, é uma a essencia:a belleza, a verdade, anceiam todas.Pinta o Meónio, poetisa Apelles,Phydias derrama em marmore a harmonia,Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.Não ha mais que um só Deus, uma verdade,uma belleza só; mostral-a em côres,em figuras, em sons, em phrases podes;são cultos de um só nume em linguas várias.A amendoeira em flôr é primavera,primavera é como ella o ceo macio,primavera a violeta, os ninhos novos.Unica e pura a eterna luz do engenhodos sentidos no prisma se refrange,e sai cambiada em fulgidos matizes.Como as côres são luz, são estro as artes.De nossa industria os fructos permutemos.O mago teu pincel doou-me aos evos;se os versos meus aos evos resistirem,nos versos meus reflorirá teu nome.¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todoá estampadora pedra o confiaste,capaz de confundir maternos olhos,¡não poder eu tambem pintar no metrogenio, vida, expressão, physionomiade quadros, onde a mente aos olhos fala!Desegual foi comnosco a Natureza:amante seu feliz tu gozas d'ella,abráçal-a com extasi, sorri-te,descobre-te um a um seus mil encantos;e, como se um tal bem não fosse immenso,diz-te:—«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»—¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longefugaz e esquiva se entremostra, e passa;{140}como visão por sonhos vaporosos;como scena confusa e namoradade já perdido livro; como ideiada mui longinqua infancia, que inda a medopor sob as cans revôa ao pé das urnas;ou como o astro da noite em selva umbrosa;ou como as vozes de um serão do estio,quando da aldeia as virações as levamsoltas e vagas ao curioso ouvidode erradio viandante; ou como o vultode ingrata amada em vão, que evita encontros,leve atravez das arvores refoge,sem deixar mais de si que a viva imagemde alva roupa esvoaçada e gostos idos!Realiso as que a Grecia fabuláraimpaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,doido de amor, frenetico, debaldea vedada Arethusa andou buscando:«Nympha, vi-te—clamava—¡ai! ¡quero ver-te!»e oai, com que as florestas apiedava,não apiedava o coração da isenta.Á beira de suas aguas fugitivasdepois cançado e triste ia encostar-se,a procurar pelo animo saudosoque feições enxergou, quaes poderiamser as mais que não viu; compunha-a toda,linda sim, mas phantastica; e por ellacom longo affecto os eccos entretinha.Por isso ninguem peça inteiro cantona harpa quebrada. A voz de outros poetasque o solte; não me assombra: a solfa inteiraperante os olhos seus se desenrola.Minha harpa incerta, em solidões, por noite,não apontados sons pendente exhala,a capricho de um zephyro que adeja.De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,(pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)taes não subiram, se ás geladas trevasdesde a infancia atro genio os condemnára.Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegreme alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevode que o minimo insecto ignaro goza,{141}riqueza de que é rico o mundo todo,luz, com pródiga mão dos céos lançada,vida, belleza, luz! palavra etherea,a unica de um Deus no grão momento,em que ao formado mundo erguia o panno...¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?não; pródigo, indiff'rente, como todos,vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me derad'essas horas doiradas um minuto,uma só gotta d'essas fontes amplaspor este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que seden'um só momento me vingára de annos!¡que joias no poetico thesoiroavido para um seculo ajuntára!¡Como ás imagens pallidas, que á forçate arranco, ó Natureza, como arrancao oiro entre fezes duro escravo á mina,como a tantas imagens desbotadas,rico legado do menino ao homem,revivêra o matiz, o fogo, o lustre!Então, para pintar florestas, mares,não precisára de espreitar confusoum ramo a folha e folha, ou já no copo,agil movido, o rutilar da lympha.Se ouvisse descrever a majestadede um rosto varonil, de uma formosao encanto, de um menino as graças lindas,tudo isso o variára a mente facil.O aspecto do varão nem sempre fôraa paterna presença. Além de Amalia,de meus brincos pueris ligeira socia,mais formosas houvera, e mais formososanjos mortaes que o meu gentil do espelho,de olhos tão vivos, tão córado aspecto,riso tão doce, e que eu amava tanto!¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,róla a mente em seu mundo infindos mares,campos lhe alastra de opulencia extranha,circumvolve-o de céos fervendo em astros.Tal de Agenor o filho a patria perde;mas se lei deshumana o lança em fuga,oraculo phebêu condul-o a thronos;por Tyro que perdeu lá funda Thebas,{142}a de cem portas nos canoros muros.Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.¡Feliz o para quem da vida as portasjá se abriram sem luz! Só tem metadedo humano apego ao mundo e horror á morte:não viu, chupando o leite, o seio amigo,o sorrir brando, os olhos, e nos olhoso coração materno; as irmans suasnão foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;movimento, o passeio; o sol, quentura;um monte, a estiva noite; as Graças... nada.¡Longe outra vez, e para sempre longe,saudades vans, desejos vãos e acerbos!¿Que me importam canções? ¿que outrem descrevacom mais proprio matiz do mundo os quadros?¿que tenha ou não mais azas para um voo?¿que importa que um volume de poesiaseja um thesoiro para mim sem chave?¿e que dos seios do animo rebentemmeus versos caudalosos, sem que eu possaco'a propria dextra abrir-lhes a passagem,por onde ávidas paginas inundem?¿Não me rege inda a luz os cautos passos?¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?livros... pluma... olhos meus e dextra minhaquando jámais n'outroeume falleceram,n'outroeuonde os amei e os amo em dobro?¡Graças a amor, á Natureza graças!logrei constante, e lograrei perpétuonos laços fraternaes consorcio d'almas,nos de hymeneu fraternidade nova;meu ente n'estes entes se completa,já bardo sou tambem... sahi, meus versos;pura mão, don dos céos que eu pago em beijossollícita vos abre ao mundo estrada;sahi, voae! da gratidão ferventeaos olhos de Sendim levae meus votos!{143}


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