XVIIPasseava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos ainda o desejava.Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras{44}sem numero e sem fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e futuros.¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o amor.Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa voluptuosidade?¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela poesia e pelo amor?{45}XVIIIEm quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia realmente ella?Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.{46}N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na pureza.Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a desaparecer{47}para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não retivessem pela cintura:—«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, ¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu poeta!»—dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem tão para a alma, como então.XIXAgora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:—que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma resposta.{48}Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida n'uma só.Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos seus affectos innocentes.Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.{49}XXEntretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a nossa correspondencia.Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:..............................lasciva puella.{50}Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.XXIÉ Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.{51}Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já, descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado em historia; estava escripto que proseguiria.Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na Providencia.XXIIParecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de Christo:—«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou d'onde vos heis-de vestir.«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como qualquer d'elles.«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,{52}hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:—¿Que havemos de comer, que havemos de beber, que havemos de vestir?«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas essas coisas vos são mistér.«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»—Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso mais depressa.{53}XXIIIMaria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o poeta daPrimavera, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de outra.É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.XXIVLêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim formosa.O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle, para{54}elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras as animavam!Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do adorador.{55}Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á sua divindade?Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna para a filha dos marmores de Paros.—«¿O amor que nasceu de mim—dizia ella—não me tem a mim propria ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu disfructo sem limite?»—Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas{56}com festões de murta, tinham ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:—«¡Olhae, olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora a hora.»—A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava, tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o mundo?...Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da Immortal,{57}transporta por suas mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:—Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,effluvios de prazer, universal ternura,Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.¡Quão menos insensato o moço do Cephysose finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;{58}não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;não lhe pude formar lá dentro um coração.¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retratodo immenso que sonhei compondo a Galatéa,revela-me onde habita a amavel Semidéa;assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;terá por choça um throno, e por captivo um Rei;e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,a ti uma hecatomba alegre immolarei.»—Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios nacarados.—«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!—» exclama o artista delirante, correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que{59}sentia. Viu nas profundezas interiores do seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz felicitando.A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não ser vista.N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do aposento.XXVDespidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamentoDouce communauté de cœurs et de sommeils.As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e circumstanciadas descripções{60}que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a entregar.Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra crear-se poesia?Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a{61}guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.XXVIAs abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo, porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro, existirá porventura, como se{62}comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade? interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os descontam, os aniquilam.As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não{63}succede assim. Ellas amam tambem.—«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais recommendaveis.¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam explanar.Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em seu damno.Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está uma cidadinha toda feminina,{64}sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as paixões{65}vehementes as quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da officina.¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam{66}de ser salteadas, não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma noiva muito amiga.¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave, que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa especie; mas a mulher na convivencia exclusiva{67}do seu sexo, mantem inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe estragariam.A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se não que o é em muito maior auge.¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas, com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores, incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos, sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do firmamento.Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e deixa apoz si recordações para muitos dias.As donzellas dos salões, que revolvam e troquem{68}entre si memorias das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve, dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido, de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de uma ponte inabalavel.Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me um unico, se o descobristes.Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e espontaneo não é vida.¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se póde queixar do seu quinhão.¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro tanto{69}podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes da bemaventurança da sua cidadinha.O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço; gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia; e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos, sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for adulta e governar.Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são, pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante. O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude, que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico, suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo decrastana linguagem mesma das chronicas monasticas.Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a sua memoria só fica subsistindo{70}nos contos asquerosos da escola de Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas, creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos, bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe, poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:—«¡Nunca mais a posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como espectros pallidos, e tremulos todos:Resemos pela alma da mãe de uma de nossas irmans; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas orphans na orphandade que só é de uma.»—Á mesa, onde não vê sua filha, salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza, sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas, entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar (e cogita sempre) que a pobresinha{71}nem tem, como a ovelha, um feno em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do pavimento!Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus mandamentos em relação ao proximo.XXVIIVairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sêr, anjos perfumados em paraizo.Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma unica pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia esquecer a superioridade do seu espirito.Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada escripto, como em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o proficuo do prejudicial:Florigeros ut apes per saltus......Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo, quando mesmo as ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um veo de modestia, que ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento, temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginação, e do seu juizo, para não offender a miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe até facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que{72}fosse; o que não tolhia que até as mais edosas a tomassem por conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro caminho a um alvo honesto e proveitoso.O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma boa porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que, folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado gôsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, essa, tradição e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar, que do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu empenho, não digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso. Não ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á educanda de Vairão.XXVIIICuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a encarnar-se{73}em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal, ao poeta, não já doInferno, mas doPurgatorioe doCéodo amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das Carmelitas?¡Que espantosa similhança entre ella e elle!São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo poderão achar confôrto.Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Lœva ejus sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.[3]O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas para a eternidade.Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita namorado.Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida{74}nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:—¡O beata solitudo! ¡o sola beatitudo!—porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.O POETATennemi Amor anni ventuno ardendoLieto nel foco, e nel duol pien di speme,Poi che Madonna, e'l mio cor seco insiemeSaliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.Ornai son stanco, e mia vita riprendoDi tanto error; che di virtute il semeHa quasi spento; e le mie parti estreme,Alto Dio, a te divotamente rendo.Pentito e tristo de' miei si spesi anni,Che spender si doveano in miglior uso,In cercar pace, ed in fuggir affanni,Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,Trammene salvo dagli eterni danni,Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.A RELIGIOSA¡Ay! ¡que larga es esta vida!¡que duros estos destierros,{75}esta carcel, y estos hierros,en que está el alma metida!solo esperar la salidame causa un dolor tan fiero,que muero porque no muero.Acaba yà de dexarme,vida, no me seas molesta;porque muriendo, ¿que resta,sino vivir, y gozarme?No dexes de consolarme,muerte, que assi te requiero,que muero porque no muero.O POETAIo vo piangendo i miei passati tempi,I quai posi in amar cosa mortale,Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,Per dar forse di me non bassi esempi.Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,Rè del Cielo invisibile, immortale,Soccorri all'alma disviata, e frale,Él suo difetto di tua grazia adempi.Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,Mora in pace, ed in porto; e se la stanzaFu vana, almen sia la partita onesta.A quel poço di viver che m' avanza,Ed al morir, degni esser tua man presta:Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.A RELIGIOSAAy! que vida tan amargadò no se goza el Señor!Y si es dulce el amor,no lo es la esperanza larga.Quiteme Dios esta carga,mas pesada que de azero,que muero porque no muero.{76}Solo con la confianzavivo de que he de morir:porque muriendo el vivirme assegura mi esperanza.Muerte, dó el vivir se alcanza,no te tardes, que te espero,que muero porque no muero.¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam com lagrimas.Valchiusaou, como dizem,Voclusa, onde Petrarcha passa tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa;ter geminis honoribus; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de murta, como amante.{77}Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario deLaureta.
Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.
Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.
¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?
Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos ainda o desejava.
Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.
Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras{44}sem numero e sem fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!
A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e futuros.
¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o amor.
Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.
¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa voluptuosidade?
¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela poesia e pelo amor?{45}
Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia realmente ella?
Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.
O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.
O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.{46}
N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na pureza.
Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.
Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a desaparecer{47}para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não retivessem pela cintura:—«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, ¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu poeta!»—dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem tão para a alma, como então.
Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.
De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:—que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.
Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma resposta.{48}
Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.
¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida n'uma só.
Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos seus affectos innocentes.
Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.
Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.{49}
Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.
Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a nossa correspondencia.
Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
..............................lasciva puella.{50}
Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.
Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.
É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.
É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.
Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.{51}
Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.
Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já, descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.
O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado em historia; estava escripto que proseguiria.
Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.
Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na Providencia.
Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de Christo:
—«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou d'onde vos heis-de vestir.
«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.
«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.
«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como qualquer d'elles.
«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,{52}hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?
«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:—¿Que havemos de comer, que havemos de beber, que havemos de vestir?
«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas essas coisas vos são mistér.
«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»—
Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.
Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.
Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso mais depressa.{53}
Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o poeta daPrimavera, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de outra.
É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.
Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim formosa.
O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle, para{54}elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras as animavam!
Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.
Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do adorador.{55}
Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.
A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á sua divindade?
Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna para a filha dos marmores de Paros.
—«¿O amor que nasceu de mim—dizia ella—não me tem a mim propria ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu disfructo sem limite?»—
Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas{56}com festões de murta, tinham ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:—«¡Olhae, olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora a hora.»—
A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava, tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.
¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o mundo?...
Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da Immortal,{57}transporta por suas mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.
Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:
—Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,effluvios de prazer, universal ternura,Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.¡Quão menos insensato o moço do Cephysose finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;{58}não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;não lhe pude formar lá dentro um coração.¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retratodo immenso que sonhei compondo a Galatéa,revela-me onde habita a amavel Semidéa;assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;terá por choça um throno, e por captivo um Rei;e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,a ti uma hecatomba alegre immolarei.»—
Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios nacarados.
—«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!—» exclama o artista delirante, correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»
¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que{59}sentia. Viu nas profundezas interiores do seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz felicitando.
A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não ser vista.
N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do aposento.
Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.
Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento
Douce communauté de cœurs et de sommeils.
As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.
Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e circumstanciadas descripções{60}que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a entregar.
Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.
Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra crear-se poesia?
Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!
Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a{61}guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.
As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.
Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.
Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo, porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.
¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro, existirá porventura, como se{62}comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.
Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?
«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade? interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...
Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!
A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os descontam, os aniquilam.
As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não{63}succede assim. Ellas amam tambem.—«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.
Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais recommendaveis.
¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam explanar.
Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em seu damno.
Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está uma cidadinha toda feminina,{64}sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.
Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.
Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.
Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as paixões{65}vehementes as quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.
Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.
O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.
Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da officina.
¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam{66}de ser salteadas, não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.
Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma noiva muito amiga.
¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.
O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave, que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa especie; mas a mulher na convivencia exclusiva{67}do seu sexo, mantem inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe estragariam.
A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se não que o é em muito maior auge.
¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas, com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores, incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos, sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do firmamento.
Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e deixa apoz si recordações para muitos dias.
As donzellas dos salões, que revolvam e troquem{68}entre si memorias das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve, dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido, de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de uma ponte inabalavel.
Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me um unico, se o descobristes.
Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e espontaneo não é vida.
¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se póde queixar do seu quinhão.
¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro tanto{69}podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes da bemaventurança da sua cidadinha.
O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço; gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia; e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos, sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.
Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.
Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for adulta e governar.
Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são, pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante. O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude, que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico, suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo decrastana linguagem mesma das chronicas monasticas.
Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a sua memoria só fica subsistindo{70}nos contos asquerosos da escola de Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.
A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas, creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos, bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe, poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:—«¡Nunca mais a posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como espectros pallidos, e tremulos todos:Resemos pela alma da mãe de uma de nossas irmans; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas orphans na orphandade que só é de uma.»—Á mesa, onde não vê sua filha, salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza, sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas, entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar (e cogita sempre) que a pobresinha{71}nem tem, como a ovelha, um feno em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do pavimento!
Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus mandamentos em relação ao proximo.
Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sêr, anjos perfumados em paraizo.
Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma unica pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia esquecer a superioridade do seu espirito.
Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada escripto, como em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o proficuo do prejudicial:
Florigeros ut apes per saltus......
Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo, quando mesmo as ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um veo de modestia, que ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento, temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginação, e do seu juizo, para não offender a miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe até facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que{72}fosse; o que não tolhia que até as mais edosas a tomassem por conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro caminho a um alvo honesto e proveitoso.
O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma boa porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que, folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado gôsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, essa, tradição e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.
Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar, que do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu empenho, não digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso. Não ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.
Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á educanda de Vairão.
Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a encarnar-se{73}em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.
A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.
¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal, ao poeta, não já doInferno, mas doPurgatorioe doCéodo amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das Carmelitas?
¡Que espantosa similhança entre ella e elle!
São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo poderão achar confôrto.
Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Lœva ejus sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.[3]
O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.
Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.
Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas para a eternidade.
Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita namorado.
Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida{74}nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.
Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:—¡O beata solitudo! ¡o sola beatitudo!—porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.
Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.
Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.
O POETATennemi Amor anni ventuno ardendoLieto nel foco, e nel duol pien di speme,Poi che Madonna, e'l mio cor seco insiemeSaliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.Ornai son stanco, e mia vita riprendoDi tanto error; che di virtute il semeHa quasi spento; e le mie parti estreme,Alto Dio, a te divotamente rendo.Pentito e tristo de' miei si spesi anni,Che spender si doveano in miglior uso,In cercar pace, ed in fuggir affanni,Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,Trammene salvo dagli eterni danni,Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.A RELIGIOSA¡Ay! ¡que larga es esta vida!¡que duros estos destierros,{75}esta carcel, y estos hierros,en que está el alma metida!solo esperar la salidame causa un dolor tan fiero,que muero porque no muero.Acaba yà de dexarme,vida, no me seas molesta;porque muriendo, ¿que resta,sino vivir, y gozarme?No dexes de consolarme,muerte, que assi te requiero,que muero porque no muero.O POETAIo vo piangendo i miei passati tempi,I quai posi in amar cosa mortale,Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,Per dar forse di me non bassi esempi.Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,Rè del Cielo invisibile, immortale,Soccorri all'alma disviata, e frale,Él suo difetto di tua grazia adempi.Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,Mora in pace, ed in porto; e se la stanzaFu vana, almen sia la partita onesta.A quel poço di viver che m' avanza,Ed al morir, degni esser tua man presta:Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.A RELIGIOSAAy! que vida tan amargadò no se goza el Señor!Y si es dulce el amor,no lo es la esperanza larga.Quiteme Dios esta carga,mas pesada que de azero,que muero porque no muero.{76}Solo con la confianzavivo de que he de morir:porque muriendo el vivirme assegura mi esperanza.Muerte, dó el vivir se alcanza,no te tardes, que te espero,que muero porque no muero.
¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam com lagrimas.
Valchiusaou, como dizem,Voclusa, onde Petrarcha passa tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.
Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.
Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.
Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.
Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa;ter geminis honoribus; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de murta, como amante.{77}
Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.
Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario deLaureta.