XXIXA secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.{78}Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma candido.Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar, como agora estou fazendo.XXX¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo, duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos, nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra abuena-dicha, em que ninguem creu.O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada{79}nas noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não trovador.Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça, montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel. Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares nascôrtes de amor, quando já não fosse por seu denodo contra inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe; mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença, obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e damas se reuniam.O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um escabello; tão insigne{80}favor, redobrava-lhe posses ao talento; excedia os prestigios da vespera.Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos; arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria da bésta sempre n'outro.Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se faz amor.Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem Guilherme de Cabestaing.{81}¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador. D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio por onde o enxame se regenera.Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos, não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das villans suas vassallas.Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar o seu trovador.Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média? falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do que se comprehendia sob a denominação degaia sciencia, e que dava assumpto ás discussões e sentenças das famigeradascôrtes de amor: era um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario, pelos campos da phantasia e do sentimento.A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa,{82}e passára, sem mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as festas do coração. Agaia, ou folgasan,sciencia, pelo contrario, tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia; nada mais.O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe, esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços; misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as estrellas.Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios, resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:{83}Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,Le cortesie, l'audaci imprese io canto.Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio das litteraturas.Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.XXXIA maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como{84}vos desvanecestes? ¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.XXXIIAqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;........quis enim securus amavit?mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi tudo.O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me{85}abortava o certo. ¿A paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem por isso menos attendiveis.Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem derramado por esse mundo.Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.XXXIIIO mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo deAmor e Melancolia;Melancolianão ha separal-a doAmor.Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com palavras tambem d'ella:—que ha mais gente habilitada para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um prado florescente de{86}primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da obraNovissima Heloisa, designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se desaproveitou, (trovas,tenções,solaus, ou como melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles, confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares; e o amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a principio o tinha sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.XXXIV¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas, a Fonte das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu grande manancial.¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua, tinham edificado aquelle refugio; para mim só, e não para os Conegos{87}regrantes, que D. Manuel e D. João III o engrandeceram e aformosentaram com tão regia, com tão prodiga bizarria.Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e amollecem com a sua presença amante e festiva a austeridade do monumento; emquanto os orgãos gemiam lá dentro, cantavam elles cá por fóra. Quando as rezas matutinas começavam a espertar eccos pelos desvãos das abobadas sobre as campas de marmore brunido, já elles tinham dado as alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram para elles aves de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de se estarem captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades; aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos dominios campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas, em que o texto devoto irá manando todo por entre um perpetuo paraizo de primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É assim tambem, que no sorrir de um bom velho se resumem os castos alvoroços que lhe abundam pelo animo.N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que mais lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que{88}Paulo III cubiçou conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar á toa, e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio doSilencio; depois no daManga, aviventado do estrépito de cascatas, que um sultão de Granada cubiçaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro, rasgae um portão bipatente que dê sem subida nem descida para um terreiro ajardinado; postae á direita do portão, como porteira obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas enormes urnas de prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das minhas inspirações.Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por mais de uma vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos religiosos; esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo? pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda á direita, no immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a doçura das suas falas, que eu não conhecia.{89}QUINTA DOS AZULEJOSQUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)Tal como era ainda em 1862Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se manifestam.Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas donon plus ultraficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos transportes—d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino banho de affectos, que eu{90}mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão elastica e macia.Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor, e sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se todo o mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro saudoso já a vinte leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me abrazava.{91}XXXVO Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára oBanho das Graças, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu devaneei oBarquinho do lago encantado, que vós lestes n'este livro.Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a sós com o coração ainda{92}agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que tudo quanto é solido, isto é, duro,—fixo, isto é, estorvo,—temido, isto é, tirannia,—elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos desejos.Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura como os nossos berços.¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a visão, e já não a perde.¡O meu Lago, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam despojar!{93}¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios,mea regna!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e estão-se rindo de revoluções do mundo:mea regnas. ¿Sabeis porquê? porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e futuros, de nossa terra.No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.XXXVI¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana,{94}de todas as horas, diurna e nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamentea fortiori, os caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em todo, nada.Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:—nem illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem{95}edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o Céo, indifferença para a terra.—Viver tal não valia a pena.Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:—a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.¿Mas que digo eunão houve perda? assim mesmo a houve, e, se bem se considerar, não tão pequena.Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente, passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus livros havia tantos{96}seculos, no estio á sombra das copas, no inverno á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais ninho.Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos, a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias, estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dosLusiadasseria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe esmolar da sua pobreza¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por cima das nossas cabeças a resplandecer!¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro, escutado, e applaudido{97}de outros cysnes, não saberias ter suspirado no teu ultimo canto aquelle triste versoo gôsto de escrever que vou perdendo;nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:Vão os annos descendo, e já do estiohá pouco que passar até o outono;a fortuna me faz o engenho frio,do qual já me não jacto, nem me abono;os desgostos me vão levando ao riodo negro esquecimento, e eterno sono;mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainhadas Musas, co'o que quero á Nação minha.O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.XXXVIIAssaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos chegando ao fim da nossa jornada.Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.AsRuinas do Mosteiro, por exemplo, nasceram da contemplação melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.AsDuas Palmeiras, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do Bussaco.{98}ARega dos pomares, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta suburbana das Setes Fontes.ANoite do estio, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.Até aFeiticeira(¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas ficticias ninguem se jacta) aFeiticeiramesma teve, sob os enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:................... quid tentasse nocebit?e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para outro qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.XXXVIIIAbraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar nos campos, bem vedes se lhe não seria incentivo de ambições.Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do estudo, e avido de bemquerenças,{99}nem mais talhado para dar largas a uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura os possuia, onde, embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o conseguisse, se nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiçar.Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.XXXIXA 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do Caramulo.¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro, ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de uma hora!Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.{100}—«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?—«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se gelava o coração!Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os seus arrufos.Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:APRIMEIRA NOITE NA SERRA.................ibi hæc incondita solusMontibus et silvis studio jactabat inani.¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,que se espanta de ver-me, e cuja austéra frontenada avistou jamais no amplissimo horizontedo mundo a tumultuar, de cidades a rir...n'este ermo ignaro, frio? mudo...aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,¡o meu presente e o meu porvir!{101}Genio invisivel da montanha,de astros, de sol, o ceo te banha;o mar de longe te acompanhano livre cantico sem fim.Escada de Jacob da terra ao firmamento,a mansão tua é monumentoda potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.Emquanto, em derredor do solio teu sublime,a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,se volve, se transforma, e sua angustia exprimen'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,a variedades sobranceiromantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,e do diluvio assolador.Silencio e paz comtigo habita;o ermo é como o eremita;loucas vaidades não cogita;ama o seu rustico trajar;em apparente inercia ama que ferva occultode seus affectos o tumulto,seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,póde ouvir de tua harpa a casta melodia,e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;sim; mas eu, frivolo, profano,á solidão extranho, affeito ao mundo insano,¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?¿Toda a minh'alma se entristece,e se confrange, e se ennoitece,ao ver que a sorte lhe destecede um sopro os aureos sonhos seus.Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!sonhava mundo... ¡acho um deserto!sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;é como uns sons d'ignota fala;{102}qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,sem me abalar, nem me embeber.¡Oh! ¿á minh'alma taciturnaque importa, ó montanha soturna,que de perfumes sejas urnada terra erguida sobre o altar?¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,que o sol doirado, ao teu desertomais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!¡são mais pesares, mais saudades,mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,mais tentações a dar-me fel!...»—¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!¡Tanto vate a ceifar louvores!...¡Tanto moço a colher amores!...¡Tantos loireiros e rosaes...E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,qual roble que geme indignado,vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!Assim ruge, baldão de vingativo nume,esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;assim nos gelos sua, agrilhoado ao cumedo caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.Só o abutre de eterna fome,que o grande coração algoz sem fim lhe come,responde em ais á sua voz.Fenece o dia. ¡Hora jocunda,que eu tanto amava! ¡hora fecundados cantos meus! ¿porque me inundanova amargura o coração?¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?a serra em luto se me encobre;a nocturna mudez duplica a solidão.Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;{103}tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrirde luzeiros um labyrinto.¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sintoé vento em selvas a rugir.Calae, fugi, ventos agrestes;sumi-vos, lampadas celestes;n'um seio a delirios já prestesnão susciteis mais tentações.Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...vós, astros, cifras de diamantes,O arcano me aclarae lá d'essas regiões.¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...¡se me volvesseis as ditosasesp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,com que se enfeita e esconde a Cruz!...Tornar-se-me-hiam de improvisoa solidão, em paraizo;a magua, em perenne sorriso;em alto cantico, a mudez;a mallograda lyra, o não colhido loiro,em harpa augusta, em palmas d'oiro;e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;ermo para ambições, e inferno, e não ermo;para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.Gentis phantasmas de cidades,vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,como um esquife em aureo veo.¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,(embora em saudades me eu queime)!O somno, as vigilias enchei-meda vossa esplendida vizão.¿Val o riso choroso as festas da loucura?vinde, guiae-me á sepultura,crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.{104}¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotosdos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;não, no silvestre seio vosso,nem de amenas ficções apascentar-me posso,nem menos as posso esquecer.¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futurosondou jamais o abysmo escuro?¡Apenas chego e já murmuro!¿O de que tremo acaso sei?Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,aqui me aguardem, recatados,dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.Se além, no presbyterio, humillima choupana,(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)mais que fraterno amor sollicito se afanaem me afofar o ninho, a vida em me inflorar;se n'um retiro verde e mudo,por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,sombras no estio, o inverno ao lar;se a solidão que me apavora,sómente o fôr vista de fóra;se em seus recôncavos demoragente feliz, povo de irmãos;se do antigo viver, das crenças de outra edade,vestigios guarda a soledade;se poesia se vive entre estes aldeãos;se a alegria, serena, isenta de pesares,como a fresca saude, habita os puros ares;se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,se Deus em toda a parte a Natureza ri...coração meu, não desanimes,gozos que não prevês, e cantos mais sublimesencontrarás talvez aqui.¡Ah! sendo assim, que importa a fama!Tambem philomela derramasua harmonia ás selvas que amalonge de ouvintes e do sol.Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria{105}que a viva, a lustrosa poesiade perolas que a flux borbóta o rouxinol?Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por signalO Presbyterio da Montanha.XLTem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e apropriadas.¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a Linneu{106}os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e fecunda.Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica, condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso{107}uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva saudades;—bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos{108}que já a podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.
A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.
D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.{78}
Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma candido.
Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar, como agora estou fazendo.
¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.
Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.
¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo, duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?
Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos, nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra abuena-dicha, em que ninguem creu.
O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada{79}nas noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não trovador.
Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça, montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel. Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares nascôrtes de amor, quando já não fosse por seu denodo contra inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe; mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença, obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.
O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e damas se reuniam.
O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?
O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um escabello; tão insigne{80}favor, redobrava-lhe posses ao talento; excedia os prestigios da vespera.
Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.
D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos; arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria da bésta sempre n'outro.
Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se faz amor.
Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!
Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem Guilherme de Cabestaing.{81}
¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador. D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio por onde o enxame se regenera.
Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos, não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das villans suas vassallas.
Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar o seu trovador.
Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.
¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média? falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do que se comprehendia sob a denominação degaia sciencia, e que dava assumpto ás discussões e sentenças das famigeradascôrtes de amor: era um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario, pelos campos da phantasia e do sentimento.
A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa,{82}e passára, sem mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as festas do coração. Agaia, ou folgasan,sciencia, pelo contrario, tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.
O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia; nada mais.
O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe, esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços; misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as estrellas.
Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios, resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:{83}
Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,Le cortesie, l'audaci imprese io canto.
Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio das litteraturas.
Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.
A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.
¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como{84}vos desvanecestes? ¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?
Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.
Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.
Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;
........quis enim securus amavit?
mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!
Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi tudo.
O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.
Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me{85}abortava o certo. ¿A paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem por isso menos attendiveis.
Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem derramado por esse mundo.
Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.
O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo deAmor e Melancolia;Melancolianão ha separal-a doAmor.
Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com palavras tambem d'ella:—que ha mais gente habilitada para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.
Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um prado florescente de{86}primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da obraNovissima Heloisa, designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.
O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se desaproveitou, (trovas,tenções,solaus, ou como melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles, confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.
Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares; e o amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a principio o tinha sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.
¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas, a Fonte das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu grande manancial.
¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua, tinham edificado aquelle refugio; para mim só, e não para os Conegos{87}regrantes, que D. Manuel e D. João III o engrandeceram e aformosentaram com tão regia, com tão prodiga bizarria.
Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e amollecem com a sua presença amante e festiva a austeridade do monumento; emquanto os orgãos gemiam lá dentro, cantavam elles cá por fóra. Quando as rezas matutinas começavam a espertar eccos pelos desvãos das abobadas sobre as campas de marmore brunido, já elles tinham dado as alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram para elles aves de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de se estarem captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.
Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades; aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.
Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos dominios campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas, em que o texto devoto irá manando todo por entre um perpetuo paraizo de primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É assim tambem, que no sorrir de um bom velho se resumem os castos alvoroços que lhe abundam pelo animo.
N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que mais lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que{88}Paulo III cubiçou conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar á toa, e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio doSilencio; depois no daManga, aviventado do estrépito de cascatas, que um sultão de Granada cubiçaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.
Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro, rasgae um portão bipatente que dê sem subida nem descida para um terreiro ajardinado; postae á direita do portão, como porteira obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas enormes urnas de prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das minhas inspirações.
Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por mais de uma vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos religiosos; esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo? pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda á direita, no immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a doçura das suas falas, que eu não conhecia.{89}
QUINTA DOS AZULEJOSQUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)Tal como era ainda em 1862
QUINTA DOS AZULEJOS
QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)Tal como era ainda em 1862
Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.
Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se manifestam.
Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas donon plus ultraficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.
¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos transportes—d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.
¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino banho de affectos, que eu{90}mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.
Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão elastica e macia.
Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.
A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.
Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor, e sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se todo o mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro saudoso já a vinte leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me abrazava.{91}
O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.
Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára oBanho das Graças, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu devaneei oBarquinho do lago encantado, que vós lestes n'este livro.
Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a sós com o coração ainda{92}agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.
Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que tudo quanto é solido, isto é, duro,—fixo, isto é, estorvo,—temido, isto é, tirannia,—elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos desejos.
Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura como os nossos berços.
¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!
«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.
N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a visão, e já não a perde.
¡O meu Lago, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam despojar!{93}¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios,mea regna!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e estão-se rindo de revoluções do mundo:mea regnas. ¿Sabeis porquê? porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e futuros, de nossa terra.
No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.
¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!
¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana,{94}de todas as horas, diurna e nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!
Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.
Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamentea fortiori, os caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.
Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em todo, nada.
Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:—nem illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem{95}edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o Céo, indifferença para a terra.—Viver tal não valia a pena.
Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:—a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.
¿Mas que digo eunão houve perda? assim mesmo a houve, e, se bem se considerar, não tão pequena.
Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente, passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus livros havia tantos{96}seculos, no estio á sombra das copas, no inverno á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais ninho.
Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos, a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.
¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias, estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dosLusiadasseria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe esmolar da sua pobreza
¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por cima das nossas cabeças a resplandecer!
¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.
¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro, escutado, e applaudido{97}de outros cysnes, não saberias ter suspirado no teu ultimo canto aquelle triste verso
o gôsto de escrever que vou perdendo;
nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:
Vão os annos descendo, e já do estiohá pouco que passar até o outono;a fortuna me faz o engenho frio,do qual já me não jacto, nem me abono;os desgostos me vão levando ao riodo negro esquecimento, e eterno sono;mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainhadas Musas, co'o que quero á Nação minha.
O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.
Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos chegando ao fim da nossa jornada.
Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.
AsRuinas do Mosteiro, por exemplo, nasceram da contemplação melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.
AsDuas Palmeiras, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do Bussaco.{98}
ARega dos pomares, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta suburbana das Setes Fontes.
ANoite do estio, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.
Até aFeiticeira(¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas ficticias ninguem se jacta) aFeiticeiramesma teve, sob os enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:
................... quid tentasse nocebit?
e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para outro qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.
Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar nos campos, bem vedes se lhe não seria incentivo de ambições.
Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do estudo, e avido de bemquerenças,{99}nem mais talhado para dar largas a uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura os possuia, onde, embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.
A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o conseguisse, se nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiçar.
Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.
A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do Caramulo.
¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro, ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de uma hora!
Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.{100}
—«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:
¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?
—«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.
Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.
Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se gelava o coração!
Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os seus arrufos.
Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:
APRIMEIRA NOITE NA SERRA.................ibi hæc incondita solusMontibus et silvis studio jactabat inani.¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,que se espanta de ver-me, e cuja austéra frontenada avistou jamais no amplissimo horizontedo mundo a tumultuar, de cidades a rir...n'este ermo ignaro, frio? mudo...aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,¡o meu presente e o meu porvir!{101}Genio invisivel da montanha,de astros, de sol, o ceo te banha;o mar de longe te acompanhano livre cantico sem fim.Escada de Jacob da terra ao firmamento,a mansão tua é monumentoda potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.Emquanto, em derredor do solio teu sublime,a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,se volve, se transforma, e sua angustia exprimen'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,a variedades sobranceiromantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,e do diluvio assolador.Silencio e paz comtigo habita;o ermo é como o eremita;loucas vaidades não cogita;ama o seu rustico trajar;em apparente inercia ama que ferva occultode seus affectos o tumulto,seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,póde ouvir de tua harpa a casta melodia,e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;sim; mas eu, frivolo, profano,á solidão extranho, affeito ao mundo insano,¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?¿Toda a minh'alma se entristece,e se confrange, e se ennoitece,ao ver que a sorte lhe destecede um sopro os aureos sonhos seus.Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!sonhava mundo... ¡acho um deserto!sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;é como uns sons d'ignota fala;{102}qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,sem me abalar, nem me embeber.¡Oh! ¿á minh'alma taciturnaque importa, ó montanha soturna,que de perfumes sejas urnada terra erguida sobre o altar?¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,que o sol doirado, ao teu desertomais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!¡são mais pesares, mais saudades,mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,mais tentações a dar-me fel!...»—¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!¡Tanto vate a ceifar louvores!...¡Tanto moço a colher amores!...¡Tantos loireiros e rosaes...E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,qual roble que geme indignado,vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!Assim ruge, baldão de vingativo nume,esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;assim nos gelos sua, agrilhoado ao cumedo caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.Só o abutre de eterna fome,que o grande coração algoz sem fim lhe come,responde em ais á sua voz.Fenece o dia. ¡Hora jocunda,que eu tanto amava! ¡hora fecundados cantos meus! ¿porque me inundanova amargura o coração?¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?a serra em luto se me encobre;a nocturna mudez duplica a solidão.Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;{103}tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrirde luzeiros um labyrinto.¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sintoé vento em selvas a rugir.Calae, fugi, ventos agrestes;sumi-vos, lampadas celestes;n'um seio a delirios já prestesnão susciteis mais tentações.Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...vós, astros, cifras de diamantes,O arcano me aclarae lá d'essas regiões.¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...¡se me volvesseis as ditosasesp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,com que se enfeita e esconde a Cruz!...Tornar-se-me-hiam de improvisoa solidão, em paraizo;a magua, em perenne sorriso;em alto cantico, a mudez;a mallograda lyra, o não colhido loiro,em harpa augusta, em palmas d'oiro;e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;ermo para ambições, e inferno, e não ermo;para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.Gentis phantasmas de cidades,vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,como um esquife em aureo veo.¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,(embora em saudades me eu queime)!O somno, as vigilias enchei-meda vossa esplendida vizão.¿Val o riso choroso as festas da loucura?vinde, guiae-me á sepultura,crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.{104}¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotosdos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;não, no silvestre seio vosso,nem de amenas ficções apascentar-me posso,nem menos as posso esquecer.¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futurosondou jamais o abysmo escuro?¡Apenas chego e já murmuro!¿O de que tremo acaso sei?Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,aqui me aguardem, recatados,dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.Se além, no presbyterio, humillima choupana,(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)mais que fraterno amor sollicito se afanaem me afofar o ninho, a vida em me inflorar;se n'um retiro verde e mudo,por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,sombras no estio, o inverno ao lar;se a solidão que me apavora,sómente o fôr vista de fóra;se em seus recôncavos demoragente feliz, povo de irmãos;se do antigo viver, das crenças de outra edade,vestigios guarda a soledade;se poesia se vive entre estes aldeãos;se a alegria, serena, isenta de pesares,como a fresca saude, habita os puros ares;se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,se Deus em toda a parte a Natureza ri...coração meu, não desanimes,gozos que não prevês, e cantos mais sublimesencontrarás talvez aqui.¡Ah! sendo assim, que importa a fama!Tambem philomela derramasua harmonia ás selvas que amalonge de ouvintes e do sol.Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria{105}que a viva, a lustrosa poesiade perolas que a flux borbóta o rouxinol?
Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por signalO Presbyterio da Montanha.
Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e apropriadas.
¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.
Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a Linneu{106}os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e fecunda.
Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.
Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.
Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica, condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso{107}uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.
Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.
O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.
André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva saudades;—bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.
¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.
Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos{108}que já a podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.