CAPITULO VIIIO tragico successo inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua amiga convenceu-a de que não devia dar-se por achada em similhante cousa. O director do collegio ignorava a causa do inaudito crime, presenciara a sóva de pontapés com que José Bento se recolhera ao quarto; mas suppoz que a justificada razão d'aquelle castigo fôra qualquer asneira do rapaz na impossivel conjugação do verboLaudo, especialmente no imperativolaudandum.Por conseguinte, as pequenas não tiveram de responder como causas involuntarias daquelle sinistro, e continuaram no gôso da sua felicidade.O arcediago, supposto não vivesse com ellas, almoçava, e jantava com sua filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e, depois de ceia...Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha predilecção do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.O padre não andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Magôa-nos, porém, ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos que a senhora Anna do Carmo não era mau genero para agiotagem.A verdade é que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não queria incorrer no defeito doCocu imaginaire, que o leitor póde lêr, se a consciencia o não incommóda.A honesta esposa repellia as seducções do padre, esquivando-se a encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes, dissuadia-a de temorespiegas que não tinham nada com a verdadeira religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do matrimonio e de muitas outras cousas.O francez não sabia que fôra elle o amante de sua mulher.Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons livros lhe dava,—e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,—o senhor Hemerin Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo, e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz matrimonio.Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre francas para o generoso compadre.Este parentesco fôra contrahido muito contra vontade da senhora Anna. Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recem-nascido, perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algumgarçon de bone mine(rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso, declarando, pelosacre nom de Dieu, que o arcediago de Barroso seria seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de fóra, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como habil e francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creança a dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear aMarseillese.A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no collo da mãe, batendo as palmas, e articulando—papá,papá. O livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a dizerpadrinho; e a creança, que não sabia ainda ajuntar tres syllabas, teimava em dizerpapá.Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e sua mulher, emfim, sabiaviver perfeitamente com o compadre, e já se lhe não dava de jogar com elle abisca de nove, e otrinta-e-um.Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do francez, mas a razão do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os maledicentes sabiam que ella fôra amante do arcediago; o livreiro visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pozesse côbro áquelle grande escandalo.O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella familia.O pequeno Leonardo, já de dous annos, continuava a chamar papá ao padre, com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua mulher o córte de velludo vermelho que o compadre lhe déra. Tudo isto iale mieux qui se peut, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seuamigo intimo, como todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seuamigo intimo, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que pozesse o padre fóra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito umFlos-Sanctoruma um padre da aldeia, que se apeára d'uma égoa, no momento em que a porta se abrira.—Estas obras de sanctidade—disse o padre—creio eu que se vendem pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem á regalada. O exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo:Ante eas vadit, et oves eum secuntur... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o edificio da religião, acasa de Deus,ædes Domini, esses são chamados a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade;canes veniebant, et lingebant ulcera, como diz S. Lucas no capitulo XVI.—Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?—Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada pela Mitra, e estou aqui ha um mez a gastar n'uma estalagem, e vou-me embora sem ella. O bispo é... o que Deus sabe... Dizem que é um sancto, mas barata virtude é a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor não é lá grande cousa, como diz o livro sancto:Nam quod ab ovibus erratur, negligentie pastoris adscribitur.—Quer o senhor padre uma cousa?—Nada, não, senhor, não quero mais livro nenhum; precisava d'este para tirar uma duvida sobre se o apostolo Sant'Thiago veio ou não a Portugal, e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...—Eu não lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava um meio de v. s.ª...—Alto lá! Nada devossa senhoria... Eu não sou d'esses modernos, que se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, ha trezentos annos, se davam ao rei... Trate-me por vmc.e—Pois bem; se vmc.equizesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho para o bispo.—Sim? então quem é elle?—Isso agora é um segredo... Veja lá vmc.equanto dá...—Quanto dou? isso é symonia, reprovada e condemnada com graves penas pelo concilio tridentino. Se eu quizesse servir-me d'esse infernal recurso, bem sei a que porta devia bater. Conheço como as minhas mãos um vendilhão d'esses favores, que não tem vergonha nem temor de Deus, e ha muitos annos que trafica descaradamente com os objectos sagrados da sancta religião de Nosso Senhor Jesus Christo. É um symoniaco, um libertino, indigno de se sentar no cabido...—Quem é elle?—Quem ha de ser? é o arcediago de Barroso, um homem sem religião, de pessimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas ahi não sei com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ella... Fóra o adultero! Não lhe faltava senão esta!...—E vmc.econhece-o?—Conheço muito bem, oxalá que não. Fomos companheiros no seminario, e já lá prophetisei a rôlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira... Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa d'elle, e sahi escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar comnosco á mesa uma rapariga que tinha em casa...—Sabe como ella se chamava?—Sei, sim, senhor. Chamava-se Anna do Carmo...—Anna do Carmo!...—Vmc.eespanta-se? É o que eu lhe digo...—Que figura tinha ella?—Era uma mocetona tirada das canellas, branca, cheia do peito, com os olhos mesmo concupiscentes como os do proprio demonio, e fallava sem vergonha diante de mim.—E sabe se foi essa a que elle casou?—Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por signal, e tem não sei que officio. Se vmc.equizer, eu volto cá qualquer dia, e posso saber-lhe tudo isso a preceito.—Muito obrigado... eu não tenho interesse n'isso...—Pois é como é. A religião está entregue a estes ministros. O arcediago de Barroso tem muito dinheiro em casa d'um negociante da rua das Flores, mas esse dinheiro é o preço por que elle comprou o inferno... ganhou-o nas symonias... Lá está em cima quem o ha de julgar... E, com isto, adeusinho até outra vez. Fique na graça de Maria Sanctissima, e passe por cá muito bem até outra occasião, se Deus nos dér vida. Adeusinho, sem mais.O padre abria o alforge para metter oFlos-Sanctorum, quando o arcediago lhe dava uma palmada no hombro.—Tu por aqui, padre João Pires?—É verdade... Então que é feito, Leonardo?—Vamos vivendo... Já te não vejo ha muito!...—Não ha dinheiro para vir á cidade... Os padres derequiemnão comem do cabido... Lá nas aldeias o mais que se pilha é a missinha de tostão, que não dá para hostias. Isto cá é outra cousa. Os padres do Porto são cardeaes, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...—Não é tanto assim, padre João... Deus sabe como cada qual se arranja. Então vieste comprar o teu livrinho?—É verdade; comprei oFlos-Sanctorum, e sabe Deus o que me tem custado a arranjar os tres mil e duzentos.—Se queres mais algum, e não tens dinheiro, eu fico por ti, e tu pagarás depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.O arcediago piscou o ôlho para o livreiro, que estava encostado ao mostrador, e o livreiro, sorriu-se d'um modo que era novo para o arcediago.—Nada, muito obrigado—disse o padre João Pires—eu não gosto de fazer dividas, porque não tenho esperanças de ser conego para pagal-as depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que nós passamos no seminario... lembras-te?—Se lembro!...—Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que é feito d'aquella rapariga do vendeiro de Campanhã que tu tiraste de casa?—Não fallemos n'isso... Como tu te lembras d'essas rapaziadas... Esse tempo passou...—Pois era uma rapariga perfeita!—E aquell'outra das Fontainhas, que tinha um pae levadinho da breca, que te fez fugir em camisa para o seminario?—Cala-te lá com essas cousas, João!... Isso foram bambochatas de estudante...—Está feito, está feito... Tu tens pago um bom tributo á mocidade... Já tu eras padre ha muitos annos, e ainda fazias das tuas de estudante...—Olha lá, meu caro João, se quizeres alguma cousa de mim...—Obrigado... Eu gosto de fallar nos tempos da mocidade...—Pois sim; mas eu tenho de estar nos Congregados ás oito horas... Estimarei que passes muito bem.—Olha cá, padre Leonardo... ha ahi um sugeito que te quer fallar a respeito d'uma dispensa para casamento entre primos em segundo grau. O pretendente dá boas luvas a quem lh'a arranjar depressa...—Sim!... pois eu conheço um banqueiro, que vence todas as difficuldades; mas... aqui entre nós... é preciso untar-lhe as unhas...—Ah! maganão!... o banqueiro és tu em carne e osso!...—Não sou, João. Acredita que não sou...—In verbo sacerdotis!—In verbo sacerdotis... N'essas materias melindrosas não escrupulisa a minha consciencia. Terei algumas fraquezas, de que me accuse, do tempo de rapaz, mas em cousas de religião o caso é muito sério.—Com que tu tens muitos escrupulos das tuas rapaziadas, heim?—Alguns; mas em certas idades tudo se desculpa, e Deus bem sabe que a razão não tem a força necessaria para conter os impetos d'aquelle novissimo do homem...—Que não é do mundo, nem do diabo! Ora pois, Deus te conserve no sancto arrependimento...—Então quem é o pretendente da dispensa?...—Isso fallaremos outra vez... Ora olha, meu querido Leonardo, não sei se sabes que tenho cá na Sé requerimento para uma igreja.—Nada, não sei.—Poderás fazer com que o senhor bispo me despache?—Homem, isso é um caso difficil... Se queres que te falle a verdade, no paço tudo se move por dinheiro...—E tu dás á manivella nas rodas da machina, não é assim, meu Leonardo?—Estás a rir, João...—Pois eu podéra chorar!... Tudo isto leva-se a rir, senão endoudecia a gente... Ora anda lá que tu não deves só ter escrupulos das tuas rapaziadas... A proposito de rapaziadas, que é feito da Anna do Carmo?—Da...?—Sim... da Anna do Carmo... aquella mocetona que morava comtigo na rua Direita, aqui ha dez annos...—Não sei... não me recordo... não sei de quem me fallas... adeus... até outro dia...—Espera homem—disse o padre inexoravel ao confuso arcediago que suava em janeiro como o seu amigo Silva no mez de agosto, por vêr alli tão perto o francez, que não perdia uma palavra do dialogo.—Espera... não te confundas, que eu não quero confundir-te. Isto é conversar como amigos... Eu já sabia que foste honrado com a rapariga, e que a casaste com um bom dote... Uma fraqueza não desacredita ninguem... David tambem peccou, e S. Pedro negou o mestre.—Dizes bem, João, adeus, até outra vez...—Então... até outra vez.Padre João não comprehendeu a afflicção do arcediago. A ultima despedida disse-lh'a, quando elle de repente lhe voltou as costas, por não poder conservar-se com a cara voltada para o francez que lhe não desviava os olhos d'ella.Já escanchado commodamente sobre o albardão da égoa somnambula, o antigo conhecido de Anna do Carmo, voltando-se para o livreiro, disse, sorrindo:—Vê que tal é o amigo? Olhe como elle se atrapalhou quando eu lhe fallei na moça...! reparou?—Reparei... reparei...—O que ella merecia é que o marido d'ella lhe quebrasse o espinhaço com uma tranca... Mas os maridos ás vezes, são tão bons como ellas... Adeusinho...—Passe muito bem.Mr. Hemerin leu, segunda vez, a carta anonyma, e sahiu.Esperem asneira. Quando mal nos percatamos, temos pela prôa um marido brioso!Safa!...Rara avis in terris...CAPITULO IXO arcediago, quando fugiu bruscamente ás impertinencias vingativas do padre João Pires, ia perdido, e não atinava com o refugio mais azado no embaraço em que se via.Na rua das Hortas, quando voltava do campo de Sancto Ovidio, até onde fôra machinalmente, encontrou o marido de Anna do Carmo, que o comprimentou com a graça costumada, e nem de leve lhe tocou nas escandalosas revelações do profundo investigador de Sant'Thiago, e S. Martinho de Dume.Padre Leonardo, admirado da singeleza do francez, entendeu que as cousas estavam no pé em que as deixára na vespera, e tranquillisou o tumulto de vergonhas e receios que lhe traziam o coração em dolorosas piruetas.Convencido do inesperado quão feliz resultado da extravagante scena, veio á rua das Flores, e encontrou Anna do Carmo, ao mostrador, espantada de que seu marido sahisse sem dar parte, nem chamal-a a ella para a loja.Isto fez impressão no arcediago, que teve a prudencia de calar á mãe dos seus filhos o desgraçado encontro com o amaldiçoado padre de Ponte-Ferreira.Todavia, a sahida rapida do francez alguma cousa queria dizer. O atilado arcediago reflectiu no que poderia resultar d'alli; lembrou-se, um momento, que a sua organisação physica poderia soffrer algum abalo menos agradavel, e, finalmente,appellando para o futuro com a intrepidez de philosopho, esperou as consequencias.Acabava o velho amigo de padre João Pires de fazer os seus juizos, quando o livreiro entrou com a mesma affabilidade, com o inalteravel sorriso d'um esposo feliz.—Sahiste sem dizer nada?!—disse a senhora Anna.—Foi-me necessario sahir com tal precipitação, que nem me lembrou chamar-te.—Pois que foi, Hemerin?—Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das justiças me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na minha loja livros protestantes, e folhetos escriptos contra a religião. Corri immediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar, quando lá cheguei, o desmentido da calumnia que forjaram contra mim os meus inimigos.—Inda bem!...—disse a mulher.—E se não acontecesse assim—accrescentou o arcediago com o contentamento da boa fé—eu ainda tenho amigos para desmanchar as traições dos seus inimigos.—Muito obrigado, senhor compadre. Tudo está arranjado, d'esta vez. Se elles continuarem, v. s.ª será o nosso protector, como tem sido sempre.O arcediago almoçou com elles, e não podia deixar de felicitar-se por ter casado a mãe de Rosa com tão boa pessoa, alma tão singela, e genio tão estimavel a todos os respeitos. Fez muitas festas á creancinha, que dava biscoutos ao livreiro para que os désse aopapá, o que o livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria do pequeno.Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se á meia noite, promettendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que perdera jogando com a senhora Anna, emquanto seu marido sahira a encommendar de Paris a nova edição de Bossuet e Bourdaloue.Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o costume, e disse a sua mulher que lhe désse a chave da commoda em que estava a sua roupa branca.Anna quiz erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e elle mandou-a ficar. A mulher instou, e o francez intimou-a imperiosamente que não sahisse.Momentos depois, a mãe de Rosa sentiu fechar-se por fóra a porta da rua! Ergueu-se, foi á commoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu á loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre o lavatorio,com estas poucas palavras: «És uma boa mulher, mas não me serves. Eu não sou mau homem, mas não te sirvo. Sejamos francos, e bons amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas minhas. Se me quizeres alguma cousa e elle tambem, escrevam-me para Paris. Adeus.»A senhora Anna do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma cousa n'aquelle conflicto; mas que poderia ella fazer? A porta da rua, de mais a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago não vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que fallar aos visinhos, e o escandalo era certo! Mas, se o escandalo era certo, inevitavel, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e procurar seu marido; mas aonde?N'esta irresolução, a senhora Anna ouviu as oito horas. Correu á janella, e viu á sua porta alguns homens, um dos quaes abria a porta. Desceu abaixo, e perguntou quem eram:—Sou um escrivão, com os meus meirinhos.—Que querem?—Fazer penhora nos objectos conteúdos n'esta casa.—Devo alguma cousa a alguem?—Deve.—O quê?—O conteúdo n'esta petição, a que está junto um titulo de divida authentico, assignado por seu marido o senhor Hemerin Pierrote.—Mas eu não assignei.—Vmc.esabe escrever?—Não, senhor.—Por isso mesmo é que não assignou. Seu marido assignou por ambos.—Isso é uma ladroeira! Eu grito aqui d'elrei, se me levam alguma cousa de minha casa.—Pois grite, que arranja com isso a ser levada tambem.—Para onde?—Para a cadeia, ou para o hospital de S. José.—Que é dos louvados, senhor meirinho geral?—Estão aqui os ensambladores.—Pois que subam a avaliar os moveis, e chame ahi dois livreiros para louvarem os livros.—É um roubo que me fazem!—exclamou Anna, collocando-se adiante dos livreiros, que vieram d'um pulo.—Retire-se, mulher, se não mando autual-a!—Mas quero saber a quem é que devo...—Ao vice-consul da França.—Eu não conheço esse homem.—Tambem não é preciso, nem deve ter muita pena d'isso. É um homem como os outros, pouco mais ou menos.Entrava o arcediago com os olhos espantados, e o queixo pávidamente descahido.—Senhor compadre!—exclamou Anna—querem-me roubar!...—Roubar!... Como se entende isto?!—Deixe-a fallar—disse o escrivão.—É um mandado de penhora.—Á ordem de quem?—Do juiz de fóra.—Mas quem é o credor?—Senhor arcediago, não nos importune com as suas perguntas. Vá lá sabel-o, se quizer. Nós cumprimos a lei, e não temos obrigação de dar explicações a quantos passarem na rua.—Onde está seu marido?—perguntou o padre.—Não sei... Olhe aqui.A senhora Anna chamou-o de parte, e contou-lhe o succedido. O arcediago ficou tranzido.—Que hei de eu fazer, Leonardo? Não me dirás?—Põe a tua mantilha, pega no pequeno, e vai com a criada para minha casa.—E os meus arranjos?...—Que arranjos?—Os meus vestidos?—Deixa os vestidos... Faz o que te digo. Não te afflijas... Has de ter sempre que comer. Nem mais uma palavra, que não quero escandalos.Anna do Carmo sahiu com a criada e o pequeno, que grunhia por ter sido tirado a dormir do berço. O escrivão achou-se sósinho com os aguazis e louvados. A livraria foi logo comprada pelo livreiro da loja visinha. Os moveis arrematados, e ficou o escrivão com elles. As roupas comprou-as uma adeleira. E a chave da casa foi entregue ao senhorio. Foi um dia cheio para os visinhos!A vingança do francez fôra uma vingança franceza; mas, de parte a parte, concordemos em que a honra orçava os mesmos quilates. Parece que eram dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai vêr-se.A mãe de Rosa vivia com o arcediago; mas tão cauta e escondida que se não deixava vêr. Era um cuidado inutil;porque ninguem duvidava que os braços do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.A immoralidade chegára aos ouvidos do bispo, que empregou os meios brandos para chamar ao caminho da bem-aventurança aquelle Lovelace de murça e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os seus traiçoeiros denunciantes para que lhe provassem a calumnia infame. Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escripto quatro correspondencias para os periodicos, em que provocaria os maledicentes a tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia, e vis calumniadores, como é do estylo.N'aquelle tempo, porém, o infamado não tinha o respiradouro da gazeta, e não podia andar de casa em casa apregoando a sua innocencia. Razão porque a detracção se incorporava pouco e pouco, até ser recebida como facto consummado.Os conegos, que não eram mais virtuosos que elle, mostravam-se escandalisados das torpezas do seu collega, e queriam que o prelado os desultrajasse do odioso que reflectia na corporação. O bispo via-se entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as instancias reiteradas do chantre, e do deão, que eram mais discretos nas suas torpezas, porque nunca tinham cahido na immoralidade de dotar as mães dos seus filhos para casarem.A indignação pública urrou no paço episcopal; e o principe da igreja receou que a mitra lhe cahisse com deshonra da cabeça, e metteu o arcediago em processo.Estas deploraveis scenas passavam-se, mezes depois que Rosa Guilhermina e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a inquietação de seu pae nas poucas horas que se demorava em casa. Interrogaram-no ambas muitas vezes, e não poderam saber nunca a afflicção que o atormentava.O processo corria, quando o bispo deu uma audiencia secreta ao arcediago. O fim d'essa prática d'amigo, e não de juiz, era aconselhal-o, que fugisse immediatamente de Portugal, e que esperasse lá fóra que a borrasca serenasse, e depois viria.O arcediago annuiu.Com as lagrimas nos olhos, e sua filha nos braços, revelou-lhe que uma grande desgraça o obrigava a sahir da patria. Mandou-a entrar outra vez no recolhimento. Estabeleceu uma pensão a Maria Elisa. Deixou outra a Anna do Carmo,e partiu para Hespanha com todos os seus cabedaes, excepto as quantias que o honrado negociante Antonio José da Silva mensalmente devia repartir pelas tres, se eram só tres as pensionadas da illustre victima de padre João Pires.Anna do Carmo sabia que sua filha existia no convento; mas, por ordem expressa do pae, não a procurava. Vivia com honra, e recebia pontualmente a sua mesada.Rosa ignorava a existencia de sua mãe, tinha de longe a longe saudades do pae; mas isso não era forte razão para que deixasse de comprar a melhor edição do Cavalheiro de Faublás, que traduzia perfeitamente com a sua amiga, graças aos cuidados do pae em mandal-a aprender o francez durante um anno que esteve na casa do Laranjal.Mr. Hemerin vivia em Paris, e vivia perfeitamente da quantia que lhe fora dada com a condição de cohonestar as relações da mulher com o padre: missão aliás christã que o maldito não quiz desempenhar christãmente, e encarou com a melhor philosophia do mundo.O arcediago vivia em Madrid, e gastava o seu tempo n'um convento de Therezinhas, onde lhe não faltavam delicias para o espirito, e parece que as melhores esperanças para tudo que os philosophos teimam em dizer que não é espirito.Padre João Pires, esse, contentissimo de ter resolvido o problema de Sant'Thiago, veio um dia procurar o livreiro para comprar-lhe—El sabio instruido de la naturaleza,—e soube, no livreiro visinho, a catastrophe do arcediago.Citou quatro textos em latim ácerca da obscenidade, disse tudo o que sabia a tal respeito, confirmou minuciosamente todos os escandalos da vida de padre Leonardo, e foi dizer missa á Misericordia, e ouvir de confissão a senhora Angelica, que, por um triz, ia ficando sem absolvição, por ter murmurado da senhora Anna Canastreira, e da mulher do João Pereira, do chinó.O senhor Antonio José da Silva, recobrado dos dissabores por que passára, restaurava as banhas perdidas do seu lustroso cachaço, e continuava a suar copiosamente.E o senhor João Retrozeiro, finalmente, lia com o maior prazer a sua mulher as cartas de seu filho José Bento, que estava no Rio de Janeiro ganhando duzentos mil reis como segundo caixeiro de um armazem de molhados, onde o não forçavam a conjugar o atrocissimo verbolaudo.CAPITULO XCorria tudo fastidiosamente regular e monótono, menos para o espirito das duas amigas, que progrediam d'um modo admiravel na sciencia das cousas, e na theoria do mundo estudada nos livros. Todas as suas economias de tempo e dinheiro, que lhe sobejavam á farta, empregavam-nas em novellas francezas, que uma criada, das que serviam cá fóra, lhes introduzia no recolhimento, com pequena commissão.Maria Elisa se dissermos que era uma litterata, não nos fica o remorso de ter mentido. A prova de que o era dá-se com bem pouco: basta dizer que duvidava da efficacia da reza, e dos preceitos mais fundamentaes da sua religião da infancia. Fallava na religião natural, e sabia de cór aVoz da Razão, e aPavorosa illusão da Eternidade.Rosa Guilhermina era litterata metade e mais um terço. Não acreditava na reza, nem nos sanctos da regente: mas tinha fé na existencia de Deus! Não era consummada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em instruil-a e aperfeiçoal-a.Era corrido um anno. As meninas entravam nos dezesete, e já não eram as creanças zombeteiras que traquinavam na cêrca, e irritavam as velhas da casa com travessuras.Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade propria, deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas, olhavam com desdenhosa insolencia a ignorancia das companheiras, desdenhavam o beaterio de muitas que lhes não mereciam o favor das suas reflexões, e, com algumas, dignaram-se descer até lhes confiarem o segredo da philosophia, o dogma sublime da razão. Se quereis em duas palavras comprehender a illustrada extravagancia das duas meninas, sabei que o seu quarto era intitulado por ellas:hotel de Rembouillet.1D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pae, que não tinha expressões com que podésse encarecer o talento de sua filha, manifestado nas apparatosas cartas, que lhe enviava.A ultima, que elle lhe escrevera de Madrid, annunciava a sua proxima vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as linguas mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo d'um anno, estava esquecido.Depois da carta, que promettia a sua vinda, que devia abrir outra vez as portas da clausura ás litteratas, as anciosas meninas receberam outra em que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraçal-as, e que fossem dispondo a sua immediata sahida para Lisboa, onde elle tencionava estabelecer casa.De igual theor recebeu a mãe de Rosa a fausta noticia, e cada qual não tinha socego em preparar as suas cousas de modo que se não fizessem esperar.Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para não perderem tempo, já tinham feito as suas despedidas; Anna do Carmo tinha fóra dos bahús o indispensavel para as poucas horas de existencia no Porto; umas e outras não sahiam da portaria ou da janella para felicitarem o amante e o pae e o carinhoso protector, quando o senhor Antonio José da Silva rolou a sua rotunda personagem no pateo do recolhimento.Rosa, ao vêl-o pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira, industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha vindo.—O senhor arcediago—respondeu o negociante com a commoção de que era susceptivel—o senhor arcediago... está na presença de Deus...—Morreu?!—exclamaram as meninas.—É verdade... Faz favor de me chamar a menina.—Estou aqui, senhor Silva... Pois é verdade que morreu meu pae?—Desgraçadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas ultimas palavras, foram estas: «Eumorro... vão dizel-o á rua das Flores, no Porto, a um negociante chamado Antonio José da Silva. Morreu de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bemaventurança...—Isso é impossivel!...—atalhou Rosa, soluçando e chorando.—Pois é tão certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O peor é que o grosso dinheiro que seu pae levou, sabe Deus porque mãos andará a estas horas!...—E eu fiquei pobre, não é assim?—atalhou a litterata, que considerava a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razão.—Pobre... não, senhora—respondeu o negociante, enxugando uma lagrima importuna.—A menina está perfilhada. Eu tenho a perfilhação em meu poder. Ainda mesmo que não appareça o dinheiro, que elle levou, o seu patrimonio vale bem quarenta a cincoenta mil cruzados. É a quinta de Ramalde, são dous predios na cidade, e as pratas de seu pae, que estão em minha casa, só essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O que é necessario é fazer-se um conselho de familia, e bom será que a menina sáia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pae.Pergunta d'aqui, resposta d'acolá, convieram em que a menina sahisse, passados tres dias, durante os quaes recebeu visitas no seu quarto, e chorou alguns instantes sinceramente.Maria Elisa, como philosopha e boa amiga, animou-a a resignar-se, convencendo-a de que a morte era a condição da vida, e que as lagrimas não resuscitavam ninguem. Rosa conveio n'isso em nome da illustração do seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dôr.Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais profundo. Ahi, sim: havia uma verdadeira dôr, a consciencia de desamparo, a invalidez na quasi velhice sem refugio. Restava-lhe uma esperança: era sua filha; mas essa filha não lhe bebera o leite, não lhe sentira os beijos, não lhe vira as lagrimas, nunca lhe chamára mãe.Por encurtar razões, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu poder não estava dinheiro algum, e que tractasse ella de procurar o amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga occupavam a casa do Laranjal, tomavam as antigas criadas,e consultavam-se no que deviam fazer, ou se acceitariam as condições que algum impertinente tutor lhes impozesse.—Eu não posso dizer nada em tal assumpto—respondeu Elisa.—Sou absolutamente estranha n'este objecto; não obstante, como tua amiga intima, entendo que não deves sujeitar o teu coração ás barbaras leis d'algum barbaro tutor.Já vêem como era o estylo de Elisa; agora admirem o de Rosa:—Dizes bem, minha terna amiga. Se a parca me roubou o pae, não serei ludibrio da morte, porque vivo ainda. Não quero mais reclusão, nem o convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu coração é livre. Eu e tu temos bastante philosophia para nos sabermos guiar na estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura; saberemos evitar os abysmos, renderemos os nossos corações aos ardentes votos d'algum amor digno de nós, e viveremos juntas pelo espirito, assim como temos vivido pela intelligencia.Fallou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundancia. Não ha nada a desejar aqui. Optima resolução, exemplar programma, e invejavel talento!Nomeado conselho de familia, a orphã foi consultada pelo tutor, homem probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em alto estylo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupilla, e disse em plena reunião dos membros do conselho de familia que ella era muitopronostica, e que fallava com cabeça. Os outros membros não duvidaram acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus rendimentos, e vivesse fóra do recolhimento.Contentes da sua sorte, as duas litteratas, cada vez mais ricas de sciencia, achavam já que o seu espirito não saboreava a simples nutrição dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu plano de instrucção; lastimavam a soledade em que viviam duas almas devorando-se no proprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais ampla que as admirasse, ou de espiritos illustrados que as conduzissem á luminosa região das sciencias ignoradas ao seu desherdado sexo.Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se cousas admiraveis, quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira recebeu a seguinte carta:«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este mundo uma mulher desvalida. Esta mulher étua mãe, e terá brevemente necessidade d'um bocado de pão. Quando esse momento vier, não o negues á infeliz Anna do Carmo, que irá mendigal-o á tua porta. Vivo na rua Direita n.º 25.»Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensação inqualificavel. Elisa, queria vêr esta carta, e a sua amiga não lh'a mostrava.—Será namoro?!—perguntou Elisa com azedume e admiração—Diz, Rosa! tu não me respondes? Deixa-me vêr essa mysteriosa carta! É epistola amorosa?—Não, minha amiga... É uma carta, que não te mostro!... Não devo mostrar-t'a...—Oh céos! que estranha carta é esta! Não sou eu, por ventura, a tua amiga, a confidente dos teus segredos?—És... mas ha segredos que se não dizem...—Pois bem: eu calarei a minha ancia, e não farei jámais de amiga para todos os teus cuidados, Rosa.O portador esperava a resposta.A filha de Anna do Carmo sahiu de ao pé da importuna confidente, tirou da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um retalho de sêda preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e rasgou a carta.Quando voltou, chorava Elisa, em ar de arrufada amante. Rosa, mais tranquilla, se era possivel uma consciencia boa, depois de tão generosa acção, serenou a susceptibilidade da sua melindrosa amiga com esta revelação:—Olha, querida amiga, faz comigo as pazes. Eu te digo o que se passa. A carta, que recebi e devolvi pelo portador, era uma súpplica de uma pobre amante de meu pae, que me pedia uma esmola. Fez-me tanta pena, que me vestiu de luto o coração! Como pensei que era aquelle um deshonroso segredo para meu pae, nem dizer-t'o a ti, cara amiga, eu julguei que me era nobre. Ora aqui tens...—E mandaste-lhe o beneficio supplicado?—Mandei...—Fizeste bem... Pobre mulher, abandonada, não devia achar fechadas as portas da alma que sahiu do peito amante. Perdôa a meu resentimento, querida Rosinha...E com estas e outras finezas passaram uma hora, ao fim da qual voltava o portador, que levára o dinheiro, e entregava á senhora D. Rosa Guilhermina outra carta, acompanhando os quatro cruzados novos. A carta dizia assim:«Minha filha. A esmola é muito avultada para uma mãe. Quando eu tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de pão.»Rosa fez-se da côr do lacre, e fugiu de ao pé da sua amiga.
O tragico successo inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua amiga convenceu-a de que não devia dar-se por achada em similhante cousa. O director do collegio ignorava a causa do inaudito crime, presenciara a sóva de pontapés com que José Bento se recolhera ao quarto; mas suppoz que a justificada razão d'aquelle castigo fôra qualquer asneira do rapaz na impossivel conjugação do verboLaudo, especialmente no imperativolaudandum.
Por conseguinte, as pequenas não tiveram de responder como causas involuntarias daquelle sinistro, e continuaram no gôso da sua felicidade.
O arcediago, supposto não vivesse com ellas, almoçava, e jantava com sua filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e, depois de ceia...
Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.
É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha predilecção do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.
O padre não andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Magôa-nos, porém, ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos que a senhora Anna do Carmo não era mau genero para agiotagem.
A verdade é que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não queria incorrer no defeito doCocu imaginaire, que o leitor póde lêr, se a consciencia o não incommóda.
A honesta esposa repellia as seducções do padre, esquivando-se a encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes, dissuadia-a de temorespiegas que não tinham nada com a verdadeira religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do matrimonio e de muitas outras cousas.
O francez não sabia que fôra elle o amante de sua mulher.
Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons livros lhe dava,—e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,—o senhor Hemerin Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo, e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz matrimonio.
Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre francas para o generoso compadre.
Este parentesco fôra contrahido muito contra vontade da senhora Anna. Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recem-nascido, perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algumgarçon de bone mine(rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso, declarando, pelosacre nom de Dieu, que o arcediago de Barroso seria seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.
A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de fóra, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como habil e francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creança a dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear aMarseillese.
A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no collo da mãe, batendo as palmas, e articulando—papá,papá. O livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a dizerpadrinho; e a creança, que não sabia ainda ajuntar tres syllabas, teimava em dizerpapá.
Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e sua mulher, emfim, sabiaviver perfeitamente com o compadre, e já se lhe não dava de jogar com elle abisca de nove, e otrinta-e-um.
Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do francez, mas a razão do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.
Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os maledicentes sabiam que ella fôra amante do arcediago; o livreiro visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pozesse côbro áquelle grande escandalo.
O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella familia.
O pequeno Leonardo, já de dous annos, continuava a chamar papá ao padre, com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua mulher o córte de velludo vermelho que o compadre lhe déra. Tudo isto iale mieux qui se peut, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seuamigo intimo, como todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seuamigo intimo, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que pozesse o padre fóra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.
O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito umFlos-Sanctoruma um padre da aldeia, que se apeára d'uma égoa, no momento em que a porta se abrira.
—Estas obras de sanctidade—disse o padre—creio eu que se vendem pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem á regalada. O exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo:Ante eas vadit, et oves eum secuntur... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o edificio da religião, acasa de Deus,ædes Domini, esses são chamados a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade;canes veniebant, et lingebant ulcera, como diz S. Lucas no capitulo XVI.
—Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?
—Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada pela Mitra, e estou aqui ha um mez a gastar n'uma estalagem, e vou-me embora sem ella. O bispo é... o que Deus sabe... Dizem que é um sancto, mas barata virtude é a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor não é lá grande cousa, como diz o livro sancto:Nam quod ab ovibus erratur, negligentie pastoris adscribitur.
—Quer o senhor padre uma cousa?
—Nada, não, senhor, não quero mais livro nenhum; precisava d'este para tirar uma duvida sobre se o apostolo Sant'Thiago veio ou não a Portugal, e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...
—Eu não lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava um meio de v. s.ª...
—Alto lá! Nada devossa senhoria... Eu não sou d'esses modernos, que se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, ha trezentos annos, se davam ao rei... Trate-me por vmc.e
—Pois bem; se vmc.equizesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho para o bispo.
—Sim? então quem é elle?
—Isso agora é um segredo... Veja lá vmc.equanto dá...
—Quanto dou? isso é symonia, reprovada e condemnada com graves penas pelo concilio tridentino. Se eu quizesse servir-me d'esse infernal recurso, bem sei a que porta devia bater. Conheço como as minhas mãos um vendilhão d'esses favores, que não tem vergonha nem temor de Deus, e ha muitos annos que trafica descaradamente com os objectos sagrados da sancta religião de Nosso Senhor Jesus Christo. É um symoniaco, um libertino, indigno de se sentar no cabido...
—Quem é elle?
—Quem ha de ser? é o arcediago de Barroso, um homem sem religião, de pessimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas ahi não sei com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ella... Fóra o adultero! Não lhe faltava senão esta!...
—E vmc.econhece-o?
—Conheço muito bem, oxalá que não. Fomos companheiros no seminario, e já lá prophetisei a rôlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira... Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa d'elle, e sahi escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar comnosco á mesa uma rapariga que tinha em casa...
—Sabe como ella se chamava?
—Sei, sim, senhor. Chamava-se Anna do Carmo...
—Anna do Carmo!...
—Vmc.eespanta-se? É o que eu lhe digo...
—Que figura tinha ella?
—Era uma mocetona tirada das canellas, branca, cheia do peito, com os olhos mesmo concupiscentes como os do proprio demonio, e fallava sem vergonha diante de mim.
—E sabe se foi essa a que elle casou?
—Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por signal, e tem não sei que officio. Se vmc.equizer, eu volto cá qualquer dia, e posso saber-lhe tudo isso a preceito.
—Muito obrigado... eu não tenho interesse n'isso...
—Pois é como é. A religião está entregue a estes ministros. O arcediago de Barroso tem muito dinheiro em casa d'um negociante da rua das Flores, mas esse dinheiro é o preço por que elle comprou o inferno... ganhou-o nas symonias... Lá está em cima quem o ha de julgar... E, com isto, adeusinho até outra vez. Fique na graça de Maria Sanctissima, e passe por cá muito bem até outra occasião, se Deus nos dér vida. Adeusinho, sem mais.
O padre abria o alforge para metter oFlos-Sanctorum, quando o arcediago lhe dava uma palmada no hombro.
—Tu por aqui, padre João Pires?
—É verdade... Então que é feito, Leonardo?
—Vamos vivendo... Já te não vejo ha muito!...
—Não ha dinheiro para vir á cidade... Os padres derequiemnão comem do cabido... Lá nas aldeias o mais que se pilha é a missinha de tostão, que não dá para hostias. Isto cá é outra cousa. Os padres do Porto são cardeaes, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...
—Não é tanto assim, padre João... Deus sabe como cada qual se arranja. Então vieste comprar o teu livrinho?
—É verdade; comprei oFlos-Sanctorum, e sabe Deus o que me tem custado a arranjar os tres mil e duzentos.
—Se queres mais algum, e não tens dinheiro, eu fico por ti, e tu pagarás depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.
O arcediago piscou o ôlho para o livreiro, que estava encostado ao mostrador, e o livreiro, sorriu-se d'um modo que era novo para o arcediago.
—Nada, muito obrigado—disse o padre João Pires—eu não gosto de fazer dividas, porque não tenho esperanças de ser conego para pagal-as depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que nós passamos no seminario... lembras-te?
—Se lembro!...
—Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que é feito d'aquella rapariga do vendeiro de Campanhã que tu tiraste de casa?
—Não fallemos n'isso... Como tu te lembras d'essas rapaziadas... Esse tempo passou...
—Pois era uma rapariga perfeita!
—E aquell'outra das Fontainhas, que tinha um pae levadinho da breca, que te fez fugir em camisa para o seminario?
—Cala-te lá com essas cousas, João!... Isso foram bambochatas de estudante...
—Está feito, está feito... Tu tens pago um bom tributo á mocidade... Já tu eras padre ha muitos annos, e ainda fazias das tuas de estudante...
—Olha lá, meu caro João, se quizeres alguma cousa de mim...
—Obrigado... Eu gosto de fallar nos tempos da mocidade...
—Pois sim; mas eu tenho de estar nos Congregados ás oito horas... Estimarei que passes muito bem.
—Olha cá, padre Leonardo... ha ahi um sugeito que te quer fallar a respeito d'uma dispensa para casamento entre primos em segundo grau. O pretendente dá boas luvas a quem lh'a arranjar depressa...
—Sim!... pois eu conheço um banqueiro, que vence todas as difficuldades; mas... aqui entre nós... é preciso untar-lhe as unhas...
—Ah! maganão!... o banqueiro és tu em carne e osso!...
—Não sou, João. Acredita que não sou...
—In verbo sacerdotis!
—In verbo sacerdotis... N'essas materias melindrosas não escrupulisa a minha consciencia. Terei algumas fraquezas, de que me accuse, do tempo de rapaz, mas em cousas de religião o caso é muito sério.
—Com que tu tens muitos escrupulos das tuas rapaziadas, heim?
—Alguns; mas em certas idades tudo se desculpa, e Deus bem sabe que a razão não tem a força necessaria para conter os impetos d'aquelle novissimo do homem...
—Que não é do mundo, nem do diabo! Ora pois, Deus te conserve no sancto arrependimento...
—Então quem é o pretendente da dispensa?...
—Isso fallaremos outra vez... Ora olha, meu querido Leonardo, não sei se sabes que tenho cá na Sé requerimento para uma igreja.
—Nada, não sei.
—Poderás fazer com que o senhor bispo me despache?
—Homem, isso é um caso difficil... Se queres que te falle a verdade, no paço tudo se move por dinheiro...
—E tu dás á manivella nas rodas da machina, não é assim, meu Leonardo?
—Estás a rir, João...
—Pois eu podéra chorar!... Tudo isto leva-se a rir, senão endoudecia a gente... Ora anda lá que tu não deves só ter escrupulos das tuas rapaziadas... A proposito de rapaziadas, que é feito da Anna do Carmo?
—Da...?
—Sim... da Anna do Carmo... aquella mocetona que morava comtigo na rua Direita, aqui ha dez annos...
—Não sei... não me recordo... não sei de quem me fallas... adeus... até outro dia...
—Espera homem—disse o padre inexoravel ao confuso arcediago que suava em janeiro como o seu amigo Silva no mez de agosto, por vêr alli tão perto o francez, que não perdia uma palavra do dialogo.—Espera... não te confundas, que eu não quero confundir-te. Isto é conversar como amigos... Eu já sabia que foste honrado com a rapariga, e que a casaste com um bom dote... Uma fraqueza não desacredita ninguem... David tambem peccou, e S. Pedro negou o mestre.
—Dizes bem, João, adeus, até outra vez...
—Então... até outra vez.
Padre João não comprehendeu a afflicção do arcediago. A ultima despedida disse-lh'a, quando elle de repente lhe voltou as costas, por não poder conservar-se com a cara voltada para o francez que lhe não desviava os olhos d'ella.
Já escanchado commodamente sobre o albardão da égoa somnambula, o antigo conhecido de Anna do Carmo, voltando-se para o livreiro, disse, sorrindo:
—Vê que tal é o amigo? Olhe como elle se atrapalhou quando eu lhe fallei na moça...! reparou?
—Reparei... reparei...
—O que ella merecia é que o marido d'ella lhe quebrasse o espinhaço com uma tranca... Mas os maridos ás vezes, são tão bons como ellas... Adeusinho...
—Passe muito bem.
Mr. Hemerin leu, segunda vez, a carta anonyma, e sahiu.
Esperem asneira. Quando mal nos percatamos, temos pela prôa um marido brioso!
Safa!...
Rara avis in terris...
O arcediago, quando fugiu bruscamente ás impertinencias vingativas do padre João Pires, ia perdido, e não atinava com o refugio mais azado no embaraço em que se via.
Na rua das Hortas, quando voltava do campo de Sancto Ovidio, até onde fôra machinalmente, encontrou o marido de Anna do Carmo, que o comprimentou com a graça costumada, e nem de leve lhe tocou nas escandalosas revelações do profundo investigador de Sant'Thiago, e S. Martinho de Dume.
Padre Leonardo, admirado da singeleza do francez, entendeu que as cousas estavam no pé em que as deixára na vespera, e tranquillisou o tumulto de vergonhas e receios que lhe traziam o coração em dolorosas piruetas.
Convencido do inesperado quão feliz resultado da extravagante scena, veio á rua das Flores, e encontrou Anna do Carmo, ao mostrador, espantada de que seu marido sahisse sem dar parte, nem chamal-a a ella para a loja.
Isto fez impressão no arcediago, que teve a prudencia de calar á mãe dos seus filhos o desgraçado encontro com o amaldiçoado padre de Ponte-Ferreira.
Todavia, a sahida rapida do francez alguma cousa queria dizer. O atilado arcediago reflectiu no que poderia resultar d'alli; lembrou-se, um momento, que a sua organisação physica poderia soffrer algum abalo menos agradavel, e, finalmente,appellando para o futuro com a intrepidez de philosopho, esperou as consequencias.
Acabava o velho amigo de padre João Pires de fazer os seus juizos, quando o livreiro entrou com a mesma affabilidade, com o inalteravel sorriso d'um esposo feliz.
—Sahiste sem dizer nada?!—disse a senhora Anna.
—Foi-me necessario sahir com tal precipitação, que nem me lembrou chamar-te.
—Pois que foi, Hemerin?
—Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das justiças me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na minha loja livros protestantes, e folhetos escriptos contra a religião. Corri immediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar, quando lá cheguei, o desmentido da calumnia que forjaram contra mim os meus inimigos.
—Inda bem!...—disse a mulher.
—E se não acontecesse assim—accrescentou o arcediago com o contentamento da boa fé—eu ainda tenho amigos para desmanchar as traições dos seus inimigos.
—Muito obrigado, senhor compadre. Tudo está arranjado, d'esta vez. Se elles continuarem, v. s.ª será o nosso protector, como tem sido sempre.
O arcediago almoçou com elles, e não podia deixar de felicitar-se por ter casado a mãe de Rosa com tão boa pessoa, alma tão singela, e genio tão estimavel a todos os respeitos. Fez muitas festas á creancinha, que dava biscoutos ao livreiro para que os désse aopapá, o que o livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria do pequeno.
Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se á meia noite, promettendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que perdera jogando com a senhora Anna, emquanto seu marido sahira a encommendar de Paris a nova edição de Bossuet e Bourdaloue.
Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o costume, e disse a sua mulher que lhe désse a chave da commoda em que estava a sua roupa branca.
Anna quiz erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e elle mandou-a ficar. A mulher instou, e o francez intimou-a imperiosamente que não sahisse.
Momentos depois, a mãe de Rosa sentiu fechar-se por fóra a porta da rua! Ergueu-se, foi á commoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu á loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre o lavatorio,com estas poucas palavras: «És uma boa mulher, mas não me serves. Eu não sou mau homem, mas não te sirvo. Sejamos francos, e bons amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas minhas. Se me quizeres alguma cousa e elle tambem, escrevam-me para Paris. Adeus.»
A senhora Anna do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma cousa n'aquelle conflicto; mas que poderia ella fazer? A porta da rua, de mais a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago não vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que fallar aos visinhos, e o escandalo era certo! Mas, se o escandalo era certo, inevitavel, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e procurar seu marido; mas aonde?
N'esta irresolução, a senhora Anna ouviu as oito horas. Correu á janella, e viu á sua porta alguns homens, um dos quaes abria a porta. Desceu abaixo, e perguntou quem eram:
—Sou um escrivão, com os meus meirinhos.
—Que querem?
—Fazer penhora nos objectos conteúdos n'esta casa.
—Devo alguma cousa a alguem?
—Deve.
—O quê?
—O conteúdo n'esta petição, a que está junto um titulo de divida authentico, assignado por seu marido o senhor Hemerin Pierrote.
—Mas eu não assignei.
—Vmc.esabe escrever?
—Não, senhor.
—Por isso mesmo é que não assignou. Seu marido assignou por ambos.
—Isso é uma ladroeira! Eu grito aqui d'elrei, se me levam alguma cousa de minha casa.
—Pois grite, que arranja com isso a ser levada tambem.
—Para onde?
—Para a cadeia, ou para o hospital de S. José.
—Que é dos louvados, senhor meirinho geral?
—Estão aqui os ensambladores.
—Pois que subam a avaliar os moveis, e chame ahi dois livreiros para louvarem os livros.
—É um roubo que me fazem!—exclamou Anna, collocando-se adiante dos livreiros, que vieram d'um pulo.
—Retire-se, mulher, se não mando autual-a!
—Mas quero saber a quem é que devo...
—Ao vice-consul da França.
—Eu não conheço esse homem.
—Tambem não é preciso, nem deve ter muita pena d'isso. É um homem como os outros, pouco mais ou menos.
Entrava o arcediago com os olhos espantados, e o queixo pávidamente descahido.
—Senhor compadre!—exclamou Anna—querem-me roubar!...
—Roubar!... Como se entende isto?!
—Deixe-a fallar—disse o escrivão.—É um mandado de penhora.
—Á ordem de quem?
—Do juiz de fóra.
—Mas quem é o credor?
—Senhor arcediago, não nos importune com as suas perguntas. Vá lá sabel-o, se quizer. Nós cumprimos a lei, e não temos obrigação de dar explicações a quantos passarem na rua.
—Onde está seu marido?—perguntou o padre.
—Não sei... Olhe aqui.
A senhora Anna chamou-o de parte, e contou-lhe o succedido. O arcediago ficou tranzido.
—Que hei de eu fazer, Leonardo? Não me dirás?
—Põe a tua mantilha, pega no pequeno, e vai com a criada para minha casa.
—E os meus arranjos?...
—Que arranjos?
—Os meus vestidos?
—Deixa os vestidos... Faz o que te digo. Não te afflijas... Has de ter sempre que comer. Nem mais uma palavra, que não quero escandalos.
Anna do Carmo sahiu com a criada e o pequeno, que grunhia por ter sido tirado a dormir do berço. O escrivão achou-se sósinho com os aguazis e louvados. A livraria foi logo comprada pelo livreiro da loja visinha. Os moveis arrematados, e ficou o escrivão com elles. As roupas comprou-as uma adeleira. E a chave da casa foi entregue ao senhorio. Foi um dia cheio para os visinhos!
A vingança do francez fôra uma vingança franceza; mas, de parte a parte, concordemos em que a honra orçava os mesmos quilates. Parece que eram dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai vêr-se.
A mãe de Rosa vivia com o arcediago; mas tão cauta e escondida que se não deixava vêr. Era um cuidado inutil;porque ninguem duvidava que os braços do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.
A immoralidade chegára aos ouvidos do bispo, que empregou os meios brandos para chamar ao caminho da bem-aventurança aquelle Lovelace de murça e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os seus traiçoeiros denunciantes para que lhe provassem a calumnia infame. Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escripto quatro correspondencias para os periodicos, em que provocaria os maledicentes a tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia, e vis calumniadores, como é do estylo.
N'aquelle tempo, porém, o infamado não tinha o respiradouro da gazeta, e não podia andar de casa em casa apregoando a sua innocencia. Razão porque a detracção se incorporava pouco e pouco, até ser recebida como facto consummado.
Os conegos, que não eram mais virtuosos que elle, mostravam-se escandalisados das torpezas do seu collega, e queriam que o prelado os desultrajasse do odioso que reflectia na corporação. O bispo via-se entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as instancias reiteradas do chantre, e do deão, que eram mais discretos nas suas torpezas, porque nunca tinham cahido na immoralidade de dotar as mães dos seus filhos para casarem.
A indignação pública urrou no paço episcopal; e o principe da igreja receou que a mitra lhe cahisse com deshonra da cabeça, e metteu o arcediago em processo.
Estas deploraveis scenas passavam-se, mezes depois que Rosa Guilhermina e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a inquietação de seu pae nas poucas horas que se demorava em casa. Interrogaram-no ambas muitas vezes, e não poderam saber nunca a afflicção que o atormentava.
O processo corria, quando o bispo deu uma audiencia secreta ao arcediago. O fim d'essa prática d'amigo, e não de juiz, era aconselhal-o, que fugisse immediatamente de Portugal, e que esperasse lá fóra que a borrasca serenasse, e depois viria.
O arcediago annuiu.
Com as lagrimas nos olhos, e sua filha nos braços, revelou-lhe que uma grande desgraça o obrigava a sahir da patria. Mandou-a entrar outra vez no recolhimento. Estabeleceu uma pensão a Maria Elisa. Deixou outra a Anna do Carmo,e partiu para Hespanha com todos os seus cabedaes, excepto as quantias que o honrado negociante Antonio José da Silva mensalmente devia repartir pelas tres, se eram só tres as pensionadas da illustre victima de padre João Pires.
Anna do Carmo sabia que sua filha existia no convento; mas, por ordem expressa do pae, não a procurava. Vivia com honra, e recebia pontualmente a sua mesada.
Rosa ignorava a existencia de sua mãe, tinha de longe a longe saudades do pae; mas isso não era forte razão para que deixasse de comprar a melhor edição do Cavalheiro de Faublás, que traduzia perfeitamente com a sua amiga, graças aos cuidados do pae em mandal-a aprender o francez durante um anno que esteve na casa do Laranjal.
Mr. Hemerin vivia em Paris, e vivia perfeitamente da quantia que lhe fora dada com a condição de cohonestar as relações da mulher com o padre: missão aliás christã que o maldito não quiz desempenhar christãmente, e encarou com a melhor philosophia do mundo.
O arcediago vivia em Madrid, e gastava o seu tempo n'um convento de Therezinhas, onde lhe não faltavam delicias para o espirito, e parece que as melhores esperanças para tudo que os philosophos teimam em dizer que não é espirito.
Padre João Pires, esse, contentissimo de ter resolvido o problema de Sant'Thiago, veio um dia procurar o livreiro para comprar-lhe—El sabio instruido de la naturaleza,—e soube, no livreiro visinho, a catastrophe do arcediago.
Citou quatro textos em latim ácerca da obscenidade, disse tudo o que sabia a tal respeito, confirmou minuciosamente todos os escandalos da vida de padre Leonardo, e foi dizer missa á Misericordia, e ouvir de confissão a senhora Angelica, que, por um triz, ia ficando sem absolvição, por ter murmurado da senhora Anna Canastreira, e da mulher do João Pereira, do chinó.
O senhor Antonio José da Silva, recobrado dos dissabores por que passára, restaurava as banhas perdidas do seu lustroso cachaço, e continuava a suar copiosamente.
E o senhor João Retrozeiro, finalmente, lia com o maior prazer a sua mulher as cartas de seu filho José Bento, que estava no Rio de Janeiro ganhando duzentos mil reis como segundo caixeiro de um armazem de molhados, onde o não forçavam a conjugar o atrocissimo verbolaudo.
Corria tudo fastidiosamente regular e monótono, menos para o espirito das duas amigas, que progrediam d'um modo admiravel na sciencia das cousas, e na theoria do mundo estudada nos livros. Todas as suas economias de tempo e dinheiro, que lhe sobejavam á farta, empregavam-nas em novellas francezas, que uma criada, das que serviam cá fóra, lhes introduzia no recolhimento, com pequena commissão.
Maria Elisa se dissermos que era uma litterata, não nos fica o remorso de ter mentido. A prova de que o era dá-se com bem pouco: basta dizer que duvidava da efficacia da reza, e dos preceitos mais fundamentaes da sua religião da infancia. Fallava na religião natural, e sabia de cór aVoz da Razão, e aPavorosa illusão da Eternidade.
Rosa Guilhermina era litterata metade e mais um terço. Não acreditava na reza, nem nos sanctos da regente: mas tinha fé na existencia de Deus! Não era consummada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em instruil-a e aperfeiçoal-a.
Era corrido um anno. As meninas entravam nos dezesete, e já não eram as creanças zombeteiras que traquinavam na cêrca, e irritavam as velhas da casa com travessuras.
Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade propria, deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas, olhavam com desdenhosa insolencia a ignorancia das companheiras, desdenhavam o beaterio de muitas que lhes não mereciam o favor das suas reflexões, e, com algumas, dignaram-se descer até lhes confiarem o segredo da philosophia, o dogma sublime da razão. Se quereis em duas palavras comprehender a illustrada extravagancia das duas meninas, sabei que o seu quarto era intitulado por ellas:hotel de Rembouillet.1
D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pae, que não tinha expressões com que podésse encarecer o talento de sua filha, manifestado nas apparatosas cartas, que lhe enviava.
A ultima, que elle lhe escrevera de Madrid, annunciava a sua proxima vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as linguas mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo d'um anno, estava esquecido.
Depois da carta, que promettia a sua vinda, que devia abrir outra vez as portas da clausura ás litteratas, as anciosas meninas receberam outra em que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraçal-as, e que fossem dispondo a sua immediata sahida para Lisboa, onde elle tencionava estabelecer casa.
De igual theor recebeu a mãe de Rosa a fausta noticia, e cada qual não tinha socego em preparar as suas cousas de modo que se não fizessem esperar.
Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para não perderem tempo, já tinham feito as suas despedidas; Anna do Carmo tinha fóra dos bahús o indispensavel para as poucas horas de existencia no Porto; umas e outras não sahiam da portaria ou da janella para felicitarem o amante e o pae e o carinhoso protector, quando o senhor Antonio José da Silva rolou a sua rotunda personagem no pateo do recolhimento.
Rosa, ao vêl-o pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira, industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha vindo.
—O senhor arcediago—respondeu o negociante com a commoção de que era susceptivel—o senhor arcediago... está na presença de Deus...
—Morreu?!—exclamaram as meninas.
—É verdade... Faz favor de me chamar a menina.
—Estou aqui, senhor Silva... Pois é verdade que morreu meu pae?
—Desgraçadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas ultimas palavras, foram estas: «Eumorro... vão dizel-o á rua das Flores, no Porto, a um negociante chamado Antonio José da Silva. Morreu de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bemaventurança...
—Isso é impossivel!...—atalhou Rosa, soluçando e chorando.
—Pois é tão certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O peor é que o grosso dinheiro que seu pae levou, sabe Deus porque mãos andará a estas horas!...
—E eu fiquei pobre, não é assim?—atalhou a litterata, que considerava a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razão.
—Pobre... não, senhora—respondeu o negociante, enxugando uma lagrima importuna.—A menina está perfilhada. Eu tenho a perfilhação em meu poder. Ainda mesmo que não appareça o dinheiro, que elle levou, o seu patrimonio vale bem quarenta a cincoenta mil cruzados. É a quinta de Ramalde, são dous predios na cidade, e as pratas de seu pae, que estão em minha casa, só essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O que é necessario é fazer-se um conselho de familia, e bom será que a menina sáia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pae.
Pergunta d'aqui, resposta d'acolá, convieram em que a menina sahisse, passados tres dias, durante os quaes recebeu visitas no seu quarto, e chorou alguns instantes sinceramente.
Maria Elisa, como philosopha e boa amiga, animou-a a resignar-se, convencendo-a de que a morte era a condição da vida, e que as lagrimas não resuscitavam ninguem. Rosa conveio n'isso em nome da illustração do seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dôr.
Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais profundo. Ahi, sim: havia uma verdadeira dôr, a consciencia de desamparo, a invalidez na quasi velhice sem refugio. Restava-lhe uma esperança: era sua filha; mas essa filha não lhe bebera o leite, não lhe sentira os beijos, não lhe vira as lagrimas, nunca lhe chamára mãe.
Por encurtar razões, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu poder não estava dinheiro algum, e que tractasse ella de procurar o amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.
Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga occupavam a casa do Laranjal, tomavam as antigas criadas,e consultavam-se no que deviam fazer, ou se acceitariam as condições que algum impertinente tutor lhes impozesse.
—Eu não posso dizer nada em tal assumpto—respondeu Elisa.—Sou absolutamente estranha n'este objecto; não obstante, como tua amiga intima, entendo que não deves sujeitar o teu coração ás barbaras leis d'algum barbaro tutor.
Já vêem como era o estylo de Elisa; agora admirem o de Rosa:
—Dizes bem, minha terna amiga. Se a parca me roubou o pae, não serei ludibrio da morte, porque vivo ainda. Não quero mais reclusão, nem o convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu coração é livre. Eu e tu temos bastante philosophia para nos sabermos guiar na estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura; saberemos evitar os abysmos, renderemos os nossos corações aos ardentes votos d'algum amor digno de nós, e viveremos juntas pelo espirito, assim como temos vivido pela intelligencia.
Fallou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundancia. Não ha nada a desejar aqui. Optima resolução, exemplar programma, e invejavel talento!
Nomeado conselho de familia, a orphã foi consultada pelo tutor, homem probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em alto estylo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupilla, e disse em plena reunião dos membros do conselho de familia que ella era muitopronostica, e que fallava com cabeça. Os outros membros não duvidaram acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus rendimentos, e vivesse fóra do recolhimento.
Contentes da sua sorte, as duas litteratas, cada vez mais ricas de sciencia, achavam já que o seu espirito não saboreava a simples nutrição dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu plano de instrucção; lastimavam a soledade em que viviam duas almas devorando-se no proprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais ampla que as admirasse, ou de espiritos illustrados que as conduzissem á luminosa região das sciencias ignoradas ao seu desherdado sexo.
Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se cousas admiraveis, quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira recebeu a seguinte carta:
«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este mundo uma mulher desvalida. Esta mulher étua mãe, e terá brevemente necessidade d'um bocado de pão. Quando esse momento vier, não o negues á infeliz Anna do Carmo, que irá mendigal-o á tua porta. Vivo na rua Direita n.º 25.»
«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este mundo uma mulher desvalida. Esta mulher étua mãe, e terá brevemente necessidade d'um bocado de pão. Quando esse momento vier, não o negues á infeliz Anna do Carmo, que irá mendigal-o á tua porta. Vivo na rua Direita n.º 25.»
Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensação inqualificavel. Elisa, queria vêr esta carta, e a sua amiga não lh'a mostrava.
—Será namoro?!—perguntou Elisa com azedume e admiração—Diz, Rosa! tu não me respondes? Deixa-me vêr essa mysteriosa carta! É epistola amorosa?
—Não, minha amiga... É uma carta, que não te mostro!... Não devo mostrar-t'a...
—Oh céos! que estranha carta é esta! Não sou eu, por ventura, a tua amiga, a confidente dos teus segredos?
—És... mas ha segredos que se não dizem...
—Pois bem: eu calarei a minha ancia, e não farei jámais de amiga para todos os teus cuidados, Rosa.
O portador esperava a resposta.
A filha de Anna do Carmo sahiu de ao pé da importuna confidente, tirou da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um retalho de sêda preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e rasgou a carta.
Quando voltou, chorava Elisa, em ar de arrufada amante. Rosa, mais tranquilla, se era possivel uma consciencia boa, depois de tão generosa acção, serenou a susceptibilidade da sua melindrosa amiga com esta revelação:
—Olha, querida amiga, faz comigo as pazes. Eu te digo o que se passa. A carta, que recebi e devolvi pelo portador, era uma súpplica de uma pobre amante de meu pae, que me pedia uma esmola. Fez-me tanta pena, que me vestiu de luto o coração! Como pensei que era aquelle um deshonroso segredo para meu pae, nem dizer-t'o a ti, cara amiga, eu julguei que me era nobre. Ora aqui tens...
—E mandaste-lhe o beneficio supplicado?
—Mandei...
—Fizeste bem... Pobre mulher, abandonada, não devia achar fechadas as portas da alma que sahiu do peito amante. Perdôa a meu resentimento, querida Rosinha...
E com estas e outras finezas passaram uma hora, ao fim da qual voltava o portador, que levára o dinheiro, e entregava á senhora D. Rosa Guilhermina outra carta, acompanhando os quatro cruzados novos. A carta dizia assim:
«Minha filha. A esmola é muito avultada para uma mãe. Quando eu tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de pão.»
«Minha filha. A esmola é muito avultada para uma mãe. Quando eu tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de pão.»
Rosa fez-se da côr do lacre, e fugiu de ao pé da sua amiga.