CAPITULO XIAnna do Carmo, quando pensava em escrever a sua filha, dizia-lhe o coração que a não procurasse, porque seria recebida com má vontade. Fallava-lhe assim o coração, porque n'aquelle peito não batia o coração de mãe.E não.A amante do arcediago vira, sem lagrimas, levar aquella menina do seu ventre para os braços mercenarios de uma ama de expostos. Não estendeu os seus, supplicando que lhe não roubassem a filha da sua alma, e da sua deshonra. Não pediu ao pae desnaturado que lh'a désse em compensação da renuncia, que ella fizera da sua dignidade. Não saltou, esvaída de sangue, fóra do leito, procurando resgatar a creancinha que deveria dar-lhe em amor de filha o premio da sua ignominia de amante.Viu-a ir impassivel! Nunca lhe deu que pensar o destino da creança. Nunca sentiu o remorso do infanticidio. Nunca se lembrou que a desgraçada menina, que viu a chorar com frio e fome nas lages da rua, poderia ser a sua filha.Os annos correram. O arcediago lançou um olhar melancólico ao futuro. Ambicionou uma herdeira, que fruisse o grosso cabedal que amontoava. E lembrou-se de ter assignalado, cinco annos antes, aquella engeitada.Procurou-a com zêlo de pae; encontrou-a entre as meninas desamparadas, pallida de fome, e vestida de farrapos, apresentou-a a sua mãe, e sua mãe encarou-a serenamente, deu-lhe um beijo frio, e aconselhou o pae que a mandasse para um collegio.Quando o pae extremoso, cheio de saudades, mandava buscar sua filha de seis annos, com os seus lindos cabellos louros, e os seus labios radiosos de innocentes sorrisos de gratidão, Anna do Carmo achava enfadonhas as repetidas visitas,e zangava-se asperamente se a menina batia com a faca no prato, ou pedia doces para dar ás suas companheiras.Espanta-vos esta dureza d'alma? Entrai na enfermaria das que vão ser mães, debaixo das telhas da Misericordia. Reparai n'esta, que prepara risonhamente o cueiro e a faxa que ha de levar seu filho ao monturo dos filhos sem mãe. Olhai aquella que jura que o seu seio não tem nutrição para que a não obriguem a crear o seu filho. Vêde além outra, que crava as unhas no menino, que tem ao peito, para que os dolorosos vagidos da creança accusem a fome, e a seccura d'aquelle seio, que tem dentro morto o coração.«Diante d'este quadro hediondo, tenho duvidado do amor materno! Compungido por esta verdade atroz, tenho collocado a hyena n'um grau de sensibilidade superior á mulher!» dizia-me um illustrado professor de medicina2, que me expunha estes lances com as lagrimas nos olhos.Não duvideis, pois, mães! Anna do Carmo chegaria sua filha ao seio; mas aquelle sangue não se alvoroçava nas arterias. Tocar-lhe-ia os labios com os seus, mas aquelle beijo fôra sempre a banal formalidade, que se barateia por ahi em cada cara que vos saúda.Sobejavam-lhe razões para recear o desprêso da filha. A dura experiencia dissera-lhe que o castigo sobre a terra era infallivel.Se aquella mulher tivesse sido a mãe d'aquella menina, sentiria um estimulo superior impellindo-a para ella. Iria, coberta de farrapos, lançar-se nos braços de sua filha, radiante de velludos e brilhantes. Iria, sem pejo, na presença de todo o mundo abraçar essa filha, com a certeza de que Rosa exclamaria na presença de todo o mundo: «Esta desgraçada mulher é minha mãe!» Pediu que lhe escrevessem uma carta; mas essas poucas palavras, que parecem o enigma d'uma grande dôr, nem suas eram. Foi uma cabeça fria, e um coração estranho, que as dictou; porque, na alma d'ella, estava a irresolução gelada, o presagio do desprêso, o espinho da consciencia, precursor d'um grande castigo.Quando recebeu, como resposta á sua carta, o silencio, e quatro cruzados novos, Anna do Carmo sentiu-se assaltada pelo orgulho que não era orgulho de mãe. Era um rancor, que reagia ao desprêso, uma altivez que caracterisa as almas pequenas, e não essa nobre independencia, que nos mandaatirar á cara do falso bemfeitor uma esmola, quando nos não é delicadamente dada como quitação d'uma divida.Foi ella quem repelliu a esmola; mas não foi ella quem redigiu o bilhete que acompanhava a remessa. Por sua vontade, aquelle bilhete devia ser um insulto e uma ameaça; mas a pessoa que o escrevera previu que a mãe de Rosa seria brevemente uma mendiga, e precisaria de humilhar-se a estranhos, por ter sido soberba com sua filha.Rosa Guilhermina meditou aquelle bilhete, e sentiu em si uma transformação repentina.Ha pouco ainda, teve vergonha de declarar á sua amiga que sua mãe existia, e vinha pedir-lhe uma esmola; e agora é ella que sente a dura precisão de revelar a Elisa todo o seu segredo.Elisa ouviu-a, e reprehendeu-a da inconfidencia, que a não lisongeava nada. Depois, aconselhou-a que desse uma mesada a essa pobre mulher, se a não queria receber em casa na qualidade de mãe.Rosa optou pela mesada, e escreveu immediatamente uma carta a sua mãe com a direcção que lhe fôra indicada. Esta carta chegou nos assomos freneticos de Anna do Carmo. Sahiu com a carta para que lh'a lêssem: ouviu-a cada vez mais colerica, supposto que as phrases fossem brandas, e carinhosas. A offerta da filha era mais uma boa mesada, que permittisse a decencia de sua mãe. Anna tomou a carta com arremêsso, rasgou-a, e disse á portadora:«Diga a essa desavergonhada que não preciso de suas mesadas; e que, se torna a mandar aqui alguem, que atiro pelas escadas abaixo quem cá vier... Pegue lá... dê-lhe a carta rasgada.»D. Rosa, quando ouviu similhante resposta, voltou-se para a sua amiga, como quem pede um conselho:—Não tens mais passo algum a dar—disse Elisa.—Mulher que assim responde não é tua mãe: isso é uma impostora! Faz de conta que este incidente não veio perturbar a nossa felicidade... Será tua mãe: mas só te conhece agora, que és rica, e ella pobre. Tal mulher não é digna de chamar-te filha!... Que lhe deves tu? O nascimento? Grande favor!... Se teu pae não tivesse esta riqueza, que te deixou, o que serias tu? Uma filha sem mãe, abandonada de todos, e despresivel aos olhos da propria que te atirou ao mundo como quem atira ao chão as rosas murchas, que lhe serviram de prazer e ornato!...Quer fosse o estylo assoprado de Maria Elisa, quer fossea negação completa do coração de Rosa a essa estranha mulher, que lhe chamava filha, o certo é que os escrupulos e temores desappareceram, e o importuno successo não impressionou muitos dias o espirito da leviana moça, que se demorava pouco nas mesquinharias d'este globo.O rapido desvanecimento das ideias funebres do caso, deve-se á visita da senhora Angelica que não veio mais cedo por ter estado ás portas da morte com um catarrho, que lhe cahira nos bofes, como ella se explicava subindo as escadas.—A snr.ª D. Angelica por aqui!—disse Rosa descendo a recebel-a.—Deixemo-nos dedom. Cada qual é como cada um. Eu cá sou filha de negociante, e não quero essas trapalhadas da fidalguia. Então, como passa a minha menina?—Muito boa, e a snr.ª Angelica doentinha, não é assim?—Deus louvado, vou melhor dos bofes, mas, acho que tenho aqui no costado, salvo tal logar, um lobinho, que hei de queimar com a massa.Elisa tinha o lenço na bôca, para suffocar o riso.—Então, esta menina é que é a sua amiga?—Tenho a gloria de merecer tal nome—respondeu Elisa.—Por muitos annos e bons... Então vmc.ede quem é filha, ainda que eu seja confiada?—Meus paes ceifou-os a dura fouce da parca.—A Parca? não conheço essa senhora. Sua mãe chama-se a snr.ª Parca?—Não, senhora—atalhou Rosa, porque a sua amiga não podia responder, suffocando com uma gargalhada.—A mãe d'esta menina, e tambem o pae, morreram já.—Ah! sim? pois Deus lhes falle n'alma, e elles a abençoem no céo, que é bem galantinha... Porque não vai ser freira, minha menina?—As almas livres não querem ferros. Umas nascem para o culto dos templos, outras vêem o altar de Deus na natureza.—Ella que diz?—perguntou a velha a Rosa.—Diz que não nasceu para freira.—Não diga isso, menina, que é peccado. Todos nascemos para o serviço de Deus, e deve ir para carmelita, que é uma ordem muito apertada, e ganha-se o céo, com a pobreza, e a paciencia.—O céo ganha-se com os vôos do espirito.—Que é? os avôs do esprito? Não creia n'isso; nas carmelitasnão ha espritos ruins... Ri-se? ora queira Deus que não chore ainda... Quem lhe disse que andavam espritos nas carmelitas? Olha as sanctinhas! coitadas!... É cousa que não consta é esprito nas carmelitas...—Isso creio eu; mas por isso mesmo é que a materia me não convida. O grande espirito é Deus.—Jesus! que heresia! A menina parece-me douda!...—Não é, não, snr.ª Angelica... É porque ella falla sempre em alto estylo...—Estylo!... que é isso de estylo!...—A sua linguagem é mais sublime que a costumada entre pessoas sem luzes.—Sem luzes!... Eu não vos entendo, raparigas! Vmc.esaprenderam o latim?—Não, minha senhora—disse Elisa—a nossa lingua é portugueza, e as nossas phrases tem o toque da superioridade, que nem todos os espiritos alcançam!...—E ella a dar-lhe com os espritos!... Parecem-me doudas! Quem vos ensinou esse palavriado de latinorios e berliques-berloques que ninguem entende? É isso o que vós aprendeis no recolhimento? Deixai-vos d'essas tolices, e fallai como a outra gente da nossa laia.—Da nossa?—disse Elisa—Não lisongeia a miscellanea.—Miscellanea!... quem é a miscellanea? Eu não a entendo!... Ella que diz, Rosa?—Diz que as pessoas instruidas...—Pessoas estruidas, Deus nos livre d'ellas... Olha como ella se ri!... Esta rapariga tem aduella de menos, não tem, Rosinha?—Tem aduella de mais... É uma senhora muito esperta, sabe francez, e faz poesias.—Eu a arrenego! pois ella é como os homens, que vão alli berrar debaixo das janellas das freiras, a botar versos para cima?—É verdade... Eu faço versos; a musa favorece-me: o Pégaso vôa comigo á apolinea fonte, e converso com os deuses na Castallia.—Ella parece lá d'esses reinos estrangeiros!—disse, torcendo o nariz, a snr.ª Angelica.—Sou lusitana, não nego a patria. Nasci nas margens do patrio Douro.—Nasceu no Douro? Então isso como foi? Sua mãe teve-a no rio? Vinha, talvez no barco... pobre mulhersinha!... E ella a rir-se!... Ella não está boa!...—Desaperta-me, Rosa, que eu arrebento—exclamou, suffocada de riso, Elisa.—Eu não n'o disse? Eu logo vi que ella não estava boa!... Isto é cousa má que se lhe metteu no corpo... Dizem que o demonio ás vezes falla de modo que só o entendem os padres. Quer a menina que eu vá chamar-lhe um fradinho de muita virtude, para lhe lêr os inzorcismos?—Minha alma detesta o frade.—É frade de testa... e de cabeça... é muito sabio... Eu vou buscal-o...A snr.ª Angelica atirava com a côca da mantilha para a cabeça, e preparava-se para sahir em cata do frade, quando Rosa, perdida tambem com riso, lhe acenou que não fosse.A parvoice sinceramente estupenda estava pintada na indescriptivel physionomia da velha.—Sabeis que mais? não me entendo comvosco! Não sei o que pareceis! Ou vós estaes doudas, ou a graça de Deus vos desamparou!—Venha cá, snr.ª Angelica, fallemos sérias... Eu sou sua amiga, e Maria Elisa tambem o é. Nenhuma de nós está vexada do espirito mau... é porque vmc.enão nos entende, e pensa que a nossa linguagem não é do mundo dos mortaes. Eu sou a mesma Rosa, muito sua amiga, e sinto immenso prazer em vêl-a n'esta sua casa, e quero que venha cá muitas vezes.—Agora já entendo o que me diz... A gente deve fallar como falla todo o mundo. O latim é lá cousa dos prégadores, e dos doutores. Uma mulher em sabendo a ladainha e aMagnifica, sabe o latim preciso para a salvação... Com que assim, minha Rosinha... Como se dá por aqui?—Muito bem.—E a outra menina?—Plenamente jubilosa.—Ella lá torna com o berzabum dos latinorios!... Valha-a Nossa Senhora!—Ó Maria Elisa, falla em baixo estylo... humanisa-te.—Repugna-me. Não sei manchar a lingua de iguaria indigna.—Que diz ella? que eu sou indigna?—Não, senhora; diz que não póde fallar como nós.—Pois então que esteja calada... Ó Rosinha, eu queria-lhe uma palavra em particular.—Pois sim; iremos para o meu quarto... eu venho já, Elisa.—Vai... mas guarda-te do filtro da Gorgona fatal.—Ella lá fica com os gorgues, gorgues!... má mez para ella!—murmurou a snr.ª Angelica.CAPITULO XII—Ora venha cá, Rosinha...—disse a snr.ª Angelica, pendurando a mantilha na porta, e acocorando-se n'um tapete, que ella suppoz ser feito para isso—Sente-se ao pé de mim.—Eu não gosto d'essa posição, que é incommodativa. Sento-me n'esta cadeirinha.—Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que não quero que nos ouça a sua amiga. Deus me perdôe, mas não engraço com os modos d'ella... Aquillo não ha de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que presta aquella rapariga?—De muito; é a minha amiga do coração; conheço-a ha dois annos; quero-lhe como a ninguem, e basta.—Está dito... Pelo que vejo, aqui não ha rei nem roque, e quem governa é vmc.e, não é verdade?—É, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.—Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos não vão bons para as donzellas. Deus me perdôe se pecco, mas o diabo anda ás soltas entre as raparigas desde que os francezes vieram lá do fim do mundo ao Porto. No meu tempo não se ouvia dizer que uma rapariga namorava este nem aquelle. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa, traga-lhe o ôlho em cima, senão, quando mal se precata, os peralvilhos... nem pensal-o é bom!... E más linguas? isso então é um louvar a Deus! Pois aquella grande bebeda da mulher do retrozeiro, que mora defronte de mim, não foi dizer ao meu Antonio que eu, quando era moça... em nome do padre, e do filho, e do espirito sancto... Cal-te bôca... Olhe que sempre! Ninguem diga que está bem! Uma desavergonhada assim! Estar eu mansa e quêda em minha casa, amando e servindo a Deus como posso, e nem ja como devo, e vai senão quando aquella lingua damnada não teve o ousio de fallar da minha conducta, quenão teve nunca tanto como isto que se lhe pozesse (mostrando-lhe a ponta do dedo)! Ahi está por que Deus não manda chuva, e mandou a praga dos francezes para nosso castigo... é por causa da Anna Canastreira, e outras que taes... Aquella grande regateira! Atrever-se a pôr a bôca na minha honra! E ella? A porca, que andou... Cal-te bôca... E tem aquella de fallar em mim, que fui sempre como as estrellas, e que nunca houve na rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o ôlho ao congregado, nem ao conego Anselmo! Inda a lingua se lhe tolha, e descanso não tenha ella de dia nem de noite sem me pedir perdão...—Então é isso o que precisa dizer-me, snr.ª Angelica?—Inda não chegamos lá, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as donzellas não estão seguras com esses melcatrefes que por ahi andam d'oculos, e polainas, que me parecem mesmo o demonio tentador!...—Elles tentam-na, snr.ª Angelica?—A mim? para cá é que elles vem bem!.. Eu os arrenego! Assim que os vejo ao longe, rezo o credo em cruz...—E perseguem-na os peralvilhos?—Hão de ter bom olho...! Elles só perseguem as que lhe dão trela. A mim? isso sim... Inda não ha muito que um mariola me puxou pela mantilha, ao sahir da Capella das Almas, e eu voltei-me para elle... não lhe digo nada... apenas me viu, aquillo foi como se lhe désse com um sedeiro na cara, voltou logo o focinho. Está-se a rir, Rosinha? É como lhe digo. Os homens, em vendo má cara nas mulheres, não tenha medo que elles se atrevam... E mais eu agora já não sou o que era... estou muito acabada... estes malditos lobinhos, que me vem todos os annos ao costado, fazem-me de fel e vinagre. D'antes quando eu era a flor das donzellas, isso é que se podiam vêr os peraltas com o nariz no ar por minha causa... Pois, olhe, viam-me com os olhos e comiam-me com a testa... Uma rapariga quer-se honestinha; e quanto mais vamos inda peor é. Está dito... agora vamos começar o nosso arranjo.—O nosso arranjo?! Que arranjo temos nós, snr.ª Angelica?—Nada de pressa... ha muito tempo para morrer... Ora vamos, Rosinha... inda está dos mesmos humores de ha dois annos?—Que humores? não me lembra quaes eram...—A respeito do seu matrimonio com o meu Antonio.—Ah! nem me lembrava essa brincadeira... Sim, minhaboa senhora, ainda estou, e estarei, resolvida a não casar com o snr. Antonio.Maria Elisa, pé ante pé, viera collocar-se atraz de Angelica fazendo-lhe carantonhas, que obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por não poder conter o riso.—Com que então está na mesma!... Ora, se Deus quizer, a sua cabecinha ha de mudar. Pense bem no caso, Rosinha. Lembre-se que meu irmão não sabe o que tem de seu. Lá, se é velho, olhe que faz dar a agua pela barba aos novos. Não vê aquellas côres, que elle tem? Olhe que alli onde o vê, inda tem muita força. Come-lhe bem, e está gordo como um tanho...—Bem sei que está gordo; mas que me importa a mim a gordura de seu irmão? Como não quero vendel-o a pêso...—Isso não é resposta de menina honesta, Rosinha. Não se ponha a rir... Acho que já tem as manhas da sua amiga. Foi ella que lhe disse que não quizesse o meu Antonio? Tomára-o ella.—Pois offereça-lh'o.—Que se lave... Olha a labisgoia! Se meu irmão se via com aquella tartamuda, que ninguem a entende, entisicava, meu querido irmão do meu peito! E ella tem legitima?—Quem, a minha amiga? é muito rica, por morte de duas tias, que são pouco mais ou menos da sua idade, snr.ª Angelica.—Da minha idade? Então ainda podem viver muito, e tarde virá a legitima...—Quantos annos tem, snr.ª Angelica?—Quem, eu? eu lhe digo... Eu sou mais velha que o meu Antonio, que é da idade do Joaquim Antunes, casado com a Theresinha dos Loios, e que se lembra de ouvir dizer a sua mãe que o meu Antonio era da idade do snr. Joaquim, e eu sou da idade da snr.ª Brizida, que dizia minha tia Aniceta que nascera ao mesmo tempo, e se baptisára no mesmo dia com o Thimoteo, que ninguem ha de dizer a idade que tem.—É o mesmo que acontece a seu respeito, depois da sua conta, snr.ª Angelica.—Pois é verdade; eu o que tenho é estar acabada; mas meu irmão está gordo e fero como sempre o conheci. Quizesse elle casamentos que lhe não faltavam.—Pois, snr.ª Angelica, sinto muito dizer-lhe que não me sinto deliberada a casar com seu irmão, e que provavelmenteficarei solteira, porque não tenho vocação para o casamento. Acho-me em extremo inclinada ao celibato.—Quem é esse Celibato? Olhe lá que não vá ser algum pandilha que lhe quer pilhar a legitima!... Eu não conheço esse snr. Celibato... é negociante?—Nada; é um cadete...—disse Rosa mordendo o riso nos beiços.—Ah! um cadete, chamado Celibato... Conheço muito bem; ouvi fallar n'elle... é um grande tratante. Não queira esse bigorrilhas.—Ah! que malvado! Eu não sabia que o snr. Celibato José...—É verdade, Celibato José... já me esquecia...—Da Cunha...—Sim, sim... da Cunha; é o mesmo, tal e qual! Ora vê como eu lhe vali, Rosinha?—Agradecida, minha amiga. Detesto esse tyranno! Guardarei meu coração para outro esponsalicio...—Esponsalicio! parece-me que conheço esse snr. Esponsalicio...—É um rico proprietario...—Enganaram-na, Rosinha. Esse Esponsalicio...—Da Costa...—É o mesmo... louvado seja Deus, que me trouxe aqui!... Esse Esponsalicio da Costa é um traficante, que enganou a filha d'uma minha amiga, e que diz á bôca cheia que não quer casar com nenhuma. Não caia em lhe receber palavra de casamento, Rosa... Deus a guarde d'essa tentação!...—Nenhum d'elles, pois, é digno do hymeneu?—O Hymeneu! Apre! que são muitos. Eu tenho ouvido fallar n'essa pessoa... Inda outro dia a mulher do João Pereira, que tem chinó, estava a fallar mal d'elle. Não póde ser grande pessoa, porque anda mettido com tal mulher...—Pois bem: farei um juramento. Não casarei com o snr. Celibato!—Bonita...—Nem com o snr. Esponsalicio!—Ora, pois.—Nem com o snr. Hymeneu!—Isso é que se chama ter a cabeça no seu logar.—Nem com o snr. Antonio!—Valha-a Deus, menina, valha-a Deus, que tem o passaro na mão, e deixa-o fugir!... Case com o meu Antonio, e verá que pimpona elle a traz!—Fiz voto de morrer solteira. Os meus votos são infalliveis. Serei como as Vestaes.—As bestiaes! Deus a livre d'isso! A menina tem alma, e não póde ser bestial...—O mais que posso é convidar a minha amiga a receber a terna dextra do ditoso Aonio.—Que diz, Rosinha? Parecia-me agora a outra! Onde vos ensinaram esses aranzeis?—Pódes entrar Maria Elisa—disse Rosa, que não podia supportar as caretas que a sua amiga fazia.—Então ella ahi vem com os latinorios... Vou-me embora, com a graça de Deus.—Espere, senhora D. Angelica—disse Maria Elisa com burlesca formalidade.—Muito ha, ditosa irmã do mais ditoso Adonis, que eu suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar succulento das rosadas faces do snr. Antonio José da Silva, vosso mano, e querido meu. Vi-o uma vez. Vêl-o e amal-o foi obra d'um momento. Nunca mais meus olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morpheu. De noite era elle o meu pensamento; de dia o meu pensamento era elle; elle era de dia e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu coração, o nome mais appetitoso da minha lingua, e a lingua mais eloquente da minha alma.—Está douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.—Douda!—disse Elisa—douda d'amor! Cupido, que me varaste o coração de ervada setta, porque não feres o coração de Antonio José?—Está apaixonada por elle...—murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que principiava a acreditar a naturalidade daquella dôr sublime.—Será verdade, Rosinha?—Não vê como ella soluça.Maria Elisa retirava-se com o lenço nos olhos para esconder o riso, na janella.—Ella viu meu irmão?—Viu, no pateo do recolhimento; e desde esse instante falla constantemente no objecto dos seus votos, que é seu irmão.—Coitadinha!... É preciso dizer-lh'o a elle, que não vá a rapariga dar volta ao miôlo.—Diga-lhe algumas palavras animadoras, snr.ª Angelica.—Venha cá, minha menina; a troco d'isso não se afflija, que tudo se ha de fazer pelo melhor, com o favor de Deus...—Não me illuda, senhora! Não ponha mel nas bordas da taça, que tem ao fundo o amargo absyntho! A minha paixão é incuravel como a gôta!—Coitadinha!... por causa da paixão tem gôta! que pena! tão novinha já com gôta.—Com gôta, sim! eu com gôta na primavera dos meus dias!—Pois ella costuma atacar mais no inverno...—Com gôta na aurora da infancia, no crepusculo do amor... Com gôta eu!... por causa de um ingrato Narciso! Miseranda Ecco!—Então o tal Narciso que lhe fez? O Narciso é algum cirurgião que a não soube tratar, pelos modos... Pois, minha filha, não chore. Eu vou já d'aqui fallar com meu irmão, e veremos como se arranja isto do melhor modo. Ponto é que não esteja cá arrumado para a Rosinha...—Cruel rival!—disse (á parte) Elisa, com a melhor das caretas imaginaveis.—Injusta! Eu cedi-t'o, e os deuses sabem que sacrificio fiz cedendo a mão do snr. Antonio!—Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo eu porque não queria casar com meu irmão, snr.ª Rosinha... É uma boa amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos cunhadas... E, com isto, vou-me embora que são horas... adeus...—Vá, mensageira d'amor!—disse Elisa—Propicios céos meus votos abençoem, e os seus desvelos galardoem.Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os espartilhos ás duas azougadas moças.CAPITULO XIIIDous ou tres dias depois (parece-me que foram tres: aquillo de que eu não estou bem certo não affirmo), ás onze horas da manhã, mais minuto, menos minuto, estava á porta da snr.ª D. Rosa Guilhermina Taveira, o snr. Antonio José da Silva limpando o suor, e puxando para o abdomen o cozdo rebelde collête de velludo preto, que lhe marinhava em rofêgos pelo estomago.Arranjadas assim as cousas do seu logar, o negociante puxou a campainha, e perguntou se podia fallar á snr.ª D. Rosa. Responderam-lhe que a menina estava na cama curando uma constipação. Disse que queria fallar á snr.ª D. Maria Elisa, e mandaram-no subir, o que elle fez, puxando, com ambas as mãos, o indomavel collête, que subia a ponto de descobrir o coz das ceroulas, as quaes rebentavam comprimidas pela arquejante barriga de seu dono.Esperou alguns minutos, que lhe não foram penosos, porque os aproveitou mirando-se em um espelho de sala pendurado defronte da sua cadeira. Conversando com a sua imagem, o snr. Antonio perguntou a si proprio se era elle por ventura o venturoso amado que apaixonára a amiga de Rosa a tal ponto que a virtuosa Angelica (apesar da lingua damnada da Anna Canastreira) escrupulisava, não esgotando da sua parte todos os esforços para que elle Antonio José annuisse, como homem e christão que era, ao suspirado casamento.Esta era a primeira parte do monologo do negociante. A segunda, porém, era mais dramatica. O homem tinha pundonor como outro qualquer. Despresado pela filha do arcediago (que Deus tenha em sua sancta gloria) resignára-se, mas não se esquecia do ultraje immerecido. Pensára muito na vingança; mas não sabia com que armas nobres devia vingar-se. Se elle quizesse desforrar-se com deshonra para a sua consciencia, não lhe faltariam occasiões como a que tivera, pouco antes, na qualidade de amigo intimo do curador dos orphãos. Quizesse elle, e Rosa não sahiria do recolhimento. Mas o snr. Antonio José da Silva era um homem honrado, temente a Deus, supposto que peccador, e incapaz de vingar-se vilmente. O desforço, que elle ambicionava, devia ser cavalheiroso, e digno de especial menção no romance, que, trinta annos depois, devia occupar-se da pessoa do snr. Antonio, digna, a todos os respeitos, de fazer gemer os prélos, e dar consumo ao papel das nossas fabricas, interesse duvidoso aos editores, e não sei que migalhas a mim, humilde apologista de todos os Antonios, maiores que o seu seculo, e credores da immortalidade.Era chegada, pois, a occasião d'este appetecido desforço. O negociante era amado, e amado pela intima amiga de Rosa, tão nova e tão gentil como ella. Antonio José da Silva, dispensador de graças do seu munificente coração, prodigalisaria extremos á sua amante ditosa, na presença da despresadaingrata, que se morderia de raiva. Ostentaria caprichosamente os seus ardores de amante e marido no sumptuoso luxo de sua mulher. Rosaficaria levadinha da breca(esta phrase é d'elle genuina) quando não podessehombrear com os calcanhares da outra. Ora aqui está no que pensava o snr. Antonio, durante os cinco minutos que esperou na sala, não lhe esquecendo de conter nos seus justos limites o collête, que parecia de borracha, porque apenas se via livre dos dedos impertinentes de seu dono, saltava logo para o pescoço, deixando mal velado o promontorio das regiões adjacentes, por não dizer sempre barriga, que é uma palavra que me destôa, e fere os ouvidos pudicos do sexo por excellencia.No decurso de cinco minutos, que faziam as duas amigas? Estavam perturbadas pela surpreza de similhante visita.Nem se lembravam já da scena burlesca em que a snr.ª Angelica promettera apiedar seu irmão a favor da delirante Elisa. A vinda inesperada suscitou-lhes a desconfiança de que o snr. Antonio vinha colerico e enfurecido, reprehendel-as da galhofa com que receberam sua irmã, e talvez ameaçal-as de que, por ordem do tutor, Rosa outra vez seria obrigada a recolher-se, e de mais a mais separar-se da sua amiga.A filha de Anna do Carmo não estava doente. Aquelle pretexto era o susto da desconfiança que assaltou a ambas. Ora Maria Elisa, menos timida, ou mais desenvolta, contra a vontade de sua amiga, não duvidou receber a visita do snr. Antonio, e preparava-se para chalacear as suas iras, se elle não viesse ás boas, como era de suppôr, ou ao menos a vaidosa Elisa tinha a sem-ceremonia de vaticinar.Depois arrependeu-se de o mandar subir; e perguntava a Rosa a maneira decente de o despedir, sem ir á sala. N'esta consulta demoraram-se os cinco minutos, e resolveram, por fim, que seria mais discreto ouvil-o, e amacial-o, para que o maldito as não indispozesse com o tutor de modo que as forçassem a uma cruel separação. Elisa, inferior á sua galhofeira coragem, entrou acanhada na sala, justamente no momento em que o snr. Antonio dava o ultimo puxão ao collête, e limpava a terceira camada de suor que lhe envernizava as pandas bochechas.O negociante ergueu-se, himpando, e levou ambas as mãos ao chapéo, que apenas levantou da cabeça meio calva.—Ha de dar licença que me cubra—disse elle—porque venho suado, e sou atreito a catarrhos... Aqui corre o ar deencontro áquella porta, e não é lá das melhores cousas para quem traz os póros abertos.—Esteja a seu bel-prazer, e queira sentar-se—disse Elisa, suspeitando ainda que, depois do brutal cumprimento, viria a trovoada dos brutaes insultos.—Então a Rosinha diz que está constipada?—Bastante enferma. A minha amiga tem uma compleição melindrosissima.—E pouco tino tambem. Quando ella esteve comigo era uma desacautelada; levantava-se do calor da cama, e vinha com o saioto pela cabeça acocorar-se na varanda a brincar com a gata... Diacho da gata! era tão amiga d'ella que não viveu muito depois que a não viu em casa! Ha bichos, que só lhe falta a razão, que no mais parecem mais amoraveis que as proprias creaturas com alma! A boa da gata ia-se pôr á porta do quarto d'ella a miarmiau,miau,miau, e, a final de contas, não queria comer, nem beber, até que appareceu morta no telhado do visinho...—Misera gata! que infeliz morte!—Pois é verdade. Isto veio a respeito de dizer que a Rosinha está constipada. Aquillo a respeito de cabeça não regula lá grande cousa, a fallarmos a verdade.—É uma excellente menina, cheia de virtudes...—Eu não digo menos d'isso; mas de cá se vai a lá. Deixe-a ter mais dous annos, e verá onde vai dar comsigo...—Eu creio que ella saberá conter-se nos honestos limites que lhe são demarcados pela honra, e pelo dever.—Pois Deus a ouça; mas duvido. Pelo que me disse minha irmã, ella traz na cabeça umas tolices que não hão de ter boa sahida. Inda não ha tres mezes que sahiu do recolhimento, e já conhece não sei quantos namoros.—Isso é uma injustiça, snr. Silva. A minha amiga Rosa Guilhermina não tem namoro algum.—Deixe-se d'isso, não a defenda, que eu cá sei tudo. Minha irmã fallou-me n'um tal cadete chamado Liberato, ou Celibato, ou não sei que, e um proprietario que tem o nome arrevezado assim a modo de Apparicio... ou Sponselicio... uma cousa assim... finalmente, oxalá que eu me engane, mas não lhe agouro bem... Emfim, quem mal fizer a cama, mal ha de dormir. A pena que eu tenho é ser ella filha do meu amigo arcediago, que Deus tenha na sua presença, que já lá sabe o bem e o mal que fez... Do mais, deixal-a lá, que o mal se o fizer, para si o faz...—Não se afflija. A minha amiga será digna do bom paeque a morte lhe roubou, e não deshonrará jamais as cinzas paternas.—Pois assim seja. Ora, menina, eu não sou d'esses bigorrilhas que dizem palavras de mel, e sabem d'essescircumloquiosde trapalhadas com que enganam as moças, e, a final de contas, não dizem nada. Eu sou um homem chão... pau é pau, e pedra é pedra. O que sente o coração a bôca o diz, e o que a bôca não diz não sente o coração. Ora aqui está. Os homens entendem-se pelas palavras, e eu gosto de quem não está a fazer uma grande mastigada de palavras bonitas para dizer o que se diz em duas palavras. Eu venho aqui de proposito fallar com a menina, porque minha irmã Angelica foi d'aqui, ha tres dias, e disse-me certas cousas que me buliram no coração. Pelos modos a menina disse-lhe que se lhe não dava de casar comigo...—Eu?!—Não se envergonhe de ter confessado os seus affectos. Eu gosto da franqueza, e a gente muitas vezes perde por fallar de mais e fallar de menos. Á menina bem sei que lhe ha de custar esta conversa; mas, deixemo-nos d'essasbijutariasdo costume, eu estimei muito saber que a menina gostára de mim...—Eu... não disse que...—Bem sei que não disse a cousa assim... Eu sei muito bem que a menina tem uma maneira de dizer as cousas com outras palavras mais discretas; mas o que é verdade diz-se com clareza, e eu sei entender as cousas.Maria Elisa não previa similhante desfecho! A surpreza annullára-lhe por momentos o sestro chocarreiro, e a confusa moça não sabia qual dos partidos devia adoptar, se o da seriedade, se a brincadeira. De mais a mais, a cabeça de Rosa apparecera-lhe n'este momento, entre as duas portadas mal cerradas, e o riso, sua feição caracteristica, luctou cruelmente com a seriedade zombeteira, que ella queria sustentar.—Eu, a fallar-lhe a verdade—continuou o snr. Antonio, persuadido que o silencio de Elisa era o natural pudor dos dezesete annos—a fallar-lhe a verdade, pela terceira vez que a vejo, não desgosto da sua pessoa. Quando a vi na grade do recolhimento fiquei sympathisando muito com as suas maneiras, e gostei de a ouvir fallar, porque eu não sou homem de estudos, mas sei dar valor ás cousas, e gosto de quem saiba dizer duas palavras.—Ditosa mulher aquella que viver sujeita ao seu dominio!Os vôos do seu espirito não acharão fechados os vastos horisontes do talento, nos penosos dissabores domesticos.—Que é? agora não percebi bem...—Dizia eu que será uma felicidade pertencer a v. s.ª—Felicidade... isso vai da maneira de vêr as cousas cada um. O que lhe posso desde já prometter é que não hei de dar-lhe penas.—A mim?... Creio que não dará...—Póde estar certa d'isso. Eu sei como se tratam as pessoas. A gente póde gosar a sua riqueza sem andar á compita com as grandezas dos fidalgos. Isso é que é asneira. Os fidalgos arruinam-se, e vivem por ahi sabe Deus como, atraz de mim e dos outros, que lhes damos a juro o nosso dinheiro, para as mulheres gastarem em velludos, assembleias, e theatros. Dizia o meu amigo arcediago, que quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma. É cá uma ideia que eu aprendi de cabeça, e acho isto bem dito:quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma.—É um axioma.—Que é?—É um axioma, uma maxima, uma eterna verdade.—Isso é. Um negociante é um negociante, e um fidalgo é um fidalgo. Andam ahi de carruagens uns tres cá da minha classe, que querem hombrear com os fidalgos, e mais hoje ou mais amanhã verão onde vai parar o negocio.—Pois v. s.ª abomina a carruagem?—É cousa em que nunca andei. Parece-me que aquillo não ha de dar grande saude ao estomago! Tombo para aqui, tombo para acolá, quem fôr nutrido como eu ha de por força soffrer dos bofes.—Engana-se... A agitação, causada pelo balanço da carruagem, é saudavel.—Devéras?! acho que não!—Queira acreditar-me. Eu tenho lido varios authores de medicina, que recommendam o uso da carruagem ás pessoas nutridas, como meio de evitar as apoplexias.—Ah! a menina leu isso nos livros?—Sim, senhor, e como pessoa que se interessa no seu bem-estar, recommendo-lhe o uso da carruagem.—E o carroção não fará o mesmo effeito?—Creio que não: o carroção é mais moroso, menos agitado, mais impertinente nos solavancos.—Pois eu estava resolvido a mandar fazer um carroção,porque tenho uma junta de bois na minha quinta de Lordello, e, visto o que me diz...—Parecia-me que v. s.ª deveria possuir carruagem, já que os bens da fortuna lh'o permittem.—Lá isso tenho eu para mais; mas que diriam os meus visinhos se me vissem de carruagem? Eram capazes de me apupar os tratantes!—Deixe-se d'isso, senhor Silva. As suas commodidades são mais attendiveis que a critica estupida dos seus visinhos. Ora diga-me: se casasse com uma senhora debil, que precisasse de passear de carruagem para entreter o espirito nas delicias do campo, v. s.ª não lh'a compraria?—Isso comprava; ponto é que minha mulher me fosse leal, e precisasse d'ella, porque lá, por luxo, acho que era uma asneira sustentar uma parelha de machos, e dois criados. E não será melhor uma cadeirinha, ou uma liteira?—Isso é antiquissimo!... De que serve o dinheiro, se o não fazemos servir aos nossos prazeres?—Diz bem; mas sempre é bom a gente gastar menos do que lhe rende o negocio.—Concordo; mas acho justo que se engrandeça a gente tanto quanto é possivel.—Pois a tal respeito fallaremos mais devagar. Agora é necessario que tratemos da nossa união. Eu estou disposto a casar com a menina, já que sympathisamos um com outro, segundo me disse minha irmã. A menina faz-lhe conta casar comigo?—Acha-me digna de si?—Eu que lhe pergunto se quer casar é porque sympathiso com a menina.—Sabe que eu não sou rica?—Sei que não tem nada de seu. Conheci muito bem seu pae, que era negociante, e quebrou com honra. Eu não lhe pergunto se é rica. Rico sou eu, e tenho de sobra para que nos não falte nada. O que eu quero é quem governe a minha casa, e herde os meus bens por minha vontade, porque o que tenho não quero que vá parar a sobrinhos. Se lhe serve, o que ha de fazer-se ao tarde faça-se ao cedo. Não tenho mais nada a dizer-lhe; pense no negocio, e responda-me breve...—Eu responderei...—Está dito tudo. Dê cá recados á doente, e saiba que fico sendo seu amigo.O rico mercador de pannos retirou-se. D. Rosa veio a rir-se, ao encontro de Elisa, e, vendo-a séria, perguntou-lhe:—Tu não te ris, Elisa?A litterata respondeu com o silencio e a seriedade.—Em que pensas tão trombuda?—replicou Rosa.—Em que penso?... eu sei cá em que penso!... Acho que não penso!...—Aposto que te serve o noivo?!—Estás a caçoar, Rosa!ENTRE-PARENTHESISOh benemerita philosophia! quão sublimes effeitos a humanidade experimenta da tua sisuda influencia!Oh candida filha do talento, irmã gemea da independencia, neta de Catão, e parenta proxima dos Catões da minha terra, oh patusca philosophia, que sancto prestigio tu exerces nas almas, desde que Diogenes arremessou a escudela que lhe não servia de nada!Oh philosophia das mulheres, tu és sobre todas a melhor das philosophias! A teu respeito poderia eu escrever este capitulo XIII, que ficaria sendo um capitulo de abalo no espirito publico, mas, não tenho agora vagar, nem me lembra nada que se tenha escripto a respeito da philosophia das mulheres.Apesar da minha ignorancia n'este ramo (unico em que não sou profundo) tentarei, indulgentes leitores, iniciar-vos na philosophia de Maria Elisa, que foi, honra lhe seja, a mais fervorosa sacerdotisa do culto.Nada mais boçal, mais rude, mais soez, mais detestavel que a figura, o abdomen, o palavriado, o suor, e o collete, do senhor Antonio José da Silva.D'accordo.Nada mais repulsivo que os seus tres papos, que as compressas dos colleirinhos reduziam a seis rofêgos, parecidos com o intestino mesenterio do cevado, que é a mais saborosa das tripas do tal animal (seja dito de passagem).Nada mais displicente que os seus olhos azues, abertos a canivete, na franja d'uma pequena testa quadrada.Nada mais abominavel que os seus quatro dentes em anarchia, impellindo, emparceirados com a lingua, perdigotosás legiões, que orvalhavam, a quatro palmos de distancia, a physionomia dos circumstantes.Nada mais irrisorio que a supina ignorancia das suas sandices amorosas, á mistura com anexins fastidiosamente vulgares, e momices mais ou menos grutescas, mas sempre ridiculas ou nauseabundas. E os callos, e os joanetes? tudo horrivel!D'accordo.Mas o dinheiro do senhor Antonio José da Silva! o dinheiro, atilados leitores, vêde bem que se trata de dinheiro, dinheiro em abundancia, placas de ouro e prata, cousas torpes e vis, confessemos que sim, mas cousas com que se compram as carruagens, os velludos, os setins, os jantares, os bailes, a consideração, os ouvidos, os olhos, as linguas, as pennas, as eloquencias, com que tudo se compra inclusivamente os romances, illustradas leitoras, e intelligentes bachareis!ODINHEIRO!Vós não sabeis o que são essas oito letras, que só ellas valem as vinte e cinco do alphabeto! Vós não sabeis que eu conheço quatro, dez, trinta alarves d'uma estupidez fabulosa que escondem n'uma luva branca a mão, que deveria aguçar brochas, e palmilhar sapatos; que encostam aos coxins das carruagens os lombos musculosos que a natureza affeiçoára para as asperezas do costal; que mascaram a hediondez do vicio ignaro, o peor de todos, com o riso alvarmente cynico de todos os homens endinheirados, que é um riso particular.Esses taes são tudo isso e mais alguma cousa; e eu sou o primeiro a sorrir-lhes urbanamente, com meiguice, com mimo até, folgo que me apertem a mão, que me chamem amigo, embora depois se riam de mim, folgo e ennobreço-me d'essa esmola de consideração, porque, se, em minha consciencia, reconheço que são elles os devassos, os torpes, os ignorantes, os incorrigiveis, a minha illustrada cabeça diz-me que eu ámanhã serei apedrejado, na praça publica, se esses taes passarem por mim sem me cortejarem, e retirarem a sua mão da minha.ODINHEIRO, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra, tres syllabas distinctas que fazem o unico deus verdadeiro d'este paganismo ignominioso em que medram os vicios da sociedade. Tres syllabas! trindade veneranda que representa o mytho de todas as religiões, em cada uma das quaes o profundissimo Dupuis achou uma trindade, e não descobriu esta, que eu tenho a honra de evangelisar-vos.ODINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio José da Silva que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar a Eva da viella do Laranjal.
Anna do Carmo, quando pensava em escrever a sua filha, dizia-lhe o coração que a não procurasse, porque seria recebida com má vontade. Fallava-lhe assim o coração, porque n'aquelle peito não batia o coração de mãe.
E não.
A amante do arcediago vira, sem lagrimas, levar aquella menina do seu ventre para os braços mercenarios de uma ama de expostos. Não estendeu os seus, supplicando que lhe não roubassem a filha da sua alma, e da sua deshonra. Não pediu ao pae desnaturado que lh'a désse em compensação da renuncia, que ella fizera da sua dignidade. Não saltou, esvaída de sangue, fóra do leito, procurando resgatar a creancinha que deveria dar-lhe em amor de filha o premio da sua ignominia de amante.
Viu-a ir impassivel! Nunca lhe deu que pensar o destino da creança. Nunca sentiu o remorso do infanticidio. Nunca se lembrou que a desgraçada menina, que viu a chorar com frio e fome nas lages da rua, poderia ser a sua filha.
Os annos correram. O arcediago lançou um olhar melancólico ao futuro. Ambicionou uma herdeira, que fruisse o grosso cabedal que amontoava. E lembrou-se de ter assignalado, cinco annos antes, aquella engeitada.
Procurou-a com zêlo de pae; encontrou-a entre as meninas desamparadas, pallida de fome, e vestida de farrapos, apresentou-a a sua mãe, e sua mãe encarou-a serenamente, deu-lhe um beijo frio, e aconselhou o pae que a mandasse para um collegio.
Quando o pae extremoso, cheio de saudades, mandava buscar sua filha de seis annos, com os seus lindos cabellos louros, e os seus labios radiosos de innocentes sorrisos de gratidão, Anna do Carmo achava enfadonhas as repetidas visitas,e zangava-se asperamente se a menina batia com a faca no prato, ou pedia doces para dar ás suas companheiras.
Espanta-vos esta dureza d'alma? Entrai na enfermaria das que vão ser mães, debaixo das telhas da Misericordia. Reparai n'esta, que prepara risonhamente o cueiro e a faxa que ha de levar seu filho ao monturo dos filhos sem mãe. Olhai aquella que jura que o seu seio não tem nutrição para que a não obriguem a crear o seu filho. Vêde além outra, que crava as unhas no menino, que tem ao peito, para que os dolorosos vagidos da creança accusem a fome, e a seccura d'aquelle seio, que tem dentro morto o coração.
«Diante d'este quadro hediondo, tenho duvidado do amor materno! Compungido por esta verdade atroz, tenho collocado a hyena n'um grau de sensibilidade superior á mulher!» dizia-me um illustrado professor de medicina2, que me expunha estes lances com as lagrimas nos olhos.
Não duvideis, pois, mães! Anna do Carmo chegaria sua filha ao seio; mas aquelle sangue não se alvoroçava nas arterias. Tocar-lhe-ia os labios com os seus, mas aquelle beijo fôra sempre a banal formalidade, que se barateia por ahi em cada cara que vos saúda.
Sobejavam-lhe razões para recear o desprêso da filha. A dura experiencia dissera-lhe que o castigo sobre a terra era infallivel.
Se aquella mulher tivesse sido a mãe d'aquella menina, sentiria um estimulo superior impellindo-a para ella. Iria, coberta de farrapos, lançar-se nos braços de sua filha, radiante de velludos e brilhantes. Iria, sem pejo, na presença de todo o mundo abraçar essa filha, com a certeza de que Rosa exclamaria na presença de todo o mundo: «Esta desgraçada mulher é minha mãe!» Pediu que lhe escrevessem uma carta; mas essas poucas palavras, que parecem o enigma d'uma grande dôr, nem suas eram. Foi uma cabeça fria, e um coração estranho, que as dictou; porque, na alma d'ella, estava a irresolução gelada, o presagio do desprêso, o espinho da consciencia, precursor d'um grande castigo.
Quando recebeu, como resposta á sua carta, o silencio, e quatro cruzados novos, Anna do Carmo sentiu-se assaltada pelo orgulho que não era orgulho de mãe. Era um rancor, que reagia ao desprêso, uma altivez que caracterisa as almas pequenas, e não essa nobre independencia, que nos mandaatirar á cara do falso bemfeitor uma esmola, quando nos não é delicadamente dada como quitação d'uma divida.
Foi ella quem repelliu a esmola; mas não foi ella quem redigiu o bilhete que acompanhava a remessa. Por sua vontade, aquelle bilhete devia ser um insulto e uma ameaça; mas a pessoa que o escrevera previu que a mãe de Rosa seria brevemente uma mendiga, e precisaria de humilhar-se a estranhos, por ter sido soberba com sua filha.
Rosa Guilhermina meditou aquelle bilhete, e sentiu em si uma transformação repentina.
Ha pouco ainda, teve vergonha de declarar á sua amiga que sua mãe existia, e vinha pedir-lhe uma esmola; e agora é ella que sente a dura precisão de revelar a Elisa todo o seu segredo.
Elisa ouviu-a, e reprehendeu-a da inconfidencia, que a não lisongeava nada. Depois, aconselhou-a que desse uma mesada a essa pobre mulher, se a não queria receber em casa na qualidade de mãe.
Rosa optou pela mesada, e escreveu immediatamente uma carta a sua mãe com a direcção que lhe fôra indicada. Esta carta chegou nos assomos freneticos de Anna do Carmo. Sahiu com a carta para que lh'a lêssem: ouviu-a cada vez mais colerica, supposto que as phrases fossem brandas, e carinhosas. A offerta da filha era mais uma boa mesada, que permittisse a decencia de sua mãe. Anna tomou a carta com arremêsso, rasgou-a, e disse á portadora:
«Diga a essa desavergonhada que não preciso de suas mesadas; e que, se torna a mandar aqui alguem, que atiro pelas escadas abaixo quem cá vier... Pegue lá... dê-lhe a carta rasgada.»
D. Rosa, quando ouviu similhante resposta, voltou-se para a sua amiga, como quem pede um conselho:
—Não tens mais passo algum a dar—disse Elisa.—Mulher que assim responde não é tua mãe: isso é uma impostora! Faz de conta que este incidente não veio perturbar a nossa felicidade... Será tua mãe: mas só te conhece agora, que és rica, e ella pobre. Tal mulher não é digna de chamar-te filha!... Que lhe deves tu? O nascimento? Grande favor!... Se teu pae não tivesse esta riqueza, que te deixou, o que serias tu? Uma filha sem mãe, abandonada de todos, e despresivel aos olhos da propria que te atirou ao mundo como quem atira ao chão as rosas murchas, que lhe serviram de prazer e ornato!...
Quer fosse o estylo assoprado de Maria Elisa, quer fossea negação completa do coração de Rosa a essa estranha mulher, que lhe chamava filha, o certo é que os escrupulos e temores desappareceram, e o importuno successo não impressionou muitos dias o espirito da leviana moça, que se demorava pouco nas mesquinharias d'este globo.
O rapido desvanecimento das ideias funebres do caso, deve-se á visita da senhora Angelica que não veio mais cedo por ter estado ás portas da morte com um catarrho, que lhe cahira nos bofes, como ella se explicava subindo as escadas.
—A snr.ª D. Angelica por aqui!—disse Rosa descendo a recebel-a.
—Deixemo-nos dedom. Cada qual é como cada um. Eu cá sou filha de negociante, e não quero essas trapalhadas da fidalguia. Então, como passa a minha menina?
—Muito boa, e a snr.ª Angelica doentinha, não é assim?
—Deus louvado, vou melhor dos bofes, mas, acho que tenho aqui no costado, salvo tal logar, um lobinho, que hei de queimar com a massa.
Elisa tinha o lenço na bôca, para suffocar o riso.
—Então, esta menina é que é a sua amiga?
—Tenho a gloria de merecer tal nome—respondeu Elisa.
—Por muitos annos e bons... Então vmc.ede quem é filha, ainda que eu seja confiada?
—Meus paes ceifou-os a dura fouce da parca.
—A Parca? não conheço essa senhora. Sua mãe chama-se a snr.ª Parca?
—Não, senhora—atalhou Rosa, porque a sua amiga não podia responder, suffocando com uma gargalhada.—A mãe d'esta menina, e tambem o pae, morreram já.
—Ah! sim? pois Deus lhes falle n'alma, e elles a abençoem no céo, que é bem galantinha... Porque não vai ser freira, minha menina?
—As almas livres não querem ferros. Umas nascem para o culto dos templos, outras vêem o altar de Deus na natureza.
—Ella que diz?—perguntou a velha a Rosa.
—Diz que não nasceu para freira.
—Não diga isso, menina, que é peccado. Todos nascemos para o serviço de Deus, e deve ir para carmelita, que é uma ordem muito apertada, e ganha-se o céo, com a pobreza, e a paciencia.
—O céo ganha-se com os vôos do espirito.
—Que é? os avôs do esprito? Não creia n'isso; nas carmelitasnão ha espritos ruins... Ri-se? ora queira Deus que não chore ainda... Quem lhe disse que andavam espritos nas carmelitas? Olha as sanctinhas! coitadas!... É cousa que não consta é esprito nas carmelitas...
—Isso creio eu; mas por isso mesmo é que a materia me não convida. O grande espirito é Deus.
—Jesus! que heresia! A menina parece-me douda!...
—Não é, não, snr.ª Angelica... É porque ella falla sempre em alto estylo...
—Estylo!... que é isso de estylo!...
—A sua linguagem é mais sublime que a costumada entre pessoas sem luzes.
—Sem luzes!... Eu não vos entendo, raparigas! Vmc.esaprenderam o latim?
—Não, minha senhora—disse Elisa—a nossa lingua é portugueza, e as nossas phrases tem o toque da superioridade, que nem todos os espiritos alcançam!...
—E ella a dar-lhe com os espritos!... Parecem-me doudas! Quem vos ensinou esse palavriado de latinorios e berliques-berloques que ninguem entende? É isso o que vós aprendeis no recolhimento? Deixai-vos d'essas tolices, e fallai como a outra gente da nossa laia.
—Da nossa?—disse Elisa—Não lisongeia a miscellanea.
—Miscellanea!... quem é a miscellanea? Eu não a entendo!... Ella que diz, Rosa?
—Diz que as pessoas instruidas...
—Pessoas estruidas, Deus nos livre d'ellas... Olha como ella se ri!... Esta rapariga tem aduella de menos, não tem, Rosinha?
—Tem aduella de mais... É uma senhora muito esperta, sabe francez, e faz poesias.
—Eu a arrenego! pois ella é como os homens, que vão alli berrar debaixo das janellas das freiras, a botar versos para cima?
—É verdade... Eu faço versos; a musa favorece-me: o Pégaso vôa comigo á apolinea fonte, e converso com os deuses na Castallia.
—Ella parece lá d'esses reinos estrangeiros!—disse, torcendo o nariz, a snr.ª Angelica.
—Sou lusitana, não nego a patria. Nasci nas margens do patrio Douro.
—Nasceu no Douro? Então isso como foi? Sua mãe teve-a no rio? Vinha, talvez no barco... pobre mulhersinha!... E ella a rir-se!... Ella não está boa!...
—Desaperta-me, Rosa, que eu arrebento—exclamou, suffocada de riso, Elisa.
—Eu não n'o disse? Eu logo vi que ella não estava boa!... Isto é cousa má que se lhe metteu no corpo... Dizem que o demonio ás vezes falla de modo que só o entendem os padres. Quer a menina que eu vá chamar-lhe um fradinho de muita virtude, para lhe lêr os inzorcismos?
—Minha alma detesta o frade.
—É frade de testa... e de cabeça... é muito sabio... Eu vou buscal-o...
A snr.ª Angelica atirava com a côca da mantilha para a cabeça, e preparava-se para sahir em cata do frade, quando Rosa, perdida tambem com riso, lhe acenou que não fosse.
A parvoice sinceramente estupenda estava pintada na indescriptivel physionomia da velha.
—Sabeis que mais? não me entendo comvosco! Não sei o que pareceis! Ou vós estaes doudas, ou a graça de Deus vos desamparou!
—Venha cá, snr.ª Angelica, fallemos sérias... Eu sou sua amiga, e Maria Elisa tambem o é. Nenhuma de nós está vexada do espirito mau... é porque vmc.enão nos entende, e pensa que a nossa linguagem não é do mundo dos mortaes. Eu sou a mesma Rosa, muito sua amiga, e sinto immenso prazer em vêl-a n'esta sua casa, e quero que venha cá muitas vezes.
—Agora já entendo o que me diz... A gente deve fallar como falla todo o mundo. O latim é lá cousa dos prégadores, e dos doutores. Uma mulher em sabendo a ladainha e aMagnifica, sabe o latim preciso para a salvação... Com que assim, minha Rosinha... Como se dá por aqui?
—Muito bem.
—E a outra menina?
—Plenamente jubilosa.
—Ella lá torna com o berzabum dos latinorios!... Valha-a Nossa Senhora!
—Ó Maria Elisa, falla em baixo estylo... humanisa-te.
—Repugna-me. Não sei manchar a lingua de iguaria indigna.
—Que diz ella? que eu sou indigna?
—Não, senhora; diz que não póde fallar como nós.
—Pois então que esteja calada... Ó Rosinha, eu queria-lhe uma palavra em particular.
—Pois sim; iremos para o meu quarto... eu venho já, Elisa.
—Vai... mas guarda-te do filtro da Gorgona fatal.
—Ella lá fica com os gorgues, gorgues!... má mez para ella!—murmurou a snr.ª Angelica.
—Ora venha cá, Rosinha...—disse a snr.ª Angelica, pendurando a mantilha na porta, e acocorando-se n'um tapete, que ella suppoz ser feito para isso—Sente-se ao pé de mim.
—Eu não gosto d'essa posição, que é incommodativa. Sento-me n'esta cadeirinha.
—Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que não quero que nos ouça a sua amiga. Deus me perdôe, mas não engraço com os modos d'ella... Aquillo não ha de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que presta aquella rapariga?
—De muito; é a minha amiga do coração; conheço-a ha dois annos; quero-lhe como a ninguem, e basta.
—Está dito... Pelo que vejo, aqui não ha rei nem roque, e quem governa é vmc.e, não é verdade?
—É, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.
—Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos não vão bons para as donzellas. Deus me perdôe se pecco, mas o diabo anda ás soltas entre as raparigas desde que os francezes vieram lá do fim do mundo ao Porto. No meu tempo não se ouvia dizer que uma rapariga namorava este nem aquelle. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa, traga-lhe o ôlho em cima, senão, quando mal se precata, os peralvilhos... nem pensal-o é bom!... E más linguas? isso então é um louvar a Deus! Pois aquella grande bebeda da mulher do retrozeiro, que mora defronte de mim, não foi dizer ao meu Antonio que eu, quando era moça... em nome do padre, e do filho, e do espirito sancto... Cal-te bôca... Olhe que sempre! Ninguem diga que está bem! Uma desavergonhada assim! Estar eu mansa e quêda em minha casa, amando e servindo a Deus como posso, e nem ja como devo, e vai senão quando aquella lingua damnada não teve o ousio de fallar da minha conducta, quenão teve nunca tanto como isto que se lhe pozesse (mostrando-lhe a ponta do dedo)! Ahi está por que Deus não manda chuva, e mandou a praga dos francezes para nosso castigo... é por causa da Anna Canastreira, e outras que taes... Aquella grande regateira! Atrever-se a pôr a bôca na minha honra! E ella? A porca, que andou... Cal-te bôca... E tem aquella de fallar em mim, que fui sempre como as estrellas, e que nunca houve na rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o ôlho ao congregado, nem ao conego Anselmo! Inda a lingua se lhe tolha, e descanso não tenha ella de dia nem de noite sem me pedir perdão...
—Então é isso o que precisa dizer-me, snr.ª Angelica?
—Inda não chegamos lá, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as donzellas não estão seguras com esses melcatrefes que por ahi andam d'oculos, e polainas, que me parecem mesmo o demonio tentador!...
—Elles tentam-na, snr.ª Angelica?
—A mim? para cá é que elles vem bem!.. Eu os arrenego! Assim que os vejo ao longe, rezo o credo em cruz...
—E perseguem-na os peralvilhos?
—Hão de ter bom olho...! Elles só perseguem as que lhe dão trela. A mim? isso sim... Inda não ha muito que um mariola me puxou pela mantilha, ao sahir da Capella das Almas, e eu voltei-me para elle... não lhe digo nada... apenas me viu, aquillo foi como se lhe désse com um sedeiro na cara, voltou logo o focinho. Está-se a rir, Rosinha? É como lhe digo. Os homens, em vendo má cara nas mulheres, não tenha medo que elles se atrevam... E mais eu agora já não sou o que era... estou muito acabada... estes malditos lobinhos, que me vem todos os annos ao costado, fazem-me de fel e vinagre. D'antes quando eu era a flor das donzellas, isso é que se podiam vêr os peraltas com o nariz no ar por minha causa... Pois, olhe, viam-me com os olhos e comiam-me com a testa... Uma rapariga quer-se honestinha; e quanto mais vamos inda peor é. Está dito... agora vamos começar o nosso arranjo.
—O nosso arranjo?! Que arranjo temos nós, snr.ª Angelica?
—Nada de pressa... ha muito tempo para morrer... Ora vamos, Rosinha... inda está dos mesmos humores de ha dois annos?
—Que humores? não me lembra quaes eram...
—A respeito do seu matrimonio com o meu Antonio.
—Ah! nem me lembrava essa brincadeira... Sim, minhaboa senhora, ainda estou, e estarei, resolvida a não casar com o snr. Antonio.
Maria Elisa, pé ante pé, viera collocar-se atraz de Angelica fazendo-lhe carantonhas, que obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por não poder conter o riso.
—Com que então está na mesma!... Ora, se Deus quizer, a sua cabecinha ha de mudar. Pense bem no caso, Rosinha. Lembre-se que meu irmão não sabe o que tem de seu. Lá, se é velho, olhe que faz dar a agua pela barba aos novos. Não vê aquellas côres, que elle tem? Olhe que alli onde o vê, inda tem muita força. Come-lhe bem, e está gordo como um tanho...
—Bem sei que está gordo; mas que me importa a mim a gordura de seu irmão? Como não quero vendel-o a pêso...
—Isso não é resposta de menina honesta, Rosinha. Não se ponha a rir... Acho que já tem as manhas da sua amiga. Foi ella que lhe disse que não quizesse o meu Antonio? Tomára-o ella.
—Pois offereça-lh'o.
—Que se lave... Olha a labisgoia! Se meu irmão se via com aquella tartamuda, que ninguem a entende, entisicava, meu querido irmão do meu peito! E ella tem legitima?
—Quem, a minha amiga? é muito rica, por morte de duas tias, que são pouco mais ou menos da sua idade, snr.ª Angelica.
—Da minha idade? Então ainda podem viver muito, e tarde virá a legitima...
—Quantos annos tem, snr.ª Angelica?
—Quem, eu? eu lhe digo... Eu sou mais velha que o meu Antonio, que é da idade do Joaquim Antunes, casado com a Theresinha dos Loios, e que se lembra de ouvir dizer a sua mãe que o meu Antonio era da idade do snr. Joaquim, e eu sou da idade da snr.ª Brizida, que dizia minha tia Aniceta que nascera ao mesmo tempo, e se baptisára no mesmo dia com o Thimoteo, que ninguem ha de dizer a idade que tem.
—É o mesmo que acontece a seu respeito, depois da sua conta, snr.ª Angelica.
—Pois é verdade; eu o que tenho é estar acabada; mas meu irmão está gordo e fero como sempre o conheci. Quizesse elle casamentos que lhe não faltavam.
—Pois, snr.ª Angelica, sinto muito dizer-lhe que não me sinto deliberada a casar com seu irmão, e que provavelmenteficarei solteira, porque não tenho vocação para o casamento. Acho-me em extremo inclinada ao celibato.
—Quem é esse Celibato? Olhe lá que não vá ser algum pandilha que lhe quer pilhar a legitima!... Eu não conheço esse snr. Celibato... é negociante?
—Nada; é um cadete...—disse Rosa mordendo o riso nos beiços.
—Ah! um cadete, chamado Celibato... Conheço muito bem; ouvi fallar n'elle... é um grande tratante. Não queira esse bigorrilhas.
—Ah! que malvado! Eu não sabia que o snr. Celibato José...
—É verdade, Celibato José... já me esquecia...
—Da Cunha...
—Sim, sim... da Cunha; é o mesmo, tal e qual! Ora vê como eu lhe vali, Rosinha?
—Agradecida, minha amiga. Detesto esse tyranno! Guardarei meu coração para outro esponsalicio...
—Esponsalicio! parece-me que conheço esse snr. Esponsalicio...
—É um rico proprietario...
—Enganaram-na, Rosinha. Esse Esponsalicio...
—Da Costa...
—É o mesmo... louvado seja Deus, que me trouxe aqui!... Esse Esponsalicio da Costa é um traficante, que enganou a filha d'uma minha amiga, e que diz á bôca cheia que não quer casar com nenhuma. Não caia em lhe receber palavra de casamento, Rosa... Deus a guarde d'essa tentação!...
—Nenhum d'elles, pois, é digno do hymeneu?
—O Hymeneu! Apre! que são muitos. Eu tenho ouvido fallar n'essa pessoa... Inda outro dia a mulher do João Pereira, que tem chinó, estava a fallar mal d'elle. Não póde ser grande pessoa, porque anda mettido com tal mulher...
—Pois bem: farei um juramento. Não casarei com o snr. Celibato!
—Bonita...
—Nem com o snr. Esponsalicio!
—Ora, pois.
—Nem com o snr. Hymeneu!
—Isso é que se chama ter a cabeça no seu logar.
—Nem com o snr. Antonio!
—Valha-a Deus, menina, valha-a Deus, que tem o passaro na mão, e deixa-o fugir!... Case com o meu Antonio, e verá que pimpona elle a traz!
—Fiz voto de morrer solteira. Os meus votos são infalliveis. Serei como as Vestaes.
—As bestiaes! Deus a livre d'isso! A menina tem alma, e não póde ser bestial...
—O mais que posso é convidar a minha amiga a receber a terna dextra do ditoso Aonio.
—Que diz, Rosinha? Parecia-me agora a outra! Onde vos ensinaram esses aranzeis?
—Pódes entrar Maria Elisa—disse Rosa, que não podia supportar as caretas que a sua amiga fazia.
—Então ella ahi vem com os latinorios... Vou-me embora, com a graça de Deus.
—Espere, senhora D. Angelica—disse Maria Elisa com burlesca formalidade.—Muito ha, ditosa irmã do mais ditoso Adonis, que eu suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar succulento das rosadas faces do snr. Antonio José da Silva, vosso mano, e querido meu. Vi-o uma vez. Vêl-o e amal-o foi obra d'um momento. Nunca mais meus olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morpheu. De noite era elle o meu pensamento; de dia o meu pensamento era elle; elle era de dia e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu coração, o nome mais appetitoso da minha lingua, e a lingua mais eloquente da minha alma.
—Está douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.
—Douda!—disse Elisa—douda d'amor! Cupido, que me varaste o coração de ervada setta, porque não feres o coração de Antonio José?
—Está apaixonada por elle...—murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que principiava a acreditar a naturalidade daquella dôr sublime.
—Será verdade, Rosinha?
—Não vê como ella soluça.
Maria Elisa retirava-se com o lenço nos olhos para esconder o riso, na janella.
—Ella viu meu irmão?
—Viu, no pateo do recolhimento; e desde esse instante falla constantemente no objecto dos seus votos, que é seu irmão.
—Coitadinha!... É preciso dizer-lh'o a elle, que não vá a rapariga dar volta ao miôlo.
—Diga-lhe algumas palavras animadoras, snr.ª Angelica.
—Venha cá, minha menina; a troco d'isso não se afflija, que tudo se ha de fazer pelo melhor, com o favor de Deus...
—Não me illuda, senhora! Não ponha mel nas bordas da taça, que tem ao fundo o amargo absyntho! A minha paixão é incuravel como a gôta!
—Coitadinha!... por causa da paixão tem gôta! que pena! tão novinha já com gôta.
—Com gôta, sim! eu com gôta na primavera dos meus dias!
—Pois ella costuma atacar mais no inverno...
—Com gôta na aurora da infancia, no crepusculo do amor... Com gôta eu!... por causa de um ingrato Narciso! Miseranda Ecco!
—Então o tal Narciso que lhe fez? O Narciso é algum cirurgião que a não soube tratar, pelos modos... Pois, minha filha, não chore. Eu vou já d'aqui fallar com meu irmão, e veremos como se arranja isto do melhor modo. Ponto é que não esteja cá arrumado para a Rosinha...
—Cruel rival!—disse (á parte) Elisa, com a melhor das caretas imaginaveis.
—Injusta! Eu cedi-t'o, e os deuses sabem que sacrificio fiz cedendo a mão do snr. Antonio!
—Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo eu porque não queria casar com meu irmão, snr.ª Rosinha... É uma boa amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos cunhadas... E, com isto, vou-me embora que são horas... adeus...
—Vá, mensageira d'amor!—disse Elisa—Propicios céos meus votos abençoem, e os seus desvelos galardoem.
Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os espartilhos ás duas azougadas moças.
Dous ou tres dias depois (parece-me que foram tres: aquillo de que eu não estou bem certo não affirmo), ás onze horas da manhã, mais minuto, menos minuto, estava á porta da snr.ª D. Rosa Guilhermina Taveira, o snr. Antonio José da Silva limpando o suor, e puxando para o abdomen o cozdo rebelde collête de velludo preto, que lhe marinhava em rofêgos pelo estomago.
Arranjadas assim as cousas do seu logar, o negociante puxou a campainha, e perguntou se podia fallar á snr.ª D. Rosa. Responderam-lhe que a menina estava na cama curando uma constipação. Disse que queria fallar á snr.ª D. Maria Elisa, e mandaram-no subir, o que elle fez, puxando, com ambas as mãos, o indomavel collête, que subia a ponto de descobrir o coz das ceroulas, as quaes rebentavam comprimidas pela arquejante barriga de seu dono.
Esperou alguns minutos, que lhe não foram penosos, porque os aproveitou mirando-se em um espelho de sala pendurado defronte da sua cadeira. Conversando com a sua imagem, o snr. Antonio perguntou a si proprio se era elle por ventura o venturoso amado que apaixonára a amiga de Rosa a tal ponto que a virtuosa Angelica (apesar da lingua damnada da Anna Canastreira) escrupulisava, não esgotando da sua parte todos os esforços para que elle Antonio José annuisse, como homem e christão que era, ao suspirado casamento.
Esta era a primeira parte do monologo do negociante. A segunda, porém, era mais dramatica. O homem tinha pundonor como outro qualquer. Despresado pela filha do arcediago (que Deus tenha em sua sancta gloria) resignára-se, mas não se esquecia do ultraje immerecido. Pensára muito na vingança; mas não sabia com que armas nobres devia vingar-se. Se elle quizesse desforrar-se com deshonra para a sua consciencia, não lhe faltariam occasiões como a que tivera, pouco antes, na qualidade de amigo intimo do curador dos orphãos. Quizesse elle, e Rosa não sahiria do recolhimento. Mas o snr. Antonio José da Silva era um homem honrado, temente a Deus, supposto que peccador, e incapaz de vingar-se vilmente. O desforço, que elle ambicionava, devia ser cavalheiroso, e digno de especial menção no romance, que, trinta annos depois, devia occupar-se da pessoa do snr. Antonio, digna, a todos os respeitos, de fazer gemer os prélos, e dar consumo ao papel das nossas fabricas, interesse duvidoso aos editores, e não sei que migalhas a mim, humilde apologista de todos os Antonios, maiores que o seu seculo, e credores da immortalidade.
Era chegada, pois, a occasião d'este appetecido desforço. O negociante era amado, e amado pela intima amiga de Rosa, tão nova e tão gentil como ella. Antonio José da Silva, dispensador de graças do seu munificente coração, prodigalisaria extremos á sua amante ditosa, na presença da despresadaingrata, que se morderia de raiva. Ostentaria caprichosamente os seus ardores de amante e marido no sumptuoso luxo de sua mulher. Rosaficaria levadinha da breca(esta phrase é d'elle genuina) quando não podessehombrear com os calcanhares da outra. Ora aqui está no que pensava o snr. Antonio, durante os cinco minutos que esperou na sala, não lhe esquecendo de conter nos seus justos limites o collête, que parecia de borracha, porque apenas se via livre dos dedos impertinentes de seu dono, saltava logo para o pescoço, deixando mal velado o promontorio das regiões adjacentes, por não dizer sempre barriga, que é uma palavra que me destôa, e fere os ouvidos pudicos do sexo por excellencia.
No decurso de cinco minutos, que faziam as duas amigas? Estavam perturbadas pela surpreza de similhante visita.
Nem se lembravam já da scena burlesca em que a snr.ª Angelica promettera apiedar seu irmão a favor da delirante Elisa. A vinda inesperada suscitou-lhes a desconfiança de que o snr. Antonio vinha colerico e enfurecido, reprehendel-as da galhofa com que receberam sua irmã, e talvez ameaçal-as de que, por ordem do tutor, Rosa outra vez seria obrigada a recolher-se, e de mais a mais separar-se da sua amiga.
A filha de Anna do Carmo não estava doente. Aquelle pretexto era o susto da desconfiança que assaltou a ambas. Ora Maria Elisa, menos timida, ou mais desenvolta, contra a vontade de sua amiga, não duvidou receber a visita do snr. Antonio, e preparava-se para chalacear as suas iras, se elle não viesse ás boas, como era de suppôr, ou ao menos a vaidosa Elisa tinha a sem-ceremonia de vaticinar.
Depois arrependeu-se de o mandar subir; e perguntava a Rosa a maneira decente de o despedir, sem ir á sala. N'esta consulta demoraram-se os cinco minutos, e resolveram, por fim, que seria mais discreto ouvil-o, e amacial-o, para que o maldito as não indispozesse com o tutor de modo que as forçassem a uma cruel separação. Elisa, inferior á sua galhofeira coragem, entrou acanhada na sala, justamente no momento em que o snr. Antonio dava o ultimo puxão ao collête, e limpava a terceira camada de suor que lhe envernizava as pandas bochechas.
O negociante ergueu-se, himpando, e levou ambas as mãos ao chapéo, que apenas levantou da cabeça meio calva.
—Ha de dar licença que me cubra—disse elle—porque venho suado, e sou atreito a catarrhos... Aqui corre o ar deencontro áquella porta, e não é lá das melhores cousas para quem traz os póros abertos.
—Esteja a seu bel-prazer, e queira sentar-se—disse Elisa, suspeitando ainda que, depois do brutal cumprimento, viria a trovoada dos brutaes insultos.
—Então a Rosinha diz que está constipada?
—Bastante enferma. A minha amiga tem uma compleição melindrosissima.
—E pouco tino tambem. Quando ella esteve comigo era uma desacautelada; levantava-se do calor da cama, e vinha com o saioto pela cabeça acocorar-se na varanda a brincar com a gata... Diacho da gata! era tão amiga d'ella que não viveu muito depois que a não viu em casa! Ha bichos, que só lhe falta a razão, que no mais parecem mais amoraveis que as proprias creaturas com alma! A boa da gata ia-se pôr á porta do quarto d'ella a miarmiau,miau,miau, e, a final de contas, não queria comer, nem beber, até que appareceu morta no telhado do visinho...
—Misera gata! que infeliz morte!
—Pois é verdade. Isto veio a respeito de dizer que a Rosinha está constipada. Aquillo a respeito de cabeça não regula lá grande cousa, a fallarmos a verdade.
—É uma excellente menina, cheia de virtudes...
—Eu não digo menos d'isso; mas de cá se vai a lá. Deixe-a ter mais dous annos, e verá onde vai dar comsigo...
—Eu creio que ella saberá conter-se nos honestos limites que lhe são demarcados pela honra, e pelo dever.
—Pois Deus a ouça; mas duvido. Pelo que me disse minha irmã, ella traz na cabeça umas tolices que não hão de ter boa sahida. Inda não ha tres mezes que sahiu do recolhimento, e já conhece não sei quantos namoros.
—Isso é uma injustiça, snr. Silva. A minha amiga Rosa Guilhermina não tem namoro algum.
—Deixe-se d'isso, não a defenda, que eu cá sei tudo. Minha irmã fallou-me n'um tal cadete chamado Liberato, ou Celibato, ou não sei que, e um proprietario que tem o nome arrevezado assim a modo de Apparicio... ou Sponselicio... uma cousa assim... finalmente, oxalá que eu me engane, mas não lhe agouro bem... Emfim, quem mal fizer a cama, mal ha de dormir. A pena que eu tenho é ser ella filha do meu amigo arcediago, que Deus tenha na sua presença, que já lá sabe o bem e o mal que fez... Do mais, deixal-a lá, que o mal se o fizer, para si o faz...
—Não se afflija. A minha amiga será digna do bom paeque a morte lhe roubou, e não deshonrará jamais as cinzas paternas.
—Pois assim seja. Ora, menina, eu não sou d'esses bigorrilhas que dizem palavras de mel, e sabem d'essescircumloquiosde trapalhadas com que enganam as moças, e, a final de contas, não dizem nada. Eu sou um homem chão... pau é pau, e pedra é pedra. O que sente o coração a bôca o diz, e o que a bôca não diz não sente o coração. Ora aqui está. Os homens entendem-se pelas palavras, e eu gosto de quem não está a fazer uma grande mastigada de palavras bonitas para dizer o que se diz em duas palavras. Eu venho aqui de proposito fallar com a menina, porque minha irmã Angelica foi d'aqui, ha tres dias, e disse-me certas cousas que me buliram no coração. Pelos modos a menina disse-lhe que se lhe não dava de casar comigo...
—Eu?!
—Não se envergonhe de ter confessado os seus affectos. Eu gosto da franqueza, e a gente muitas vezes perde por fallar de mais e fallar de menos. Á menina bem sei que lhe ha de custar esta conversa; mas, deixemo-nos d'essasbijutariasdo costume, eu estimei muito saber que a menina gostára de mim...
—Eu... não disse que...
—Bem sei que não disse a cousa assim... Eu sei muito bem que a menina tem uma maneira de dizer as cousas com outras palavras mais discretas; mas o que é verdade diz-se com clareza, e eu sei entender as cousas.
Maria Elisa não previa similhante desfecho! A surpreza annullára-lhe por momentos o sestro chocarreiro, e a confusa moça não sabia qual dos partidos devia adoptar, se o da seriedade, se a brincadeira. De mais a mais, a cabeça de Rosa apparecera-lhe n'este momento, entre as duas portadas mal cerradas, e o riso, sua feição caracteristica, luctou cruelmente com a seriedade zombeteira, que ella queria sustentar.
—Eu, a fallar-lhe a verdade—continuou o snr. Antonio, persuadido que o silencio de Elisa era o natural pudor dos dezesete annos—a fallar-lhe a verdade, pela terceira vez que a vejo, não desgosto da sua pessoa. Quando a vi na grade do recolhimento fiquei sympathisando muito com as suas maneiras, e gostei de a ouvir fallar, porque eu não sou homem de estudos, mas sei dar valor ás cousas, e gosto de quem saiba dizer duas palavras.
—Ditosa mulher aquella que viver sujeita ao seu dominio!Os vôos do seu espirito não acharão fechados os vastos horisontes do talento, nos penosos dissabores domesticos.
—Que é? agora não percebi bem...
—Dizia eu que será uma felicidade pertencer a v. s.ª
—Felicidade... isso vai da maneira de vêr as cousas cada um. O que lhe posso desde já prometter é que não hei de dar-lhe penas.
—A mim?... Creio que não dará...
—Póde estar certa d'isso. Eu sei como se tratam as pessoas. A gente póde gosar a sua riqueza sem andar á compita com as grandezas dos fidalgos. Isso é que é asneira. Os fidalgos arruinam-se, e vivem por ahi sabe Deus como, atraz de mim e dos outros, que lhes damos a juro o nosso dinheiro, para as mulheres gastarem em velludos, assembleias, e theatros. Dizia o meu amigo arcediago, que quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma. É cá uma ideia que eu aprendi de cabeça, e acho isto bem dito:quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma.
—É um axioma.
—Que é?
—É um axioma, uma maxima, uma eterna verdade.
—Isso é. Um negociante é um negociante, e um fidalgo é um fidalgo. Andam ahi de carruagens uns tres cá da minha classe, que querem hombrear com os fidalgos, e mais hoje ou mais amanhã verão onde vai parar o negocio.
—Pois v. s.ª abomina a carruagem?
—É cousa em que nunca andei. Parece-me que aquillo não ha de dar grande saude ao estomago! Tombo para aqui, tombo para acolá, quem fôr nutrido como eu ha de por força soffrer dos bofes.
—Engana-se... A agitação, causada pelo balanço da carruagem, é saudavel.
—Devéras?! acho que não!
—Queira acreditar-me. Eu tenho lido varios authores de medicina, que recommendam o uso da carruagem ás pessoas nutridas, como meio de evitar as apoplexias.
—Ah! a menina leu isso nos livros?
—Sim, senhor, e como pessoa que se interessa no seu bem-estar, recommendo-lhe o uso da carruagem.
—E o carroção não fará o mesmo effeito?
—Creio que não: o carroção é mais moroso, menos agitado, mais impertinente nos solavancos.
—Pois eu estava resolvido a mandar fazer um carroção,porque tenho uma junta de bois na minha quinta de Lordello, e, visto o que me diz...
—Parecia-me que v. s.ª deveria possuir carruagem, já que os bens da fortuna lh'o permittem.
—Lá isso tenho eu para mais; mas que diriam os meus visinhos se me vissem de carruagem? Eram capazes de me apupar os tratantes!
—Deixe-se d'isso, senhor Silva. As suas commodidades são mais attendiveis que a critica estupida dos seus visinhos. Ora diga-me: se casasse com uma senhora debil, que precisasse de passear de carruagem para entreter o espirito nas delicias do campo, v. s.ª não lh'a compraria?
—Isso comprava; ponto é que minha mulher me fosse leal, e precisasse d'ella, porque lá, por luxo, acho que era uma asneira sustentar uma parelha de machos, e dois criados. E não será melhor uma cadeirinha, ou uma liteira?
—Isso é antiquissimo!... De que serve o dinheiro, se o não fazemos servir aos nossos prazeres?
—Diz bem; mas sempre é bom a gente gastar menos do que lhe rende o negocio.
—Concordo; mas acho justo que se engrandeça a gente tanto quanto é possivel.
—Pois a tal respeito fallaremos mais devagar. Agora é necessario que tratemos da nossa união. Eu estou disposto a casar com a menina, já que sympathisamos um com outro, segundo me disse minha irmã. A menina faz-lhe conta casar comigo?
—Acha-me digna de si?
—Eu que lhe pergunto se quer casar é porque sympathiso com a menina.
—Sabe que eu não sou rica?
—Sei que não tem nada de seu. Conheci muito bem seu pae, que era negociante, e quebrou com honra. Eu não lhe pergunto se é rica. Rico sou eu, e tenho de sobra para que nos não falte nada. O que eu quero é quem governe a minha casa, e herde os meus bens por minha vontade, porque o que tenho não quero que vá parar a sobrinhos. Se lhe serve, o que ha de fazer-se ao tarde faça-se ao cedo. Não tenho mais nada a dizer-lhe; pense no negocio, e responda-me breve...
—Eu responderei...
—Está dito tudo. Dê cá recados á doente, e saiba que fico sendo seu amigo.
O rico mercador de pannos retirou-se. D. Rosa veio a rir-se, ao encontro de Elisa, e, vendo-a séria, perguntou-lhe:
—Tu não te ris, Elisa?
A litterata respondeu com o silencio e a seriedade.
—Em que pensas tão trombuda?—replicou Rosa.
—Em que penso?... eu sei cá em que penso!... Acho que não penso!...
—Aposto que te serve o noivo?!
—Estás a caçoar, Rosa!
ENTRE-PARENTHESIS
Oh benemerita philosophia! quão sublimes effeitos a humanidade experimenta da tua sisuda influencia!
Oh candida filha do talento, irmã gemea da independencia, neta de Catão, e parenta proxima dos Catões da minha terra, oh patusca philosophia, que sancto prestigio tu exerces nas almas, desde que Diogenes arremessou a escudela que lhe não servia de nada!
Oh philosophia das mulheres, tu és sobre todas a melhor das philosophias! A teu respeito poderia eu escrever este capitulo XIII, que ficaria sendo um capitulo de abalo no espirito publico, mas, não tenho agora vagar, nem me lembra nada que se tenha escripto a respeito da philosophia das mulheres.
Apesar da minha ignorancia n'este ramo (unico em que não sou profundo) tentarei, indulgentes leitores, iniciar-vos na philosophia de Maria Elisa, que foi, honra lhe seja, a mais fervorosa sacerdotisa do culto.
Nada mais boçal, mais rude, mais soez, mais detestavel que a figura, o abdomen, o palavriado, o suor, e o collete, do senhor Antonio José da Silva.
D'accordo.
Nada mais repulsivo que os seus tres papos, que as compressas dos colleirinhos reduziam a seis rofêgos, parecidos com o intestino mesenterio do cevado, que é a mais saborosa das tripas do tal animal (seja dito de passagem).
Nada mais displicente que os seus olhos azues, abertos a canivete, na franja d'uma pequena testa quadrada.
Nada mais abominavel que os seus quatro dentes em anarchia, impellindo, emparceirados com a lingua, perdigotosás legiões, que orvalhavam, a quatro palmos de distancia, a physionomia dos circumstantes.
Nada mais irrisorio que a supina ignorancia das suas sandices amorosas, á mistura com anexins fastidiosamente vulgares, e momices mais ou menos grutescas, mas sempre ridiculas ou nauseabundas. E os callos, e os joanetes? tudo horrivel!
D'accordo.
Mas o dinheiro do senhor Antonio José da Silva! o dinheiro, atilados leitores, vêde bem que se trata de dinheiro, dinheiro em abundancia, placas de ouro e prata, cousas torpes e vis, confessemos que sim, mas cousas com que se compram as carruagens, os velludos, os setins, os jantares, os bailes, a consideração, os ouvidos, os olhos, as linguas, as pennas, as eloquencias, com que tudo se compra inclusivamente os romances, illustradas leitoras, e intelligentes bachareis!
ODINHEIRO!
Vós não sabeis o que são essas oito letras, que só ellas valem as vinte e cinco do alphabeto! Vós não sabeis que eu conheço quatro, dez, trinta alarves d'uma estupidez fabulosa que escondem n'uma luva branca a mão, que deveria aguçar brochas, e palmilhar sapatos; que encostam aos coxins das carruagens os lombos musculosos que a natureza affeiçoára para as asperezas do costal; que mascaram a hediondez do vicio ignaro, o peor de todos, com o riso alvarmente cynico de todos os homens endinheirados, que é um riso particular.
Esses taes são tudo isso e mais alguma cousa; e eu sou o primeiro a sorrir-lhes urbanamente, com meiguice, com mimo até, folgo que me apertem a mão, que me chamem amigo, embora depois se riam de mim, folgo e ennobreço-me d'essa esmola de consideração, porque, se, em minha consciencia, reconheço que são elles os devassos, os torpes, os ignorantes, os incorrigiveis, a minha illustrada cabeça diz-me que eu ámanhã serei apedrejado, na praça publica, se esses taes passarem por mim sem me cortejarem, e retirarem a sua mão da minha.
ODINHEIRO, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra, tres syllabas distinctas que fazem o unico deus verdadeiro d'este paganismo ignominioso em que medram os vicios da sociedade. Tres syllabas! trindade veneranda que representa o mytho de todas as religiões, em cada uma das quaes o profundissimo Dupuis achou uma trindade, e não descobriu esta, que eu tenho a honra de evangelisar-vos.
ODINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio José da Silva que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar a Eva da viella do Laranjal.