CAPITULO XIV

CAPITULO XIVA pobre orphã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina, enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das ricas, que tinham o direito de responder com altivez ás reflexões das mestras, e ás rabugices da velha regente.Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a á humilhante condição de orphã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze annos, lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia muita fé ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso casamento.Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orphã esqueceu-se um pouco das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu, independente da misericordia, como irmã com a pensionista.Se algumas vezes contou á companheira os seus passados sonhos de casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir com ella.Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e soffria, lembrando-se que não podia indemnisar alguma vez as liberalidades que recebia de Rosa.Quando se installaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por outros affectos os carinhos d'ella, e acharia pesado o encargo de sustentar com tantas regalias uma estranha.Este reservado pensamento, que ella, eminentementephilosopha, sabia calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e para o seu caracter.Quando veio á sala zombar de Angelica não havia n'essa caricatura de rapariga apaixonada intenção séria, nem podia havel-a.Quando o senhor Antonio principiou a franca exposição dos seus sentimentos, que elle significava na melodiosa palavra «sympathia», Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas ás caretas de Rosa.Quando, porém, o capitalista fallou em luxo, em carruagens, em fidalgas, e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herança, que não queria deixar aos sobrinhos, a moça pobre lembrou-se das suas esperanças desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lançava as cartas.E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade do assumpto, e ouviu as ultimas palavras do ingenuo negociante, com a discrição, que o caso pedia.Aqui o que temos a admirar, se alguma cousa vale a pena da admiração, é a philosophia tão saturada aos dezeseis annos!A ideia philosophica, em uma mulher, começa aos vinte e cinco annos, e acaba aos quarenta e cinco. Até aos vinte e cinco, domina a poesia, dos quarenta e cinco para diante, se não domina a theologia, ha de forçosamente dominar a toleima, que os vocabularios definem «tolice grande». Isto não é maxima, que valha as deLarochefoucauld; mas é, no seu tanto ou quanto, uma maxima que deve aproveitar a muita gente.Maria Elisa, porém, fôra demasiado temporã na razão da philosophia. Anticipou-se, é verdade; mas veremos que não abortou por vir cedo de mais. Os grandes pensamentos tem cincoenta annos de incubação nas entranhas da sociedade. Terão: não duvido nada; mas o maior pensamento, que se conhece, é o de Elisa em casar com o senhor Antonio, e vingou em cincoenta minutos.As perguntas de Rosa mortificavam-na.A ciumosa amiga custava-lhe a crêr similhante extravagancia; mas a importancia grave que Maria Elisa estava dando ás perguntas zombeteiras, que lhe eram feitas, aggravou a desconfiança de sua amiga.Por esquivar-se ás impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva, em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu dissuadir a amiga, que foi tão facil em descrêr como tinha sido em irritar-se por um ciume extravagante.Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa era rival do senhor Antonio. Como estas cousas são, não me importa a mim sabel-o. Ha no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim, segundo me consta.Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.Para neutralisar a cubiça do luxo, e da independencia, a ambiciosa pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o crepe dourado, para vêr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o demonio tentador não lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e já lhe não parecia tão repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a cabeça lhe promettia.E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza pósthuma a gosar, e um coração, cheio de vida, a offerecer.Foi esta a final conclusão dos seus raciocinios, que ella não deixou escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que, depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as delicias das educandas. Os bons príncipios teem isso comsigo.O dia seguinte correu sem novidade.O outro foi um dia triste para ambas as meninas.Elisa parece que se esquivava á sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta definitiva; mas não ousou proferil-a.Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antonio José da Silva foi causa de grandes dissabores. O conteúdo era assim:«Senhora D. Maria Elisa.Porto, 24 de abril de 1818.«Minha senhora do meu coração e da minha particular estima. Faz hoje tres dias que fallamos em certo negocio a respeito da nossa união. Muito desejava eu saber, para meu governo, se v. s.ª está resolvida a dar-me a sua mão de esposa. Estes negocios não devem demorar-se. Eu já lhe disse o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que á vista lhe direi, estou deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s.ªsympathisava comigo, e eu da minha parte não desgosto da sua pessoa. Por isso, se houver de se fazer este casamento, ha de ser já, quando não com bem desgosto do meu coração procurarei outra que tenha as boas qualidades da menina. Peço-lhe que responda com brevidade. Mande no seu serviço este que é e será até á morteDe v. s.ªAttento venerador e criado obrigado,Antonio José da Silva.»Está conforme o original, excepto a grammatica, a pontuação, e a orthographia.Maria Elisa, não podendo illudir as instancias de Rosa, sem lêr a carta, ralatou a seu modo o conteúdo. Vejam que a vaidade não a deixava já expor ao escarneo da sua amiga a redacção do capitalista! Por mais que a curiosa teimasse, não conseguiu julgar do coração do seu antigo amante pela eloquencia da carta!Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse á sua companheira de dous annos:—Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a unica pessoa a quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia, que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na independencia...—Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?—Fizeste.—Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!—Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira. Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro, nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás, mais ditosaque eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...—Isso nunca!—Nunca!... porquê?...—Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois offerecer-me riquezas que despréso, e não preciso.—Eu não virei offerecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a separação de instantes é um laço de dous corações que se desata! Rosa, não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?—Impostora!—Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? Não sentes o remorso de tamanha offensa?—Não! És uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro d'um homem que eu despréso.—Porque és rica.—D'um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.—Que hoje outra vez lhe dou.—Então como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominavel?—Porque não tenciono sacrificar-me... O escravo ha de ser elle.—Não te entendo! O escravo ha de ser elle!... de que modo?—Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.—Quaes caprichos?—Todos.—Vaes ser uma esposa infiel?—Não.—Vaes ter carruagem, e vestidos ricos?—Vou.—E se te não dér carruagem, nem vestidos?—Ha de dal-os.—E se não dér?—Divorcio-me... metade da sua riqueza é minha.—E queres dar escandalo?—Escandalo é ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.—E tu pareces-me philosopha de mais.—Antes isso.—Que maneira de responder!—É como a tua de perguntar... Não nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas amigas. Aconselha-me que me case, que é a maior prova que pódes dar-me da tua estima.—Faz o que quizeres... és livre... Enganei-me comtigo... creei uma vibora no meu seio.—Isso é d'uma novella que nós lêmos ha dias. Nada de arrufos... Vamos cear?CAPITULO XVRESPOSTA Á CARTA DO SENHOR ANTONIO JOSÉ DA SILVA«Ill.mosnr.«Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de contentamento, e a minha penna não póde fielmente interpretar os jubilos do espirito.«Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para a fascinação dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e humilda-se o amor proprio na presença de v. s.ª«Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emmudeça para que a razão falle. Raciocinemos, pois, que assim é preciso.«V. s.ª já conhece bem o meu caracter? Creio que não. Eu não sou uma mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação, de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos.«Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os outros.«Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s.ª se comprometta, por sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gôso da riqueza que me transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender.«Eu sei que v. s.ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto é tempo; e responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que tem a honra de fazer-lhe esta que é«De v. s.ª«Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,«Maria Elisa Sarmento de Athaide.»O senhor Antonio leu tres vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das maiores difficuldades que zombaram da sua intelligencia foi a mais simples das cousas: a assignatura.—Como é (dizia elle) que ella se chamaSarmento de Athaide, se seu pae era Joaquim Nunes, e sua mãe Michaela Felisberta? Isto, pelos modos, cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...Estas sensatas reflexões foram interrompidas pela senhora Angelica.—Já recebeste resposta, Antonio?—Agora mesmo.—Ora lê lá isso.O noivo leu a carta, que sua irmã ouviu com a bôca aberta, franzindo a testa a cada palavrão, que seu mano não entendia melhor que ella.—Está uma carta d'uma vez!—disse a senhora Angelica, abrindo os olhos para o lado da testa, e apanhando com os seus tres dentes, resto de maior quantia, o beiço inferior, em signal de admiração—Isso é que é fallar! O diacho da rapariga parece que tem cousa má! Aquillo é que é uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e lê pelos livros grandes dos doutores! Ora vejam lá como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz tudo que faz mesmo pasmar!... É um regalo ouvir essa carta... Ora lê lá outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a sabedoria!O senhor Antonio leu quinta vez a sublime carta.—Com effeito!—tornou a senhora Angelica—eu aposto se um doutor a fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe... Cousa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que quer dizer?—Pois tu não entendeste?—Assim me Deus salve que não.—Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer, que me tem uma grande affeição da sua alma, e que está prompta a ser minha esposa...—Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não t'o disse? Ora vê lá como as cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja te sahia brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?—Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita grandeza para metter figas nos olhos...—Á Rosa? bem haja ella! Eu cá tambem fazia o mesmo!... Pois olha, Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu, que lhe hão de ficar ás mil maravilhas. O vestido não tem mais que pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de trinta annos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me manda visitas?—Não... esqueceu-se...—Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoções. Diz-lhe mais que faça por ter saude, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita juizo e graça para servir a Deus... Ouviste?—Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.Entretanto, o senhor Antonio ficou sósinho passeando, e traduzindo para vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus collegas que figuravam na roda dos fidalgos.Se desejasse deslumbral-os, não olharia a despezas. Mas o coração não lhe pedia essas cousas, e muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia elle) não podia dar grande saude aos bofes d'um homem gordo. O orgão que o senhor Antonio respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo a mão no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito. Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que já tive a honra de vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, não tenho absoluta certeza da collocação do figado, supposto que fui em anatomia estudante profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou n'isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do que, tinha muita razão o senhor Antonio em recear que o balanço da carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lêra nos livros que a carruagem era hygienica, e o senhor Antonio renunciára, como vimos, o pensamento do carroção.O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao coração refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna, uma travessa de arroz com rodellas de linguiça, uma concava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho á proporção, e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco mais comeu. O amor espiritualisára a organisação do nosso amigo o senhor Antonio José. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo, poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes não comprehendidos na face da terra!—Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio, á hora melancólica do crepusculo, fixava o ôlho lagrimoso na amplidão dos céos, espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de lá!Eu daria de graça este meu romance, se podésse, em estylo scintillante umas vezes, e outras morbido, afiançar-vos que o senhor Antonio José da Silva fôra poisar a sua redonda pessoa na fraga de-á-beira-mar, e ahi com os olhos no horisonte,e os bofes arquejantes, perguntára á gaivota gemebunda o segredo dos seus gemidos!Não é possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pôde fazer, no auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais d'aquelle homem, porque d'ahi ao suicidio vai só um passo.Antonio José da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra, e a tua geração não te comprehendeu!Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento fino, de doloroso trespasse d'uma civilisação material para o reinado do espirito.Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido ás camaras fallar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense, e pedirias a palavra na associação commercial, para dizeres que eras um honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura, serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que perpetuasse a gloria d'essa illustração!3Antonio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braços com uma paixão séria, e não sinto cá dentro ferir-me o toque inspirador com que tu, depois de jantar, respondias assim á carta de Maria Elisa Sarmento de Athaide:«Ill.masnr.ª«Porto, 27 de abril de 1818.«Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a proposito, porque eu já não estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito de tudo não tenho nada a dizer contra. Eu não sou d'esses sovinas que são capazes de engulir, á hora da morte, o dinheiro, como certos avarentos que eu conheço. A menina não ha de ter falta de cousa nenhuma;ponto é que tenha juizo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu é, e de mais ninguem. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e fallou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que é o melhor. Sem mais, sou«De v. s.ª«Vosso amante do coração,«Antonio José da Silva.»Maria Elisa leu sósinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do riso cedeu ao da meditação. Momentaneamente, a melancolia ennuviou o semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquellas relações, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um bello futuro por detraz da campa de seu marido, assaltou-a tres vezes, e venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, não lhe fallava. Esta demazia de aspereza concorreu muito para a definitiva resolução do casamento, porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o effeito da dependencia. De mais a mais a colerica filha da Anna do Carmo tinha-lhe dito que tal casamento não seria feito em sua casa. Que sahisse ella para onde quizesse, porque, no momento em que annuisse a tal infamia, terminavam de todo em todo as suas antigas relações. Isto foi de mais: mas a filha da Anna do Carmo tinha uma costella de sua mãe, e essa costella vencera, na questão, as vinte e tres de seu pae.O portador da carta esperava a resposta.Maria Elisa, passada uma hora de lucta, dolorosa talvez, respondeu assim:«Não tenho nada que esperar. Póde dar como resolvido o nosso casamento. Cumprirei a minha palavra, quando v. s.ª quizer. Eu recolho-me hoje mesmo ás orphãs.»Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lagrimas, talvez as menos inteligiveis de todas as lagrimas de que tenho fallado:—Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as tuas ordens, venho despedir-me de ti.—Estimarei que sejas feliz.—Devo considerar acabadas as nossas relações de amizade?—Deves.—Menos as da gratidão, porque te sou muito devedora.—Dou-te paga e quitação d'essa divida. Não quero mesmo ser tua credora, porque me envergonho.—E eu tambem... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus favores, e darei á Sancta Casa da Misericordia esse dinheiro, por tua tenção.—Basta! Eu não admitto escarneos! Basta de affrontas!—Cada vez agradeço mais á Providencia a inspiração de me casar... adeus...Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão d'um accesso de cólera, filho do amor. Já a não viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixára um bilhete com estas linhas:«Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas.»A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos, e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.Que taes eram as bichas!CAPITULO XVINão conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavissima que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antonio, quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento, fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesuvio d'amor, misturado de orgulho, por se vêr amado d'uma donzella, que tão nobre amostra dava da sua virtude.Cinco minutos depois que Elisa entrára, com grande pasmoe má vontade da regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido n'aquella casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Sancta Casa da Misericordia. A pedido do senhor Antonio, a regente acompanhou a menina á grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortaes.Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antonio José da Silva abriu assim a questão do momento:—Senhora regente, não sei se essa menina já lhe disse que será brevemente minha esposa.—Nada, ainda não... E estava calada com isso? Receba os meus parabens, minha ruimzinha, que me fez cabellos brancos com as suas travessuras...Elisa sorriu-se, e o noivo atalhou:—Creancices... tudo tem o seu logar. Agora ahi onde a vê é uma mulher de tino, que sabe o que lhe convém, e não dá ouvidos a tôlas... Eu cá me entendo... Pois, senhora, como lhe vinha dizendo, trata-se o nosso casamento, que ha de fazer-se, querendo Deus, o mais tardar quinze dias... Esta menina veio outra vez para aqui lá por cousas que ella sabe, e fez ella muito bem... Com doudos nem para o céo... Eu cá me entendo... Acho que por poucos dias não será necessario arranjar casa cá dentro, e eu venho pedir á senhora regente o favor e obsequio de m'a ter na sua companhia, que eu hei de saber-lhe agradecer de modo que...—Pois não, senhor Silva!? Não só isso, mas tudo o mais que estiver ao meu alcance... O que eu sinto é não ter um palacio para lhe offerecer; mas a boa vontade supprirá as faltas.—Muito agradecida, senhora regente—disse Elisa, entristecendo-se a ponto de lhe tremerem as lagrimas nos olhos.—Que tem, minha menina, chora, quando vai ser tão feliz?—Nada... eu não choro...—São saudades da sua amiga Rosa?—Não, minha senhora... eu não tenho saudades de amiga nenhuma.—Diz muito bem...—acudiu o jucundo negociante—Saudades são seccuras... ora adeus! Saudades de quê? A menina, não precisa de ninguem... Eu vou ser seu marido, e seu pae, e seu amigo. Não lhe ha de faltar nada, e não ha de faltar quem se morda de inveja... eu cá me entendo... Então fiquemos certos no pedido que lhe fiz?—Já disse, e repito, senhor Silva; na minha companhiasó não prometto a esta menina o impossivel de fazer-se n'estas casas para estar bem... Ella já sabe como é o recolhimento, e não estranhará as faltas...—De certo não estranho, minha senhora; isto hoje parece-me mais bello que nunca. Hei de gosar, na sua preciosa companhia, deliciosos momentos...—Mais deliciosos ha de ir gosal-os depois na companhia do senhor Silva, que é um homem honrado, e que sabe dar valor ao merecimento da menina.—Isso póde ella estar certa, que se a não tratar melhor é porque não sei... Ora pois, senhora regente, eu queria fallar em particular com a minha futura esposa.—Eu retiro-me, senhor Silva. Fique na certeza de que serei como tia d'esta menina.—Ora, minha cara menina—disse o negociante logo que a regente sahiu—é necessario preparar os seus arranjos para o casamento. Eu não sei lá d'esses enfeites de noiva, senão eu seria o proprio comprador. A menina mande chamar costureiras, e ourives, e lá essa gente que vende as trapalhadas. Aqui deixo cem peças; sendo necessario mais, não tem senão escrever-me um bilhete... Tambem lhe quero offerecer uma prenda, que me não pareceu fóra de proposito: é um pente de diamantes, que lhe ha de dizer bem com o cabello, acho eu.—Agradecida.—Aqui não ha que agradecer. Eu bem sei que a menina lá lhe parece que eu sou algum unhas... Está enganada de meio a meio. Eu sou sovina com quem me parece; mas com a que ha de ser minha mulher dou muitas graças a Deus por ter muito que gastar com ella, assim Deus nos dê saude para o gosar. Então que me diz?—Digo que o pente é riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus generosos sentimentos para comigo.—Não ha de quê. O que eu quero é que a menina se porte bem, e não dê que murmurar ás linguas damnadas... Eu cá me entendo...—Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a gente.—É o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou na cidade?—Na cidade. Eu não gosto da aldeia; e v. s.ª gosta?—Deixemo-nos desenhorias; o melhor étucá,tulá, não lhe parece, menina?—Eu pedia-lhe licença para por emquanto não tomar aliberdade de lhe dar tal tratamento. V. s.ª póde tratar-me como lhe aprouver.—Pois então lá como quizer. Eu cá acho mais não sei que no coração se lhe dér umtu.—Pois satisfaça o seu coração, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe esse novo signal de estima.—Pois então ahi vai... Com que então tu não gostas da aldeia? Estás-te a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que não gostavas, a fallar-te a verdadinha pura, tanto se me dá, como se me deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir cantar os passaros, que é a mania dos poetas, que todos fallam em rouxinoes, e não sei em que outros passarôlos que se chamam graças, ou garças, e zephyros, e não sei que mais ninhadas e aves, que ninguem conhece, penso eu. Vós lá sabeis essas cousas... Olha como ella se ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu já sei que tu botas sonetos...—Eu?... que graça!... eu não sou poeta.—Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande cousa. Pelos modos, o miôlo dos taes patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome estrangeirado...—Bocage?—Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, á porta d'um botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vêr o... o... como era?—Bocage.—O Bocage... agora não me ha de esquecer... e vai elle olha para mim, muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a gente se riu... Acho que o tal Borrage...—Bocage.—Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era tôlo, e os outros não tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa cá d'estas cousas do ar?O senhor Antonio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia significar uma pergunta de honestidade equivoca.—Que são cousas do ar?—Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...—Astronomia? Tenho lido alguma cousa.—Então has de saber quando está para vir chuva?—Ainda não estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os vapores condensados na atmosphera...—É isso mesmo... Ora diz-me uma cousa que me tem dado que pensar. Lá em cima na lua diz que anda gente como por cá?—Penso que não ha certeza d'esse phenomeno.—D'esse?...—Phenomeno...—Se te não custa diz-me o que é isso? é algum planeta?—Nada, não é... Phenomeno é uma maneira de existir na ordem natural das cousas, manifestada de modo que as leis dos systemas conhecidos não attingem a lei que rege esses actos...—Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que ahi ha muito sabio, e que teve o descôco de dizer que a terra anda á roda!... Que te parece a cavalgadura?—Eu acho que elle disse scientificamcnte a verdade.—Essa é boa! Pois se a terra andasse á roda, tambem nós andavamos sempre com os focinhos pelo chão... Deixa-te d'isso...—É illusão sua. Ha uma razão que nos sustenta na posição direita em que estamos.—Bem sei que são as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse ao redor, cahiam as cadeiras comnosco.—Não é essa a razão... É que todos os corpos pendem para o centro da terra... é o que se chama lei da attracção.—Ah! agora entendi...todos os corpos sahem do centro da terra...—Sahem, não:pendem.—Sim,pendem para a lei da attricção... Não te rias, que toda a gente aprende quando não teve lá esses principios o latim, e da grammatica... Cada qual tem o seu tráfego. Eu cá na minha officina do commercio sei como os que sabem. Lá de rhetoricas não sei nada, a verdade deve dizer-se; mas, se Deus quizer, tu has de dizer-me como é isto cá de cima. Eu ás vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido horas e horas a vêr o que nós somos, e como o Creador fez tudo isto para nós.—Para nós? Eu não sei de que nos servem as estrellas...—Não sabes? A fallar a verdade, eu tambem não; mas ouvi dizer que as estrellas de alguma cousa servem.—Tambem creio que sirvam; mas para nós não lhe vejo a utilidade.—Então os livros não resam d'isso?—Não achei ainda uma explicação precisa.—Pois, minha Mariquitas, estão-se fazendo horas de ir ao jantar. Deixamos isto para outro dia, que não ha de faltar occasião de fallarmos a respeito da sabedoria. Vê lá se queres alguma cousa...—Não preciso de nada.—Ámanhã é a primeira corrida de banhos... De ámanhã a quinze dias effectua-se o negocio; e ficámos arrumados d'aqui. Adeus, menina, até ámanhã.O senhor Antonio sahiu, com o espirito remoçado, e a cabeça aturdida de ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte annos de menos não daria ás suas pernas trôpegas a agilidade com que o viram passar nas Fontainhas.Mal elle tinha sahido, quando Rosa Guilhermina entrou no pateo, e pediu á porteira que lhe chamasse Maria Elisa.A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa não recebia a visita da senhora D. Rosa, porque não queria envergonhal-a com as suas relações.A filha do arcediago instou, supplicou, fez empenhar a regente para que a orphã lhe fallasse. A regente, porém, que não queria importunar a noiva de Antonio José da Silva, antigo mesario da casa, negou-se ás instancias da lagrimosa menina.Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe no caminho um bahú e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus vestidos, que a attribulada amiga lhe mandava. Abriu o bahú para tirar um chaile, e viu tudo espedaçado. A indignação coincidiu com a vinda de Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a entrega do bahú.Era impossivel a reconciliação. Á ultima impertinencia de Rosa Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia já dar-lhe algum dinheiro por conta do que lhe devia, e remetteu-lhe a sacca com as cem peças que lhe deixára o negociante.A filha de Anna arrojou-as ao chão, e sahiu furiosa, promettendo vingar-se da nova villania.Maria Elisa ficou satisfeitissima d'aquelle rasgo, e sentiu,pela primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguem póde ter rasgos, nem mesmo póde contar com que romancistas futuros se entretenham da sua pessoa.Oh meu caro Antonio José! tu de astronomia não sabias muito; mas tinhas d'aquella cousa que faz descer os astronomos cá para baixo!CAPITULO XVII—Quem é aquelle peralvilho que bate á porta da D. Rosa?Temos namoro, se dermos ouvidos á tia Bernarda Estanqueira, que mora na viella do Bomjardim, e que tem um ôlho na balança do simonte, e o outro, que por signal é vêsgo, na porta da filha do arcediago.—Que berzabum de escanellado será aquelle, que parece que traz espartilhos! Valha-o a breca que tão tezo está! Aquillo não me parece homem cá do Porto! Parece mesmo um comediante d'aquelles que berram umas cantigas na casa das operas da Batalha... Ó tia Joaquina! (a tia Joaquina era uma visinha, que estava dobando ao sol) vmc.enão vê acolá aquelle ingarilho que já puxou duas vezes a sineta?—Já vi.—Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?—Conheço... ora se conheço!... Aquelle é o sobrinho do senhor Antonio da rua das Flores, que me tem dado muito pãosinho. Quando eu ia d'antes levar-lhe os novellos do algodão, aquelle menino era caixeirinho na casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.—Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas não póde sahir grande doutor! Acho que um homem assim não tem boas as memorias, nem sustancias para saber lá aquellas cousas da justiça... Elle lá entrou... Quer vmc.evêr que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...—Agora!... Se fosse isso, elle não entrava assim ao pino do meio dia... acho eu!—Boa vai ella!... Pois vmc.epensa que as raparigas d'agora são como as do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que já não ha vergonha nemtemor das penas do inferno!... E quer que lhe diga, tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem a minha Euzebia, que está em casa d'uma certa fidalga que vmc.esabe tão bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez á janella a dar-lhe beijos, e que elle lhe dava beliscões nas pernas. A minha Euzebia deu fé d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu que a rapariga deu fé; e disse-lhe depois: «Euzebia, nós cá as fidalgas podemos fazer isto que viste; e vós outras plebeas, não, porque não tendes nada senão a vossa honrasinha.» Ora que lhe parece isto? dá mesmo vontade de lhe responder: «Vá-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia tivesse o miolo no seu logar não consentia que lhe estivesse um herege lá do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no cachaço!» Fora com as libertinas!—Tem razão, tia Bernarda... a religião é cá só para as pobres. As ricas o que querem é ir á igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um prégador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que nosso Senhor pozera aspelicanasfóra do templo... Aspelicanassão as fidalgas... Olhe lá... aquella sumelga, que alli mora, será fidalga?—Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a mãe ouvi rosnar que era uma das taespelicanas...—Consta que tem muito de seu.—Muitos bragaes, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito disto (pondo o dêdo na testa) não regula lá grande cousa... Veio aqui ha dias á minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava, quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquillo era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu és—disse cá com os meus botões—e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se chamava Anna do Carmo...—Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora á Victoria, e que tem o nariz apurado para as moças como gato para boches. Ha de ser isso...—E olhe que não era outra cousa!...—E eu até me parece que já o vi aqui passar uma noite.—E eu tambem... Que signaes tem elle?—É um pacabote baixo, com a carinha côr de cereja...—É o mesmo, que eu vi, tem carinha côr de cereja, e os olhos a modo de...—São azues...—É verdade, os olhos são azues... Era o mesmo em carne e osso... E vmc.eviu-o entrar para lá?—Não o juro; mas acho que entrou...—Eu tambem não juro, mas parece-me que o vi entrar...—Então é que entrou... Que horas eram?—Meia noite, mais quarto, menos quarto.—Era elle... foi ha de haver quinze dias... tia Bernarda...—Ha quinze dias... é isso mesmo... por signal...—Que estava vmc.eno hospital, tia Joaquina, e não podia vêr o que se passava na rua—interrompeu uma terceira, que estava fiando a um postigo.—Quem a chama cá?—disse a velha desmentida.—Não posso ouvir murmurar com mentira... nem me parece catholica!—Ora metta lá a sua religião no pucaro e coma d'ella, ouviu, sua intromettida?—Quem não quer ouvir não mente descaradamente.—E que lhe importa a visinhança?—E vmc.eque lhe importa aquella senhora que está mansa e quêda em sua casa?—Se come por ella, ganhe a sua vida lá como podér, e deixe conversar quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! sempre ha cada estafermo n'este mundo!...—Isso ha!...—disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar dez reis de simonte.—Estafermo será ella!—replicou a honesta fiadeira.—Cale-se ahi, sua trapalhona!—E vossê... sua lingua de trapos!—Desavergonhada!—Estupor!—Bebeda!—Pangaia!—Feiticeira!—Ladra!—Ladra é vossê!—E vossê come pela filha!—E vossê quando casou já comia pelas suas, e tem quatro que não conhecem os paes!—Ladra, ladra, ladra!—Bebeda! bebeda! bebeda!A tia Joaquina rematou a apóstrophe, erguendo-se, e corcovando-se um pouco com as costas para a visinha, e assentando tres palmadas que provocaram esta resposta do postigo:—Fóra porca! regateira! vai vender sardinhas, grandississima beberrona!Abriu-se uma janella de Rosa, e appareceu a cabeça do sobrinho do senhor Antonio da rua das Flores, como nol-o denunciou a desbocada Joaquina. Já não veio a tempo. O dialogo edificante emmudecera, e o observador correu a vidraça, dizendo:—Não vi ninguem, minha senhora...—É uma terrivel visinhança esta!—disse Rosa—estou anciosa pelo S. Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...—Tem razão, minha senhora; o bêco é detestavel... Tornando á nossa conversação, disse-me v. s.ª que não conhecia meio nenhum de obstar ao casamento d'aquelle reloucado!—Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um velho...—Não ha meio de dissuadir a sua amiga?—Já lhe disse que não, senhor Augusto, essa pessoa nem é minha amiga, nem é docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer é ser rica, e a occasião que se lhe offerece agora, é a mais propicia ao complemento das suas ambições.—É admiravel que ella, habituada com v. s.ª, não aprendesse a nobreza de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a fortuna de meu louco tio!—Bem vê v. s.ª que eu, se não sou rica, herdei a independencia, e Maria Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a mão generosa que a tirára da servil condição de orphã... Quer tambem ser rica...—V. s.ª desde creança mostrou um coração nobre. Lembra-se, ha quatro annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?—Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por fim...—Tinha-me traiçoeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se vêr livre das exigencias de minha pobre mãe, e irmã d'elle, que lhe pedia um subsidio para a minha formatura.—E como pôde depois v. s.ª obter os meios para ir estudar, independente do subsidio de seu tio?—Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha independencia. Algumas dividas contrahi, na esperança de ser um dos herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram que esse homem casava com uma orphã, pensei que era v. s.ª a feliz ou a infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em nome de minha mãe, e em nome da nossa amizade de infancia, vir supplicar-lhe que não tolhesse o nosso futuro, visto que v. s.ª era rica. E vinha cheio de esperança, na certeza de movel-a em nosso favor. Desgraçadamente enganei-me; mas, de todo o meu coração lhe digo que estimo vêl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua intelligencia, seria barbara a escravidão a tal velho, que o ouro, e só o ouro fez digno de vincular uma mulher nova áquelle quasi cadaver. Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...D'este arrazoado bem se vê que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.º anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:—Commoveu-me a sua narração, senhor Augusto! Espero acredite que me amarguram os seus padecimentos, e déra quanto possuo para minorar-lh'os. Eu não me esqueço de que foi v. s.ª a unica pessoa de sua familia, que me não enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa educação. Sua mãe, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura. Muitas vezes me disse que tremia de me vêr n'aquella casa, porque eu era o instrumento com que seu irmão ameaçava destruir os planos de seus sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu só posso ser escrava, quando a escravidão me fizer rainha. Olhei sempre com enjôo para esse velho, e por fim detestei-o... Hoje, porém, chego a lamental-o, porque vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto, é Maria Elisa. A indole d'ella conheço-a eu perfeitamente. Seu tio vai ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas não deixará bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...—Quanto é suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro botão abriria do seu seio uma linda flôr, com taes perfumes!...—Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixadofallar o coração, e creio que acreditará na extremosa vontade que tenho de ser prestavel...—V. s.ª é uma divindade. Minha mãe virá abraçal-a como abraçaria... uma filha. Eu retiro-me com o coração embalsamado das suas palavras, e entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expressões são como a lyra do Orfeu, que adormecem as dôres, ou como a harpa de David que acalentava as tribulações de Saul! (extracto daLUIZA OU ACABANA DO DESERTO, pag. 26.) Ninguem diga que é verdadeiramente infeliz. Ha anjos, encarregados de cobrirem de flôres os espinhos que nascem sobre a carreira de alguns mortaes! (este é de pag. 31, deSOPHIA OU ADONZELLAHOUZARD, e não presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo tinha novidade.) V. s.ª é um d'esses anjos, e eu sou o mortal que mereceu á Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos! (OSSYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DEPIOMBINO, pag. 41.) Se os meus labios não tem ardentes phrases, o meu coração arde em penas de serem frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR, pag. 202.) Finalmente, não a importuno mais. Dê-me v. s.ª as suas ordens. (Isto agora é d'elle.)—Espero que me faça muito recommendada a sua mãe, á qual offereço a minha casa; e v. s.ª, dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de conversação.—Eu tenho a honra de offerecer a v. s.ª as novellas que tenho publicado. Se fossem minhas, não me atreveria a tanto; mas, como são de bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta versão...—Penhora-me muito com a sua offerta, que acceito, grata á sua mimosa lembrança. Eu amo a leitura das novellas, e quando, nas que me offerece, estão vestigios da sua applicação, muito mais grata me será essa leitura.—Serei eu o portador, se me der licença.—Mais valiosa prenda devo reputal-a...—Ás ordens de v. s.ª—Muito boas tardes... Joaquim, acompanha este cavalheiro.—Sem incómmodo, minha senhora.—Permitta...—Por quanto ha...—Eu não consinto que vá só... não sabe as sahidas...—Oh! minha senhora, é muito desvelo...—É um dever... oh!...—Ah! minha senhora... é muito...—Não consinto...—Por quem é...—Muitos recados a sua mãe...—Ha de presal-os infinitamente...—Senhor Augusto...—Senhora D. Rosa Guilhermina...Emfim, despediram-se! Estavam bonitos! O tio e o sobrinho tocavam-se pelos extremos.Rosa Guilhermina olhando-se a um espelho para ajuizar do merito da sua pessoa, momentos antes, dizia comsigo:—Eis alli um perfeito mancebo! Ninguem dirá que é sobrinho d'aquelle bruto! Como é sublime! Aquella linguagem toca!...Vamos vendo que a filha do arcediago dançava facilmente quando a linguagem tocava...Faz ella muito bem. Está na flôr da sua idade, e Deus não lhe deu os talentos para escondel-os na terra. O seu coração anceia um confidente; o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma não veio tão cheia de luz para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras são as mulheres que não obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a muitos outros, é porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da creatura, dissera: «A carne do homem é fraca.» Ora, eu, pelos vastos conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher não é mais forte.E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:—Vmc.efaz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes aquelle gentil moço, que me parece um genio?—Embalsame-o, minha senhora; perfume-o á sua vontade (lhe responderia eu), e quando não tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta dos tres reis, que a historia do tempo pôz em primeiro logar...

A pobre orphã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina, enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das ricas, que tinham o direito de responder com altivez ás reflexões das mestras, e ás rabugices da velha regente.

Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a á humilhante condição de orphã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze annos, lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia muita fé ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso casamento.

Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orphã esqueceu-se um pouco das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu, independente da misericordia, como irmã com a pensionista.

Se algumas vezes contou á companheira os seus passados sonhos de casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir com ella.

Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e soffria, lembrando-se que não podia indemnisar alguma vez as liberalidades que recebia de Rosa.

Quando se installaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por outros affectos os carinhos d'ella, e acharia pesado o encargo de sustentar com tantas regalias uma estranha.

Este reservado pensamento, que ella, eminentementephilosopha, sabia calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e para o seu caracter.

Quando veio á sala zombar de Angelica não havia n'essa caricatura de rapariga apaixonada intenção séria, nem podia havel-a.

Quando o senhor Antonio principiou a franca exposição dos seus sentimentos, que elle significava na melodiosa palavra «sympathia», Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas ás caretas de Rosa.

Quando, porém, o capitalista fallou em luxo, em carruagens, em fidalgas, e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herança, que não queria deixar aos sobrinhos, a moça pobre lembrou-se das suas esperanças desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lançava as cartas.

E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade do assumpto, e ouviu as ultimas palavras do ingenuo negociante, com a discrição, que o caso pedia.

Aqui o que temos a admirar, se alguma cousa vale a pena da admiração, é a philosophia tão saturada aos dezeseis annos!

A ideia philosophica, em uma mulher, começa aos vinte e cinco annos, e acaba aos quarenta e cinco. Até aos vinte e cinco, domina a poesia, dos quarenta e cinco para diante, se não domina a theologia, ha de forçosamente dominar a toleima, que os vocabularios definem «tolice grande». Isto não é maxima, que valha as deLarochefoucauld; mas é, no seu tanto ou quanto, uma maxima que deve aproveitar a muita gente.

Maria Elisa, porém, fôra demasiado temporã na razão da philosophia. Anticipou-se, é verdade; mas veremos que não abortou por vir cedo de mais. Os grandes pensamentos tem cincoenta annos de incubação nas entranhas da sociedade. Terão: não duvido nada; mas o maior pensamento, que se conhece, é o de Elisa em casar com o senhor Antonio, e vingou em cincoenta minutos.

As perguntas de Rosa mortificavam-na.

A ciumosa amiga custava-lhe a crêr similhante extravagancia; mas a importancia grave que Maria Elisa estava dando ás perguntas zombeteiras, que lhe eram feitas, aggravou a desconfiança de sua amiga.

Por esquivar-se ás impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva, em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu dissuadir a amiga, que foi tão facil em descrêr como tinha sido em irritar-se por um ciume extravagante.

Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa era rival do senhor Antonio. Como estas cousas são, não me importa a mim sabel-o. Ha no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim, segundo me consta.

Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.

Para neutralisar a cubiça do luxo, e da independencia, a ambiciosa pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o crepe dourado, para vêr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o demonio tentador não lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e já lhe não parecia tão repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a cabeça lhe promettia.

E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza pósthuma a gosar, e um coração, cheio de vida, a offerecer.

Foi esta a final conclusão dos seus raciocinios, que ella não deixou escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que, depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as delicias das educandas. Os bons príncipios teem isso comsigo.

O dia seguinte correu sem novidade.

O outro foi um dia triste para ambas as meninas.

Elisa parece que se esquivava á sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta definitiva; mas não ousou proferil-a.

Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antonio José da Silva foi causa de grandes dissabores. O conteúdo era assim:

«Senhora D. Maria Elisa.

Porto, 24 de abril de 1818.

«Minha senhora do meu coração e da minha particular estima. Faz hoje tres dias que fallamos em certo negocio a respeito da nossa união. Muito desejava eu saber, para meu governo, se v. s.ª está resolvida a dar-me a sua mão de esposa. Estes negocios não devem demorar-se. Eu já lhe disse o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que á vista lhe direi, estou deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s.ªsympathisava comigo, e eu da minha parte não desgosto da sua pessoa. Por isso, se houver de se fazer este casamento, ha de ser já, quando não com bem desgosto do meu coração procurarei outra que tenha as boas qualidades da menina. Peço-lhe que responda com brevidade. Mande no seu serviço este que é e será até á morte

De v. s.ª

Attento venerador e criado obrigado,

Antonio José da Silva.»

Está conforme o original, excepto a grammatica, a pontuação, e a orthographia.

Maria Elisa, não podendo illudir as instancias de Rosa, sem lêr a carta, ralatou a seu modo o conteúdo. Vejam que a vaidade não a deixava já expor ao escarneo da sua amiga a redacção do capitalista! Por mais que a curiosa teimasse, não conseguiu julgar do coração do seu antigo amante pela eloquencia da carta!

Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse á sua companheira de dous annos:

—Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a unica pessoa a quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia, que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na independencia...

—Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?

—Fizeste.

—Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!

—Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira. Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro, nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás, mais ditosaque eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...

—Isso nunca!

—Nunca!... porquê?...

—Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois offerecer-me riquezas que despréso, e não preciso.

—Eu não virei offerecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a separação de instantes é um laço de dous corações que se desata! Rosa, não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?

—Impostora!

—Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? Não sentes o remorso de tamanha offensa?

—Não! És uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro d'um homem que eu despréso.

—Porque és rica.

—D'um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.

—Que hoje outra vez lhe dou.

—Então como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominavel?

—Porque não tenciono sacrificar-me... O escravo ha de ser elle.

—Não te entendo! O escravo ha de ser elle!... de que modo?

—Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.

—Quaes caprichos?

—Todos.

—Vaes ser uma esposa infiel?

—Não.

—Vaes ter carruagem, e vestidos ricos?

—Vou.

—E se te não dér carruagem, nem vestidos?

—Ha de dal-os.

—E se não dér?

—Divorcio-me... metade da sua riqueza é minha.

—E queres dar escandalo?

—Escandalo é ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.

—E tu pareces-me philosopha de mais.

—Antes isso.

—Que maneira de responder!

—É como a tua de perguntar... Não nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas amigas. Aconselha-me que me case, que é a maior prova que pódes dar-me da tua estima.

—Faz o que quizeres... és livre... Enganei-me comtigo... creei uma vibora no meu seio.

—Isso é d'uma novella que nós lêmos ha dias. Nada de arrufos... Vamos cear?

RESPOSTA Á CARTA DO SENHOR ANTONIO JOSÉ DA SILVA

«Ill.mosnr.

«Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de contentamento, e a minha penna não póde fielmente interpretar os jubilos do espirito.

«Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para a fascinação dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e humilda-se o amor proprio na presença de v. s.ª

«Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emmudeça para que a razão falle. Raciocinemos, pois, que assim é preciso.

«V. s.ª já conhece bem o meu caracter? Creio que não. Eu não sou uma mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação, de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos.

«Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os outros.

«Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s.ª se comprometta, por sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gôso da riqueza que me transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender.

«Eu sei que v. s.ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto é tempo; e responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que tem a honra de fazer-lhe esta que é

«De v. s.ª

«Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,

«Maria Elisa Sarmento de Athaide.»

O senhor Antonio leu tres vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das maiores difficuldades que zombaram da sua intelligencia foi a mais simples das cousas: a assignatura.

—Como é (dizia elle) que ella se chamaSarmento de Athaide, se seu pae era Joaquim Nunes, e sua mãe Michaela Felisberta? Isto, pelos modos, cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...

Estas sensatas reflexões foram interrompidas pela senhora Angelica.

—Já recebeste resposta, Antonio?

—Agora mesmo.

—Ora lê lá isso.

O noivo leu a carta, que sua irmã ouviu com a bôca aberta, franzindo a testa a cada palavrão, que seu mano não entendia melhor que ella.

—Está uma carta d'uma vez!—disse a senhora Angelica, abrindo os olhos para o lado da testa, e apanhando com os seus tres dentes, resto de maior quantia, o beiço inferior, em signal de admiração—Isso é que é fallar! O diacho da rapariga parece que tem cousa má! Aquillo é que é uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e lê pelos livros grandes dos doutores! Ora vejam lá como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz tudo que faz mesmo pasmar!... É um regalo ouvir essa carta... Ora lê lá outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a sabedoria!

O senhor Antonio leu quinta vez a sublime carta.

—Com effeito!—tornou a senhora Angelica—eu aposto se um doutor a fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe... Cousa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que quer dizer?

—Pois tu não entendeste?

—Assim me Deus salve que não.

—Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer, que me tem uma grande affeição da sua alma, e que está prompta a ser minha esposa...

—Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não t'o disse? Ora vê lá como as cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja te sahia brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?

—Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita grandeza para metter figas nos olhos...

—Á Rosa? bem haja ella! Eu cá tambem fazia o mesmo!... Pois olha, Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu, que lhe hão de ficar ás mil maravilhas. O vestido não tem mais que pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de trinta annos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me manda visitas?

—Não... esqueceu-se...

—Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoções. Diz-lhe mais que faça por ter saude, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita juizo e graça para servir a Deus... Ouviste?

—Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.

Entretanto, o senhor Antonio ficou sósinho passeando, e traduzindo para vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.

O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus collegas que figuravam na roda dos fidalgos.Se desejasse deslumbral-os, não olharia a despezas. Mas o coração não lhe pedia essas cousas, e muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia elle) não podia dar grande saude aos bofes d'um homem gordo. O orgão que o senhor Antonio respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo a mão no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito. Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que já tive a honra de vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, não tenho absoluta certeza da collocação do figado, supposto que fui em anatomia estudante profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou n'isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do que, tinha muita razão o senhor Antonio em recear que o balanço da carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lêra nos livros que a carruagem era hygienica, e o senhor Antonio renunciára, como vimos, o pensamento do carroção.

O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao coração refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna, uma travessa de arroz com rodellas de linguiça, uma concava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho á proporção, e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco mais comeu. O amor espiritualisára a organisação do nosso amigo o senhor Antonio José. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo, poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes não comprehendidos na face da terra!

—Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio, á hora melancólica do crepusculo, fixava o ôlho lagrimoso na amplidão dos céos, espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de lá!

Eu daria de graça este meu romance, se podésse, em estylo scintillante umas vezes, e outras morbido, afiançar-vos que o senhor Antonio José da Silva fôra poisar a sua redonda pessoa na fraga de-á-beira-mar, e ahi com os olhos no horisonte,e os bofes arquejantes, perguntára á gaivota gemebunda o segredo dos seus gemidos!

Não é possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pôde fazer, no auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais d'aquelle homem, porque d'ahi ao suicidio vai só um passo.

Antonio José da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra, e a tua geração não te comprehendeu!

Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento fino, de doloroso trespasse d'uma civilisação material para o reinado do espirito.

Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido ás camaras fallar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense, e pedirias a palavra na associação commercial, para dizeres que eras um honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura, serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que perpetuasse a gloria d'essa illustração!3

Antonio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!

Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braços com uma paixão séria, e não sinto cá dentro ferir-me o toque inspirador com que tu, depois de jantar, respondias assim á carta de Maria Elisa Sarmento de Athaide:

«Ill.masnr.ª

«Porto, 27 de abril de 1818.

«Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a proposito, porque eu já não estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito de tudo não tenho nada a dizer contra. Eu não sou d'esses sovinas que são capazes de engulir, á hora da morte, o dinheiro, como certos avarentos que eu conheço. A menina não ha de ter falta de cousa nenhuma;ponto é que tenha juizo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu é, e de mais ninguem. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e fallou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que é o melhor. Sem mais, sou

«De v. s.ª

«Vosso amante do coração,

«Antonio José da Silva.»

Maria Elisa leu sósinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do riso cedeu ao da meditação. Momentaneamente, a melancolia ennuviou o semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquellas relações, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um bello futuro por detraz da campa de seu marido, assaltou-a tres vezes, e venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.

Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, não lhe fallava. Esta demazia de aspereza concorreu muito para a definitiva resolução do casamento, porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o effeito da dependencia. De mais a mais a colerica filha da Anna do Carmo tinha-lhe dito que tal casamento não seria feito em sua casa. Que sahisse ella para onde quizesse, porque, no momento em que annuisse a tal infamia, terminavam de todo em todo as suas antigas relações. Isto foi de mais: mas a filha da Anna do Carmo tinha uma costella de sua mãe, e essa costella vencera, na questão, as vinte e tres de seu pae.

O portador da carta esperava a resposta.

Maria Elisa, passada uma hora de lucta, dolorosa talvez, respondeu assim:

«Não tenho nada que esperar. Póde dar como resolvido o nosso casamento. Cumprirei a minha palavra, quando v. s.ª quizer. Eu recolho-me hoje mesmo ás orphãs.»

Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lagrimas, talvez as menos inteligiveis de todas as lagrimas de que tenho fallado:

—Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as tuas ordens, venho despedir-me de ti.

—Estimarei que sejas feliz.

—Devo considerar acabadas as nossas relações de amizade?

—Deves.

—Menos as da gratidão, porque te sou muito devedora.

—Dou-te paga e quitação d'essa divida. Não quero mesmo ser tua credora, porque me envergonho.

—E eu tambem... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus favores, e darei á Sancta Casa da Misericordia esse dinheiro, por tua tenção.

—Basta! Eu não admitto escarneos! Basta de affrontas!

—Cada vez agradeço mais á Providencia a inspiração de me casar... adeus...

Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão d'um accesso de cólera, filho do amor. Já a não viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixára um bilhete com estas linhas:

«Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas.»

A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos, e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.

Que taes eram as bichas!

Não conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavissima que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antonio, quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento, fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesuvio d'amor, misturado de orgulho, por se vêr amado d'uma donzella, que tão nobre amostra dava da sua virtude.

Cinco minutos depois que Elisa entrára, com grande pasmoe má vontade da regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido n'aquella casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Sancta Casa da Misericordia. A pedido do senhor Antonio, a regente acompanhou a menina á grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortaes.

Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antonio José da Silva abriu assim a questão do momento:

—Senhora regente, não sei se essa menina já lhe disse que será brevemente minha esposa.

—Nada, ainda não... E estava calada com isso? Receba os meus parabens, minha ruimzinha, que me fez cabellos brancos com as suas travessuras...

Elisa sorriu-se, e o noivo atalhou:

—Creancices... tudo tem o seu logar. Agora ahi onde a vê é uma mulher de tino, que sabe o que lhe convém, e não dá ouvidos a tôlas... Eu cá me entendo... Pois, senhora, como lhe vinha dizendo, trata-se o nosso casamento, que ha de fazer-se, querendo Deus, o mais tardar quinze dias... Esta menina veio outra vez para aqui lá por cousas que ella sabe, e fez ella muito bem... Com doudos nem para o céo... Eu cá me entendo... Acho que por poucos dias não será necessario arranjar casa cá dentro, e eu venho pedir á senhora regente o favor e obsequio de m'a ter na sua companhia, que eu hei de saber-lhe agradecer de modo que...

—Pois não, senhor Silva!? Não só isso, mas tudo o mais que estiver ao meu alcance... O que eu sinto é não ter um palacio para lhe offerecer; mas a boa vontade supprirá as faltas.

—Muito agradecida, senhora regente—disse Elisa, entristecendo-se a ponto de lhe tremerem as lagrimas nos olhos.

—Que tem, minha menina, chora, quando vai ser tão feliz?

—Nada... eu não choro...

—São saudades da sua amiga Rosa?

—Não, minha senhora... eu não tenho saudades de amiga nenhuma.

—Diz muito bem...—acudiu o jucundo negociante—Saudades são seccuras... ora adeus! Saudades de quê? A menina, não precisa de ninguem... Eu vou ser seu marido, e seu pae, e seu amigo. Não lhe ha de faltar nada, e não ha de faltar quem se morda de inveja... eu cá me entendo... Então fiquemos certos no pedido que lhe fiz?

—Já disse, e repito, senhor Silva; na minha companhiasó não prometto a esta menina o impossivel de fazer-se n'estas casas para estar bem... Ella já sabe como é o recolhimento, e não estranhará as faltas...

—De certo não estranho, minha senhora; isto hoje parece-me mais bello que nunca. Hei de gosar, na sua preciosa companhia, deliciosos momentos...

—Mais deliciosos ha de ir gosal-os depois na companhia do senhor Silva, que é um homem honrado, e que sabe dar valor ao merecimento da menina.

—Isso póde ella estar certa, que se a não tratar melhor é porque não sei... Ora pois, senhora regente, eu queria fallar em particular com a minha futura esposa.

—Eu retiro-me, senhor Silva. Fique na certeza de que serei como tia d'esta menina.

—Ora, minha cara menina—disse o negociante logo que a regente sahiu—é necessario preparar os seus arranjos para o casamento. Eu não sei lá d'esses enfeites de noiva, senão eu seria o proprio comprador. A menina mande chamar costureiras, e ourives, e lá essa gente que vende as trapalhadas. Aqui deixo cem peças; sendo necessario mais, não tem senão escrever-me um bilhete... Tambem lhe quero offerecer uma prenda, que me não pareceu fóra de proposito: é um pente de diamantes, que lhe ha de dizer bem com o cabello, acho eu.

—Agradecida.

—Aqui não ha que agradecer. Eu bem sei que a menina lá lhe parece que eu sou algum unhas... Está enganada de meio a meio. Eu sou sovina com quem me parece; mas com a que ha de ser minha mulher dou muitas graças a Deus por ter muito que gastar com ella, assim Deus nos dê saude para o gosar. Então que me diz?

—Digo que o pente é riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus generosos sentimentos para comigo.

—Não ha de quê. O que eu quero é que a menina se porte bem, e não dê que murmurar ás linguas damnadas... Eu cá me entendo...

—Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a gente.

—É o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou na cidade?

—Na cidade. Eu não gosto da aldeia; e v. s.ª gosta?

—Deixemo-nos desenhorias; o melhor étucá,tulá, não lhe parece, menina?

—Eu pedia-lhe licença para por emquanto não tomar aliberdade de lhe dar tal tratamento. V. s.ª póde tratar-me como lhe aprouver.

—Pois então lá como quizer. Eu cá acho mais não sei que no coração se lhe dér umtu.

—Pois satisfaça o seu coração, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe esse novo signal de estima.

—Pois então ahi vai... Com que então tu não gostas da aldeia? Estás-te a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que não gostavas, a fallar-te a verdadinha pura, tanto se me dá, como se me deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir cantar os passaros, que é a mania dos poetas, que todos fallam em rouxinoes, e não sei em que outros passarôlos que se chamam graças, ou garças, e zephyros, e não sei que mais ninhadas e aves, que ninguem conhece, penso eu. Vós lá sabeis essas cousas... Olha como ella se ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu já sei que tu botas sonetos...

—Eu?... que graça!... eu não sou poeta.

—Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande cousa. Pelos modos, o miôlo dos taes patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome estrangeirado...

—Bocage?

—Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, á porta d'um botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vêr o... o... como era?

—Bocage.

—O Bocage... agora não me ha de esquecer... e vai elle olha para mim, muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a gente se riu... Acho que o tal Borrage...

—Bocage.

—Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era tôlo, e os outros não tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa cá d'estas cousas do ar?

O senhor Antonio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia significar uma pergunta de honestidade equivoca.

—Que são cousas do ar?

—Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...

—Astronomia? Tenho lido alguma cousa.

—Então has de saber quando está para vir chuva?

—Ainda não estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os vapores condensados na atmosphera...

—É isso mesmo... Ora diz-me uma cousa que me tem dado que pensar. Lá em cima na lua diz que anda gente como por cá?

—Penso que não ha certeza d'esse phenomeno.

—D'esse?...

—Phenomeno...

—Se te não custa diz-me o que é isso? é algum planeta?

—Nada, não é... Phenomeno é uma maneira de existir na ordem natural das cousas, manifestada de modo que as leis dos systemas conhecidos não attingem a lei que rege esses actos...

—Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que ahi ha muito sabio, e que teve o descôco de dizer que a terra anda á roda!... Que te parece a cavalgadura?

—Eu acho que elle disse scientificamcnte a verdade.

—Essa é boa! Pois se a terra andasse á roda, tambem nós andavamos sempre com os focinhos pelo chão... Deixa-te d'isso...

—É illusão sua. Ha uma razão que nos sustenta na posição direita em que estamos.

—Bem sei que são as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse ao redor, cahiam as cadeiras comnosco.

—Não é essa a razão... É que todos os corpos pendem para o centro da terra... é o que se chama lei da attracção.

—Ah! agora entendi...todos os corpos sahem do centro da terra...

—Sahem, não:pendem.

—Sim,pendem para a lei da attricção... Não te rias, que toda a gente aprende quando não teve lá esses principios o latim, e da grammatica... Cada qual tem o seu tráfego. Eu cá na minha officina do commercio sei como os que sabem. Lá de rhetoricas não sei nada, a verdade deve dizer-se; mas, se Deus quizer, tu has de dizer-me como é isto cá de cima. Eu ás vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido horas e horas a vêr o que nós somos, e como o Creador fez tudo isto para nós.

—Para nós? Eu não sei de que nos servem as estrellas...

—Não sabes? A fallar a verdade, eu tambem não; mas ouvi dizer que as estrellas de alguma cousa servem.

—Tambem creio que sirvam; mas para nós não lhe vejo a utilidade.

—Então os livros não resam d'isso?

—Não achei ainda uma explicação precisa.

—Pois, minha Mariquitas, estão-se fazendo horas de ir ao jantar. Deixamos isto para outro dia, que não ha de faltar occasião de fallarmos a respeito da sabedoria. Vê lá se queres alguma cousa...

—Não preciso de nada.

—Ámanhã é a primeira corrida de banhos... De ámanhã a quinze dias effectua-se o negocio; e ficámos arrumados d'aqui. Adeus, menina, até ámanhã.

O senhor Antonio sahiu, com o espirito remoçado, e a cabeça aturdida de ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte annos de menos não daria ás suas pernas trôpegas a agilidade com que o viram passar nas Fontainhas.

Mal elle tinha sahido, quando Rosa Guilhermina entrou no pateo, e pediu á porteira que lhe chamasse Maria Elisa.

A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa não recebia a visita da senhora D. Rosa, porque não queria envergonhal-a com as suas relações.

A filha do arcediago instou, supplicou, fez empenhar a regente para que a orphã lhe fallasse. A regente, porém, que não queria importunar a noiva de Antonio José da Silva, antigo mesario da casa, negou-se ás instancias da lagrimosa menina.

Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe no caminho um bahú e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus vestidos, que a attribulada amiga lhe mandava. Abriu o bahú para tirar um chaile, e viu tudo espedaçado. A indignação coincidiu com a vinda de Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a entrega do bahú.

Era impossivel a reconciliação. Á ultima impertinencia de Rosa Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia já dar-lhe algum dinheiro por conta do que lhe devia, e remetteu-lhe a sacca com as cem peças que lhe deixára o negociante.

A filha de Anna arrojou-as ao chão, e sahiu furiosa, promettendo vingar-se da nova villania.

Maria Elisa ficou satisfeitissima d'aquelle rasgo, e sentiu,pela primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguem póde ter rasgos, nem mesmo póde contar com que romancistas futuros se entretenham da sua pessoa.

Oh meu caro Antonio José! tu de astronomia não sabias muito; mas tinhas d'aquella cousa que faz descer os astronomos cá para baixo!

—Quem é aquelle peralvilho que bate á porta da D. Rosa?

Temos namoro, se dermos ouvidos á tia Bernarda Estanqueira, que mora na viella do Bomjardim, e que tem um ôlho na balança do simonte, e o outro, que por signal é vêsgo, na porta da filha do arcediago.

—Que berzabum de escanellado será aquelle, que parece que traz espartilhos! Valha-o a breca que tão tezo está! Aquillo não me parece homem cá do Porto! Parece mesmo um comediante d'aquelles que berram umas cantigas na casa das operas da Batalha... Ó tia Joaquina! (a tia Joaquina era uma visinha, que estava dobando ao sol) vmc.enão vê acolá aquelle ingarilho que já puxou duas vezes a sineta?

—Já vi.

—Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?

—Conheço... ora se conheço!... Aquelle é o sobrinho do senhor Antonio da rua das Flores, que me tem dado muito pãosinho. Quando eu ia d'antes levar-lhe os novellos do algodão, aquelle menino era caixeirinho na casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.

—Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas não póde sahir grande doutor! Acho que um homem assim não tem boas as memorias, nem sustancias para saber lá aquellas cousas da justiça... Elle lá entrou... Quer vmc.evêr que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...

—Agora!... Se fosse isso, elle não entrava assim ao pino do meio dia... acho eu!

—Boa vai ella!... Pois vmc.epensa que as raparigas d'agora são como as do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que já não ha vergonha nemtemor das penas do inferno!... E quer que lhe diga, tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem a minha Euzebia, que está em casa d'uma certa fidalga que vmc.esabe tão bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez á janella a dar-lhe beijos, e que elle lhe dava beliscões nas pernas. A minha Euzebia deu fé d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu que a rapariga deu fé; e disse-lhe depois: «Euzebia, nós cá as fidalgas podemos fazer isto que viste; e vós outras plebeas, não, porque não tendes nada senão a vossa honrasinha.» Ora que lhe parece isto? dá mesmo vontade de lhe responder: «Vá-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia tivesse o miolo no seu logar não consentia que lhe estivesse um herege lá do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no cachaço!» Fora com as libertinas!

—Tem razão, tia Bernarda... a religião é cá só para as pobres. As ricas o que querem é ir á igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um prégador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que nosso Senhor pozera aspelicanasfóra do templo... Aspelicanassão as fidalgas... Olhe lá... aquella sumelga, que alli mora, será fidalga?

—Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a mãe ouvi rosnar que era uma das taespelicanas...

—Consta que tem muito de seu.

—Muitos bragaes, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito disto (pondo o dêdo na testa) não regula lá grande cousa... Veio aqui ha dias á minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava, quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquillo era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu és—disse cá com os meus botões—e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se chamava Anna do Carmo...

—Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora á Victoria, e que tem o nariz apurado para as moças como gato para boches. Ha de ser isso...

—E olhe que não era outra cousa!...

—E eu até me parece que já o vi aqui passar uma noite.

—E eu tambem... Que signaes tem elle?

—É um pacabote baixo, com a carinha côr de cereja...

—É o mesmo, que eu vi, tem carinha côr de cereja, e os olhos a modo de...

—São azues...

—É verdade, os olhos são azues... Era o mesmo em carne e osso... E vmc.eviu-o entrar para lá?

—Não o juro; mas acho que entrou...

—Eu tambem não juro, mas parece-me que o vi entrar...

—Então é que entrou... Que horas eram?

—Meia noite, mais quarto, menos quarto.

—Era elle... foi ha de haver quinze dias... tia Bernarda...

—Ha quinze dias... é isso mesmo... por signal...

—Que estava vmc.eno hospital, tia Joaquina, e não podia vêr o que se passava na rua—interrompeu uma terceira, que estava fiando a um postigo.

—Quem a chama cá?—disse a velha desmentida.

—Não posso ouvir murmurar com mentira... nem me parece catholica!

—Ora metta lá a sua religião no pucaro e coma d'ella, ouviu, sua intromettida?

—Quem não quer ouvir não mente descaradamente.

—E que lhe importa a visinhança?

—E vmc.eque lhe importa aquella senhora que está mansa e quêda em sua casa?

—Se come por ella, ganhe a sua vida lá como podér, e deixe conversar quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! sempre ha cada estafermo n'este mundo!...

—Isso ha!...—disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar dez reis de simonte.

—Estafermo será ella!—replicou a honesta fiadeira.

—Cale-se ahi, sua trapalhona!

—E vossê... sua lingua de trapos!

—Desavergonhada!

—Estupor!

—Bebeda!

—Pangaia!

—Feiticeira!

—Ladra!

—Ladra é vossê!

—E vossê come pela filha!

—E vossê quando casou já comia pelas suas, e tem quatro que não conhecem os paes!

—Ladra, ladra, ladra!

—Bebeda! bebeda! bebeda!

A tia Joaquina rematou a apóstrophe, erguendo-se, e corcovando-se um pouco com as costas para a visinha, e assentando tres palmadas que provocaram esta resposta do postigo:

—Fóra porca! regateira! vai vender sardinhas, grandississima beberrona!

Abriu-se uma janella de Rosa, e appareceu a cabeça do sobrinho do senhor Antonio da rua das Flores, como nol-o denunciou a desbocada Joaquina. Já não veio a tempo. O dialogo edificante emmudecera, e o observador correu a vidraça, dizendo:

—Não vi ninguem, minha senhora...

—É uma terrivel visinhança esta!—disse Rosa—estou anciosa pelo S. Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...

—Tem razão, minha senhora; o bêco é detestavel... Tornando á nossa conversação, disse-me v. s.ª que não conhecia meio nenhum de obstar ao casamento d'aquelle reloucado!

—Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um velho...

—Não ha meio de dissuadir a sua amiga?

—Já lhe disse que não, senhor Augusto, essa pessoa nem é minha amiga, nem é docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer é ser rica, e a occasião que se lhe offerece agora, é a mais propicia ao complemento das suas ambições.

—É admiravel que ella, habituada com v. s.ª, não aprendesse a nobreza de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a fortuna de meu louco tio!

—Bem vê v. s.ª que eu, se não sou rica, herdei a independencia, e Maria Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a mão generosa que a tirára da servil condição de orphã... Quer tambem ser rica...

—V. s.ª desde creança mostrou um coração nobre. Lembra-se, ha quatro annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?

—Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por fim...

—Tinha-me traiçoeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se vêr livre das exigencias de minha pobre mãe, e irmã d'elle, que lhe pedia um subsidio para a minha formatura.

—E como pôde depois v. s.ª obter os meios para ir estudar, independente do subsidio de seu tio?

—Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha independencia. Algumas dividas contrahi, na esperança de ser um dos herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram que esse homem casava com uma orphã, pensei que era v. s.ª a feliz ou a infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em nome de minha mãe, e em nome da nossa amizade de infancia, vir supplicar-lhe que não tolhesse o nosso futuro, visto que v. s.ª era rica. E vinha cheio de esperança, na certeza de movel-a em nosso favor. Desgraçadamente enganei-me; mas, de todo o meu coração lhe digo que estimo vêl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua intelligencia, seria barbara a escravidão a tal velho, que o ouro, e só o ouro fez digno de vincular uma mulher nova áquelle quasi cadaver. Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...

D'este arrazoado bem se vê que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.º anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.

Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:

—Commoveu-me a sua narração, senhor Augusto! Espero acredite que me amarguram os seus padecimentos, e déra quanto possuo para minorar-lh'os. Eu não me esqueço de que foi v. s.ª a unica pessoa de sua familia, que me não enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa educação. Sua mãe, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura. Muitas vezes me disse que tremia de me vêr n'aquella casa, porque eu era o instrumento com que seu irmão ameaçava destruir os planos de seus sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu só posso ser escrava, quando a escravidão me fizer rainha. Olhei sempre com enjôo para esse velho, e por fim detestei-o... Hoje, porém, chego a lamental-o, porque vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto, é Maria Elisa. A indole d'ella conheço-a eu perfeitamente. Seu tio vai ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas não deixará bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...

—Quanto é suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro botão abriria do seu seio uma linda flôr, com taes perfumes!...

—Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixadofallar o coração, e creio que acreditará na extremosa vontade que tenho de ser prestavel...

—V. s.ª é uma divindade. Minha mãe virá abraçal-a como abraçaria... uma filha. Eu retiro-me com o coração embalsamado das suas palavras, e entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expressões são como a lyra do Orfeu, que adormecem as dôres, ou como a harpa de David que acalentava as tribulações de Saul! (extracto daLUIZA OU ACABANA DO DESERTO, pag. 26.) Ninguem diga que é verdadeiramente infeliz. Ha anjos, encarregados de cobrirem de flôres os espinhos que nascem sobre a carreira de alguns mortaes! (este é de pag. 31, deSOPHIA OU ADONZELLAHOUZARD, e não presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo tinha novidade.) V. s.ª é um d'esses anjos, e eu sou o mortal que mereceu á Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos! (OSSYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DEPIOMBINO, pag. 41.) Se os meus labios não tem ardentes phrases, o meu coração arde em penas de serem frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR, pag. 202.) Finalmente, não a importuno mais. Dê-me v. s.ª as suas ordens. (Isto agora é d'elle.)

—Espero que me faça muito recommendada a sua mãe, á qual offereço a minha casa; e v. s.ª, dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de conversação.

—Eu tenho a honra de offerecer a v. s.ª as novellas que tenho publicado. Se fossem minhas, não me atreveria a tanto; mas, como são de bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta versão...

—Penhora-me muito com a sua offerta, que acceito, grata á sua mimosa lembrança. Eu amo a leitura das novellas, e quando, nas que me offerece, estão vestigios da sua applicação, muito mais grata me será essa leitura.

—Serei eu o portador, se me der licença.

—Mais valiosa prenda devo reputal-a...

—Ás ordens de v. s.ª

—Muito boas tardes... Joaquim, acompanha este cavalheiro.

—Sem incómmodo, minha senhora.

—Permitta...

—Por quanto ha...

—Eu não consinto que vá só... não sabe as sahidas...

—Oh! minha senhora, é muito desvelo...

—É um dever... oh!...

—Ah! minha senhora... é muito...

—Não consinto...

—Por quem é...

—Muitos recados a sua mãe...

—Ha de presal-os infinitamente...

—Senhor Augusto...

—Senhora D. Rosa Guilhermina...

Emfim, despediram-se! Estavam bonitos! O tio e o sobrinho tocavam-se pelos extremos.

Rosa Guilhermina olhando-se a um espelho para ajuizar do merito da sua pessoa, momentos antes, dizia comsigo:

—Eis alli um perfeito mancebo! Ninguem dirá que é sobrinho d'aquelle bruto! Como é sublime! Aquella linguagem toca!...

Vamos vendo que a filha do arcediago dançava facilmente quando a linguagem tocava...

Faz ella muito bem. Está na flôr da sua idade, e Deus não lhe deu os talentos para escondel-os na terra. O seu coração anceia um confidente; o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma não veio tão cheia de luz para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras são as mulheres que não obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a muitos outros, é porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da creatura, dissera: «A carne do homem é fraca.» Ora, eu, pelos vastos conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher não é mais forte.

E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:

—Vmc.efaz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes aquelle gentil moço, que me parece um genio?

—Embalsame-o, minha senhora; perfume-o á sua vontade (lhe responderia eu), e quando não tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta dos tres reis, que a historia do tempo pôz em primeiro logar...


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