CAPITULO XVIIISe eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.A indignação contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas sensações. A litterata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho aqui alguma cousa nova!»E parece que tinha!Lembrava-se de cinco situações, em varios romances, similhantes á sua. Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava aquelle encontro, lançando ás largas costas da Providencia a predestinação de se verem creanças, e encontrarem-se na idade em que os corações não resistem ao superior destino da sua união. Não ha nada como a mulher espirituosa!O futuro bacharel da sua parte não era tão metaphysico. Quando procurou Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro dromedarios em prosa villã. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito arrobas de carne, terão o seu digno tio Antonio José da Silva.Na manhã immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva, acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do arcediago. O academico depôz respeitoso a offerta nas mãos (que não chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.As mil cousas da conversação, particularmente ácerca de Elisa, resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no jardim a sós com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito, folheava os romances da poetisa.—Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza, quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que imaginar-se póde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso, quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.—E se eu deparasse um homem como seu marido?—Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens, e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a côr na face... Estou certa que v. s.ª, conhecendo a fundo as virtudes de meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circumstancias a privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?! Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua mãe?... desculpe-me, que eu não cuidei que a magoava...—Não me magôa... Isto são reminiscencias da infancia...—Conheceu a mãesinha?—Mal me lembro... vi-a, sendo eu creança de seis ou sete annos...—Ella já morreu?—Penso... que sim...—Que prazer não teria ella em conhecel-a tão linda, tão esperta...—Talvez me odiasse, como me odiou...—Pois ella...—Não vê que me abandonou?—Talvez violentada por circumstancias...—Muito por sua livre vontade...—Sim?! então era uma indigna mãe... e desculpe-me...—De certo era... uma indigna mãe... meu pae nunca me fallou d'ella...—Tal era a differença que elle conhecera entre mãe e filha... Ora, pois; não soffra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua mãe?...—De certo... queria.—Eu estou-me a rir... Esta pergunta não devia fazer-lh'a, sem que a menina tivesse do caracter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso ha de vir com o tempo; e, se o coração lhe não repugnar, acceite-o como marido... Não é rico; mas o seu patrimonio é o amor que elle tem ao trabalho, e o seu talento que lhe promette creditos similhantes aos de seu pae, que tratava pouco dos seus interesses. De pae a filho vai grande differença. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, não é verdade?—Pelo contrario, deleita-me a sua conversação, e captivo-me dos carinhosos desvelos que emprega na minha ventura...Oxalá que eu nunca desmereça no conceito da minha amiga...—Espero que assim seja... Diz-me o coração que teremos de ser muito, muito amigas, que viveremos unidas muitos annos, e que fallaremos com prazer do bello dia que temos passado... Ahi vem o Augusto!... sempre com os livros de volta...—São asCartas a Sophiapor Mirabeau... Não pensei que a senhora D. Rosa conheceria esta obra...—Porquê?—Não é muito propria para leitura de meninas.—Que tem? Se eu entendo as ideias d'esses livros, é que elles não me dizem nada novo; e se as não entendo, nada perco da minha innocencia.—Acaba v. s.ª de apresentar uma ideia que opéra uma completa revolução na minha maneira de encarar as novellas! Tem razão!... Vejo que é não só sublime, mas até rasoavel no seu systema!—Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei docil...—Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião. Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinario...—Não o creia, minha senhora.—Não preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso afoutamente dizer que o não fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa Guilhermina é um portento. Ninguem dirá o que aqui está, sem se lhe importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem acclamações de espertas.—Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o meu espirito precisa d'este alimento.—E o seu coração?—perguntou Augusto.Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, côr de cereja, fez-se mais linda.—São horas de nos retirarmos—atalhou a irmã do negociante, que resumia em si a finura que a natureza caprichosa não quiz regularmente distribuir na sua numerosa e estupida familia.—Menina, dê-me um abraço.Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante asCartas a Sophia... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e feitiços, de parte a parte.Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegildaacompanhava sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinião publica.) A estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia. A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da visinha, batendo-lhe á porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital, declarando, á hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum em casa de Rosa, e que fôra a estanqueira que a mettera n'aquella alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma, traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós tambem.As mulheres dos meus romances quasi todas são honestas pessoas, que se casam. Só quando de todo em todo não posso falsificar a tradição em honra das minhas heroinas é que as sacrifico ao nariz-torto das mães de familia, que, quasi sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignação contra os romances em que os amantes não casam por fim.Benignas senhoras, exultai, que a moral triumpha em todas as minhas obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na fórma do sagrado concilio tridentino e constituição d'este bispado com o senhor Augusto Leite. O juiz dos orphãos concedeu a licença, e o senhor Antonio José da Silva, embriagado da ventura propria, estimou que seu sobrinho arranjasse mulher com dinheiro, unica esperança, que elle negociante tinha de evitar as mendicantes perseguições de sua irmã.Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas phrases, enganam-se. Namoraram-se pelas novellas, e liam ambos a pergunta e a resposta dos dialogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a estas leituras, e lagrimejava de ternura.A constante presença d'esta senhora ao lado d'elles, authorisa-me a dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram occasião de adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu não sei que se tenha feito um namoro mais honesto que aquelle! É um gosto a gente encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao genero humano! A intelligencia gosa, o coração consola-se, a virtude dança a polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seucache-nez!Oh! Bemaventurados, em duplicado, aquelles que me lerem! O futuro fará justiça á candura das minhas intenções!CAPITULO XIXO NOIVADODRAMA EM UM ACTOPERSONAGENSD. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.Antonio José da Silva.D. Angelica Athanasia da Silva.João Alves Rodrigues}Manoel José Fernandes} Convidados.Joaquim João Baptista}O snr. João Pereira, o do chinó.Um encapotado.A scena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de sala decorada, segundo a época.D. Maria Elisa, e seu marido estão sentados no canapé. Á esquerda do senhor Antonio está sua irmã. Os convidados estão em frente do canapé, com as costas voltadas para nós.O relogio de S. Domingos dá meio dia. Ouvem-se as regateiras que apregoam robalinhos na rua.SCENA IO SENHOR ANTONIO(batendo na respectiva perna)Meus amigos, mal diriam vmc.esque eu viesse por fim de contas a casar! Ninguem diga d'esta agua não beberei! Um homem, emquanto anda n'este mundo, não sabe para que veio...O SENHOR FERNANDES(á parte)Ella t'o dirá...O SENHOR ANTONIOEu não tinha, até ha pouco, na cabeça... (sensação nos espectadores emquanto o orador se assôa) não tinha na cabeça a ideia de me casar, porque, emfim, os tempos não vão muito bons para alguns maridos que eu conheço... O nosso visinho João Pereira, do chinó, que o diga...D. MARIA ELISAQue historia é essa do João Pereira, em que o senhor Silva já me fallou de passagem duas vezes?D. ANGELICAOra o que ha de ser? Os nossos peccados, cunhada... É uma mulher que o demonio tentou, Deus me perdôe, se pecco... Não gosto de murmurar... É mesmo uma vergonha... Está vestida e calçada no inferno...D. MARIA ELISAQuem? Não comprehendo...D. ANGELICAQuem ha de ser? Ella, a birbantona, que deu a mão de esposa a um, e anda por ahi sempre... como se diz, Antonio?O SENHOR ANTONIOComo se diz o quê?D. ANGELICAComo é que dizem os prégadores d'esse peccado?O SENHOR ANTONIONão são os prégadores, é o nono mandamento.D. ANGELICAPois sim; mas os prégadores chamam a essas mulheres...indultas...adultas, ou não sei que...O SENHOR FERNANDESAdulteras?D. ANGELICAIsso mesmo... Eu uma cousa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Sancto... Assim que vê um homem na rua a olhar para ella, ás duas por tres, faz-lhe gaifonas com a gata...D. MARIA ELISACom a gata?D. ANGELICA(remedando com a manga do capote de castorina amellada)Põe-se assim com a gata no collo a bulir-lhe na cabeça...D. MARIA ELISAE isso que quer dizer?D. ANGELICAEu sei cá? é o peccado... Acho que a gata lá tem cousa de feitiçaria, porque os homens ficam de bôca aberta para ella!O SENHOR FERNANDESAcho que não é para a gata...O SENHOR BAPTISTAEu tambem sou da mesma opinião... A gata não é má...O SENHOR RODRIGUESO peor é o gato, que a gata boa é, que caça ratos...D. MARIA ELISA(á parte)Que cacafonias!que a gata!que caça!... Apre, que são muito alarves!O SENHOR ANTONIODeixemos lá isso... ella lá sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua cabeça do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lh'o disse a elle... «Olha que essa mulher não te serve... tem má pinta, e não sei, mas ha de te dar que fazer...»SCENA IIOS MESMOS E O SENHOR JOÃO PEREIRAO SENHOR PEREIRA(entrando, sem pedir licença)Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...D. ANGELICA(á parte)Olha o inimigo!... quem o chamou cá?!O SENHOR ANTONIOOra viva o meu amigo e visinho! Esteja bom, passasse muito bem, é o que eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem ceremonia.O SENHOR PEREIRAA bôda e a baptisado, diz lá o outro, não vás sem ser convidado. Eu não estive pelas contas. Somos visinhos ha cincoenta e dous annos, e rapazes da mesma creação. Cá entre nós não ha ceremonias. Vim dar os parabens ao meu amigo e senhor Antonio, e vêr-lhe a sua noiva, que emquanto a mim é esta menina...D. MARIA ELISAUma sua criada.O SENHOR PEREIRACriada dos anjos. Pois, minha visinha, a minha casa é logo adiante d'esta; mettem-se duas portas de permeio; se precisar d'alguma cousa, de mim ou da minha companheira, não tem mais que mandar.D. MARIA ELISAMuito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.O SENHOR PEREIRAEstou bem assim: farto de estar sentado estou eu atraz do mostrador. Com que sim, senhor Antonio, está vmc.ecá no rol dos homens de bem...O SENHOR ANTONIO(com intenção)É verdade... cá estou no rol dos homens de bem...O SENHOR PEREIRAFez vmc.eo que devia. Não ha vida melhor que a de casado. Eu cá de mim não tenho razão de queixa. Estou casado ha dez annos, tres mezes, e vinte e quatro dias, e, graças a Deus, não tive ainda um desgosto!O SENHOR FERNANDES(á parte)Este é dos taes que o sabem no fim.O SENHOR PEREIRAA minha sancta companheira é propriamente uma mulher de casa, e minha amiga, que é mesmo uma cousa! Lá por eu ter mais vinte annos que ella, isso não tira, nem põe. Não é como algumas cá da nossa rua... nós bem sabemos quem ellas são...O SENHOR FERNANDES(á parte)Eu só conheço a d'elle...O SENHOR PEREIRALá porque os maridos não andam espartilhados a dar, com licença... nas canellas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...Arreda com ellas! Eu, se tivesse assim uma, eu não seja João, se lhe não arrebentasse a propria barriga!... A minha Marcellina é uma rapariga, que, se me vir afflicto, vem prantar-se ao pé de mim, e não sahe d'alli sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me cahiu o cabello foi ella que me pôz este chinó na cabeça, e por ahi os tratantes metteram-me sonetos ao chinó por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...D. ANGELICACredo! Anjo bento! vmc.efalla tantas vezes no inimigo! Não diga essa palavra que faz arripios no costado!O SENHOR PEREIRAAhi está a nossa beata com as suasescrupulisações. A gente não sabe como ha de fallar diante de vmc.eA minha Marcellina, ás duas por tres, é diabo para aqui, diabo para acolá; e, se eu lhe digo que não é bom chamar quem está manso e quedo, ella diz que o diabo se chama diabo!...D. ANGELICA(persignando-se)Sancto breve da marca! Cale-se lá com essas blasphemias! Sua mulher, se tivesse juizo, não dizia isso!... Se vmc.elhe désse com o covado pela rabada, ella se calaria...D. MARIA ELISA(á parte)São indecentes!... Se algum futuro author de novellas quizesse descrever fielmente esta scena, teria de ser indecente como elles! Tomára-me eu sósinha!O SENHOR ANTONIOEm que pensas tu, Mariquinhas?D. MARIA ELISAAh!... eu?... não pensava em nada...O SENHOR ANTONIOA modo que estás triste! Aposto que estás a pensar lá n'essas cousas dos astros?D. MARIA ELISADos astros? não... pensava... na minha sorte... (com ironia) que é realmente invejavel. Estou satisfeitissima da deleitosa conversação d'estes senhores, que são sobremaneira recreativos.OS SENHORES BAPTISTA E RODRIGUESPela parte que me toca... muito obrigado...O SENHOR FERNANDES(á parte)Pobre mulher!... e pobre homem!...O SENHOR ANTONIOEntão, Fernandes, estás ahi tão calado!...O SENHOR FERNANDESQue quer que eu lhe diga?O SENHOR ANTONIOQuando te casas?O SENHOR FERNANDESQuando tiver mulher. Ainda não é tarde.O SENHOR ANTONIOIsso não; mas o casamento faz arranjo... Ella tem cincoenta e quatro, mas olha que é um anno para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis, mas cá, segundo os meus calculos, por morte de teu pae não tens nem trinta e seis moedas, porque elle é um gastador, e deixa-te viver lá mettido no quarto a lêr o Carlos Magno, sem te importares do negocio... Teu pae parece-me que não virá... vai-se demorando.O SENHOR FERNANDESJá lhe disse que o meu pae pede desculpa de não vir, porque se sente incommodado da gôta... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antonio os parabens, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como elle, largos annos de felicidade.D. MARIA ELISAMuito agradecida! (á parte) Este falla melhor que os outros...O SENHOR ANTONIOTu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre é bom a gente lêr o Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta passagem da formosa Floripes a Roldão: «Senhor par de França! Os vossos olhos são dous sóes que derramam raios que matam como os lampejos da vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso affecto é mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentesfragas.»O SENHOR FERNANDES(sorrindo)Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.D. MARIA ELISA(sorrindo)De certo...O SENHOR ANTONIOE outras muitas cousas que me não lembram agora.O SENHOR FERNANDES(com ar sarcastico)É pena que vmc.ese esqueça dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!O SENHOR ANTONIOOra diz lá tu algumas passagens...O SENHOR FERNANDESÉ impossivel, porque nunca li o Carlos Magno; mas, á falta d'essa preciosidade litteraria, posso dizer outra qualquer passagem bonita.O SENHOR ANTONIOA apostar que tu não sabes orthographia?O SENHOR FERNANDES(sorrindo)Nada, não sei.O SENHOR ANTONIOPois então diz alli a minha mulher que t'a ensine...O SENHOR FERNANDESFar-me-ia muito particular favor.D. MARIA ELISAEu?!O SENHOR ANTONIOSim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquellas cousas que fazem com que a gente não caia quando a terra anda de redor.O SENHOR FERNANDESE é isso que se chama orthographia?O SENHOR ANTONIO(meio irritado)É, sim, senhor. Olha lá se queres saber mais d'essas cousas que minha mulher!O SENHOR FERNANDESDeus me livre d'isso... (sorrindo a Maria Elisa que abaixa, envergonhada, o rosto) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como hei de saber essas leis com que se regem os astros!...O SENHOR ANTONIOChama-selei d'attrição... Não te rias... é o que te digo, e, senão, ouve: ó Maricas, como se chama isto que nos faz estar de pé, assim direitos? (erguendo-se.)D. MARIA ELISASalvo erro, creio que são as pernas.O SENHOR ANTONIO(sériamente)Isso é verdade; mas, se a terra andasse á roda, a gente cahia para o lado...O SENHOR FERNANDESNão é forçoso que caia para o lado; póde cahir para traz, ou para diante. (Maria Elisa ri-se.)O SENHOR ANTONIOTambem não vou contra isso; mas minha mulher sabe d'uma cousa que faz com que a gente não caia, porque todos os corpos sahem do centro da terra... Olha ella a rir-se! Então enganavas-me, cachorra?... Ah ruimzinha!... (puxando-lhe uma orelha.)O SENHOR FERNANDESSua senhora tem razão... Os corpos, não digo que saiam do centro da terra, mas tendem para lá; e esta tendencia faz que não possam, embora a terra se mova, cahir no espaço.O SENHOR ANTONIOTu não sabes d'essas cousas...O SENHOR PEREIRA,do chinóOs diabos me levem se eu sei o que vossês estão a dizer!D. ANGELICAS. Bento! Elle ahi torna com o berzabum do inimigo ás voltas! Não se póde estar ao pé de vmc.e!... Credo!O SENHOR PEREIRAÓ mulher! deixe fallar a gente!... Eu queria saber como é lá isso de andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre diz cousas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! Já a minha Marcellina se mette tambem a fallar d'essas cousas lá dos livros com o doutor Miranda, e, pelos modos, a rapariga não é tôla de todo. Agora anda ella a congeminar nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem á janella...O SENHOR FERNANDESObservar os astros?O SNR. PEREIRAAcho que sim! A mulher lá tem aquella pancada na mola, e eu deixo-a estudar a natureza, como ella diz...O SENHOR FERNANDESIsso é justo. Não me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?O SENHOR PEREIRAAcho que é o sete-estrello.O SENHOR FERNANDESAh! sim? E que diz ella a respeito d'esse «planeta?»O SENHOR PEREIRAEu sei cá o que ella diz? Está alli á janella duas horas a olhar lá para cima, e quando se deita está fria de neve. Eu já lhe disse: ó mulher! deixa lá essas cousas celestes aos homens que sabem da póda! Tanto faz como nada; ella diz-me não sei que da abobada, e dasmariadasde estrellas... Apostar que o senhor Fernandes não sabe que ha uma estrella chamadavespa, e outrasaturnea?O SENHOR FERNANDESNada, não sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora é que lhe ensina essas cousas?O SENHOR PEREIRAE muitas outras, que me esquecem, porque não tenho as memorias affeitas a esses nomes inglezes e gregos. Se vmc.equizer vêr o que é uma cabecinha ha de fallar com minha mulher...O SENHOR FERNANDESEstou convencido... não é preciso mais nada... Vejo que sua senhora estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de neve, quando a intelligencia vai quente do fogo da sciencia. Não concorda, senhora D. Elisa?D. MARIA ELISAEu?!... não sei se...O SENHOR FERNANDESPois não é da minha opinião?D. ANGELICA(rabugenta)Não é, não, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher não se deve metter lá n'essas trampolinices! Do que ella deve tratar é de governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de encommendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a propria mãe de Deus, e não sabia lá das sciencias, nem dos planetas! Uma mulher honrada não vai de noite vêr á janella o sete-estrello, nem a vespa, ou o bisouro... mau bisouro é o demonio... Deus me perdoe...O SENHOR PEREIRA(pundonoroso)Com que vmc.e, lá porque não tem cabeça para estas cousas, quer que as outras sejam tapadas como vmc.e? Não é má esta! Cada qual trata de si, e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc.egosta de resar novenas. Quem vai contra isso?D. ANGELICAE ella porque não resa novenas? Acha que lhe não são precisas? Pois olhe que... eu já vi quem precisasse de resar menos... Melhor lhe fôra governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e não deixar ir tudo como vai de portas a dentro...O SENHOR PEREIRASabe que mais? trate cá do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc.eé muito murmuradeira...D. ANGELICAEu! murmuradeira!... Ó meu Menino Jesus! inda mais ouvirei! Ó Antonio, já viste uma cousa assim?O SENHOR ANTONIOEstá bom... calem-se lá com essas questões. Cada qualvive como o seu genio lhe pede; mas olha cá, visinho, eu sempre fui teu amigo, e não tenho papas na lingua, quando é necessario. Cá a minha opinião é que não deves deixar vir tua mulher para a janella de noite...O SENHOR FERNANDES(com ironia)Porque se póde constipar...O SENHOR ANTONIONão é isso... é que das más linguas ninguem se livra... Se quer estudar a natureza, ou lá o sete-estrello, ou o que é como se chama, que o faça de dia.O SENHOR PEREIRATu és tôlo, Antonio! Pois os planetas apparecem lá de dia?! Já vejo que não te chama Deus para este caminho!...O SENHOR FERNANDESO senhor João Pereira tem razão. De dia não se descobrem planetas. O padre Theodoro d'Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu pae que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a natureza.O SENHOR PEREIRAVmc.eé que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais d'isso, eu estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ella se entretenha com os planetas lá de cima, do que com certos planetas que andam por ahi a olhar para as janellas, e que não são das melhores cousas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu não tenho até hoje razão de queixa; oxalá que tua mulher te dê a boa vida que a minha me tem dado...O SENHOR ANTONIO(enfurecido)Isso agora!... salvo tal logar!...D. ANGELICALonge vá o agouro, e mais não diga a bôca que tal diz...O SENHOR ANTONIO(para os circumstantes)Que lhes parece esta?! (para elle) Meu amigo, sabes que mais?... Vai muito de cá a lá...D. ANGELICAÓ menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos Remedios, não permittaes que tal aconteça...O SENHOR PEREIRA(formalisado)Que diabo dizem ahi? Se eu os percebo, sêbo! Parece que já jantaram!—Pois minha mulher... sim, pergunto eu...minha mulher... se faz favor de me dizer... com que então a minha Marcellina... digam para ahi o que sabem, linguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser estas benzedellas da nossa sanctinha, e lá esses arrufos teus, Antonio!...O SENHOR FERNANDESNão se irrite, senhor Pereira, que não tem razão. Vmc.eentendeu mal os reparos da senhora D. Angelica e seu irmão. É porque o senhor Antonio não quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...O SENHOR PEREIRAIsso agora é outra cousa... Cada qual tem o seu genio; mas vir cá dizer-me que vai muito de cá a lá, isso tem que se lhe diga. Tanto é a minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem fôr mais rico, coma duas vezes, mas não desdenhe dos outros. O que eu queria dizer-te a respeito da conducta das mulheres é que sou teu amigo, e que oxalá a tua mulher seja como tem sido a minha.O SENHOR ANTONIO(desesperado; com as belfas tremulas)Isso é que eu não quero!... já te disse que não quero e que não ha de ser!...D. ANGELICAE elle a dar-lhe!má mezpara elle!... Valha-o uma figa! Não faça caso, cunhada...D. MARIA ELISAEu sinceramente lhes digo que não sei o motivo d'esta disputa! Se me não engano, a esposa do senhor Pereira tem vocação para a astronomia. É louvavel esse gosto da sciencia. São raras as senhoras que se dedicam ao trabalhoso estudo da natureza...O SENHOR PEREIRA(interrompendo)É como diz, e viva quem sabe fallar!D. MARIA ELISAO senhor Antonio José da Silva diz que...O SENHOR ANTONIOÓ Mariquinhas, é melhor dizeresmeu marido.D. MARIA ELISAMeu marido diz que não quer que eu imite a senhora D. Marcellina.O SENHOR ANTONIONão quero, é tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.D. MARIA ELISAPois bem, eu não a imitarei; não me levantarei de noite a observar a atmosphera, porque realmente não quero ser martyr da sciencia. D'este modo, está acabada a questão. O senhor Pereira consentirá, porque assim lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido usará do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os astros de noite.O SENHOR PEREIRAFallou bem como quem é; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer cousas que é mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que cá quanto ao que eu quiz dizer, a minha birra é que se a senhora D. Mariquinhas fôr honrada como a minha Marcellina, não precisa ser mais.O SENHOR ANTONIOÉs teimoso como um jumento! Já te disse que a minha mulher tem outros brios, e que sabe as obrigações de mulher casada!D. ANGELICAE não ha de dar que fallar como algumas... emfim... cada qual metta a mão na sua consciencia...O SENHOR PEREIRA(solemne)Que quer dizer isso? Então vmc.eacha que minha mulher... Ora tenha juizo, que já é bem tempo de perder o sestro da má lingua... D'estas beatas... Deus me livre d'ellas...D. ANGELICA(aguçando o queixo inferior)Vmc.eestá mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... não me puxe pela lingua, que eu não sou boa...O SENHOR PEREIRAIsso sei eu... que vmc.eé levadinha de todos os diabos... diga-m'o a mim...D. ANGELICA(enfurecida)Sabe que mais? ninguem o cá chamou... Deixe-nos em paz...O SENHOR PEREIRAVmc.eé muito mal creada... O que merecia... sei eu...O SENHOR ANTONIOEstá bom, Angelica! cala-te, João Pereira!... Se não estás bem, vai-te embora; eu não te chamei cá...O SENHOR PEREIRAO asno sou eu em vir cá fazer de homem que sabe acortezia quando é preciso. Olha, meu amigo, emquanto tiveres cá em casa esta senhora Angelica, não has de ter amigo nenhum...D. ANGELICAVá importar-se lá com a que tem em casa, que não tem pouco que guardar.O SENHOR PEREIRAA que eu lá tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc.ena cara. O que vmc.equeria era que eu casasse comsigo, quando casei com ella. Como eu não estive para isso, vinga-se a fallar mal de minha mulher.D. ANGELICAOlha o bezuntão!... Eu quiz lá nunca casar com elle!...O SENHOR ANTONIOAccommodem-se!D. ANGELICASevandija! Más maleitas te colham!O SENHOR ANTONIOAngelica, tapa a bôca.D. ANGELICANão quero!... Pois este desavergonhado não diz que eu quiz casar com elle! Mariola! Sempre é bemcoitadinho!...O SENHOR PEREIRAD'uma pandorca assim não ha nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua truquilheira, quando não havia dizer aqui quem vmc.eé...O SENHOR ANTONIOQuem manda aqui sou eu! Já d'aqui para fóra, João Pereira!(João Pereira, irritado como Ajax, leva as mãos indignadas á cabeça e maquinalmente desloca o chinó. Ouvem-se fungadellas de sorrisos, que exacerbam a cólera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo n'uma attitude perfurante. O senhor Antonio transpira na abundancia do costume. Á lucta succede um profundo silencio, quebrado apenas pelos gemidos convulsos da beata offendida na sua isempção de setenta annos.)SCENA ULTIMAOS MESMOS E UM ENCAPOTADOENCAPOTADO(no limiar da porta que communica para o interior)Senhora Angelica!D. ANGELICAQue queres tu, rapaz?O SENHOR ANTONIOPois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (para Maria Elisa) Aquelle é o rapaz da loja que tem maleitas.D. ANGELICAQue queres tu?O ENCAPOTADOEu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da cama.D. ANGELICACredo! que seria?O ENCAPOTADOResei o credo em cruz, e fui vêr o que era...D. ANGELICAE que viste?!O ENCAPOTADOEra a gata que comia uma gallinha assada, que trago aqui, menos o pescoço que lh'o tinha ella já comido.(O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a gallinha effectivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a victima da gata, e pede a seu irmão poderes discricionarios para vingar a affronta.)UMA VOZEstá o jantar na mesa.
Se eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.
A indignação contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas sensações. A litterata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho aqui alguma cousa nova!»
E parece que tinha!
Lembrava-se de cinco situações, em varios romances, similhantes á sua. Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava aquelle encontro, lançando ás largas costas da Providencia a predestinação de se verem creanças, e encontrarem-se na idade em que os corações não resistem ao superior destino da sua união. Não ha nada como a mulher espirituosa!
O futuro bacharel da sua parte não era tão metaphysico. Quando procurou Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro dromedarios em prosa villã. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito arrobas de carne, terão o seu digno tio Antonio José da Silva.
Na manhã immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva, acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do arcediago. O academico depôz respeitoso a offerta nas mãos (que não chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.
As mil cousas da conversação, particularmente ácerca de Elisa, resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no jardim a sós com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito, folheava os romances da poetisa.
—Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza, quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que imaginar-se póde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso, quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.
—E se eu deparasse um homem como seu marido?
—Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens, e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a côr na face... Estou certa que v. s.ª, conhecendo a fundo as virtudes de meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circumstancias a privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?! Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua mãe?... desculpe-me, que eu não cuidei que a magoava...
—Não me magôa... Isto são reminiscencias da infancia...
—Conheceu a mãesinha?
—Mal me lembro... vi-a, sendo eu creança de seis ou sete annos...
—Ella já morreu?
—Penso... que sim...
—Que prazer não teria ella em conhecel-a tão linda, tão esperta...
—Talvez me odiasse, como me odiou...
—Pois ella...
—Não vê que me abandonou?
—Talvez violentada por circumstancias...
—Muito por sua livre vontade...
—Sim?! então era uma indigna mãe... e desculpe-me...
—De certo era... uma indigna mãe... meu pae nunca me fallou d'ella...
—Tal era a differença que elle conhecera entre mãe e filha... Ora, pois; não soffra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua mãe?...
—De certo... queria.
—Eu estou-me a rir... Esta pergunta não devia fazer-lh'a, sem que a menina tivesse do caracter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso ha de vir com o tempo; e, se o coração lhe não repugnar, acceite-o como marido... Não é rico; mas o seu patrimonio é o amor que elle tem ao trabalho, e o seu talento que lhe promette creditos similhantes aos de seu pae, que tratava pouco dos seus interesses. De pae a filho vai grande differença. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, não é verdade?
—Pelo contrario, deleita-me a sua conversação, e captivo-me dos carinhosos desvelos que emprega na minha ventura...Oxalá que eu nunca desmereça no conceito da minha amiga...
—Espero que assim seja... Diz-me o coração que teremos de ser muito, muito amigas, que viveremos unidas muitos annos, e que fallaremos com prazer do bello dia que temos passado... Ahi vem o Augusto!... sempre com os livros de volta...
—São asCartas a Sophiapor Mirabeau... Não pensei que a senhora D. Rosa conheceria esta obra...
—Porquê?
—Não é muito propria para leitura de meninas.
—Que tem? Se eu entendo as ideias d'esses livros, é que elles não me dizem nada novo; e se as não entendo, nada perco da minha innocencia.
—Acaba v. s.ª de apresentar uma ideia que opéra uma completa revolução na minha maneira de encarar as novellas! Tem razão!... Vejo que é não só sublime, mas até rasoavel no seu systema!
—Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei docil...
—Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião. Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinario...
—Não o creia, minha senhora.
—Não preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso afoutamente dizer que o não fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa Guilhermina é um portento. Ninguem dirá o que aqui está, sem se lhe importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem acclamações de espertas.
—Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o meu espirito precisa d'este alimento.
—E o seu coração?—perguntou Augusto.
Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, côr de cereja, fez-se mais linda.
—São horas de nos retirarmos—atalhou a irmã do negociante, que resumia em si a finura que a natureza caprichosa não quiz regularmente distribuir na sua numerosa e estupida familia.—Menina, dê-me um abraço.
Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante asCartas a Sophia... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e feitiços, de parte a parte.
Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegildaacompanhava sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinião publica.) A estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia. A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da visinha, batendo-lhe á porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital, declarando, á hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum em casa de Rosa, e que fôra a estanqueira que a mettera n'aquella alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma, traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós tambem.
As mulheres dos meus romances quasi todas são honestas pessoas, que se casam. Só quando de todo em todo não posso falsificar a tradição em honra das minhas heroinas é que as sacrifico ao nariz-torto das mães de familia, que, quasi sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignação contra os romances em que os amantes não casam por fim.
Benignas senhoras, exultai, que a moral triumpha em todas as minhas obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na fórma do sagrado concilio tridentino e constituição d'este bispado com o senhor Augusto Leite. O juiz dos orphãos concedeu a licença, e o senhor Antonio José da Silva, embriagado da ventura propria, estimou que seu sobrinho arranjasse mulher com dinheiro, unica esperança, que elle negociante tinha de evitar as mendicantes perseguições de sua irmã.
Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas phrases, enganam-se. Namoraram-se pelas novellas, e liam ambos a pergunta e a resposta dos dialogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a estas leituras, e lagrimejava de ternura.
A constante presença d'esta senhora ao lado d'elles, authorisa-me a dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram occasião de adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu não sei que se tenha feito um namoro mais honesto que aquelle! É um gosto a gente encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao genero humano! A intelligencia gosa, o coração consola-se, a virtude dança a polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seucache-nez!
Oh! Bemaventurados, em duplicado, aquelles que me lerem! O futuro fará justiça á candura das minhas intenções!
D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.Antonio José da Silva.D. Angelica Athanasia da Silva.João Alves Rodrigues}Manoel José Fernandes} Convidados.Joaquim João Baptista}O snr. João Pereira, o do chinó.Um encapotado.
D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.
Antonio José da Silva.
D. Angelica Athanasia da Silva.
João Alves Rodrigues}
Manoel José Fernandes} Convidados.
Joaquim João Baptista}
O snr. João Pereira, o do chinó.
Um encapotado.
A scena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de sala decorada, segundo a época.
D. Maria Elisa, e seu marido estão sentados no canapé. Á esquerda do senhor Antonio está sua irmã. Os convidados estão em frente do canapé, com as costas voltadas para nós.
O relogio de S. Domingos dá meio dia. Ouvem-se as regateiras que apregoam robalinhos na rua.
(batendo na respectiva perna)
Meus amigos, mal diriam vmc.esque eu viesse por fim de contas a casar! Ninguem diga d'esta agua não beberei! Um homem, emquanto anda n'este mundo, não sabe para que veio...
(á parte)
Ella t'o dirá...
Eu não tinha, até ha pouco, na cabeça... (sensação nos espectadores emquanto o orador se assôa) não tinha na cabeça a ideia de me casar, porque, emfim, os tempos não vão muito bons para alguns maridos que eu conheço... O nosso visinho João Pereira, do chinó, que o diga...
Que historia é essa do João Pereira, em que o senhor Silva já me fallou de passagem duas vezes?
Ora o que ha de ser? Os nossos peccados, cunhada... É uma mulher que o demonio tentou, Deus me perdôe, se pecco... Não gosto de murmurar... É mesmo uma vergonha... Está vestida e calçada no inferno...
Quem? Não comprehendo...
Quem ha de ser? Ella, a birbantona, que deu a mão de esposa a um, e anda por ahi sempre... como se diz, Antonio?
Como se diz o quê?
Como é que dizem os prégadores d'esse peccado?
Não são os prégadores, é o nono mandamento.
Pois sim; mas os prégadores chamam a essas mulheres...indultas...adultas, ou não sei que...
Adulteras?
Isso mesmo... Eu uma cousa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Sancto... Assim que vê um homem na rua a olhar para ella, ás duas por tres, faz-lhe gaifonas com a gata...
Com a gata?
(remedando com a manga do capote de castorina amellada)
Põe-se assim com a gata no collo a bulir-lhe na cabeça...
E isso que quer dizer?
Eu sei cá? é o peccado... Acho que a gata lá tem cousa de feitiçaria, porque os homens ficam de bôca aberta para ella!
Acho que não é para a gata...
Eu tambem sou da mesma opinião... A gata não é má...
O peor é o gato, que a gata boa é, que caça ratos...
(á parte)
Que cacafonias!que a gata!que caça!... Apre, que são muito alarves!
Deixemos lá isso... ella lá sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua cabeça do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lh'o disse a elle... «Olha que essa mulher não te serve... tem má pinta, e não sei, mas ha de te dar que fazer...»
(entrando, sem pedir licença)
Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...
(á parte)
Olha o inimigo!... quem o chamou cá?!
Ora viva o meu amigo e visinho! Esteja bom, passasse muito bem, é o que eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem ceremonia.
A bôda e a baptisado, diz lá o outro, não vás sem ser convidado. Eu não estive pelas contas. Somos visinhos ha cincoenta e dous annos, e rapazes da mesma creação. Cá entre nós não ha ceremonias. Vim dar os parabens ao meu amigo e senhor Antonio, e vêr-lhe a sua noiva, que emquanto a mim é esta menina...
Uma sua criada.
Criada dos anjos. Pois, minha visinha, a minha casa é logo adiante d'esta; mettem-se duas portas de permeio; se precisar d'alguma cousa, de mim ou da minha companheira, não tem mais que mandar.
Muito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.
Estou bem assim: farto de estar sentado estou eu atraz do mostrador. Com que sim, senhor Antonio, está vmc.ecá no rol dos homens de bem...
(com intenção)
É verdade... cá estou no rol dos homens de bem...
Fez vmc.eo que devia. Não ha vida melhor que a de casado. Eu cá de mim não tenho razão de queixa. Estou casado ha dez annos, tres mezes, e vinte e quatro dias, e, graças a Deus, não tive ainda um desgosto!
(á parte)
Este é dos taes que o sabem no fim.
A minha sancta companheira é propriamente uma mulher de casa, e minha amiga, que é mesmo uma cousa! Lá por eu ter mais vinte annos que ella, isso não tira, nem põe. Não é como algumas cá da nossa rua... nós bem sabemos quem ellas são...
(á parte)
Eu só conheço a d'elle...
Lá porque os maridos não andam espartilhados a dar, com licença... nas canellas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...
Arreda com ellas! Eu, se tivesse assim uma, eu não seja João, se lhe não arrebentasse a propria barriga!... A minha Marcellina é uma rapariga, que, se me vir afflicto, vem prantar-se ao pé de mim, e não sahe d'alli sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me cahiu o cabello foi ella que me pôz este chinó na cabeça, e por ahi os tratantes metteram-me sonetos ao chinó por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...
Credo! Anjo bento! vmc.efalla tantas vezes no inimigo! Não diga essa palavra que faz arripios no costado!
Ahi está a nossa beata com as suasescrupulisações. A gente não sabe como ha de fallar diante de vmc.eA minha Marcellina, ás duas por tres, é diabo para aqui, diabo para acolá; e, se eu lhe digo que não é bom chamar quem está manso e quedo, ella diz que o diabo se chama diabo!...
(persignando-se)
Sancto breve da marca! Cale-se lá com essas blasphemias! Sua mulher, se tivesse juizo, não dizia isso!... Se vmc.elhe désse com o covado pela rabada, ella se calaria...
(á parte)
São indecentes!... Se algum futuro author de novellas quizesse descrever fielmente esta scena, teria de ser indecente como elles! Tomára-me eu sósinha!
Em que pensas tu, Mariquinhas?
Ah!... eu?... não pensava em nada...
A modo que estás triste! Aposto que estás a pensar lá n'essas cousas dos astros?
Dos astros? não... pensava... na minha sorte... (com ironia) que é realmente invejavel. Estou satisfeitissima da deleitosa conversação d'estes senhores, que são sobremaneira recreativos.
Pela parte que me toca... muito obrigado...
(á parte)
Pobre mulher!... e pobre homem!...
Então, Fernandes, estás ahi tão calado!...
Que quer que eu lhe diga?
Quando te casas?
Quando tiver mulher. Ainda não é tarde.
Isso não; mas o casamento faz arranjo... Ella tem cincoenta e quatro, mas olha que é um anno para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis, mas cá, segundo os meus calculos, por morte de teu pae não tens nem trinta e seis moedas, porque elle é um gastador, e deixa-te viver lá mettido no quarto a lêr o Carlos Magno, sem te importares do negocio... Teu pae parece-me que não virá... vai-se demorando.
Já lhe disse que o meu pae pede desculpa de não vir, porque se sente incommodado da gôta... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antonio os parabens, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como elle, largos annos de felicidade.
Muito agradecida! (á parte) Este falla melhor que os outros...
Tu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre é bom a gente lêr o Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta passagem da formosa Floripes a Roldão: «Senhor par de França! Os vossos olhos são dous sóes que derramam raios que matam como os lampejos da vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso affecto é mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentesfragas.»
(sorrindo)
Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.
(sorrindo)
De certo...
E outras muitas cousas que me não lembram agora.
(com ar sarcastico)
É pena que vmc.ese esqueça dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!
Ora diz lá tu algumas passagens...
É impossivel, porque nunca li o Carlos Magno; mas, á falta d'essa preciosidade litteraria, posso dizer outra qualquer passagem bonita.
A apostar que tu não sabes orthographia?
(sorrindo)
Nada, não sei.
Pois então diz alli a minha mulher que t'a ensine...
Far-me-ia muito particular favor.
Eu?!
Sim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquellas cousas que fazem com que a gente não caia quando a terra anda de redor.
E é isso que se chama orthographia?
(meio irritado)
É, sim, senhor. Olha lá se queres saber mais d'essas cousas que minha mulher!
Deus me livre d'isso... (sorrindo a Maria Elisa que abaixa, envergonhada, o rosto) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como hei de saber essas leis com que se regem os astros!...
Chama-selei d'attrição... Não te rias... é o que te digo, e, senão, ouve: ó Maricas, como se chama isto que nos faz estar de pé, assim direitos? (erguendo-se.)
Salvo erro, creio que são as pernas.
(sériamente)
Isso é verdade; mas, se a terra andasse á roda, a gente cahia para o lado...
Não é forçoso que caia para o lado; póde cahir para traz, ou para diante. (Maria Elisa ri-se.)
Tambem não vou contra isso; mas minha mulher sabe d'uma cousa que faz com que a gente não caia, porque todos os corpos sahem do centro da terra... Olha ella a rir-se! Então enganavas-me, cachorra?... Ah ruimzinha!... (puxando-lhe uma orelha.)
Sua senhora tem razão... Os corpos, não digo que saiam do centro da terra, mas tendem para lá; e esta tendencia faz que não possam, embora a terra se mova, cahir no espaço.
Tu não sabes d'essas cousas...
Os diabos me levem se eu sei o que vossês estão a dizer!
S. Bento! Elle ahi torna com o berzabum do inimigo ás voltas! Não se póde estar ao pé de vmc.e!... Credo!
Ó mulher! deixe fallar a gente!... Eu queria saber como é lá isso de andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre diz cousas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! Já a minha Marcellina se mette tambem a fallar d'essas cousas lá dos livros com o doutor Miranda, e, pelos modos, a rapariga não é tôla de todo. Agora anda ella a congeminar nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem á janella...
Observar os astros?
Acho que sim! A mulher lá tem aquella pancada na mola, e eu deixo-a estudar a natureza, como ella diz...
Isso é justo. Não me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?
Acho que é o sete-estrello.
Ah! sim? E que diz ella a respeito d'esse «planeta?»
Eu sei cá o que ella diz? Está alli á janella duas horas a olhar lá para cima, e quando se deita está fria de neve. Eu já lhe disse: ó mulher! deixa lá essas cousas celestes aos homens que sabem da póda! Tanto faz como nada; ella diz-me não sei que da abobada, e dasmariadasde estrellas... Apostar que o senhor Fernandes não sabe que ha uma estrella chamadavespa, e outrasaturnea?
Nada, não sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora é que lhe ensina essas cousas?
E muitas outras, que me esquecem, porque não tenho as memorias affeitas a esses nomes inglezes e gregos. Se vmc.equizer vêr o que é uma cabecinha ha de fallar com minha mulher...
Estou convencido... não é preciso mais nada... Vejo que sua senhora estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de neve, quando a intelligencia vai quente do fogo da sciencia. Não concorda, senhora D. Elisa?
Eu?!... não sei se...
Pois não é da minha opinião?
(rabugenta)
Não é, não, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher não se deve metter lá n'essas trampolinices! Do que ella deve tratar é de governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de encommendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a propria mãe de Deus, e não sabia lá das sciencias, nem dos planetas! Uma mulher honrada não vai de noite vêr á janella o sete-estrello, nem a vespa, ou o bisouro... mau bisouro é o demonio... Deus me perdoe...
(pundonoroso)
Com que vmc.e, lá porque não tem cabeça para estas cousas, quer que as outras sejam tapadas como vmc.e? Não é má esta! Cada qual trata de si, e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc.egosta de resar novenas. Quem vai contra isso?
E ella porque não resa novenas? Acha que lhe não são precisas? Pois olhe que... eu já vi quem precisasse de resar menos... Melhor lhe fôra governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e não deixar ir tudo como vai de portas a dentro...
Sabe que mais? trate cá do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc.eé muito murmuradeira...
Eu! murmuradeira!... Ó meu Menino Jesus! inda mais ouvirei! Ó Antonio, já viste uma cousa assim?
Está bom... calem-se lá com essas questões. Cada qualvive como o seu genio lhe pede; mas olha cá, visinho, eu sempre fui teu amigo, e não tenho papas na lingua, quando é necessario. Cá a minha opinião é que não deves deixar vir tua mulher para a janella de noite...
(com ironia)
Porque se póde constipar...
Não é isso... é que das más linguas ninguem se livra... Se quer estudar a natureza, ou lá o sete-estrello, ou o que é como se chama, que o faça de dia.
Tu és tôlo, Antonio! Pois os planetas apparecem lá de dia?! Já vejo que não te chama Deus para este caminho!...
O senhor João Pereira tem razão. De dia não se descobrem planetas. O padre Theodoro d'Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu pae que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a natureza.
Vmc.eé que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais d'isso, eu estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ella se entretenha com os planetas lá de cima, do que com certos planetas que andam por ahi a olhar para as janellas, e que não são das melhores cousas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu não tenho até hoje razão de queixa; oxalá que tua mulher te dê a boa vida que a minha me tem dado...
(enfurecido)
Isso agora!... salvo tal logar!...
Longe vá o agouro, e mais não diga a bôca que tal diz...
(para os circumstantes)
Que lhes parece esta?! (para elle) Meu amigo, sabes que mais?... Vai muito de cá a lá...
Ó menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos Remedios, não permittaes que tal aconteça...
(formalisado)
Que diabo dizem ahi? Se eu os percebo, sêbo! Parece que já jantaram!—Pois minha mulher... sim, pergunto eu...minha mulher... se faz favor de me dizer... com que então a minha Marcellina... digam para ahi o que sabem, linguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser estas benzedellas da nossa sanctinha, e lá esses arrufos teus, Antonio!...
Não se irrite, senhor Pereira, que não tem razão. Vmc.eentendeu mal os reparos da senhora D. Angelica e seu irmão. É porque o senhor Antonio não quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...
Isso agora é outra cousa... Cada qual tem o seu genio; mas vir cá dizer-me que vai muito de cá a lá, isso tem que se lhe diga. Tanto é a minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem fôr mais rico, coma duas vezes, mas não desdenhe dos outros. O que eu queria dizer-te a respeito da conducta das mulheres é que sou teu amigo, e que oxalá a tua mulher seja como tem sido a minha.
(desesperado; com as belfas tremulas)
Isso é que eu não quero!... já te disse que não quero e que não ha de ser!...
E elle a dar-lhe!má mezpara elle!... Valha-o uma figa! Não faça caso, cunhada...
Eu sinceramente lhes digo que não sei o motivo d'esta disputa! Se me não engano, a esposa do senhor Pereira tem vocação para a astronomia. É louvavel esse gosto da sciencia. São raras as senhoras que se dedicam ao trabalhoso estudo da natureza...
(interrompendo)
É como diz, e viva quem sabe fallar!
O senhor Antonio José da Silva diz que...
Ó Mariquinhas, é melhor dizeresmeu marido.
Meu marido diz que não quer que eu imite a senhora D. Marcellina.
Não quero, é tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.
Pois bem, eu não a imitarei; não me levantarei de noite a observar a atmosphera, porque realmente não quero ser martyr da sciencia. D'este modo, está acabada a questão. O senhor Pereira consentirá, porque assim lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido usará do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os astros de noite.
Fallou bem como quem é; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer cousas que é mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que cá quanto ao que eu quiz dizer, a minha birra é que se a senhora D. Mariquinhas fôr honrada como a minha Marcellina, não precisa ser mais.
És teimoso como um jumento! Já te disse que a minha mulher tem outros brios, e que sabe as obrigações de mulher casada!
E não ha de dar que fallar como algumas... emfim... cada qual metta a mão na sua consciencia...
(solemne)
Que quer dizer isso? Então vmc.eacha que minha mulher... Ora tenha juizo, que já é bem tempo de perder o sestro da má lingua... D'estas beatas... Deus me livre d'ellas...
(aguçando o queixo inferior)
Vmc.eestá mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... não me puxe pela lingua, que eu não sou boa...
Isso sei eu... que vmc.eé levadinha de todos os diabos... diga-m'o a mim...
(enfurecida)
Sabe que mais? ninguem o cá chamou... Deixe-nos em paz...
Vmc.eé muito mal creada... O que merecia... sei eu...
Está bom, Angelica! cala-te, João Pereira!... Se não estás bem, vai-te embora; eu não te chamei cá...
O asno sou eu em vir cá fazer de homem que sabe acortezia quando é preciso. Olha, meu amigo, emquanto tiveres cá em casa esta senhora Angelica, não has de ter amigo nenhum...
Vá importar-se lá com a que tem em casa, que não tem pouco que guardar.
A que eu lá tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc.ena cara. O que vmc.equeria era que eu casasse comsigo, quando casei com ella. Como eu não estive para isso, vinga-se a fallar mal de minha mulher.
Olha o bezuntão!... Eu quiz lá nunca casar com elle!...
Accommodem-se!
Sevandija! Más maleitas te colham!
Angelica, tapa a bôca.
Não quero!... Pois este desavergonhado não diz que eu quiz casar com elle! Mariola! Sempre é bemcoitadinho!...
D'uma pandorca assim não ha nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua truquilheira, quando não havia dizer aqui quem vmc.eé...
Quem manda aqui sou eu! Já d'aqui para fóra, João Pereira!
(João Pereira, irritado como Ajax, leva as mãos indignadas á cabeça e maquinalmente desloca o chinó. Ouvem-se fungadellas de sorrisos, que exacerbam a cólera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo n'uma attitude perfurante. O senhor Antonio transpira na abundancia do costume. Á lucta succede um profundo silencio, quebrado apenas pelos gemidos convulsos da beata offendida na sua isempção de setenta annos.)
(no limiar da porta que communica para o interior)
Senhora Angelica!
Que queres tu, rapaz?
Pois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (para Maria Elisa) Aquelle é o rapaz da loja que tem maleitas.
Que queres tu?
Eu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da cama.
Credo! que seria?
Resei o credo em cruz, e fui vêr o que era...
E que viste?!
Era a gata que comia uma gallinha assada, que trago aqui, menos o pescoço que lh'o tinha ella já comido.
(O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a gallinha effectivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a victima da gata, e pede a seu irmão poderes discricionarios para vingar a affronta.)
Está o jantar na mesa.