CAPITULO XX

CAPITULO XXEstá, portanto, casada a senhora D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Temol-a na rua das Flores, e deixal-a lá estar. Que se embriague dos carinhos do nosso bom amigo Antonio José. Se a riqueza satisfaz plenamente as suas ambições, é muito rica, póde cortar por largo, tem á sua disposição um homem capaz de tudo, menos de resignar-se com a felicidade do seu visinho João Pereira, que Deus tenha na bemaventurança dos pobres de espirito, que são quasi sempre os ricos de materia.Vamos encontrar Rosa Guilhermina tambem casada com Augusto Leite. Sou o primeiro a confessar que o meu romanceestá cahindo muito! Um casamento ainda póde aturar-se no fim do romance. A gente gosta de vêr recompensados os tormentos de dous amantes com o prosaico destino de todos os tôlos e espertos. Ha casos, porém em que o casamento, em vez de ser o ultimo, deve ser o primeiro martyrio das personagens de uma novella. Quantas vezes eu leio uma, em que se me arrancam lagrimas de compaixão por dous entes que se adoram, a despeito de mil estorvos que lhes diluem em lagrimas os bellos olhos! Consterno-me; anceio a ultima pagina em que vão ser coroadas por um gôso duradouro as suas agonias... E essa ultima pagina diz-me que se casaram! «Faltava-lhes esta!» digo eu então, arremessando com piedosa indignação o livro!Ainda um casamento... passe! Mas dous casamentos!... É abusar dos dons da igreja, ou romantisar o facto mais prosaico d'esta vida! Isto em mim creio que é falta de imaginação, ou demasiado servilismo á verdade!Se Deus me chamasse para este caminho, como dizia, a respeito do estudo da natureza, o senhor João Pereira ao seu visinho, de certo não casava estas mulheres, tão depressa. Acho que o melhor era trazel-as por ahi um pouco de tempo a dar escandalos. Rosa deveria apaixonar-se por um major de cavallaria que lhe faria o favor de a inscrever no productivo catálogo das mães de familia. Depois o major era promovido a tenente coronel, e ia commandar dragões de Chaves, do que resultava (que palpitante não seria isto!) a boa da rapariga tomar duas onças de verdete n'um copo d'agua, e morrer amaldiçoando o perfido! Que cousa tão bonita! Hei de aproveital-a no primeiro romance que escrever, e que desde já se assigna nas lojas do costume.Ora, Maria Elisa, essa... que havia de ser essa?... Eu entendo que Maria Elisa devia namorar-se d'um marquez. E vai depois este marquez tinha casado clandestinamente com Joanna Fagundes, criada da casa. E vai depois, constando á dita Fagundes que seu marido namorava Maria Elisa, a espadauda moçoila n'uma bella tarde, procura-a em casa, e mette-lhe os tampos dentro com uma cadeira. Elisa expira nos braços d'um sargento de policia, e Joanna Fagundes deixa cahir a mantilha, exclamando:«Eu sou a marqueza de tal!»O leitor ficava maravilhado do successo, e contava á familia a passagem com as lagrimas nos olhos.Espero tambem não perder esta ideia, e o leitor terá occasião de avaliar duas obras primas. Por emquanto, peço aorespeitavel publico que suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.Já agora, porém, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou conta da administração da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as horas em deliciosas palestras sobre aExperiencia amorosa, eSophia ou o Consorcio violentado, romances muito lidos n'aquelle tempo.Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite não era certo á hora da leitura, e vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lêr asViagens de Gullivera sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos, que lhe empatavam o tempo até ás 11 horas da noite.Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher lhe perguntava a razão da demora, encarregava sua mãe de responder suavemente, porque a paciencia já lhe não dava azo para tantas satisfações.Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua formatura, e convenceu sua mulher de que não era costume as mulheres acompanharem seus maridos ao fóco da immoralidade. Rosa ficou, portanto, na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas, pedindo-lhe que lêsse aJoaninha, ou a Engeitada generosa. Seu marido escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras galanterias a que o academico, diga-se a verdade, não dava a maior importancia.E vejamos porquê:Augusto Leite tinha uma paixão unica: era o jogo; mas o jogo fôra o seu inferno, obrigára-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro não lhe era mais propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixão com mais ardor.Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle, desde o primeiro anno, e queviera ao Porto durante as ferias grandes, em que se realisára o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordão de ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares de chinelas, umas côr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afóra um capote de castorina côr de mel. De mais a mais, obrigára-se elle a tel-a em sua companhia, com tanto que ella não fizesse barulho.As condições estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e conseguira, além dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos de cordovão com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que são as mulheres mais feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve muito beijo, muita saudade, foram á missa do gallo á Sé, comeram muitos confeitos de chocolate, e não tiveram tempo de lêr romances. Os outros dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa revelação a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e sentiu a innocente vaidade de ser pae.O academico partiu, e d'aqui até aos Carvalhos foi imaginando o systema de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis, perdidos até ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que não duvidou contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de sua mulher eram só propriedades.O imaginado systema falhou, ou pelo menos não tinha vingado ainda, quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.Revoltado contra o traiçoeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu tambem. As meditações incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra, onde dissipára seis mil cruzados, e ficára devendo dous.No Porto eram geralmente sabidas as dissipações de Augusto Leite. Sua mulher fôra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphãos é que não era tão sublime; e, instigado por o senhor Antonio José da Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto Leite quiz provar que tinha muito juizo, masparece que provou de mais, e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphãos, o mais que fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo dissipador. Tenho á vista os autos d'este processo, e sou obrigado a confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e Pereira de Mello.Era um magistrado probo. Permittam esteentre-parenthesis, porque o meu fraco é chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas, porque os ordenados não chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo já deu esta razão em pleno parlamento, e desde esse dia todos os magistrados são probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e as meias de seda, a rectidão e os bofes da camisa ficam sendo insignias de todos os magistrados.Que é o que eu vinha dizendo? Não ha nada que me incommode tanto como ter de lêr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois é verdade: nasceu a tal menina, e foi baptisada com o nome deAssucena, da qual se ha de fazer larga e pungentissima chronica.4Era uma linda creancinha, que a mãe offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto não eram as creanças. Apenas a tomava dos braços de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braços da avó, que, por força, queria que a pequena se parecesse com ella.Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher não bastavam a desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre senhora. Passeava sósinho no quintal, e, quando a timida mulher se aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.—Eu desconheço-te!...—dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mão insensivel—Que tens tu, Augusto?... já me não adoras com aquelles extremos de ha um anno? Que te fiz? Não tenho eu sido tão igual para ti?—Tens, Rosa... Não repares na minha tristeza... Isto é organisação...—Pois assim variam as organisações!... Grande mudança transfigurou o teu genio!...—Que queres!... Eu não me fiz...—Pois sim; mas porque soffres?!—Porque não sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administração d'uma casa...—Mas tenho eu culpa de tal infamia!... Não fui eu propria fallar com o juiz?! Não empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer governar o que é nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...—Não és... eu não te accuso... mas deixa-me, se não pódes remediar esta punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas trevas, á sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vós, ou a minha dignidade nunca mais erguerá a fronte diante dos homens! (Reminiscencias d'um romance intitulado:EMILIA DE TOURVILLE, OU OS MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIÇÃO.) Feriram-me na corda mais sensivel da minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheço, profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das operações do intellecto são! (Ideias pilhadas a dente naSCIENCIA DOS COSTUMES.) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha fortuna, por que jogo!... Quem póde privar-me de abrir com uma alavanca de ouro a minha propria sepultura! (Pensamento soffrivel, roubado aoJOGADOR, comedia de Regnard.)—E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?—Acho... preciso d'esta distracção; fóra do jogo não vivo...—Pois joga...—E o dinheiro?... que é do dinheiro? Não vês que nos dão para a nossa subsistencia quarenta mil reis cada mez?—Mas temos outros recursos...—Quaes?!—A nossa prata, que está avaliada em cinco mil cruzados... vende-a.—Não te zangas por isso?—Não, filho!... Eu dera a vida pela tua tranquillidade... Não é ella tua? Se o desejavas fazer, porque o não tens feito?...Dias depois, Augusto Leite vendia a prata, que tinha sido o thesouro mais querido do arcediago de Barroso, e partira para Coimbra, combinando as fórmas d'um novo systema de jogo.No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata, e este bilhete:«Não desdenhes uma lembrança da tua velha amiga. Comprei essa prata, e quiz presentear tua filha com ella.«Maria Elisa.»A prata fôra comprada pelo senhor Antonio José da Silva.CAPITULO XXIJá não viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.O senhor Antonio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja de pannos e algodões, traspassando-a. Fôra esta a primeira exigencia de sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco ás razões frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de João Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua visinha, que lhe não dava tréla.Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da Rainha, que n'esse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de lhe roer a unha d'um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de commemorar todas as lagrimas d'este desventurado enredo.O senhor Antonio José da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade custou muitospadre-nossosa sua irmã, que esperava todos os dias um raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram n'esse tempo um pouco melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisação não tinha ainda inventado o cascalho.O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem, e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram taes os solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas flagellaram os seus rofêgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeição do costume.Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas de seu marido não comportavama agitação febril do seu espirito. Ia, portanto sósinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas forças musculares.A Providencia nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça! Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha exterior do repolho; emquanto o bom cidadão classificava methodicamente a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia; emquanto, finalmente, o negociante retirado legava á humanidade um prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo cousas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vão comprar tarlatanas, e rendas.O leitor, se tem attendido á melhor historia que se tem escripto n'estes ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu ás bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores. Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocação para a mulher do seu proximo! Cahe-me da mão a penna indignada por se vêr na dura precisão de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o véo da caridade esta ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou inflingir ao leitor pudibundo! Não é possivel. Sou muito amigo do publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois, primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das tentações hediondas d'este grande peccador, que a estas horas já sabe o bem ou mal que fez!...Fernandes (proh pudor!) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que é sempre um sugeito respeitavel, ainda que seja um grande tôlo; ou um grande maroto!Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fôra o primeiro immoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina, esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assidua cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer foi elle! Não queremos fazer pêso aos seus enormes peccados, mas releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o «planeta sete-estrello»! Á sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem sectarios, graças á civilisação que vai ensinando os limites dos deveres, não só internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue d'aquelle homem, que (vox faucibus hæsit!) não havia mulher casada, com um palmo de cara soffrivel, que o réprobo de Deus e dos maridos não tentasse abysmar nas profundezas do báratro perpetuo!Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal á senhora Marcellina, que não é digna dodom, attendendo á villã fraqueza com que se deixou embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que já me fez suar tres vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeições, e cynico na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam depressa. Esta segunda immoralidade é uma questão á parte. A nossa missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de Athenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir Maria Elisa!O peor não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraizo, cedeu á tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, não me recordo bem) ás calidas manifestações d'aquelle grande desaforado, perverso, dissoluto, scelerado, e não sei mesmo se concussionario!Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria Elisa. A sua habitual direcção era á Ponte-da-Pedra, a uma legua do Porto, na estrada de Braga.Ahi apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala da estalagem, que já n'esse tempo era asdelicias dos honrados amadores de peixe frito, e azeitona. E n'essa sala... (digitis callemus et aure!... Soccorre-me, meu velho Horacio!) encontrava sempre esse homem para o qual o meu vocabulario de indignação não tem um nome adequado! E isto aconteceu muitas vezes, emquanto o senhor Antonio sachava os repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que dificuldades na curvatura da columna vertebral!Tres mezes, seis, nove, um anno esta pouca vergonha! E o céo não tinha raios para o impio, e o senhor Antonio não tinha n'aquelle coração um presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia ha alguma cousa que deve occupar a cabeça d'um homem sensato!A Providencia, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente que os Antonios Josés levem no somno a palma ao cantor de Ulysses, que tambem dormitou emquanto Penélope fazia muitas cousas, em que se parecia com Maria Elisa. Ora já não é pequena gloria para o senhor Antonio José collocar-se a par de Ulysses!Era em uma bella tarde de agosto.Maria Elisa sahira para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antonio ficára n'um banho de tina, chafurdando como o proprio tubarão de barbatanas. Quando sahiu do banho, achou-se fresco, como é natural, e resolveu dar um passeio, e, o que mais é, surprender sua mulher, que devia ficar contentíssima de tal surpreza.Ao pensamento seguiu-se a execução. O senhor Antonio repartiu as suas duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por aquella estrada fóra! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo do vulto magestoso do senhor Antonio, parecia consubstanciada na organisação do seu dono! Iam contentíssimos!—Lá está a carruagem!—disse elle, exultando, á sua jumenta, com a qual tivera um longo colloquio, em que a submissa interlocutora não fôra menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quizera conceder honras de Balaam.Pararam á porta da estalagem. O senhor Antonio não queria fazer ruido, e perguntou baixinho:—Onde está a dona da carruagem?—Está lá em cima com o primo.—Com o primo!—exclamou elle com um som de ventriculo.—Sim, senhor, o primo...—Quero vêl-a...E subia as ingremes escadas, agarrado ao corrimão.Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo immediato, e escapára-se pelos pinhaes visinhos, sem ser visto.O senhor Antonio estava diante de sua mulher, solemne e magestoso como todos os maridos em similhantes apertos. Queria fallar, e parece que a eloquencia lhe ficava estagnada nos papos do pescoço que oscillavam como duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abysmo da sua situação, e a unica imagem que lhe apparecia aos olhos pávidos era João Pereira, o do chinó!Angustias d'estas... não tem nome na terra! Cahiu, como forçado por um enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo d'esta avalanche de carne, acordou os eccos da estalagem.Maria Elisa, essa, pallida e confusa na surpreza do crime surprendido, aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:—Que tem?...—Que tenho?... perguntas-me o que tenho?—Sim!... pois que fiz eu?!—O que me fizeste?!—Sim!... o que lhe fiz?!—O que lhe fiz?!diz ella.—Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha commoção?—Tu escarneces de mim!... Que primo é esse que estava comtigo?—Um primo!?...—Sim, um primo... quem é esse primo, que nunca me fallaste n'elle?... Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ella te dirá quem é que me disse que tu estavas aqui com um primo... Espera ahi...O senhor Antonio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da sala, e tomava fôlego para chamar a estalajadeira, quando Elisa, atordoada da surpreza, mas não de todo, correu a elle, embaraçando-o do vergonhoso proposito.—Não chame... que é uma vergonha...—Então sempre é verdade, que me és infiel!... Deshonraste, Maria Elisa, um homem a quem deves tudo!... É assim que se é mulher honrada!... Foi para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeço... Eu morro!... Que dirá o mundo!...O senhor Antonio começava-lhe a dar cuidado o que diriao mundo. N'estas enfermidades, o temor do que o mundo dirá é sempre um symptoma favoravel; porque o mundo cala-se depressa, e as funcções vitaes do espirito entram no seu curso regular.Maria Elisa não era tão esperta como eu suppunha. Ficou estupidamente surprendida. Não teve nenhuma lembrança feliz, que obrigasse seu marido a pedir-lhe inclusivamente perdão da calumnia injuriosa! Cahiu com miseravel imbecilidade n'um torpor moral, indigno da sua experimentada philosophia. Deu-lhe para amuar, e morder o labio inferior, mas não com tanta força que espirrasse sangue. Ella sabia fazer as cousas com prudencia; e, com quanto soffresse bastante na alma, parece que poupava o corpo como cousa sua, e não lhe quero eu mal por isso. Uma mulher, como eu seria se o fosse, deve fazer muito por que o corpo se não sinta das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais envelhecida que esteja não se vê. O corpo tem só uma, e essa está sujeita á maldita perfeição das lentes que lhe não deixam uma ruga precursora de decadencia sem demorada analyse.Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia de reduzil-os á quinta essencia do amor, que é a demencia. Com preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um curioso estudo dos scepticos. Estas feras é que eu amansaria. Se eu conseguisse tornar-me objecto dos seus estudos physiologicos, prometto-vos que a seita ridiculamente comica doscansados, dosscepticos, e dosnão comprehendidosacabava como as preciosas ridiculas de Luiz XIV.Querem saber o que eu fazia? Ahi vai... É um serviço gratuito que eu offereço ás mulheres, embora provoque inimizades de homens, que são realmente os entes que menos me incommodam. N'este mundo ha só duas cousas que me affligem: são os maus charutos, e madrugadas antes de uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver callos e rheumatismo.Se eu fosse mulher com uma cara soffrivel, estabelecia para meu uso as seguintes theorias:SolteiraTendo de quinze a vinte e cinco annos, dava-me ares de candida innocencia, e singeleza patriarchal. Olharia este ou aquelle importuno, mas só com tres partes d'um ôlho, imaginando que elle tinha quatro. Far-me-ia passar por myope,para que ninguem reparasse no olhar penetrante com que os myopes costumam encarar os objectos a certa distancia. Não usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No theatro teria a barba sempre apoiada na convexidade da mão, e nunca pegaria do binóculo sem reparar que a luva retezada não tivesse rugas.Com as lentes attestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista, como dizem os francezes, pelo rebanho de Epycuro, que somos nós os miseraveis estafermos de calças.Surprendida, retirava os olhos com indignada commoção, e perguntaria á mamã se o vestido de D. Efigenia, ou de D. Simplicia não era de pessimo gosto.No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre occulta pelo parapeito do camarote.Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, não sahia nunca sem lançar com languida graça uma pelliça pelos hombros. Nos bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada offerta d'um fôfo, ou d'um rebuçado de chocolate. Liquidos, excepto agua limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço de uma rôla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de victima sacrificada ás conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do tempo entretel-o-ia com o palito.Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigestão.Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece profundamente as irrisorias pieguices do homem.Cheguei á especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na estação do theatro lyrico.Se vivesse no Porto, colheria as melhores flôres da minha corôa na estufa do real theatro de S. João, e escolheria de preferencia certos catos reaes que eu lá conheço. Eu denominocato real o leitor, qualquer que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito outras tantas a respeito do scepticismo. É cato, de trapeira pelo menos (esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco minutos na sua pallida physionomia.Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher litterata, porque, do contrario, agradeço á Providencia o favor que me fez de me atirar qual sou á torrente dos acontecimentos masculinos.Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um d'esses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se, insaciaveis de espirito, precisassem dar á materia todos os repellões, que as turbas comtemplam como terremotos do talento.Logo que eu conseguisse prender-lhe a attenção, aventuraria um d'esses sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas, mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma fabulosa semsaboria.A fera, domesticada no seu sanguinario scepticismo, procuraria revelar-me dez paginas intimas da sua agonia dilacerante. Fallar-me-ia quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria Lazaro, levantando-se do tumulo á voz do Christo: e acabaria por pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a morte.O que eu faria, então, attenciosas leitoras, não sei se alguma de vós já teve a condescendencia de o fazer. Mandava-o á meia noite apparecer debaixo da minha janella; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de cheiro; sendo na semana sancta, quatro confeitos; e, no Natal, uma tigelinha de ovos moles.A humanidade estava vingada.Ora aqui está o que eu faria, sendo solteira.CasadaSendo casada, eu era, com grande despeito da mulher d'um certo ministro da fazenda do Egypto, chamado Putiphar, e da mulher do senhor Antonio José da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de necrologios diriam depois:Era uma esposa carinhosa, o modelo das mães, e uma senhora virtuosa a todos os respeitos. É verdade que não é necessario ser tanta cousa para, á sahida d'este mundo, deixar os jornaes encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que eu lhes prometto uma boa duzia de epithetos.Eu seria não só o que me fizessem ser os constructores de necrologios e epitaphios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes conhecidas, e muitas outras que ninguem conhece. Seria, por abreviar moralidades, que me dão grande trabalho, e aborrecimento aos leitores, seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.O que o senhor Antonio seria, isso é que eu não sei; mas o que elle estava sendo, em verdade vos digo, que não deve ser inveja de ninguem!A eloquencia dolorosa, que o auxiliou no choque da surpreza, falhou-lhe. Quiz fulminar a perjura com uma apostrophe corrosiva, e não lhe occorreu nada a proposito. Um pensamento ignominioso esvoaçára-lhe na cabeça febril... Teve tentações de esmagal-a contra a parede do quarto em que esta scena attribulada corria desapercebida!O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as affrontas orgulhosas com que tentára ferir a honra do seu visinho João Pereira.No auge da desesperação, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um tremulo de sezão vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que o senhor Antonio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher á sua perfidia.Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna,e acabava o conto aqui. Não ha nada mais semsabor que a situação da mulher desleal surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando os deuses! Porque não disse o senhor Antonio alguma cousa fóra do commum?Porque não fez estylo de marido, que é o mais mascavado de todos os estylos? Porque não exclamou: «Perfida mulher! hei de beber-te o sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!»Com estas palavras já eu compunha um capitulo, porque as outras tolices encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo Antonio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu genero, não era mau.Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella não pareçam dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta, que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ella faria á sua liberdade.O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta contemplavam silenciosos a sua dôr. A lympha dos regatos era como um arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem aproximou-se.—O senhor veio a pé?—perguntou ella, vendo seu marido encostado a um pilar da ramada.—Que lhe importa?—redarguiu o marido convulso, mettendo as mãos nos bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca figura d'uma talha chineza.—Porque não entra na carruagem?—replicou a carinhosa esposa, aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma fabrica de fundição.—Venha... eu lhe explicarei tudo... verá que estou innocente, ha de arrepender-se de me tractar assim...—proseguiu ella, com o tremor de voz, que precede as lagrimas.—Como innocente!—murmurou o senhor Antonio, um pouco modificado nas caretas da sua furia legitima.—Sim... innocente... Em casa lhe contarei tudo...—Pois póde lá ser que estejas innocente?... Tu estás a mangar comigo!...—Verá que não sou digna da sua cólera, e que os seus ciumes são injustos... A affronta que fez ao meu caracter de mulher casada, tarde ou cedo lhe fará remorsos, senhor Antonio José da Silva!...O tragico entono d'estas palavras acobardára os espiritos briosos do marido. O senhor Antonio julgou-se algoz d'aquella victima; e, se ella teima, haviamos de vêl-o ajoelhar aos pés do innocente holocausto do seu ciume, e pedir-lhe perdão.Maria Elisa, restituo-te os teus creditos! Andaste perfeitamente, por fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu fizeste.Em 1819 ninguem faria mais do que tu!Hoje... serias d'uma simplicidade boçal.CAPITULO XXIIA seu tempo saberemos até que ponto o senhor Antonio podia ser civilisado por sua mulher.Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.Antes de entrarmos, reparemos n'esta mulher que bateu á porta primeiro que nós.—Quem é?—perguntou da janella uma criada.—Faz favor de dizer á senhora D. Rosa que está aqui uma mulher, que lhe quer fallar.—Que lhe quer?—A vmc.enão lhe quero nada, é a sua ama.—Quer pedir-lhe alguma esmola?—Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.—Pois para isso escusa de fallar á senhora: pegue lá... Então não levanta do chão os dez reis?!—Não levanto, porque lhe não pedi nada a vmc.eJá lhe disse que quero fallar com a senhora D. Rosa.—A senhora D. Rosa não falla a mulheres de mantilha rôta... Se quer, queira, se não quer, ande sempre...A janella fechou-se e a mulher da mantilha rôta sentou-se no degrau da porta.Pouco depois, abre-se outra vez a janella, e apparece D. Rosa!Vêde-a, já não é a rosa purpurina d'outro tempo!... A pallidez d'aquellas faces não é natural!... Alli, ha muita saudade do que foi, ou muito receio do que será! Aquelle desalinho não era d'antes assim... Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabellos negros!... Enfeitava-os tanto de fitas e flôres!... E agora?... Aquelle lenço branco, que lhe apanha as tranças desgrenhadas, é tão desairoso!... Aquelle chaile, que lhe esconde as fórmas do pescoço mais lindo ao pé dos hombros mais artisticamente torneados, dá-lhe um aspecto tão triste de enfermeira do hospital... Que mudança!... faz pena!... Cahiu tão depressa da haste aquella flôr, que tinha tanta vaidade das suas petalas avelludadas, e da fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que é da tua philosophia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar aos typos dolorosos que lá encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque ha de esta phantasia pintar-me realidades, que me fazem dôres no coração, quando as vejo sahirem infelizes dos bicos da minha penna!... Tenho cousas de muito creança, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...Para que vieste tu á janella, Rosa, se quasi me obrigaste com a tua pallidez a discorrer com ternura sobre cousas que me fazem lembrar mil outras, e tão tristes são ellas, que nem eu sei se era mais feliz não vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vêl-as, e esquecel-as para sempre... Forte puerilidade!... Se me não chamam para jantar, n'este momento, eu reduzia-me á situação piegas de verter uma lagrima... por quem?Uma lagrima!...Sabeis o que é uma lagrima d'um homem!... É a perdida essencia do sangue que nos alimentaria a existencia longos annos!...A mendiga, ouvindo abrir-se a janella, ergueu-se, voltou a face macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.—Quer alguma cousa, mulher?—Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.—Então diga d'ahi.—Eu bem queria dizer-lh'as de perto.Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.—Venho pedir-lhe uma esmola.—E para isso era necessario subir? Dissesse-o da rua, que eu mandava-lh'a lá dar.—Uma teima assim!...—atalhou a colerica criada—Eu já lhe tinha deitado á rua dez reis, e ella não levantou do chão a esmola... O que vossê merecia sei eu...—Não se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se que não está livre de chegar ao estado em que me vê... Outras mais ricas, e com bem melhores principios que os seus, teem tido este fim...—De mais a mais quer dar leis!—interrompeu a cosinheira, animada pelo silencio approvador de sua ama—Sabe que mais, minha senhora? mande-a pôr no ôlho da rua, que, emquanto a mim, essa mulher não vem para fazer boa obra... Eu cá vou queimar arruda...—Tome lá...—disse Rosa Guilhermina, offerecendo-lhe um pataco.—Seja pelo divino amor de Deus...—disse a mendiga, beijando a esmola.—Então não se vai embora?—Ainda não, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a dizer-lhe muito em particular...—Que negocios poderei eu ter comsigo?!—Negocios nenhuns; mas Deus não deu lingua á gente para fallar só em negocios.—Diga o que quer mesmo ahi.—Aqui não, porque a sua criada está ouvindo o que nós dizemos.—E que tem isso? Eu não tenho segredos de que me esconda á minha criada.—Mas vai tel-os agora, e bom é que ella não saiba o que vou communicar-lhe.—Fóra com a alcoviteira!—exclamou a criada lá do interior—Má mezpara ella!... Olha o estafermo que me apparece em jejum!...—Esta sua criada, minha senhora, é bem pouco caritativa com os desgraçados, e v. s.ª não é melhor que ella, pelo que vejo...—Está bom!—atalhou irada D. Rosa—Eu não admitto reflexões! Saia, que quero mandar fechar a porta.—Pois devéras não me quer ouvir?—Não, já lh'o disse.—Pois ha de ouvir-me, digo-lh'o eu.—Se cá tivesse o criado, mandava-a pôr no meio da rua.—E a senhora para isso precisa d'um criado? Eu sou uma pobre velha sem forças... qualquer sôpro me faz cahir, e a menina mesma póde empurrar-me por esta escada abaixo...—E esta? já se viu um descaramento assim? Vossê parece-me uma mulher sem vergonha!...—Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.—Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se não retira?—Não me retiro, porque os desgraçados não se satisfazem só com pão... precisam d'outras consolações, que a menina póde dar-me.—Pois que quer?—Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou muito fatigada, falta-me já a força n'estas velhas pernas, que tanto andam, e tão pouco caminham... Tudo me falta... até a vista; nem já a menina me parece o que era aqui ha um anno!... Deve ter feito uma grande mudança a sua vida!... Vejo-a tão coadinha... A menina soffre do corpo, ou da alma?—Que lhe importa do que eu soffro? Não soffro d'uma nem d'outra cousa...—Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aquelles que assim o podem dizer... Pois veja que differença... Eu soffro de tudo...—E que culpa tenho eu disso?—Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...—Faz favor de sahir, que quero recolher-me?—Está o almoço na mesa—disse a criada.—Se a menina consentisse que eu tomasse uma chavena de chá comsigo...—Comigo?... essa é boa!—Envergonha-se d'isso? Pois olhe que não descia de quem é, porque os pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Christo repartiu o seu pão, e os seus peixes.—Parece-me esperta de mais para pobre...—Pois é de obrigação que todos os pobres sejam brutos! Então dá uma chavena de chá... a sua mãe?...—A...—A sua mãe!—A minha mãe!... Quem é minha mãe?—Falle baixo que a não ouça a sua criada!... Não lhe tinha eu dito que era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina? Pois não sabia que tinha mãe?Não soube ha um anno, que ella precisava de recorrer á sua generosidade? Não calculou, que, mais hoje ou mais ámanhã, a sua desamparada mãe devia cobrir esta mantilha esfarrapada para vir receber dez reis da mão de sua criada?—Eu não a reconheço como minha mãe... Eu já colhi informações de que minha mãe não existia... Meu pae nunca me disse que eu tivesse mãe viva!—Deus perdôe á alma de seu pae... Não lhe quero por isso amaldiçoar a memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro annos, é sua mãe.—Não acredito, já lh'o disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe farei aquillo que já lhe quiz fazer, se vmc.eé uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita.—Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem vê que soffri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguem que a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo eu moça e rica do muito que seu pae me dava, não gostei de que minha pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para comprar uma gallinha para minha pobre irmã, que morreu de miseria depois d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quiz poupar minha filha a similhantes vergonhas, que só sabe o que ellas são quem passa por ellas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bemdita esmola no pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um aneurisma no coração, e queria vêr se morria descansada para me reconciliar com a misericordia divina... Se não fosse isto, minha filha, eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna de me chamar sua mãe...Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a commoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:—Pois v. s.ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?—Não... eu não acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha... é a necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.euma chicara de chá?—Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhefilha...—Será ella douda!—atalhou a criada.—Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras... Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que não farei doudice nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, já não... A desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem minha filha...—E ella a dar-lhe com ominha filha!...—interrompeu a criada.—Ouça-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de fazel-a chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quasi que a não reconheci minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia fazel-a muito mais desgraçada que eu sou... N'este mesmo momento, em que venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me offendo com o seu desprêso. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado com um pontapé á rua, eu havia de levantar-me, se podésse, para lhe dizer: «eu te perdôo, filha de Leonardo Taveira!» Veja que bom coração eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços, um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas consolações...D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no coração.—Entre para esta sala—disse a filha do arcediago commovida.—Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o coração mais desabafado, e creio que a não offendi... Se a magoei, diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.—Entre...—balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mão..—Não... já lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de lagrimas, que são a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala não posso entrar como mendiga: se eu podésse visital-a, como senhora, viria muitas vezes aqui, e talvez lhe podésse fazer serviços que a poupassem a muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...—Não consinto que se retire; quero informar-me dequem a senhora é. Se fôr minha mãe, hei de tratal-a como quem é...—Por ser sua mãe, não sou ninguem, minha filha... A menina não me honra, nem me deshonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo, como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria Sanctissima, e diga á sua criada que não é do agrado de Deus insultar assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero despedir d'ella...A criada veio, instada por D. Rosa.—Não se afflija, moça!—disse Anna do Carmo—Não tenha pesar de me ter offendido, que eu perdôo-lhe de todo o meu coração... Tire d'aqui uma experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zêlo por sua ama é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que vmc.eespera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do que esta velha da mantilha rôta lhe disse, quero deixar-lhe uma lembrança de mim... Pegue lá...—O quê?—perguntou a criada, recuando a mão.—É uma peça de quatro mil reis, com que vmc.epóde comprar umas arrecadas... Acceite que lh'a dá a pobre mãe de sua ama!... Não quer?... Ora pois, Deus lhe dê muito que dar...A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, emquanto Anna do Carmo sahia. Quando vieram á janella para vêl-a, ia já na extremidade do bêcco, mas á porta de D. Rosa estavam dous homens, que conversavam apontando para a mulher da mantilha rôta.—Não a conheceste?—dizia um.—Eu não, nem tenho pena—respondeu o outro com desprêso.—Pois não conheces aquella mulher?—Não... já t'o disse...—Pois não conheceste a fidalga, que ha tres mezes comprou a quinta dos Engenhos, na ponte de Ramalde!—É aquella?—É... dou-te a minha palavra d'honra que fui eu o tabellião que lavrei a escriptura, e contei os doze mil cruzados.—Mas então que historia é esta!... Ella vai assim rôta!—Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a côca da mantilha...—Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passearn'um jumento, com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras queria casar com ella.—Tu não sabes a historia d'esta mulher?—Eu não... ouvi dizer que fôra casada com um livreiro, aqui no Porto, e que depois ficára rica...—É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a França, onde morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausencia do marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso cabedal que elle lá trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes, morre lá uma freira, que, á hora da morte, declarou que o tal arcediago lhe deixára em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer entregar a Anna do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só á hora da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...—Mas por ahi dizem que ella é fidalga...—Isso é uma historia á parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que era fidalga, porque a fizeram fidalga á força, uns taes que moram ahi atraz da Sé, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Começaram a visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha... Quem me déra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me que ella sahiu d'esta casa...O tabellião olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com cousas muito mais pequenas. Mas o que devéras me espantou, foi dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o ex.mosnr. ***, fidalgo, morador atraz da Sé, e fôra,ipso facto, reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!

Está, portanto, casada a senhora D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Temol-a na rua das Flores, e deixal-a lá estar. Que se embriague dos carinhos do nosso bom amigo Antonio José. Se a riqueza satisfaz plenamente as suas ambições, é muito rica, póde cortar por largo, tem á sua disposição um homem capaz de tudo, menos de resignar-se com a felicidade do seu visinho João Pereira, que Deus tenha na bemaventurança dos pobres de espirito, que são quasi sempre os ricos de materia.

Vamos encontrar Rosa Guilhermina tambem casada com Augusto Leite. Sou o primeiro a confessar que o meu romanceestá cahindo muito! Um casamento ainda póde aturar-se no fim do romance. A gente gosta de vêr recompensados os tormentos de dous amantes com o prosaico destino de todos os tôlos e espertos. Ha casos, porém em que o casamento, em vez de ser o ultimo, deve ser o primeiro martyrio das personagens de uma novella. Quantas vezes eu leio uma, em que se me arrancam lagrimas de compaixão por dous entes que se adoram, a despeito de mil estorvos que lhes diluem em lagrimas os bellos olhos! Consterno-me; anceio a ultima pagina em que vão ser coroadas por um gôso duradouro as suas agonias... E essa ultima pagina diz-me que se casaram! «Faltava-lhes esta!» digo eu então, arremessando com piedosa indignação o livro!

Ainda um casamento... passe! Mas dous casamentos!... É abusar dos dons da igreja, ou romantisar o facto mais prosaico d'esta vida! Isto em mim creio que é falta de imaginação, ou demasiado servilismo á verdade!

Se Deus me chamasse para este caminho, como dizia, a respeito do estudo da natureza, o senhor João Pereira ao seu visinho, de certo não casava estas mulheres, tão depressa. Acho que o melhor era trazel-as por ahi um pouco de tempo a dar escandalos. Rosa deveria apaixonar-se por um major de cavallaria que lhe faria o favor de a inscrever no productivo catálogo das mães de familia. Depois o major era promovido a tenente coronel, e ia commandar dragões de Chaves, do que resultava (que palpitante não seria isto!) a boa da rapariga tomar duas onças de verdete n'um copo d'agua, e morrer amaldiçoando o perfido! Que cousa tão bonita! Hei de aproveital-a no primeiro romance que escrever, e que desde já se assigna nas lojas do costume.

Ora, Maria Elisa, essa... que havia de ser essa?... Eu entendo que Maria Elisa devia namorar-se d'um marquez. E vai depois este marquez tinha casado clandestinamente com Joanna Fagundes, criada da casa. E vai depois, constando á dita Fagundes que seu marido namorava Maria Elisa, a espadauda moçoila n'uma bella tarde, procura-a em casa, e mette-lhe os tampos dentro com uma cadeira. Elisa expira nos braços d'um sargento de policia, e Joanna Fagundes deixa cahir a mantilha, exclamando:

«Eu sou a marqueza de tal!»

O leitor ficava maravilhado do successo, e contava á familia a passagem com as lagrimas nos olhos.

Espero tambem não perder esta ideia, e o leitor terá occasião de avaliar duas obras primas. Por emquanto, peço aorespeitavel publico que suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.

Já agora, porém, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.

O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou conta da administração da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.

Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as horas em deliciosas palestras sobre aExperiencia amorosa, eSophia ou o Consorcio violentado, romances muito lidos n'aquelle tempo.

Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite não era certo á hora da leitura, e vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.

Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lêr asViagens de Gullivera sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos, que lhe empatavam o tempo até ás 11 horas da noite.

Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher lhe perguntava a razão da demora, encarregava sua mãe de responder suavemente, porque a paciencia já lhe não dava azo para tantas satisfações.

Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua formatura, e convenceu sua mulher de que não era costume as mulheres acompanharem seus maridos ao fóco da immoralidade. Rosa ficou, portanto, na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas, pedindo-lhe que lêsse aJoaninha, ou a Engeitada generosa. Seu marido escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras galanterias a que o academico, diga-se a verdade, não dava a maior importancia.

E vejamos porquê:

Augusto Leite tinha uma paixão unica: era o jogo; mas o jogo fôra o seu inferno, obrigára-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro não lhe era mais propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixão com mais ardor.

Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle, desde o primeiro anno, e queviera ao Porto durante as ferias grandes, em que se realisára o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordão de ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares de chinelas, umas côr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afóra um capote de castorina côr de mel. De mais a mais, obrigára-se elle a tel-a em sua companhia, com tanto que ella não fizesse barulho.

As condições estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e conseguira, além dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos de cordovão com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que são as mulheres mais feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.

Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve muito beijo, muita saudade, foram á missa do gallo á Sé, comeram muitos confeitos de chocolate, e não tiveram tempo de lêr romances. Os outros dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa revelação a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e sentiu a innocente vaidade de ser pae.

O academico partiu, e d'aqui até aos Carvalhos foi imaginando o systema de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis, perdidos até ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que não duvidou contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de sua mulher eram só propriedades.

O imaginado systema falhou, ou pelo menos não tinha vingado ainda, quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.

Revoltado contra o traiçoeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu tambem. As meditações incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra, onde dissipára seis mil cruzados, e ficára devendo dous.

No Porto eram geralmente sabidas as dissipações de Augusto Leite. Sua mulher fôra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphãos é que não era tão sublime; e, instigado por o senhor Antonio José da Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto Leite quiz provar que tinha muito juizo, masparece que provou de mais, e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphãos, o mais que fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo dissipador. Tenho á vista os autos d'este processo, e sou obrigado a confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e Pereira de Mello.

Era um magistrado probo. Permittam esteentre-parenthesis, porque o meu fraco é chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas, porque os ordenados não chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo já deu esta razão em pleno parlamento, e desde esse dia todos os magistrados são probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e as meias de seda, a rectidão e os bofes da camisa ficam sendo insignias de todos os magistrados.

Que é o que eu vinha dizendo? Não ha nada que me incommode tanto como ter de lêr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois é verdade: nasceu a tal menina, e foi baptisada com o nome deAssucena, da qual se ha de fazer larga e pungentissima chronica.4Era uma linda creancinha, que a mãe offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto não eram as creanças. Apenas a tomava dos braços de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braços da avó, que, por força, queria que a pequena se parecesse com ella.

Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher não bastavam a desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre senhora. Passeava sósinho no quintal, e, quando a timida mulher se aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.

—Eu desconheço-te!...—dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mão insensivel—Que tens tu, Augusto?... já me não adoras com aquelles extremos de ha um anno? Que te fiz? Não tenho eu sido tão igual para ti?

—Tens, Rosa... Não repares na minha tristeza... Isto é organisação...

—Pois assim variam as organisações!... Grande mudança transfigurou o teu genio!...

—Que queres!... Eu não me fiz...

—Pois sim; mas porque soffres?!

—Porque não sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administração d'uma casa...

—Mas tenho eu culpa de tal infamia!... Não fui eu propria fallar com o juiz?! Não empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer governar o que é nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...

—Não és... eu não te accuso... mas deixa-me, se não pódes remediar esta punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas trevas, á sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vós, ou a minha dignidade nunca mais erguerá a fronte diante dos homens! (Reminiscencias d'um romance intitulado:EMILIA DE TOURVILLE, OU OS MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIÇÃO.) Feriram-me na corda mais sensivel da minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheço, profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das operações do intellecto são! (Ideias pilhadas a dente naSCIENCIA DOS COSTUMES.) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha fortuna, por que jogo!... Quem póde privar-me de abrir com uma alavanca de ouro a minha propria sepultura! (Pensamento soffrivel, roubado aoJOGADOR, comedia de Regnard.)

—E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?

—Acho... preciso d'esta distracção; fóra do jogo não vivo...

—Pois joga...

—E o dinheiro?... que é do dinheiro? Não vês que nos dão para a nossa subsistencia quarenta mil reis cada mez?

—Mas temos outros recursos...

—Quaes?!

—A nossa prata, que está avaliada em cinco mil cruzados... vende-a.

—Não te zangas por isso?

—Não, filho!... Eu dera a vida pela tua tranquillidade... Não é ella tua? Se o desejavas fazer, porque o não tens feito?...

Dias depois, Augusto Leite vendia a prata, que tinha sido o thesouro mais querido do arcediago de Barroso, e partira para Coimbra, combinando as fórmas d'um novo systema de jogo.

No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata, e este bilhete:

«Não desdenhes uma lembrança da tua velha amiga. Comprei essa prata, e quiz presentear tua filha com ella.

«Maria Elisa.»

A prata fôra comprada pelo senhor Antonio José da Silva.

Já não viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.

O senhor Antonio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja de pannos e algodões, traspassando-a. Fôra esta a primeira exigencia de sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco ás razões frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de João Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua visinha, que lhe não dava tréla.

Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da Rainha, que n'esse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de lhe roer a unha d'um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de commemorar todas as lagrimas d'este desventurado enredo.

O senhor Antonio José da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade custou muitospadre-nossosa sua irmã, que esperava todos os dias um raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram n'esse tempo um pouco melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisação não tinha ainda inventado o cascalho.

O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem, e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram taes os solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas flagellaram os seus rofêgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeição do costume.

Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas de seu marido não comportavama agitação febril do seu espirito. Ia, portanto sósinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas forças musculares.

A Providencia nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça! Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha exterior do repolho; emquanto o bom cidadão classificava methodicamente a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia; emquanto, finalmente, o negociante retirado legava á humanidade um prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo cousas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vão comprar tarlatanas, e rendas.

O leitor, se tem attendido á melhor historia que se tem escripto n'estes ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu ás bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores. Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocação para a mulher do seu proximo! Cahe-me da mão a penna indignada por se vêr na dura precisão de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o véo da caridade esta ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou inflingir ao leitor pudibundo! Não é possivel. Sou muito amigo do publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois, primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das tentações hediondas d'este grande peccador, que a estas horas já sabe o bem ou mal que fez!...

Fernandes (proh pudor!) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que é sempre um sugeito respeitavel, ainda que seja um grande tôlo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fôra o primeiro immoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina, esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assidua cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer foi elle! Não queremos fazer pêso aos seus enormes peccados, mas releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o «planeta sete-estrello»! Á sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem sectarios, graças á civilisação que vai ensinando os limites dos deveres, não só internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue d'aquelle homem, que (vox faucibus hæsit!) não havia mulher casada, com um palmo de cara soffrivel, que o réprobo de Deus e dos maridos não tentasse abysmar nas profundezas do báratro perpetuo!

Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal á senhora Marcellina, que não é digna dodom, attendendo á villã fraqueza com que se deixou embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que já me fez suar tres vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeições, e cynico na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam depressa. Esta segunda immoralidade é uma questão á parte. A nossa missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de Athenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir Maria Elisa!

O peor não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraizo, cedeu á tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, não me recordo bem) ás calidas manifestações d'aquelle grande desaforado, perverso, dissoluto, scelerado, e não sei mesmo se concussionario!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria Elisa. A sua habitual direcção era á Ponte-da-Pedra, a uma legua do Porto, na estrada de Braga.

Ahi apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala da estalagem, que já n'esse tempo era asdelicias dos honrados amadores de peixe frito, e azeitona. E n'essa sala... (digitis callemus et aure!... Soccorre-me, meu velho Horacio!) encontrava sempre esse homem para o qual o meu vocabulario de indignação não tem um nome adequado! E isto aconteceu muitas vezes, emquanto o senhor Antonio sachava os repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que dificuldades na curvatura da columna vertebral!

Tres mezes, seis, nove, um anno esta pouca vergonha! E o céo não tinha raios para o impio, e o senhor Antonio não tinha n'aquelle coração um presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia ha alguma cousa que deve occupar a cabeça d'um homem sensato!

A Providencia, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente que os Antonios Josés levem no somno a palma ao cantor de Ulysses, que tambem dormitou emquanto Penélope fazia muitas cousas, em que se parecia com Maria Elisa. Ora já não é pequena gloria para o senhor Antonio José collocar-se a par de Ulysses!

Era em uma bella tarde de agosto.

Maria Elisa sahira para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antonio ficára n'um banho de tina, chafurdando como o proprio tubarão de barbatanas. Quando sahiu do banho, achou-se fresco, como é natural, e resolveu dar um passeio, e, o que mais é, surprender sua mulher, que devia ficar contentíssima de tal surpreza.

Ao pensamento seguiu-se a execução. O senhor Antonio repartiu as suas duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por aquella estrada fóra! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo do vulto magestoso do senhor Antonio, parecia consubstanciada na organisação do seu dono! Iam contentíssimos!

—Lá está a carruagem!—disse elle, exultando, á sua jumenta, com a qual tivera um longo colloquio, em que a submissa interlocutora não fôra menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quizera conceder honras de Balaam.

Pararam á porta da estalagem. O senhor Antonio não queria fazer ruido, e perguntou baixinho:

—Onde está a dona da carruagem?

—Está lá em cima com o primo.

—Com o primo!—exclamou elle com um som de ventriculo.

—Sim, senhor, o primo...

—Quero vêl-a...

E subia as ingremes escadas, agarrado ao corrimão.

Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo immediato, e escapára-se pelos pinhaes visinhos, sem ser visto.

O senhor Antonio estava diante de sua mulher, solemne e magestoso como todos os maridos em similhantes apertos. Queria fallar, e parece que a eloquencia lhe ficava estagnada nos papos do pescoço que oscillavam como duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abysmo da sua situação, e a unica imagem que lhe apparecia aos olhos pávidos era João Pereira, o do chinó!

Angustias d'estas... não tem nome na terra! Cahiu, como forçado por um enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo d'esta avalanche de carne, acordou os eccos da estalagem.

Maria Elisa, essa, pallida e confusa na surpreza do crime surprendido, aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:

—Que tem?...

—Que tenho?... perguntas-me o que tenho?

—Sim!... pois que fiz eu?!

—O que me fizeste?!

—Sim!... o que lhe fiz?!

—O que lhe fiz?!diz ella.

—Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha commoção?

—Tu escarneces de mim!... Que primo é esse que estava comtigo?

—Um primo!?...

—Sim, um primo... quem é esse primo, que nunca me fallaste n'elle?... Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ella te dirá quem é que me disse que tu estavas aqui com um primo... Espera ahi...

O senhor Antonio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da sala, e tomava fôlego para chamar a estalajadeira, quando Elisa, atordoada da surpreza, mas não de todo, correu a elle, embaraçando-o do vergonhoso proposito.

—Não chame... que é uma vergonha...

—Então sempre é verdade, que me és infiel!... Deshonraste, Maria Elisa, um homem a quem deves tudo!... É assim que se é mulher honrada!... Foi para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeço... Eu morro!... Que dirá o mundo!...

O senhor Antonio começava-lhe a dar cuidado o que diriao mundo. N'estas enfermidades, o temor do que o mundo dirá é sempre um symptoma favoravel; porque o mundo cala-se depressa, e as funcções vitaes do espirito entram no seu curso regular.

Maria Elisa não era tão esperta como eu suppunha. Ficou estupidamente surprendida. Não teve nenhuma lembrança feliz, que obrigasse seu marido a pedir-lhe inclusivamente perdão da calumnia injuriosa! Cahiu com miseravel imbecilidade n'um torpor moral, indigno da sua experimentada philosophia. Deu-lhe para amuar, e morder o labio inferior, mas não com tanta força que espirrasse sangue. Ella sabia fazer as cousas com prudencia; e, com quanto soffresse bastante na alma, parece que poupava o corpo como cousa sua, e não lhe quero eu mal por isso. Uma mulher, como eu seria se o fosse, deve fazer muito por que o corpo se não sinta das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais envelhecida que esteja não se vê. O corpo tem só uma, e essa está sujeita á maldita perfeição das lentes que lhe não deixam uma ruga precursora de decadencia sem demorada analyse.

Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia de reduzil-os á quinta essencia do amor, que é a demencia. Com preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um curioso estudo dos scepticos. Estas feras é que eu amansaria. Se eu conseguisse tornar-me objecto dos seus estudos physiologicos, prometto-vos que a seita ridiculamente comica doscansados, dosscepticos, e dosnão comprehendidosacabava como as preciosas ridiculas de Luiz XIV.

Querem saber o que eu fazia? Ahi vai... É um serviço gratuito que eu offereço ás mulheres, embora provoque inimizades de homens, que são realmente os entes que menos me incommodam. N'este mundo ha só duas cousas que me affligem: são os maus charutos, e madrugadas antes de uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver callos e rheumatismo.

Se eu fosse mulher com uma cara soffrivel, estabelecia para meu uso as seguintes theorias:

Solteira

Tendo de quinze a vinte e cinco annos, dava-me ares de candida innocencia, e singeleza patriarchal. Olharia este ou aquelle importuno, mas só com tres partes d'um ôlho, imaginando que elle tinha quatro. Far-me-ia passar por myope,para que ninguem reparasse no olhar penetrante com que os myopes costumam encarar os objectos a certa distancia. Não usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No theatro teria a barba sempre apoiada na convexidade da mão, e nunca pegaria do binóculo sem reparar que a luva retezada não tivesse rugas.

Com as lentes attestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista, como dizem os francezes, pelo rebanho de Epycuro, que somos nós os miseraveis estafermos de calças.

Surprendida, retirava os olhos com indignada commoção, e perguntaria á mamã se o vestido de D. Efigenia, ou de D. Simplicia não era de pessimo gosto.

No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre occulta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, não sahia nunca sem lançar com languida graça uma pelliça pelos hombros. Nos bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada offerta d'um fôfo, ou d'um rebuçado de chocolate. Liquidos, excepto agua limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço de uma rôla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de victima sacrificada ás conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do tempo entretel-o-ia com o palito.

Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigestão.

Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece profundamente as irrisorias pieguices do homem.

Cheguei á especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na estação do theatro lyrico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flôres da minha corôa na estufa do real theatro de S. João, e escolheria de preferencia certos catos reaes que eu lá conheço. Eu denominocato real o leitor, qualquer que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito outras tantas a respeito do scepticismo. É cato, de trapeira pelo menos (esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco minutos na sua pallida physionomia.

Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher litterata, porque, do contrario, agradeço á Providencia o favor que me fez de me atirar qual sou á torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um d'esses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se, insaciaveis de espirito, precisassem dar á materia todos os repellões, que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a attenção, aventuraria um d'esses sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas, mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma fabulosa semsaboria.

A fera, domesticada no seu sanguinario scepticismo, procuraria revelar-me dez paginas intimas da sua agonia dilacerante. Fallar-me-ia quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria Lazaro, levantando-se do tumulo á voz do Christo: e acabaria por pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a morte.

O que eu faria, então, attenciosas leitoras, não sei se alguma de vós já teve a condescendencia de o fazer. Mandava-o á meia noite apparecer debaixo da minha janella; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de cheiro; sendo na semana sancta, quatro confeitos; e, no Natal, uma tigelinha de ovos moles.

A humanidade estava vingada.

Ora aqui está o que eu faria, sendo solteira.

Casada

Sendo casada, eu era, com grande despeito da mulher d'um certo ministro da fazenda do Egypto, chamado Putiphar, e da mulher do senhor Antonio José da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de necrologios diriam depois:Era uma esposa carinhosa, o modelo das mães, e uma senhora virtuosa a todos os respeitos. É verdade que não é necessario ser tanta cousa para, á sahida d'este mundo, deixar os jornaes encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que eu lhes prometto uma boa duzia de epithetos.

Eu seria não só o que me fizessem ser os constructores de necrologios e epitaphios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes conhecidas, e muitas outras que ninguem conhece. Seria, por abreviar moralidades, que me dão grande trabalho, e aborrecimento aos leitores, seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.

O que o senhor Antonio seria, isso é que eu não sei; mas o que elle estava sendo, em verdade vos digo, que não deve ser inveja de ninguem!

A eloquencia dolorosa, que o auxiliou no choque da surpreza, falhou-lhe. Quiz fulminar a perjura com uma apostrophe corrosiva, e não lhe occorreu nada a proposito. Um pensamento ignominioso esvoaçára-lhe na cabeça febril... Teve tentações de esmagal-a contra a parede do quarto em que esta scena attribulada corria desapercebida!

O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as affrontas orgulhosas com que tentára ferir a honra do seu visinho João Pereira.

No auge da desesperação, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um tremulo de sezão vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que o senhor Antonio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher á sua perfidia.

Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna,e acabava o conto aqui. Não ha nada mais semsabor que a situação da mulher desleal surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando os deuses! Porque não disse o senhor Antonio alguma cousa fóra do commum?

Porque não fez estylo de marido, que é o mais mascavado de todos os estylos? Porque não exclamou: «Perfida mulher! hei de beber-te o sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!»

Com estas palavras já eu compunha um capitulo, porque as outras tolices encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo Antonio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu genero, não era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella não pareçam dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta, que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ella faria á sua liberdade.

O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta contemplavam silenciosos a sua dôr. A lympha dos regatos era como um arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!

N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem aproximou-se.

—O senhor veio a pé?—perguntou ella, vendo seu marido encostado a um pilar da ramada.

—Que lhe importa?—redarguiu o marido convulso, mettendo as mãos nos bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca figura d'uma talha chineza.

—Porque não entra na carruagem?—replicou a carinhosa esposa, aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma fabrica de fundição.—Venha... eu lhe explicarei tudo... verá que estou innocente, ha de arrepender-se de me tractar assim...—proseguiu ella, com o tremor de voz, que precede as lagrimas.

—Como innocente!—murmurou o senhor Antonio, um pouco modificado nas caretas da sua furia legitima.

—Sim... innocente... Em casa lhe contarei tudo...

—Pois póde lá ser que estejas innocente?... Tu estás a mangar comigo!...

—Verá que não sou digna da sua cólera, e que os seus ciumes são injustos... A affronta que fez ao meu caracter de mulher casada, tarde ou cedo lhe fará remorsos, senhor Antonio José da Silva!...

O tragico entono d'estas palavras acobardára os espiritos briosos do marido. O senhor Antonio julgou-se algoz d'aquella victima; e, se ella teima, haviamos de vêl-o ajoelhar aos pés do innocente holocausto do seu ciume, e pedir-lhe perdão.

Maria Elisa, restituo-te os teus creditos! Andaste perfeitamente, por fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu fizeste.

Em 1819 ninguem faria mais do que tu!

Hoje... serias d'uma simplicidade boçal.

A seu tempo saberemos até que ponto o senhor Antonio podia ser civilisado por sua mulher.

Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.

Antes de entrarmos, reparemos n'esta mulher que bateu á porta primeiro que nós.

—Quem é?—perguntou da janella uma criada.

—Faz favor de dizer á senhora D. Rosa que está aqui uma mulher, que lhe quer fallar.

—Que lhe quer?

—A vmc.enão lhe quero nada, é a sua ama.

—Quer pedir-lhe alguma esmola?

—Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.

—Pois para isso escusa de fallar á senhora: pegue lá... Então não levanta do chão os dez reis?!

—Não levanto, porque lhe não pedi nada a vmc.eJá lhe disse que quero fallar com a senhora D. Rosa.

—A senhora D. Rosa não falla a mulheres de mantilha rôta... Se quer, queira, se não quer, ande sempre...

A janella fechou-se e a mulher da mantilha rôta sentou-se no degrau da porta.

Pouco depois, abre-se outra vez a janella, e apparece D. Rosa!

Vêde-a, já não é a rosa purpurina d'outro tempo!... A pallidez d'aquellas faces não é natural!... Alli, ha muita saudade do que foi, ou muito receio do que será! Aquelle desalinho não era d'antes assim... Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabellos negros!... Enfeitava-os tanto de fitas e flôres!... E agora?... Aquelle lenço branco, que lhe apanha as tranças desgrenhadas, é tão desairoso!... Aquelle chaile, que lhe esconde as fórmas do pescoço mais lindo ao pé dos hombros mais artisticamente torneados, dá-lhe um aspecto tão triste de enfermeira do hospital... Que mudança!... faz pena!... Cahiu tão depressa da haste aquella flôr, que tinha tanta vaidade das suas petalas avelludadas, e da fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que é da tua philosophia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar aos typos dolorosos que lá encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque ha de esta phantasia pintar-me realidades, que me fazem dôres no coração, quando as vejo sahirem infelizes dos bicos da minha penna!... Tenho cousas de muito creança, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...

Para que vieste tu á janella, Rosa, se quasi me obrigaste com a tua pallidez a discorrer com ternura sobre cousas que me fazem lembrar mil outras, e tão tristes são ellas, que nem eu sei se era mais feliz não vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vêl-as, e esquecel-as para sempre... Forte puerilidade!... Se me não chamam para jantar, n'este momento, eu reduzia-me á situação piegas de verter uma lagrima... por quem?

Uma lagrima!...

Sabeis o que é uma lagrima d'um homem!... É a perdida essencia do sangue que nos alimentaria a existencia longos annos!...

A mendiga, ouvindo abrir-se a janella, ergueu-se, voltou a face macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.

—Quer alguma cousa, mulher?

—Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.

—Então diga d'ahi.

—Eu bem queria dizer-lh'as de perto.

Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.

—Venho pedir-lhe uma esmola.

—E para isso era necessario subir? Dissesse-o da rua, que eu mandava-lh'a lá dar.

—Uma teima assim!...—atalhou a colerica criada—Eu já lhe tinha deitado á rua dez reis, e ella não levantou do chão a esmola... O que vossê merecia sei eu...

—Não se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se que não está livre de chegar ao estado em que me vê... Outras mais ricas, e com bem melhores principios que os seus, teem tido este fim...

—De mais a mais quer dar leis!—interrompeu a cosinheira, animada pelo silencio approvador de sua ama—Sabe que mais, minha senhora? mande-a pôr no ôlho da rua, que, emquanto a mim, essa mulher não vem para fazer boa obra... Eu cá vou queimar arruda...

—Tome lá...—disse Rosa Guilhermina, offerecendo-lhe um pataco.

—Seja pelo divino amor de Deus...—disse a mendiga, beijando a esmola.

—Então não se vai embora?

—Ainda não, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a dizer-lhe muito em particular...

—Que negocios poderei eu ter comsigo?!

—Negocios nenhuns; mas Deus não deu lingua á gente para fallar só em negocios.

—Diga o que quer mesmo ahi.

—Aqui não, porque a sua criada está ouvindo o que nós dizemos.

—E que tem isso? Eu não tenho segredos de que me esconda á minha criada.

—Mas vai tel-os agora, e bom é que ella não saiba o que vou communicar-lhe.

—Fóra com a alcoviteira!—exclamou a criada lá do interior—Má mezpara ella!... Olha o estafermo que me apparece em jejum!...

—Esta sua criada, minha senhora, é bem pouco caritativa com os desgraçados, e v. s.ª não é melhor que ella, pelo que vejo...

—Está bom!—atalhou irada D. Rosa—Eu não admitto reflexões! Saia, que quero mandar fechar a porta.

—Pois devéras não me quer ouvir?

—Não, já lh'o disse.

—Pois ha de ouvir-me, digo-lh'o eu.

—Se cá tivesse o criado, mandava-a pôr no meio da rua.

—E a senhora para isso precisa d'um criado? Eu sou uma pobre velha sem forças... qualquer sôpro me faz cahir, e a menina mesma póde empurrar-me por esta escada abaixo...

—E esta? já se viu um descaramento assim? Vossê parece-me uma mulher sem vergonha!...

—Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.

—Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se não retira?

—Não me retiro, porque os desgraçados não se satisfazem só com pão... precisam d'outras consolações, que a menina póde dar-me.

—Pois que quer?

—Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou muito fatigada, falta-me já a força n'estas velhas pernas, que tanto andam, e tão pouco caminham... Tudo me falta... até a vista; nem já a menina me parece o que era aqui ha um anno!... Deve ter feito uma grande mudança a sua vida!... Vejo-a tão coadinha... A menina soffre do corpo, ou da alma?

—Que lhe importa do que eu soffro? Não soffro d'uma nem d'outra cousa...

—Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aquelles que assim o podem dizer... Pois veja que differença... Eu soffro de tudo...

—E que culpa tenho eu disso?

—Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...

—Faz favor de sahir, que quero recolher-me?

—Está o almoço na mesa—disse a criada.

—Se a menina consentisse que eu tomasse uma chavena de chá comsigo...

—Comigo?... essa é boa!

—Envergonha-se d'isso? Pois olhe que não descia de quem é, porque os pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Christo repartiu o seu pão, e os seus peixes.

—Parece-me esperta de mais para pobre...

—Pois é de obrigação que todos os pobres sejam brutos! Então dá uma chavena de chá... a sua mãe?...

—A...

—A sua mãe!

—A minha mãe!... Quem é minha mãe?

—Falle baixo que a não ouça a sua criada!... Não lhe tinha eu dito que era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina? Pois não sabia que tinha mãe?Não soube ha um anno, que ella precisava de recorrer á sua generosidade? Não calculou, que, mais hoje ou mais ámanhã, a sua desamparada mãe devia cobrir esta mantilha esfarrapada para vir receber dez reis da mão de sua criada?

—Eu não a reconheço como minha mãe... Eu já colhi informações de que minha mãe não existia... Meu pae nunca me disse que eu tivesse mãe viva!

—Deus perdôe á alma de seu pae... Não lhe quero por isso amaldiçoar a memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro annos, é sua mãe.

—Não acredito, já lh'o disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe farei aquillo que já lhe quiz fazer, se vmc.eé uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita.

—Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem vê que soffri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguem que a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo eu moça e rica do muito que seu pae me dava, não gostei de que minha pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para comprar uma gallinha para minha pobre irmã, que morreu de miseria depois d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quiz poupar minha filha a similhantes vergonhas, que só sabe o que ellas são quem passa por ellas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bemdita esmola no pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um aneurisma no coração, e queria vêr se morria descansada para me reconciliar com a misericordia divina... Se não fosse isto, minha filha, eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna de me chamar sua mãe...

Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a commoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:

—Pois v. s.ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?

—Não... eu não acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha... é a necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.euma chicara de chá?

—Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhefilha...

—Será ella douda!—atalhou a criada.

—Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras... Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que não farei doudice nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, já não... A desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem minha filha...

—E ella a dar-lhe com ominha filha!...—interrompeu a criada.

—Ouça-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de fazel-a chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quasi que a não reconheci minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia fazel-a muito mais desgraçada que eu sou... N'este mesmo momento, em que venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me offendo com o seu desprêso. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado com um pontapé á rua, eu havia de levantar-me, se podésse, para lhe dizer: «eu te perdôo, filha de Leonardo Taveira!» Veja que bom coração eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços, um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas consolações...

D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no coração.

—Entre para esta sala—disse a filha do arcediago commovida.

—Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o coração mais desabafado, e creio que a não offendi... Se a magoei, diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.

—Entre...—balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mão..

—Não... já lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de lagrimas, que são a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala não posso entrar como mendiga: se eu podésse visital-a, como senhora, viria muitas vezes aqui, e talvez lhe podésse fazer serviços que a poupassem a muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...

—Não consinto que se retire; quero informar-me dequem a senhora é. Se fôr minha mãe, hei de tratal-a como quem é...

—Por ser sua mãe, não sou ninguem, minha filha... A menina não me honra, nem me deshonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo, como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria Sanctissima, e diga á sua criada que não é do agrado de Deus insultar assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero despedir d'ella...

A criada veio, instada por D. Rosa.

—Não se afflija, moça!—disse Anna do Carmo—Não tenha pesar de me ter offendido, que eu perdôo-lhe de todo o meu coração... Tire d'aqui uma experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zêlo por sua ama é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que vmc.eespera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do que esta velha da mantilha rôta lhe disse, quero deixar-lhe uma lembrança de mim... Pegue lá...

—O quê?—perguntou a criada, recuando a mão.

—É uma peça de quatro mil reis, com que vmc.epóde comprar umas arrecadas... Acceite que lh'a dá a pobre mãe de sua ama!... Não quer?... Ora pois, Deus lhe dê muito que dar...

A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, emquanto Anna do Carmo sahia. Quando vieram á janella para vêl-a, ia já na extremidade do bêcco, mas á porta de D. Rosa estavam dous homens, que conversavam apontando para a mulher da mantilha rôta.

—Não a conheceste?—dizia um.

—Eu não, nem tenho pena—respondeu o outro com desprêso.

—Pois não conheces aquella mulher?

—Não... já t'o disse...

—Pois não conheceste a fidalga, que ha tres mezes comprou a quinta dos Engenhos, na ponte de Ramalde!

—É aquella?

—É... dou-te a minha palavra d'honra que fui eu o tabellião que lavrei a escriptura, e contei os doze mil cruzados.

—Mas então que historia é esta!... Ella vai assim rôta!

—Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a côca da mantilha...

—Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passearn'um jumento, com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras queria casar com ella.

—Tu não sabes a historia d'esta mulher?

—Eu não... ouvi dizer que fôra casada com um livreiro, aqui no Porto, e que depois ficára rica...

—É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a França, onde morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausencia do marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso cabedal que elle lá trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes, morre lá uma freira, que, á hora da morte, declarou que o tal arcediago lhe deixára em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer entregar a Anna do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só á hora da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...

—Mas por ahi dizem que ella é fidalga...

—Isso é uma historia á parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que era fidalga, porque a fizeram fidalga á força, uns taes que moram ahi atraz da Sé, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Começaram a visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha... Quem me déra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me que ella sahiu d'esta casa...

O tabellião olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com cousas muito mais pequenas. Mas o que devéras me espantou, foi dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o ex.mosnr. ***, fidalgo, morador atraz da Sé, e fôra,ipso facto, reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!


Back to IndexNext