CAPITULO XXIIIO senhor Antonio José da Silva deve ter movido a compaixão interessante das damas, e talvez o desprêso dos briosos maridos, que, no logar d'elle, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa em sangue.Eu lhes digo: faziam uma solemne asneira, e arrependiam-se, depois, como o senhor Antonio (que não era menos brioso que v. exc.ase s.as) se arrependeu de ter superficialmente condemnado sua mulher.D. Maria Elisa convenceu o candido marido de que effectivamente tinha um primo, filho d'uma irmã de sua mãe, que morrera pobre, e o deixára abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido á sua compaixão, pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa existencia. Que ella, como esposa e dona de casa, responsavel pelos cabedaes de seu marido, se negára, muito tempo, a dar-lhe os supplicados recursos; mas, por fim, taes foram as instancias, que a seu pesar, não pôde deixar de ceder aos impulsos do coração, que lhe mandavam soccorrer o infeliz com as migalhas da sua mesa.O senhor Antonio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez mais eloquente e philantropa, continuou:—Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse suspeitas malevolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na Ponte-da-Pedra, e eu, indo sósinha a passeio, lhe daria o que podésse esconder aos olhos de meu marido, sem que elle desse pela falta, que de certo era um crime...—Pois não fizeste bem, Mariquinhas! É o que eu te digo, e perdôa... Se me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispôr á tua vontade do que ha n'esta casa, porque o que é teu é meu, e o que é meu é teu.—Pois sim; mas eu não tenho ainda um cabal conhecimento do seu caracter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz parente, e não ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido annuiria mais por delicadeza, que por vontade do coração. Agora, que tudo se declarou, não quero que o senhor Silva se mortifique por meter offendido com as suas imprudentes calumnias. Faça de conta que não houve entre nós a mais ligeira desintelligencia. Estamos quites: o senhor fez-me uma injustiça, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra, julgando-o sôffrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mão bemfeitora a meu desgraçado primo!...—Ora, pois, não nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero é saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente lhe quero ir levar os recursos necessarios para a sua subsistencia... Onde mora elle?—Onde mora elle?... (Maria Elisa não esperava esta! O improviso não era o seu forte, e viu-se na mais embaraçosa atrapalhação). Eu, se quer que lhe diga a verdade, não sei bem onde elle mora... mas deixe passar alguns dias, e talvez que elle aqui mande algum recado...—Pois então logo que elle appareça, farás favor de lhe dizer que eu quero fallar com elle... Mas tu não conheces ninguem (tornou o suspeitoso marido depois de reflectir um momento) que saiba onde elle mora?—Não, senhor.—Não?... Eu não sei o que me parece isto, a fallar-te a verdade!... Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguem, ninguem?—Talvez me lembre d'uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta d'elle, e me disse onde elle morava... Deixe-me recordar, e depois lhe direi...—Pois olha lá se te lembras... Eu sempre quero vêr os focinhos ao teu primo... Acho que a cousa assim não vai bem...—Que é o que não vai bem?!—Eu cá me entendo...—Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais palavras... Não está ainda satisfeito com a explicação?...—Podia estar mais, se queres que te diga cá o que tenho no meu interior...—Pois não sei que lhe faça. Creia, se quizer, e, se não quizer não creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu não lhe dou direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irmã, engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o odio. Sei amar, e sei aborrecer... Entende-me, senhor?—Mas a que vem todo esse farelorio? Que te disse eu para tanta arrenegação?—Parece que duvida da explicação que lhe dei do meu comportamento?! Esse direito só o dou á minha consciencia!—Tem a menina muita razão; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que não sou mau homem, nem mau marido, se tenho cá minhas comichões de conhecer seu primo!...—Se tem comichões, coce-se... é o que eu tenho a dizer-lhe... E de resto, se quer esperar que meu primo appareça, espere; e se não, procure-o até encontral-o.D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz n'esta lembrança, porque o senhor Antonio precisava de similhante reacção para entrar nos justos limites d'um marido exemplar, como todos os maridos que não tem pública-fórma.Que é pública-fórma d'um marido? Eu sei cá... Lembrou-me isto; se me lembra, em logar de pública-fórma, dizer uma sandice mais compacta, creiam que não era homem de a deixar no tinteiro, porque, se ha inviolabilidade n'este mundo, é para todas as sandices que se escrevem. D'este peccado tenho eu a dar sérias contas a Deus; mas quem de certo não deu nenhumas, quando d'este mundo se partiu, foi aquella alma gentil do senhor Antonio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escripto para os jornaes uma carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da barbara linguagem do systema representativo.N'aquelles felizes tempos, as asneiras desciam á sepultura com o individuo; e d'essa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quaes peço ao publico imparcial que classifique a minha da «pública-fórma do marido» pelo que me declaro já summamente penhorado, como todos aquelles que se retiram d'um baile ás cinco horas da manhã.Por não esgotar as frioleiras de que disponho, saberão, estimaveis leitoras (se me dão a honra de me dirigir a v. ex.as, como quem quer divertil-as da seriedade austera das suas cogitações) que D. Maria Elisa entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes, contando-lhe miudamente os infaustos successos.Na manhã do seguinte dia, a anciosa esposa recebeu a seguinte resposta:«Não te afflijas. Hoje de tarde ahi vai teu primo. Falla pouco, e deixa-o fallar a elle.»CAPITULO XXIVO senhor Antonio estava sériamente amuado. Atormentava-o a dúvida, e as suspeitas terriveis principiavam a obra maldita do arrependimento. Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequencias da vida matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de pannos, e considerava-se o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o proximo do chinó, em circumstancias analogas.Era isto que affligia o coração do marido de Maria Elisa, emquanto ella, amuada tambem, se fechára no seu quarto, imaginando a comica solução que o senhor Fernandes daria ao problematico parentesco da Ponte-da-Pedra. Assim se entretinham aquellas duas creaturas, quando foi dito ao senhor Antonio que estava alli um sugeito, que queria fallar-lhe, sendo possivel.—Que diga quem é.O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.—Devéras?!—disse o senhor Antonio, com sobresalto, expandindo as bochechas em ar de contentamento.—Sim, senhor, diz que é primo da senhora.—E quer fallar comigo?—É o que elle disse.—E não fallou ainda com a senhora?—Nada; nem por ella perguntou.—Pois que suba para a sala.Em seguida, foi introduzido na presença do senhor Antonio um sugeito de trinta annos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado, e maneiras delicadas.—Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.—E eu a mesma. Com que então o senhor é primo de minha mulher?—Sim, senhor: filho d'uma irmã de sua mãe.—Estimo muito conhecel-o.—Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s.ª o fim que me traz a sua casa.—Ora diga lá sem ceremonia, os homens são uns para os outros, e eu estou prompto a mostrar-lhe que não sou daquelles que... emfim... diga lá o que quer...—Quero ser eu o proprio accusador da mão bemfeitora, que tem derramado sobre mim alguns beneficios. É preciso que v. s.ª saiba que eu sou pobre, e não tenho podido até hoje agenciar pelo trabalho a minha independencia. No commercio não me acceitam, porque me acham adiantado em idade. Emprego não me dão nenhum, porque não tenho protecções. Para militar não sirvo, porque sou muito doente do peito, e além d'isso muito curto de vista. Para frade tambem não sirvo, porque não tenho patrimonio, e de mais a mais não sei latim para poder entrar nas ordens mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; não tenho de quem me valha, a não ser d'esta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v. s.ª, é a unica pessoa do meu parentesco, a quem se póde pedir uma esmola! Nas minhas tristissimas circumstancias, dirigi-me a ella, e achei-a fria, dura de coração, e insensivel ás minhas súpplicas. Instei, segunda e terceira vez, obrigado pela indigencia, e consegui que ella me mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o pouco que podésse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes. Disse-lhe eu que não duvidava fallar pessoalmente a v. s.ª, e ella tirou-me d'isso, dizendo que não queria ser pesada a seu marido com os seus parentes pobres. Hontem foi um dos dias em que ella me deu uma pequena esmola, e me prometteu algum dia empenhar-se com v. s.ª para que se me désse um logar na alfandega, ou em qualquer repartição da justiça, em que eu podésse ganhar com honra um bocado de pão. Quando fallavamos n'isto, ouvimos uma voz, minha prima empallideceu, dizendo-me que fugisse, porque ouvira fallar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos de minha prima, e nem tempo tive de reflectir nas consequencias da minha fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que se passava. Quando v. s.ª sahiu com ella, reparei que vinham amuados, e entendi que eu fôra a causa d'essa desgraçada desintelligencia entre dous esposos que tanto se amam, segundo ella me tem dito...—Ella disse-lhe isso?—Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da estrebaria, e dizer quem era, porque v. s.ª não seria tão barbaro, que maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado é tão pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendoeste velho casaco e estas calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero que minha prima soffra por minha causa.—Com que então o senhor metteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?—Pedro José Sarmento de Athaide.—Já que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde é que herdaram esses appellidos?—Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...—Dos...?—Pesicatos e Bemóes.—Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.—Não admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus irmãos foram frades; um morreu dom abbade em Tibães, e outro foi bispo de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.—Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhóplas!...—Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmão legitimo do meu terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.—Não é preciso; eu vejo que v. s.ª falla verdade... Mas como é que o pae de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?—Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de riscar de seu nome os appellidos de nossos avós, porque não podia sustental-os. Ora aqui está a triste historia dos meus ascendentes, que mal diriam elles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide precisaria de estender a mão á caridade de estranhos!...—Pois, senhor Pedro, não ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade. Havia de topar um homemcomo se quer para o seu amigo. Não fez bem... mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dirá o que se ha de fazer...—Perdão... eu acho que não será bom que ella saiba que eu vim aqui, porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v. s.ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...—Qual?... Ora o senhor então não sabe como ella é!... Verá que ha de estimar que se declarassem d'este modo cá certas suspeitas...—Suspeitas!... quaes?...—Eu cá me entendo...—Mas eu é que não entendo... A minha honra está compromettida n'essas suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s.ª, em nome da honra, me declare quaes foram as suspeitas...—Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo, metteu-se-me cá uma asneira na cabeça...—Qual asneira?—Pensei que o tal primo era algum rufião...—Rufião!... Eu não entendo essa linguagem!—Quero dizer que pensei que andava por ahi algum farropilhas a arrastar-lhe a aza!—Então o senhor não sabe que minha prima pertence á veneranda linhagem dos Sarmentos e Athaides, e não consta que, na genealogia dos Pesicatos e Bemóes, se désse uma infidelidade porca e villã!... V. s.ª offendeu as cinzas de meus avós! Em nome de meu quarto visavô, João de Lencastre e Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me dê uma satisfação!...—Não se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido póde enganar-se muitas vezes com sua mulher!—Mas eu, neto de heroes, é que não admitto enganos taes! As suspeitas são affrontas! V. s.ª affrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela satisfação! Na França entre cavalheiros é costume disputar-se a honra á ponta de espada. V. s.ª ha de bater-se comigo!—Eu!... essa é que é daquella casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha mulher não era tão boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se d'isso... Eu nãosei cá d'esses costumes dos francezes... Que os leve o diabo e mais quando elles cá vieram...—Não me importam os francezes! Importa-me a honra de meus avós, insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor Antonio! Dentro em vinte e quatro horas um de nós estará na eternidade!—O senhor, por mais que me digam, está a mangar comigo, ou não regula bem da cabeça!—Com a honra não se manga, senhor negociante de pannos! Se a sua arma é o covado, a minha é a espada, que herdei de meu vigesimo-quarto avó D. Alarico Themudo Pesicato! É forçoso que se bata, ou então que declare á face do céo e da terra que é um covarde. Dentro de vinte e quatro horas virei procurar a resposta. Se não quizer bater-se, hei de sacrifical-o aos manes de meus illustres avoengos, que do Olympo excitam a minha coragem! Não tenho mais a dizer-lhe, senhor!—Venha cá... isto não é modo de tractar o homem de sua prima!... Se quer dinheiro, diga-o, e não esteja ahi a arrotar postas de pescada.—Com que então chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!... Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo tambem se arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de nós será cadaver!O neto dos Pesicatos sahiu. O senhor Antonio, atordoado com a seriedade do negocio, entrou no quarto de sua mulher.—Que diabo de homem é este teu primo, ó Mariquinhas?—Meu primo!... pois elle esteve cá?!—Sahiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...—Pois que fez elle?—O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com elle!—Porquê?—Isso agora é que eu não sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer que tive cá minhas desconfianças a teu respeito... e, ás duas por tres, põe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e quatro horas um de nós havia de morrer!... Que te parece isto?—Parece-me um sonho!... Porque me não chamou?—Porque elle não me deu tempo... Começou a desembuchar umas trapalhadas d'avós, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens da tua linhagem?—Quaes homens?—Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?—Eu sei cá que homens eram esses!...—Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso não é para isso... O tal teu primo, se é doudo, o melhor é amarrarem-n'o, e mandem-n'o para o hospital de S. José...—Que figura tinha elle?—Pois tu não sabes que figura tem teu primo?—Sei... mas... lembro-me se não seria elle...—Elle não se chama Pedro?—Sim... elle... chama-se... Pedro.—Pois então ahi está... É elle mesmo... deu-me todos os signaes certos da Ponte-da-Pedra.—E que lhe disse?—O homem fallou bem, a respeito de não ter meios, e fez-me cá no coração uma certa aquella; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, lá com as suas valentias. É preciso saber como isto ha de ser; eu não quero historias com elle. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?—Pois sim; mas eu ignoro a sua residencia. Quando elle cá tornar, chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.O senhor Antonio, um pouco mais socegado, relatou, pouco mais ou menos, a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, afflicta com vontade de rir-se, e, ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao ridiculo. Era bem natural esta mortificação do amor proprio.A conversação foi interrompida pela chegada de dous senhores, que precisavam immediatamente fallar com o senhor Silva.—Temos alguma!...—murmurou o negociante, e entrou na sala onde o esperavam dous officiaes de cavallaria, de grandes bigodes, e caras de arremetter.—Quem são v. s.as?—perguntou o assustado dono da casa, apenas os encarou.—Somos embaixadores de Pedro José de Sarmento e Athaide!—respondeu um d'elles, arqueando os braços, e levantando a caneca com orgulhoso entono.—Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?—Advertil-o de que é desafiado pelo nosso amigo...—Ora, deixem-se d'isso!...—interrompeu o senhor Antonio,fingindo que recebia a intimação com gracejo—V. s.asestão a brincar... Queiram mandar-se sentar.—A nossa missão cumpre-se de pé... e v. s.ª ha de responder-nos tambem de pé! Queira tirar o seu barrete, por que nós tambem estamos descobertos. As formaes solemnidades d'este acto não permittem distincções de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira descobrir-se!—Eu estou em minha casa, posso estar como quizer.—N'este momento a sua posição é outra. O homem desafiado não se considera em sua casa, emquanto a sua honra não está illibada, porque o homem deshonrado não tem casa, nem propriedade, nem direito! Descubra-se!O senhor Antonio tirou o barrete, e emmudeceu na presença de similhante insolencia.—Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duello com o senhor Pedro José de Sarmento e Athaide Pesicato?—Não quero lá saber d'essas cousas, já lh'o disse a elle, e não me façam azedar o estomago, senão eu mando chamar o meirinho geral, e os senhores são catrafiados e mais elle na Relação.—O senhor insulta-nos! Se não tivessemos piedade da sua barriga... essa lingua seria cortada pelo gume d'esta espada!...—Os senhores vem insultar-me a minha casa! Já no meio da rua, quando não chamo os visinhos.—Cale-se, monstro! quando não...Os esturdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.—Isto que quer dizer?—perguntou ella—Não respondem?... Que infamia é esta de entrarem n'uma casa estranha insultando o dono d'ella?Os embaixadores do imaginario primo arrefeceram nas suas comicas furias, e não ousaram responder.—Retirem-se d'esta casa!—disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da sahida.—Minha senhora...—balbuciou um d'elles—nós somos enviados por...—Seja por quem fôr. Vão dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe manda dizer que o seu procedimento é muito infame, e que eu muito sinto não ser homem para poder dar a v. s.asuma resposta cabal! Retirem-se!...Os officiaes sahiram vexados, e o senhor Antonio estava espantado da coragem de sua mulher.CAPITULO XXVO senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas, á carta que Maria Elisa lhe enviara, contando-lhe os successos occorridos desde a fatal surpreza da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavallaria, e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do risco.O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a casta de maroteira, acceitou o papel e estudou-o com muita habilidade. Era necessario que D. Maria Elisa o não visse para obviar aos embaraços muito naturaes em tal surpreza. Fernandes inventára o desafio, e o cadete inventára de improviso a historia genealogica dos Pesicatos e Bemóes, que encaminhou ás mil maravilhas a historia do duello.O comico, retirando contentissimo do bom exito da sua travessura, antes de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou n'elles dous optimos bargantes para continuarem a caricatura.Quando a ultima scena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a mal este excesso de escarneo a seu marido. Elle bem sabia que nenhuma mulher consente que a desgraçada condição do marido ultrajado seja um brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma fraqueza de coração.Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possivel de ter ella sido testemunha da zombaria feita a seu marido.Não se enganára. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos officiaes. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava grandes gargalhadas, e promettia contar o caso a toda a gente, escreveu a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossivel salvar-se! Embora não tivesse elle sido o inventor do escandalo, quem expozera Antonio José da Silva fôra de certo elle, e Maria Elisa leu a carta, rasgou-a, e devolveu-lh'a.Seguiram-se novas remessas de cartas, que ella nunca abriu. Deixou de sahir de casa, para não ser encontrada. Soffreu quanto póde soffrer o amor proprio. Não sentiu, por isso, mais interesse por seu marido; todavia córava, muitas vezes, diante d'elle, lembrando-se que o fizera descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciencia estivera tranquilla até ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O que lhe pesava não era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a ella, escarnecendo um traste de sua casa, uma cousa que a sociedade chamava o «seu marido»!Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que estabelecesse termos de comparação com meu marido.A situação de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antonio estava assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os officiaes de cavallaria o encontrassem a geito. Ao anoitecer mandou trancar as portas, e armar os criados, emquanto, confiado na coragem de sua mulher, consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da sua arriscada corpulencia os golpes de espada d'aquelle par de Damocles que o neto de D. Alarico Themudo Pesicato lhe enviava a casa.Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se lhe dizia que tudo aquillo fôra uma phantasmagoria, ficava a sua honra muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o pobre homem succumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada nas proximidades da barriga provocante.Os palliativos não valiam nada para a cura. O senhor Antonio, no auge do medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de mais, quando deu ordem de despejo aos militares.Maria Elisa quando viu, ao cabo de tres dias, que seu marido tinha febre e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrupulos, e accusou-se de ter concorrido para os soffrimentos do pobre homem.Fernandes teimava em escrever-lhe, e não conseguia que as suas cartas fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do negociante, pedindo-lhe perdão das asperezas do seu caracter, e affiançando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquillidade.Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas não querialembral-o ao seu indigno amante, porque jurára acabar taes relações.O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da farça. O senhor Antonio não quiz ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida no quarto proximo, para intervir, sendo necessario.—Eu venho—disse o cadete—desarmar a sua justa indignação, senhor Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima é sua mulher, e v. s.ª não tem obrigação de responder-me pelo mau conceito que fez d'ella. Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdão, visto que as minhas demasias são filhas do nobre sangue que me gira nas veias. Retiro-me na certeza de que v. s.ª, de hora em diante, não se lembrará mais do passado, e terá por mim a estima que se deve a qualquer individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como nós.O senhor Antonio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com satisfação. Tinham-lhe alliviado do coração o pêso de quatro quintaes. O sangue girava-lhe de novo em toda a extensão do systema circulatorio; e os frouxos, que lhe accommetteram as pernas, desappareciam, á maneira que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdomen.O senhor Antonio tinha um excellente fundo. Não era valente, mas odiento tambem não. Deu um abraço no estroina, que recuou dous passos para o receber com todas as formalidades d'um habil comico, e pareceu-lhe até que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe déra um beijo na bochecha direita. Não affianço isto; mas o que posso, debaixo da palavra de honra dos meus amigos, affiançar, é que um beijo na face do senhor Antonio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e alguma cousa de indecencia atroz na pessoa do cadete.A verdade é que o tranquillo marido recobrou a felicidade inquietada, e restituiu a sua mulher a plena confiança retirada por uma fatal intermittente de ciume. Desfazia-se em satisfações, acarinhava-a a seu modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa acceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma indifferença.Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de passageira felicidade eramas da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar as proprias mulheres que teem a consciencia de que são victimas. Talento e corrupção eram já n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se cortam os nós gordios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era uma d'essas certas.O que ella teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo, apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ella, como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprêso, que elle reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais cahiu na leviandade de ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral e physica de seu marido.Foi pessima lembrança aquella de enviar o cadete a representar de primo! Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar os maridos da escóla do senhor Antonio, que não são muitos, mas satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se honram d'essa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha sido o seu peccado, a gente de bom coração tem pena d'ella, vendo-a, depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sósinha, entregue á escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre na presença do senhor Antonio, carinhoso até á desesperação, terno até ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tôla até dar vontade de o mandar comer e dormir.Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomagoera uma cousa á parte na sua organisação. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume morreria de paixão: mas o António do estomago só uma indigestão poderia matal-o.Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando, impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina mandava-o passear a pé, e elle sem Maria Elisa, não dava um passo. Já não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que o prendia áquella mulher, como se prende a creança timida ao seio de sua mãe.Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto não se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem reflexão, e escrevendo cousas que o seu marido não entendia, mas gostava d'ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ella intitulara os trinta cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que não pareciam de mulher, energia de phrase, conhecimento do coração, e toque real d'uma verdadeira dôr. O que não viram n'ellas as pessoas, que me informaram, foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fôra para sempre banida das saudades de Maria Elisa.Constrangida pela soledade, a antiga orphã de S. Lazaro lembrou-se com amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu coração, d'onde nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se côr de carmim quando lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.Maria Elisa não replicava a este odio inveterado. Tinha compaixão do pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com o mesmo appetite. Já não accumulava com prazer as sopas na tigella do caldo de gallinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em oração permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer, visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedadedo assumpto, a senhora Angelica, se fallava só dizia asneiras, o que não succede sómente á senhora Angelica.Consta que ella fôra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante predizer o futuro, que, parece, á primeira vista, um bom modo de vida, depois de jornalista, que são as Escolasticas de calças e paletó do nosso tempo.Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo, que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por não ter salvado d'um ataque apopletico o senhor Antonio José da Silva. Se fosse hoje, este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dôres de cabeça. Metteu os pés n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue negro, e fechou-se, porque as valvulas do coração estavam fechadas para sempre.Maria Elisa tomou a mão do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu desentoadamente, e atordoou a visinhança com gritos. Feita esta berraria de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido, fechára-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pae! Sou orphã outra vez!»CAPITULO XXVIA viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio, escreveu a Rosa Guilhermina uma carta queera um grito supplicante á sua amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao pé d'um cadaver. Só, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraçaram-se, chorando. Fecharam-se, para se furtarem ás formalidades estupidas das visitas funebres, que nos vem dizer: «sinto muito» e nos obrigam a responder: «muito obrigado.» Dous dias e duas noites quasi não tiveram um intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e já não sabiam adubar as conversações d'aquella fina especiaria de risos, que tanto promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.—Já não somos as mesmas, Maria Elisa!—disse Rosa, abraçando a sua amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.—Já não... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso esperar do céo...—E eu tenho-a pedido tantas vezes!...—Tambem soffres, Rosa?! Não tens um esposo amado?—Não.—Como não? pois não casaste por paixão?—Casei... e depois, vi que me tinha perdido...—Pois que? elle não te estima?—Não... arrasta-me na sua desgraça... Meu marido é um homem perdido... um ente sem honra, nem futuro, nem presente.—Pois teu marido não está a formar-se em Coimbra?—Já não trata d'isso... Meu marido é um jogador.—Jogador!—Sim, jogador de profissão... Gastou quanto podia gastar do meu patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao Porto vender aquella prata, que tu déste a minha filha, depois de a comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que não tenho, noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive, porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphãos arbitrou para o sustentoda minha familia... Aqui tens a minha vida... Estou pobre... Maria Elisa!...—Tu não estás pobre, Rosa! Não me falles assim, que me fazes chorar! Tu não estás pobre... Eu preciso que te esqueças de todo o nosso passado, para entrares de novo no coração de Elisa... Queres ser minha? Eu estou viuva, e viuva tambem tu estás... O teu coração não é já d'esse homem... É da tua filha, e meu; a tua filha é minha e tua, sim?... Não chores... Troquemos entre tres as nossas affeições todas... Vivamos n'uma só vontade... Foge para os meus braços, que não tem no mundo ninguem que os queira, a não seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que n'estes ultimos dous annos me tem sido tão negra... tão negra... Rosa! Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... Dá-lhe algum prestimo... Só tu podes, se vieres ser outra vez minha irmã, explicar-me a razão por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa menina... Vai buscal-a... Vai... Não me digas que não... que me matas... Essa mesada que tens dá-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre, mas foge-lhe tu, que não tens ainda uma nódoa na tua vida... Vem ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...—O quê?... que tens tu sido?...—Uma desgraçada...—Tambem eu... que culpa temos nós?!—Eu?... muita!... Calemo-nos, Rosa... Olha aquelles sinos pezam-me sobre o coração... Tenho mêdo d'aquelles sons... Se meu marido tivesse sido n'esta vida um homem, como eu deveria ter encontrado um, eu pensaria que aquelle dobre era a voz d'elle que me accusava da eternidade... Ai!... tu ignoras a minha vida? Parece impossivel!... Nunca ouviste fallar de mim como se falla d'uma infame mulher?—Nunca...—Pois pergunta ao mundo o que eu fui... Não, não perguntes nada... Ignora tudo. O meu coração para ti está puro... Restituo-t'o como t'o roubei, ou tu o lançaste de ti para fóra... Não te importem os meus defeitos... Foi um sonho horrivel! Acordei nos teus braços... quero aqui viver... Deixas-me esquecer aqui do muito que tenho soffrido?...Rosa Guilhermina recebia com lagrimas as meias confidencias de D. Maria Elisa, quando lhe disseram que seu marido a procurava, por saber que ella estava alli.A surpreza brutificou-a.Maria Elisa mandou subir Augusto Leite, e reanimou a sua amiga do lethargo em que a deixou esta apparição tão pouco desejada. Fôra preciso muito para que a pobre senhora aborrecesse seu marido.Não bastariam para isso as dissipações que elle fizera do seu patrimonio. A mulher perdôa sempre os desperdicios de seu marido, com tanto que elles não envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo de preço aos amores alheios que se vendem.Não fôra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa, deixando a sua dona só os indispensaveis.Estes vexames nunca se perdôam. A esposa, assim ultrajada, póde soffrel-os calada como martyr, mas não poderá nunca reservar um resto de affeição ao homem, que a humilhou assim.Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu marido, que não vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou. Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto. Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e farpáda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do brilho da desesperação, fixavam Rosa com ar ameaçador.Cruzando os braços com a importancia tragica d'um marido de tragedia, que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite disse, aproximando-se:—Parece que me não conheces, Rosa?—Vens tão mudado do que eras!... não admira que te não conhecesse, Augusto!—Pois sou eu mesmo... Vejo que não sentes grande prazer com a minha visita...—Não te esperava... Como ha seis mezes me não escreves...—Entendeste que não havia nada commum entre nós... Pois, minha amiga, sou teu marido, apesar de ambos nós...—Sinto muito que o sejas a teu pesar... Eramos ambos bem mais felizes, se o não fosses.—Parece-te? a mim tambem; mas já agora o remedio é seres minha mulher, e eu teu marido...—Fallas-me d'um modo que me fazes gelar o coração!... Que te fiz eu para me tratares assim?—Eu sei cá o que me fizeste!... não me fizeste nada... Penso que me tornaste mais desgraçado do que eu era...—Vejo que sim; mas não era essa a minha intenção.. Eu quiz fazer-te feliz; se o não consegui, é porque não pude, nem tu me disseste o que eu devia fazer para a tua felicidade...—O que me perdeu foi o teu dinheiro...—Não tive culpa, Augusto...—Eu, se fosse sempre pobre, não me illudia com as esperanças do teu patrimonio, e trabalharia, estudaria para chegar a ser homem...—Que hei de eu fazer-te, Augusto!... Eu nunca te aconselhei que arruinasses o que te dei; se soubesse que o meu dinheiro te fazia infeliz, lançal-o-ia ao mar para me casar pobre comtigo... Mas, se eu fosse pobre, de certo me não quererias...—Não sei, não me importa saber, todas as conjecturas agora são estupidas...—Perdôa as minhas conjecturas... Eu d'antes era espirituosa, segundo tu dizias, que eu nunca o acreditei... Agora sou estupida, é porque a desgraça embrutece...—Nada de ironias... Sabes que estou pobrissimo?—Não sabia; mas acredito que o estás.—Pódes avaliar a minha situação?—Posso; porque eu tambem estou pobrissima.—Menos que eu...—Mais que tu... Tenho uma filha que sustento, e cheguei á extrema dôr de querer comprar-lhe um vestido, e tive de vender um meu, para que a minha filha te não envergonhasse... Avalias tu agora a minha situação?—Diz ao teu tutor que te entregue o que tens, e tu administrarás...—Já lh'o suppliquei muitas vezes. Não me concede cinco reis além da mesada que me arbitraram... Não posso conseguir nada... Emprega tu os meios, que eu concedo-te tudo; e, se não podéres alcançar mais do que eu, desde já te cedo toda a minha mesada, e eu e minha filha recorreremos á caridade da minha amiga Maria Elisa.—Não quero caridades de ninguem: quero aquillo que é meu, quando não enterro uma faca no coração do tutor...—Cala-te, Augusto, que me pareces demente!—É porque eu realmente estou louco... Preciso sahird'esta desgraçada vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando não vou com um bacamarte para as estradas...—Augusto!—exclamou ella, tirando-lhe a mão do cabo do punhal, que empunhára instinctivamente no bolso interior do casaco.—Tu não sabes onde a desgraça é capaz de me levar... A sociedade fez-me assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; não roubei nada a ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, não dér um conto de reis, sou prêso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.—Oh meu Deus, que vergonha!...—disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e escondendo o rosto entre as mãos.—Nada de exclamações... Esse remedio não me presta de nada... Visto que tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me queres salvar... Não me respondes?—Augusto!... eu não posso responder-te já... Deixa-me possuir bastante do meu infortunio, para perder a vergonha...—Isto não soffre delongas... Quero a resposta já...—A resposta dou-lh'a eu—disse Maria Elisa, que apparecera de improviso.Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se logo, porque lhe faltavam forças para acolher-se ao seio da sua amiga.Maria Elisa veio ter com ella, abraçou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:—Queira demorar-se, que eu volto já.Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o visse. Não era loucura. Era o contentamento de se vêr possuidor d'um conto de reis, com o qual contava já. Era a esperança de transportar-se com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que não poderia tornar a Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braços, espreguiçando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: «ha um demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de mostrar-lhe que sou agradecido...»Maria Elisa voltou. Sentou-se no canapé, e fez signal a Augusto, offerecendo-lhe uma cadeira:—Senhor Augusto, v. s.ª vai receber da minha mão uma quantia de dinheiro, que me não pertence, nem a sua mulher. É uma generosidade de sua filha, de que eu sou interprete...—De minha filha?!—Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de recebel-a, v. s.ª lh'a entregará. São tres contos de reis em notas. É um deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s.ª procure reconquistar a sua honra, e não lhe faltarão recursos para um dia entregar a sua filha esta quantia augmentada...Augusto, balbuciante de prazer, não avistando d'um relance toda a extensão do seu futuro, murmurou:—Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.—Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.—Qual?... a viuva de meu tio manda, não pede...—A viuva de seu tio nem manda, nem pede nada. Repito-lhe que sou absolutamente estranha a esta troca de favores que faz o pae com sua filha. O que em nome d'essa menina lhe peço, é que consinta que ella e sua mãe vivam na minha companhia.—É muita honra para mim, minha senhora. Eu vou fazer uma pequena viagem por causa de certos interesses, e durante a minha ausencia não posso confiar a mais valiosa protecção minha mulher e minha filha.—Vai viajar?... Sua senhora já o sabe?—Ainda lh'o não disse.—Pois então... não lh'o diga... Salvo se tem motivos fortes para dizer-lh'o...—Não tenho alguns... Era simplesmente despedir-me...—N'esse caso, eu encarrego-me de fazel-a sciente do seu adeus, e v. s.ª de qualquer paiz lhe escreverá...—Minha senhora... dispõe do meu quasi inutil prestimo?—Empregue-o, que tem muito, em ser um digno marido da minha amiga, e um digno pae da menina que adopto como minha sobrinha. Além dos vinculos de parentesco que o prendiam a meu marido, ha outros mais consistentes que são os da amizade, que consagro a sua mãe.Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o coração alvoroçadode prazer, foi abraçar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na soffreguidão d'um beijo: «És minha para toda a vida!»
O senhor Antonio José da Silva deve ter movido a compaixão interessante das damas, e talvez o desprêso dos briosos maridos, que, no logar d'elle, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa em sangue.
Eu lhes digo: faziam uma solemne asneira, e arrependiam-se, depois, como o senhor Antonio (que não era menos brioso que v. exc.ase s.as) se arrependeu de ter superficialmente condemnado sua mulher.
D. Maria Elisa convenceu o candido marido de que effectivamente tinha um primo, filho d'uma irmã de sua mãe, que morrera pobre, e o deixára abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido á sua compaixão, pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa existencia. Que ella, como esposa e dona de casa, responsavel pelos cabedaes de seu marido, se negára, muito tempo, a dar-lhe os supplicados recursos; mas, por fim, taes foram as instancias, que a seu pesar, não pôde deixar de ceder aos impulsos do coração, que lhe mandavam soccorrer o infeliz com as migalhas da sua mesa.
O senhor Antonio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez mais eloquente e philantropa, continuou:
—Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse suspeitas malevolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na Ponte-da-Pedra, e eu, indo sósinha a passeio, lhe daria o que podésse esconder aos olhos de meu marido, sem que elle desse pela falta, que de certo era um crime...
—Pois não fizeste bem, Mariquinhas! É o que eu te digo, e perdôa... Se me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispôr á tua vontade do que ha n'esta casa, porque o que é teu é meu, e o que é meu é teu.
—Pois sim; mas eu não tenho ainda um cabal conhecimento do seu caracter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz parente, e não ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido annuiria mais por delicadeza, que por vontade do coração. Agora, que tudo se declarou, não quero que o senhor Silva se mortifique por meter offendido com as suas imprudentes calumnias. Faça de conta que não houve entre nós a mais ligeira desintelligencia. Estamos quites: o senhor fez-me uma injustiça, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra, julgando-o sôffrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mão bemfeitora a meu desgraçado primo!...
—Ora, pois, não nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero é saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente lhe quero ir levar os recursos necessarios para a sua subsistencia... Onde mora elle?
—Onde mora elle?... (Maria Elisa não esperava esta! O improviso não era o seu forte, e viu-se na mais embaraçosa atrapalhação). Eu, se quer que lhe diga a verdade, não sei bem onde elle mora... mas deixe passar alguns dias, e talvez que elle aqui mande algum recado...
—Pois então logo que elle appareça, farás favor de lhe dizer que eu quero fallar com elle... Mas tu não conheces ninguem (tornou o suspeitoso marido depois de reflectir um momento) que saiba onde elle mora?
—Não, senhor.
—Não?... Eu não sei o que me parece isto, a fallar-te a verdade!... Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguem, ninguem?
—Talvez me lembre d'uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta d'elle, e me disse onde elle morava... Deixe-me recordar, e depois lhe direi...
—Pois olha lá se te lembras... Eu sempre quero vêr os focinhos ao teu primo... Acho que a cousa assim não vai bem...
—Que é o que não vai bem?!
—Eu cá me entendo...
—Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais palavras... Não está ainda satisfeito com a explicação?...
—Podia estar mais, se queres que te diga cá o que tenho no meu interior...
—Pois não sei que lhe faça. Creia, se quizer, e, se não quizer não creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu não lhe dou direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irmã, engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o odio. Sei amar, e sei aborrecer... Entende-me, senhor?
—Mas a que vem todo esse farelorio? Que te disse eu para tanta arrenegação?
—Parece que duvida da explicação que lhe dei do meu comportamento?! Esse direito só o dou á minha consciencia!
—Tem a menina muita razão; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que não sou mau homem, nem mau marido, se tenho cá minhas comichões de conhecer seu primo!...
—Se tem comichões, coce-se... é o que eu tenho a dizer-lhe... E de resto, se quer esperar que meu primo appareça, espere; e se não, procure-o até encontral-o.
D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz n'esta lembrança, porque o senhor Antonio precisava de similhante reacção para entrar nos justos limites d'um marido exemplar, como todos os maridos que não tem pública-fórma.
Que é pública-fórma d'um marido? Eu sei cá... Lembrou-me isto; se me lembra, em logar de pública-fórma, dizer uma sandice mais compacta, creiam que não era homem de a deixar no tinteiro, porque, se ha inviolabilidade n'este mundo, é para todas as sandices que se escrevem. D'este peccado tenho eu a dar sérias contas a Deus; mas quem de certo não deu nenhumas, quando d'este mundo se partiu, foi aquella alma gentil do senhor Antonio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escripto para os jornaes uma carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da barbara linguagem do systema representativo.
N'aquelles felizes tempos, as asneiras desciam á sepultura com o individuo; e d'essa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quaes peço ao publico imparcial que classifique a minha da «pública-fórma do marido» pelo que me declaro já summamente penhorado, como todos aquelles que se retiram d'um baile ás cinco horas da manhã.
Por não esgotar as frioleiras de que disponho, saberão, estimaveis leitoras (se me dão a honra de me dirigir a v. ex.as, como quem quer divertil-as da seriedade austera das suas cogitações) que D. Maria Elisa entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes, contando-lhe miudamente os infaustos successos.
Na manhã do seguinte dia, a anciosa esposa recebeu a seguinte resposta:
«Não te afflijas. Hoje de tarde ahi vai teu primo. Falla pouco, e deixa-o fallar a elle.»
O senhor Antonio estava sériamente amuado. Atormentava-o a dúvida, e as suspeitas terriveis principiavam a obra maldita do arrependimento. Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequencias da vida matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de pannos, e considerava-se o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o proximo do chinó, em circumstancias analogas.
Era isto que affligia o coração do marido de Maria Elisa, emquanto ella, amuada tambem, se fechára no seu quarto, imaginando a comica solução que o senhor Fernandes daria ao problematico parentesco da Ponte-da-Pedra. Assim se entretinham aquellas duas creaturas, quando foi dito ao senhor Antonio que estava alli um sugeito, que queria fallar-lhe, sendo possivel.
—Que diga quem é.
O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.
—Devéras?!—disse o senhor Antonio, com sobresalto, expandindo as bochechas em ar de contentamento.
—Sim, senhor, diz que é primo da senhora.
—E quer fallar comigo?
—É o que elle disse.
—E não fallou ainda com a senhora?
—Nada; nem por ella perguntou.
—Pois que suba para a sala.
Em seguida, foi introduzido na presença do senhor Antonio um sugeito de trinta annos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado, e maneiras delicadas.
—Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.
—E eu a mesma. Com que então o senhor é primo de minha mulher?
—Sim, senhor: filho d'uma irmã de sua mãe.
—Estimo muito conhecel-o.
—Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s.ª o fim que me traz a sua casa.
—Ora diga lá sem ceremonia, os homens são uns para os outros, e eu estou prompto a mostrar-lhe que não sou daquelles que... emfim... diga lá o que quer...
—Quero ser eu o proprio accusador da mão bemfeitora, que tem derramado sobre mim alguns beneficios. É preciso que v. s.ª saiba que eu sou pobre, e não tenho podido até hoje agenciar pelo trabalho a minha independencia. No commercio não me acceitam, porque me acham adiantado em idade. Emprego não me dão nenhum, porque não tenho protecções. Para militar não sirvo, porque sou muito doente do peito, e além d'isso muito curto de vista. Para frade tambem não sirvo, porque não tenho patrimonio, e de mais a mais não sei latim para poder entrar nas ordens mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; não tenho de quem me valha, a não ser d'esta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v. s.ª, é a unica pessoa do meu parentesco, a quem se póde pedir uma esmola! Nas minhas tristissimas circumstancias, dirigi-me a ella, e achei-a fria, dura de coração, e insensivel ás minhas súpplicas. Instei, segunda e terceira vez, obrigado pela indigencia, e consegui que ella me mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o pouco que podésse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes. Disse-lhe eu que não duvidava fallar pessoalmente a v. s.ª, e ella tirou-me d'isso, dizendo que não queria ser pesada a seu marido com os seus parentes pobres. Hontem foi um dos dias em que ella me deu uma pequena esmola, e me prometteu algum dia empenhar-se com v. s.ª para que se me désse um logar na alfandega, ou em qualquer repartição da justiça, em que eu podésse ganhar com honra um bocado de pão. Quando fallavamos n'isto, ouvimos uma voz, minha prima empallideceu, dizendo-me que fugisse, porque ouvira fallar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos de minha prima, e nem tempo tive de reflectir nas consequencias da minha fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que se passava. Quando v. s.ª sahiu com ella, reparei que vinham amuados, e entendi que eu fôra a causa d'essa desgraçada desintelligencia entre dous esposos que tanto se amam, segundo ella me tem dito...
—Ella disse-lhe isso?
—Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da estrebaria, e dizer quem era, porque v. s.ª não seria tão barbaro, que maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado é tão pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendoeste velho casaco e estas calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero que minha prima soffra por minha causa.
—Com que então o senhor metteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?
—Pedro José Sarmento de Athaide.
—Já que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde é que herdaram esses appellidos?
—Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...
—Dos...?
—Pesicatos e Bemóes.
—Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.
—Não admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus irmãos foram frades; um morreu dom abbade em Tibães, e outro foi bispo de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.
—Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhóplas!...
—Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmão legitimo do meu terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.
—Não é preciso; eu vejo que v. s.ª falla verdade... Mas como é que o pae de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?
—Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de riscar de seu nome os appellidos de nossos avós, porque não podia sustental-os. Ora aqui está a triste historia dos meus ascendentes, que mal diriam elles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide precisaria de estender a mão á caridade de estranhos!...
—Pois, senhor Pedro, não ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade. Havia de topar um homemcomo se quer para o seu amigo. Não fez bem... mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dirá o que se ha de fazer...
—Perdão... eu acho que não será bom que ella saiba que eu vim aqui, porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v. s.ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...
—Qual?... Ora o senhor então não sabe como ella é!... Verá que ha de estimar que se declarassem d'este modo cá certas suspeitas...
—Suspeitas!... quaes?...
—Eu cá me entendo...
—Mas eu é que não entendo... A minha honra está compromettida n'essas suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s.ª, em nome da honra, me declare quaes foram as suspeitas...
—Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo, metteu-se-me cá uma asneira na cabeça...
—Qual asneira?
—Pensei que o tal primo era algum rufião...
—Rufião!... Eu não entendo essa linguagem!
—Quero dizer que pensei que andava por ahi algum farropilhas a arrastar-lhe a aza!
—Então o senhor não sabe que minha prima pertence á veneranda linhagem dos Sarmentos e Athaides, e não consta que, na genealogia dos Pesicatos e Bemóes, se désse uma infidelidade porca e villã!... V. s.ª offendeu as cinzas de meus avós! Em nome de meu quarto visavô, João de Lencastre e Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me dê uma satisfação!...
—Não se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido póde enganar-se muitas vezes com sua mulher!
—Mas eu, neto de heroes, é que não admitto enganos taes! As suspeitas são affrontas! V. s.ª affrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela satisfação! Na França entre cavalheiros é costume disputar-se a honra á ponta de espada. V. s.ª ha de bater-se comigo!
—Eu!... essa é que é daquella casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha mulher não era tão boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se d'isso... Eu nãosei cá d'esses costumes dos francezes... Que os leve o diabo e mais quando elles cá vieram...
—Não me importam os francezes! Importa-me a honra de meus avós, insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor Antonio! Dentro em vinte e quatro horas um de nós estará na eternidade!
—O senhor, por mais que me digam, está a mangar comigo, ou não regula bem da cabeça!
—Com a honra não se manga, senhor negociante de pannos! Se a sua arma é o covado, a minha é a espada, que herdei de meu vigesimo-quarto avó D. Alarico Themudo Pesicato! É forçoso que se bata, ou então que declare á face do céo e da terra que é um covarde. Dentro de vinte e quatro horas virei procurar a resposta. Se não quizer bater-se, hei de sacrifical-o aos manes de meus illustres avoengos, que do Olympo excitam a minha coragem! Não tenho mais a dizer-lhe, senhor!
—Venha cá... isto não é modo de tractar o homem de sua prima!... Se quer dinheiro, diga-o, e não esteja ahi a arrotar postas de pescada.
—Com que então chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!... Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo tambem se arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de nós será cadaver!
O neto dos Pesicatos sahiu. O senhor Antonio, atordoado com a seriedade do negocio, entrou no quarto de sua mulher.
—Que diabo de homem é este teu primo, ó Mariquinhas?
—Meu primo!... pois elle esteve cá?!
—Sahiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...
—Pois que fez elle?
—O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com elle!
—Porquê?
—Isso agora é que eu não sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer que tive cá minhas desconfianças a teu respeito... e, ás duas por tres, põe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e quatro horas um de nós havia de morrer!... Que te parece isto?
—Parece-me um sonho!... Porque me não chamou?
—Porque elle não me deu tempo... Começou a desembuchar umas trapalhadas d'avós, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens da tua linhagem?
—Quaes homens?
—Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?
—Eu sei cá que homens eram esses!...
—Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso não é para isso... O tal teu primo, se é doudo, o melhor é amarrarem-n'o, e mandem-n'o para o hospital de S. José...
—Que figura tinha elle?
—Pois tu não sabes que figura tem teu primo?
—Sei... mas... lembro-me se não seria elle...
—Elle não se chama Pedro?
—Sim... elle... chama-se... Pedro.
—Pois então ahi está... É elle mesmo... deu-me todos os signaes certos da Ponte-da-Pedra.
—E que lhe disse?
—O homem fallou bem, a respeito de não ter meios, e fez-me cá no coração uma certa aquella; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, lá com as suas valentias. É preciso saber como isto ha de ser; eu não quero historias com elle. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?
—Pois sim; mas eu ignoro a sua residencia. Quando elle cá tornar, chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.
O senhor Antonio, um pouco mais socegado, relatou, pouco mais ou menos, a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, afflicta com vontade de rir-se, e, ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao ridiculo. Era bem natural esta mortificação do amor proprio.
A conversação foi interrompida pela chegada de dous senhores, que precisavam immediatamente fallar com o senhor Silva.
—Temos alguma!...—murmurou o negociante, e entrou na sala onde o esperavam dous officiaes de cavallaria, de grandes bigodes, e caras de arremetter.
—Quem são v. s.as?—perguntou o assustado dono da casa, apenas os encarou.
—Somos embaixadores de Pedro José de Sarmento e Athaide!—respondeu um d'elles, arqueando os braços, e levantando a caneca com orgulhoso entono.
—Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?
—Advertil-o de que é desafiado pelo nosso amigo...
—Ora, deixem-se d'isso!...—interrompeu o senhor Antonio,fingindo que recebia a intimação com gracejo—V. s.asestão a brincar... Queiram mandar-se sentar.
—A nossa missão cumpre-se de pé... e v. s.ª ha de responder-nos tambem de pé! Queira tirar o seu barrete, por que nós tambem estamos descobertos. As formaes solemnidades d'este acto não permittem distincções de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira descobrir-se!
—Eu estou em minha casa, posso estar como quizer.
—N'este momento a sua posição é outra. O homem desafiado não se considera em sua casa, emquanto a sua honra não está illibada, porque o homem deshonrado não tem casa, nem propriedade, nem direito! Descubra-se!
O senhor Antonio tirou o barrete, e emmudeceu na presença de similhante insolencia.
—Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duello com o senhor Pedro José de Sarmento e Athaide Pesicato?
—Não quero lá saber d'essas cousas, já lh'o disse a elle, e não me façam azedar o estomago, senão eu mando chamar o meirinho geral, e os senhores são catrafiados e mais elle na Relação.
—O senhor insulta-nos! Se não tivessemos piedade da sua barriga... essa lingua seria cortada pelo gume d'esta espada!...
—Os senhores vem insultar-me a minha casa! Já no meio da rua, quando não chamo os visinhos.
—Cale-se, monstro! quando não...
Os esturdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.
—Isto que quer dizer?—perguntou ella—Não respondem?... Que infamia é esta de entrarem n'uma casa estranha insultando o dono d'ella?
Os embaixadores do imaginario primo arrefeceram nas suas comicas furias, e não ousaram responder.
—Retirem-se d'esta casa!—disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da sahida.
—Minha senhora...—balbuciou um d'elles—nós somos enviados por...
—Seja por quem fôr. Vão dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe manda dizer que o seu procedimento é muito infame, e que eu muito sinto não ser homem para poder dar a v. s.asuma resposta cabal! Retirem-se!...
Os officiaes sahiram vexados, e o senhor Antonio estava espantado da coragem de sua mulher.
O senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas, á carta que Maria Elisa lhe enviara, contando-lhe os successos occorridos desde a fatal surpreza da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavallaria, e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do risco.
O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a casta de maroteira, acceitou o papel e estudou-o com muita habilidade. Era necessario que D. Maria Elisa o não visse para obviar aos embaraços muito naturaes em tal surpreza. Fernandes inventára o desafio, e o cadete inventára de improviso a historia genealogica dos Pesicatos e Bemóes, que encaminhou ás mil maravilhas a historia do duello.
O comico, retirando contentissimo do bom exito da sua travessura, antes de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou n'elles dous optimos bargantes para continuarem a caricatura.
Quando a ultima scena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a mal este excesso de escarneo a seu marido. Elle bem sabia que nenhuma mulher consente que a desgraçada condição do marido ultrajado seja um brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma fraqueza de coração.
Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possivel de ter ella sido testemunha da zombaria feita a seu marido.
Não se enganára. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos officiaes. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava grandes gargalhadas, e promettia contar o caso a toda a gente, escreveu a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossivel salvar-se! Embora não tivesse elle sido o inventor do escandalo, quem expozera Antonio José da Silva fôra de certo elle, e Maria Elisa leu a carta, rasgou-a, e devolveu-lh'a.
Seguiram-se novas remessas de cartas, que ella nunca abriu. Deixou de sahir de casa, para não ser encontrada. Soffreu quanto póde soffrer o amor proprio. Não sentiu, por isso, mais interesse por seu marido; todavia córava, muitas vezes, diante d'elle, lembrando-se que o fizera descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciencia estivera tranquilla até ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O que lhe pesava não era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a ella, escarnecendo um traste de sua casa, uma cousa que a sociedade chamava o «seu marido»!
Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que estabelecesse termos de comparação com meu marido.
A situação de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antonio estava assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os officiaes de cavallaria o encontrassem a geito. Ao anoitecer mandou trancar as portas, e armar os criados, emquanto, confiado na coragem de sua mulher, consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da sua arriscada corpulencia os golpes de espada d'aquelle par de Damocles que o neto de D. Alarico Themudo Pesicato lhe enviava a casa.
Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se lhe dizia que tudo aquillo fôra uma phantasmagoria, ficava a sua honra muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o pobre homem succumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada nas proximidades da barriga provocante.
Os palliativos não valiam nada para a cura. O senhor Antonio, no auge do medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de mais, quando deu ordem de despejo aos militares.
Maria Elisa quando viu, ao cabo de tres dias, que seu marido tinha febre e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrupulos, e accusou-se de ter concorrido para os soffrimentos do pobre homem.
Fernandes teimava em escrever-lhe, e não conseguia que as suas cartas fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do negociante, pedindo-lhe perdão das asperezas do seu caracter, e affiançando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquillidade.
Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas não querialembral-o ao seu indigno amante, porque jurára acabar taes relações.
O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da farça. O senhor Antonio não quiz ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida no quarto proximo, para intervir, sendo necessario.
—Eu venho—disse o cadete—desarmar a sua justa indignação, senhor Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima é sua mulher, e v. s.ª não tem obrigação de responder-me pelo mau conceito que fez d'ella. Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdão, visto que as minhas demasias são filhas do nobre sangue que me gira nas veias. Retiro-me na certeza de que v. s.ª, de hora em diante, não se lembrará mais do passado, e terá por mim a estima que se deve a qualquer individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como nós.
O senhor Antonio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com satisfação. Tinham-lhe alliviado do coração o pêso de quatro quintaes. O sangue girava-lhe de novo em toda a extensão do systema circulatorio; e os frouxos, que lhe accommetteram as pernas, desappareciam, á maneira que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdomen.
O senhor Antonio tinha um excellente fundo. Não era valente, mas odiento tambem não. Deu um abraço no estroina, que recuou dous passos para o receber com todas as formalidades d'um habil comico, e pareceu-lhe até que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe déra um beijo na bochecha direita. Não affianço isto; mas o que posso, debaixo da palavra de honra dos meus amigos, affiançar, é que um beijo na face do senhor Antonio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e alguma cousa de indecencia atroz na pessoa do cadete.
A verdade é que o tranquillo marido recobrou a felicidade inquietada, e restituiu a sua mulher a plena confiança retirada por uma fatal intermittente de ciume. Desfazia-se em satisfações, acarinhava-a a seu modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa acceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma indifferença.
Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de passageira felicidade eramas da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar as proprias mulheres que teem a consciencia de que são victimas. Talento e corrupção eram já n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se cortam os nós gordios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era uma d'essas certas.
O que ella teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo, apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ella, como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprêso, que elle reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais cahiu na leviandade de ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral e physica de seu marido.
Foi pessima lembrança aquella de enviar o cadete a representar de primo! Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar os maridos da escóla do senhor Antonio, que não são muitos, mas satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se honram d'essa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha sido o seu peccado, a gente de bom coração tem pena d'ella, vendo-a, depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sósinha, entregue á escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre na presença do senhor Antonio, carinhoso até á desesperação, terno até ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tôla até dar vontade de o mandar comer e dormir.
Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomagoera uma cousa á parte na sua organisação. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume morreria de paixão: mas o António do estomago só uma indigestão poderia matal-o.
Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando, impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina mandava-o passear a pé, e elle sem Maria Elisa, não dava um passo. Já não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que o prendia áquella mulher, como se prende a creança timida ao seio de sua mãe.
Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto não se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem reflexão, e escrevendo cousas que o seu marido não entendia, mas gostava d'ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ella intitulara os trinta cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que não pareciam de mulher, energia de phrase, conhecimento do coração, e toque real d'uma verdadeira dôr. O que não viram n'ellas as pessoas, que me informaram, foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fôra para sempre banida das saudades de Maria Elisa.
Constrangida pela soledade, a antiga orphã de S. Lazaro lembrou-se com amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu coração, d'onde nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se côr de carmim quando lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.
Maria Elisa não replicava a este odio inveterado. Tinha compaixão do pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com o mesmo appetite. Já não accumulava com prazer as sopas na tigella do caldo de gallinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.
A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em oração permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer, visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedadedo assumpto, a senhora Angelica, se fallava só dizia asneiras, o que não succede sómente á senhora Angelica.
Consta que ella fôra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante predizer o futuro, que, parece, á primeira vista, um bom modo de vida, depois de jornalista, que são as Escolasticas de calças e paletó do nosso tempo.
Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo, que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por não ter salvado d'um ataque apopletico o senhor Antonio José da Silva. Se fosse hoje, este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.
O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dôres de cabeça. Metteu os pés n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue negro, e fechou-se, porque as valvulas do coração estavam fechadas para sempre.
Maria Elisa tomou a mão do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu desentoadamente, e atordoou a visinhança com gritos. Feita esta berraria de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido, fechára-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pae! Sou orphã outra vez!»
A viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio, escreveu a Rosa Guilhermina uma carta queera um grito supplicante á sua amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao pé d'um cadaver. Só, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.
Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraçaram-se, chorando. Fecharam-se, para se furtarem ás formalidades estupidas das visitas funebres, que nos vem dizer: «sinto muito» e nos obrigam a responder: «muito obrigado.» Dous dias e duas noites quasi não tiveram um intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e já não sabiam adubar as conversações d'aquella fina especiaria de risos, que tanto promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.
—Já não somos as mesmas, Maria Elisa!—disse Rosa, abraçando a sua amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.
—Já não... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso esperar do céo...
—E eu tenho-a pedido tantas vezes!...
—Tambem soffres, Rosa?! Não tens um esposo amado?
—Não.
—Como não? pois não casaste por paixão?
—Casei... e depois, vi que me tinha perdido...
—Pois que? elle não te estima?
—Não... arrasta-me na sua desgraça... Meu marido é um homem perdido... um ente sem honra, nem futuro, nem presente.
—Pois teu marido não está a formar-se em Coimbra?
—Já não trata d'isso... Meu marido é um jogador.
—Jogador!
—Sim, jogador de profissão... Gastou quanto podia gastar do meu patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao Porto vender aquella prata, que tu déste a minha filha, depois de a comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que não tenho, noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive, porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphãos arbitrou para o sustentoda minha familia... Aqui tens a minha vida... Estou pobre... Maria Elisa!...
—Tu não estás pobre, Rosa! Não me falles assim, que me fazes chorar! Tu não estás pobre... Eu preciso que te esqueças de todo o nosso passado, para entrares de novo no coração de Elisa... Queres ser minha? Eu estou viuva, e viuva tambem tu estás... O teu coração não é já d'esse homem... É da tua filha, e meu; a tua filha é minha e tua, sim?... Não chores... Troquemos entre tres as nossas affeições todas... Vivamos n'uma só vontade... Foge para os meus braços, que não tem no mundo ninguem que os queira, a não seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que n'estes ultimos dous annos me tem sido tão negra... tão negra... Rosa! Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... Dá-lhe algum prestimo... Só tu podes, se vieres ser outra vez minha irmã, explicar-me a razão por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa menina... Vai buscal-a... Vai... Não me digas que não... que me matas... Essa mesada que tens dá-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre, mas foge-lhe tu, que não tens ainda uma nódoa na tua vida... Vem ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...
—O quê?... que tens tu sido?...
—Uma desgraçada...
—Tambem eu... que culpa temos nós?!
—Eu?... muita!... Calemo-nos, Rosa... Olha aquelles sinos pezam-me sobre o coração... Tenho mêdo d'aquelles sons... Se meu marido tivesse sido n'esta vida um homem, como eu deveria ter encontrado um, eu pensaria que aquelle dobre era a voz d'elle que me accusava da eternidade... Ai!... tu ignoras a minha vida? Parece impossivel!... Nunca ouviste fallar de mim como se falla d'uma infame mulher?
—Nunca...
—Pois pergunta ao mundo o que eu fui... Não, não perguntes nada... Ignora tudo. O meu coração para ti está puro... Restituo-t'o como t'o roubei, ou tu o lançaste de ti para fóra... Não te importem os meus defeitos... Foi um sonho horrivel! Acordei nos teus braços... quero aqui viver... Deixas-me esquecer aqui do muito que tenho soffrido?...
Rosa Guilhermina recebia com lagrimas as meias confidencias de D. Maria Elisa, quando lhe disseram que seu marido a procurava, por saber que ella estava alli.
A surpreza brutificou-a.
Maria Elisa mandou subir Augusto Leite, e reanimou a sua amiga do lethargo em que a deixou esta apparição tão pouco desejada. Fôra preciso muito para que a pobre senhora aborrecesse seu marido.
Não bastariam para isso as dissipações que elle fizera do seu patrimonio. A mulher perdôa sempre os desperdicios de seu marido, com tanto que elles não envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo de preço aos amores alheios que se vendem.
Não fôra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa, deixando a sua dona só os indispensaveis.
Estes vexames nunca se perdôam. A esposa, assim ultrajada, póde soffrel-os calada como martyr, mas não poderá nunca reservar um resto de affeição ao homem, que a humilhou assim.
Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu marido, que não vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou. Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto. Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e farpáda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do brilho da desesperação, fixavam Rosa com ar ameaçador.
Cruzando os braços com a importancia tragica d'um marido de tragedia, que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite disse, aproximando-se:
—Parece que me não conheces, Rosa?
—Vens tão mudado do que eras!... não admira que te não conhecesse, Augusto!
—Pois sou eu mesmo... Vejo que não sentes grande prazer com a minha visita...
—Não te esperava... Como ha seis mezes me não escreves...
—Entendeste que não havia nada commum entre nós... Pois, minha amiga, sou teu marido, apesar de ambos nós...
—Sinto muito que o sejas a teu pesar... Eramos ambos bem mais felizes, se o não fosses.
—Parece-te? a mim tambem; mas já agora o remedio é seres minha mulher, e eu teu marido...
—Fallas-me d'um modo que me fazes gelar o coração!... Que te fiz eu para me tratares assim?
—Eu sei cá o que me fizeste!... não me fizeste nada... Penso que me tornaste mais desgraçado do que eu era...
—Vejo que sim; mas não era essa a minha intenção.. Eu quiz fazer-te feliz; se o não consegui, é porque não pude, nem tu me disseste o que eu devia fazer para a tua felicidade...
—O que me perdeu foi o teu dinheiro...
—Não tive culpa, Augusto...
—Eu, se fosse sempre pobre, não me illudia com as esperanças do teu patrimonio, e trabalharia, estudaria para chegar a ser homem...
—Que hei de eu fazer-te, Augusto!... Eu nunca te aconselhei que arruinasses o que te dei; se soubesse que o meu dinheiro te fazia infeliz, lançal-o-ia ao mar para me casar pobre comtigo... Mas, se eu fosse pobre, de certo me não quererias...
—Não sei, não me importa saber, todas as conjecturas agora são estupidas...
—Perdôa as minhas conjecturas... Eu d'antes era espirituosa, segundo tu dizias, que eu nunca o acreditei... Agora sou estupida, é porque a desgraça embrutece...
—Nada de ironias... Sabes que estou pobrissimo?
—Não sabia; mas acredito que o estás.
—Pódes avaliar a minha situação?
—Posso; porque eu tambem estou pobrissima.
—Menos que eu...
—Mais que tu... Tenho uma filha que sustento, e cheguei á extrema dôr de querer comprar-lhe um vestido, e tive de vender um meu, para que a minha filha te não envergonhasse... Avalias tu agora a minha situação?
—Diz ao teu tutor que te entregue o que tens, e tu administrarás...
—Já lh'o suppliquei muitas vezes. Não me concede cinco reis além da mesada que me arbitraram... Não posso conseguir nada... Emprega tu os meios, que eu concedo-te tudo; e, se não podéres alcançar mais do que eu, desde já te cedo toda a minha mesada, e eu e minha filha recorreremos á caridade da minha amiga Maria Elisa.
—Não quero caridades de ninguem: quero aquillo que é meu, quando não enterro uma faca no coração do tutor...
—Cala-te, Augusto, que me pareces demente!
—É porque eu realmente estou louco... Preciso sahird'esta desgraçada vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando não vou com um bacamarte para as estradas...
—Augusto!—exclamou ella, tirando-lhe a mão do cabo do punhal, que empunhára instinctivamente no bolso interior do casaco.
—Tu não sabes onde a desgraça é capaz de me levar... A sociedade fez-me assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; não roubei nada a ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, não dér um conto de reis, sou prêso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.
—Oh meu Deus, que vergonha!...—disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e escondendo o rosto entre as mãos.
—Nada de exclamações... Esse remedio não me presta de nada... Visto que tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me queres salvar... Não me respondes?
—Augusto!... eu não posso responder-te já... Deixa-me possuir bastante do meu infortunio, para perder a vergonha...
—Isto não soffre delongas... Quero a resposta já...
—A resposta dou-lh'a eu—disse Maria Elisa, que apparecera de improviso.
Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se logo, porque lhe faltavam forças para acolher-se ao seio da sua amiga.
Maria Elisa veio ter com ella, abraçou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:
—Queira demorar-se, que eu volto já.
Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o visse. Não era loucura. Era o contentamento de se vêr possuidor d'um conto de reis, com o qual contava já. Era a esperança de transportar-se com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que não poderia tornar a Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braços, espreguiçando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: «ha um demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de mostrar-lhe que sou agradecido...»
Maria Elisa voltou. Sentou-se no canapé, e fez signal a Augusto, offerecendo-lhe uma cadeira:
—Senhor Augusto, v. s.ª vai receber da minha mão uma quantia de dinheiro, que me não pertence, nem a sua mulher. É uma generosidade de sua filha, de que eu sou interprete...
—De minha filha?!
—Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de recebel-a, v. s.ª lh'a entregará. São tres contos de reis em notas. É um deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s.ª procure reconquistar a sua honra, e não lhe faltarão recursos para um dia entregar a sua filha esta quantia augmentada...
Augusto, balbuciante de prazer, não avistando d'um relance toda a extensão do seu futuro, murmurou:
—Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.
—Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.
—Qual?... a viuva de meu tio manda, não pede...
—A viuva de seu tio nem manda, nem pede nada. Repito-lhe que sou absolutamente estranha a esta troca de favores que faz o pae com sua filha. O que em nome d'essa menina lhe peço, é que consinta que ella e sua mãe vivam na minha companhia.
—É muita honra para mim, minha senhora. Eu vou fazer uma pequena viagem por causa de certos interesses, e durante a minha ausencia não posso confiar a mais valiosa protecção minha mulher e minha filha.
—Vai viajar?... Sua senhora já o sabe?
—Ainda lh'o não disse.
—Pois então... não lh'o diga... Salvo se tem motivos fortes para dizer-lh'o...
—Não tenho alguns... Era simplesmente despedir-me...
—N'esse caso, eu encarrego-me de fazel-a sciente do seu adeus, e v. s.ª de qualquer paiz lhe escreverá...
—Minha senhora... dispõe do meu quasi inutil prestimo?
—Empregue-o, que tem muito, em ser um digno marido da minha amiga, e um digno pae da menina que adopto como minha sobrinha. Além dos vinculos de parentesco que o prendiam a meu marido, ha outros mais consistentes que são os da amizade, que consagro a sua mãe.
Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o coração alvoroçadode prazer, foi abraçar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na soffreguidão d'um beijo: «És minha para toda a vida!»