CAPITULO XXVII

CAPITULO XXVIISigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha dão a Maria Elisa a felicidade, que ella lhes remunera com afagos.O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal, disse algumas palavras a sua mãe, e mandou preparar a inseparavel moçoila, que o acompanhava, na boa e má fortuna, havia quatro annos.Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sêda escarlate, chapéo de guizos, um par de pistolas, um cobrejão, e dous cavallos de baixo preço.Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chôpa debaixo da perna, esporeando o cavallo, á laia de cigano, caminhava a par com ella.N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mézinha para matar asbichasdos pequenos.Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. «Christão ás pulgas!» deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinario, como o fatal «Christão ás feras!»Era alta noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetaceos áquellas pulgas, de horrivel recordação. No sobrado immediato ao da possilga em que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos gallegos residentes no Porto.Descompunham-se em raivosas apostrophes por causadas mantas, que algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se, esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas, e vieram de encontrão á porta do meu quarto, que não resistiu ao choque, e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de camisa, que me pareciam, á luz mortiça da véla, executarem uma dança macabra, uma mazurka de demonios!Eu levantei-me em pé sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello, e presenciei com os cabellos erriçados o desfecho d'aquella tremenda lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o meu quarto campo neutro.N'esse mesmo quarto, ás duas horas da noite, tambem o senhor Augusto Leite recebeu uma inesperada visita; mas não de gallegas em guerra crua. Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio cadete, que o leitor conhece, e reforçados por alguns meirinhos do corregedor, e um especial enviado do regedor das justiças.Já soubemos que Augusto Leite roubára em Lisboa uns brilhantes. A razão por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? Não é bem liquido, e eu não quero inventar, porque não tenho necessidade de deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua admissão á academia. Eu, de mim, para não duvidar de nenhuma das explicações, acredito-as ambas, e não offendo os diversos opinantes.O que devem todos acreditar é que Augusto Leite dispensou á condessa o trabalho de pôr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico, visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres horas, trinta mil cruzados em casa do barão de Quintella. Os curiosos averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um judeu na rua dos Fanqueiroscomprára na vespera por trinta mil cruzados uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorsão, perguntando se reviviam os tempos nefastos de D. João III; offereceu-se voluntariamente para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o procurador da condessa respondeu:res ubicumque est sui domini est.O judeu não ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa legislação, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o ladrão.Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a pé, sem dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro mezes, não sabemos por onde, até que o vimos entrar em casa da viuva de Antonio José da Silva.Tornemos agora a Casal de Pedro.O enviado do regedor das justiças bateu á porta da estalagem, e perguntou que passageiros pernoitavam alli.—Dous almocreves, o recoveiro de Vianna, um passageiro do Porto, com sua mulher, e um criado.—Abra lá a porta—disse com a costumada intimativa o executor da lei.Abertas as portas, os meirinhos encaminharam-se para o quarto do passageiro. Augusto Leite ouvira as perguntas. Saltára fóra da cama para fugir, mas não conhecia um palmo da casa fóra do seu quarto. Antonia Brites, companheira dos seus trabalhos, lembrou-se d'alguns sanctos, que conhecera na infancia, e incommodou-os com as suas orações. O antigo traductor de novellas não lêra cousa que lhe servisse de modelo para similhante conflicto. Quiz precipitar-se da janella, mas viu na rua os cavallos em linha. Recuou diante d'um sacrificio inutil, e appellou para os extremos.Os meirinhos entraram, e viram uma mulher de joelhos com as mãos erguidas, e um homem de semblante feroz com duas pistolas aperradas.O estalajadeiro, que caminhava na frente com a candeia, fez dous passos á rectaguarda, e declarou-se neutral. Os meirinhos, que tinham á vida o amor suficiente para viveremoitenta annos mais, não foram mais adiante que o prudente estalajadeiro. Augusto conservou-se na postura ameaçadora, fuzilando dos olhos um clarão mais vivido que a candeia tremula do petrificado taverneiro.Um dos meirinhos, emquanto os outros voltavam as costas, veio á rua, e disse que o homem não era para graças. O cadete apeou, e subiu com dous soldados. Foi á porta do quarto, e encontrou o athleta na sua immobilidade sinistra. Deu-lhe voz de prêso, e viu que o ladrão era surdo, ou rebelde á lei.—O melhor é botar-lhe as unhas—murmurou um soldado.—Agarra-o,trinta e quatro!—disse o cadete.Otrinta e quatroentrou no quarto, e, quando lançava mão aos copos da espada, sentiu um corpo duro bater-lhe na testa. Descarregou ainda um golpe, e foi de bruços atraz da espada que bateu no sobrado. Estava morto.O camarada dotrinta e quatrocorreu em defeza do seu companheiro. Descarregou duas cutiladas na cabeça de Augusto; mas, á terceira, sentiu fraquear-lhe o braço, e veio recuando, cahir, com uma bala no coração, aos pés do cadete.Os outros soldados tinham subido, e atropellavam-se á entrada do quarto. Augusto Leite, coberto de sangue, defendia-se debilmente com a chôpa, que vencia o alcance das espadas. Os soldados, arrefecidos pelo aspecto dos dous camaradas mortos, não ousavam affrontar o aço da chôpa, que algumas vezes sentiram resvalar-lhe na farda, deixando-lhe na pelle um ligeiro ardor, que depois se exacerbava com a humidade do sangue.O cadete, envergonhado da cobardia dos seus, diante d'um só homem, entendeu que salvava a sua honra, desfechando uma clavina no peito de Augusto Leite. Ao desfechal-a viu interpôr-se-lhe um vulto. Era Antonia Brites, que vinha pedir-lhe de joelhos que não matasse Augusto. Não chegou a pronunciar a primeira palavra. Recebeu a bala, que havia de matar o marido de Rosa, e cahiu pedindo confissão. Deus lhe levaria em desconto das suas culpas o bom desejo de reconciliar-se com o céo, porque fechou os olhos antes de vêr o padre.Augusto, impellido pelo instincto da vida, saltou da janella ao quinteiro com tal destreza, que as espadas não poderam tocar-lhe. O quinteiro estava deserto de homens, e os cavallos soltos entretinham a fome no tojo. A comitiva correuatropelladamente a impedir a fuga. Quando chegaram ao quinteiro, meirinhos e soldados, qual d'elles mais corajoso, o que viram foi um cavallo de menos, e na calçada fronteira as faiscas das ferraduras do que fugia. Alguns soldados quizeram montar; mas os cavallos assustados pelo salto de Augusto ao meio d'elles, não deixavam estribar, e jogavam de garupa com mau resultado para o meirinho geral, que perdeu ahi os tres unicos dentes que possuia.—Já se não pilha!...—disse o cadete.—Agora é vêl-o ir—accrescentou um soldado.—Vamos ao quarto tomar-lhe conta das malas—disse o enviado do regedor das justiças.Entraram no quarto. Abriram uma pequena mala de couro, e umas bolsas de hollandilha onde encontraram alguma roupa branca. Dinheiro, nem cinco reis. A volumosa carteira com tres contos menos duzentos mil reis, que o sobrinho do senhor Antonio José da Silva gastara em cavallos e pistolas, e fato, levava-a elle no bolso da jaqueta de pelles.De madrugada os executores da lei voltavam para o Porto, com os dous cavallos de Augusto Leite.Os tres cadaveres foram enterrados no adro da igreja parochial, porque o vigario duvidou sepultal-os em sagrado, visto que não traziam signal de christãos, como cruz, nominas, bentinhos, veronicas ou outro qualquer distinctivo da fé catholica.———Relação das pessoas que já morreram n'este romanceO mestre de latim1A senhora Escolastica1O arcediago1Uma velha da viella do Cirne, cujo nome me não lembra1O senhor Antonio José da Silva1Antonia Brites, amante de Augusto Leite1Dous soldados de cavallaria2Somma total8Continuarão a morrer convenientemente.CAPITULO XXVIIIAugusto Leite quando chegou á Barca do Lago ia a pé. O cavallo cahira rebentado, e o cavalleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos que recebera na cabeça. Não lhe era difficil viver seguro em casa d'um lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que deu ao passageiro, que, segundo elle, tinha cara de pessoa de bem. Vendeu-lhe a sua egua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilancia dos aguazis, e levou-o á fronteira de Hespanha, curado das feridas, e salvo de encontros importunos. Ahi, foi facil ao foragido comprar um passaporte, que o levou a Madrid com o pseudonimo de D. Fernando Godinho Pereira Forjaz.Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes sérios, apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em Hespanha, e entrou como portuguez distincto nas primeiras casas da capital. Encontrou ahi fidalgos portuguezes, que o não conheciam; mas respeitavam-no pelos appellidos, e não se recusavam a chamar-lhe primo, visto que os Pereiras Forjazes eram ramificação do heraldico tronco dos condes da Feira.Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em alguns mezes alcançára uma publicidade que lhe não convinha. O seu nome era repetido de mais nos salões. As suas conquistas amorosas excitavam invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu abandonar Hespanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver bem, sem excitar curiosidades funestas.Em Paris deu-se como hespanhol, e era conhecido por D. Affonso Vilhegas. Fallava correntemente o hespanhol, associára-se a uma partida de jogadores da sua patria adoptiva, e engrandecera o seu peculio, que já subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fôra abençoado!Não tivera, até então, alguma noticia de sua mulher. Não lhe convinha solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residencia. O coração tambem lh'a não pedia.Passeava uma tarde nosboulevards, e viu um homem, que lhe não era de todo estranho, e reparava muito n'elle. Perguntou-lhe, em francez, se era hespanhol.—Sou portuguez—respondeu o cavalheiro.—Estimo muito... Eu gosto dos portuguezes. Viajei alguns mezes na sua terra, e sympathisei com as mulheres, que são quasi todas gordas e vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.—Tem razão... mas, pela pronuncia, parece-me hespanhol, e as mulheres da Hespanha não são inferiores ás de Portugal. Não tem razão de invejar a minha patria... Que cidades conhece em Portugal?—Conheço as que lá ha que mereçam esse nome... Lisboa e Porto.—Esteve no Porto? É uma bonita cidade, não é?—É muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao escurecer. Não ha nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita tranquillidade de espirito. E na semana sancta vêem-se as mulheres, quando passam as procissões.—Conheceu alguma no Porto?—Apenas uma. Como fui recommendado a um negociante chamado Antonio José da Silva, tive occasião de vêr de passagem uma bonita rapariga, que fallava em estylo de Corneille.—Pois conheceu essa senhora?!—Perfeitamente. Que é feito d'ella? É feliz?—Penso que não. A sua fortuna está perdida. É por causa d'ella que eu vim a França.—Sim? é notavel a coincidencia!... Pois senhor, veja se eu posso servir-lhe de alguma cousa com o meu pouco valimento... Que desastre foi esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...—E era. O negociante morreu ha dez mezes. A viuva liquidou a sua fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ella em uma casa commercial franceza, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa acaba de fallir, e o dinheiro de Maria Elisa está perdido, segundo creio.—Coitada...! fica pobre por consequencia...—Pobrissima...—E tem filhos?—Não, senhor.—Nem familia?—Tem em sua companhia uma amiga e a filha d'essa desgraçada senhora, que tambem foi rica, e está reduzida a nada...—Tambem tinha os seus bens de fortuna na casa commercial que falliu?—Não, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deploravel...—Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que não sejam tão infelizes como o senhor as pinta...—Pois não digo metade das desgraças que as esperam.—E o marido d'essa amiga da viuva... naturalmente é um perdido que lhes não póde valer de nada?...—Esse homem morreu... ou ha todas as probabilidades para o julgar morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladrão...—Era ladrão? Oh diabo! então foi bem feito matarem-no!—Roubára em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuia algumas propriedades, de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A viuva do negociante, que o senhor conheceu, não lhe dava tempo a scismar nos seus infortunios; mas agora a situação d'ambas é desgraçadamente igual.—E o seu procedimento?—O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e é natural que a outra viuva a acompanhe.—Então o senhor que veio fazer a Paris?—Vim tentar o ultimo esforço; mas inutilisei despezas e trabalho. Pedi que se indemnisasse a viuva da massa fallida; mas o tribunal do commercio não deferiu ao meu requerimento.—Quando parte o senhor para o Porto?—Ámanhã deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.—Póde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio José da Silva?—Com muito boa vontade.—Tenha a bondade de acompanhar-me.Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D. Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras sobre o Porto, entregues á ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma carta ao procurador, accrescentando:—Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua sorte.O procurador, aturdido como é natural, desejou n'aquelle momento vencer como n'um vôo de espirito a distancia, queo separava de Maria Elisa. Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas não conseguiu elucidar-se mais do que tinha sido.Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse á sua imagem representada no espelho: «Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa acção é o unico prazer sem mistura de dôr. É a primeira acção boa que praticas, meu caro Augusto! Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra, porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos da loucura. Se vaes dizer á sociedade que te dê os meios para sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te trabalhar. Pois então, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.»Este dialogo, com o seuunico amigo, foi interrompido por uma personagem, que apeára d'uma sege e mandára adiante o seu nome: era o visconde de Bellarmin.—Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.—É necessario que te retires de Paris immediatamente.—Porquê?—O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de Hespanha, que combinas com o de França uma reacção. Ha ordem de prisão para ti.—Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser prêso como homem temivel a duas nações. Ainda agora me lembro que posso ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando VII!—Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens passaporte para Portugal.—Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Hespanha, e perdôo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que volto do Japão. Acceitas?—Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionario.—Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!... Avia-te...Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito franciscano, a face amarellecida por não sabemos que tinturas finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar para Cadiz.Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava em Cadiz, onde as côrtes se refugiaram com Fernando VII, que estava prêso, a pretexto de demencia, por não ter sanccionado a constituição.Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e offereceu, como fanatico pelas prerogativas reaes, e inimigo encarniçado da França, o seu apoio, e o seu braço, sendo necessario.Tal fôra a sua enthusiasta eloquencia, que os chefes da reacção, sem discutirem a pessoa, abraçaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o segredo dos seus planos, acclamando-o unanimemente seu secretario.Era necessario fallar ao rei, que os liberaes retinham com sentinella á vista. Empreza difficilima! Foi pedido o parecer do frade missionario, em quem os fanaticos reconheciam o providencial redemptor de Hespanha. Antes que elle abrisse a bôca, já todos sabiam que a sua palavra seria a salvação, e as suas ordens immediatamente executadas.Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. Não respiravam os circumstantes. Fixavam-se todos os olhos nos labios do moço frade, quando elle, antes de pronunciar uma palavra, deixou cahir o habito, e deixou vêr um fardamento completo de general francez.As escarlates physionomias dos conspiradores empallideceram, murmurando um prolongadoah!—Não me julguem algum magico—disse Augusto Leite, sorrindo bondosamente.—Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para vestil-o um dia, com a consciencia de ter servido a Hespanha, fortalecendo-lhe a sua independencia, e defendendo-a das impias aggressões da França. É necessario fallar a Fernando VII. Eu irei apresentar-me ás côrtes, e direi que sou um enviado do duque de Angouleme, que, a estas horas, bate ás portas de Madrid. Direi que omeu fim é capacitar o rei a acceitar a constituição, e serei conduzido pelos interessados ao pé do monarcha.—E depois?—exclamaram algumas vozes.—Depois da minha conferencia a sós com o rei, retirar-me-hei dizendo ás côrtes que Fernando VII está doudo, e não concebeu as minhas razões. As côrtes, que por força precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-hão d'uma intelligencia muito fina, ou d'uma astucia tão cavillosa como a sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dirá ao seu medico que sente uma forte dôr de cabeça; duas horas depois sentirá uma convulsão, e cahirá...—Morto?!—Apparentemente morto. O medico virá dizer ás côrtes que o rei morreu d'uma apoplexia fulminante. Far-se-hão os funeraes. O cadaver será transportado para o palacio municipal. Tres horas depois que o julgarem morto, o rei resuscitará, e, á frente do exercito fiel, dirá: «A Providencia restituiu ao povo hespanhol o seu monarcha!»Os venerandos frades sacudiram a cabeça em ar de pasmo. A alguns afigurou-se-lhes que o seu irmão era o proprio diabo, que vestira o habito do serafico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que elle era, desde que o Senhor o expulsou do céo. Os mais circumspectos, encarando-o com o respeito da superstição, por isso que o reputavam embaixador d'um poder sobrenatural, não ousaram interrompel-o no extenso discurso, que não publicamos na sua integra, porque na sala do conciliabulo não estiveram tachigraphos, que nos transmittissem o discurso completo.O que sabemos é que Augusto Leite n'esse dia apresentou-se ás côrtes, pedindo consentimento para fallar ao rei como enviado do duque de Angouleme, commandante do exercito francez.Perguntado pelos meios que empregára para chegar desconhecido até Cadiz, respondeu que embarcára n'um porto da França, com passaporte que apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As côrtes acreditaram o enviado, e permittiram-lhe a entrada no carcere de Fernando VII.O rei, quando lhe foi annunciado um emissario francez, declarou que o não recebia, sem ter ao seu lado uma peça de calibre 40, com morrão accêso. Esta dificuldade é que o marido de Rosa Guilhermina não previra. Redobraram as instancias inutilmente durante tres dias, ao cabo dos quaes o duque de Angouleme, defronte de Cadiz, bombardeava a cidade.Augusto Leite, empregando a corrupção por meio do ouro, fez saber ao rei que o enviado francez era um partidario do congresso sacerdotal, que vinha offerecer á Sua Magestade valiosos serviços para a sua fuga do poder das côrtes.O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro arcebispo de Toledo, graça que desde logo lhe confirmou com a sua real palavra.Augusto Leite agradeceu com reverente effusão a graça, e offerecia ao rei a beberagem que devia paralysar-lhe a vida apparentemente, quando se ouviram exteriormente gritos que annunciavam a fuga do exercito hespanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.O populacho davamorrasaos membros das côrtes; e os partidarios da constituição, que não sabiam as intenções pacificas da França, luctavam desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.Augusto Leite, persuadido de que era já desnecessaria a realisação dos seus planos para a soltura do rei, não lhe ministrou o liquido, e dava graças á estupida fortuna que o collocára ao lado de Fernando VII, no momento da sua liberdade.Um membro das côrtes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e cortada infallivelmente a sua cabeça um momento depois, resolveu um d'esses attentados sanguinarios, que são o caracter do povo hespanhol nas crises revolucionarias, resolveu o regicidio.Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito á camara do rei. O primeiro que se lhe antepôz foi o supposto official francez. Recuou diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da desesperação, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração. Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia immediato, não fosse arrancado á enfermaria militar para padecer morte de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo, Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado com grandes honras por ter defendido, á custa da propria, a vida do seu rei.O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos martyres franciscanos; mas um francez doestado maior do duque de Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de frade ao seu amigo por mil libras.Ora pois, d'este sugeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza á eternidade individuos sufficientes para chamarem a attenção devota dos pios leitores em dia de fieis, defuntos.CAPITULO XXIXMaria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Sério, unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fôra enviado de Paris, melhorára a condição precaria das afflictas senhoras, que se viam na dura precisão de entrarem n'um convento como criadas de freiras.Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abençoaram Augusto Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para tornar a Portugal.Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o procurador que fallára com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na mesma casa, e soube que esse homem se retirára de França um anno antes.Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D. Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.Esta nova matou todas as esperanças das pobres senhoras. Pobres outra vez! Choraram muito, como é natural, e resolveram abraçar a baixa profissão de criadas de convento.Mas eram bellas ainda. A desgraça, ao passar por ellas, nem lhes desbotára o viço da formosura, nem lhes arrefecera de todo o coração. Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas viessem ao mundo com o seu sorriso de seducção?Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias, á mesma hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu quarto, onde ella, na hora das saudades, á luz crepuscular, costumava sentar-se com sua filha nos braços.Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima palavras que ella não entendeu, nem quiz entender. Restirára-se a contar á sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora, dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava o fidalgo enamorado.No dia seguinte, é certo que não veio á janella; mas, por entre as cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que não deu por isso, parou um momento, e disse ella á sua amiga que o vira suspirar. Se isto é verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim, era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja feita, não encarecem o genero; barateiam-no de modo que não ha consumidora que tenha razão de queixa.E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe não dava em troca um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.Hão de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e generoso, e dado a prazeres que lhe não arruinavam a bolsa nem a saude. Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonára sériamente pela esquiva viuva de Augusto Leite.Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo desprêso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi ao meio dia; mas, ás quatro horas, o soberbo moço anafava cuidadosamente os cabellos, para não ser suprendido, em desalinho, no Sério.N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa, com a amiga, e a filhinha que brincava com um cão de regaço. O cãosinho, que não estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu á ama, na direcção da casa. As senhoras chamavam-lheJoli, que era, por esse tempo, onome favorito de todos os cães; mas o rebelde quadrupede não olhava para traz.Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do cão, apeou-se gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no collo, e foi conduzil-o ás damas, que receberam a attenciosa delicadeza com o rubor na face.O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. Já não fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim um respeitavel marido.N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metáphoras, e vêr-se-ia na precisão de incommodar a mythologia para responder-lhes. Agora, já não. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas maravilhas aereas. Fallavam como nós, importavam-se pouco dos livros, sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente que tinham sido embrutecidas pela desgraça.E se não vejam:—Agradecemos muito a sua delicadeza—disse Maria Elisa, recebendo o cãosinho (não tenho a certeza se era cadelinha) das mãos de Alvaro.—Só este irracional—disse Alvaro, mastigando a fineza—deixaria de obedecer ás ordens de suas amas. Assim mesmo peço que não seja castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido desobediente seria bastante castigo.—Muito agradecidas ás lisonjas de v. exc.ª—atalhou Maria Elisa, emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da menina.—Não é lisonja, minhas senhoras. O que eu digo é o menos que se póde dizer, e espero acreditem que não sei dizer tudo que sinto. Aquella senhora parece aborrecer-se da minha presença...—Não, senhor—disse Rosa.—A presença de v. exc.ª não aborrece... É porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...—Que é linda como sua mãe... Que annos tem?—Quasi cinco.—Em tão tenra idade é admiravel a esperteza d'esta creança!... Venha cá, minha menina... como se chama?—Assucena—disse a creança.—Que lindo nome!... Umarosadevia produzir umaassucena... É minha amiga?—Sou.—É? Já tenho uma pessoa que seja minha amiga!... Sou mais feliz do que pensava... Quer ir a minha casa?—Quero.—Pois hei de mandal-a buscar um dia. Minha mãe gosta muito de creanças... V. exc.ª dá-me licença que ella vá?—Pois não! É muita honra...—N'esse caso, amanhã, se me permitte...—Quando aprouver a v. exc.ªOra aqui está como começou o namoro. No dia seguinte, Alvaro de Sousa veio de carruagem buscar a menina, subiu á sala, como era natural, e não viu Rosa que se fechára no seu quarto banhada em lagrimas. Quiz saber a causa de tal soffrimento, e disse Maria Elisa que a sua amiga tivera noticia de estar viuva.—Viuva a reputava eu, ha muito!—atalhou Alvaro.—Não o era... Convinha que esse boato corresse...O fidalgo deu a entender que sabia a razão d'esse boato, e retirou-se semAssucena, que não podia, durante o lucto, sahir de ao pé de sua mãe. Á tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e offerecer o seu prestimo.Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo não se lhe dava de recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum espirito. Se vivesse hoje, de certo não era ferreiro; escreveria folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo, esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez então, e que ha de fazer-se no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro, não escrevia romances. A estas horas (são sete e meia da tarde) estava eu rezando vesperas em algum côro de frades carmelitas, para que tenho uma vocação imperiosa.Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lêr, confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. São textuaes. Podem vêr-se em minha casa, desde omeio dia até ás quatro horas da tarde. Quem as escreve é um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo furtou á desgraça para cultivar a arte. Quem as recebe é uma senhora, que ainda vive.CARTA I22 de setembro de 1824Minha estimavel amiga:Não posso ser indiferente ao interesse, que v. exc.ª tem na minha felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas são a unica indemnisação que tenho das compridas horas de uma vida sósinha, escura, e despovoada de todas as bellezas, se é que algumas a existencia póde ter para mim.Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha precisão de viver para alguma cousa; mas a arte não me galardôa a minha dedicação. Do seio da tela tenho arrancado imagens, que são a reminiscencia d'aquella mulher que me fugiu dos braços para os braços do tumulo.Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me lagrimas, e não m'as paga com a esperança de crear por ella um nome, como o de muitos desgraçados que se immortalisaram nos quadros, em que verteram muitas.Eu não sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro, anhelante de não sei que esperança embriagadora, atraz d'essa visão impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S. Francisco. Lá dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada! Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e retiro-me d'alli gelado pela dúvida, gelado como a pedra que a separa dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por não sei que mão fatal que me não deixa resvalar no meu abysmo!Sou bem desgraçado, não é assim? Muito! Este meu viver é alguma cousa mais dilacerante que a dôr. Não tenho a esperança consoladora, que a Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O presente conta-me o futuro. O que vem não receio que sejapeor que o que é. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!V. exc.ª comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o entendimento. Para o que soffreu não ha mysterios de dôr no coração do estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo querido. Já depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficára fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolações á amargura dos outros. Eu, hoje, não saberia consolar ninguem.Minha amiga, dê-me a sua estima, que eu não tenho mais nada. Em remuneração, dou-lhe a verdade da minha alma, que é um thesouro, raras vezes, concedido.De v. exc.ªVerdadeiro amigo,Paulo.II30 de setembroPalpita-me com sobresalto o coração. Preciso escrever-lhe emquanto me dura esta febre, que está sendo a minha felicidade!Felicidade! com que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! Já é desejar muito possuil-a! Bem se vê que sou um homem sem presentimento nenhum alegre, sem nenhum direito á felicidade. Um pequeno lance na minha vida transtorna-me a cabeça; e, comtudo, estes lances, creio eu que são frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente feliz.Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa de v. exc.ª Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado para todo o mundo. Chamou-me «amigo» e esta palavra banal fez-me sorrir, pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que tão distante está da minha obscura classe!...Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua mãe que a chamava do céo. Eu já sabia que v. exc.ª lhe tinha dado este quadro. Entendi, quandoo soube, que não devia magoar-me; mas quizera, antes, que os profanos na religião do martyrio ignorassem o author daquella pintura. Não me receba isto como queixume. É a innocente sensibilidade de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos injustos...Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que nunca veio desfigurada do meu coração. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Sério, a casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio José da Silva, e creio mesmo que v. exc.ª me fallou, ha tempos, n'esse homem, contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo de traz da Sé.Em casa d'essa viuva está uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A nossa chorada amiga fôra companheira d'ella nas orphãs em S. Lazaro, e contou-me cousas que lhe não eram muito favoraveis á sua indole de menina.Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhança dos genios aproximára dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vêl-a.Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas bellezas que não se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o coração nos olhos, e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo, porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde não chegou ainda a cultura e o despejo da FrançaEu disse-lhe que não podia prescindir dos seus olhos por algumas horas. Sentia-me com disposição para zombar da belleza, que tinha a vaidade de reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as rugas da velhice, no vívido scintillar dos olhos o amortecimento do cansaço.Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braços uma pequena creança a quem chamavam Assucena. É filha de Rosa. Conheci-a pela semelhança com sua mãe; masnão sei o que ha na physionomia da pequena, que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?Emquanto esboçava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena Christina, nas orphãs. Disse-me que sim, e que chorára, quando teve a noticia da sua morte, por causa d'uma paixão que cegamente tributára a um homem, que não era da sua condição.Que homem era esse?—perguntei-lhe eu—Era o filho d'um advogado.—Pensei que a condição do advogado era nobre, repliquei eu.—É nobre; mas a d'um general é muito mais nobre, e Helena era filha d'um general.Não pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no braço, e o pincel traçava linhas confusas. Pedi licença para retirar-me, e deixei Alvaro enleado da minha improvisada sahida.Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.ª Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocação augmenta. Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena? Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque não posso accusar meu pae, que devera ser general, e não advogado.Como é a sociedade, senhora! É impossivel que a Providencia não abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus presidisse á organisação do genero humano, ninguem viria dizer-me: «A tua condição social collocou um tumulo entre ti e a filha de um general!»E é a isto que eu chameia minha felicidade! É um novo crime! Aquella mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena até lhe merecer o sacrificio da vida. Será isto um egoismo barbaro?Adeus, minha boa amiga.De v. exc.ªAmigo do coração,Paulo.III12 d'outubroTive hontem o desgosto de não encontrar em casa v. exc.ª Procurei-a porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas tão desordenadas, que receei não poder escrevel-as. Abondade, com que a minha paciente amiga costuma attender os desvarios d'este forte coração e d'esta debil cabeça, seria mais uma vez tolerante comigo.Não a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc.ª verá n'esta carta o tumulto de sensações que se me atropellam na alma, ha dez dias.Instado por Alvaro de Sousa, fui recomeçar o retrato da viuva. Era-me preciso, para não passar por doudo, remediar de qualquer maneira a precipitação com que sahi d'aquella casa. Não me occorreu algum pretexto. Adoptei o silencio como explicação, e não dei uma palavra que suscitasse recordações do dia anterior.Reparei com animo frio na physionomia de Rosa. É uma d'estas mulheres que o mundo chama bellas, e eu creio que o são. Sem uns traços de soffrimento, que lhe assombram os olhos, não seria tão bella. Tem um olhar humilde, como quem pede compaixão. Não sei que transparente brilho de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se não ha estudo n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa póde exprimir muito amor, ou muito fastio.Muito amor, talvez... é mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente embebido na contemplação d'esta mulher, não a deixa um instante sósinha. Muitas vezes a viuva do negociante vem á sala trocar algumas palavras com Alvaro, e não consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. Não pude comprehendel-os. Achei demasiada precaução no amante, e alguma frieza, se não era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz, são correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem sêcca do coração. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traçava as feições de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.Á primeira secção vieram ao panno os traços formosos da viuva. Alvaro abraçou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle jubilo, que me pareceu pueril. É que aos vinte annos é assim o amor. A felicidade embriaga os que não provam o fel nas primeiras libações da infancia.No dia seguinte fui continuar o retrato.Alvaro de Sousa não tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e recebeu-me com um sorriso de graça e confiança. Antes de sentar-se perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me, na primeira vez que alli fôra, d'um modo que a deixára cuidadosa. Pedi-lhe que me não interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena,recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por não sei que infantil capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mão, com um ar de bondade, e um desembaraço de que eu não seria capaz, disse que me conhecia, e pediu-me perdão de ter ferido o filho do advogado, que adorára a filha do general.Não respondi a este lance affectuoso. Pedi-lhe que se sentasse para continuar o retrato. Rosa parecia mais commovida que eu. Sentou-se. N'este momento entrou Alvaro. Cortejaram-se com algumas perguntas e respostas triviaes, e eu, com os olhos do coração no tumulo de Helena, e os da face na physionomia da sua companheira de recolhimento, continuei, sem vontade nem attenção, o retrato.No dia immediato fui concluir a obra. Rosa recebeu-me com estranha affabilidade. Perguntou-me quantas secções faltavam. Respondi que era aquella a ultima.—E, depois—proseguiu ella, titubeando—não torna a esta casa?—Tornarei todas as vezes que v. exc.ª se dignar occupar-me no seu serviço.—Eu desejava possuir o retrato de minha filha.—Enviarei a v. exc.ª um habil pintor.—Pois não quer encarregar-se d'este trabalho que eu tanto queria que fosse seu?—Agradeço a lisongeira fineza... Se eu tivesse o amor artistico, não teria mais incensos a desejar para o seu culto; mas eu não posso, sem grande sacrificio, fazer retratos. Fui surprendido, quando me prestei a este serviço; agora, se v. exc.ª me concede recusar um sacrificio que não é necessario ao seu bem, eu declino de mim esse trabalho, e, repito, enviarei a v. exc.ª um retratista, que de certo não posso substituir.—N'esse caso, prescindo do seu favor... agradecendo-lh'o muito... Não será retratada minha filha.—Eu receio ter sido grosseiro, minha senhora... Se v. exc.ª determina que seja eu o retratista d'esta linda menina, recebo a sua vontade como ordem...—Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe não seria penoso conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.—É muito penoso...—Muito?... é admiravel!... E porquê?... Mereço-lhe aconfiança de me dizer que motivos lhe dou para não ser digna testemunha de suas lagrimas?—Nenhuns motivos, senhora D. Rosa... É que eu não tenho a tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as recordações d'essa mulher que amei como não posso tornar a amar... Já vê que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que promette fallar-me de Helena...—Não lhe fallarei n'ella...—Então seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre adiante dos olhos... Não posso mandal-a afastar da minha alma, para entreter-me em cousas futeis...—Nem tudo é futil, senhor Paulo...—Para mim... é. Não tenho vida que não seja uma insoffrivel saudade; mas acho esta dôr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco de boamente todas as felicidades que o mundo possa traiçoeiramente offertar-me...—Traiçoeiramente...—Sim... Creio que o mundo não póde offerecel-as d'outro modo... Tomára eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v. exc.ª... Preciso que me deixem, porque eu não procuro alguem. Será forçarem-me a soffrimentos com que não posso, e contra os quaes empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei como o homem sem patria, nem affeições, nem amigos.—Não crê na amizade?—Não, minha senhora... Eu tinha uma grande alma, cheia de todos os sentimentos bons; essa alma foi como um raio de luz amortecida no prestito funebre da filha do general... Apagou-se ao pé da sepultura... Não tinha senão essa alma...—Nem espera resuscitar d'esse lethargo?—Nunca mais.—Nem emprega diligencias para isso?—Nenhumas. Eu sei que o mundo não tem nada para mim...—Nem o senhor Paulo tem nada que dê ao mundo?—A compaixão para os desgraçados como eu, um sorriso de escarneo para as felicidades d'um dia, e um adeus invejoso áquelles que morrem... Bem vê que ainda sinto impulsos nobres no coração...—Deseja a morte?...—Procuro-a; mas entendo que é debil o poder das paixões nas organisações fortes... Eu lucto, ha dous annos, facea face, com uma dôr, que me não deixa cinco minutos de descanso, e vivo... vivo assim com o aspecto da serenidade, e talvez com o rosado juvenil d'uma saude perfeita... Não se morre de paixão...—E que importaria morrer?—Importava não sentir...—Pois o senhor não crê n'outra vida?—Não creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo, porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo da immortalidade, que consultava, a minha alma, além de incredula, sentia a cruel precisão de escarnecer a fé dos que nos mandaram crêr. Disseram-me que eu não cria, porque a fé era uma graça especial do Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraça, pedi, invoquei, suppliquei com fervor a fé. Esperei-a. Deixe-me rir, senhora, que este riso é um insulto bem merecido às minhas crenças... O homem é um verme. Deus não tem nada com este grão de areia, que lançou no oceano, a turbilhões, com a ponta d'um pé...—Deve ser muito desgraçado...—Não sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A immortalidade de que me servia?—De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...—Isso é falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A putrefacção, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a immortalidade a mim, se os vermes me não restituissem a mulher que teve um dobre a finados, uma oração mercenaria, uma lagrima do costume, e a eternidade donada, que é a verdadeira eternidade?...—Com uma razão tão forte é impossivel que não possa vencer os seus soffrimentos.—Chama v. exc.ª a istorazão forte? É uma debilidade, minha senhora... Forte é a razão do homem que se dá voluntariamente a esperanças chimericas, e crenças sem critica... O forte é esse, que vence a propria razão... Fraco sou eu, que não posso subjugar o espirito...—Nem com as consolações d'uma verdadeira amiga?—O que é uma verdadeira amiga?Fomos surprendidos por Alvaro de Sousa. Reparou no embaraço de Rosa, com ares desconfiados. Eu recebi-lhe oscumprimentos com a frieza não calculada dos meus habitos ordinarios. Continuei o retrato, com não sei que placidez incomprehensivel! Senti-me melhor do coração...Agora é que eu me sinto incapaz de continuar esta longa carta... Creio que é longa e fastidiosa... Soffra, e tolere-m'a, minha querida senhora.Até ámanhã.De v. exc.ªDedicado amigo,Paulo.VI14 de outubroO retrato de Rosa estava concluido. Na tarde d'esse dia, Alvaro de Sousa procurou-me, agradeceu-me o emprego que eu fizera de todos os recursos da minha arte divina, e delicadamente deixou sobre a minha mesa um cartuxo de dinheiro. Não sei o que continha; porque, apenas o encontrei, depois que Alvaro se despedira, mandei entregal-o em sua casa.Alvaro voltou no dia immediato, e instou pela razão de semelhante precedimento. Respondi-lhe, depois de importunado, que me dispensasse s. exc.ª de dar uma categorica explicação das minhas acções. Vi-lhe um sorriso de desconfiança, que me fez piedade. Estive quasi a pedir-lhe a definição do sorriso; mas não quiz culpar-me no erro, que lhe censurava a elle. Todo o homem póde chorar ou rir quando quizer.Decorreram tres dias, sem o menor incidente, com referencia ao retrato da viuva. Hontem, porém, recebi a carta, que remetto a v. exc.ª, já que me impôz a obrigação de lhe não esconder os mais secretos incidentes d'esta minha attribulada existencia, que v. exc.ª segue, desde o berço, minuto por minuto. Communicando-lhe essa carta, entendo que não me deshonro. A mulher, que a escreveu, ou está deshonrada de mais para não soffrer nos seus creditos com semelhante revelação, ou está bastante pura para não soffrer no seu pudor, confiando-se á minha discrição, e á de v. exc.ª«Já não sou de mim propria quando commetto a estranha temeridade de escrever-lhe. Separo-me das leis do meu sexo, e declaro-me muito forte na minha fraqueza para me abandonarloucamente á vontade caprichosa d'um sentimento, que póde deshonrar-me, mas que me absolve na consciencia.«Escrevo-lhe, Paulo, porque não tenho esperanças de encontral-o n'esta casa. Quero deixar cahir este véo, com que me viu, porque tenho vergonha de parecer-lhe o que a minha razão me diz que não sou.«Que julga de mim? Como tem avaliado o meu procedimento? Reputa-me amante de Alvaro de Sousa? Não quero essa consideração; renuncio a tal gloria, porque eu não sou amante de Alvaro de Sousa. Este homem entra na minha casa, e denomina-me prima. Intitula-me prima, porque dizem que minha mãe é casada com não sei quem que pertence á alta nobreza. Vi esta mulher; não pude amal-a; não pude reconhecel-a; e fui com ella rude como seria com uma pessoa estranha.«Soube que a fortuna de meu pae a fizera elevar-se até ao ponto de nobilitar-se. Não me fez uma ligeira impressão esta mudança. Não a procurei nunca, e morrerei de indigencia antes de pedir-lhe uma dobra de seus velhos tapetes para resguardar do frio minha filha.«Alvaro de Sousa tem-se-me offerecido para estabelecer entre mim e D. Anna do Carmo uma alliança filial. Revela um interesse extraordinario pelo meu futuro. Dedica-me extremos de irmão e encobre com muito fina astucia as suas intenções, se ellas são más.«Não me importa saber quaes ellas sejam. Nada ha commum entre mim e este cavalheiro, senão uma amizade sem consequencias, e um commercio de frivolidades como é a troca de retratos, a que eu não ligo importancia alguma.«Aqui tem o que eu sou para aquelle homem. Precisava abrir-lhe assim a minha alma, Paulo. O resto do mundo deixo-o julgar a seu bel-prazer; não me canso até em sondar a indifferente opinião da sociedade a meu respeito.«A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias, vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.«A sympathia entre dous desgraçados deve ser abençoada por Deus. Não fuja d'uma mulher que póde, se não dar-lhe consolações, recebel-as ao menos. Seja meu amigo, não como foi de Helena, mas como póde sêl-o d'uma pessoa, que desejára n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.«Não ouso pedir-lhe nada, não tenho sequer coragem de implorar-lhe duas linhas em resposta a esta carta, queme sahiu tão ingenua do coração, que nem quero tornar a vêl-a, para que o artificio da fria cabeça não vá manchar a pureza natural com que a escrevi.«Adeus, Paulo. Não desdenhe a inutil estima, que lhe offereceRosa Guilhermina.»Esta carta não me impressionou. Quasi que me não occupei senão do estylo em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de gélida atonia. Tenho-os assim, e então a minha alma é dura, o meu coração paralysa, os meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mãos para contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que caracterisa as feições da minha indole.O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu não pensei que devia responder; por isso não tive o cuidado de saber se alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o subir. Perguntei-lhe se era forçoso responder; disse-me que tinha ordem de esperar até que eu lhe désse resposta, ou dissesse que a não tinha.Escrevi...Não me lembra bem o quê. Penso que eram estas as ideias:Que eu não mostrára o menor interesse em conhecer indiscretamente a natureza das ligações que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de Sousa;Que me eram tão indifferentes depois como antes, mas que muito ingenuamente estimava que ellas fossem taes, que nunca a excellente senhora tivesse de soffrer por ellas;Que acceitava a offerta da sua estima, porque já não podia aspirar a outros triumphos no coração das mulheres, que sabiam separar a amizade do outro sentimento que a hypocrisia vestiu com os arminhos emprestados d'uma affeição nobre;Que, na minha posição, não podia dar-lhe mais consolações do que as muito poucas que um homem qualquer póde offerecer no serviço de qualquer senhora, que precisa d'um criado.Penso que foi isto, pouco mais ou menos, o que eu escrevi. São passadas vinte e quatro horas. Não tenho nada a accrescentar a este episodio, e creio que terminará aqui.Não concebo bem o que esta senhora quer de mim! Nãocreio n'estas fascinações momentaneas, porque as não entendo, ou o meu coração está muito abaixo d'esses vôos.O que em verdade lhe digo, minha boa amiga, é que não preciso recordar os juramentos que fiz a Helena, dous dias antes da sua morte, para vencer a impressão que Rosa Guilhermina me poderá ter feito. É nenhuma. Posso esperar com firmeza e animo frio a perseguição. Nem, ao menos, a lastimo, porque a febre da imaginação ha de mitigar-se, e, quinze dias depois, esta mulher terá por mim um sentimento de resentido orgulho que ha de salval-a. Entende-o assim?De v. exc.ªGrato amigo,Paulo.V19 de outubroRetirou-se, n'este momento, de minha humilde casa o senhor Alvaro de Sousa.S. exc.ª é um lastimavel mancebo! Como seu primo, minha boa amiga, sinto que elle seja o incentivo irrisorio d'esta carta.Entrou de chapéo na cabeça na minha officina.Vou tentar recordar o dialogo, que tivemos.«—Venho exigir do senhor uma prompta resposta—disse elle, dobrando o punho d'uma bengalinha com a ponta.«—Tenha a bondade de fazer a pergunta—respondi-lhe eu, convidando-o a assentar-se no canapé, inutilmente.«—O senhor tem algumas intelligencias com D. Rosa Guilhermina?«—Não respondo.«—Quer dizer que tem?«—Não quero dizer nada. Digo que não respondo.«—Mas eu preciso que responda sim, ou não.«—Pois por satisfazer ás suas exigencias imperiosas, senhor Alvaro de Sousa, respondo ambas as palavras:simenão.«—Não comprehendo...«—Tanto peor para v. exc.ª que não póde esperar de mim outras explicações.«—O senhor parece ignorar a qualidade de pessoa com quem falla...«—Poder-me-hei ter enganado, mas creio que fallo com um dos mais distinctos cavalheiros do Porto... O senhor Alvaro de Sousa é muito conhecido, para que eu não conheça a qualidade da sua pessoa, até pela libré dos seus lacaios.«—É preciso que nos entendamos.«—Desejo-o de todo o meu coração...«—O senhor tem algumas relações com D. Rosa?«—Continuemos na mesma desintelligencia, senhor Alvaro... Essa pergunta já foi respondida.«—Mas a resposta não me satisfaz.«—Não tenho outra, e falta-me até a paciencia para lhe offerecer, outra vez, a que v. exc.ª não acceita.«—Eu sinto que o senhor não seja um cavalheiro da minha classe para responder-me á ponta da espada.«—Dou, portanto, louvores á Providencia por me ter feito d'uma classe diversa da dos heroes, que teem ponta de espada para os que não tem ponta de lingua...«—O senhor zomba de mim?!«—Zombo.«—E não receia as consequencias d'essa affronta á minha honra?«—Não, senhor.«—Estou em sua casa...«—Que quer dizer com isso?«—Não quero dizer nada... Encontrar-nos-hemos...«—Senhor Alvaro de Sousa, eu tenho épocas em que difficilmente sou encontrado, e esta parece-me que é uma. Se v. exc.ª tem urgencia de encontrar-se comigo, sahirei hoje.»Não me respondeu, e sahiu.São tres horas da tarde. Vou dar um passeio.V. exc.ª ha de permittir-me que, invocando o sagrado testemunho da nossa amizade, eu lhe imponha o preceito de não fazer transpirar uma palavra d'esta minha carta, a não desejar um completo rompimento nas nossas relações.De v. exc.ªHumilde criado,Paulo.VI

Sigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha dão a Maria Elisa a felicidade, que ella lhes remunera com afagos.

O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal, disse algumas palavras a sua mãe, e mandou preparar a inseparavel moçoila, que o acompanhava, na boa e má fortuna, havia quatro annos.

Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sêda escarlate, chapéo de guizos, um par de pistolas, um cobrejão, e dous cavallos de baixo preço.

Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chôpa debaixo da perna, esporeando o cavallo, á laia de cigano, caminhava a par com ella.

N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mézinha para matar asbichasdos pequenos.

Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. «Christão ás pulgas!» deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinario, como o fatal «Christão ás feras!»

Era alta noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetaceos áquellas pulgas, de horrivel recordação. No sobrado immediato ao da possilga em que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos gallegos residentes no Porto.

Descompunham-se em raivosas apostrophes por causadas mantas, que algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se, esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas, e vieram de encontrão á porta do meu quarto, que não resistiu ao choque, e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de camisa, que me pareciam, á luz mortiça da véla, executarem uma dança macabra, uma mazurka de demonios!

Eu levantei-me em pé sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello, e presenciei com os cabellos erriçados o desfecho d'aquella tremenda lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o meu quarto campo neutro.

N'esse mesmo quarto, ás duas horas da noite, tambem o senhor Augusto Leite recebeu uma inesperada visita; mas não de gallegas em guerra crua. Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio cadete, que o leitor conhece, e reforçados por alguns meirinhos do corregedor, e um especial enviado do regedor das justiças.

Já soubemos que Augusto Leite roubára em Lisboa uns brilhantes. A razão por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.

Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? Não é bem liquido, e eu não quero inventar, porque não tenho necessidade de deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua admissão á academia. Eu, de mim, para não duvidar de nenhuma das explicações, acredito-as ambas, e não offendo os diversos opinantes.

O que devem todos acreditar é que Augusto Leite dispensou á condessa o trabalho de pôr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico, visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres horas, trinta mil cruzados em casa do barão de Quintella. Os curiosos averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um judeu na rua dos Fanqueiroscomprára na vespera por trinta mil cruzados uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorsão, perguntando se reviviam os tempos nefastos de D. João III; offereceu-se voluntariamente para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o procurador da condessa respondeu:res ubicumque est sui domini est.

O judeu não ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa legislação, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o ladrão.

Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a pé, sem dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro mezes, não sabemos por onde, até que o vimos entrar em casa da viuva de Antonio José da Silva.

Tornemos agora a Casal de Pedro.

O enviado do regedor das justiças bateu á porta da estalagem, e perguntou que passageiros pernoitavam alli.

—Dous almocreves, o recoveiro de Vianna, um passageiro do Porto, com sua mulher, e um criado.

—Abra lá a porta—disse com a costumada intimativa o executor da lei.

Abertas as portas, os meirinhos encaminharam-se para o quarto do passageiro. Augusto Leite ouvira as perguntas. Saltára fóra da cama para fugir, mas não conhecia um palmo da casa fóra do seu quarto. Antonia Brites, companheira dos seus trabalhos, lembrou-se d'alguns sanctos, que conhecera na infancia, e incommodou-os com as suas orações. O antigo traductor de novellas não lêra cousa que lhe servisse de modelo para similhante conflicto. Quiz precipitar-se da janella, mas viu na rua os cavallos em linha. Recuou diante d'um sacrificio inutil, e appellou para os extremos.

Os meirinhos entraram, e viram uma mulher de joelhos com as mãos erguidas, e um homem de semblante feroz com duas pistolas aperradas.

O estalajadeiro, que caminhava na frente com a candeia, fez dous passos á rectaguarda, e declarou-se neutral. Os meirinhos, que tinham á vida o amor suficiente para viveremoitenta annos mais, não foram mais adiante que o prudente estalajadeiro. Augusto conservou-se na postura ameaçadora, fuzilando dos olhos um clarão mais vivido que a candeia tremula do petrificado taverneiro.

Um dos meirinhos, emquanto os outros voltavam as costas, veio á rua, e disse que o homem não era para graças. O cadete apeou, e subiu com dous soldados. Foi á porta do quarto, e encontrou o athleta na sua immobilidade sinistra. Deu-lhe voz de prêso, e viu que o ladrão era surdo, ou rebelde á lei.

—O melhor é botar-lhe as unhas—murmurou um soldado.

—Agarra-o,trinta e quatro!—disse o cadete.

Otrinta e quatroentrou no quarto, e, quando lançava mão aos copos da espada, sentiu um corpo duro bater-lhe na testa. Descarregou ainda um golpe, e foi de bruços atraz da espada que bateu no sobrado. Estava morto.

O camarada dotrinta e quatrocorreu em defeza do seu companheiro. Descarregou duas cutiladas na cabeça de Augusto; mas, á terceira, sentiu fraquear-lhe o braço, e veio recuando, cahir, com uma bala no coração, aos pés do cadete.

Os outros soldados tinham subido, e atropellavam-se á entrada do quarto. Augusto Leite, coberto de sangue, defendia-se debilmente com a chôpa, que vencia o alcance das espadas. Os soldados, arrefecidos pelo aspecto dos dous camaradas mortos, não ousavam affrontar o aço da chôpa, que algumas vezes sentiram resvalar-lhe na farda, deixando-lhe na pelle um ligeiro ardor, que depois se exacerbava com a humidade do sangue.

O cadete, envergonhado da cobardia dos seus, diante d'um só homem, entendeu que salvava a sua honra, desfechando uma clavina no peito de Augusto Leite. Ao desfechal-a viu interpôr-se-lhe um vulto. Era Antonia Brites, que vinha pedir-lhe de joelhos que não matasse Augusto. Não chegou a pronunciar a primeira palavra. Recebeu a bala, que havia de matar o marido de Rosa, e cahiu pedindo confissão. Deus lhe levaria em desconto das suas culpas o bom desejo de reconciliar-se com o céo, porque fechou os olhos antes de vêr o padre.

Augusto, impellido pelo instincto da vida, saltou da janella ao quinteiro com tal destreza, que as espadas não poderam tocar-lhe. O quinteiro estava deserto de homens, e os cavallos soltos entretinham a fome no tojo. A comitiva correuatropelladamente a impedir a fuga. Quando chegaram ao quinteiro, meirinhos e soldados, qual d'elles mais corajoso, o que viram foi um cavallo de menos, e na calçada fronteira as faiscas das ferraduras do que fugia. Alguns soldados quizeram montar; mas os cavallos assustados pelo salto de Augusto ao meio d'elles, não deixavam estribar, e jogavam de garupa com mau resultado para o meirinho geral, que perdeu ahi os tres unicos dentes que possuia.

—Já se não pilha!...—disse o cadete.

—Agora é vêl-o ir—accrescentou um soldado.

—Vamos ao quarto tomar-lhe conta das malas—disse o enviado do regedor das justiças.

Entraram no quarto. Abriram uma pequena mala de couro, e umas bolsas de hollandilha onde encontraram alguma roupa branca. Dinheiro, nem cinco reis. A volumosa carteira com tres contos menos duzentos mil reis, que o sobrinho do senhor Antonio José da Silva gastara em cavallos e pistolas, e fato, levava-a elle no bolso da jaqueta de pelles.

De madrugada os executores da lei voltavam para o Porto, com os dous cavallos de Augusto Leite.

Os tres cadaveres foram enterrados no adro da igreja parochial, porque o vigario duvidou sepultal-os em sagrado, visto que não traziam signal de christãos, como cruz, nominas, bentinhos, veronicas ou outro qualquer distinctivo da fé catholica.

———

Relação das pessoas que já morreram n'este romance

O mestre de latim1

A senhora Escolastica1

O arcediago1

Uma velha da viella do Cirne, cujo nome me não lembra1

O senhor Antonio José da Silva1

Antonia Brites, amante de Augusto Leite1

Dous soldados de cavallaria2

Somma total8

Continuarão a morrer convenientemente.

Augusto Leite quando chegou á Barca do Lago ia a pé. O cavallo cahira rebentado, e o cavalleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos que recebera na cabeça. Não lhe era difficil viver seguro em casa d'um lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que deu ao passageiro, que, segundo elle, tinha cara de pessoa de bem. Vendeu-lhe a sua egua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilancia dos aguazis, e levou-o á fronteira de Hespanha, curado das feridas, e salvo de encontros importunos. Ahi, foi facil ao foragido comprar um passaporte, que o levou a Madrid com o pseudonimo de D. Fernando Godinho Pereira Forjaz.

Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes sérios, apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em Hespanha, e entrou como portuguez distincto nas primeiras casas da capital. Encontrou ahi fidalgos portuguezes, que o não conheciam; mas respeitavam-no pelos appellidos, e não se recusavam a chamar-lhe primo, visto que os Pereiras Forjazes eram ramificação do heraldico tronco dos condes da Feira.

Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em alguns mezes alcançára uma publicidade que lhe não convinha. O seu nome era repetido de mais nos salões. As suas conquistas amorosas excitavam invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu abandonar Hespanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver bem, sem excitar curiosidades funestas.

Em Paris deu-se como hespanhol, e era conhecido por D. Affonso Vilhegas. Fallava correntemente o hespanhol, associára-se a uma partida de jogadores da sua patria adoptiva, e engrandecera o seu peculio, que já subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fôra abençoado!

Não tivera, até então, alguma noticia de sua mulher. Não lhe convinha solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residencia. O coração tambem lh'a não pedia.

Passeava uma tarde nosboulevards, e viu um homem, que lhe não era de todo estranho, e reparava muito n'elle. Perguntou-lhe, em francez, se era hespanhol.

—Sou portuguez—respondeu o cavalheiro.

—Estimo muito... Eu gosto dos portuguezes. Viajei alguns mezes na sua terra, e sympathisei com as mulheres, que são quasi todas gordas e vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.

—Tem razão... mas, pela pronuncia, parece-me hespanhol, e as mulheres da Hespanha não são inferiores ás de Portugal. Não tem razão de invejar a minha patria... Que cidades conhece em Portugal?

—Conheço as que lá ha que mereçam esse nome... Lisboa e Porto.

—Esteve no Porto? É uma bonita cidade, não é?

—É muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao escurecer. Não ha nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita tranquillidade de espirito. E na semana sancta vêem-se as mulheres, quando passam as procissões.

—Conheceu alguma no Porto?

—Apenas uma. Como fui recommendado a um negociante chamado Antonio José da Silva, tive occasião de vêr de passagem uma bonita rapariga, que fallava em estylo de Corneille.

—Pois conheceu essa senhora?!

—Perfeitamente. Que é feito d'ella? É feliz?

—Penso que não. A sua fortuna está perdida. É por causa d'ella que eu vim a França.

—Sim? é notavel a coincidencia!... Pois senhor, veja se eu posso servir-lhe de alguma cousa com o meu pouco valimento... Que desastre foi esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...

—E era. O negociante morreu ha dez mezes. A viuva liquidou a sua fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ella em uma casa commercial franceza, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa acaba de fallir, e o dinheiro de Maria Elisa está perdido, segundo creio.

—Coitada...! fica pobre por consequencia...

—Pobrissima...

—E tem filhos?

—Não, senhor.

—Nem familia?

—Tem em sua companhia uma amiga e a filha d'essa desgraçada senhora, que tambem foi rica, e está reduzida a nada...

—Tambem tinha os seus bens de fortuna na casa commercial que falliu?

—Não, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deploravel...

—Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que não sejam tão infelizes como o senhor as pinta...

—Pois não digo metade das desgraças que as esperam.

—E o marido d'essa amiga da viuva... naturalmente é um perdido que lhes não póde valer de nada?...

—Esse homem morreu... ou ha todas as probabilidades para o julgar morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladrão...

—Era ladrão? Oh diabo! então foi bem feito matarem-no!

—Roubára em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuia algumas propriedades, de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A viuva do negociante, que o senhor conheceu, não lhe dava tempo a scismar nos seus infortunios; mas agora a situação d'ambas é desgraçadamente igual.

—E o seu procedimento?

—O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e é natural que a outra viuva a acompanhe.

—Então o senhor que veio fazer a Paris?

—Vim tentar o ultimo esforço; mas inutilisei despezas e trabalho. Pedi que se indemnisasse a viuva da massa fallida; mas o tribunal do commercio não deferiu ao meu requerimento.

—Quando parte o senhor para o Porto?

—Ámanhã deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.

—Póde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio José da Silva?

—Com muito boa vontade.

—Tenha a bondade de acompanhar-me.

Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D. Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras sobre o Porto, entregues á ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma carta ao procurador, accrescentando:

—Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua sorte.

O procurador, aturdido como é natural, desejou n'aquelle momento vencer como n'um vôo de espirito a distancia, queo separava de Maria Elisa. Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas não conseguiu elucidar-se mais do que tinha sido.

Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse á sua imagem representada no espelho: «Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa acção é o unico prazer sem mistura de dôr. É a primeira acção boa que praticas, meu caro Augusto! Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra, porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos da loucura. Se vaes dizer á sociedade que te dê os meios para sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te trabalhar. Pois então, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.»

Este dialogo, com o seuunico amigo, foi interrompido por uma personagem, que apeára d'uma sege e mandára adiante o seu nome: era o visconde de Bellarmin.

—Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.

—É necessario que te retires de Paris immediatamente.

—Porquê?

—O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de Hespanha, que combinas com o de França uma reacção. Ha ordem de prisão para ti.

—Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser prêso como homem temivel a duas nações. Ainda agora me lembro que posso ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando VII!

—Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens passaporte para Portugal.

—Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Hespanha, e perdôo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que volto do Japão. Acceitas?

—Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionario.

—Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!... Avia-te...

Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito franciscano, a face amarellecida por não sabemos que tinturas finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar para Cadiz.

Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!

O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava em Cadiz, onde as côrtes se refugiaram com Fernando VII, que estava prêso, a pretexto de demencia, por não ter sanccionado a constituição.

Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e offereceu, como fanatico pelas prerogativas reaes, e inimigo encarniçado da França, o seu apoio, e o seu braço, sendo necessario.

Tal fôra a sua enthusiasta eloquencia, que os chefes da reacção, sem discutirem a pessoa, abraçaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o segredo dos seus planos, acclamando-o unanimemente seu secretario.

Era necessario fallar ao rei, que os liberaes retinham com sentinella á vista. Empreza difficilima! Foi pedido o parecer do frade missionario, em quem os fanaticos reconheciam o providencial redemptor de Hespanha. Antes que elle abrisse a bôca, já todos sabiam que a sua palavra seria a salvação, e as suas ordens immediatamente executadas.

Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. Não respiravam os circumstantes. Fixavam-se todos os olhos nos labios do moço frade, quando elle, antes de pronunciar uma palavra, deixou cahir o habito, e deixou vêr um fardamento completo de general francez.

As escarlates physionomias dos conspiradores empallideceram, murmurando um prolongadoah!

—Não me julguem algum magico—disse Augusto Leite, sorrindo bondosamente.—Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para vestil-o um dia, com a consciencia de ter servido a Hespanha, fortalecendo-lhe a sua independencia, e defendendo-a das impias aggressões da França. É necessario fallar a Fernando VII. Eu irei apresentar-me ás côrtes, e direi que sou um enviado do duque de Angouleme, que, a estas horas, bate ás portas de Madrid. Direi que omeu fim é capacitar o rei a acceitar a constituição, e serei conduzido pelos interessados ao pé do monarcha.

—E depois?—exclamaram algumas vozes.

—Depois da minha conferencia a sós com o rei, retirar-me-hei dizendo ás côrtes que Fernando VII está doudo, e não concebeu as minhas razões. As côrtes, que por força precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-hão d'uma intelligencia muito fina, ou d'uma astucia tão cavillosa como a sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dirá ao seu medico que sente uma forte dôr de cabeça; duas horas depois sentirá uma convulsão, e cahirá...

—Morto?!

—Apparentemente morto. O medico virá dizer ás côrtes que o rei morreu d'uma apoplexia fulminante. Far-se-hão os funeraes. O cadaver será transportado para o palacio municipal. Tres horas depois que o julgarem morto, o rei resuscitará, e, á frente do exercito fiel, dirá: «A Providencia restituiu ao povo hespanhol o seu monarcha!»

Os venerandos frades sacudiram a cabeça em ar de pasmo. A alguns afigurou-se-lhes que o seu irmão era o proprio diabo, que vestira o habito do serafico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que elle era, desde que o Senhor o expulsou do céo. Os mais circumspectos, encarando-o com o respeito da superstição, por isso que o reputavam embaixador d'um poder sobrenatural, não ousaram interrompel-o no extenso discurso, que não publicamos na sua integra, porque na sala do conciliabulo não estiveram tachigraphos, que nos transmittissem o discurso completo.

O que sabemos é que Augusto Leite n'esse dia apresentou-se ás côrtes, pedindo consentimento para fallar ao rei como enviado do duque de Angouleme, commandante do exercito francez.

Perguntado pelos meios que empregára para chegar desconhecido até Cadiz, respondeu que embarcára n'um porto da França, com passaporte que apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As côrtes acreditaram o enviado, e permittiram-lhe a entrada no carcere de Fernando VII.

O rei, quando lhe foi annunciado um emissario francez, declarou que o não recebia, sem ter ao seu lado uma peça de calibre 40, com morrão accêso. Esta dificuldade é que o marido de Rosa Guilhermina não previra. Redobraram as instancias inutilmente durante tres dias, ao cabo dos quaes o duque de Angouleme, defronte de Cadiz, bombardeava a cidade.

Augusto Leite, empregando a corrupção por meio do ouro, fez saber ao rei que o enviado francez era um partidario do congresso sacerdotal, que vinha offerecer á Sua Magestade valiosos serviços para a sua fuga do poder das côrtes.

O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro arcebispo de Toledo, graça que desde logo lhe confirmou com a sua real palavra.

Augusto Leite agradeceu com reverente effusão a graça, e offerecia ao rei a beberagem que devia paralysar-lhe a vida apparentemente, quando se ouviram exteriormente gritos que annunciavam a fuga do exercito hespanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.

O populacho davamorrasaos membros das côrtes; e os partidarios da constituição, que não sabiam as intenções pacificas da França, luctavam desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.

Augusto Leite, persuadido de que era já desnecessaria a realisação dos seus planos para a soltura do rei, não lhe ministrou o liquido, e dava graças á estupida fortuna que o collocára ao lado de Fernando VII, no momento da sua liberdade.

Um membro das côrtes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e cortada infallivelmente a sua cabeça um momento depois, resolveu um d'esses attentados sanguinarios, que são o caracter do povo hespanhol nas crises revolucionarias, resolveu o regicidio.

Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito á camara do rei. O primeiro que se lhe antepôz foi o supposto official francez. Recuou diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da desesperação, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração. Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.

O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia immediato, não fosse arrancado á enfermaria militar para padecer morte de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo, Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado com grandes honras por ter defendido, á custa da propria, a vida do seu rei.

O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos martyres franciscanos; mas um francez doestado maior do duque de Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de frade ao seu amigo por mil libras.

Ora pois, d'este sugeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza á eternidade individuos sufficientes para chamarem a attenção devota dos pios leitores em dia de fieis, defuntos.

Maria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Sério, unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fôra enviado de Paris, melhorára a condição precaria das afflictas senhoras, que se viam na dura precisão de entrarem n'um convento como criadas de freiras.

Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abençoaram Augusto Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para tornar a Portugal.

Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o procurador que fallára com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na mesma casa, e soube que esse homem se retirára de França um anno antes.

Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D. Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.

Esta nova matou todas as esperanças das pobres senhoras. Pobres outra vez! Choraram muito, como é natural, e resolveram abraçar a baixa profissão de criadas de convento.

Mas eram bellas ainda. A desgraça, ao passar por ellas, nem lhes desbotára o viço da formosura, nem lhes arrefecera de todo o coração. Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas viessem ao mundo com o seu sorriso de seducção?

Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias, á mesma hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu quarto, onde ella, na hora das saudades, á luz crepuscular, costumava sentar-se com sua filha nos braços.

Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima palavras que ella não entendeu, nem quiz entender. Restirára-se a contar á sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora, dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava o fidalgo enamorado.

No dia seguinte, é certo que não veio á janella; mas, por entre as cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que não deu por isso, parou um momento, e disse ella á sua amiga que o vira suspirar. Se isto é verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim, era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja feita, não encarecem o genero; barateiam-no de modo que não ha consumidora que tenha razão de queixa.

E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe não dava em troca um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.

Hão de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e generoso, e dado a prazeres que lhe não arruinavam a bolsa nem a saude. Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonára sériamente pela esquiva viuva de Augusto Leite.

Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo desprêso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi ao meio dia; mas, ás quatro horas, o soberbo moço anafava cuidadosamente os cabellos, para não ser suprendido, em desalinho, no Sério.

N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa, com a amiga, e a filhinha que brincava com um cão de regaço. O cãosinho, que não estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu á ama, na direcção da casa. As senhoras chamavam-lheJoli, que era, por esse tempo, onome favorito de todos os cães; mas o rebelde quadrupede não olhava para traz.

Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do cão, apeou-se gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no collo, e foi conduzil-o ás damas, que receberam a attenciosa delicadeza com o rubor na face.

O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. Já não fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim um respeitavel marido.

N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metáphoras, e vêr-se-ia na precisão de incommodar a mythologia para responder-lhes. Agora, já não. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas maravilhas aereas. Fallavam como nós, importavam-se pouco dos livros, sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente que tinham sido embrutecidas pela desgraça.

E se não vejam:

—Agradecemos muito a sua delicadeza—disse Maria Elisa, recebendo o cãosinho (não tenho a certeza se era cadelinha) das mãos de Alvaro.

—Só este irracional—disse Alvaro, mastigando a fineza—deixaria de obedecer ás ordens de suas amas. Assim mesmo peço que não seja castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido desobediente seria bastante castigo.

—Muito agradecidas ás lisonjas de v. exc.ª—atalhou Maria Elisa, emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da menina.

—Não é lisonja, minhas senhoras. O que eu digo é o menos que se póde dizer, e espero acreditem que não sei dizer tudo que sinto. Aquella senhora parece aborrecer-se da minha presença...

—Não, senhor—disse Rosa.—A presença de v. exc.ª não aborrece... É porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...

—Que é linda como sua mãe... Que annos tem?

—Quasi cinco.

—Em tão tenra idade é admiravel a esperteza d'esta creança!... Venha cá, minha menina... como se chama?

—Assucena—disse a creança.

—Que lindo nome!... Umarosadevia produzir umaassucena... É minha amiga?

—Sou.

—É? Já tenho uma pessoa que seja minha amiga!... Sou mais feliz do que pensava... Quer ir a minha casa?

—Quero.

—Pois hei de mandal-a buscar um dia. Minha mãe gosta muito de creanças... V. exc.ª dá-me licença que ella vá?

—Pois não! É muita honra...

—N'esse caso, amanhã, se me permitte...

—Quando aprouver a v. exc.ª

Ora aqui está como começou o namoro. No dia seguinte, Alvaro de Sousa veio de carruagem buscar a menina, subiu á sala, como era natural, e não viu Rosa que se fechára no seu quarto banhada em lagrimas. Quiz saber a causa de tal soffrimento, e disse Maria Elisa que a sua amiga tivera noticia de estar viuva.

—Viuva a reputava eu, ha muito!—atalhou Alvaro.

—Não o era... Convinha que esse boato corresse...

O fidalgo deu a entender que sabia a razão d'esse boato, e retirou-se semAssucena, que não podia, durante o lucto, sahir de ao pé de sua mãe. Á tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e offerecer o seu prestimo.

Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.

Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo não se lhe dava de recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum espirito. Se vivesse hoje, de certo não era ferreiro; escreveria folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo, esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez então, e que ha de fazer-se no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro, não escrevia romances. A estas horas (são sete e meia da tarde) estava eu rezando vesperas em algum côro de frades carmelitas, para que tenho uma vocação imperiosa.

Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lêr, confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. São textuaes. Podem vêr-se em minha casa, desde omeio dia até ás quatro horas da tarde. Quem as escreve é um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo furtou á desgraça para cultivar a arte. Quem as recebe é uma senhora, que ainda vive.

CARTA I

22 de setembro de 1824

Minha estimavel amiga:

Não posso ser indiferente ao interesse, que v. exc.ª tem na minha felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas são a unica indemnisação que tenho das compridas horas de uma vida sósinha, escura, e despovoada de todas as bellezas, se é que algumas a existencia póde ter para mim.

Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha precisão de viver para alguma cousa; mas a arte não me galardôa a minha dedicação. Do seio da tela tenho arrancado imagens, que são a reminiscencia d'aquella mulher que me fugiu dos braços para os braços do tumulo.

Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me lagrimas, e não m'as paga com a esperança de crear por ella um nome, como o de muitos desgraçados que se immortalisaram nos quadros, em que verteram muitas.

Eu não sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro, anhelante de não sei que esperança embriagadora, atraz d'essa visão impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S. Francisco. Lá dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada! Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e retiro-me d'alli gelado pela dúvida, gelado como a pedra que a separa dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por não sei que mão fatal que me não deixa resvalar no meu abysmo!

Sou bem desgraçado, não é assim? Muito! Este meu viver é alguma cousa mais dilacerante que a dôr. Não tenho a esperança consoladora, que a Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O presente conta-me o futuro. O que vem não receio que sejapeor que o que é. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!

V. exc.ª comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o entendimento. Para o que soffreu não ha mysterios de dôr no coração do estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo querido. Já depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficára fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolações á amargura dos outros. Eu, hoje, não saberia consolar ninguem.

Minha amiga, dê-me a sua estima, que eu não tenho mais nada. Em remuneração, dou-lhe a verdade da minha alma, que é um thesouro, raras vezes, concedido.

De v. exc.ª

Verdadeiro amigo,

Paulo.

II

30 de setembro

Palpita-me com sobresalto o coração. Preciso escrever-lhe emquanto me dura esta febre, que está sendo a minha felicidade!Felicidade! com que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! Já é desejar muito possuil-a! Bem se vê que sou um homem sem presentimento nenhum alegre, sem nenhum direito á felicidade. Um pequeno lance na minha vida transtorna-me a cabeça; e, comtudo, estes lances, creio eu que são frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente feliz.

Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa de v. exc.ª Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado para todo o mundo. Chamou-me «amigo» e esta palavra banal fez-me sorrir, pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que tão distante está da minha obscura classe!...

Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua mãe que a chamava do céo. Eu já sabia que v. exc.ª lhe tinha dado este quadro. Entendi, quandoo soube, que não devia magoar-me; mas quizera, antes, que os profanos na religião do martyrio ignorassem o author daquella pintura. Não me receba isto como queixume. É a innocente sensibilidade de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos injustos...

Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que nunca veio desfigurada do meu coração. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Sério, a casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio José da Silva, e creio mesmo que v. exc.ª me fallou, ha tempos, n'esse homem, contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo de traz da Sé.

Em casa d'essa viuva está uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A nossa chorada amiga fôra companheira d'ella nas orphãs em S. Lazaro, e contou-me cousas que lhe não eram muito favoraveis á sua indole de menina.

Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhança dos genios aproximára dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vêl-a.

Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas bellezas que não se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o coração nos olhos, e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo, porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde não chegou ainda a cultura e o despejo da França

Eu disse-lhe que não podia prescindir dos seus olhos por algumas horas. Sentia-me com disposição para zombar da belleza, que tinha a vaidade de reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as rugas da velhice, no vívido scintillar dos olhos o amortecimento do cansaço.

Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braços uma pequena creança a quem chamavam Assucena. É filha de Rosa. Conheci-a pela semelhança com sua mãe; masnão sei o que ha na physionomia da pequena, que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?

Emquanto esboçava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena Christina, nas orphãs. Disse-me que sim, e que chorára, quando teve a noticia da sua morte, por causa d'uma paixão que cegamente tributára a um homem, que não era da sua condição.

Que homem era esse?—perguntei-lhe eu—Era o filho d'um advogado.—Pensei que a condição do advogado era nobre, repliquei eu.—É nobre; mas a d'um general é muito mais nobre, e Helena era filha d'um general.

Não pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no braço, e o pincel traçava linhas confusas. Pedi licença para retirar-me, e deixei Alvaro enleado da minha improvisada sahida.

Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.ª Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocação augmenta. Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena? Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque não posso accusar meu pae, que devera ser general, e não advogado.

Como é a sociedade, senhora! É impossivel que a Providencia não abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus presidisse á organisação do genero humano, ninguem viria dizer-me: «A tua condição social collocou um tumulo entre ti e a filha de um general!»

E é a isto que eu chameia minha felicidade! É um novo crime! Aquella mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena até lhe merecer o sacrificio da vida. Será isto um egoismo barbaro?

Adeus, minha boa amiga.

De v. exc.ª

Amigo do coração,

Paulo.

III

12 d'outubro

Tive hontem o desgosto de não encontrar em casa v. exc.ª Procurei-a porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas tão desordenadas, que receei não poder escrevel-as. Abondade, com que a minha paciente amiga costuma attender os desvarios d'este forte coração e d'esta debil cabeça, seria mais uma vez tolerante comigo.

Não a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc.ª verá n'esta carta o tumulto de sensações que se me atropellam na alma, ha dez dias.

Instado por Alvaro de Sousa, fui recomeçar o retrato da viuva. Era-me preciso, para não passar por doudo, remediar de qualquer maneira a precipitação com que sahi d'aquella casa. Não me occorreu algum pretexto. Adoptei o silencio como explicação, e não dei uma palavra que suscitasse recordações do dia anterior.

Reparei com animo frio na physionomia de Rosa. É uma d'estas mulheres que o mundo chama bellas, e eu creio que o são. Sem uns traços de soffrimento, que lhe assombram os olhos, não seria tão bella. Tem um olhar humilde, como quem pede compaixão. Não sei que transparente brilho de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se não ha estudo n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa póde exprimir muito amor, ou muito fastio.

Muito amor, talvez... é mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente embebido na contemplação d'esta mulher, não a deixa um instante sósinha. Muitas vezes a viuva do negociante vem á sala trocar algumas palavras com Alvaro, e não consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. Não pude comprehendel-os. Achei demasiada precaução no amante, e alguma frieza, se não era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz, são correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem sêcca do coração. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traçava as feições de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.

Á primeira secção vieram ao panno os traços formosos da viuva. Alvaro abraçou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle jubilo, que me pareceu pueril. É que aos vinte annos é assim o amor. A felicidade embriaga os que não provam o fel nas primeiras libações da infancia.

No dia seguinte fui continuar o retrato.

Alvaro de Sousa não tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e recebeu-me com um sorriso de graça e confiança. Antes de sentar-se perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me, na primeira vez que alli fôra, d'um modo que a deixára cuidadosa. Pedi-lhe que me não interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena,recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por não sei que infantil capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mão, com um ar de bondade, e um desembaraço de que eu não seria capaz, disse que me conhecia, e pediu-me perdão de ter ferido o filho do advogado, que adorára a filha do general.

Não respondi a este lance affectuoso. Pedi-lhe que se sentasse para continuar o retrato. Rosa parecia mais commovida que eu. Sentou-se. N'este momento entrou Alvaro. Cortejaram-se com algumas perguntas e respostas triviaes, e eu, com os olhos do coração no tumulo de Helena, e os da face na physionomia da sua companheira de recolhimento, continuei, sem vontade nem attenção, o retrato.

No dia immediato fui concluir a obra. Rosa recebeu-me com estranha affabilidade. Perguntou-me quantas secções faltavam. Respondi que era aquella a ultima.

—E, depois—proseguiu ella, titubeando—não torna a esta casa?

—Tornarei todas as vezes que v. exc.ª se dignar occupar-me no seu serviço.

—Eu desejava possuir o retrato de minha filha.

—Enviarei a v. exc.ª um habil pintor.

—Pois não quer encarregar-se d'este trabalho que eu tanto queria que fosse seu?

—Agradeço a lisongeira fineza... Se eu tivesse o amor artistico, não teria mais incensos a desejar para o seu culto; mas eu não posso, sem grande sacrificio, fazer retratos. Fui surprendido, quando me prestei a este serviço; agora, se v. exc.ª me concede recusar um sacrificio que não é necessario ao seu bem, eu declino de mim esse trabalho, e, repito, enviarei a v. exc.ª um retratista, que de certo não posso substituir.

—N'esse caso, prescindo do seu favor... agradecendo-lh'o muito... Não será retratada minha filha.

—Eu receio ter sido grosseiro, minha senhora... Se v. exc.ª determina que seja eu o retratista d'esta linda menina, recebo a sua vontade como ordem...

—Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe não seria penoso conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.

—É muito penoso...

—Muito?... é admiravel!... E porquê?... Mereço-lhe aconfiança de me dizer que motivos lhe dou para não ser digna testemunha de suas lagrimas?

—Nenhuns motivos, senhora D. Rosa... É que eu não tenho a tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as recordações d'essa mulher que amei como não posso tornar a amar... Já vê que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que promette fallar-me de Helena...

—Não lhe fallarei n'ella...

—Então seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre adiante dos olhos... Não posso mandal-a afastar da minha alma, para entreter-me em cousas futeis...

—Nem tudo é futil, senhor Paulo...

—Para mim... é. Não tenho vida que não seja uma insoffrivel saudade; mas acho esta dôr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco de boamente todas as felicidades que o mundo possa traiçoeiramente offertar-me...

—Traiçoeiramente...

—Sim... Creio que o mundo não póde offerecel-as d'outro modo... Tomára eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v. exc.ª... Preciso que me deixem, porque eu não procuro alguem. Será forçarem-me a soffrimentos com que não posso, e contra os quaes empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei como o homem sem patria, nem affeições, nem amigos.

—Não crê na amizade?

—Não, minha senhora... Eu tinha uma grande alma, cheia de todos os sentimentos bons; essa alma foi como um raio de luz amortecida no prestito funebre da filha do general... Apagou-se ao pé da sepultura... Não tinha senão essa alma...

—Nem espera resuscitar d'esse lethargo?

—Nunca mais.

—Nem emprega diligencias para isso?

—Nenhumas. Eu sei que o mundo não tem nada para mim...

—Nem o senhor Paulo tem nada que dê ao mundo?

—A compaixão para os desgraçados como eu, um sorriso de escarneo para as felicidades d'um dia, e um adeus invejoso áquelles que morrem... Bem vê que ainda sinto impulsos nobres no coração...

—Deseja a morte?...

—Procuro-a; mas entendo que é debil o poder das paixões nas organisações fortes... Eu lucto, ha dous annos, facea face, com uma dôr, que me não deixa cinco minutos de descanso, e vivo... vivo assim com o aspecto da serenidade, e talvez com o rosado juvenil d'uma saude perfeita... Não se morre de paixão...

—E que importaria morrer?

—Importava não sentir...

—Pois o senhor não crê n'outra vida?

—Não creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo, porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo da immortalidade, que consultava, a minha alma, além de incredula, sentia a cruel precisão de escarnecer a fé dos que nos mandaram crêr. Disseram-me que eu não cria, porque a fé era uma graça especial do Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraça, pedi, invoquei, suppliquei com fervor a fé. Esperei-a. Deixe-me rir, senhora, que este riso é um insulto bem merecido às minhas crenças... O homem é um verme. Deus não tem nada com este grão de areia, que lançou no oceano, a turbilhões, com a ponta d'um pé...

—Deve ser muito desgraçado...

—Não sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A immortalidade de que me servia?

—De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...

—Isso é falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A putrefacção, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a immortalidade a mim, se os vermes me não restituissem a mulher que teve um dobre a finados, uma oração mercenaria, uma lagrima do costume, e a eternidade donada, que é a verdadeira eternidade?...

—Com uma razão tão forte é impossivel que não possa vencer os seus soffrimentos.

—Chama v. exc.ª a istorazão forte? É uma debilidade, minha senhora... Forte é a razão do homem que se dá voluntariamente a esperanças chimericas, e crenças sem critica... O forte é esse, que vence a propria razão... Fraco sou eu, que não posso subjugar o espirito...

—Nem com as consolações d'uma verdadeira amiga?

—O que é uma verdadeira amiga?

Fomos surprendidos por Alvaro de Sousa. Reparou no embaraço de Rosa, com ares desconfiados. Eu recebi-lhe oscumprimentos com a frieza não calculada dos meus habitos ordinarios. Continuei o retrato, com não sei que placidez incomprehensivel! Senti-me melhor do coração...

Agora é que eu me sinto incapaz de continuar esta longa carta... Creio que é longa e fastidiosa... Soffra, e tolere-m'a, minha querida senhora.

Até ámanhã.

De v. exc.ª

Dedicado amigo,

Paulo.

VI

14 de outubro

O retrato de Rosa estava concluido. Na tarde d'esse dia, Alvaro de Sousa procurou-me, agradeceu-me o emprego que eu fizera de todos os recursos da minha arte divina, e delicadamente deixou sobre a minha mesa um cartuxo de dinheiro. Não sei o que continha; porque, apenas o encontrei, depois que Alvaro se despedira, mandei entregal-o em sua casa.

Alvaro voltou no dia immediato, e instou pela razão de semelhante precedimento. Respondi-lhe, depois de importunado, que me dispensasse s. exc.ª de dar uma categorica explicação das minhas acções. Vi-lhe um sorriso de desconfiança, que me fez piedade. Estive quasi a pedir-lhe a definição do sorriso; mas não quiz culpar-me no erro, que lhe censurava a elle. Todo o homem póde chorar ou rir quando quizer.

Decorreram tres dias, sem o menor incidente, com referencia ao retrato da viuva. Hontem, porém, recebi a carta, que remetto a v. exc.ª, já que me impôz a obrigação de lhe não esconder os mais secretos incidentes d'esta minha attribulada existencia, que v. exc.ª segue, desde o berço, minuto por minuto. Communicando-lhe essa carta, entendo que não me deshonro. A mulher, que a escreveu, ou está deshonrada de mais para não soffrer nos seus creditos com semelhante revelação, ou está bastante pura para não soffrer no seu pudor, confiando-se á minha discrição, e á de v. exc.ª

«Já não sou de mim propria quando commetto a estranha temeridade de escrever-lhe. Separo-me das leis do meu sexo, e declaro-me muito forte na minha fraqueza para me abandonarloucamente á vontade caprichosa d'um sentimento, que póde deshonrar-me, mas que me absolve na consciencia.

«Escrevo-lhe, Paulo, porque não tenho esperanças de encontral-o n'esta casa. Quero deixar cahir este véo, com que me viu, porque tenho vergonha de parecer-lhe o que a minha razão me diz que não sou.

«Que julga de mim? Como tem avaliado o meu procedimento? Reputa-me amante de Alvaro de Sousa? Não quero essa consideração; renuncio a tal gloria, porque eu não sou amante de Alvaro de Sousa. Este homem entra na minha casa, e denomina-me prima. Intitula-me prima, porque dizem que minha mãe é casada com não sei quem que pertence á alta nobreza. Vi esta mulher; não pude amal-a; não pude reconhecel-a; e fui com ella rude como seria com uma pessoa estranha.

«Soube que a fortuna de meu pae a fizera elevar-se até ao ponto de nobilitar-se. Não me fez uma ligeira impressão esta mudança. Não a procurei nunca, e morrerei de indigencia antes de pedir-lhe uma dobra de seus velhos tapetes para resguardar do frio minha filha.

«Alvaro de Sousa tem-se-me offerecido para estabelecer entre mim e D. Anna do Carmo uma alliança filial. Revela um interesse extraordinario pelo meu futuro. Dedica-me extremos de irmão e encobre com muito fina astucia as suas intenções, se ellas são más.

«Não me importa saber quaes ellas sejam. Nada ha commum entre mim e este cavalheiro, senão uma amizade sem consequencias, e um commercio de frivolidades como é a troca de retratos, a que eu não ligo importancia alguma.

«Aqui tem o que eu sou para aquelle homem. Precisava abrir-lhe assim a minha alma, Paulo. O resto do mundo deixo-o julgar a seu bel-prazer; não me canso até em sondar a indifferente opinião da sociedade a meu respeito.

«A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias, vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.

«A sympathia entre dous desgraçados deve ser abençoada por Deus. Não fuja d'uma mulher que póde, se não dar-lhe consolações, recebel-as ao menos. Seja meu amigo, não como foi de Helena, mas como póde sêl-o d'uma pessoa, que desejára n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.

«Não ouso pedir-lhe nada, não tenho sequer coragem de implorar-lhe duas linhas em resposta a esta carta, queme sahiu tão ingenua do coração, que nem quero tornar a vêl-a, para que o artificio da fria cabeça não vá manchar a pureza natural com que a escrevi.

«Adeus, Paulo. Não desdenhe a inutil estima, que lhe offerece

Rosa Guilhermina.»

Esta carta não me impressionou. Quasi que me não occupei senão do estylo em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de gélida atonia. Tenho-os assim, e então a minha alma é dura, o meu coração paralysa, os meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mãos para contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que caracterisa as feições da minha indole.

O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu não pensei que devia responder; por isso não tive o cuidado de saber se alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o subir. Perguntei-lhe se era forçoso responder; disse-me que tinha ordem de esperar até que eu lhe désse resposta, ou dissesse que a não tinha.

Escrevi...

Não me lembra bem o quê. Penso que eram estas as ideias:

Que eu não mostrára o menor interesse em conhecer indiscretamente a natureza das ligações que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de Sousa;

Que me eram tão indifferentes depois como antes, mas que muito ingenuamente estimava que ellas fossem taes, que nunca a excellente senhora tivesse de soffrer por ellas;

Que acceitava a offerta da sua estima, porque já não podia aspirar a outros triumphos no coração das mulheres, que sabiam separar a amizade do outro sentimento que a hypocrisia vestiu com os arminhos emprestados d'uma affeição nobre;

Que, na minha posição, não podia dar-lhe mais consolações do que as muito poucas que um homem qualquer póde offerecer no serviço de qualquer senhora, que precisa d'um criado.

Penso que foi isto, pouco mais ou menos, o que eu escrevi. São passadas vinte e quatro horas. Não tenho nada a accrescentar a este episodio, e creio que terminará aqui.

Não concebo bem o que esta senhora quer de mim! Nãocreio n'estas fascinações momentaneas, porque as não entendo, ou o meu coração está muito abaixo d'esses vôos.

O que em verdade lhe digo, minha boa amiga, é que não preciso recordar os juramentos que fiz a Helena, dous dias antes da sua morte, para vencer a impressão que Rosa Guilhermina me poderá ter feito. É nenhuma. Posso esperar com firmeza e animo frio a perseguição. Nem, ao menos, a lastimo, porque a febre da imaginação ha de mitigar-se, e, quinze dias depois, esta mulher terá por mim um sentimento de resentido orgulho que ha de salval-a. Entende-o assim?

De v. exc.ª

Grato amigo,

Paulo.

V

19 de outubro

Retirou-se, n'este momento, de minha humilde casa o senhor Alvaro de Sousa.

S. exc.ª é um lastimavel mancebo! Como seu primo, minha boa amiga, sinto que elle seja o incentivo irrisorio d'esta carta.

Entrou de chapéo na cabeça na minha officina.

Vou tentar recordar o dialogo, que tivemos.

«—Venho exigir do senhor uma prompta resposta—disse elle, dobrando o punho d'uma bengalinha com a ponta.

«—Tenha a bondade de fazer a pergunta—respondi-lhe eu, convidando-o a assentar-se no canapé, inutilmente.

«—O senhor tem algumas intelligencias com D. Rosa Guilhermina?

«—Não respondo.

«—Quer dizer que tem?

«—Não quero dizer nada. Digo que não respondo.

«—Mas eu preciso que responda sim, ou não.

«—Pois por satisfazer ás suas exigencias imperiosas, senhor Alvaro de Sousa, respondo ambas as palavras:simenão.

«—Não comprehendo...

«—Tanto peor para v. exc.ª que não póde esperar de mim outras explicações.

«—O senhor parece ignorar a qualidade de pessoa com quem falla...

«—Poder-me-hei ter enganado, mas creio que fallo com um dos mais distinctos cavalheiros do Porto... O senhor Alvaro de Sousa é muito conhecido, para que eu não conheça a qualidade da sua pessoa, até pela libré dos seus lacaios.

«—É preciso que nos entendamos.

«—Desejo-o de todo o meu coração...

«—O senhor tem algumas relações com D. Rosa?

«—Continuemos na mesma desintelligencia, senhor Alvaro... Essa pergunta já foi respondida.

«—Mas a resposta não me satisfaz.

«—Não tenho outra, e falta-me até a paciencia para lhe offerecer, outra vez, a que v. exc.ª não acceita.

«—Eu sinto que o senhor não seja um cavalheiro da minha classe para responder-me á ponta da espada.

«—Dou, portanto, louvores á Providencia por me ter feito d'uma classe diversa da dos heroes, que teem ponta de espada para os que não tem ponta de lingua...

«—O senhor zomba de mim?!

«—Zombo.

«—E não receia as consequencias d'essa affronta á minha honra?

«—Não, senhor.

«—Estou em sua casa...

«—Que quer dizer com isso?

«—Não quero dizer nada... Encontrar-nos-hemos...

«—Senhor Alvaro de Sousa, eu tenho épocas em que difficilmente sou encontrado, e esta parece-me que é uma. Se v. exc.ª tem urgencia de encontrar-se comigo, sahirei hoje.»

Não me respondeu, e sahiu.

São tres horas da tarde. Vou dar um passeio.

V. exc.ª ha de permittir-me que, invocando o sagrado testemunho da nossa amizade, eu lhe imponha o preceito de não fazer transpirar uma palavra d'esta minha carta, a não desejar um completo rompimento nas nossas relações.

De v. exc.ª

Humilde criado,

Paulo.

VI


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