A EGREJA PROFANADA

Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um alcaçar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, concederiam involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando das suas excursões, não tinham trazido novas de movimento algum no exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a atalaia, vigiando no alto da torre, não estremecêra vendo uma pluma de fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da apparição dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essaserpente de ferro, que se enrosca ás muralhas da fortaleza, vae acordal-os inesperadamente do seu somno voluptuoso!De repente o grito de S. Thiago é ávante! echôa nas barbacans do alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa.Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado montante christão. Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! Já vão longe, felizmente.Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava ás mãos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus irmãos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, suspende-lhe o braço já levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez: Perdão!A lua, que até ahi se conservára escondida entre nuvens, desembaraçou-se afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena as faces tostadas da arabe gentil.Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente tentador! Eram uns labios onde se viam arfar promessasvoluptuosas de beijos delirantes. Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas infernaes da tentação! Eram as tranças negras fluctuando sobre o collo nú, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um rapaz de dezoito annos. Eram as tentações da voluptuosidade, eram as commoções do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores.Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e, invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentação fatal; mas a moira, enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:—Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são negros como noite sem estrellas; mas são transparentes como o espelho das aguas. Porque havias tu de ser cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso como o leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda a amendoeira não floriu vinte vezes, desde que minha mãe me apertou pela primeira vez ao seio palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina. Ouves? Filho dos christãos, salva-me, salva-me!—Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundocom voz balbuciante; deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz.—Não, tornou a amaldiçoada, approximando os labios vermelhos como a flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua, e tu és todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.—Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos pés da musulmana.Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mãos o rosto celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua, prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente!Entrado na senda da perdição, não havia poder humano que salvasse Raymundo da condemnação eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de fogo, e trocára o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crença de seus paes? Apagára-se a candida estrella que o guiava nas trevas da existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem o esplendor prestigioso da tentação sensual.Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegára, e que, enlaçado nos braços da musulmana, fechára os olhos á luz do christianismo, e se arrojára ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e o eterno ranger de dentes.Foram estas as noticias que Branca recebêra, no diaem que fazia um anno que Raymundo a deixára. Não disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse do seu leito de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attracção mysteriosa.Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados á amabilidade da fidalguinha, ficavam os coitados boquiabertos, ao vêrem a desusada distracção. Mas, se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a pallidez de marmore, os labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado á menina do castello.Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. Ajoelhou junto da cruz, e um aldeão, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraçar os pés do Crucificado. Depois, chegou á beira do precipicio, e sem hesitação, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se nas pedras da cascata, espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno cantico, como se não se tivesse escripto alli o epilogo de um drama desventurado.O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao castello o que presenceára. Quem perdeu alguma vez, de modo tão terrivel,um ente estremecido, avalie a dôr do triste pae de Branca. Eu não a sei narrar. Sente-a o coração, mas os labios recusam-se a exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella. Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, que ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdão do crime que ia commetter. Plantaram ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação da que tivera na terra a corôa da innocencia, e tinha agora nos céos a palma do martyrio.»—Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife!—Então que quer vossemecê,sôManoel dos Reis, coisas que acontecem, tornou o narrador, ninguem póde fugir á boa ou má sina, que Deus lhe deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a.—Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, com enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber quem é por fim de contas o phantasma do Açude.«Raymundo, meu fidalgo, não via senão Zoraida n'este mundo. Um capricho d'ella valia mais do que um mandado de Deus.Christão tripudiou com a infame sobre a cruz despedaçada do Redemptor; cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra não lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime, fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus maiores, e abandonou a defeza da patria, quando ellareclamava o auxilio de todos os seus filhos. Aqui está o que se póde chamar um amor de perdição!Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e curvava até ao chão os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas, transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vêr, porque todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Açude principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava borbotões de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perdôe, mas o temporal de hoje tem algumas parecenças com a tempestade d'essa noite infernal. Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do genero humano.»Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos se chegaram mais para o pé do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente ao passo que lá fóra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa do lagar.«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o pinheiral que termina no Açude. A reprovada de Deus folgava com noites tempestuosas, e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso á sua voz blasphema.—Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram á cruz do precipicio; não vês, Raymundo,como a chuva açoita irreverente o rosto do martyr do Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que façam rolar a seus pés a cabeça da condemnada, da filha de Mahomet?E ella ria,—ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos echos do abysmo, tinham um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu.—Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era innocente—e suspirou—vinha aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta cruz, peço-t'o.Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante, diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro. Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no coração de Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellião da vontade, do coração, do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma attracção irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o prostrava aos pés da musulmana.Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoço do cavallo, ebrio de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.»—Jesus!—bradaram os circumstantes.O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago viu-se o campo devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovão medonho fez benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos.—Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o João Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vêr uma loisa aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra. Um trovão formidavel ribombou sobre a cabeça dos dois amaldiçoados, e a campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o rosto com as mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vêr ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedaço de neve que o sol derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou petrificado.Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformação da sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinára, fizera-se negro, mais negro do que o carvão. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado que beijára tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaçador. Raymundo, por um esforço supremo de vontade,recuou dois passos, mas o braço estendeu-se, estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, queimando como se fôra uma tenaz ardente.—Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma, renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra hoje o nosso noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer o sacerdote. Vem, é este o leito nupcial.E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se com elle no abysmo. Um clarão avermelhado illuminou as aguas da torrente, que exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre.Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos pés da cruz, implorando o perdão do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado, resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia.Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade, e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de Branca.Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas sombras terriveis correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra com uma alegria feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então ajoelhar uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou!—Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valença depois de feitos os cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo que iamos descambar em plena edade média. O nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se de consagrar um vivo affecto ás couraças da sua adolescencia, e ás achas d'armas da sua creação. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo.—E não era epocha tão má como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares. Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos romanticos do tempo:Hugo portait déjà, dans l'âmeNotre-Dame,Et commençait à s'occuperD'y grimper.—Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio é de certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se com espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.aD. Isaura adormeceu!Era verdade; Isaura, que não tinha de predilecções litterarias senão oquantum satispara ser senhora da moda, enfastiada já d'estas repetições de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que a perseguia, mas, quando se entrára na historia dos amores de Raymundo e Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando a cabeça para traz, e adormecera profundamente.—Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vêr em Isaura uma menina todaidealisadora, e capaz de apreciar os mais elevados prazeres do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias para resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes soláos cançados e gastos que deliciaram a velha geração, com os seus cavalleiros de armas negras, e os seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os seus fidalgos que venderam a alma a Satanaz como naDama Pé de Cabra, de Alexandre Herculano, ou naTorre de Caim, de Rebello da Silva? Isso foi bom no seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina intuição do seu juvenil espirito, não pôde commover-se com esses velhostrucsde magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para nos entreter á meia-noite.Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada.—Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.ase hoje lhe produziu a mais leve impressão a meia-noite, e se lhe deram muito cuidado os phantasmas.—Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco envergonhada. É que estou fatigada das noites passadas em claro, porque o peior não é aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto. Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos terriveis perturbar o meu dormir inquieto.—Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo são rosas no tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.anão sabe que são muitas vezes amargos os remedios salutares? Então julgava que, para ter umacura radical, bastava-lhe ouvir aqui lêr contos, n'uma sala confortavel, cheia de luz, a dois passos do seu papá, e apertando a mão da sua amiga? Nada! nós aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto o amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que tambem não achasse aos venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V. ex.ahontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para adormecer profundamente.—Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem, com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida desenterrada, atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei devéras enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta.O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras atordoado! Decidídamente Isaura não lhe perdoava a creação do typo de Julieta que elle julgava que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera outro intento senão o de lhe chamar desenterrada.—Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.aque a minha intenção era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz a seus pés um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi porque as flôres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia que colhesse.Isaura eracoquette, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio, vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porém, o doutor Macedo levantou-se,e, depois de ter pedido licença para ir accender um charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro:Trazes agoirento goivoprezo em negros passadores!Disse-te acaso o teu noivoque tinhas novos amores?—O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com uma expressão no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminára, o dr. Macedo está-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta do ramalhete de goivos. É um epigramma, sr. Osorio?—Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal fórma infeliz com v. ex.a! V. ex.ainterpreta de um modo tão singular todas as minhas palavras, e todas as minhas acções, que desisto de as explicar de um modo satisfatorio.Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para respirar mais á vontade. As reclamações dos circumstantes obrigaram-n'o a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso malicioso, e em voz baixa:—É para que tu saibas o que valem os galanteios funebres.—Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente, occupa-te das tuas bonecas.A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a mão ao coração, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas.—Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si.—Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a amas!Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluços mesmo diante de Henrique.O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse declamatoriamente:Si je vous le disais pourtant que je vous aime,Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?—Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique impaciente. Quer fazer concorrencia aoDiario Illustrado, ou aoJornal da Noite?—Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem exprimil-os, voariam a encontrar-se.—A solução no proximo numero, não é verdade, doutor? tornou Henrique, impaciente.—Talvez, redarguiu o doutor.E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem.Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo pediu a palavra.—Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um manuscripto, se não espero o bater da meia-noite, é porque o romance que vou lêr precisa de um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra. Não é meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...—São prohibidas as substituições, bradou Lucio, rindo, serviço obrigatorio!—Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos nossos collegas, não direi mesmo se está presente. Faz o seu serviço, mas provisoriamente quer conservar a mascara. Ora diz Gennaro naLucrecia Borgia, pouco mais ou menos, o seguinte: A mascara de uma senhora é tão sagrada como a face de um homem. É assim ou não é, Soares? É assim, romantico?—Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor é uma das nossas amaveis companheiras de serão.—As conjecturas são permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu, conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lêr aEgreja profanada.No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o doutor, que lia admiravelmente, começou assim:A EGREJA PROFANADAICorre socegada a noite, mas não brilha a lua no céo a espargir tristezas, escondendo um devaneio, um sonho de poeta em cada uma das pregas da sua candida tunica; scintillam apenas as estrellas no véo escuro do firmamento.Formosas são as noites estrelladas, mas não teem a suave melancolia das noites de luar; enleva-se-nos o espirito ao contemplar essas myriades d'orbes luminosos; porém os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa que nos falla ao coração.Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos de saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao longe nas ondas, toada de Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos de saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao longe nas ondas, toada de pegureiro,que vem desfallecida expirar no nosso ouvido, intimas melodias, que nos dizem: «amor e tristeza.»Porque as estrellas são desdenhosas rainhas d'outros céos, sóes de outros mundos, que nos enviam, como que por descuido, um signal de sua grandeza, um tenue raio da sua immensa luz, em quanto a lua é a extremosa amante, que prendeu á nossa a sua existencia, a companheira que nos segue incessantemente n'essa viagem sem fim, que emprehendemos pelo espaço.As estrellas tornam mais profunda a solidão, e mais espessas as trevas. Os bosques, os valles, as montanhas conservam-se envoltos n'um véo sombrio, por mais que os raios dos sóes da noite se esforcem por penetrar na escuridade; as ondas baloiçam com indifferença os seus reflexos, e não fazem caso das palhetas doiradas que avivam aqui e ali a candidez da sua fimbria espumosa.Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta a viração nos antros perfumados das florestas, que exhalam vivissimos aromas. As fadas vem pentear as suas loiras tranças no espelho das fontes, cuja crystallina superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de prata pela falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem das arvores. Erguem se as ondas em vago enleio de voluptuosidade, como seio de virgem que arfa pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo da violeta. Rescende a saudade no thuribulo do coração.As estrellas são os anjos de Deus, que entoam lá ao longe, nas profundidades do Empyreo, o hymno ás glorias do Eterno; a lua é o archanjo consolador que presta um ouvido compadecido aos lamentos da humanidade.As estrellas são os candelabros de oiro, que ardem constantemente diante do throno do Altissimo; a lua é a urna argentea onde se transformam as lagrimas dos que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regaço do Omnipotente.As estrellas são o enlevo do philosopho, a lua é enlevo de poetas.Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a lua a caridade do Redemptor.Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada celeste scintilla frouxamente na face adormecida do mar. As vagas erguem-se vagarosamente, enroscam-se a pouco e pouco, caminham em longa fileira para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.Negra, bem negra está a superficie do Oceano; os raios das estrellas, naufragos luminosos, debatem-se com as ondas, que mal conseguem doirar. Do seio d'essas trevas sae um gemido cavernoso. É a voz eterna do liquido leão, é o rugir tranquillo mas terrivel do monarcha da immensidade.Não param as vibrações nas espumosas cordas da harpa dos abysmos; ora plangente, ora formidavel, o cantico incessante resôa no espaço.E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se lá no mar alto, o grito que resulta do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se lá no mar alto, o grito que resulta do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento que exhalam ao açoital-as o vento, tudo isto se resumen'um hymno sublime, intraduzivel, como os poetas os sonham, mas não escrevem.Ó mar! A opulenta imaginação da antiguidade grega povoou de sereias as tuas ondas, poisou no cimo d'estas o velho Glaucus, com as suas barbas limosas, com a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma ora a rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a candida Aphrodite, ora a seductora Lamia, ora as horriveis Gréas, e nem assim conseguiu traduzir o indizivel encanto com que nos attraes, e o vago terror que nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia dos teus hymnos! Ó mar immenso, que lyra infeitiçada te deu o Senhor, de que mysteriosa seducção impregnou as tuas solidões?Assim perdido nas trevas como é magestoso o Oceano! Nem uma véla se distingue na immensidade solitaria! Ainda n'aquelle isolamento, não descontinúa o fadario das ondas! Vão, vem, atropellam-se, espraiam-se, beijam se, desmaiam, agitam-se, revolvem-se, cantam, suspiram, e, lá ao longe talvez, algum scismador, encostado ao peitoril da sua janella, ao ouvir aquelle ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de uma casa cuja fachada branca mira silenciosa a eterna agitação do Oceano, que envia ás vezes, de enamorado, uma das suas ondas a beijar-lhe os pés, baloiça-se indolentemente uma barca, onde dorme um pescador, cujo somno é acalentado por esse murmurio suave.As ondas embalam tão docemente o bote, como carinhosa mãe póde embalar o berço do recem-nascido.A uma das janellas que se rasgam na fachada branca da casa da praia, encosta-se um vulto de mulher. Embaixo está um outro vulto varonil e elegante. Ouve-se, por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar de duas vozes.Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. Mas o rugido do Oceano, e o flebil sussurrar dos namorados chegam, em murmurio egual, ao throno do Omnipotente: porque são duas notas do hymno immenso do Universo, que se resume n'uma palavra «Amor.»IITudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces palestras enamoradas. Mais infeliz do que a desditosa heroina de Shakespeare, a donzella da casa da praia não pôde esperar que o grito matinal da cotovia saudasse o alvorecer. Ainda a noite não chegára ao meio do seu giro, e já era forçosa a separação.Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou o nosso Romeu da fachada branca, mil vezes voltou a ella, como se as ondas, que lhe vinham quasi banhar os pés, o arrastassem comsigo nas incessantes ondulações do fluxo e do refluxo.Afinal a palavra «Adeus» escoou-se, como um timido murmurio, pelos labios dos dois namorados; o elegante moço affastou-se rapidamente, e, dando um pulo bem calculado, foi cair em pé dentro do barco, que as ondas baloiçavam.Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro.Ergueu-se á pressa, e, depois de reconhecer seu amo, fitou os olhos com certa inquietação no céo estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.—Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, que tanto se demorou! É forçoso apressarmo-nos, e não sei ainda se chegaremos a tempo á praia.—Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcára, sentando-se commodamente na pôpa do bote. Está o mar de leite, e nem a mais ligeira brisa lhe agita as ondas, nem uma nuvem ameaçadora assoma no horisonte! As tempestades repousam, amigo!—Não temo a procella, tornou o barqueiro, abanando a cabeça; eu e o vendaval somos conhecidos velhos, e não me assusta a tormenta em noite escura, nem receio ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente envolto n'esta mortalha de espuma, do que ser cozido n'um lençol branco, e mettido em uma cova, onde o nosso pobre corpo nem uma vez só se poderá regalar com o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, não é n'uma noite d'estas que um velho marujo receia a tempestade. V. s.atem rasão: o mar está de leite, e o barco ha de deslisar tão commodamente por sobre as suas aguas como uma carruagem por cima da poeira da estrada real.—Então o que te assusta, meu velho?—Está quasi a dar meia-noite, senhor.—Percebo! Receias que o fuso da tua companheira não corra tão ligeiramente nas suas mãos enrugadas, de farta que esteja de te esperar. Socega, homem! Irei eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e prometter-lhe uma estriga de linho para os serões do inverno.Verás que a velhita ha de ficar tão contente, que nem pensará em ralhar comtigo por causa da desusada demorada.—Não esteja com cuidado na Catharina, senhor, que ella bem sabe que me não demoro por culpa minha. Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada já foi moça e louçã, e ha de se lembrar de como nós esqueciamos as horas, que passavam, ella sentada á porta da choupana a concertar as rêdes de seu pae, eu assentado no areial a fallar-lhe fallas de namoro, que lhe punham o rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda não é isso, meu amo.—Então o que é, finalmente? perguntou o seu interlocutor, já um tanto enfadado.—É que não resulta bem algum ás almas de dois christãos de estarem assim no mar por estes sitios ao bater da meia-noite.—Porque?O barqueiro olhou com inquietação em torno de si, e depois murmurou em voz baixa que mal se ouvia:—É por causa daegreja profanada!O esbelto moço olhou espantado para elle.Durante a conversação, o pescador desamarrára o barco, e, lançando mão dos remos, déra-lhe um impulso vigoroso. Jà estavam longe da praia, as ondas vinham bater no costado do bote com um murmurio queixoso, que acompanhava o som compassado do bater dos remos na agua.O pescador tornou a fitar o céo com inquietação, e, sem responder a uma nova pergunta do seu passageiro, curvando-se para diante, metteu os remos nas ondas, e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, erguendo-osde novo, espadanar uma cascata de espuma de cada lado do ligeiro bote.Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem se-lhe nos ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina primeiro, depois, sacudindo as crinas, desata em vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma onda, que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as aguas com incrivel rapidez.Ainda o passageiro não tivera tempo de repetir a pergunta, quando vibrou o espaço com as lentas pancadas da meia-noite, que soava lá muito ao longe, no sino de uma egreja situada á beira mar.Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. Cada uma das vibrações vinha, em intervallos eguaes, expirar no ouvido dos dois navegantes, e casar-se melancolicamente ao rugir contínuo das vagas.O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: «Jesus, meu Deus!» O mesmo seu amo não se pôde eximir a um inexplicavel receio.Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em pé, o nosso enamorado com vaga curiosidade, e um tal ou qual terror, contaram as lentas pancadas do bronze sagrado.Parece que aquellas vibrações não eram produzidas pelo simples sino de uma egreja, mas que fôra o anjo das vinganças do Senhor quem fizera vibrar o bronze, e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima vibração assemelhava-se a um gemido terno, ao uivo lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo as suas negras azas, annunciasse aos phantasmas o começo do seu imperio.O barqueiro, que se levantára, caíu de novo no meio do barco e escondeu o rosto entre as mãos; seu amo soltou uma exclamação de espanto.Um clarão avermelhado tingira subitamente as ondas, como se um incendio começasse a lavrar no fundo do Oceano. As vagas soltaram um gemido plangente, como creanças açoitadas.E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, erguera-se do fundo dos mares; e essas vozes cantavam os psalmos da penitencia.Mas as palavras, cheias de uncção, e impregnadas de tristeza das sublimes poesias do rei propheta, tomavam uma accentuação ironica, como se passassem pelos labios requeimados dos anjos malditos.No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente uma voz suave e argentina de mulher, doce como o gemer da brisa nas solidões do Oceano, feiticeira como a voz das seductoras sereias.Mas aquella mesma doçura tinha um não sei quê de medonho, e n'essas melodias celestiaes reverberava-se o fogo do inferno.No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente uma outra aspera e dissonante, que produzia o effeito que produziria no meio das harmonias da harpa o som do estalar de uma corda.E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, uma plangente intonação, uma pungente ironia e um não sei quê d'attraente e seductor que fazia pensar na fatalidade.Os olhos do moço passageiro encheram-se involunta Os olhos do moço passageiro encheram-se involuntariamente de lagrimas, e com os braços estendidos, perdido n'um vago extasi, parecia querer voar nas azas damelodia para o antro sub-marinho, onde se aninhava a infeitiçada sereia.E a voz cantava:

Hugo portait déjà, dans l'âme

Notre-Dame,

Et commençait à s'occuper

D'y grimper.

Trazes agoirento goivoprezo em negros passadores!Disse-te acaso o teu noivoque tinhas novos amores?

Si je vous le disais pourtant que je vous aime,Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?


Back to IndexNext