III

Co'a vossa santa colera,raio que fere e brilha,ao impio que se humilhanão fulmineis, Senhor!N'este meu seio embebe-sea vossa frecha ardente,e a mão omnipotenteme opprime em seu furor.Da vossa ira o halitoseccou-me membro a membro,e ai! se então me lembrodo meu longo peccar,de como olvidei, réprobo,santos dictames vossos,oh! sinto até meus ossosum frémito agitar!O fardo immenso e horridoda minha iniquidade,á voz da Divindade,a fronte me curvou.Da minha carne as ulcerascorrompe-as a lembrançada impia atroz folgança,que a Deus me arrebatou.Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo verso, mas então a voz vibrava de novo com aspere Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno,o grito ironico com que voltava a cantar os seguintes versos:Co'a vossa santa colera,raio que fere e brilha,ao impio que se humilhanão fulmineis, Senhor!N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um novo Moysés lhes tocasse com a varinha magica. Entremostraram-se aos olhos do espantado moço as profundidades do mar. Foi isso rapido como um relampago, mas deu-lhe tempo sufficiente para vêr o interior de uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma immensa profusão de cirios. Uma longa fileira de guerreiros da edade média cercava os altares, mas no meio da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, e as taças de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se em cima da toalha. Uma mulher formosa como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que inexprimivel sêllo da maldição divina, ergueu-se, como se fosse sustentada por azas invisiveis, até á superficie dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando por cima das vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma, que o clarão vermelho fazia espuma de sangue, com a corôa da orgia ainda na fronte, encaminhou-se lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se.O phantasma deslisava por cima das ondas, como se invisivel mão o impellisse; já estava proximo do bote, e os seus olhos negros, onde scintillava uma chammainfernal, exerciam uma incrivel fascinação no nosso heroe. Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente para elle, a fronte pallida tombou-lhe para o hombro, como lyrio pendido pelo tufão. Ignota languidez suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças negras desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa suspirou, como um triste queixume os versos:N'este meu seio embebe-sea vossa frecha ardente,e a mão omnipotenteme opprime em seu furor.Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote nem forças teve para resistir á seducção. Inclinou meio corpo para fóra do barco, estendeu as mãos, e ia precipitar-se nas ondas.—Jesus! bradou o barqueiro.O phantasma soltou um bramido de desesperação, as ondas rasgaram-se de novo, e quando o moço abriu os olhos, que fechára de deslumbrado pela chamma que faiscára nas pupillas negras da gentil desconhecida, já o vulto feminino desapparecêra.Mas as ondas continuavam a conservar a sua côr escarlate, e o canto dos psalmos vibrava ainda na immensidade.IIIO terror tirára as forças ao barqueiro, o terror lh'as deu de novo. Lançou mão dos remos, e o bote afastou-se rapidamente d'aquelle terrivel sitio.—Sabes a historia do que estamos vendo? perguntou o companheiro do pescador, com voz ainda agitada.—Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas não é n'este sitio nem a esta hora que eu a hei de contar.—Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já estamos longe do ponto fatal, e a voz dos réprobos vae-se perdendo no horisonte.O barqueiro hesitou um instante, depois principiou em voz tão baixa que mal se percebia, e sem deixar de impellir vigorosamente o bote, a seguinte narração:«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e junto d'aquelle castello, cujas ruinas ainda póde divisar penduradas como ninho de aguias em cima das fragas, uma egreja que fôra mandada construir por um devoto fidalgo d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de santidade. A igreja era tida em conta de milagrosa, e alli concorriam immensos fieis attrahidos pela fama do templo, e pelas virtudes do capellão, homem de vida austera, affectuoso para com os humildes e nada servil com os grandes, a quem dizia as verdades por mais amargas que fossem, quando entendia que assim o exigiam os deveres do seu ministerio.«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho do fundador da egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas, não lhe herdára as virtudes, porque os thesouros da terra na terra ficam, mas os thesouros do céo esses voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella. Gentil a mais não poder ser. Dizem que o rosto é o espelho da alma, e se assim fosse, ninguem possuia maisformosa indole nem mais candido espirito do que a irmã de Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era assim. A natureza esmerára-se tanto em lhe aprimorar a belleza physica, que se esquecêra de certo de cuidar com egual desvelo na formosura moral. É assim que dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que seria um guapo archanjo, se o pé caprino não revelasse a quem se deixa fascinar pela etherea gentileza do anjo maldito, que está a contas com o pae da mentira. Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a distinguisse dos anjos de que parecia irmã, e, se algum cauteloso enamorado, para tranquillidade de consciencia, lançasseuma vista de olhospara o pésinho encantador da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que completar a fascinação, e, em vez da agua benta, com que tencionava aspergil-o, era natural que o cobrisse de beijos, tão airoso era elle e tão pequenino, tão pequenino que parecia que a natureza, ao esquecer-se de lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar o pé.«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, montada elegantemente n'um lindo cavallo preto, todos se ficavam enlevados a contemplal-a, e não havia donzella nem rico homem que não sacrificasse de boa vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na pupilla negra da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, e o marmore d'aquelle rosto adorado nunca se purpureára com o rubor da paixão. Engano-me. Paixão sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe devia incendiar o rosto não no vivo escarlate do pejo de donzella enamorada, mas sim no rubor da vergonha e do remorso. A réproba amava seu irmão!«E não imagine que ella occultasse essa paixão criminosa. Pelo contrario gloriava-se d'ella impudentemente. E o espectaculo, que davam aquelles dois impios, era um escandalo contínuo para os bons christãos dos arredores.«Não se faz idéa das orgias freneticas e loucas, a que no castello se entregavam aquelles dois abandonados de Deus. Quem passasse á meia-noite pelo caminho que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar defrontando com a egreja, havia de parar cheio de religioso terror ao vêr de um lado o immenso clarão das luzes incendiando as vidraças da sala da orgia, ouvindo os cantares ebrios, os risos descompassados, as blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a vista do outro lado na casa do Senhor, muda, deserta, sepultada em trevas, como um terrivel archanjo que contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos, e que esperasse silencioso que soasse a hora da punição.«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle ruido incessante, se o ouvissem nas salas, havia de lhes soar lugubremente como a voz justamente irritada do Deus vingador.«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela piedade dos homens, diante do templo immenso em que mais se revela a imagem da Providencia, como poderia haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da lei divina?«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa soledade da nave, se erguiam os mortos do seu leito de pedra para se ajoelharem diante do altar, quando o vasto Oceano desprendia dos seus labios de espuma o hymnoreligioso com que celebra a omnipotencia de Deus, accendiam-se as luzes no salão do castello, sentavam-se á meza da orgia Guilherme e Ignez e alguns cortezãos das suas devassidões, porque os seus eguaes todos se haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre a qual cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a irmã do castellão, no fim do banquete, cingia a fronte com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, e cantava canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura e vibrante, que os anjos lhe invejavam, para descantar os seus hymnos de louvor ao Eterno.«Um dia o velho capellão, que fôra o primeiro padre que dissera missa na egreja cujo fundador fôra o pae dos dois devassos, dirigiu-se ao castello, tencionando chamar para o redil da egreja aquellas duas ovelhas desgarradas por atalhos de maldição.«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que ouviu furiosa as reprehensões do padre, e que foi immediatamente queixar-se a Guilherme da insolencia do sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas a cabeça de S. João Baptista.«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava ainda, no meio dos seus vicios, um respeito supersticioso por seu pae, e não ousava tocar na pessoa inviolavel d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que fundára.«Não insistiu Ignez; mas projectos de vingança atroz calaram immediatamente n'aquelle espirito pervertido.«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em torrentes, açoitando egualmente as vidraças do castello, illuminadas com o clarão do festim, e os vidros de côrda egreja atravez dos quaes coava a religiosa luz dos tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade da missa da meia-noite.«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava ora gemidos pavorosos, ora lamentosos queixumes.«O vendaval corria infrene por sobre as ondas.«De mais folias ainda do que de costume era testemunha o salão do castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se cá fóra distinctamente, e faziam com que todos os que se dirigiam á missa se persignassem com horror.«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu irmão, Ignez, com os cabellos em desordem, soltos pelas espaduas núas, com a lascivia no olhar e na attitude, desferia a harpa de oiro e descantava as mais alegres canções.«O vento e o mar soltavam cá fóra os seus tristes e lugubres lamentos.«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os repiques da sineta annunciaram immediatamente que ia principiar a missa.«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. Só Ignez com o seu diabolico sorriso a pairar-lhe nos roseos labíos, exclamou:«—De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão desgeitosa estou já no dedilhar da harpa, que lhe prefiram o agudo cantar da sineta? Tão enfraquecida está a minha voz, que cessem de a escutar para ouvirem o bronze de um campanario?«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço, inundando a sala com a sua luz phosphoríca, e o vendaval, redobrando de força, fez em estilhas uma das vidraças.«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes as veias, e o proprio Guilherme limpou o suor frio que lhe escorria na testa. Ignez continuou:«—Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? Deixemos esta sala que o vento vae tornar inhabitavel, e que a chuva vae inundar, e vamos procurar um abrigo na egreja. Alli, sim, que é sala commoda. Utilisemol-a. Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a transferencia.«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez. Beberam um copo de vinho, e ergueram-se bradando resolutamente: «Para a egreja.»«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar revestido dos seus sagrados paramentos. Tornavam-n'o respeitavel o seu caracter augusto de immaculado sacrificador, e ainda mais o seu diadema de cabellos brancos, e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam a fronte.«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito de Deus baixar ao templo, evocado pelo santo sacerdote. O orgão começava a gemer os seus doces cantares. A tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, suspirando plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo pavorosa, como quando sacudia as suas negras azas em torno do castello.«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos ebrios, em descompostos cantares. Ficou gelada de terror a devota multidão. Perturbado quando erguia a Deus o immaculado espirito, o sacerdote voltou-se e deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frenteencostando-se com insolente descaro ao braço de seu irmão.«Inflammado em santa colera, o velho ministro do Senhor desceu os degraus do altar, e, dirigindo-se aos recem-chegados, bradou com voz sonora, em que vibrava o echo das iras de Deus:«—Parae, não profaneis o templo, e não obrigueis a fulminar-vos o raio de excommunhão, que vos está impendente.«Era venerando o vulto apostolico do santo varão. O povo caíu de joelhos, e a tempestade suspendeu os seus bramidos, como que respeitosa e tremula.«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro do Omnipotente. Só ficavam cerrados os ouvidos dos impios.«Era porque chegára a hora fatal, e a taça das iniquidades trasbordára emfim.«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que doce, que angelico sorriso! Quem diria que esse sorriso, que rescendia amores, era apenas um incitamento ao assassino?«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, e feriu o velho sacerdote.«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo de escarlate o candido vestido de Ignez.«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios como seus amos, haviam trazido n'esse instante a meza da orgia.«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos «Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano enfurecido,e os tumulos de pedra da egreja estalaram como se fossem de vidro.«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto na mortalha, o espectro de Pelayo, o fundador da egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas nevadas sobre o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa horrivel! brotavam lagrimas ardentes.«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava com os pés no chão marmoreo da egreja. O vento engolphando-se pelo portal do templo, agitava-lhe as pregas da mortalha. Com as mãos unidas, em attitude de oração, o velho finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses prophetas que o Senhor Deus arrebatava para as alturas do Empyrio.«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por encanto e o venerando finado continuou a sua magestosa ascensão na atmosphera que se esclarecia em torno d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de terror. Mas, apenas o velho Pelayo se sumiu ao longe na região das nuvens, resoou em toda a egreja um terrivel estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana o tocasse, e o tremendoDies iraejorrou em torrentes de severa melodia pela nave do templo. Vacillaram os columnelos, nos frisos e laçarias gemeu o vento em canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse arrancado pela base, aquella mole immensa levantou-se do chão, oscillou nos ares como impellida por invisivel fundibulario, e arrojou-se ao Oceano, levando no seu seio os profanadores, que soltaram um ultimo rugido de desespero.«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que selhe offerecia, depois a liquida superficie uniu-se de novo, e essa mortalha immensa, cujas pregas são as ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de pedra.«Desde então todas as noites, ao bater da meia-noite, accendem-se os cyrios na egreja sepultada, e, no fundo do mar, os réprobos entoam os psalmos da penitencia.«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, do fundo do Oceano, a sua irresistivel seducção.«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa até ao cimo das ondas, e arrasta para os abysmos os incautos que cedem ao magico poder dos seus feitiços.«Proteja-nos o Senhor contra estas tentações. Eis-nos chegados á praia.O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O moço passageiro ficou largo tempo a contemplar o Oceano.As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo escarlate, e a voz dos precitos, enfraquecida pela distancia, vinha expirar na praia em melancolica toada.Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou; apagou-se a pouco e pouco a luz vermelha, ao passo que se ia aclarando mais o horisonte, e que as ondas se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a pouco e pouco, até que a ultima nota vibrou solitaria no espaço; e esse silencio singular que precede o romperdo dia foi apenas quebrado pelo hymno eterno do marulhar das ondas.[1]Houve um momento de silencio, quando o doutor Macedo acabou a leitura do romance. N'aquelle grupo havia de certo n'esse instante um coração que esse silencio fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio Valença quebrou o encanto, dizendo:—Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido collega deu um golpe de mestre, escolhendo o para leitor de uma lenda. A sua voz deu-me arripios, as suas inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve um momento, em que me não atrevi a olhar para ajanella, com medo de vêr encostado aos vidros o espectro fascinador de Ignez.—Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, nem assim se póde avaliar o merito da lenda. O doutor é como um d'estes actores, que transformam sempre em magnificos papeis as mais insignificantes banalidades.O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao mesmo tempo um concerto de elogios protestava contra a phrase dubia de Leonor. O mais ardente no applauso era Henrique Osorio.—Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, o publico chama pelo auctor, e eu, como no theatro francez e hespanhol, depois dos tres cumprimentos do estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa enthusiasmada. Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os por uns certos effeitos oratorios.—Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em côro.—Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; o auctor é uma senhora linda, elegante e espirituosa.—Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes indignados.—Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida senhora.—Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença.—Um voto de censura na acta! bradou o visconde da Fragosa, sempre parlamentar.—Dependuramol-o dajanellaaté elle dizer o nome! exclamou Henrique Osorio.—Já o tinha dito, se vocês me não interrompessem, exclamou placidamente o doutor Macedo emquanto aviscondessa da Fragosa, Leonor e Isaura riam a bom rir da alegre scena.—Então falla,ventre-saint-gris! bradou Roberto Soares.—Ventre-saint-grisnão é da edade média, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo que já erguera as mãos para bater as palmas pela terceira vez, e que tirou tranquillamente um charuto da algibeira.—Uma corda! bradou Henrique Osorio.—E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença.—Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não acceso nos dentes, bateu as palmas, e disse:—Tres!Estabeleceu-se um profundo silencio.—A lenda que tive a honra de submetter á apreciação de vv. ex.as, concluiu o doutor, foi escripta pela ex.masr.aD. Leonor de Mattos e Vasconcellos, filha do nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.—Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.—Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos de agua.—Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae todo ufano.Confusa no meio de todos os comprimentos, com que em todas as familias se festejam as mais insignificantes estreias litterarias do filho mimoso da casa, Leonor nem ousava erguer os olhos para Henrique. Este contemplava-a pasmado, depois mirava a furto Isaura, um pouco fria, um pouco descontente com a ovação da suaamiga, e evidentemente de si para si lamentava que não fosse a pallida menina a sonhadora das phantasias daEgreja profanada.Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a via modesta, perturbada, evidentemente envergonhada de ser o alvo de todas as attenções, agora mil vezes mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe perdão do seu involuntario triumpho, Henrique não podia deixar de dizer de si para si que havia um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de Isaura e a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via que não dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, e que, escrevendo-o, parecia ter querido mostrar apenas que não era estranha ás altas preoccupações do espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para se arrojar ao mundo do ideal.E, emquanto a conversação volteiava alegremente em torno do conto de Leonor, emquanto uns narravam os calafrios que tinham sentido, e outros felicitavam o leitor e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão, ficou profundamente pensativo.Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, passando junto de Henrique para se retirar para o seu quarto, sentia poisar na sua mão, para a demorar, a mão tremente do seu companheiro de infancia.Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em contacto com uma garrafa de Leyde.—Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu conto?—Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo, e já senhora de si.—Oh! eu não faço a critica litteraria do romance.É provavel que tenha innumeros defeitos. Digo-te apenas que me impressionou. Quando o escreveste?—Hoje!—Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar profundo.—Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe violentamente, córada até á raíz dos cabellos, mas resoluta, quiz-te mostrar que já passou para mim o tempo das bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o espirito não são já as puerilidades dos nossos brinquedos de outr'ora, mas os affectos e as paixões da mulher.Henrique apertou-lhe docemente a mão.—Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, para escreveres essa lenda? Tive eu a ventura suprema de preoccupar devéras o teu espirito intelligente? de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo e nobre coração?—Henrique! murmurou ella.—És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam os dois. Leonor despediu se, e toda palpitante de commoção e... dil-o-hemos... tambem!... de alegria, dirigiu-se para o seu quarto.O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou maliciosamente:Si je vous le disais pourtant que je vous aime,Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?—O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.—Pois quem, meu creançola? É necessario ter amyopia amorosa dos vinte annos para o não perceber ha immenso tempo.—Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor foi minha companheira de infancia. Havia entre nós, em creanças, uma certa desproporção de edades. Entre dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me a vêr sempre em Leonor uma creança. A mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir lêr o conto que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos seus formosos olhos a bondade da sua alma, e a virgindade do seu affecto. Só agora percebi o tremor da sua voz nas palavras que me dirigia! E eu passava junto d'ella quasi sem a conhecer!—Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia vulgar. Tem a gente ao pé da porta um lago tranquillo, risonho, córado pelo esplendor do sol, nunca se lembra de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a perola que lá brilha no fundo, vae procural-a então ao mar das tempestades, mergulha, e encontra ostras. Boa noite, meu amigo.E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, mas n'essa noite não dormiu. A imagem que fluctuava diante dos seus olhos semi-cerrados, não era, não, a pallida imagem de Isaura.Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu completamente a hora fatidica, e que tendo Lucio Valença pedido a palavra ás dez horas e meia da noite, allegando que era longo o seu romance, que, sendophantastico, por isso que o personagem principal era um ente inanimado, tinha comtudo uma pequena parte propriamente legendaria, e que portanto podia começar a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso esta idéa, e Lucio Valença começou logo depois do chá a leitura do seu volumoso manuscripto. O doutor fizera uma careta ao avaliar o numero de paginas que ia ter que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas doçuras de um amor nascente, não tendo olhos senão um para o outro, amaldiçoavam a leitura que os ia privar de algumas horas de doce conversação; Isaura, despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus vassallos, e mais furiosa ainda por lhe falharem todos os manejos que empregava para reconquistar o inconstante, que tratára com tão soberbo desdem quando o tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas baterias para Lucio Valença, e preparára-se portanto para ouvir o conto com a mais profunda attenção.O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e um honrado e silencioso proprietario de Val de Prazeres, que vinha completar a partida do visconde, não abandonaram sem um suspiro oboston. Resignaram-se, porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a hostilidade do auditorio, começou com voz não muito firme a leitura do manuscripto, que se intitulavaMemorias de uma bolsa verde.MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDEIUm dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um leilão que se fizera em casa de uma rica viuva que fallecêra. Os parentes, apressados em se desfazerem de todos esses moveis, que para elles não tinham valor algum, abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar a pobre finada. O que importavam aos herdeiros esses pobres livros, por exemplo, sobre os quaes se debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da viuva, esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das suas saudades, cujas paginas teriam sido regadas com tantas lagrimas, e que tantas vezes teriam repousado sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, interrompendo a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos no sitio onde seu marido se costumava sentar, a lampada a cuja doce luz tinham tantas vezes travado umad'essas deliciosas conversações intimas, tornadas mais suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de sentir a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de caixilhos das janellas? Que significação tinham essas coisas para os corvos ávidos, que esperam anciosamente que o corpo se transforme em cadaver, para descerem em bandos a saciar a fome impaciente? E quem sabe se, reunidos em volta do leito mortuario, não miravam com os olhos affectadamente compungidos, onde brilhavam algumas lagrimas de convenção, os trastes do quarto, e os proprios lençoes que agitava o estertor da moribunda? Quem sabe se elles não estariam já calculando o valor approximado d'esses objectos? Ai! todo o anjo, que baixa a este mundo, tem um demonio que lhe espia os passos, que o segue cautelosamente sorrindo com um sorrir diabolico, que esconde na sombra projectada pelas azas brancas do habitante do céo as negras azas do habitante do inferno, e que, apenas aquelle acaba de cumprir a sua missão divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido pela candida apparição.Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após o anjo da caridade o demonio da ingratidão, após o anjo da morte o demonio da cubiça.Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo de Deus cerrar-lhe os olhos, e levar para os céos, no regaço da sua tunica transparente, o espirito immaculado que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto do cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo do clarão que derramaram sobre elle as azas luminosas do Senhor. Nada mais proprio para inspirarrespeito do que essa morte socegada, tão socegada como a de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. Uma suave compuncção se apodera do animo de todos os circumstantes. Ninguem ousa perturbar o magestoso silencio da camara funeraria; todos temem profanar a augusta santidade d'aquella scena. Mas o demonio da cubiça lá estava espreitando á porta com o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as azas, entrou pé ante pé, debruçou-se sobre todas as frontes pendidas, bafejou-as com o halito repugnante, e logo todos se ergueram apressadamente, e trataram de fazer desapparecer o cadaver, de annunciar o leilão, de preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem as partilhas. «É preciso tratar da vida», dizem elles. Regateiam-se as despezas do enterro, e, para se resarcirem d'ellas, não conservam um unico objecto, por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem pouco mais ou menos a scena horrenda que precede um acto tão natural como é um leilão.Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel, quando me vou confundir com a multidão de compradores que penetram, com tão pouco respeito, n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão ruidosos.No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me estas idéas que acabo de expender.Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os sophás, as mezas, as cadeiras, os livros, tudo se dispersára já. O pregoeiro continuava a fazer apparecer os differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia machinalmente os lanços dos circumstantes com uma rapidez, e com uma segurança taes, voltando a cabeçaora para um lado, ora para outro, quepareceriaser antes machina do que homem, se não fossem as chalaças com que entremeiava o seu pregão monotonamente saltitante (se assim me posso exprimir). Eu estava encostado a uma porta, e contemplava com certa tristeza aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes dos compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros, e a cara maliciosamente alvar do pregoeiro, pago para alegrar a assembléa com os ditos joviaes que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie.Finalmente appareceu um objecto, cujaexhibição(perdôem o anglicismo) foi acompanhada com um commentario burlesco do pregoeiro, e acolhida por uma gargalhada da assembléa.Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. Mas que bolsa, senhores! Era necessaria toda a cortezia do pregoeiro para conservar esse nome a um objecto que já não tinha fórma! Era uma bolsa de cabellos brancos! Rota, esburacada, sem côr definida e em cujas borlas o oiro brilhava... pela sua ausencia! O pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam uma observação que redobrava as gargalhadas.Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e mostrou-m'a. Foi então que eu a pude vêr bem.Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer d'ella. No meio da alegria geral, que a rodeiava, ella só parecia chorar, e conservar uma triste recordação d'aquella de quem todos se esqueciam! Se a podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se tristementena mão grosseira d'aquelle homem que a estortegava, apertando os seus frageis membrosinhos de seda! E a pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza profunda para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria se pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto no seu corpinho, d'antes tão gentil, a mão destruidora do tempo, parecia sair um gemido.Que profunda impressão me causou o seu aspecto!Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se riam de mim. Pois não tem rasão! Eu acredito que os objectos inanimados, que nos rodeiam, recebem de nós como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre uma pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um aspecto luctuoso? A sala, em que tantas vezes estivemos sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por acaso o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa de existir? Os livros, cuja leitura desperta em nós o enthusiasmo, serão simplesmente mudos reproductores dos pensamentos do escriptor, e não conservarão como que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel affeição que nós consagramos a certos moveis queridos? do pesar que sentimos ao vêrmo-nos obrigados a abandonal-os?Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar o somno, ficam deitados de olhos abertos a contemplar as trevas, e a escutar o silencio, não sentem de repente um indizivel murmurio, e umas inexplicaveis luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão? Como explicam isso? Eu creio firmemente que esse ruido, que se não ouve quando não estamos n'essas circumstancias, é o que produzem as mysteriosas conversaçõesdos espiritos invisiveis que existem escondidos em cada um d'esses moveis, e que alta noite se reunem, para segredarem uns com os outros, e que esse tenue fulgor é resultado do scintillar das pequeninas azas d'esses sylphos subtis.Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso assegurar é que a tal pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia séria no meio de tantos rostos zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me que a livrasse d'aquella triste posição.E o caso é que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes, que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interpôr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre nós ambos, com receio que me d'ésse alguma furia.Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leilão, o nome expressivo depicadores, ou, por abuso de metaphora, detoireiros, ousaram erguer a voz para m'a fazerem pagar mais caro.A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e saí com ella muito ancho, sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a prudencia do que m'a vendêra.E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de me arrepender.IIEra uma noite de maio. Eu estava sentado á meza do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura, que me advertia mudamente da obrigação que eu tinha contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião d'esses monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, boquiaberto, não cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos muros. A penna, debruçando se sobre esse mar tenebroso, contemplava-o com indifferença, preparando-se para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno começar a navegação.Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel.Uma janella aberta?—diz o leitor; porque a não fechava?O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito que estavamos em maio.Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das flôres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os prodigamente no regaço das brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres como as creanças folgazãs que correm na campina com as suas arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! E porque não fecha o leitor os ouvidos quando está escutandouma melodia de Bellini, e os olhos quando está vendo um quadro de Raphael?Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocações do papel, com as agitações da tinta, e com as suggestões da penna. Devo até dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar tudo isso.Fi donc!Um escriptor!Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes a estender a mão para a penna, a baloiçar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da viração uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um enlêvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de seremdilletanti, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso! Não mettendo em linha de conta a lua, que se ria no céo a bandeiras despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente vaidade de contemplar espelhadas nas fontes! Vão lá, com tudo isto, debruçar-se sobre um caderno de papel e escrever!Escrever; mas escrever o quê? Um romance de amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha euna imaginação, sublimes, portentososos, admiraveis, como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vão fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol, e com os raios da lua!E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginação.Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma idéa, e encontrando n'elle mundos de poesia, não digo bem, um chaos de poesia, cujofiat luxeu nunca poderia descobrir.De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira baloiçava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caía desanimado na cadeira.De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuição inexplicavel, comprehendi immediatamente.Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza.Era ella quem me fallava.—Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflicção, e é justo que tenhas a recompensa.Queres escrever? A tua imaginação preguiçosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei a tua imaginação. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina branca: «Memorias d'uma bolsa verde.»Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão vêr os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. Não ha nada que se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. A rasão é muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor... Vamos ao assumpto.III«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão tão delicada. Cinge a fragil seda em suave abraço, enlaça os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho gentil, a quem ha de o amor dar vida.«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha do anjo de meigo sorriso, debruçando-se por cima do hombro da tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus rapidos movimentos?«Gira, gira, os instantes são preciosos, e póde subitamente chegar quem transtorne a surpreza tão cuidadosamente preparada! Gira, gira sem cessar, agulha, agulha subtil.«Que suave serenidade transparece no limpido olhar d'aquella cuja mão febril te dirige! Quando um sorriso anima a graciosa physionomia, contempla-se com enlêvo o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que oslabios entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem esse sorriso mostra a alma, que é mais celestial do que o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol de um affecto suave, cujo brilho não é offuscado por nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o coração, e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da vida.«Porque vem misturar-se, comtudo, uma inquietação febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as feições? Oh! não receieis nada! Essa mesma inquietação é um prazer. Teme não ter completo o presente que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos n'esse dia.«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza inconcebivel!«Está a concluir-se a tarefa. A agulha approxima-se do sitio marcado. Um mate, um mate risonho lá surge no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade. Emfim!«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura. O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do que esta humilde bolsa verde que lhe está dictando essas linhas, senhor mandrião.IVQuando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.—Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.atem fallado até agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admiração, porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é muito para apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea de Isaias. Mas se v. ex.aantes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar na ascensão, quando chegar á velhice, já os leitores, ainda que se mettam no balão de Nadar, não serão capazes de a seguir com a vista n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.ao favor de baixar o vôo á terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores percebam alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando por conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo me parece, está em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu:—Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te poupei o prologo obrigado que precede lá entre vós outros, os homens, a magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma convicção com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e dos Caligulas. Já vês que a rajada vae começar, e que se me excitas mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios,indios e hebreus. Mas voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o eu não ter dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na epocha do meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez paginas, pelo menos. Não o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar não devia dizer nem mais uma palavra.—Oh! por amor de Deus, continue v. ex.acomo quizer; estou prompto a admirar tudo quanto eu não entender, nem v. ex.atambem. Estou esperando.V«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não encontrou nada que a ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera á luz. No movel mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e, beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cór:—«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o coraçãod'aquelle a quem tanto amo. Conserva a impressão dos meus beijos, e, quando elle te approximar do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo trabalhava em te fazercoquette, elegante, para seres digna d'elle. Olha, lê bem no fundo do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que elle te ache a seu gosto, e te faça um bom acolhimento.«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se á minha dona, beijou-a com ternura.—«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!—disse-lhe elle. Foi presente ou compra?—«Agrada-te?—tornou ella, contemplando-o meigamente.—«Acho-a lindissima.—«É tua.—«Minha?—«Tua, sim. Não te lembras que dia é hoje? Completas vinte e dois annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente. Sorria-me sósinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando te désse a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse alegremente:—Ahi tens um presente da tua querida mulher, é para vêres que pensa sempre em ti.—E então agora não mereço um beijo em paga?«E a galante senhora, unindo a acção á palavra, tinha-se pendurado no pescoço de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura.«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e beijando-lhe os cabellos:—«Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor.—«E isso é dito com sinceridade?—perguntou ella, sorrindo, travêssa.—«Não sou eu quem falla, é o coração.—«Sim? Sobre esse coração é que eu quero que esta bolsa ande sempre! Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que ha de lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos que tu julgares mais reconditos. Acceitas?—«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espião, cuja côr me anima já, porque é a côr da esperança. Hei de lhe dar o observatorio mais commodo que o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios não devem ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu coração outra estrella que não seja a tua imagem.—«Não gósto da comparação; as estrellas são sempre offuscadas umas pelas outras.—«Mesmo quando essa estrella se chamaVenus?—«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer outra, succede o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, pela manhã o sol.—«Não, minha querida, não succederá assim comtigo. Sempre viva, sempre pura a tua imagem resplandecerá no meu peito. É isto o que a tua bolsa te ha de dizer constantemente.—«Querido Eduardo!—«Querida Camilla!—«Amo-te!—«Adoro-te!«E foi assim que eu passei das mãos da loira Camilla para as mãos do moreno Eduardo.VI«Não tive rasão de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando saía occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia eu, sentindo pulsar o coração de Eduardo, regalando-me, porque estavamos no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas das minhas irmãs estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me collocava em cima do balcão; como todos olhavam cubiçosamente para as minhas fórmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda.«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um empregado publico, a quem o acaso collocára junto de mim. Era uma bolsinha de lã, tão magra, tão magra, tão escorrida que mettia dó. Uns pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam tristemente, aborrecidos da sua solidão. A pobre bolsa olhou para mim com uma certa inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja cumprimentou-merespeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha. Ella não ousou protestar, e pôz-se de parte, esperando que eu me dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas humilhações!«E o caso é que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos á minha gentileza, á formosura da minha côr! E Eduardo julgava egualmente que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das humilhações, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido ás libras que eu abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia simplesmente á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo o homem se adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O «eu» é o idolo constante da humanidade. O egoismo é o seu unico motor.»E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro.«Á noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda secretária de pau rosa, e alli ficava até pela manhã tagarellando com umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce pratica voavam para mim as lentas horas da noite.«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o que vulgarmente se chama uma cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as melhores intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar á noite em cima da meza, em vez de me conduzir á minha deliciosa alcova da secretária.«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do balcão. Não posso explicar a impressão dolorosa que senti quando o vi desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim, nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e já me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando á porta, mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente, correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio.«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.

Co'a vossa santa colera,raio que fere e brilha,ao impio que se humilhanão fulmineis, Senhor!N'este meu seio embebe-sea vossa frecha ardente,e a mão omnipotenteme opprime em seu furor.Da vossa ira o halitoseccou-me membro a membro,e ai! se então me lembrodo meu longo peccar,de como olvidei, réprobo,santos dictames vossos,oh! sinto até meus ossosum frémito agitar!O fardo immenso e horridoda minha iniquidade,á voz da Divindade,a fronte me curvou.Da minha carne as ulcerascorrompe-as a lembrançada impia atroz folgança,que a Deus me arrebatou.

Co'a vossa santa colera,raio que fere e brilha,ao impio que se humilhanão fulmineis, Senhor!

N'este meu seio embebe-sea vossa frecha ardente,e a mão omnipotenteme opprime em seu furor.

Si je vous le disais pourtant que je vous aime,Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?


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