Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Nov. 2007)COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRAM. PINHEIRO CHAGASA LENDA DA MEIA-NOITE2.ª ediçãoLISBOAParceria A. M. PEREIRA—Livraria editoraRua Augusta, 50, 52 e 541906LISBOAOfficinas typographica e de encadernaçãomovidas a vaporRua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º1906A LENDA DA MEIA-NOITEN'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa, n'essa montanha vestida de verdura, onde se recosta Alpedrinha, e que domina o verdejante valle do Fundão, ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas fazer os seus ninhos, se descortina a extensa paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e outras villas e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o verde do arvoredo, e que tem como panno de fundo a imponente massa da serra da Estrella, coroada com as suas neves eternas.A casa não tem formosuras architectonicas, nem aspecto de palacio; é apenas um edificio vasto, cercado de dependencias rusticas, tendo defronte do portão as cavallariças, casas de habitação dos criados, etc., que, desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro que dá ao edificio campestre uma especie de pateo deentrada. A parte mais caracteristica da residencia é a extensa varanda de madeira, tão usada na provincia, onde nas tardes de estio se respira a viração da serra, onde nas manhãs de inverno se toma alegremente a restea do sol.Fica isolada a habitação que a largos traços descrevemos. Pegada com a fachada principal está o muro, onde se abre o portão da quinta. Esta é assombreada pelo magnifico arvoredo, que viça, com incrivel vigor, n'esse torrão privilegiado conhecido na provincia pelo nome de cova da Beira. Para um lado a pouca distancia fica Alpedrinha, a pittoresca villa com as suas casas penduradas entre verduras da encosta da montanha, para outro lado a estrada desce até ao Fundão. Por toda a parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo das serras, os rumores mysteriosos das solidões. É encantadora a situação d'aquelle formoso eremiterio.No outono e no inverno a paisagem toma uns tons mais carregados e lugubres. A montanha assume um certo ar de grandeza. Nos soutos espessos dos castanheiros passa o furacão silvando com furia; a trovoada vae-se repercutindo de echo em echo pelas concavidades dos valles, e os relampagos illuminam, com a sua luz sinistra, o arvoredo que se estorce nos braços doidos do vendaval. Nos amplos salões d'esses edificios isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos, e o vento, fazendo ranger os pilares da varanda, entôa a musica triste das lendas populares.É exactamente no outono que nós conduzimos o leitor á casa da Fragosa, como por lá se chama ao sitio em que ella fica. Os viscondes da Fragosa, que alli moram, tinham convidado alguns amigos seus para iremcaçar nas suas terras, de fórma que estavam reunidas bastantes pessoas no grande salão da residencia, junto da brazeira, no momento em que convidamos o leitor para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do lume.É já noite; a tarde estivera sobre-maneira ventosa e fria, de fórma que os convidados, reunidos na varanda, para assistirem a um d'esses esplendidos occasos do sol, que são tão frequentes no outono, tiveram que retirar e fechar-se em casa, deixando o vento gemer lá fóra, estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira, e, esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma palestra tão animada, como se se estivesse n'uma sala de Lisboa, a dois passos do Theatro Italiano, e sentindo-se, a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.O salão era vasto e simples, mobilado á antiga. Nas paredes alguns velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras, de pés torneados, forradas de coiro lavrado, dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau santo, ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse canto, onde se agrupavam a familia e os convidados, havia uma profusa illuminação. O resto da sala ficava perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse fundo escuro os criados que vinham fazer algum serviço. O toque da campainha não parecia que os chamava, parecia que os evocava. Saíam de subito da penumbra, como se surgissem do chão. O aspecto da casa era, portanto, o mais legendario que podia imaginar-se.A conversação prolongára-se ainda depois do chá! Um medico, que residia em Alpedrinha, para onde viera, não exercer a clinica, mas tratar da sua propria saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homemde espirito fino e amavel, fôra quem sustentáraprincipalmentea palestra, ajudado por um sr. Lucio Valença, escriptor de certa aura, e caçador intrepido, e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica, alegre e desembaraçada, que, apesar de ter vivido sempre em Castello-Branco, e de ter ido apenas uma ou duas vezes a Lisboa, não tinha nenhum dos acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.A pouco e pouco, porém, esmorecera a conversação: pausas cada vez mais amiudadas cortavam a palestra, e o medico já tirára o relogio para vêr se não íam sendo horas de retirada. Mas o visconde da Fragosa estava agarrado, com o commendador Madureira, e alguns visinhos de campo, a um impertinenteboston, e em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a tocar a recolher.N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do vento na serra, e os seus gemidos e silvos nos corredores da casa.—Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito uma joven senhora, de notavel formosura, extraordinariamente pallida, mas com umas opulentas tranças negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados, que lhe illuminavam com estranho fulgor o rosto de alabastro. O vento geme com uns sons tão lugubres, que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas. É uma noite de lenda allemã!—Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva, a trovoada, a neve e muitos outros accessorios germanicos. O vento só não basta.—V. ex.agosta de lendas, sr.aD. Isaura? perguntou inclinando-se para ella um elegante moço do Fundão,em quem pareciam ter produzido uma impressão profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha do commendador Madureira.—Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina. Ah! de certo, adoro-as, mas gosto de as lêr em Lisboa, no meu gabinete e á luz do sol.—Semmise-en-scenenão prestam, observou com toda a gravidade o doutor Macedo.—A que chamamise-en-scene, doutor? perguntou Isaura.—O Lucio que lh'o explique, minha senhora; não quero invadir os seus dominios.—Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, não é difficil de adivinhar. O doutor entende que as lendas devem ser lidas e apreciadas á noite, no meio do silencio geral, quando se está sósinho, n'um velho castello de Anna Radcliffe, cheio de alçapões e de subterraneos, quando o vento geme lugubremente nos corredores, e faz oscillar a luz da vela que illumina a nossa solitaria vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo, em vez de estar n'um castiçal, e que haja um cemiterio por baixo da janella.—Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a mesma imperturbavel gravidade, quero dizer... não julgo indispensaveis esses accessorios, mas não posso negar que augmentavam de um modo notabilissimo o effeito phantastico da narrativa legendaria.—Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me morrer de susto com essas historias pavorosas. Hoje com toda a certeza não durmo. Que idéa! É necessario que não tenham a minima dóse de sensibilidade paraassim estarem zombeteando a respeito de coisas, que me produziriam uma impressão tamanha, que os meus nervos de certo não resistiriam. Estou já toda tremula!—Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo, as lendas são como os ananazes. Ha os nascidos ao ar livre, na sua terra propria, e ha-os desabrochados artificialmente com o calor da estufa. N'um velho solar provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores, n'uma noite de inverno sulcada de relampagos, nasce a lenda tão naturalmente como o ananaz no Brazil. N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de macios sophás, entre os rumores meridianos da rua, a luz clara e alegre do sol, a lenda não póde ter mais sabor do que um ananaz de estufa.—Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo isso perfeitamente, e bem sei que o phantastico só póde produzir toda a impressão de que é susceptivel no scenario que o doutor descreve: mas é que levado a esse ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto effeito. Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou ella, eu adoro o ideal, mas o ideal póde tambem partir as cordas da minha alma.—Tomo o partido de Isaura, disse não sem alguma ironia a filha dos viscondes de Fragosa, linda menina de cabellos castanhos claros e olhos azues, de um azul tão vivo que produziam ás vezes a sensação de olhos negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da aza negra do corvo; tomo o partido de Isaura. Os senhores estão fallando ahi como creaturas vulgares incapazes de sentirem profundamente as grandes commoções. Para as almas privilegiadas os grandes prazeres da imaginação muitas vezes são tambem o martyrio.São as Ophelias, as Marias de Noronha, as creaturas ideaes cujos corpos são apenas, como o da irmã do bispo Myriel nosMisérables, de Victor Hugo, pretextos para conservarem no mundo almas de anjos.—E cuidas que não ha na terra esses entes, cujas expressões mais sublimes foram encontradas por tres grandes poetas que acabas de citar, Garrett, Shakespeare e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta de Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu idolo não comprehendêra.—Não cuido tal, Henrique. A prova de que os ha é que Isaura é um d'esses entes.—Por quem és, Leonor... acudiu Isaura com uns certos ares de modestia, que ainda mais desesperaram o seu apaixonado.—É assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que se partiriam as cordas da tua alma, se quizesses lêr á noite n'um quarto de uma velha casa provinciana uma historia de phantasmas. Morrias se te achasses sósinha á noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque tens a imaginação exaltada, a sensibilidade nervosa das Ophelias e das Marias de Noronha!—E não admirava, acudiu Henrique Osorio que assim se chamava o moço do Fundão, não admirava, sr.aD. Isaura, que v. ex.ativesse medo de estar sósinha n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter a imaginação calma, o prosaico bom senso, a fria intrepidez de Leonor. A marqueza da Lusacia, de que falla Victor Hugo n'um dos seus poemas, preferia perder a soberania do seu marquezado a ir passar a noite sósinha, como o ordenava o costume tradicional, no castello de seus avós...—Logo encontrou quem a acompanhasse, interrompeu Leonor ironicamente.—E não seria só ella.—Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou qual amargura, se quizeres passar alguma noite n'um castello legendario, como a marqueza da Lusacia, já tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite, e que te cante:Si tu veux, faisons un rêve,Montons sur deux palefrois,Tu m'emmènes, je t'enlève.L'oiseau chante dans les bois.Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que em torno d'ella se travava; Henrique Osorio calou-se. Leonor, um pouco arrependida de ter mostrado um tal ou qual azedume, voltou-se para sua mãe que resonava recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas palavras em voz baixa, convidando-a a que lembrasse a seu pae que eram horas de pôr um termo aoboston. O doutor levára a mão aos labios para cumprimir um bocejo, e Lucio Valença, sorrindo-se, contemplava a esplendida formosura de Isaura, e êsses olhos que Deus fizera tão formosos, e que não reflectiam comtudo senão as preoccupações pueris da mulher da moda, e da lisbonense frivola.No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com mais força, para depois gemer com mais tristeza, parecendo que se estabelecia um dialogo entre os espiritos atmosphericos, e que aos rugidos ameaçadores de um demonio respondiam as queixas plangentes de um ente fraco e debil.De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma badalada no sino de S. Martinho de Alpedrinha.O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas azas as lugubres vibrações do bronze.Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres... doze badaladas.—Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando o silencio em que todos estavam, porque todos tinham estado contando as horas.Mas a voz do doutor tambem tomára involuntariamente como que uma sinistra entoação.D. Isaura soltou um grito.—Jesus! disse ella.—Que tem, minha senhora? perguntou Henrique sollicito e afflicto.—Meu Deus! exclamou Isaura, é que me aterraram com as suas loucas historias, é que me puzeram n'um estado incrivel de sobre-excitação nervosa. Meia-noite! vê? Meia-noite é a hora dos phantasmas, é a hora das apparições! E esta sala é tão lugubre, e este silencio é tão agoireiro!—Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente, v. ex.asuppõe por acaso que nós sejamos phantasmas, e que estejamos quasi a dissipar-nos em fumo como quaesquer entes mal-creados do mundo sobrenatural? V. ex.aestá no meio d'um batalhão de gente viva capaz de affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe, tres conventos de Lewis, reforçados ainda pelos mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.—Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a esta hora ainda a p —Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a esta hora ainda a pé...—V. ex.adeita-se mais cedo em Lisboa? perguntou o doutor.—Não, mas...—Mas é que a meia-noite só aterra os que lhe dão ímportancia. É uma hora covarde e manhosa, que, se vê a alegria do baile, as salas illuminadas, as danças caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente como outra hora qualquer, até com mais risos e mais alegrias, accendendo mais o fogo das walsas, cumprimentando para todos os lados amavelmente. Se vê o estudioso debruçado sobre os livros, indifferente e sereno, entra timidamente, nos bicos dos pés, e abafa até as suas proprias vibrações; se encontra n'um serão de familia a conversação alegre, o bule de chá em cima da mesa, as cartas dobostonpara um lado, um livro para outro, bate á porta discretamente, e annuncia que é tempo de se recolher cada qual para o seu leito. Ora agora, se encontra gente que espera com susto, que está prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira badalada que a annuncia, então eil-a que toma uns ares pavorosos, engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha em torno de si o terror e o assombro. Fóra com semelhante fanfarrão! É necessario darmos-lhe uma lição mestra! Peço a palavra para um requerimento.—Hein? disse lá da mesa do jogo o visconde da Fragosa, que aspirava á deputação.—Está concedida, visconde? disse o doutor, rindo.—Mas que diz você? tornou o visconde muito espantado dos risos com que os interlocutores do Macedo acolhiam a sua idéa.—Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os effeitos seja abolida a meia-noite.—Approvado por unanimidade e mais um que é o visconde, tornou, rindo, Lucio Valença. Agora queira o sr. deputado apresentar uma proposta indicando o modo pratico de se levar a effeito essa medida importante.—Proponho, tornou o doutor com gravidade comica, que de ámanhã em diante affrontemos a meia-noite rosto a rosto, e lhe torçamos o pescoço.—Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram Lucio e Leonor.—O meio é o seguinte: O mau tempo ameaça prolongar-se, e nós ou não podemos caçar, ou não podemos prolongar a caça por todo o dia, sob pena de estoirarmos ahi de frio por essa serra. Portanto á noite estamos frescos e descançados, e podemos protrahir o serão. Proponho que organisemos umDecameronpara zombarmos da meia-noite, como os narradores de Bocaccio zombaram da peste de Florença. Cada um de nós, que se sentir para isso com forças, se compromette a compôr uma historia phantastica, uma lenda, um conto maravilhoso que será lido aqui ao bater da meia-noite. D'essa fórma affrontamos face a face a terrivel inimiga do repouso da sr.aD. Isaura, e, se ella ainda ousar fazer uso dos seus sortilegios, comnosco se ha de haver!—Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura, que soltou um grito, exclamando:—Isso é horrivel!—Não, minha senhora, é uma receita, é um remedio heroico, é um banho russo. Vou-lhe combater os seus nervos.—Mate-me, doutor!—Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite!Verá como depressa a moda acceita a minha idéa. D'aqui a pouco tempo não se falla em Lisboa n'outra coisa, e alenda da meia-noiteserá o anti-espasmodico mais empregado.A idéa de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco tempo se não fallaria n'outra coisa foi o que decidiu D. Isaura. Ao mesmo tempo terminára a partida do voltarete, e um dos jogadores, homem já de cabellos grisalhos, vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou alegremente:—Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo para uma montaria aos lobos, vamos a vêr se tambem presto para uma montaria á meia-noite.—É acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares. Eu já o conheço como robusto campeão, e assento-lhe praça com enthusiasmo. Agora cabe-me designar o serviço. Henrique Osorio, você é quem rompe o fogo.Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente olhar á pallida Isaura.—Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o relogio. Saudemos, meus senhores, a ultima meia-noite que passa, e vamo-nos deitar. Todos se riram, e um borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores da habitação. Ainda por algum tempo se sentiu o rumor de portas que se abriam e fechavam, de passos que se perdiam ao longe, de vozes que se despediam. Depois caiu tudo em silencio, e só se pôde ouvir o vento que continuou toda a noite a gemer lugubremente as suas monotonas queixas.A previsão do doutor realisou-se. O tempo continuou mau, e aggravou-se ainda com a chuva que principiava a cair em torrentes. A noite seguinte passou-se alegremente. Quando, porém, um relogio de parede, que fôra posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda mais pallida do que era, e houve no auditorio uns taes ou quaes signaes de commoção.—A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente. Firmeza, companheiros! Do alto d'aquelle relogio trinta minutos vos contemplam.Houve de novoentrain, risos e enthusiasmo. N'isto o sino de S. Martinho deu a primeira badalada da meia-noite. Soava ainda mais lugubremente do que na vespera. Solta no meio dos loucos rumores do vendaval, a vibração do bronze parecia uma nota perdida de agonia e de desespero.—Henrique! disse o doutor. Vamos! Estás um pouco pallido? É a commoção do auctor e não a da meia-noite, juro-o aos deuses immortaes. Vá! inflexão lugubre, voz cavernosa, gesto sombrio!Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da attenção geral, leu o seguinte:JULIETACONTO PHANTASTICOIEram onze horas da noite, e estava-se tomando chá em casa do meu amigo Frederico B * * *, em Bemfica. Havia uma roda d'intimos; a conversa estava animada e o meu amigo, a quem a alegria e oentraindos convidados deixavam mais liberdade no cumprimento dos seus deveres de dono da casa, aproveitava-se d'isso para contemplar extasiado sua linda mulher, com quem casára havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria tambem com a meiguice e ternura da mulher que ama devéras.A conversa animára-se tanto, que se ia transformando em algazarra.Discutia-se acaloradamente a questão da existencia das almas do outro mundo, com grande desprazer d'um jornalista que por força queria conduzir ao bom caminhoaquelles discutidores extraviados, propondo que se tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte essas tolices, que não serviam para nada. Mas ninguem lhe prestava attenção, o que fez com que elle desesperado fosse lêr pela centesima vez um artigo seu publicado n'um jornal que estava em cima de uma das mezas da sala. Essa producção do seu engenho, que o jornalista relia com tanto enthusiasmo merecia indubitavelmente tão paterna sollicitude, porque elle e o revisor da imprensa tinham sido os seus unicos leitores. Mas o auctor tantas vezes o tinha lido, e tal admiração professava pelo seu proprio talento, que podéra dizer, sem receio de ser taxado de mentiroso—«que o seu artigo tinha feito tal impressão, que lhe constava ter havido uma pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo crescente, honra de que se podiam gabar poucos artigos politicos da imprensa portugueza.»—Concluamos, bradava entretanto um medico materialista por dever de profissão, onde collocam os senhores esse agente mysterioso a que dão o nome de espirito, teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo material, que a morte paralysa? Quando esse relojoeiro sombrio, que se chama tempo, quebra com mão despiedosa as rodas complicadas do nosso systema vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel a que os senhores espiritualistas querem dar as redeas do governo d'este barro quebradiço, que constitue o homem? E durante a vida quaes são os laços invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo material e fragil á alma etherea e immortal? Tremendo absurdo, utopia talvez respeitavel, sublime tolice pela qual se tem sacrificado innumeras gerações! Ah! massobretudo, é doido devéras quem imagina que essa invenção impossivel, resultado das aspirações da humanidade para a existencia eterna, possa vir aos cemiterios animar os restos putrefactos dos reis da creação; quem tal suppõe, não sentiu nunca debaixo do escalpello anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem póde avaliar com a vista infallivel da sciencia o nada immenso das vaidades humanas!—Fóra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta; sabes tu, meu caro doutor, que a primeira vaidade humana cujo nada immenso tu devias avaliar, é a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumpçoso Hippocrates, que tens de recuar vencido perante o primeiro obstaculosinho, que a natureza caprichosa queira oppôr á vista infallivel, como tu dizes, do saber dos homens? E és tu que andas perdido no meio da confusão dos systemas medicos a procurar no labyrintho scientifico o fio conductor que te está sempre a escapar das mãos, és tu que pretendes entrar com passo firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera, continuou elle vendo entrar um mancebo muito pallido, que foi apertar a mão de Frederico, e comprimentar a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi tens tu um homem vivo, que teve relações directas com um phantasma.—Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente a historia do teu espectro, se v. ex.asnão se oppõem a isso ainda assim, continuou elle, voltando-se para as senhoras presentes, que tinham escutado a discussão metaphysica, com ligeiros signaes de aborrecimento.Propôr a senhoras uma historia de phantasmas édespertar-lhes a attenção, é fazer-lhes passar nas veias o estremecimento do enthusiasmo. Não sei porque, esses entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos negros ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos encantadores e timidos adoram tudo o que os faz tremer, e recreiam-se sobre tudo com essas historias terriveis, em que o leitor estupefacto encontra um punhal ao voltar de cada pagina, um ladrão á esquina de cada periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a proposta com enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, que estavam presentes, não desagradou a idéa de ouvir uma historia terrivel, empetit comité, no pino da meia noite, tendo de voltar depois para casa por aquelles caminhos desertos dos arredores de Lisboa; a mim sobretudo, que tinha de passar pelas casas arruinadas de Campolide, sorria a idéa de ir com a imaginação povoada de phantasmas, que poderia distribuir á vontade pelos recantos d'essa paisagem tão magestosa, quando a lua envolve os paredões solitarios na branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se desenha sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil grandioso do aqueducto sombrio.Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e começou pouco mais ou menos n'estes termo Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e começou pouco mais ou menos n'estes termos:II«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez oBaile de mascaras. Era uma noite de delirio no theatro de S. Carlos. Franschini, o cantor sublime, fazia tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz portentosa de madame Lotti despenhava sobre o publico palpitante torrentes de melodia e de sentimento. O personagem de Amelia, interpretado como então o foi, deixava de ser um typo creado pela imaginação do poeta para se transformar, animado pelo Prometheo do genio, n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em suspiros de harmonia, iam arrancar os soluços dos peitos dos espectadores.Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias, mas da paixão verdadeira, da paixão que geme e rasga os seios da alma, da paixão que verte lagrimas, de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa paixão ficticia, cuja expressão convencional anima só a mascara, que a artista desafivella apenas desce o panno.Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto sempre quando vou ao theatro lyrico. N'isso devo confessar-lhes que tenho idéas um pouco originaes. O panno, que sóbe lentamente no principio da opera, descerra para os outros espectadores meia duzia de taboas rodeadas por bastidores de lona, onde uns poucos de artistas vão cantar umas poucas de arias para divertimento do publico. Para mim é como que uma janella encantada que se abre por onde eu me arrojo para os espaços azues do ideal. Os outros analysam com toda a paciencia a instrumentação e o canto, investigam se foramexecutadas as leis do contraponto, e depois de satisfeitos applaudem compassadamente para não rasgarem as luvas, voltam-se bocejando, e comprimentam a senhora condessa de * * *, ou a senhora baroneza de * * *, cuja chronica escandalosa vão contar immediatamente ao seu visinho da esquerda.Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do enthusiasmo, não póde ficar na terra, quando sente passar no espaço o sopro da harmonia, da casta filha do céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores, desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo do ideal, a minha alma sente, enleva-se, palpita, geme, pranteia, soluça com Macbeth o grito do remorso, suspira com Desdémona a canção da saudade, gorgeia com Helena o hymno da desposada, escuta com Rosina a meiga serenata, sólta com Lucrecia o rugido da envenenadora, e volta depois á terra, deixando-me ficar pallido, extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante claridade de um mundo desconhecido.Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de um vago terror a scena lugubre do principio. As notas da aria de Amelia soavam-me aos ouvidos como dobres de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de pavor, que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo estremecer os espectadores, eu levantei-me pallido, convulso, e senti correr-me pela raiz dos cabellos o halito de fogo de uma mysteriosa commoção.O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, deixei cahir a cabeça entre as mãos, e scismei.—Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver a longos tragos o teu nectar precioso na cinzelada taça da phantasia?«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das azas de ouro, quando poderá a minha alma, abraçando-se comtigo nas regiões celestes, aspirar a plenos pulmões a balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente mysterioso, que assim bafejas oespiritodos grandes poetas, e lhes vaes murmurar, em noites de inspiração, os segredos sublimes que o vulgo profano admira, mas não comprehende?«Oh! quaes serão as visões d'estes homens portentosos, e nas suas noites de febre, de delirio e de insomnia, em que mysticos amores te enlaças tu com elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E emtanto nós, os desherdados, bebemos com um riso alvar a agua insipida e lodosa dos prazeres do mundo, e caminhamos n'esta planicie monotona da vida, olhando com terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados da divina aureola, os harmoniosos prophetas, os validos da inspiração!«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da vida social; a prosa d'este mundo opprime-me o coração. A minha alma está sequiosa de amor, e este apparece-me sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, ou a mascara odiosa do capricho sensual. Amor! amor! mas um amor como o teu, ó casta e pura Amelia, como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e da sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se elle não se encontra na terra, surge dos tumulos, ó pallida virgem por quem eu anhelo, e mostra-me ao menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da eternidade!»N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos involuntariamentefixaram-se n'um camarote, que ficava pouco distante do logar que eu occupava na platéa. Uma senhora de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse camarote, e encarava-me com uma attenção extraordinaria. Não sei porque gelou-se-me o sangue nas veias, e fiquei extatico a contemplar aquella esplendida formosura.Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A correcção das linhas, a pureza dos contornos, a magestade do perfil deixavam na sombra os mais perfeitos modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria desesperado as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado contemplar as inflexões suaves, a perfeição das fórmas d'aquella viva esculptura.Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez marmorea da physionomia. Via-se que nem tristezas nem alegrias seriam capazes de alterar a regularidade do semblante, que só parecia ter vida nos olhos, que eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios magneticos e deslumbrantes, que enlouqueciam quem se atrevesse a encaral-os. Aquelle rosto assemelhava-se a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um fragmento de gêlo dourado levemente pelos reflexos de um vulcão, mas essa physionomia tinha um não sei que de mysterioso e sombrio, que me impressionou profundamente.Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no mostrador meia-noite em ponto.No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas, e repetiam rindo o estribilho:Ah! chè baccano-sul caso stranoAndrà dimani per la città!IIISem poder explicar a mim mesmo a fascinação irresistivel, que me impellia tão imperiosamente á contemplação d'aquelle formoso semblante, nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com uma meiguice de enlouquecer.Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer realçar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto na simplicidade.Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem poderia ser? Tão nova, tão formosa, e só! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido véo da innocencia? Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas venaes.Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse escondida na sombra do camarote; talvez tivesse saído. Tudo podia ser, mas a suspeita é que não podia manchar nem por momentos a luz serena d'aquelle rosto angelical.E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação estranha se operava em mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco até se reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes,o palco e a platéa confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas.E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar tão triste:—Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo material, ó doido, que aspiras ao infinito sem pensares que tens os pés embaraçados na immunda vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não queiras conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um só minuto com os labios na taça inebriante dos amores da eternidade!—Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinação febril, se em troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante só aos espaços infinítos das sublimes commoções! A minha alma é como a aguia, que se arroja ás regiões das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim a morte, a condemnação eterna, se podér sorver nos teus labios voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o poema sublime do amor, que eu phantasio?A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos:Pieno d'amorMi balza il cor;Ma pur discretoSerba il segreto.E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a mesma confissão inebriante:Pieno d'amorMi balza il cor.IVTinha acabado a opera. Levantei-me e saí.Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para o camarote fatal. A pessoa que o occupára durante a noite produzira em mim uma impressão tal que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella ía tomando sobre o meu pobre coração.Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia só!Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lançou um d'esses olhares que endoidecem o homem de rasão mais fria, que lançam no inferno o mais virtuoso santo do paraizo.Não tive forças para luctar contra a fascinação irresistivel d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de José Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor, debalde oppunha toda a força da sua vontade e do seu odio á tenacidade diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da sua devoção, com todo o vigor da sua alma virginal áquelle poder incomprehensivel, mas horrendamenteverdadeiro; tinha de recuar diante d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, até caír oppressa e desesperada aos pés de José Balsamo. Então esse corpo quebrado pela resistencia, reclinava-se nos braços da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar: «Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar: «Adoro-te».Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não quero, não quero ceder a esse imperio inexplicavel.» E minutos depois, surprehendia-me a seguil-a apressadamente pelas ruas de Lisboa.Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a acreditar em forças sobrenaturaes que nos attrahem e nos repellem, é quando a nossa vontade se aniquila, e quando as leis da nossa organisação são violentamente revogadas por um despotismo estranho.Submetto esta reflexão á consideração dos illustres materialistas que me escutam!VA desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar de todos os meus protestos me surprehendi a seguir a senhora de negro, foi a desculpa da curiosidade.Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente baforadas de fumo do charuto que acabára de accender no momento em que passou por diante de mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? Encontro uma linda mulher em S. Carlos, linda como poucas, e original a mais não poder ser. Vejo-a no camarote sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a pé, e aindasó. Não tenho nada que fazer, e por conseguinte sigo-a. É naturalismo.E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:—É o brilho da chamma tentadora, ó doida borboleta, é o olhar fascinador da serpente, ó ave descuidosa.—Ora adeus, respondia a voz da minha apparente philosophia, prejuizo, superstição, fanatismo, como dizia o tenente Boutraix de um dos romances de Carlos Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço.A senhora que eu seguia caminhava lentamente a quinze passos adiante de mim, quando muito. Passava ella então defronte da egreja dos Martyres. Puz o chapéu ao lado com modos conquistadores, colloquei o charuto ao canto da bocca, e accelerei o passo.Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por fórma alguma o seu andamento, não diminuia, pelo menos sensivelmente, a distancia que nos separava. O vulto elegante da senhora de negro, ao passar por diante dos candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza de fórmas, em toda a magestade do seu porte airoso. Havia uma suprema distincção no seu modo de andar, mas apesar d'isso havia um não sei quê de mysterioso n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia uma impressão pouco agradavel.Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou para baixo; eu segui-a.A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo o numero das pessoas que caminhavam para aquelles sitios, saindo, como nós, de S. Carlos, eu tomei uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes passadas para apanhar finalmente aquella mulher que mefugia incessantemente como esse caçador das lendas do norte, que foge sempre, sem perder um palmo de terreno, mas sem poder tambem desapparecer, á sua matilha infernal.Nem assim pude diminuir a distancia que me separava d'esse vulto extraordinario.E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado. Despi, sem affrouxar o passo, o paletot que me incommodava, e pul-o aos hombros.Depois dei a andar com dobrada rapidez.A senhora de negro caminhou pelo Rocio na direcção do Passeio.Chegámos ao largo de Camões.Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava entre nós.E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma torrente de fogo a inundar-me o cerebro, e a rasão a abandonar-me.A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me sinistro devéras o aspecto d'essa massa do Passeio Publico, envolto n'um manto de trevas.A quinze passos adiante de mim caminhava sempre elegante e distincto o vulto negro da minha gentil desconhecida.Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr, atraz d'ella. A bulha da corrida produzia um somlugubre, e fazia-me estremecer de vez em quando. O suor escorria-me em fio pela cara abaixo.Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na calçada do Salitre, chegámos á esquina da travessa do Moreira, e eu não conquistára um palmo de terreno.E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e eu parei. Sentia o coração palpitar-me com violencia, e... tive medo, confesso o.Era tão extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco desculpavel.Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua tão deserta.Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz melodiosissima:—Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta janella.Eu estaquei attonito de surpreza.VIDescrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o sobrenatural.Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outracoisa que não fosse a seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte á meia-noite aorendez-vousaprazado.Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil desconhecida.Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca, e não pude dizer uma palavra que se entendesse.—Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.—Porque a amo.—Sabe quem eu sou?—Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?—E ama-me?—Mais do que a vida!—Só?!Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:—Mais do que Deus!—Não estranha o mysterio em que me envolvo?—Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto éuma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu viver prosaico.—Acceito o seu amor, se essas palavras não oexageram. Não queira penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto creia e espere. Adeus.—Já?—Não me posso demorar nem um minuto.—Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não encontrou echo no seu coração?—Amo-o.—Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?—Immenso... como a eternidade.E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado da estranheza dos seus modos.VIIAssim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites eu tomava a firme resolução de não tornar lá, e sempre as badaladas da meia-noiteme surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella fatal.No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu casamento com uma menina rica, que não desgostava de mim, e por quem eu, não sentindo amor, não sentia tambem antipathia.Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeição fraternal, mas nunca uma paixão a um espirito arrebatado como este meu.Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina não tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa.Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. Não sendo muito guloso, não era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente esta prenda, que a distinguia.Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um dia passei occasionalmente por lá, e vi-a com os olhosvermelhosde chorar. Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da janella.—Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos. Talvez ali esteja um coração! accrescentei eu no monologo mental. Não creio, continuei, o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a no varrer da casa.Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; idéas d'um espirito extravagante que procurou sempre em regiões inaccessiveis a felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado sem eu dar por isso.O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma comedia de Feuillet, que, depois de ter percorrido o mundo em todos os sentidos, fica espantado de encontrar a felicidade sentada ao canto da lareira de uma familia burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.VIIIChamava-se Julieta a heroina do meu romance de amor. Até o nome era de fazer enlouquecer um enthusiasta como eu.Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare circumdou a fronte da pallida italiana, parecia atravez das edades vir doirar com um reflexo luminoso a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.Foi a unica informação a seu respeito que d'ella obtive. Tudo o mais ficava para mim envolvido n'um mysterio que eu não tentava penetrar.Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco e pouco um caracter mais ardente e languido. Palavras de amor entrecortadas, suspiros involuntarios vindo interromper o dialogo, longos silencios durante os quaes eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em quanto via a imagem seductora de Julieta desenhar-se na janella illuminada caprichosamente pelo fulgor da lua, tudo isto despertava em mim uma voluptuosidade deliciosa, mas que me magoava.Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga contemplação da lua e da noite perfumada, eu involuntariamente approximei-me da parede da casa, e ajudando-me com as grades da janella do pavimento das lojas,pude trepar até ao parapeito da janella, e de repente, sem que ella parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, imprimi-lhe nos labios um beijo de fogo.Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.Olhou para mim com olhar meigo e recuou.Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:—Julieta, amo-te!E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. Não podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei sómente que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.—Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o braço á roda do pescoço, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as suas trovas de amores! é tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem!Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.IXEra na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia das espheras.Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete sublime.Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme pretencioso que se chama o homem.E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no espelho da Creação.Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no crystal das fontes!E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol desconhecido que me fallava de amor e de ternura.Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte limpida um resplendor celestial.Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de Julieta.Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com indulgencia!XMas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos de terror, e correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue refluiu ao coração.Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave, sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias.Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas.O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido clarão da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares.O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba a paz dos mortos; por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos cemiterios.É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a sentir-se um vago rumor, que parece o longiquo ruido de um exercito marchando.E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre os tumulos, dando vida ás loisas e voz ao cyprestal.Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na immensidade aquelle som terrivel.E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a testa.Então um côro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente oDies irae, o hymno da colera de Deus.E logo uma longa procissão de phantasmas brancos começou a desfilar por diante de mim n'um silencio aterrador.Depois deram-se as mãos e formaram em torno de mim uma dança de espectros.E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a testa.Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avançou para mim.E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no terreno, e uma força invencivel me domava.O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no fundo do coração.Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a grinalda virginal das rosas brancas.Reconheci as pallidas feições de Julieta, da minha noiva de ha pouco.—Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das sepulturas.O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio serão as danças dos finados o nosso baile nupcial.Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado!E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti que a mão de Julieta me arrastava invencivelmente.Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dosfinados, o mocho soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz tão pallida.E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e um suor gelado me inundava a testa.Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e cahi desmaiado!
Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Nov. 2007)
Rita Farinha (Nov. 2007)
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRAM. PINHEIRO CHAGASA LENDA DA MEIA-NOITE2.ª ediçãoLISBOAParceria A. M. PEREIRA—Livraria editoraRua Augusta, 50, 52 e 541906
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
LISBOAOfficinas typographica e de encadernaçãomovidas a vaporRua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º1906
Si tu veux, faisons un rêve,Montons sur deux palefrois,Tu m'emmènes, je t'enlève.L'oiseau chante dans les bois.
Ah! chè baccano-sul caso stranoAndrà dimani per la città!
Pieno d'amorMi balza il cor;Ma pur discretoSerba il segreto.
Pieno d'amorMi balza il cor.