XI

XIRoberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordação terrivel d'essa noite.—Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia seguinte acordei no meu leito, e que estive sériamente doente. Apenas me restabeleci corri á travessa do Moreira.Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.Julguei que fôra victima de uma allucinação, mas ainda hoje se me representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que não posso admittir a possibilidade d'essa hypothese.D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tensão quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia.A senhora, com quem minha familia me queria vêr casado, desposou um homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima. Tem dois filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes.A minha imaginação desregrada deixou-me isolado no mundo.Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, impressionados por essa lugubre historia. Mas Frederico abraçando sua mulher, e dando-lhe um beijo na testa, disse para Roberto:—As aspirações da alma têm um limite, que não podem ultrapassar. No céo da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia, prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema ventura. É prosaica unicamente para os que a não comprehendem. N'esses amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases do sceptico Musset:Où le vertige prend, où l'air devient le feu,Et l'homme doit mourir où commence le Dieu.Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado romance, applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. Só Isaura bocejava de um modo notavel.Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella, disse-lhe ironicamente:—A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não cura dos terrores, que sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta os phantasmas.—Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua idéa acho-a cada vez peior. Vejam se é admissivelfallar-se aqui em cemiterios á uma hora da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor me prometteu que dormia no meu quarto.—É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.aD. Isaura está illudindo a receita.—Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos cumprem-se assim de um modo feroz. Não vê que eu vou passar a noite com uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve confessar que é necessario ser-se heroina!—É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No seu entender mulher pallida só póde ser mulher desenterrada. Muito agradecida.—Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.—Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo. Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou.—És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de infancia.—É para te ensinar a fazer declarações mais habeis, disse-lhe Leonor tambem ao ouvido. Isaura levantára-se para ir ter com seu pae.—Então o meu romance é uma declaração? tornou Henrique.—O teu romance é uma loucura. Estás engraçado com as tuas idealisações constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas brancas de Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher perder a sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para ser depois desposada por elle em fórma espectral, como noNoivado do Sepulchro, de Soares de Passos...E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:E ao som dos pios do cantor funerio,E á luz da lua de sinistro alvor,Junto ao cruzeiro sepulchral mysterioFoi celebrado de infeliz amor!—Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. Olha que eu não vou sósinha para o quarto.—Ahi vou, querida, ahi vou!E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua amiga.—Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no castiçal para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; então, sr. Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe que é ámanhã a sua vez.—Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, tanto quanto posso. Metti-me em boa, não ha duvida. Já não estou para estas folias. O viver da provincia enferruja. Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim.—Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu preparo uma pateada.Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um charuto, disse para Henrique Osorio:—Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma creança. Anda todo enlevado na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que é uma tola com bonitos olhos, e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma perola, que se fina por você.—Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se córado.—Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça; e quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo. Boas noites.E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um suspiro, saíu da sala.Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram muito menos profundas que na vespera. A noite estava mais socegada; caçára-se pela manhã. Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo, quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos os ouvintes. Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto Soares não era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma attenção tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista aposentado começou a sua leitura.A VISÃO DO PRECIPICIOIO meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Começa por uma tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alçapões, subterraneos, e donzellas perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores!Tenham paciencia os amadores dasNodoas de sanguee dosAmantes infelizes ou as victimas de uma paixão, mas d'esta vez hão de contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles pessoas honestas, não hão de incommodar, em quanto durar o enredo, nem as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas aos acontecimentos tragicos do paiz.Feita estadeclaração, vou introduzir os meus leitores...n'um lagar de azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval açoita rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de invernia.Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas, resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar á luz do raio doidejantes borbotões de espuma, e arrastam na carreira vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel do furacão! N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com todas as galas da vegetação, transforma-se completamente. Parece-nos impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava voluptuosamente sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na sua limpida corrente.A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo da tempestade!São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! São estas as paginas sublimes do livro da creação!Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e lá mais ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruçava curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho crystallino o seu humilde aspecto,e contemplando depois, á socapa as pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valentão das Indias.Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando a quinta só, estão comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de lhes bater á porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de azeite, que não fica muito longe.A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a qual está collocada a caldeira, e onde arde um mólho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e crepitante, tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o lume da fogueira, tão consolador e attrahente em noites de frio e chuva.Entrámos em boa occasião; o lagar está em plena actividade. Os clarões indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui oengenho de aguagira produzindo um som monotono, que, no meio dos rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre os córos dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e, girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida á sua implacavel pressão. Além asvaras, subindo e descendo com toda a regularidade, obrigam a azeitona, já triturada e estendida nasceiras, a distillar o seu oleo precioso. Mas não se resumem n'estes os trabalhos do lagar. Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro que vae acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares se dá o nome detarefa? Trata-se de o purificar; vamos ás abluções. O liquido negro é assaltado repentinamente por um diluvio de agua a ferver, proveniente da caldeira, que opéra adecomposição com toda a rapidez. Peloinferno, communicação subterranea que conduz a um vallo distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original, apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu esplendor.No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe das operações, e supremo dictador n'esta solemne occasião, vigia attentamente as multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. João Moedor (assim chamado por causa das importantes funcções que ali exercia), contempla satisfeito o andamento doengenho de agua, confiado aos seus cuidados.Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da fogueira, alguns camponezes de fóra, que tinham vindo para o «cavaco», e que a tempestade tinha accommettido, os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia aldeã tinha concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro.Os dois lisbonenses merecem uma descripção especial.Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. Alto e elegante, pallido, d'esta pallidez ardente, que é quasi sempre symptoma de uma imaginação exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisação sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande doido, se estas duas idéas não são synonymas, segundo a opinião de muita gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela ardente irradiação das pupillas,acabavam de dar a esta physionomia um cunho original, romantico emfim,tranchons le mont, porque devo confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de romance, apesar de ser tão verdadeiro como... o orçamento portuguez.O companheiro de José Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de José Augusto, revelavam uma organisação em que o espirito predominava, em quel'âmedominavala bête, para me servir da classificação de Xavier de Maistre, a luz fria e sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença do adorador da materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina constituição de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a obesidade das fórmas dava idéa do Sancho Pança de Cervantes, ainda que a alta estatura mostrasse que esta nova edição do governador da Barataria era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua negra cabelleira, indicavam bem as aspirações elevadas de um coração a trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia, mostravam o genio bonacheirão do homem que não pensa senão no modo de conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as reclamações incessantes de um estomago insaciavel.O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, rapaz com alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John Williams, inglezingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dóse de garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o bom inglez deve ser, tinha pedido licença de um mez para acompanhar o seu amigo José Augusto n'uma excursão á Extremadura.No momento em que entrámos, reinava um profundo silencio. Lá fóra os rios, que a chuva fazia ferver em cachão, resaltavam sobre os rochedos com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando, arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra pedindo aos vivos orações. O trovão, ribombando no espaço, dominava, de vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade.Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica mas grandiosa a immensa orchestra do temporal.—Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis, tirando o seu barrete azul, já bastante azeitado, no momento em que um trovão formidavel fazia benzer todos os circumstantes—S. Jeronymo te afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christãs.—Amen, resmungou em côro a companha aldeã.—E temos a chuva pegada, que não ha que esperar senão uma noite de agua. O vento puxa por ella que éum regalo, tornou o mestre-lagareiro, quando o terror produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! meu fidalgo, v. s.aquerer metter-se a caminho por uma noite d'estas é mesmo tentar a Deus!—Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo José Augusto de Albuquerque, sabe você, sr. Manuel dos Reis, que eu gósto de noites assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, as arvores nuas de folhas estenderem-me os braços descarnados, e formarem em torno de mim, guiadas pelo furacão, danças phantasticas e extravagantes, imagino vêr as danças da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e acho prazer n'aquillo. Então que quer?—Arreda!—bradou o João Moedor, coçando a cabeça e fazendo ao mesmo tempo um gesto de susto, sempre v. ex.adiz coisas que fazem arripiar os cabellos á gente. Gostar v. s.ade vêr dançar as aventesmas as suas danças malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemecê ha de saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Açude até ao seu esconderijo infernal.—O phantasma do Açude! O que é isso, o que é isso, ó sr. João?—perguntou José Augusto com a maior curiosidade.—Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis, é este diabo do João Moedor que nãosabe fazer outra coisa senão contar contos da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas com a cabeça a rasão de juros a pensar lá n'essasmaniversias, deixavas ir o azeite peloinfernoabaixo, e nunca eras capaz de pôr oespichoa tempo e a horas. Sempre estás um massador!—E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este João Moedor não faz senão moer a paciencia á gente, tornou um camponez que estava ao pé da porta, encostado com toda a denguice ao seu varapau.Todos se riram docalembourgaldeão, e o sr. João Moedor esteve algum tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba campesina. Finalmente:—Leva rumor!—bradou elle. Com que então, sô Zé do Moinho, acha você que eu môo a paciencia á gente, hein! Você não acredita n'estas coisas, apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e correr por cima das latadas para ir ter com seu compadreBerzabum! E ainda não estou muito certo se não é você, sô cara de não sei que diga, que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse mundo de Christo, como fazia seu avô que foi lobis-homem, segundo diz a gente antiga cá da terra.A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se todos para o sr. Zé do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a um canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado.Sic transit gloria mundi!—Conte lá a historia, ó sr. João, que aqui tem você um ouvinte que não é capaz de duvidar da veracidadedas suas palavras—tornou José Augusto com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feições.—Tem v. s.amuita rasão, meu fidalgo, retrocou o João Moedor com modos de triumpho, e com perdão de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe direi que a historia do phantasma do Açude não é conto da carochinha. Em noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da monda, não é cá o rapaz que se atreve a passar ao pé do Açude, sem se benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para não vêr a melancolica D. Branca. E não é só a mim que isso acontece; o mais pimpão do sitio tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas por aquelle sitio amaldiçoado, a não ser oCome-bichos, que vendeu a alma ao diabo. Deus me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara de condemnado. E conheço eu alguns que se fazem muito valentes quando estão bem acompanhados, e que não eram capazes de passar sósinhos por ao pé do Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da Moirama.Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto para o Zé do Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi abafada pelas acclamações dos restantes, que applaudiram o orador, bradando em côro:—Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas coisas! O João fallou bem. Tem uma linguinha de oiro, este moedor!O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos pela ovação que fizeram ao seuestiradissimo discurso, e que impacientou apenas o Zé do Moinho, que era da opposição, José Augusto de Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que talvez nem esteja para a ouvir.—Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, todos lhe prestamos attenção, e acreditamos em tudo quanto você disser, como os mahometanos na missão do seu propheta.Ninguem comprehendeu a comparação: por conseguinte todos ficaram fazendo uma elevadissima idéa da erudição de José Augusto. João Moedor piscou os olhos, e bradou com enthusiasmo:—Fallou que nem um livro. Pois então já que tanto aperta, lá vae a historia.Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor começou no meio de um silencio solemne a sua narração.Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os oculos, disse para os seus ouvintes:—Não me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. José Augusto, que tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a historia, transfigurou completamente a expressão do narrador da aldeia. Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa elevação.—Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto é o seu Jedediah Cleishbotham, já vêmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes.Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes que tivessem nascido os paes dosnossos bisavós, governavam os moiros a maior parte da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lançada antes que a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas. Cada palmo de terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado por muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por nós, e os esquadrões cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de vencida as hostes aguerridas dos perros amaldiçoados.Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi andam tão orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo portuguez que não envergasse as armas ao sair da infancia, e não luctasse incessante a favor dos opprimidos até cair no campo da batalha amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os ossos d'esses valentes.—O João Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou á parte o Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto!—O que elle é, é um papagaio, murmurou o Zé do Moinho, não faz mais do que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.—N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar na interrupção, viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem ganho muitas cicatrizes,e creado muitos cabellos brancos no seu luctar incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descançar na paz dos seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua existencia inteira. Não porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros já vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordações das suas façanhas d'outr'ora.Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedêra o céo um filho; Raymundo se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo não deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: «Vae, é esse o caminho da gloria»E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae, sentado no salão do castello, contava aos rapazes, anciosos de aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava esperanças de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais gentil mancebo d'estas cercanias. Alto eelegante, se os seus olhos negros quizessem fallar de amor, não havia dama que se não rendesse, nem coração feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados. Mais de uma altiva castellã apparecia na varanda do seu solar para vêr o elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que importavam ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo se tinha o coração já preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistára o affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor?Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande desconsolação tivera elle, vendo-se viuvo em edade avançada, sem ter um filho a quem podesse transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes, ao vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaçando por entre flôres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira, que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir á influencia d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór da freguezia!Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanças. Juntos tinham crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a palavraamorfosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. E era um par galante a mais não poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhosa brilharem de alegria infantil e as loiras tranças fluctuando em ondas doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braços de Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura.Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em que, para não desmentir as gloriosas tradições da sua raça, devia cingir a espada, e ir aos campos de batalha pagar á patria e á santa religião dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que se prezavam de christãos fieis, e portuguezes leaes.No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois namorados no sitio do Açude. É um sitio medonho, como v. s.aha de saber; um pinhal sombrio, que vae terminar á beira de um precipicio, no fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mão occulta arrojava ao céo limpido e azul de um bonito dia de verão. Cada gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e tudo dizia contentamento, quando os corações de Branca e Raymundo sómente sentiam tristeza e desesperação.Branca vinha triste, triste como a rôla namorada quevê fugir para longes terras o escolhido do seu coração, e pallida como a açucena batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e como a alvura da face realçava a côr negra das roupas que vestira em signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura, faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está pendurada na sala do presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro pintado por um italiano chamado Raphael.Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que então existia n'aquelle sitio; porque n'esses tempos de fé viva, a imagem do Crucificado apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as orações dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a oração da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de fé e de innocencia, conduzida pela brisa aos pés do throno do Senhor.Quando se levantou viu Raymundo em pé diante d'ella, de cabeça descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam nos olhos.—Raymundo, disse ella desatando a chorar, eescondendoa cabeça no peito do mancebo, não me deixes!—Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villões, se preso nos teus braços me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e não m'o podias acceitar. A espada de meu pae,que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com deslumbrante fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu solar, em quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da ressurreição dos godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas devo cumpril-o.—E o nosso amor, Raymundo!—balbuciou a donzella, afogada em lagrimas.—Oh! cala-te, Branca, não vês que me despedaças o coração? Queres que eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faça esquecer que existe outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, outro dever que não seja o adorar-te? Não, Branca, não ordenes a minha deshonra; a tua imagem seductora será a estrella que me ha de guiar no caminho da gloria. Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, pensando que o teu sorriso será a recompensa do meu valor, e que será a tua mãosinha branca e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas sanguinolentas?—Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos radiantes, ainda humedecidosdas lagrimasque derramára; quem sabe se n'esses paizes longiquos não encontrarás alguma formosa dama cujos encantos te farão depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes ter gravada no coração? Oh! meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me esquecesses...—Que fazias, Branca?—Morria!—tornou ella com resolução.Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao p Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do crucifixo. Alli, erguendo os olhos para o rosto divinodo Christo crucificado, bradou com voz solemne e altiva:—Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do peccado original, juro guardar-te sempre fé inteira e immutavel, como te juraria se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. És minha esposa diante de Christo. Cáia sobre mim a vingança do céo se atraiçoar o meu juramento.—Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lançando-se com immenso ardor nos braços do mancebo e derramando copiosas lagrimas; tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel constancia, não viver senão com a tua imagem, não pensar senão em ti, meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com inesperada resolução, vae conquistar um nome glorioso; a benção de Deus vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraçados e de joelhos ao pé do throno do Senhor, rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja união foi abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada pelos raios do sol nascente!Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor:—Adeus, minha gentil esposa!—Adeus, meu adorado esposo!Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada aos pés da cruz. O perfume das flôres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a luz pura e serena do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamenteno momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do dia e offuscou-lhe um pouco o brilho.Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem é indicio temeroso de tempestade!II«Passaram-se mezes e mezes—continuou o João; veiu o outono desfolhar as arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a primavera sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio de flôres e verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a podia consolar com outras novas, que não fossem as que, logo pouco depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que voltava das terras do Algarve.Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho de Inigo Paes estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fôra digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim da escaramuça, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que lhe assombreava levemente o labio superior, e a bellezaquasi feminil do mancebo, não queriam acreditar que fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo montante que parecia manejado pelo braço de robusto montanhez.Estas noticias encheram de orgulho o coração paternal do velho guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. As façanhas que enthusiasmavam Inigo Paes, faziam receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um alfange mahometano.Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam, desbotavam até se trocarem nos lyrios que a desesperança ia fazendo brotar nas faces da donzella.E Raymundo? Valente cavalleiro, não ha proezas que absolvam um perjuro, nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da fé, são sufficientes para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio fulminado pela mão do Omnipotente.Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos pés da cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer tão cedo? Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda que enramava a cruz do precipicio, e já o vento da inconstancia fez murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que juráras conservar tão puro e tão sem mancha, como era pura e immaculada a imagem d'aquella que t'o inspirou.Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, a sós com as tuas tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu que, emquanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no espaço com o olhar saudoso do teu gentil campeão, elle, o perfido, o perjuro, o sacrilego, esquece nos braços de outra o teu amor de virgem, o teu modesto encanto, as tuas graças infantís.Durante os primeiros tempos, as meigas recordações do seu amor de creança arderam dentro d'elle tão vivas e tão serenas, como arde viva e serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma tentação má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de um relampago infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida pelo saudoso mancebo, que conservava o coração perfumado de innocencia, como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente a imagem da Mãe do Salvador.

Où le vertige prend, où l'air devient le feu,Et l'homme doit mourir où commence le Dieu.

E ao som dos pios do cantor funerio,E á luz da lua de sinistro alvor,Junto ao cruzeiro sepulchral mysterioFoi celebrado de infeliz amor!


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