—Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a senhora?
—Parece.
—Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me adorassem somente, não lhe parece?
E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.
—Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e resignada, uma adoração..
E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:
Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»
—Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.
—Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei porque. Não core! Olhe que se denuncia.
Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada. O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa que a fazia,—inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.
—Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa. Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a mim,—a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....
A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz que daquella garganta podia sair:
—Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,—ultimo se me não consentir mais falar-lhe nisto;—eu creio que a senhora sonha talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.
Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica resposta:
—Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão bons!
Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a ouvia o seu proprio coração:
—Sonhos, não, realidade pura.
Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da baroneza,—aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas do Gymnasio.
Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza. O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes, se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor. Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo. As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.
Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação.
Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas.
Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras impressões.
Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver nada mais além de Guiomar.
Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era; Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge, naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?
Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,—que aliás tão frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou renascia, naquelle rebelde coração.
Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações, conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o gosto,—ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era a sua dignidade pessoal.
Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.
—Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de sala.
A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva. Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para outra occasião.
O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.
Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas, affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira, ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha impossiveis.
Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não dissesse a poucos passos de distancia:
—Sr. doutor, perdeu alguma cousa?
O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados, sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:
—Não perdi nada, mas achei uma cousa.
—Vejamos o que foi.
E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:
—E se eu tivesse achado outra cousa?
—Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.
Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.
—Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra, mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?
Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.
Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria, aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora de abençoada temeridade.
—Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto, parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.
E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e supplice:
—Attenda-me um só munito!
—Não um, mas dez—respondeu a moça estacando o passo e voltando o rosto para elle—e serão provavelmente os ultimos em que falaremos a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje, concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.
A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de Estevão batia-lhe como nunca,—como o coração costuma bater nas crises de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia, como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue juvenil.
Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.
—Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força é que lhe diga tudo,—feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a que já agora posso aspirar,—o seu remorso.
Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer. Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.
A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da terra a maior de todas as bem aventuranças.
Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.
Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia também commiseração e piedade.
—Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença; vejo que foi tudo illusão.
O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:
—Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?
—Nenhuma.
—Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima apenas, não póde haver outra cousa,—da minha parte ao menos. É pouco, de certo...
—Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.
—Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.
Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem essa já agora se lhe consentia.
—Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter ficado com a alma creança.
—Talvez, respondeu o moço suspirando.
—E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham termo a aspirações impossiveis.
Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.
A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco. A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza franziu a testa:
—Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.
A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca, mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de duas uma,—ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,—ou aquillo era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,—do unico senho da sua velhice.
Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e Estevão,—mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.
A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante. A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no rosto,—tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.
Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh! sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa não se animaria a fazer;—não será preciso declarar ao leitor, dizia eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida; mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.
Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto, as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle proprio.
Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo. Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar a noite,—o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda como a morte.
Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia em plena aurora. Que lhe importava,—ou quem lhe chegara a fazer comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente e do futuro e,—tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições que lh'o enchiam,—tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento, ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; provavelmente havia-o esquecido.
A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi differente do dos outros dias.
Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito tempo, porque chegou dahi a pouco.
A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho interpellou-o directamente:
—Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.
Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz. Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu singellamente:
—Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...
—Porque não?—interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o que me disse Mrs. Oswald?
—É.
—Amas deveras, ou...
—Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...
—Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.
—Justamente; não pode haver melhor titulo.
—Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura. Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso, a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma belleza pouco commum...
—Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge, e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a gravidade de costume.
—Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao amor e á mão de um homem, como tu.
A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias; comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor; procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.
Jorge curvou-se com affectada modestia.
—Um homem, como eu,—disse elle—vale pouco por si mesmo; o valor que tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das santas qualidades que a adornam...
—Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.
—Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.
—Julgas impossivel o casamento?
—Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.
—Duvidosa! Estás certo disso?
Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo, mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia francamente lhe propuzesse alliança.
—Estás certo disso? repetiu a baroneza.
—Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos meus sentimentos.
Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção. Quando elle acabou:
—Guiomar será muito vexada,—disse ella—e ás vezes, e por isso mesmo, tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te, se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o amor de alguem que julgasse levantal-a até si.
—Isso, talvez...
—Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo invencivel.
Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava? Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.
Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe chegado o ensejo de sair daquella paz armada.
Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,» euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente—saleta de conversação entremeada decrochet.Mrs. Oswald vinha com ella; ambas riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,—apertou-a deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.
Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada. Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana convertida ao Evangelho.
Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez. Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.
As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final, transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em casa,—dobrou o metteu-o na algibeira.
De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição Constable, de Edimburgo.
Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.
—Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.
A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de somno.
—Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o livro commigo.
—Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.
E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois; o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de papel.
O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.
Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.
O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do coração.
—Mais um, pensou ella; este porém...
E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.
A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas linhas:
«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia, que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.
«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a, não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.
«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço, ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e consumir.—Jorge.»
Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e continuou o romance.
Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.
Paixão não era,—não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.
Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem por isso achava menos temeraria aquella confissão.
A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.
Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era pena de o não poder amar,—ou ainda melhor—era lastima de que tal coração não fora casado a outro espirito.
Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma as lembranças da terra.
Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu bater de manso á porta.
—Quem é? perguntou.
—Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:
—Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?
—Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,—pelo que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...
—Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento subito.
—Deveras!
—Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.
Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.
—Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.
—De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e obedientes.
—Leia o nome.
Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe apresentava.
—Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...
—Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que costumava falar.
Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e sentou-se perto da moça.
—Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem. Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a quem sou grata. Posso ter feito mal...
—Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a senhora nada tem que ver.
Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e atar, mas a moça seccamente a repelliu:
—Deixe, deixe...
E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs. Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava, rompeu emfim o silencio.
—Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor. Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,—nem lhe peço,—o que eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de ordem...
Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum interesse vil,—pecuniario,—a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a absolvia,—não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise penosa, mas também,—bom é notal-o outra vez,—porque a condição da ingleza naquella casa era relativamente inferior.
A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.
—A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.
Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade habitual. A mudança foi,—não súbita,—mas um pouco mais rapida do que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.
—Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos: sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.
—Oh! decerto!
—Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de irmãos, nada mais.
—Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu tenho pena!
—Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na ingleza.
—Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o que tenho visto, e creio que é muito.
—Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.
A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes termos:
—Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...
Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa. Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:
—A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente, a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter estimavel...
—Oh! excellente! um moço excellente!
E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste modo:
—Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.
—O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?
A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou anciosa a revelação,—se revelação era,—que lhe ia fazer Mrs. Oswald. Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:
—D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se vier, e se viesse seria uma grande fortuna...
—Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.
—Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.
—Como assim? disse Guiomar.
—Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A senhora...
—Está certa disso?
—Certissima.
—Não creio, não vejo nada que...
—Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...
—Fale.
—Pois bem,—continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo daquella casa, que toda dormia,—pois bem, eu lhe direi que por ella mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a minha campanha.»
—Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.
—Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.
Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae toda absorvida em pensamentos intimos.
—Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste mundo.
—De certo, murmurou Guiomar.
Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.
Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,—embora, sem prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavalleiro.
O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle della, que de todo a desmascararia.
—Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...
—Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.
—Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.
E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.
Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo, e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado,—o primeiro que o leitor lhe ouve desde que a conhece—e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão doloridas,—ia dizer tão lacrimosas,—vinham ellas:
—Oh meus sonhos! meus sonhos!
Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle desanimo, menos ainda desespero.
Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era visto.
Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a Stephanoni estrearia noErnani.Esta questão, de que o leitor se ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que oErnaniera seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas maximas.
Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto jardim.
Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu cerebro,—enfermo, ainda quando estava de saude.
A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Cajú. O prestito era triste,—ainda mais triste pela indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, paixões e esperanças.
—Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma dôr só, e é a liberdade.
Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.
Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a aurora do sexto dia, e com ella,—ou pouco depois della, uma carta de Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.
A carta era da baroneza.
A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da vida.
—Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.
—Disse-me que era por causa da demanda...
—Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.
—V. Ex. sae da côrte?
—Vamos para o roça.
Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se Estevão a perguntar por ella.
—Anda passeando, respondeu a baroneza.
Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.
A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um lacaio abria apressadamente.
A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel, desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.
Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.
Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora, em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.
Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez, respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:
—Para a roça!
—Disse-o agora mesmo a baroneza.
—Mas...
Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar para uma gravura que pendia na parede fronteira.
—Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se ella sair da côrte, eu saio também.
—Tu estás doudo!
—Talvez.
Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,—talvez pela primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada de que lhe havia dito em anteriores occasiões,—agora com maior fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.
—Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo se ella falava de coração naquella tarde...
A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro, sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre nuvens negras de tempestade.
Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e levantou a cabeça:
—Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.
—Qual?
—A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?
Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução de a trahir.
Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:
—Não ha duvida; é uma ambiciosa.
E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos autos.
Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o criado apresentando-lhe um bilhete de visita.
—Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.
E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia, sisuda, mas graciosa.
—Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.
—Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu poderia desejar é a presença de um homem de espirito.
Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:
—Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?
Luiz Alves inclinou-se.
—Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella o é do senhor.
—Oh! de certo!
—O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...
—São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto da visita.
O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era—, expressões delle,—uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, teria elle a vida sã e salva.
Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.
O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e applaudindo-os discretamente,—serio, quando elles o eram ou pareciam ser,—chocarreiro quando vinham com ar de graça,—respondendo emfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e obrigação:—toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida publica.
De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.
Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza devia ficar.
Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto em differente terreno.
—Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.
A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os lados partiam votos de opposição.
Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a expressão de um genio imperioso e voluntario.
—Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.
—Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.
—De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.
Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na fervura triumphante dos animos.
—Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são apenas tres ou quatro mezes.
Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.
Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez que eram de amor. Talvez,—quem sabe?—amor um pouco socegado, não louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, um meio termo entre um e outro,—como podia havel-o no coração de um ambicioso.
—O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo passa depressa...
—Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e bailes; sacrifico-me á familia.
—Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.
—Que duvida!
Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara, de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina. Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.
—Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver insistido mais nos seus conselhos.
—A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.
Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento, igualmente natural:—o do despeito que lhe causaria aquella singular familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.
A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos. Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação, esperemos o capitulo seguinte.
Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu orgão forte e severo:
—Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração misericordia de sobra...
Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.
—Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que o não entendi.
—Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto nesse caso não passou da esphera da intenção.