Chapter 3

—Mas... referia-se á viagem?

—Referia-me; perguntava quando iam.

Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.

—Tres mezes apenas? perguntou o advogado.

—Tres ou quatro.

—Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,—continuou Luiz Alves, concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava da janella,—oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!

Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.

As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem differente daquelle que empregára pouco antes.

Se esse contraste era premeditado,—não sei se o era,—não podia vir mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o leitor:—curiosidade e gratidão;—veja se ha duas azas mais proprias para arrojar uma alma no seio de outra alma,—ou de um abysmo, que é ás vezes a mesma cousa.

Eu disse—compadecia—e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas não desesperada nem angustiosa.

A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. Seu desejo,—ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos anteriores capitulos,—era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.

Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da leitora; ella só lhe via o lado bom,—que era realmente bom,—ainda que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se lhe gerava no coração.

Jorge era o seu unico parente de sangue,—filho de um irmã que vivêra infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.

Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto,—por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia domestica,—ou se se creassem cargos para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.

Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da mulher que ama.

Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:

—Nem uma nem outra cousa.

—Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.

—Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos acceital-as do nosso destino.

Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.

Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.

Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.

Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura da baroneza.

Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma fazenda e conhecer os habitos do interior.

Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes; ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste lance, havia nella um pouco de Alcibiades,—aquelle gamenho e delicioso homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para supportar a frugalidade spartana.

Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal, tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos, devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.

Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência aleivosa e ruim.

No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito, via-se desde já qual era o seu methodo de acção.

Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance. Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação, onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja aquillo mesmo que recusa.

—O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na cabeça, ninguem mais o tira dahi.

—Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom neste mundo.

Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.

O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a baroneza recuou deante daquelle facto brutal.

A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.

Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de opera da moda.

—Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.

—Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.

—Sua alliada, parece.

—Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos labios.

Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra musica, dizia-lhe:

—Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.

Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.

—Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto interropido do dialogo.

—Vontade certamente, porque era necessidade.

—Necessidade,—tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade por que?

—Por uma razão muito simples, porque a amo.

A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:

—Pode sentar-se-agora; está seguro.

Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.

Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.

O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, severos, firmes e brilhantes.

A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.

—Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.

—Será engano de meus olhos.

—Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã. Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova...

Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.

—A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?

—Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.

A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde creança a disfarçar as suas preoccupações.

Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão interrogou-o a respeito de Guiomar.

—Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,—creio que por ora não deves perder as esperanças todas.

Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão observal-as.

No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a inveja que ella lhe mettia:

—Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.

Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo de outra creança,—nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora, que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.

Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.

Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era, como era ainda agora com todos.

Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve occasião de lhe dizer esta simples palavra:

—Perdoou-me?

A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.

—Perdoou-me? repetiu-elle.

Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.

Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,—o sol contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.

Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da noite.

Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia buscado de proposito para recebe-lo.

—Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.

—Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda, um unico gesto.

A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do que se ella falasse,—estendeu-lhe a mão.

Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.

A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.

—Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle, disse Guiomar olhando em cheio para o moço.

—Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo ser na consagração que lhe peço.

Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.

—Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e seguila-hei.

A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.

Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica. Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do chão.

Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas, ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,—Jorge a vida vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas com o ruido exterior.

Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha; era possível vencel-a por esse lado.

Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.

—Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na costa.

—Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.

—Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.

E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza, em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.

—A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...

—Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia de Mrs. Oswald.

A ingleza sorriu,—e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do tempo e do seu amor.

O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da baroneza á hora da despedida,—porque elle hesitara a maior parte do tempo,—praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada dizia, porque nada achava que dizer.

O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação. A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.

—Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho; estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo esperar a resposta de Guiomar.

E voltando-sa para a afilhada:

—Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei ainda mais do que tu.

Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:

—Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou voltando-se para Jorge:—Boa noite! Até amanhã.

Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald, tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro, defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de um tibury e batia-lhe á porta.

Era Estevão.

Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas Estevão explicou-lhe tudo.

—Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...

—Nella? interrompeu Luiz Alves.

—Agora e sempre.

Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao pé do outro.

—Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas este ultimo alvitre.

—Vás falar-me de Guiomar?

—Justamente.

Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado; dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um instante de silencio.

—Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.

—Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma esperança.

—Mas.... como sabes?

—Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.

Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.

Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia perder até o repouso da esperança.

Estevão foi o primeiro que falou:

—Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.

—Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.

Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro desengano de Guiomar.

—Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me, nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,—o motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não, não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto....

Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração, saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas; mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.

Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração. O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.

Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.

—Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da memoria e do coração tudo o que possa referir-se...

—Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio tenho eu se não esquece-la! Mas quando?

—Mais breve talvez do que suppões...

Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.

—Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á morte...

Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.

Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica ventura que lhe era permittida.

No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.

—Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que nenhuma razão tens de censura...

—Censuro eu alguém?

—Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois. Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa se outro lhe despertou o amor.

—Ah! incumbiu-te da defesa!

Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.

—Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...

—O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá apertar a mão ao homem que a soube vencer?

Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto. Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.

Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.

Luiz Alves foi direito ao fim.

—Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, espero que apertarás a mão do teu amigo.

Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta e saiu.

—Estevão! gritou Luiz Alves.

Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.

Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o escripto.

Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra unica:—Peça-me,—escripta no centro da folha, com uma lettra fina, elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de commoção.

Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural. Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias, estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com que o escrevêra?

Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.

Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis; e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo, tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.

Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém, fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.

A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.

O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na necessidade de pagar os benefícios que recebêra.

Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes; primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias; depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.

—Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de simples serva, nunca!

Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens, e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura de sua mãe.

A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o amor,—entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças á baroneza, nem immolar as suas proprias,—e uma de duas cousas era preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma, não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao coração.

A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito no capitulo anterior.

Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.

Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer afflicção antecipada.

—Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.

—A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum sorriso contrafeito.

Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da situação.

—Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.

A ingleza obedeceu.

—Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de crimes, e que ha mortos...

—Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem parece estar autorisado?

Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas, como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs. Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,—era o essencial,—certa resolução de animo muito util e até indispensavel naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça immediatamente.

—Pois vá, vá, disse a baroneza.

A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.

—Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está longe de imaginar.

Guiomar interrogou-a com olhos.

—Para casar!

—Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.

—Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as estrellas do ceu...

Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a ingleza, e disse em tom secco e breve:

—Mas, conclua, Mrs. Oswald.

—A senhora baroneza manda chamal-a.

Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta, disse:

—Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.

Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.

A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar e de Mrs. Oswald.

—Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.

A baroneza ergueu a cabeça.

—Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.

Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como a ingleza parecesse inteiramente distrahida:

—Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos passarinhos.

A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.

—Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.

—Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.

A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde ver, e não se perdeu nada.

As duas ficaram sós.

—Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que lhe ficava aos pés.

Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e doce nome:

—Mamãe!

Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.

—Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo, desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...

A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.

—Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?

A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém, era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:

—Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ella sorrindo.

—Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é um excellente caracter?

—Excellente, respondeu a moça.

—Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira que não te amem muitos mais.

A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.

—Deves saber, continuou a baroneza,—que eu estimaria ver que este casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas presentes... Que diz o teu coração?

E como Guiomar não respondesse logo:

—Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.

A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu a carta e entregou-a á madrinha.

—Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle que te falar ao coração.

Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:

—Que tens?

A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.

—Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...

—Padecer?

—Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a affligir.

Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita; arrependeu-se de ter ido tão longe.

—Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes escolhes o Dr. Luiz Alves?

A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma expressão de anciedade que a affligiu.

—Fala, repetiu a baroneza.

—Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.

A baroneza estremeceu.

—Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se violenta o coração,—um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois casarás com elle.

Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios? A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto, de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio sacrificio.

A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.

—Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?

—Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.

E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições sinceras.

Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.

A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a ninguém.

A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.

—Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.

—Acabado! suspirou Jorge.

—Agora, é preciso animo; espero que serás homem.

—Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.

E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.

Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida, menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera, como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.

A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de animação.

Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção. Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.

Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. Oswald.

—Perdeu-se tudo... murmurou elle.

A ingleza não respondeu.

Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a querer divertil-o daquelle assumpto.

—Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa sua.

—Minha? perguntou Mrs. Oswald.

—Sua.

—Mas...

Jorge hesitou um instante.

—Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.

—Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?

—De maneira que...

—De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não amava a outro, mas uma vez que ama...

Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos, como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra, desde que a sinceridade da baroneza interveiu.

Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda mais do que elle, e tão feliz um como outro.

A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam, porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se porventura as havia,—era tambem applauso e do melhor. Quanto ao caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim respondeu:

—Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me pouco; eu quizera saber a sua.

—A minha é que é um anjo.

Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,—porque não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma cousa,—aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos anteriores.

—Se não sabe o que sou,—continuou Guiomar,—eu mesmo o direi, para que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se a um demonio, suppondo que é um anjo...

—Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.

—Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto.

Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.

O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as folhas do arvoredo.

A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar matinal.

De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as que eram della,—della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de grandeza humana.

O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella foi encontrar o seus;—e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores alheias.

Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus planos.

Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,—talvez ainda mais, porque era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da ingleza.

O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos—voluptuosidade da dor, em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.


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