VIII

*Faz rir o parlamento*

Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche. Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala, ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

—Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de 1582.

Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes em proveito da communidade. (Um deputado boceja contagiosamente: outros bocejam; e o presidente de ministros adormece). Vejamos a pena dos infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu. Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente….

Um deputado: Faz bem.

O orador: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas, como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas carroças…

Um deputado: Carroças são de lixo.

O orador: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas… Por entre estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro, que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco, que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres victimas.

Um deputado: Vê coisas magnificas!

O orador: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o lemma d'aquelle devasso festim… (Pausa. O orador conserva o braço em postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda estremunhado, com a risada do ministro da fazenda). O que eu vejo? quer o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr. presidente!

Um deputado do Porto:—Peço a palavra.

O orador continuando:

—De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa? Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros) armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

Aqui é que bate o ponto:da fazenda que não é sua. Á custa de quem se vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram? Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou ronhas? Que sabe a policia d'elles?

E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber umvossemecê, que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes; aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões… como tambem aos moços fidalgos… se dê o tratamento de senhoria.»

Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez, praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D. Diniz e D. João I amaram cordialmente.

Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a benevolencia de m'as tolerar.

Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo! Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

Um deputado: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de lei?

O orador: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os desmontou.

Conclui, sr. presidente.

O presidente: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio de Meirelles, e está fechada a sessão.

O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

—Que sairá d'aquelle arganaz?—perguntou o morgado de Agra ao abbade deEstevães.

—Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

Calisto sorriu-se e disse:

—Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

*O doutor do Porto*

O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o parvo laureado quer guindar-se.

Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.

Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra ultrajada.

Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de unsrrque, alguma vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos: bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar, não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»

De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do inventor da aguardente de nabos.

Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia lhe deparara.

O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares, alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e disse:

—Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social. Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender, fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios, assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me subia aos olhos exsudando lagrimas.

(Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da camara é tola).

O orador: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia virgiliana do hemestichio:pulcia linquimus arva. (Muitos apoiados.)

Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de que, alguma hora, havia de ouvir n'estesancta-sanctorumdas luzes, blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial? Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim? Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde? (Apoiados prolongados.) Na minha terra… (quem quererá já dizer!) nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e Regras? Quem sr. presidente?

(Calisto pede a palavra.)

O orador: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o que é o seuhamac, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas, tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar, que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!

Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «a esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice.» [11]

O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.

O deputado Calisto: Seja pelo amor de Deus!

O orador: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.

O deputado Calisto: Isso que diz em vernaculo?

O orador: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto. Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo. Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, aofiat, á humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr. presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao civilisador principio? (Muitos apoiados.)

Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do sol esplendorosissimo.

E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de repetições, aqui ponho fecho.[12]

O orador foi comprimentado.

Opresidente: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos deBenevides de Barbuda.

—Sr. presidente!—disse Calisto—Eu entendi quasi nada, porque o sr. deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (riso nas galerias.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle feitio! (Ordem!ordem!)

Oorador: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza! Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.

Opresidente: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar phrases não parlamentares.

Oorador: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices. (Vozes:Ordem!ordem!)

Oorador: Quando aquelle senhor me chamousandio, não foi violada a ordem? (Apoiados). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim, todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém, querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «Diario das Camaras.» (Riso).

O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes:apoiado!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a? Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á sua familia empratica como do lar, consoante phrase a D. Francisco Manuel de Mello naCarta de Guia.

Odr. Liborio de Meirelles: Não velei as armas do raciocinio para me ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes:Muito bem.)

Oorador: Muito bem o que?… Vae-me parecendo historia isto, sr. presidente!… Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e despreza-me!… Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?

A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da Grecia e Roma.

Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.

O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dosApologos dialogaesdisse que aimaginação era curral do conselho, onde, por não ter portas, todo o animal tinha entrada. Bom é tambem que os moços muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.

Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios: digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com aquellas palavras que ouviu Arsenio:Fuje, quíesce, et tace; «foge, socega, e não falles.»

Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos, encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração. Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.

Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao paiz.

O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos, e acrescentava:

—Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr. Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e nos ponha ambos fóra de cambulhada.

*O coração do homem*

Entremos no coração de Calisto Eloy.

Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto de tanto alcance na biographia d'este personagem!

Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.

Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste. Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo. Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa natal coisa para sérias saudades.

Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse: «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.

Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete horas da manhã, já estava a ler aViagem á terra santa, por frei Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de aranha do tecto.

Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram. Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado, diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.

Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce vida!

Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:

—Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?

—Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus classicos.

A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez asSete partidas de D. Pedro. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez asSete partidas, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do montante de fogo vedar a entrada!

Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia, famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o serão.

Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa. Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo coração!

Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornelias, Poncias e Arrias.

Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo! Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.

*Santas ousadias!*

Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração.

Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira.

Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de riso civilisado, e disse-lhe:

—Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe correr o mundo…

—Que remedio!—atalhou o morgado—mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

—Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos receba.

—Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.

—E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio…

—De qual Petronio?—interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios emRoma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

—Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na vida privada da mulher?

Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

—Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora… Quem sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho máo!?…

—É verdade—assentiu o abbade;—mas é justo e urbano que v. ex.^a não vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.

—Não me ensine as leis da cortezia, abbade—replicou algum tanto affrontado o fidalgo da Agra.—Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos a sentarem-se na ourella dos thronos.

—Não ponho duvida n'isso;—obtemperou o abbade, e accrescentou com malicia e bem rebuçada ironia—alguns fidalgos muito mal-creados que tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem plebe grosseira e ignobil.

—Acertadamente—disse o morgado.

—Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!—insistiu o deputado bracharense.—A minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento.Noli esse multum justum, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto dos proprios delinquentes.

—Mas eu não sou apostolo—acudiu Calisto.—Conheço que já não vim a tempo, nem a missão me condecora.

Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios, e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.

N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado. Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.

—Ferro penetrante—exclamou o desembargador—que me traspassou este corpo já fraco, e pendido á campa.

Calisto apertou-o nos braços e clamou:

—Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina, minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado daTribulação: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem vossos, e os vossos males fossem meus.»

Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com mui entranhado affecto:

Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza! Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!

D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, rompeu elle n'esta pergunta:

—A sr.^a D. Catharina já leu Homero?

—É romance? disse ella.

—Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe. Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do thalamo ditoso.

Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.

—Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.

—Não conheço, disse a dama… LiLe mariage, de Balzac.

—Não sei quem é: deve ser francez.

—Pois não leu?

—Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.

—É possivel… balbuciou D. Catharina.

—E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito nupcial!…

—E isso que tem?—atalhou a dama—é a moda…

—A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama: «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens convisinhassem de mim!…

—Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha do desembargador.

—Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

—Como assim?! quem o auctorisa…

—As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

—Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu pae… A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o são.

—Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

—A mim?

—Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

—Mas—interrogou irada e rubra de despeito a dama—que ousadia a de v. ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!… Olhe que essas liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.

—Não se moleste assim, minha senhora—tornou Calisto.—Respeito tanto v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta, que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado espontaneo do bem de todos.

—Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição—disse D.Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos deCalisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle, dizendo:

—Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama… Amolleceu-a?

Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito consternado, e murmurou:

—Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

E repetiu em tom cavo:

«…Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de prudencia, senão obra de magua.»

Depois, suspirou, e cheirou rapé.

*O anjo custodio*

Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e indireitar as tortuosidades da humana maldade!

Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. CatharinaSarmento.

Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno deMascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

—Quem é um ratazana?—pergunta D. Bruno.

É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, porque v. ex.^a o não conhece.

—Que quer elle?

—Fallar com v. ex.^a

Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

—Pois entrega esse papel a s. ex.^a

D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

—Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamadoCustodio?

—Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

—Esse homem que ahi está dá ares de criado?

—Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que parece um colete.

—Manda-o entrar para aqui.

D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

—Que Custodio é este!?

N'isto, assomou Calisto Eloy.

Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

—Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio daNação.V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

—Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar…

—Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!—tornou Bruno.

—Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

Abriu o moço a bôcca, e disse:

—Ah… agora é que eu entendi… Mas… queira v. ex.^a sentar-se… Eu não sei que allusão possa ser esta… que… a respeito de…

Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

—Vou fallar.

E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem receia ser ouvido.

—Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confusoMascarenhas.

—O sr. Bruno de Mascarenhas—proseguiu o morgado—é solteiro. Cedo ou tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da raça.

(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

Façamos de conta—proseguiu Calisto—que v. ex.^a é hoje, como será, volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá encontrou e lá encerra.

A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica, senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae n'ella.

De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo} Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

—Não sei…—respondeu Bruno—Só, no caso de se darem as circumstancias que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

—Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de sua mulher…

—Sim…

—Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga, e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está gosando, e lhe augura a elles.

É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno de Mascarenhas.

—Eu!…—exclamou o moço com artificial espanto.

—V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

—Mas que houve em casa do Sarmento?—perguntou alvoroçado o fidalgo.

—O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia… Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no primeiro instante:

—Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos serios á sr.^a D. Catharina.

—Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas? perguntou com solemnidade o Barbuda.

—Juro pela honra de meus avós.

—Que vae fazer v. ex.^a?—tornou Calisto.

—Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no paquete de ámanhã para França.

—Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um amigo do desembargador Sarmento…

—Nada direi sr. Barbuda.

—Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos deDuarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

—E saíu com os olhos marejados.

* * * * *

D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do magistrado, e disse-lhe:

—Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião interpolladas de agradecidas lagrimas.

*Regeneração*

Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava, matou-te!

Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal, entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo, para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida. Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que as lagrimas o não deixavam continuar.

Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco, de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama, que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito, perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido não canonico.

Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos, abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

—Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me n'estes remorsos!…

Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido, fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade de duas almas, ligadas por paixão.

Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo, com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

—Céos! que injustiça!

Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar. Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou, desentallando-se dos suspiros:

—Oh! que infeliz! que infeliz!

Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse affectuosamente:

—Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos por egual.

Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado, representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,Calisto Eloy, aquelle anjo!

Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

—Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que prazer o nosso se…

—-Oh! papá…—atalhava quasi sempre a menina—pois eu havia de casar com elle?…

—Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza… que mais querias tu, filha?—perguntava o pae.

Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

—Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da creatura!…

No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo o encarecimento.

*Tentação! Amor! Poesia!*

Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de amor!

Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa. Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento adultero. Honrados desejos!

Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano os cimentos da sua obra.

Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e disse-lhe:

—Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

—Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;—disse Calisto, esvasiando a bolsinha.

Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno coração de oiro esmaltado com iniciaes.

Ah!—acudiu Adelaide pressurosa—isto não!…—E retirou sofregamente o coraçãosinho.

Algum dos circumstantes disse:

—Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

—Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa estima—respondeu com adoravel graça a menina.

Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.

D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

E aqui está que Calisto Eloy—ia me esquecendo dizel-o—tambem sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o dote da sua amiga.

E ajuntou:

—V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara…

O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu peculio.

Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador, desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

A partida acabou taciturna e triste.

Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca, apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos do soneto V;

Dos mais fermosos olhos, mais fermosoRosto, qu'entre nós ha, do mais divinoLume, mais branca neve, oiro mais fino,Mais doce fala, riso mais gracioso:

D'um Angelico ar, de um amorosoMeneo, de um spirito peregrinoS'acendeu em mim o fogo, de qu'indinoMe sinto, e tanto mais assi ditoso.

Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do terceto:

Não cabe em mim tal bem-aventurança!

N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim, escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com orthographia mais imaginosa que a minha:

«Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua mulher muito amiga,Theodora.»

Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e leu no soneto XXXIII:

Eu vi em vossos olhos novo lume,Qu'apartando dos meus a nevoa escura.Viram outra escondida fermosura,Fóra da sorte e do geral costume…

Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.

Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito. Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro. Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em peito portuguez:

Senhora de grão primor,Meu amor,Formosissima deidade,Arde meu peito em saudade,Quem fui hontem, não sou hoje;Minha alegria me foge,Se vos olho.Já captivo em vós me acôlho,Havei de mim piedade;Sêde minha divindade;Não leveis a mal que eu choreCom tanto que vos adoreGentil e nobre meninaComo Camões a Cath'rinaE como Ovidio a Corinna.

Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um salpicão frito.

Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se, saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou o na ardua empreza.


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