XV

Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao outro:

—Quatro pés nunca vestiram luvas.

Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:

—As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.

Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.

A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:

—Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de roupagens novas e hodiernos afeites!…

Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.Liborio.

Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram, aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas pugnas inglorias!

*Ecce iterum Crispinus…*

Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterraneaPompea. É que o dr. Liborio ia fallar.

—Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!—disse elle—Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido.[14] Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:

Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha o ranger de dentes,stridor dentium!

Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai!A verdade ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia. As idéas entre nós estão comoflores palpitantes no gomo nascente. Eu me esquivo, sr. presidente,o lavor de historiar as successivas phases que tem percorrido os methodos do aprisoamento. Urge primeiro pregoar a brados que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou ainda em Portugal. Pois que é o direito?No seu todo synthetico e como corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do homem. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente,o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. Miguel.[15]

Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

—Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado.Se fordes a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel tendencia para a rapina: é uma pêga humana. Uma pêga humana, rapacissima, a mais não! Sr. presidente,do nosso rei D. Miguel se conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma gallinha viva com um sacarolhas.[16]

—Vozes: Á ordem! Á ordem!

—O orador: Pois em que me transviei da ordem?

—Uma voz: Não se diz no seio da representação nacional:o nosso rei D. Miguel.

—O orador: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

—Uma voz: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

—O orador: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr. presidente, que o sentimento se corrompa, assim como ocalculo se empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene:

Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (vir), não a mulher (mulier), desde os vinte e um annos, ou época do predominio racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não descendo sequer ás gradações principaes, que tornam ohomohomem, o genero especie.»[17]

É certo, sr. presidente, quea femina toca o requinte da depravação, e chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de sangue, para infundir pavor em peitos equanimes, porem, o mobil dos crimes seus d'ellas é outro:as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução, e não ha ahiarcar com evidencia.

Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminosoaprisoado! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo plantio, d'aqui me desentranhoem louvores e muitos e francos e perennes.

Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmopé de idéas da inquisição! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr. Ayres, quetodo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á escovinha. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem beba bebida fermentada.Água em abundancia, e mais nada potavel. Não quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio meu, e abalisado humanista,das cadeias saem delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos.

Lastimado isto, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria.

Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes se não desquite. O homem sem instrucçãoobra instinctivamente, obra egoistamente, obra septicamente, se lhe escaceia religião. Ao presolide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa.Inclinando rasoamentopara isto, em todas as cadeias europeas lustram sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes, d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no cancro das masmorras; mas o sacerdoteatilado de engenho e todo impeccavel de costumes; e não padres cujauncção sacrosanta se lhes convertesse no corpo em lascivos amavíos. Quem sabe ahijoeirar o optimo para capellães de prisões?

Depois quer-seum director, olho e norma.E tão boas partes se lhes requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não viriamos delinear senão escorço.

Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão, emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa ulcera da humanidade. (Prolongados applausos.O orador foi comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se.)

Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o abbade de Estevães, disse:

—Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.

E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

Quantos folgam fallar a prisca linguaQual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,Qual esse conde antigo, que leváraA villa de Condeixa por compadre!Mas como a fallam? Põem sua méestriaEm palavras sediças, termos velhosTermos de saibo e mofo, que arrepiamOs cabellos da gente…Que dizes d'isto?Como chamas a estes?…..Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?Quando estas coisas desvairadas vejoDão-me engulhos de riso, ou já bocejos,Como arrepiques certos de gran fome![18]

*Quantum mutatus!…*

Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.

—Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!—ajuntou o velho—São as tristes honras da ancianidade!… E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou Montalembert.

—Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo—disse Calisto; porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer, nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!… Ó meu caro desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as} perdão do pleismo do termo—disse Calisto voltando-se para as damas, que estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.—A boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.

—Está-se desmentindo v. ex.^a—acudiu D. Catharina graciosamente—com os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca reformar a suatoilettede 1820!

Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de Adelaide despontara as ferroadas do juizo.

Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim rude, que sympathica espontaneidade da expressão.

Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[19]

O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente. E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito, e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos, que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.

Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e acanhada parvolez.

N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa, sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no «Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes hão de vir apparecendo naturalmente.

Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.

Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.

A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.

Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas d'esta serodia mocidade!

Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava arguindo.

Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar dos leitões.

Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da humanidade!

*In Liborium*

Estavam cheias as galerias da camara.

Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento. A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura, algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins, que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em vez d'isso, muda de calças.

As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára, desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos representantes do paiz.

Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o presidente lhe deu a palavra.

Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o deputado por Miranda, começou d'este theor:

—Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões, despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.

É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a pique?

Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões, Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

Vozes: Á ordem!

O orador: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na historia, sr. presidente?

O presidente: Sem offensa de particulares.

O orador: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e…

Vozes: Á ordem!

O orador: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

O dr. Liborio: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

O orador: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

O dr. Liborio: Já disse que não desço.

O orador: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel de Mello. É oRelogio da Aldeia, que falla no dialogo dosRelogios fallantes: «…Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados, que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que quebrando-lhe as conchas com que se defendia…» não me lembra bem se D. Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me cuidar que não é a aguia.

(Pausa do orador: riso das galerias.)

Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado que me descoime de desordeiro.

Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria: «nas praças e nos parlamentos.»

Vozes: Á ordem?

O orador: Pois tambem Quintiliano?!

Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!…

O presidente: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de rethorica.

O orador: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que a nação entenda. A arte de bem fallar,ars béne dicendi, é o estudo da clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril, que o mestre denominaproedulce dicendi genus, todo affectação menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como em bandeirolas de arraial.

Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr. Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande lettrado que escreveu daReforma das Cadeias. Achei-o lusitanissimo na palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas louçainhas d'aquelle thesouro.

Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr. Liborio.Se me debato, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde. Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio, entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não, por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam primorosamente. (Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria. Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do radioso abbade de Estevães.)

O presidente: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha de divagações alheias do debate.

O orador: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força, subjugar as minhas pobres idéas emaprisoamento, como disse gentilmente o illustre collega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, osubstituto do anjo S. Miguel! (Riso) Oh! V. ex.^a não será algoz do pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta deixal-o morrer… Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

Vozes: Falle! falle!

O orador: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia:que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas. É pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr. presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante:uma pêga humana! Que musa de tamancos!uma pêga humana! Que imagem! que allegoria tão ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!…

Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom serviço de nos dizer que homem em latim évir, e mulher émulier, e que, em alguns casos,homotambem é homem. Ficamos inteirados e agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei não legisla para a mulher!… Teremos ainda de assistir á repetição do concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as excluam da especie humana!… E peior será se algum d'estes ministros, no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o animo!

Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos, por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que parece; crime, porém, defaculdades que se agitam perturbadas, e periodo de evolução. Se o termo fosse parlamentar, eu diriafarelório!

Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, queremque todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume.

N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes por dia.Agua em abundancia, conclamam os dois doutores. Fazem elles o favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio, com o formidavel argumento de quesáem das cadeias delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos!…

«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto?Assassinatoé coisa que me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que ospresos sabem ricos. Aqui, sr. presidente, n'estesabem ricos, quem soffre oassassinatoé a grammatica. O alticismo d'esta phrase é grego de mais para ouvidos lusitanos.

O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei?Vox faucibus haesit!…

É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria. Que se ha de fazer a um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira vez!

Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

Setta voada do arco! Que infladas necedades assopram estes estylistas de má morte!

Inclinando rasoamento(peço venia para me tambem enriquecer com esta locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer, sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos, conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivelvoe soli! que exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.Davus sum, non OEdipus.

O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos.

*Vae cair o anjo!*

A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia. Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda, á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora, desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.

—Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda—disse Adelaide—Tem uma voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v. ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias. Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

—Minha prima Theodora de certo me não attendia—observou o morgado.—Em quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento».Casamentoderiva decasa. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a acceitei e assim a préso.

—Mas o coração…—atalhou Adelaide.

—O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes para a chamma das velas… Se as tocar, que dôr não sentirá ella?

—Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda ignora o que seja coração… o que seja amor?

—Se ignoro o que seja…—balbuciou Calisto.—Sabe v. ex.^a—proseguiu elle, reanimado, apoz longa pausa—sabe v. ex.^a que no paraizo existiu uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia tocou Eva?

—Sim… E Adão lambem tocou…

—Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!… A que hei de eu comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da sciencia do coração?!… Comparo-a a v. ex.^a.

—A mim?! que idéa!

—A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e… aprendi!… Hoje sei o que é coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle vae nascendo.

Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.

Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira, buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos, aconselhando-a a simular que o não entendêra.

Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

Ó fortunatam natam, me consule, Romam.

Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de pessoas authorisadas.

Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente o era, attenta a modestia do poeta.

—São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.

Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o coração fulgura em toda a sua luz.

Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os percursores de alguma enorme necedade.

Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que, despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D. Adelaide:

—V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.

D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos, e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio do tom mysterioso do provinciano.

Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu o leitor com piedosa tristeza.

*Ó mulheres!…*

Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e disse-lhe as palavras do capitulo XLV dosDialogos: «Em a lei de Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór jurisdição sobre si que o outro.»

Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada, Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr. Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo homem que ama.

Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e accidental da sua personalidade.

O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio. Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na tez um tanto moreno-pallida.

Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e engulhos de estomago.

Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos; e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França. Corrido do engano, depois de lêr as indicações dastoilettes, saiu d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de conversação.

Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua para combater os vomitos provocados pelo charuto!

Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido, aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

Di meliora piis!

Ó Lisboa!…

Ó mulheres!…

*Proh dolor!…*

Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E, crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares. Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém, insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas, á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu, dizendo que:Cum fueris Roma, Romam vivito mora,[20] e que o fazer-se singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos trajos.

Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e consistencia aos dentes.

Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente encanecida.

Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa. Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de paixão.

Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim, sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa ignobil e impudica.

O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de antiga tempera.

Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e vergonhas insanaveis?

Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras, entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S. Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!…

Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar graça em teus olhos?

Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas entranhas?

Cairias tu, anjo?

*O mordomo das tres virtudes cardeaes*

Era por uma noite escura e fria de abril.

O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.

A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.

Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em angustias parturientes de alguma enorme calamidade.

Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da quinta de Adelaide.

Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo espaço quedo, e fito nas janellas.

Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto. Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.

E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:

—Tenho frio!

E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror da sua figura.

Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da quentura e aconchego do leito nupcial.

E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros, antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de páo santo.

Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do triumpho.

É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça, quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.

Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de tres pontas.

Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.

Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.

O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

—Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!…—disse Adelaide—Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar que se fazia lá hoje a novena das Chagas…

—Fiquei espantado—disse Vasco da Cunha—Que rapida deliberação foi esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!…

—Fui eu a causa—tornou ella—São melindres do meu coração, que, por amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de Barbuda…

—Que!—atalhou Vasco—pois aquelle homem tão serio!… tão temente aDeus!…

—É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!… Offereceu-me uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha posição…

—E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar… Estou espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!… E tu não faltes, á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae cantar umBenedicite, e a prima viscondessa de Lagos canta umTantum ergo. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei se sabias?

—Não sabia, meu amor—disse Adelaide, congratulando-se com os enthusiasmos pios do excellente moço.

A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.

No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não comppequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.

Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.

A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.

Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:

—Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os vinculos do Algarve.

—Pois nós—volveu Adelaide magoada—não poderemos ser felizes sem os vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?

—Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam como em vinculo as principaes prelazias do reino.

Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do estomago.


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