*Outro abysmo*
Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a vida a tolice refinará.
Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil pescoço das pobres mulheres.
Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas á cara vermelha de pudor. Veremos.
Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás cabeças dos palitos phosphoricos.
Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.
Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este homem a luz extraordinaria.
Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa, que o levou alli, por estes termos:
—Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?
—Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a quizer.
—Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto—volveu elle.
—Pois lá vão ter d'aqui a pouco.
—Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia—recommendou elle.
—Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da fechadura.
—Não achei.
—Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.
—Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu não queria!… Cá desço, e até logo.
O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce deLeão, e logo a lapis:viuva do tenente general Gonçalo Telles TeivePonce de Leão.
Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão. Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos Ponces genuinos dos duques de Banhos.
Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:
—Então quem é esta senhora, que me procurou?
—Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda, linda quanto se póde ser!
—Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que naturalmente havia de morrer velho?
—Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é trinta annos.
—E com que então galante?
—É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza. Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr. morgado, que voz de creatura aquella!
—E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?
—Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito, mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei para lhe dar esta noticia.
—E depois a senhora que mais disse?
—Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás tres horas.
—E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?
—Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.
—Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?
—Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve a reparar n'elles com uma luneta… E a graça com que ella punha a luneta!… Mulher assim!… Os homens ás vezes por mais asneiras que façam, teem desculpa!…
—As paixões, minha sr.^a D. Thomazia…—obtemperou o morgado, e lambeu os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira já mencionada. E proseguiu.—As paixões do amor… Nem os grandes sabios nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos quarenta, e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o demonio, que eu não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor, que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia…
—É um gosto ouvil-o!—interrompeu D. Thomazia—Bem no disse aquella senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.
—Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para ahi!
—Edade!—accudiu a viuva do tenente—v. ex.^a póde dizer que tem trinta e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. ex.^a me diz d'ella alguma coisa… Conhece-a?
—Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça…Não é má…
—E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, sosinha, tão encantadora!… Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe medo; mas assim que elle me mandou um acrostico… V. ex.^a sabe fazer acrosticos?
—Ainda não me puz a isso.
—Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.
N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando, chorou.
Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de expansão aproximara.
Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma paginad'Os Estrangeirosesta maxima:Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande vantagem.
A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer, alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia e inculcava á mocidade depravada.
Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e adormeceu.
*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*
Calisto dormiu mal.
As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seufiat luxprimeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.
O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes. Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma d'aquellas.
Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.
—Porque chamam a istochaise-longue?—perguntava Calisto Eloy ao engenhoso Margoteau.
—Porque chamam?!
—Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. Eétagèreeconsoleetéte-à-tête, eonaise? E é carissimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de francez de samblador, que vem aqui aprender?
Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira bem apercebida.
A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe chegou do correio carta da sua esposa.
Dizia assim:
«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é, dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.
«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que perder, como diz o primo Affonso.
O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério. Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da alma e do corpo.
Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.
Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.
Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.
Tua mulher que muito te querTheodora.»
Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:
—Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste, porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros, embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus ardores!…
Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.
Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa, n'este theor:
«Prima Theodora e estimada esposa.
Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.
Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devodizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.
Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o dinheiro que disser a ordem.
Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.
Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e algumas ancoretas do vinho da Ribeira.
Teu muito affecto e extremosoCalisto.»
*A mulher fatal*
Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello, que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a receber a visita.
Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.
Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.
—É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.
—Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o braço.
—Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me enganou…
—O palpite de v. ex.^a?
—Sim… eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra… Delicadeza egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.
Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz tremida:
—A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?
—Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra do parlamento a esta hora…
—Minha senhora… que vale a patria, em comparação da honra que v. ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.
—Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido…
—Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel…
—Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D. João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846 com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D. João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II, serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae, amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.
Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de cavallaria.
Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido. Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.
Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda, authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou…
—Diz v. ex.^a muito bem—atalhou Calisto.—Que nobre alma as suas palavras me manifestam!
—Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão: eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.» Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v. ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos, permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?
—Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D. Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.
—Em tal caso…—balbuciou D. Iphigenia—baldou-se a minha pretenção.
—Queira v. ex.^a ouvir-me…—Molesta-se com o fumo do charuto?—perguntou elle erguendo-se.
—Não, senhor.
Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se, proseguindo:
—Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu; porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse, minha senhora e prima, sou eu.
—V. ex.^a?!—acudiu Iphigenia.
—Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei vencer das instancias dos meus constituintes.
—Eu estou maravilhada!…—exclamou Iphigenia—Ha presentimentos prodigiosos!… Que força estranha era esta que me impellia para v. ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e desairosamente… Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar… a um primo.
—E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a qual é actualmente a sua situação.
—Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não estou velha nem feia…
—Que favor lhe fazem, minha senhora!—atalhou Calisto mui risonho.
—Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres, tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse, este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.
—Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do coração?—perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!
—Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.
—Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno…
—Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v. ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me fazem desgraçada.
—E como seria v. ex.^a feliz?—interrompeu Calisto.
—N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.
Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:
—Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos, com quanto seja casado…
N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso. Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:
—Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino…
Fez uma breve pausa, e proseguiu:
—V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer de uma expansão.
—Porque não ha de sêl-o?—accudiu D. Iphigenia, interessada na commovente historia.
—Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo. Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si. Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não na enfadam porventura minha senhora?
—Interessam-me e commovem-me—disse com affectuosa sympathia a brazileira—Vae dizer-me que se apaixonou?
—Tive um delirio—respondeu o morgado, compassando as palavras em tom muito do intimo—Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E, se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante das quaes um homem precisa chorar.
Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao leitor e a mim, quando m'o referiram.
Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras chinezas do seu leque, disse:
—De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada, se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…
Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:
—Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!
Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas, affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade, desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.
Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas, quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa d'aquelle quarto de hora.
Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.
*Perdido!*
Fecharam-se as camaras.
Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda, desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado Portugal.
As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas coisas nas gazetas, e dizia entre si:
—Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…
Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para repousar-se em fresca sesta a aurora.
Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia, conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo, com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas, distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.
Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de graciosas estantes eétagères, cheias de livros luxuosamente encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.
Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.
Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:
—Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.
Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera, e murmurou:
—Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de gratidão.
—Lagrimas… para que?—Volveu ella com meiguice.—As lagrimas deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento? Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas… Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da sciencia que m'o descubra. Não é assim?…
—Que fallar o seu prima!—disse com vehemente, mas suffocado amor, o morgado—Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamadaVilhalpandos, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á vida.
—Sempre lagrimas!…—atalhou Iphigenia—Então que é que diz o Sá deMiranda?
—Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras: «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua alma: «Sabes que sonho?»
—Fausta!… é um nome lindo, disse a mimosa viuva.
—Se não existisse Iphigenia…—accudiu Calisto. Já este nome me soava docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.
—Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o tinha no afflicto rosto da sua:
Ah!Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jourLe malheureux objet d'un si tendre amour?
O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?
—Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora, porque… não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha prima.
—Essas lisonjas—volveu ella sorrindo—aprendeu-as nos seus livros velhos, primo Calisto?
—A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?… Eu não podia mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!… Os meus classicos só me ensinaram duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!
Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.
A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias, poderia espantar-se: eu, não.
*E ella amava-o!*
Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.
O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da lua.
Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como concha de perola.
A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,—facto averiguado minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.
Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que, ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o moço, como quem se resguarda, desapparecia.
Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.
Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto, gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado. Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.
Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na testa do homem.
Lisongeou-se!… Pois amava-o ella?!
Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é felicidade que eu anteponha a todas.
Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama superciliosa na escolha.
Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios, sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor—o que é bello—; e na alma convencem a consciencia da adoração—o que é sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se, apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.
Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao assumpto.
Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:
—Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não assimelha ás outras.
—Pois que é, prima?… perguntou elle enleado e tremente.
—Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.
—Justificar-se….
—Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.
Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava calorosamente, a d'elle.
Seguiu-se silencio de alguns minutos.
Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.
A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser aquellaFortuna parva, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito Livio, a meu vêr, toma oparvano sentido debaixaoupequena: eu traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio, tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!
No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da arvore.
Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas passava rente d'elle hombro a hombro.
Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.
Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:
—Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?
Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz mesurada e sonora de Calisto.
—O senhor… disse elle.
—Eu, que?—atalhou o morgado á suspensão do moço.
—Com que direito vem aqui incommodar-me?—tornou o mordomo das tres virtudes cardeaes.
—Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v. ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a palestra.
Vasco não voltou.
*A saudade e a sciencia em dialogo*
Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso estas palavras:
—Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?
—Eu estou passado, fidalga!—disse o mestre-escola empunhando e sacudindo o queixo inferior.—Seu marido, a minha opinião é que ficou por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo, como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais simples.
—E que é ficar reduzido á… que? como disse vocemecê? perguntou D.Theodora.
—Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria… mas emfim… tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me ir com os outros… (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle nas cartas a v. ex.^a?
—Lá por milagre recebo alguma… Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha dias atraz. Ora leia lá isso.
Braz montou os oculos de cobre, e leu:
«Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado, que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de mais interesse. Teu primo e affectuoso maridoCalisto.»
Ahi tem vocemecê!—continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz e as mãos nos sovacos.—O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava bem senão á beira de sua mulher!… Que me diz a isto sr. Braz? Então vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto seria capaz d'isso?!
—Olhe fidalga—respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle usava solemnisar os dizeres graves.—Um homem cá nas aldeias é uma coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana, como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá com alguma menina que o embruxou…
—Sabe vocemecê que mais—interrompeu com abrupta resolução D. Theodora—pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até á capital. É o que eu faço!
—Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia—observou o mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde estavam dialogando—Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua, occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae, palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v. ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David, tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam muitos casos d'estes… Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar. Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.
—Isso é que era bom, sr. Braz!—exclamou Theodora, limpando as lagrimas ao avental de chita.
—Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz na eleição não me arrependo de lh'os fazer… Emfim, fidalga, se v. ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com elle para cima e com o habito.
—Está dito!—clamou Theodora—Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.
—Isso lá como v. ex.^a quizer… Eu, a fallar verdade, não estou muito indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos para pagar os direitos da mercê.
* * * * *
Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.
*Ingratidão de um deputado*
Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias. Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia frequentar regularmente a casa real.
Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo interrogado mandou-o á fava.
Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em Cintra para de lá governarem a monarchia.
Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista, velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.
Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados. Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.
Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.
O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura mysteriosa.
—D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?—perguntou um.
—Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.
—Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle emCintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.
—A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle está?
Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré, o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.
Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da casa.
D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de aveleiras.
Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a hospedaria.
Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez horas, consoante o costume.
Sentou-se á porta do pateo.
Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder, quando reconheceu o mestre-escola.
—Você aqui, Braz! disse elle.
O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:
—Que vejo! a voz é a do fidalgo!
—Sou eu, não tenha duvida nenhuma.
Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro, murmurando:
—Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca os meus olhos esperaram vêr!… V. ex.^a é outro homem!… Eu estarei a dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava dormindo.
—Entre cá dentro, disse o morgado.
Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:
—Que novidade o traz aqui?
—Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo…
—Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?
—Não sendo coisa muito de costa acima…
—Ha de arranjar-se. E que mais?
—-E que mais?…
Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o engasgarem nas respostas.
—Como ficou minha prima? disse Calisto.
—Está muito contristada, senhor.
—Porque?
—São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na eira… O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa… Mas como o fidalgo está mudado!… Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.
—Aonde?—atalhou desabrido o morgado.
—N'aquella casa que tem muitas flores.
—Quem o mandou lá?
—Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a
—E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava emCintra?
—Foi no palacio do rei que…
—Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!… Bem.Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?
—Não, sr. fidalgo… E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?—volveu logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.
—Não quero nada.
—Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.
Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se fechava, e disse:
—Sr. morgado…
—Que é?
—Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito deChristo. Faça favor de se não incommodar.
—É asno!—murmurou Calisto batendo a porta com impeto.