CAPITULO IIA REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO

Genebra perante a Reforma,pag. 67.—Farel em Genebra,pag. 68.—A mocidade de Calvino,pag. 69.—Institutos da Religião Christã,pag. 71.—Calvino em Genebra,pag. 73.—A sua expulsão,pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle,pag. 76.—AsOrdenanças ecclesiasticas,pag. 77.—Em que differem dosInstitutospag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes,pag. 81.—A morte de Calvino,pag. 82.—Succede-lhe Beza,pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma,pag. 83.—AConfissão de Zurich,pag. 84.

Genebra perante a Reforma,pag. 67.—Farel em Genebra,pag. 68.—A mocidade de Calvino,pag. 69.—Institutos da Religião Christã,pag. 71.—Calvino em Genebra,pag. 73.—A sua expulsão,pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle,pag. 76.—AsOrdenanças ecclesiasticas,pag. 77.—Em que differem dosInstitutospag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes,pag. 81.—A morte de Calvino,pag. 82.—Succede-lhe Beza,pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma,pag. 83.—AConfissão de Zurich,pag. 84.

Genebra perante a Reforma.—Depois da morte de Zwinglio e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.

Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente em guerra.

Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa LeãoXpoz á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nomede «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante francez, os huguenotes.

A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em Genebra.

Farel em Genebra.—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito opiniões desencontradas.

Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.

O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 tevelogar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os reformadores.

O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas reformadas da Europa.

A mocidade de Calvino.—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.

Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre MathurinoCorderier,[1]e em seguida para o Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, Ignacio de Loyola.

Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, nem fez voto de celibato.

Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira juridica.

Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombrosoCommentario ao Livro dos Psalmosdiz-nos que Deus o attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renuncioua uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella corresse.

Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.

[1]Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.

[1]Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.

[1]Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.

Os Institutos da Religião Christã.—Na primavera de 1536 publicou em Basiléa a primeira edição dos seusInstitutos da Religião Christã. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.

Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «A Sua Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João Calvino deseja paz e salvação em Christo». E ajuntava: «Exponho-vos a minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da superficie da terra».

Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholicade Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os romanistas.

Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seusInstitutosé necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas que fizessem a seguinte profissão de fé: «Creio em Deus Pae, e em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo, sendo esta a mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas palavras:e na Santa Egreja Catholica. Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.

OsInstitutosde Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja Catholica, e da sua natureza e distinctivos.

A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu tratado sobre oCaptiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com todaa clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nosInstitutos, não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.

Calvino em Genebra.—A publicação dosInstitutosfez com que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.

Diz elle no prefacio ao seuCommentario sobre o Livro dos Psalmos: «Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas.... Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter. E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que projectava.»

Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade. Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.

Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem, que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze, apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas, as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes, encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis, commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.

Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os habitantes de Genebra.

Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim, exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor, para evitar que esta fosse profanada.

No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.

Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam conservar nas suas mãos, não só a administração civil comoa disciplina da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham contribuido para o avanço da Reforma.

O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista, e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira, noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas, mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e punil-os mediante a perda dos sacramentos.

Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.

Calvino é expulso de Genebra.—Expulso de Genebra, Calvino foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, ásua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.

Genebra não pode passar sem Calvino.—No entretanto, Genebra continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.

A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.

Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente á causa publica.

Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimodifferente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.

Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados da chamada theocracia genebrense.

É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias se enchiam até á porta.

As ordenanças ecclesiasticas.—O que effectuou tudo isto foram as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.

Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores, presbyteros e diaconos.

Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.

Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina. Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da cidade, com previa consultados pastores; e todos elles tinham de ser membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.

A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia oConsistorio, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja. O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na qualidade de magistrados.

Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente nomeados pela junta.

O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os principios que Calvino expoz nos seusInstitutos, mas differe d’elles em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo elle fosse obra do Reformador.

NosInstitutosexpoz Calvino com a maxima clareza quaes são os verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja, e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro. Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito na verdadeira natureza e valor do presbytereado,que elle considerava a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.

As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos principios expostos nos Institutos.—Calvino combateu sempre energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente separadas uma da outra. NasOrdenançasnão se mantem esta separação. A censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa, de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino, só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.

Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava asOrdenançasum plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado. Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia, incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.

Não obstante, os pontos em que asOrdenançasdivergiam dos principios que Calvino expoz nos seusInstitutosderamoccasião a esses caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos, bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas asOrdenanças Ecclesiasticasas leis foram applicadas com um rigor anteriormente desconhecido.

O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas, as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão. Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi castigado por não comer carne á sexta-feira.

É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital, com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam para que ella fosse posta em pratica, em detrimentoda reforma da egreja de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião. Tudo isto tem de ser admittido.

As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.—Devemos lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão turbulenta como Genebra.

A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.

O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.

Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se notam entre osInstitutose asOrdenanças Ecclesiasticas. É preciso não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados foram aquelles pontos dasOrdenançasque não eram da responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes?Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem precaver.

A morte de Calvino.—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.

Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos incompletos.

Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.

Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.

Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.

Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformouem affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:

«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior christão do seu tempo».

Beza, o successor de Calvino.—Theodoro Beza succedeu a Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com maior acatamento.

A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.—Sob a influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.

Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de Zurich.

O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve Catecismo da Assembléa de Westminster.

A Confissão de Zurichfoi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.

Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida celestial».

A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; esteshomens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o maximo rigor e coherencia.»

A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.


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