Chapter 5

Principios da Reforma em França,pag. 87.—Francisco I,pag. 89.—AConcordatade 1516, e a feição que ella deu á Reforma,pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz»,pag. 90.—O anno dos placards,pag. 92.—O Vaudois da Durance,pag. 92.—Henrique II e os Guises,pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada,pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon,pag. 96.—O primeiro Synodo Nacional,pag. 97.—Anne de Bourg,pag. 98.—O massacre de Amboise,pag. 99.—Coligny na Assembléa dos Notaveis,pag. 100.—Catharina de Medicis,pag. 100.—A Conferencia de Poissy,pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas,pag. 103.—Coligny e Carlos IX,pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu,pag. 107.—A Santa Liga,pag. 109.—Henrique de Navarra,pag. 110.—O edicto de Nantes,pag. 110.

Principios da Reforma em França,pag. 87.—Francisco I,pag. 89.—AConcordatade 1516, e a feição que ella deu á Reforma,pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz»,pag. 90.—O anno dos placards,pag. 92.—O Vaudois da Durance,pag. 92.—Henrique II e os Guises,pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada,pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon,pag. 96.—O primeiro Synodo Nacional,pag. 97.—Anne de Bourg,pag. 98.—O massacre de Amboise,pag. 99.—Coligny na Assembléa dos Notaveis,pag. 100.—Catharina de Medicis,pag. 100.—A Conferencia de Poissy,pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas,pag. 103.—Coligny e Carlos IX,pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu,pag. 107.—A Santa Liga,pag. 109.—Henrique de Navarra,pag. 110.—O edicto de Nantes,pag. 110.

Principios da Reforma em França.—Antes da Reforma se ter tornado em França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.

Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados, durante as perseguiçõesdos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.

Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas nas linguas originaes.

Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.

Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a França.

Francisco I.—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seusInstitutos da Religião Christã. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.

A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.—A independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a SancçãoPragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.

Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse com direito aoAnnates, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu em vigor até á Revolução.

A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.

Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.

«A Egreja que estava debaixo da Cruz».—Luthero tinha, na Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, nãorecebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».

Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.

Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas disposições.

A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a exterminação da heresia.

O anno dos placards.—Em breve, porém, poz de parte este seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seusInstitutos.

Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.

Os valdenses da Durance.—A maior atrocidade commettida durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços que elles prestavam.Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.

O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o infameArrêt de Mérindol, que, em resumo, ordenava a destruição de toda a aldeia.

A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.

Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.

Henrique II e os Guises.—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiverampor sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o Delphim de França.

Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lheschambres ardentes. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.

Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.

Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.

Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido paradistribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.

Organisação da Egreja reformada.—No meio d’estas terriveis perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.

O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.

Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se umaEgreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.

Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.

Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.—Vendo que eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um forte partido huguenote.

A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.

Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.

Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme,Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se atreveram a castigal-o.

Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.

O primeiro synodo nacional.—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiroSynodo Nacional. O que motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.

A Confissão, conhecida depois pelo nome deConfessio Gallica, foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante Franceza.

O Livro da Disciplina Ecclesiasticafoi modelado pelasOrdenançasque Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade ecclesiastica.

É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central. Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral, privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas escocezas e francezas.

Anne de Bourg.—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.

O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas,invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me ao logar do supplicio.»

Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.

O morticinio de Amboise, longe de aterrorizar os protestantes, parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome deHuguenotes. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao arlivre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.

Coligny na Assembléa dos Notaveis.—A côrte, comtudo, estava convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o culto divino.

Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.

Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá partiram.

O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.

«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos do filho».

Catharina de Medicis.—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarrainstaram com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no poder.

As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da morte do ultimo rei.

Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.

As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres catholicos romanos.

Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivelpor conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».

A Conferencia de Poissy.—A data designada para a Conferencia approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.

Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem, produziram sensação na côrte.

Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.

Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveiscondições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».

Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.

O massacre de Vassy: outros massacres.—O signal foi dado pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.

O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do centenario.

Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.

A guerra civil. Os iconoclastas.—No meio de tudo isto os dois partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos,ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.

O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.

Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé, acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior. Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre crescendo, começou a declinar.

O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra; ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha deDreux, em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.

Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas; e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em dois recintosintra-muros, que serão opportunamente designados pelo rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.

As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto. Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram identicas ás do Edicto de 1562.

Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba, o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva. Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente, supprimir a obnoxia fé.

Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que nãotinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos protestantes como logares de refugio.

Coligny e Carlos IX.—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas. Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma suspeita em todo o reino».

Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como nunca tinha confiado em pessoa alguma.

Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a causa do massacre de S. Bartholomeu.

Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim a sua morte, e que, portantonunca havia de ter paz emquanto os protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.

A matança de S. Bartholomeu.—Esta terrivel carnificina de protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas pelos irmãos Guise.

Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem vida 70:000 pessoas.

Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha para commemorar oHugonotorum Strages. Alguns dos principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a noticia lhe constou.

O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.

La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidadesde um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.

D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.

Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se, para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de intervir.

Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhesahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.

Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas mãos dos protestantes.

A Santa Liga.—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.

Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta, como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos protestantes.

Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours, que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram victoriosos.

As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembrode 1588, juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir. É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga, foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo herdeiro da corôa de França.

Henrique de Navarra.—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria. O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.

A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique, (que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de Hespanha, que tinha casado com uma Valois.

Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu, e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu, havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam luctado durante trinta annos.

O Edicto de Nantes.—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes, que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém,um grande defeito, e era que as circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.

Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas. Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações. Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc. Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da egreja catholica.

Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597, com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram nomeados pelos huguenotes.


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