Será adoptada a Reforma?pag. 175.—A visita real, oLivro de Homiliase oLivro de Oração Commum,pag. 176.—A alliança com o protestantismo continental,pag. 178.—OsQuarenta e Dois Artigos,pag. 178.—Os principios do puritanismo,pag. 179.—A morte de Eduardo VI,pag. 181.—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria,pag. 182.—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra,pag. 183.—Como Maria se firmou no throno,pag. 183.—A alliança hespanhola,pag. 184.—A reconciliação com Roma,pag. 184.—Porque não foi bem succedida a reacção papal?pag. 185.—As perseguições durante o reinado de Maria,pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja,pag. 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo,pag. 187.—A morte de Maria,pag. 187.
Será adoptada a Reforma?pag. 175.—A visita real, oLivro de Homiliase oLivro de Oração Commum,pag. 176.—A alliança com o protestantismo continental,pag. 178.—OsQuarenta e Dois Artigos,pag. 178.—Os principios do puritanismo,pag. 179.—A morte de Eduardo VI,pag. 181.—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria,pag. 182.—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra,pag. 183.—Como Maria se firmou no throno,pag. 183.—A alliança hespanhola,pag. 184.—A reconciliação com Roma,pag. 184.—Porque não foi bem succedida a reacção papal?pag. 185.—As perseguições durante o reinado de Maria,pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja,pag. 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo,pag. 187.—A morte de Maria,pag. 187.
Será adoptada a Reforma?—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.
A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os bons tempos.
A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.
Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma ou se reconciliaria com Roma.
Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias prerogativas.
A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração Commum.—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimohavia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz umLivro de Homilias, que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de ser lido nas egrejas. AParaphrase do Novo Testamento, de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem fosse lida no culto publico.
Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos visitadores.
Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu osSeis Artigos, declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.
As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso doLivro de Oração Commum, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este oPrimeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI, e, posto que mais tarde passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.
Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na quaresma.
Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á preparação de um novoLivro de Ordem.
Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido pelo conde de Warwick.
A alliança com o protestantismo continental.—A subida de Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.
Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.
Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos seus artigos.
Os Quarenta e Dois Artigos.—Um dos resultados d’estas discussões e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dosQuarenta e Dois Artigos, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.
A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.
Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo daactual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.
Os principios do puritanismo.—A livre discussão da theologia reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.
Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos inglezes.
É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo nãosignificou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas para a congregação.
A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me ajudem».
Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado afastamento escreveu umaConfissão e Protestoem que expunha com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas borrascas n’um futuro proximo.
Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em quetodos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a communhão.
Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.
Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.
A morte de Eduardo VI.—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.
Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.
O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.
Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, porconseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante. Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.
Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.
A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.
O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria (1553).—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.
Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.
Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religiãomas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva a supremacia real.
Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á politica ecclesiastica.
A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.—Maria subiu ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.
Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe, herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer as pazes com o papa.
O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado; mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos até a Inglaterra se achar preparada para o receber.
Como Maria se firmou no throno.—Ao principio fel-o com bastante facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um meio excellentepara fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha, por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume. Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições em que Henrique VII a havia deixado.
A alliança hespanhola.—O povo inglez não via com bons olhos a alliança hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação, tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento, redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.
O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir, bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com a Hespanha.
A reconciliação com Roma.—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano. Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente. Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares. Por um lado, o papa nãodeixaria de insistir na sua restituição, e, por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e restituil-as á Egreja.
Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.
O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em 1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas. A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.
Porque não foi bem succedida a reacção.—No espaço de dois annos a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como se operou esta transformação?
É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.
As perseguições no reinado de Maria.—Os protestantes que existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.
A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.
E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.
Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com satisfação.
As terras da Egreja.—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?
O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.
O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.—Os theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.
O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.
A morte de Maria.—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filhaillegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo dezeseis.
A successão de Isabel,pag. 189.—Como se liquidou a questão religiosa,pag. 190.—Os trinta e nove artigos,pag. 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes,pag. 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino,pag. 194.—A lucta interna com o catholicismo romano,pag. 195.—A Armada hespanhola,pag. 196.—As prophecias,pag. 197.—Osconventiculos,pag. 198.—Os pamphletos anti-prelaticios,pag. 198.—A Reforma ingleza,pag. 198.
A successão de Isabel,pag. 189.—Como se liquidou a questão religiosa,pag. 190.—Os trinta e nove artigos,pag. 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes,pag. 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino,pag. 194.—A lucta interna com o catholicismo romano,pag. 195.—A Armada hespanhola,pag. 196.—As prophecias,pag. 197.—Osconventiculos,pag. 198.—Os pamphletos anti-prelaticios,pag. 198.—A Reforma ingleza,pag. 198.
A sucessão de Isabel.—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.
A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.
A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanholadependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.
Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real, posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» (Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação d’elles, adoptada.
A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e fazer-se egualmente protestante.
Como se liquidou a questão religiosa.—Isabel não era, de maneira nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.
Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria,e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu caminho.
Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.
O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.
Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.
Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.
Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base catholica romana.
Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido,e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamadaOs Onze Artigos. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».
Os trinta e nove artigos.—Este curto formulario de doutrinas foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nosQuarenta e dois Artigosde Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.
O puritanismo e as vestimentas clericaes.—A rainha não gostava dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bomexito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.
Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano. Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não criam.
A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal, e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com os usos estabelecidos.
A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão, que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas estabelecidas.
O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam inhibidos de tomar parte nos serviços. Asprisões e as multas só serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia. Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.
O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador, e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox, escreveram um folheto moderado—Uma advertencia ao parlamento—sobre a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos quaesquer. Cartwright escreveu umaSegunda Advertenciaem defeza dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575, havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.
A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.—Ha alguma desculpa para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra», exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.
Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia determinado conservar em paz o seu paiz.
Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil, o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França, Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de proteger perseguidos correligionarios.
Luctas intestinas com o catholicismo romano.—A politica da côrte romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que advertissem Isabel da sorte que a esperava.
A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno inglez.
Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia, foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.
É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.
Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino, reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a Hespanha.
Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas. E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria Stuart no throno de Inglaterra.
Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um facto consumado.
A Armada hespanhola.—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no sentido de subjugar a Inglaterra.
A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham, apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.
O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando comsigo a flôridas tropas hespanholas.
Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas. Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra; e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.
Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel vencer a Inglaterra.
É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum, e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.
As prophecias.—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto. A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os «Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, umaimitação d’elles, chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via, mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros se deviam limitar a ler asHomiliasás congregações. O arcebispo Grindal era favoravel a estasProphecias, e quando a rainha lhe ordenou para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.
Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.—Quando Grindal morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos. Surgiram as seitas não-conformistas.
Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano, e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido. Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido, rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie de opusculos chamadosAnti-prelaticios. Esses opusculos atacavam o systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.
A Reforma inglezaficou firmemente estabelecida depois da derrota da Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua posição.
A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na doutrina quer no culto.
Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.
Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado protestante.
Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.
Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—queestabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
Os bispos prepararam osOs trinta e nove Artigos, que o bispo Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra e Canterbury.
Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.
Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.
Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos ritualistas anglicanos.
Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é, sob o systema puritano, romanista e anglicano.
A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.
Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia que a caracterizava, obstar a que aEgreja do seu paiz se reformasse por completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado estas duas calamidades.