Capitulos:
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes,pag. 205.—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus,pag. 206.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus,pag. 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,pag. 209.—A imitação de Christo,pag. 209.—Francisco de Assis,pag. 210.—Os mysticos da Edade Media,pag. 211.—A significação do perdão, segundo a Reforma,pag. 212.—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma,pag. 213.
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes,pag. 205.—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus,pag. 206.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus,pag. 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,pag. 209.—A imitação de Christo,pag. 209.—Francisco de Assis,pag. 210.—Os mysticos da Edade Media,pag. 211.—A significação do perdão, segundo a Reforma,pag. 212.—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma,pag. 213.
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes.—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em que a Reforma appareceu.
A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimentodas modernas nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha um caminho especial a percorrer.
O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.
Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.
Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser agitadas por elles.
Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e tirou d’ellas mesmas a sua força.
Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.—O que mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um movimentode revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença divina.
Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que Deus dá gratuitamente.
Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima de S. João, beneficiando o proximo.
A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximardo compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para acabar de encher os seus cofres.
A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e obstaculos.
Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.—É natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma idéa geral do que se passou.
«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas.O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.
A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um homem era chamadosantose pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia ao outro; um frade era um homemsanto, um guarda do imperador era um homem secular. Um campo erasantose um papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.
Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de Christo.—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôrem contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
Francisco de Assis.—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a daimitação de Christo; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e individual separação do mundo, muito differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos de Christo.»
Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza, castidade e obediencia.
O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais genuina imitação de Christo.
Os Mysticos medievaes.—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, emque abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
A significação do perdão, segundo a Reforma.—Todos estes movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.
Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a Reforma effectuou.
Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimentodo perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.—Sendo este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologiatinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora que Elle revelou em Christo.
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca,pag. 215.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade politica,pag. 216.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma,pag. 217.—ODe Monarchiade Dante e oDefensor Pacisde Marcello de Padua,pag. 218.
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca,pag. 215.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade politica,pag. 216.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma,pag. 217.—ODe Monarchiade Dante e oDefensor Pacisde Marcello de Padua,pag. 218.
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca.—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.
A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante, levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades. Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos, dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros. Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis concernentes á propriedade.
A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigosnão podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento, ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões juridicas deu logar a Reforma.
Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal. E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a dignidade das esposas e dos filhos.
Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e a da hereditariedade.
A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.—Segundo as noções medievaes, a sociedade estava dividida emEgreja e em Estado politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa; era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.
Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado, n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão, o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.
Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.
Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.—As idéas medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza deProemunire, que prohibe appellações para Roma, significava que existia no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar; e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida, segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno do imperador ou da cadeira do papa.
Noções independentes queria dizer egrejas independentes,e a revolta de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior, uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder ecclesiastico.
A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo; tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização. Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.
Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade de povos.
A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de Marcello de Padua.—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.
Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e das nações europeas, escreveu a suaDe Monarchiapara mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seulado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este livro é o epitaphio do medievalismo.
Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o seu livro, oDefensor Pacis, que explicava como a verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da actualidade.
Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para dentro.
Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval,pag. 221.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino,pag. 222.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos,pag. 223.
Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval,pag. 221.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino,pag. 222.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos,pag. 223.
Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.—Nenhum dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus desde a infancia.
Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até aos seus dias.
A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?
Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do Imperio medieval.—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não viviam mais em communhão com elle oucom a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos privilegios da Egreja.
Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.
O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava no Imperio Romano.
Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.
A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.—O imperio medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos,e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»
Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar. Intitulou-oSobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da escravidão.
A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.
Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seusInstitutosdiz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel, introduzidas.
A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.—Os cabeças da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, daEdade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.
Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.
Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario,communhão com os santos. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.