Os Paizes Baixos,pag. 113.—A politica de Carlos V,pag. 114.—Os principios da Reforma,pag. 115.—Filippe II e os Paizes Baixos,pag. 115.—A inquisição,pag. 117.—Os novos bispados,pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz?pag. 119.—Osmendicantes,pag. 120.—Prégações ruraes,pag. 120.—O duque de Alba nos Paizes Baixos,pag. 121.—A prisão do conde Egmont e do conde Horn,pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,pag. 124.—Os mendigos do mar,pag. 124.—A tomada de Brill,pag. 126.—Requescens y Zuniga,pag. 128.—O cerco de Leyden,pag. 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte,pag. 130.—D. João de Austria,pag. 131.—Alexandre de Parma,pag. 132.—O tratado de Utrecht,pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão,pag. 133.—OConfessio Belgica,pag. 134.—A constituição da Egreja hollandeza,pag. 134.—A força da Egreja na Hollanda,pag. 136.
Os Paizes Baixos,pag. 113.—A politica de Carlos V,pag. 114.—Os principios da Reforma,pag. 115.—Filippe II e os Paizes Baixos,pag. 115.—A inquisição,pag. 117.—Os novos bispados,pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz?pag. 119.—Osmendicantes,pag. 120.—Prégações ruraes,pag. 120.—O duque de Alba nos Paizes Baixos,pag. 121.—A prisão do conde Egmont e do conde Horn,pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,pag. 124.—Os mendigos do mar,pag. 124.—A tomada de Brill,pag. 126.—Requescens y Zuniga,pag. 128.—O cerco de Leyden,pag. 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte,pag. 130.—D. João de Austria,pag. 131.—Alexandre de Parma,pag. 132.—O tratado de Utrecht,pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão,pag. 133.—OConfessio Belgica,pag. 134.—A constituição da Egreja hollandeza,pag. 134.—A força da Egreja na Hollanda,pag. 136.
Os Paizes Baixos.—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.
Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.
A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.
Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente atacados.
Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.
A politica de Carlos V.—No seculo quinze a maior parte d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.
Carlos V, que era conde de Hollanda, estadtholderdos Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de procedencia hespanhola.
Os principios da Reforma.—Quando a Reforma começou na Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das obras de Luthero.
Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.
Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»
O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar pela liberdade politica e religiosa.
Filippe II nos Paizes Baixos.—Carlos viu todos os seus projectos transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade.«Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.
Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das provincias.
Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes da soldadesca.
Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias queriam que esse encargo recaissesobre um dos seus nobres, e os nomes de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont, que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.
A Inquisiçao.—O mais importante elemento de repressão, comtudo, foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media, mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre uma base independente.
Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.
A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado, prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição tornava-se assim uma terrivelmaquina nas mãos de um governo despotico, e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.
A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella abertas.
Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir, copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550 já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio que lhes fosse necessario.
Os novos bispados.—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém, foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os casos de heresia fossem julgados e sentenciados.
Tornar-se-ha hespanhol o paiz?—No entretanto o paiz ia-se alarmando. Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.
Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as imagens.
Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam protestado.
A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.
Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres seriam attendidas.
Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e danossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». «E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode inventar.»
Os mendicantes.—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.
Prégações ruraes.—O nome de mendicantes foi adoptado com grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não poderia conter a excitação popular.
O povo, encorajado com a immunidade com que as prégaçõesao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.
Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.
Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.
O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.
O duque de Alba nos Paizes Baixos.—Fernando Alvarez de Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendoua Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos de misericordia.
Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o Luxemburgo e Paizes Baixos.
Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter entrado no paiz.
A prisão dos Condes Egmont e Horn.—A primeira coisa que elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.
Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei.Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do «rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.
Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de aterrorisar o povo. Organizou umConselho de Disturbios, que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»
No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.
A guerra civil. O principe de Orange.—Em 1568 o principe de Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.
O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em auxilio dos huguenotes francezes.
Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.
Os mendigos do mar.—A parte mais valente da população neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.
Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em terra.
O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.
O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado aCentesima. A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordensterminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto sobre as vendas não podia ser cobrado.
A tomada de Brill.—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.
De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.
Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça».Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.
Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes quando vissem que não podiam convertel-os.
Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».
A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarcaque o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição hespanhola.
Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.—A pessoa que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo com os insurrectos.
Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma politica havia provocado.
A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmãoLuiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam deixar de reconhecer a sua derrota.
Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.
O cerco de Leyden.—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertarmuito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a chorar.
A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.
Negociações entre as provincias do sul e as do norte.—O levantamento do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinioe durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.
O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou aPacificação de Ghent, que foi assignada por delegados de dezesete provincias.
Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendostatholderaté posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.
D. João de Austria nos Paizes Baixos.—APacificação de Ghentalarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos na qualidade destatholdercom plenos poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação doEdictum Perpetuum, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austriaa atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e ostatholdersentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.
Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.—Alexandre Farnese, principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.
O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua determinação de permanecerem livres.
O Tratado de Utrecht.—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a quem assassinasse o principe.
Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo gradualmente uma completa independencia politicae tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era disputada pela Inglaterra.
A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.—Durante os annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo,e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.
A Confissão Hollandeza.—N’uma epoca relativamente afastada, isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar pela Escriptura a religião reformada.
Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebreConfessio Gallica.
Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou osInstitutosde Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se a si proprios».
Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo.
A Constituição da Egreja Hollandeza.—Em 1563, isto é, quando ainda havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja, que copiou, em grande parte, os seus principios dasOrdenanças Ecclesiasticasde Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana, com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyterianado governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o peso da cruz.»
N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ásassembléas classicas, ou presbyterios; e todos os presbyteros e diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes ao governo da Egreja.
Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos, assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.
A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros. A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas separadas quantas eram as provincias.
As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra, e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado.
Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia.
Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na Hollanda, entre a Egreja e o Estado.
A força da Egreja na Hollanda.—A prolongada peleja de quarenta e cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo. Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia.
A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com o papismo hespanhol.