The Project Gutenberg eBook ofA Reforma

The Project Gutenberg eBook ofA ReformaThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: A ReformaAuthor: Thomas M. LindsayTranslator: J. S. CanutoRelease date: June 23, 2020 [eBook #62461]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: A ReformaAuthor: Thomas M. LindsayTranslator: J. S. CanutoRelease date: June 23, 2020 [eBook #62461]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net

Title: A Reforma

Author: Thomas M. LindsayTranslator: J. S. Canuto

Author: Thomas M. Lindsay

Translator: J. S. Canuto

Release date: June 23, 2020 [eBook #62461]Most recently updated: October 18, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the OnlineDistributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net

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A REFORMA

PORT. M. LINDSAYDOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA ECLESIASTICA

TRADUCÇÃO de J. S. CANUTO(AUCTORISADA)

LIVRARIA EVANGELICARUA DAS JANELLAS VERDES, 32LISBOA

LISBOATYP. ROSA, LIMITADA29, Rua da Magdalena, 31

As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné: a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente, este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto, que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella epoca.

O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção. Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e social.

Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar um continuo uso dasHistorias da Egrejade Hagenbach e Henke, doPeriodo da Reformade Haüsser, dosHuguenotesde Baird, de dois volumes dasEpocas da Historia Modernade Longman, daEra da Revolução Protestantede Seebohm, e doSeculo de Isabelde Creighton. Refiro-me frequentemente áHistoria dos Credos do Christianismoao tratar das Confissões, e á inapreciavel collecção deLivros de Disciplina, de Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas reformadas.

A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar, servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de que só elle é responsavel.

O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis tabellas de Weingarten.

T. M. LINDSAY.

Capitulos:

O principio da Reforma,pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses que Luthero escreveu contra as mesmas,pag. 5.—As Theses de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias,pag. 6.—A historia de Luthero, desde o principio,pag. 7.—Partidarios e adversarios de Luthero,pag. 9.—A disputa de Leipzig,pag. 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma,pag. 12.—O imperador e a Reforma,pag. 14.—O estado politico da Allemanha,pag. 15.—Luthero e a dieta de Worms,pag. 16.—Luthero em Wartburgo,pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg,pag. 19.—A dieta de Nürnberg,pag. 20.—A revolta dos nobres,pag. 21.—A revolta dos camponezes,pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma,pag. 32.—A Conferencia de Marburgo,pag. 33.—Divergencia entre Luthero e os suissos,pag. 33.—A Dieta de Augsburgo,pag. 36.—A Confissão de Augsburgo,pag. 38.—A Liga Protestante de Schmalkald,pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald,pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,pag. 43.—Loyola e os jesuitas,pag. 45.—A paz religiosa de Augsburgo,pag. 47.

O principio da Reforma,pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses que Luthero escreveu contra as mesmas,pag. 5.—As Theses de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias,pag. 6.—A historia de Luthero, desde o principio,pag. 7.—Partidarios e adversarios de Luthero,pag. 9.—A disputa de Leipzig,pag. 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma,pag. 12.—O imperador e a Reforma,pag. 14.—O estado politico da Allemanha,pag. 15.—Luthero e a dieta de Worms,pag. 16.—Luthero em Wartburgo,pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg,pag. 19.—A dieta de Nürnberg,pag. 20.—A revolta dos nobres,pag. 21.—A revolta dos camponezes,pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma,pag. 32.—A Conferencia de Marburgo,pag. 33.—Divergencia entre Luthero e os suissos,pag. 33.—A Dieta de Augsburgo,pag. 36.—A Confissão de Augsburgo,pag. 38.—A Liga Protestante de Schmalkald,pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald,pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,pag. 43.—Loyola e os jesuitas,pag. 45.—A paz religiosa de Augsburgo,pag. 47.

O principio da Reforma.—A reforma principiou, se é que similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.

O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença nãotinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.

A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.

As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam apparecer pelas feiras.

Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero,nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.

As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.—As indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida espiritual.

É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.

No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.

As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo,digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado,concedido por Deus; mas uma tal proclamação deve ser sempre gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação d’esse estado.

As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.—Luthero, nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.

A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual»quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.

E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o systema todo. A Reforma tinha começado.

A historia de Luthero, desde o principio.—O homem que se oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto bem evidente, como vamos ver.

Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto.Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande jurisconsulto.

Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida passada.

No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação. Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir uma Bibliacompleta, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.

No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminentedos principes allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os Mysticos, osSermõesde Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro,A Theologia Allemã. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta cria na justificação pela fé.

Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça, e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e, caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.

Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador; mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que appareceram as famosas indulgencias.

Partidarios e adversarios de Luthero.—Ao principio parecia que toda a Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e descobriram heresias nas mesmas.

Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, emRoma, na presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação, recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã. O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero, mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.

Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso. O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio, que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:


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