VIIO retrato

VIIO retratoSahindo, pela fórma porque o fez, do pequeno compartimento em que recebeu o terrivel golpe da espantosa revelação, Chalinhy não pensou no que fazia. Sentiu que não teria força em si e que necessitava deixar passar algum tempo antes de proceder. Era sobre tudo necessario que não visse Valentina. Se a visse, não poderia conter-se, fallar-lhe-hia com certeza no assumpto e nãodeviafallar-lhe. Tinha dado a sua palavra a Joanna e, além d'isso era sua convicção que não surprehenderia a culpada se não procedesse com dissimulação.{116}Sahiu do palacio, dizendo que não vinha jantar. Depois da scena d'essa manhã, a sahida de Chalinhy, sem se ter despedido da esposa, era de natureza a causar admiração a Valentina, mas elle calculou que se voltasse a casa não poderia ser superior aos seus nervos e provocaria uma explicação plausivel. Caminhava depressa, com receio de que Joanna de Node sahisse logo tambem, e não queria encontrar-se outra vez com ella. A presença da perigosa amante, n'aquelle momento, era-lhe physicamente intoleravel. Tinha-o ferido muito bruscamente, muito brutalmente, n'uma das mais intimas fibras do coração.Por mais intelligentes e perspicazes que as mulheres sejam não medem com exactidão certas reacções da alma masculina, quando principalmente procedem do orgulho molestado. Onde iria o marido repentinamente ferido na sua dignidade de homem? Nem elle mesmo o sabia.As palavras inolvidaveis resoavam-lhe ainda aos ouvidos. As imagens evocadas com intelligencia por a invejosa, fixaram-se no campo luminoso do seu pensamento em fórmas tão nitidas como se pessoalmente tivesse assistido á subida da mãe dos seus filhos para a carruagem furtiva, á descida na rua suspeita, e á entrada na casa equivoca. Esta serie de factos positivos, não deixaram a menor duvida no seu espirito suggestionado, sem que desse por isso, pela odiosa paixão que Joanna tinha desenvolvido.Por uma invencivel e espontanea associação de idéas, as continuas impressões mal definidas que{117}experimentou durante a sua estranha vida conjugal e que tinham por base o silencio, reappareciam agora e coordenavam-se.Toda a timidez experimentada na frente de Valentina lhe refluia ao coração. Tinham agora para elle perfeita explicação na força da hypocrisia d'essa mulher, tão reservada, tão retrahida, que não teria mesmo ousado julgal-a capaz da mais simples leviandade, e via-a sempre, n'essas duas scenas que Joanna observou com os seus proprios olhos: sua mulher, a marqueza de Chalinhy, deslisando por entre os frequentadores do grande armazem, para transpor d'uma a outra porta—do seucoupéá carruagem alugada—como uma adultera ignobil—sua mulher a pudica, a timida Valentina, aventurar-se a ir a essa rua do arrabalde.A visão tornava-se precisa, uma verdadeira allucinação, e a revolta contra esse angelico e puro rosto que por tanto tempo o havia enganado, sob a impressão do qual tanto se havia enternecido ainda n'essa manhã, produzia no sangue do marido ultrajado a febre do homicidio. Tendo caminhado a direito, sem mesmo saber para onde ia, chegou, sem dar por isso, á estação do caminho de ferro de Montparnasse. Parou por algum tempo defronte dagaree depois, na incerteza de saber que direcção devia tomar, uma imperiosa tentação se apoderou d'elle, invencivel desde logo, a de ir até á rua Lacépède, cujo nome desde a vespera se associava ao seu d'uma maneira, que lhe pareceu tão ridicula quando leu a carta anonyma, e que, n'aquelle{118}momento, depois da conversa com Joanna, lhe parecia tão espantosamente insultante.Para o inquerito a que ia proceder, até surprehender a esposa no flagrante delicto de adulterio, o grande, o unico dever da sua vida, não seria o primeiro ponto a illucidar a existencia da casa onde se realisavam as entrevistas amorosas?E depois, mesmo sem esta rasão, não devia Chalinhy experimentar uma imperiosa necessidade de ver o local onde era arrastada a sua honra conjugal?O ciume, uma vez despertado, tem sempre este apetite da realidade concreta e viva, que supplicia e satisfaz ao mesmo tempo. O irresistivel desejo do homem que se julga trahido é conhecer todos os detalhes da perfidia de que é victima; figurar com uma implacavel brutalidade cada episodio; experimentar o paroxismo da sua dôr ao contacto do immovel e indestructivel quadro que foi theatro do indelevel ultrage.Começou para Chalinhy este paroxismo, quando o seu olhar encontrou pela primeira vez, sobre a placa da esquina da rua que procurava, o nome já tão detestado. A memoria do sabio naturalista e do sagaz cortezão que ella perpetuava n'este bairro de miseraveis, parecia bem mal escolhido para se associar a emoções d'esta ordem! Chalinhy tinha continuado a andar, parando, de quando em quando, como um provinciano perdido n'este grande Paris, perguntando informações sobre o caminho a seguir, umas vezes á policia e outras aos tranzeuntes.{119}A pequena actividade animal do movimento abrandou um pouco o seu furor.Augmentou quando os seus pés tocaram no pavimento da rua maldita. Entrou n'ella pelos quarteirões superiores, que a rua Monge separa dos inferiores, de maneira que, não vendo logo nas duas linhas de casaria nenhum predio que correspondesse aos signaes do pavilhão, teve um momento de duvida, e, portanto, de allivio.A inspecção dos numeros bem depressa lhe fez comprehender o seu erro. Deu mais alguns passos e do lado dos numeros impares apparecia a casa mysteriosa, tal como Joanna lha havia descripto: com as grades de ferro das janellas do rez-do-chão pintadas de preto, a porta escura elevada por trez degraus, as sacadas do primeiro e do segundo andar burguezmente guarnecidas de bambinellas de musselina, e o muro do jardimsinho com as suas tilias.Era mais de meio dia, e o sol d'esta bella tarde de novembro estava limpo do nevoeiro que o velára durante a manhã. O céo azul pallido, onde fluctuava uma humidade doce, banhava os ramos das arvores meio despidas.O vento destacava d'ellas, de quando em quando, uma folha côr d'ouro, que volteava lentamente e vinha algumas vezes cahir para fóra do muro. A alegria da hora do almoço enchia com a sua expansão a modesta rua. N'uma casa de pasto, de má apparencia, em cujo frontespicio estavam escriptas as seguintes palavras, cheias de promessas: «Refeições baratas», vinham instalar-se varios operarios.{120}Duas aprendizas, raparigas ainda, da lavandaria proxima, sahiam em cabello para irem comer, á pressa, a casa da familia, no fundo d'algum pateo de qualquer das travessas visinhas.Algumas das janellas do pavilhão estavam abertas, e sahia fumo por dois tubos de chaminés. Se o honesto aspecto da casa havia surprehendido bastante o marquez de Chalinhy, estes indicios que mostravam ser ella habitada regularmente, mais o espantavam ainda. Não estava, então, deante da casa suspeita escolhida por dois amantes que querem ali encontrar-se, de vez em quando, durante algumas horas, occultamente. Mas, então, o desconhecido que Joanna viu chegar em carro de aluguer, era o habitante permanente d'aquelle casa? Era pouco provavel, em vista da sua attitude impaciente do homem que chega tarde a uma entrevista amorosa, e que manda esperar a carruagem para tornar a ir n'ella. Quanto mais o marido de Valentina estudava o aspecto mudo d'essa casa mais o seu frenesi dos primeiros momentos, misturado d'uma aguda curiosidade, acabava por o impellir aos actos mais oppostos ao seu caracter. Avistando um ferro velho que fumava no seu cachimbo á porta da locanda, que ficava a alguns passos de distancia, avançou bruscamente para elle e sem mais preambulos:—«Queres ganhar uma nota de cem francos?» perguntou Chalinhy.—«Ixonão se pergunta» respondeu o interrogado. Era um dos muitos ferros velhos que tanto abundam n'aquelle bairro, um Auvernhez de cara{121}redonda, que pronunciava oximclassico dos naturaes de Saint Flour, por o «sim», apezar de viver ha trinta annos em Paris. O seu olhar vivo denunciava a esperteza campesina tão peculiar n'essa classe de vendedores ambulantes, que se fornecem das casas de bric-á-brac. Com a prudencia innata d'um filho do Cantal, acrescentou logo—sempre com a mesma pronuncia tão pitorescamente caracteristica—«Ixodepende do trabalho que tiver de fazer.»—«Tens apenas que me responder a uma pergunta», e indicou o pavilhão: «Quem móra n'aquella casa?»—«N'aquella casa?» respondeu o futuro antiquario, com uma finura nescia, «é o seu dono, está claro!»—«E quem é o seu dono?» insistiu Chalinhy, imperativamente: «Dou-te duzentos francos de gratificação se m'o disseres immediatamente, senão vou perguntal-o a outra pessoa...»—«É o senhor Dumont», respondeu o auvernhez, depois de ter reflectido. Pensou, sem duvida, que um dos seus collegas da rua seria menos escrupuloso, e duzentos francos, em Paris como em Saint-Flour, era muito dinheiro!—«É novo ou velho?...»—«Velho,» repetiu o homem, «e muito doente. Está paralytico. O anno passado ainda sahia de carruagem; mas este anno vio-o só uma ou duas vezes...»—«Recebe muitas visitas?» perguntou Chalinhy.{122}—«Muito poucas», respondeu o provinciano a quem os duzentos francos pareciam estar já bem ganhos, e, por isso, deu a conversa por terminada com a seguinte phrase: «não posso dar mais informações, é raro chegar á porta, por isso, pouco sei. Tenho que fazer ali...,» e mostrou com o cachimbo—que para esse fim tirou da bocca—o montão de fragmentos de metal enferrujado que na sua industria pareciam ainda susceptiveis de venda.O gentil homem conhecia não poder continuar o interrogatorio sem se deshonrar aos seus proprios olhos.Tirou da carteira as notas promettidas e passou-as para a mão do ferro velho, que, com um grande espanto, que o seu largo rosto não dissimulou, o vio atravessar a rua e ir bater á porta do pavilhão.O plano de Chalinhy era muito simples, concebera-o rapidamente, emquanto tirava as notas. Conheceu que tinha na carteira, misturados com os seus, bilhetes de visita da esposa, e que elle se havia encarregado de entregar, o que, por um contra tempo qualquer, não tinha podido fazer. Tomou um d'aquelles bilhetes e entregou-o á pessoa que veio á porta—um creado de quarto já velho, cuja physionomia e vestuario se harmonisavam mais com o aspecto da casa do que com o do bairro. A cara barbeada, o comprido avental branco de serviço e o fato proprio correspondiam perfeitamente á idéa d'um interior burguezmente confortavel, e ainda mais á escala e atrio que Chalinhy{123}estava observando e que devorava com o olhar. Sua mulher subiu aquellas escadas na vespera!Guarnecia-as um espesso tapete. As paredes estavam adornadas com um estofo escarlate emoldurado por pedaços de tapeçaria expressiva e vulgarmente chamada «verduras».Quando o recem chegado disse: «Venho da parte da marqueza de Chalinhy», a physionomia do creado ficou tão absolutamente inexpressiva como se nunca um tal nome tivesse sido pronunciado deante d'elle.Valentina vinha então a essa casa sem que esse homem achasse a sua presença extraordinaria. Este novo indicio, d'um estranho mysterio, era de natureza a elevar ao auge a curiosidade do marido, que insistiu:—«Entregae um bilhete ao sr. Dumont, e dizei-lhe que a senhora marqueza de Chalinhy me encarregou d'uma importante e pessoal commissão para com elle...»O tempo que o creado demorou a ir e voltar—alguns minutos apenas—pareceu a Chalinhy tão longo que os mais desorientados projectos atravessaram o seu pensamento. Lembrou-lhe subir elle mesmo ao primeiro andar e forçar a porta do aposento d'esse tal Dumont que evidentemente o ia despedir, o que não era justo. Esta maneira de se apresentar pareceu-lhe impropria. Comprar o creado quando voltasse e obter sobre os frequentadores e frequentadoras da casa as informações que o ferro velho não tinha sabido dar; recusar-se{124}a sahir quando lhe viessem dizer que o senhor Dumont não estava em casa, tudo lhe passou pela imaginação.Em breve o criado veio tiral-o de difficuldades, convidando-o a entrar n'um gabinete do primeiro andar, que servia de ante-camara. Depois retirou-se, dizendo:—«O senhor Dumont pede desculpa de o fazer esperar algum tempo. Esteve muito incommodado esta manhã mas virá o mais breve possivel...»Posto que a certeza d'uma explicação, que tinha para elle uma importancia tão tragica, concentrasse o espirito de Chalinhy n'uma unica e fixa idéa: «como forçar aquelle homem, quando entrasse, a confessar a verdade?» não poude furtar-se á tentação de olhar em volta de si. A sala em que se achava tinha uma janella para a rua. Na frente abria-se uma porta, que o criado com a precipitação, não fechou completamente. Chalinhy empurrou-a, com um gesto quasi machinal, e viu um segundo compartimento cujo aspecto causou a sua admiração: era uma especie de salão bibliotheca, illuminado por tres janellas que davam sobre o jardim, para o lado do qual o pavilhão tinha a fachada principal. Esta especie de galeria era vasta e estava mobilada com uma elegancia pessoal e sobria. Grandes cadeiras de espaldar, estofadas, ao estylo do seculo 17.º, mas que se via serem de construcção moderna. Os livros todos encadernados, estavam dispostos com ordem em estantes baixas, nas ultimas divisorias das quaes se viam fragmentos de marmore e de tijolo. Um buffete collocado proximo{125}d'uma das janellas do jardim tinha ao pé uma poltrona com rodas o que justificava a informação dada pelo auvernhez com respeito á doença do dono da casa, o qual devia permanecer de preferencia n'este salão, a julgar pela alcatifa já bastante usada. As paredes estavam completamente cheias de varios objectos; quadros a oleo, aguarellas, quadros em cobre, armas cinzeladas etc., etc. Deante da secretaria, um cavalete guarnecido d'um estofo antigo de côr rosa palida, com grandes flores de prata, sustentava um quadro oval.Chalinhy approximou-se do quadro para o observar, e ao vel-o, teve que sentar-se, tal foi o seu espanto pelo inesperado, ao reconhecer a pessoa cujo retrato estava reproduzido na tela. Era sua mãe.Sua mãe?... Sim, era ella, e pintada por um artista de que bem depressa conheceu a obra e a assignatura: Miraut. Existia um retrato della, de corpo inteiro, pintado pelo mesmo artista, no salão do palacio Chalinhy. Esse grande retrato tinha sido feito no mesmo anno—indicado n'um dos cantos da tela: 1875. Foi na epocha em que aquelle pintor, hoje velho, estava em plena voga. Os filhos não tinham nunca visto esta reproducção, que continha sómente a cabeça e o busto. Sim, era sua mãe, não tal como a havia contemplado no leito da morte, quatro annos antes, envelhecida prematuramente, pela terrivel doença que a victimou, um cancro no figado, com o rosto emmagrecido, amarellecido, e torturado pela dôr—mas a «mamã» da sua infancia, com os seus bellos olhos{126}avelludados d'então, tão negros e tão doces no seu olhar d'uma idealidade digna de Prudhon; com o seu sorriso feliz nos labios finos e flexiveis; com as madeixas escuras dos seus cabellos que apartava na frente em dois bandós ondulados, á moda d'então, com a linha correcta e cheia dos seus encantos, e com a dôr do seu rosto, que tinha a delicadeza da petala da rosa.Porque estranho acaso este retrato se encontrava ali, deante d'esse «bufete», n'uma sala d'esta casa onde vinha, elle, o filho d'essa mulher, procurar a explicação d'um segredo que affectava a sua honra de marido? Um acaso? Não. Sobre o mesmo «bufete» existia tambem uma moldura de couro, com tres divisorias, onde se viam tres photographias de sua mãe, em epochas differentes,—uma mais nova do que o retrato, outra da edade de quarenta annos, e a terceira da edade de cincoenta; e, ao lado, n'uma moldura oval, escura, a reproducção d'uma outra photographia que elle, Chalinhy, lhe mandou tirar depois de morta.Uma madeixa de cabellos se divisava através o vidro, e a data do anniversario para elle sagrado: «5 de setembro de 1897» lia-se a um canto do cartão. Estaria sonhando? Ainda mais, n'uma terceira moldura, que fazia «pendant» com a primeira, appareciam-lhe agora photographias suas: uma que o representava ainda creança, outra aos dezeseis annos, e ainda outra recente! ... Vendo, como em certos casos de allucinação, a reproducção da sua propria pessoa, não teria experimentado{127}uma impressão mais violenta, tão violenta, que chegava ao terror...Onde estava?... Em casa de quem? Que occulta ligação, e de que nunca sequer suspeitára, o unia á pessoa que ali vivia entre esses objectos, e que o conhecia desde a infancia, que conhecia sua mãe desde muitos annos, que conhecia sua esposa—sem elle o saber?Um novo indicio, que mais fez desvairar a sua razão, confirmava a denuncia que o conduzira áquella casa: n'um biombo de seda, collocado defronte da janella, e no qual se achavam suspensas varias miniaturas de familia, viu tambem pequenas photographias de Valentina e dos filhos.A estranheza d'uma descoberta, tão completamente imprevista, que chegava a ser phantastica, o silencio d'esta sala tão reservada, que o ruido da rua já de si silencioso difficilmente ali chegava, o contraste entre o que procurava e o que vinha encontrar—tudo contribuiu para mergulhar Chalinhy n'uma especie de hypnose, de que o despertou de repente, a approximação d'um homem, ao qual dez minutos antes se preparava para exigir uma explicação, ainda mesmo pela ameaça.Uma porta de dois batentes, que um reposteiro disfarçava entre duas estantes, se abriu repentinamente. O ruido d'uma pesada cadeira de rodas annunciou a chegada do doente. O senhor Dumont—porque era elle—estava immovel na sua cadeira mechanica, que um enfermeiro empurrava. O paralytico era um homem de sessenta annos, pouco mais ou menos, todo branco, e que devia{128}ter sido muito bello, porque o seu rosto, emaciado pelos longos soffrimentos, conservava as largas e nobres linhas que revelam a raça.Ligeiras deformações: a bocca um pouco torta e o olho direito algum tanto elevado, marcavam na sua cara, de uma infinita melancholia, o stygma da inexoravel nevrose. O braço direito, que não podia mover, repousava, inerte, sobre a perna, emquanto que com a mão esquerda movia um punho de cobre ligado á cadeira e com o qual lhe dava a direcção desejada. O fato, muito apurado, revelava as minucias dos seus cuidados pessoaes, tão raros n'estes condemnados á morte, e que são como que um ultimo e pathetico protesto contra a sua inevitavel perda. O brilho dos olhos, tão notavel n'estas longas agonias, denunciava a lucta desesperada da energia animal contra a morte proxima.Não exprimiam esses olhos, brilhantes e muito negros, emquanto as rodas da cadeira giravam deante da porta, nenhum presentimento da impressão que n'elles ia apparecer em breve. É necessario dizer—e é a explicação da facilidade com que o visitante foi recebido—que, na sua ultima visita á rua Lacépède, n'essa funesta segunda-feira a marqueza de Chalinhy falou ao doente d'um negociante que tinha lindas estatuetas do seculo XVIII.A acquisição d'algum d'esses objectos raros, capazes de figurar n'uma das suas estantes ou na grande vitrine ao fundo da galeria, era a unica alegria do paralitico. Por um mal entendido, quiz{129}a fatalidade que o negociante que Valentina mandou a casa do sr. Dumont, se esqueceu de lá ir. Quando a sua cadeira rolante transpoz o limiar da porta e que viu, em logar do bric-a-braquista, a figura de Norberto de Chalinhy, a sua mão esquerda crispou-se no braço do movel, n'um movimento quasi convulsivo. Endireitou o busto e uma emoção d'uma intensidade extraordinaria lhe descompoz as feições. Da sua bocca offegante escapou-se um intenso grito e bradou aos creados que o acompanhavam, n'uma ancia angustiada: «parem, parem...». Pararam com effeito, a tempo de Chalinhy, immovel de surpresa deante d'esta tragica apparição, ver duas grossas lagrimas a saltarem dos seus olhos fixos e deslisarem pelas faces macilentas e cavadas. Em seguida o velho disse, como n'um gemido: «entre, mas entre, entre...». A angustia que se traduziu nas suas palavras causou, sem duvida, admiração aos creados, habituados aos signaes da approximação da crise. Fizeram recuar rapidamente a cadeira e fecharam a porta. Ainda Chalinhy estava sob a impressão do grande abalo que lhe produzira esta scena, tão terrivel como rapida, quando um dos creados, precisamente o que o recebeu, tornando a apparecer, a tremer todo e n'uma grande afflicção, lhe disse:—«O patrão está com um ataque, e não ha ninguem em casa senão eu e o enfermeiro...»—«Onde mora o seu medico?», perguntou Chalinhy. «Eu me encarrego de o ir chamar».—«Oh! senhor», respondeu o creado, «não ousava{130}fazer-vos esse pedido!... Mas depressa, depressa. Ao meio dia e meia hora ainda o encontra em casa. É o doutor Salvan, e mora noboulevardde Saint-Germain, n.º 30.»VIIIO enygmaDa rua Lacépède á casa do extremo sul do interminavelboulevardde Saint-Germain, onde vivia o celebre especialista de doenças nervosas, para ficar mais proximo da Salpêtriére, seu hospital, a distancia não era grande. Durante os dez minutos que demorou em a percorrer, Chalinhy não tentou mesmo raciocinar a respeito da série de factos, para elle absolutamente incompreensiveis, que acabavam de dar-se. Na confusão de todo o seu pensamento em face do enygma a cuja decifração se entregou apaixonadamente, um ponto luminoso apparecia muito ao longe: recordava-se de ter visto já o rosto do paralytico surgido deante d'elle, no fundo d'essa bibliotheca estranha, onde com espanto encontrou o retrato de sua mãe, o seu, o da esposa e dos filhos... Mas quando? Aonde? Procurava, no mais recondito da sua memoria, a physionomia d'um homem ainda novo, no qual a mascara do velho e moribundo, se justapunha.{131}Era uma d'estas recordações longiquas, tão cheia de incertezas, em que a realidade se confundia com o sonho... «Dumont... Dumont...?» Chalinhy, repetia este nome mentalmente. Não conseguia associal-o ás imagens tão vagas e portanto indistinctas já, que se agitavam na sua reminiscencia.Em scenas mal definidas, cujos detalhes inconscientes e incompletos se esfumavam na sua intelligencia, figuravam conjunctamente sua mãe e o marido de sua mãe—aquelle que sempre acreditára e que ainda hoje acreditava, ser seu pae. Mas como se chamava então esse homem que tinha os mesmos traços de nobresa e o mesmo olhar profundo do doente? E eis que, de repente, acudiam a essa reminiscencia syllabas indistinctas: «Magneville?...Raneville?...Layneville?...» Ao mesmo tempo—porque mysterioso trabalho do seu espirito angustiado?—via a figura de seu pae, do defunto marquez de Chalinhy, fallecido ha tanto tempo já. A que proposito se recordava, e por que sentia de novo, depois de muitos annos o indefinivel incommodo que sempre sentira na presença d'esse homem do qual nunca tivera a minima razão de queixa, a não ser talvez a preferencia que manifestava pelo seu irmão mais velho? Mas, apesar d'isso, elle e o irmão não tinham tido a mesma educação, e vivido, na casa paterna nas mesmissimas condições? Sem duvida, se seu irmão não tivesse morrido pouco tempo antes do pae, teria sido bem mais contemplado do que elle na herança paterna. Um documento encontrado entre{132}os papeis do marquez, provava bem que havia querido legar ao filho primogenito toda a parte dos seus haveres de que, em face da lei, podia livremente dispor. Mas Norberto conhecia muito bem as idéas do fallecido gentil-homem para se admirar d'esta tentativa de reconstituição do direito de primogenitura.Que ligação estabelecia então, de repente, entre as manifestações de friesa por parte de seu pae e os acontecimentos em que a denuncia da esposa, feita pela amante, o tinha envolvido? Não saberia dizel-o, nem tambem que hypothese se esboçava dolorosamente, obscuramente, na sua imaginação, hypothese logo posta de parte, por ser tão sacrilega como insensata?... Absurdo pesadelo, que a paragem do trem em frente da casa do professor Salvan, fez dissipar!—«Saberei alguma coisa por elle», disse comsigo. «Contanto que lá esteja!...»O medico estava effectivamente em casa. Logo que Chalinhy lhe fez apresentar o seu cartão, no qual escreveu:Da parte do sr. Dumont, que está muito mal, foi immediatamente recebido. Ao primeiro golpe de vista, o marido de Valentina viu logo que o homem de 45 annos que a baroneza de Node vira chegar n'uma carruagem de aluguer ao pavilhão da rua Lacépède era o medico. O professor Salvan tinha na realidade mais dez annos; mas, perfeitamente conservado por uma existencia continuamente activa e quasi ascetica, não indicava tanta edade. Era magro e robusto, com uma cabeça pequena, e cujo rosto attrahente e imberbe{133}recordava a physionomia napoleonica do seu mestre Charcôt.No mundo das grandes celebridades medicas e parisienses, onde os ultimos annos tantas notabilidades se tem manifestado, Salvan figurou sempre em separado, associando, como o seu amigo e condiscipulo Eugenio Corbiére, que voltou já ás antigas normas, o catholicismo mais accentuado ao mais solido talento de clinico e de anatomista.Mais celebre do que conhecido, os seus immensos trabalhos conservaram-no sempre affastado dos salões e o gosto pelas investigações puramente scientificas, da clientela.A morte do seu unico filho, em 1898, em circumstancias bem crueis—envenenara-se, longe dos seus, n'um hotel de Napoles, por desespero d'amor—tornou-o ainda mais concentrado.Foi desde então que deixou a sua instalação no boulevard Malheserbes, para se refugiar ali, n'uma casa mais modesta, mas que não lhe recordasse constantemente a creança tão tragicamente perdida.Este detalhe prova bem quanto um tal homem tanto em contacto com os soffrimentos da humanidade, era sensivel, apezar da sua apparente severidade e indifferença e da dureza do seu penetrante olhar. Eis tambem a justiça do motivo porque o brilho dos seus olhos feriu Joanna de Node, quando o observou ao descer da carruagem. O mesmo brilho agudo, como a lamina d'um bisturi feriu tambem Chalinhy, emquanto lhe descrevia o ataque que acommettera o sr. Dumont. O medico{134}estava assentado ao fogão, n'uma pequena sala que servia de gabinete de trabalho a sua mulher, vestia uma sobrecasaca preta, de luto, que não abandonou mais desde a morte do filho, e á medida que o marquez proseguia na descripção, o seu rosto, d'uma expressão tão energica, assombrou-se visivelmente:—«Está muito doente, não é verdade?» perguntou Chalinhy.—«Muito», respondeu Salvan. «Está á mercê do mais pequeno abalo. É mesmo espantoso como tem resistido a tanto, é espantoso!... Teve o primeiro ataque ha seis annos. Vinte vezes o tenho considerado perdido; mas tem uma tal vontade de viver!... E quando verdadeiramente se quer viver, vive-se... No entanto, devo dizer-lhe que sem os cuidados das senhoras de Chalinhy, não teria resistido. Teem sido admiraveis de dedicação as duas. As suas visitas é que o prendem á vida... Tambem se resolveu a ir vêl-o, fez bem. As dissensões de familia devem desapparecer deante da morte... Espero que não será ainda hoje, comtudo não ha tempo a perder, estarei lá dentro de vinte minutos. Póde annunciar-me.»Deus! como Chalinhy, escutando estas palavras que mais escureciam ainda o enygma, desejaria interrogar o professor, convidando-o a explicar-se. O que aproveitaria com isso? Mesmo que a sua honra o não prohibisse de entrar n'um assumpto que envolvia uma mentira por parte de sua mãe e de Valentina, não era evidente que Salvan acreditava no pretexto de dissensões familiares, imaginado{135}pelas duas mulheres para justificarem a sua presença á cabeceira do leito d'este moribundo, em que outro homem da familia ali fosse? O que lhe era então esse senhor Dumont?Que sagrado dever vinha cumprir junto d'este infeliz, n'um bairro escuso, primeiro sua mãe e depois sua esposa—occultando-se d'elle, como se tinham occultado, com a prudencia de criminosas?Tinha sido necessario para que conhecesse o segredo d'estas visitas, um tal concurso de circumstancias! E eram innocentes estas visitas, demonstrava-o o testemunho do medico declarando-as nobres e da mais benefica caridade. De que tinham então receio as duas mulheres? Que elle, filho e marido, lh'as prohibisse? Não. Qual seria então a imperiosa razão que as dominou, a ponto de nem ao medico terem dito a verdade, visto que inventaram a fabula d'um parente malquisto.E o doutor Salvan acreditou na existencia d'este parente, occulto, dos Chalinhy? Porque? Não entraria ahi o segredo profissional.Por outro lado, não acontece muitas vezes que um membro deshonrado d'uma familia se esconde em Paris, mudando de nome? Com certeza que sua mãe e Valentina tinham contado esta historia ao doutor, mas a verdade é que tal historia era falsa. Se fosse verdadeira, elle Norberto, o actual chefe da familia, conhecel-a-hia... Estes retratos, porém, no salão do doente, representando-o a elle, á mãe, á mulher e aos filhos, em differentes idades, o que significavam?{136}A perspectiva agora aberta deante do seu espirito infligia-lhe um tormento tão forte, que o impedia de sentir a consolação de ser livre d'uma outra suspeita, da que, duas horas antes, tinha a respeito da esposa.A sua espectativa actual, por ser d'uma outra natureza, não era menos terrivel. Reconheceu-o no momento em que voltando á rua Lacépède, o creado lhe annunciou, com grande consternação, que o doente não recuperára ainda os sentidos.Quando ha pouco o medico o felicitou por ter tambem ido visitar o enfermo, um intenso rubor lhe subiu ás faces pela immerecida saudação. Que atroz ironia, desde que, realmente, a sua apparição na sala, aonde nunca havia figurado, senão em effigie, é que produziu no dono da casa aquelle abalo terrivel, talvez mortal. Comtudo emquanto se affastava da pequena casa, sempre silenciosa, olhando as velhas tilias cujo ramos ultrapassavam o muro do jardim, um violento e inolvidavel remorso começava a perseguil-o. Disse ao cocheiro que o conduziu da rua Lacépède, aoboulevardSaint-Germain, e d'ali novamente á rua Lacépède, para o levar á rua Varenne, ao seu proprio palacio.Uma unica pessoa podia auxilial-o na decifração do enigma que, de minuto a minuto, se lhe affigurava mais tremendo, e no qual figurava d'um lado o desconhecido, e do outro sua mãe, sua mulher, os filhos e elle proprio.—«Não se recusará a fallar-me», dizia elle, «não deve fazel-o. Não pode deixar-me n'esta horrivel{137}incerteza... Tenho o direito de tudo saber, pois que se trata d'ella e de minha mãe...Por maiores que fossem os seus esforços para mostrar a si mesmo a immutavel soberania do seu titulo de filho e de marido, não podia esquecer-se da scena com a esposa, duas horas antes, e da mudança operada na sua situação ao voltar de novo á presença de Valentina. Deixára-a, completamente desconcertada pelas suspeitas que o zelo perigoso d'uma parenta imprudente tinha insinuado no seu coração. Luctava contra essas suspeitas não acreditando na sua veracidade. Ella que não contava na sua vida um unico facto que merecesse censura, não tinha zelos, e, a par d'isso, elle que a atraiçoava, recorria, impellido pela mais calumniosa, pela mais gratuita denuncia, á mais insultante das investigações. Para iniciar com ella a conversa que lhe daria, emfim, a luz de que tanto necessitava, era preciso referir-se primeiro a essa investigação. O que entrevia no fundo d'aquella alma tão terna e tão reservada, produzia-lhe, n'esse momento, uma vergonha de si mesmo e do seu procedimento, muito superior ás outras perturbações do seu ser. Estas emoções de caracter bem diverso, tornaram-lhe horrivelmente dolorosa a entrada do gabinete aonde Valentina se encontrava depois de almoçar. Estava junto dos filhos, Francisco e Armanda—o filho tinha o nome do irmão mais velho de Norberto, morto tão novo ainda, e a filha o de sua avó. Quando o marido abriu a porta, a marqueza de Chalinhy acariciava os cabellos annelados das duas formosas{138}creanças, n'uma attitude muito semelhante á da photographia que estava no salão do doente, em que nunca as tinha visto.Uma tal analogia, augmentando de novo em Chalinhy a sensação do mysterio, deu-lhe força para provocar uma tão dolorosa conversação. Além d'isso, se todos os signaes, o tremor das suas mãos brancas de mulher em volta dos cabellos das creanças, o rubor das faces, a expressão dos olhos, lhe denunciavam bem que ella, por seu lado estava agitada, vibrante, não sabendo ainda da sua acção recente, de que podia ella tremer senão do desgosto que lhe confiára pela manhã em termos tão claros, muito embora disfarçados? A «crueldade do mundo», como tinha dito, feriu-a, e, por isso, tentava esquecel-a ao contacto das duas almas candidas descendentes da sua, e cuja innocencia lhe sorria atravez dos lindos olhos azues e das boccas rosadas. A mãe sorria-lhes tambem, com um sorriso que nos seus labios nervosos se transformou em tremor, quando viu entrar Norberto; deixando ir as duas creanças ao encontro do pae, com a ligeireza e maneiras graciosas d'essas delicadas creaturas quando estão contentes. Em crises como a que atravessavam marido e mulher, estas festas tão expontaneas, tão innocentes do filho e da filha deviam incommodal-os. A antithese entre o pesar que os paes teem no coração e a alegria communicativa cheia dos encantos da vida, d'essas sensibilidades tão juvenis, constituem a parte tragica e pungente de certos dramas de familia. São tambem muitas vezes a sua unica consolação. É o rejuvenescimento,{139}é o porvir que annunciam esta alegria descuidada dos filhos ao homem e á mulher que soffrem. Norberto e Valentina experimentavam por vezes uma e outra impressão, e as suas primeiras phrases quando, de commum accordo mandaram as creanças embora, exprimiram essa tristeza e esse prazer.—«Como estavam satisfeitos na tua companhia» disse Chalinhy, «deixaval-os gosar um pouco, e tinhas razão! Quando se não é feliz em creança, arrisca-se a gente a morrer sem nunca o ter sido...»—«Não os distrahia», respondeu a mãe, «distrahia-me com elles. Quando tenho momentos de desanimo como aquelle que tive a fraqueza de te deixar perceber esta manhã, elles fazem-me readquirir a esperança. Mas, como vês, estou melhor, tive força sobre mim. Não me deitei. Almocei com elles, visto que me mandaste dizer que não almoçarias em casa, e acabámos ha pouco...»Conservaram-se silenciosos durante algum tempo.Deante d'esta nova prova da benevolencia e energia d'esta alma, que não queria mostrar-lhe quanto fôra violentamente magoada com a denuncia da carta anonyma, o marido, perfido e desconfiado, sentiu um remorso mais vivo ainda, a par d'uma recordação agudissima do mysterio contra que se debatia. Era forçoso que a esposa lhe ligasse uma importancia capital para que continuasse a manter a maior reserva sobre um tal mysterio, pela sua attitude, como uma mulher culpada,{140}quando é certo não tinha a occultar senão a mais pura dedicação!Mas porque... E encontrando na sua crescente affeição, força para confessar o seu degradante accesso de ciume, disse:—«Valentina venho da rua Lacépède.»Emquanto pronunciava estas palavras de que só ella no mundo, visto que a mãe de Norberto tinha morrido, podia medir o tragico alcance, ditas pela sua bocca, olhou-o com espanto e assombro. Repetiu, como se não podesse acreditar nas palavras que tinha ouvido:—«Vens da rua Lacépède... Foste lá depois de me deixares, tendo-te fallado da maneira porque te fallei! Foste lá...»—«Sim,» respondeu em voz baixa e com a firmeza oppressa mas decidida d'alguem que, querendo reclamar um direito, se força a cumprir primeiro o mais doloroso dever. «Fui num momento de desvario... A carta anonyma, a indicação tão precisa do numero da porta, a tua perturbação quanto te fallei... Perdi a cabeça: apoderou-se de mim o ciume; quiz saber e fui...»—«Ah!» disse ella com um modo que Norberto lhe não conhecia ainda.«Podeste fazer-me uma cousa semelhante!... Não, não foi a carta anonyma que te fez ir lá, não foi a denuncia, nem a minha perturbação, foi... Meu Deus!» e levantou as mãos n'um movimento desesperado.«E eu que estava tão enternecida com a tua delicadeza, esta manhã, e que dizia commigo: calumniaram-no!...{141}O que te obrigou a ir lá,» continuou Valentina, approximando-se do marido, com o seu bello e nobre rosto congestionado pela indignação: «foi a entrevista que tiveste com Joanna. Veio aqui, fallou-te; o que te disse não sei... Ouvi as vossas vozes atravez da porta, não quiz porém, escutar o que diziam... Mas depois que partiu, sem procurar ver-me, comprehendi logo que algum facto extraordinario se passou entre vós... Adivinhei tudo immediatamente. Tudo vi... Foi ella que escreveu a carta anonyma, que me seguiu, que me denunciou, que te indicou a pista que devias seguir tambem para me surprehenderes!... Ah! a infame! A infame!... Tinham n'esse caso razão. Ha entre ti e ella uma intriga. Porque lhe consentiste que falasse assim de tua esposa—da mãe de teus filhos—é que ella é tua...» Deteve-se deante da palavra amante, que lhe abrazava o coração, e, n'um grito de legitima revolta da esposa muito ultrajada, protestou dolorosamente:«Não, não foste lá por teres ciumes de mim, mas sim porque me atraiçoas...«Querias apenas ter uma prova para te tornares livre, para só te dedicares a ella.«Mas que mulher julgas então que eu sou? Dei-te, por ventura, o direito d'assim me julgares? E ella!... Oh! É triste, profundamente triste! E eu não merecia tanta ingratidão!...»—«É naturalissimo que assim penses», respondeu Chalinhy, em voz ainda mais baixa. Sentia-se incapaz, n'este momento, de discutir factos{142}evidentes que não eram nada moraes, incapaz de protestar a sua innocencia com respeito á ligação com Joanna de Node. Necessitava muito saber a verdade para poder mentir. E depois, como negar a conversa com a amante, junto da porta do quarto da esposa, e de que esta ouviu algumas palavras? Como justificar a mudança subita do seu procedimento, depois da visita de Joanna, precipitando-se na investigação, que se via obrigado a confessar, visto que entrára em casa sómente com o fim de a concluir? Accrescentou, solemnemente: «As apparencias são contra mim; e comtudo...» Hesitou um momento, e depois, em voz mais elevada como para confirmar a solemnidade do juramento, accrescentou:«Juro-o sobre a cabeça dos nossos filhos! Não, o meu procedimento não foi dictado pelo desejo de me tornar livre, não teve uma tão abominavel intensão. Não obedeceu a um plano anteriormente concebido. Fui um louco, assevero-te... As tuas visitas a essa rua escusa, as precauções de que te rodeavas, este segredo da tua vida... Quando cheguei em frente d'essa casa não consegui dominar a duvida cruel que me torturava... Interroguei os lojistas da visinhança, e soube quem vivia ali... Não me interrompas. Era a espionagem, a infame espionagem, sinto-me aviltado pela ter exercido! Emfim, bati á porta: dei o teu nome para entrar, recebeu-me e vi o sr. Dumont. Quem é. Valentina dize quem é?...»Á medida que o marido fallava, contando tudo, com as faces ruborisadas e com os olhos incendidos{143}pela febre de saber a verdade, o rosto da joven marqueza mudava de expressão.Á colera indignada dos primeiros momentos, seguiu-se uma anciedade que se approximava do terror, quando ouviu a phrase irreparavel. «Recebeu-me...»Soffreu uma emoção tão violenta que todo o seu corpo tremia convulsivamente. Depois, condensando a vontade n'um supremo esforço, teve a coragem de defender ainda o segredo, que não era seu, contra o apaixonado inquerito de Chalinhy.—«Desde que viste o sr. Dumont, sabes já quem é... Um doente a quem fiz a esmola d'algumas visitas, em cumprimento d'uma promessa solicitada por pessoa que já morreu... Deixa-me cumprir este dever de caridade até ao fim. Não o cumprirei durante muito tempo; por isso tem tu tambem a caridade de mais nada me perguntares...»—«Obedecer-te-hei», respondeu Chalinhy, «se me jurares tambem sobre a cabeça de nossos filhos, como eu fiz, que essa pessoa de quem fallas, essa morta que te exigiu o cumprimento de um tal voto não era...»Hesitou um segundo, depois, muito baixo, murmurante:« não era minha mãe? Mas não jures, não pódes jurar... Sei que era ella... Não foi só o sr. Dumont que vi na casa da rua Lacépède. Vi tambem minha mãe... Está lá o seu retrato, um retrato que não conhecia, em casa d'esse homem que ainda conhecia menos! Não é só o seu retrato que lá se encontra, mas tambem o teu e o meu...»{144}E, de repente, illuminando-lhe a memoria um d'esses clarões de reminiscencia que nos fazem recordar n'um instante promenores d'um facto esquecido ha annos. «Mas eu conheço muito bem esse homem: Recordo-me perfeitamente d'elle. É Raynevilhe.» E repetiu. «Raynevilhe. Raynevilhe vinha a nossa casa n'outro tempo e depois desapareceu... Sim, espera. Recordo-me agora... Um processo... uma condemnação... Desde que sei o nome reconstituirei tudo... Não era porem nosso parente» continuou elle seguindo o seu pensamento, «e minha mãe continuou a vel-o secretamente até fallecer?... Pediu-te depois que o visitasses tu, quando não podesse lá ir já?... A questão Raynevilhe?... Sim, foi condemnado... Mas qual o motivo? Qual o motivo? Não me recordo. Sabel-o-hei, vou já a casa do meu advogado. Elle consultará a collecção daGazeta dos Tribunaes. Quero saber...»—«Supplico-te, meu amigo» disse a marqueza de Chalinhy, detendo-o. «Tranquilisa-te.» E com uma expressão de terror, sempre crescente, accrescentou ainda: «Não vás a casa do advogado. Não pronuncies o nome de Raynevilhe a ninguem. Reconheceste-o sim, pois é verdade ser esse o seu appellido. Emquanto ao processo de que fallaste, existiu tambem e elle foi condemnado... Mas, que vaes fazer? Queres obrigar os mortos a fallar?«Sim. É um amigo d'infancia de tua mãe. Teve piedade d'elle depois que praticou uma enorme falta pela qual foi horrivelmente punido.{145}«Quando se viu proxima da morte, teve ainda pena do desgraçado. Era um doente e vivia inteiramente só, por isso pediu-me para a substituir... Ah! meu amigo, não ultrages a memoria de tua mãe, depois de me teres ultrajado a mim! Respeita a sua ultima vontade, como eu fiz...»A marquesa esquecera por completo as recriminações do principio da conversa, esquecera Joanna de Node, não se lembrava mais de ciumes; n'aquelle momento sómente via que era forçoso obstar, por todos os meios, a que o marido proseguisse no inquerito, por isso concluiu por dizer: «Promette-me que tudo acabou, que ficarás por ahi! Que queres tu descobrir mais?»—«O que quero descobrir mais? Quero saber porque motivo minha mãe me occultou esse acto de caridade, e porque motivo te pediu que m'o occultasses tambem.»—«Valentina,» continuou Chalinhy, supplicante, «começaste a dizer-me a verdade; vae até ao fim... Como queres tu que acredite? Como queres que simples visitas de caridade para com um homem condemnado, expliquem a offerta d'um retrato como o que lá vi, feito tambem a occultas. Nunca ouvi fallar d'esse retrato, nem eu nem ninguem. Foi feito propositadamente para esse homem, percebes,para esse homem!... E a minha photographia! Porque a tem tambem sobre o buffete? Não me digas que é signal de reconhecimento para com a sua bemfeitora. Não, não e não. Ha outro motivo, forçosamente... Falaste de caridade e não a tens para commigo ajudando-me{146}a expulsar do espirito uma ideia que se começou a apoderar de mim, que me tortura, que não quer abandonar-me,—a repellil-a,» accrescentou com um modo sombrio, «ou a acceital-a.»—«Qual ideia?» balbuciou Valentina.—«Teria esse homem, a quem minha mãe proporcionou tantos cuidados até ao fim da vida, e ao qual tu os proporcionas tambem, depois d'ella, na sua mão meio de a perder, de nos perder a todos... Não queres que vá a casa do meu advogado, porque? Porque receias que o seu nome e o nosso sejam pronunciados juntamente. Figuram, por acaso, juntos ao processo, e occultavam-m'o sempre?... Não me impedirás de o saber...»—«Fica sabendo que esse triste acontecimento nada tem de commum comnosco, respondeu a marqueza de Chalinhy. É sinistro, mas bem simples: O senhor de Raynevilhe tinha um tio, muito rico, e, achando-se um pouco embaraçado por falta de dinheiro, arrastado por esse meio parisiense, como tantos rapazes de boas familias, sendo os restantes herdeiros d'esse tio todos muito abastados tambem, concebeu a ideia de assegurar só para elle a herança, que tantos intrigantes invejavam, imitou a letra do tio e fez um testamento falso. Eis o seu crime. É grande, mas expiou-o com tantos annos de martyrio... Foi condemnado, e depois que cumpriu a pena, não viveu, n'esse bairro humilde, senão para os pobres e para Deus... Podes, em querendo, verificar se o que te digo é ou não verdade...»—«Esse homem é, pois, um falsificador, um ladrão,»{147}respondeu Chalinhy, duramente, asperamente. «E pedes-me que não procure conhecer os motivos porque minha mãe o tornou a ver, quando sahiu da prisão—para que tu os conheças tambem? Pode-se ter consideração por um assassino, por não merecer o desprezo, mas por um falsario, um ignobil falsario!...»—«Cala-te, meu amigo, cala-te, supplicou Valentina. Não quero ouvir-te pronunciar taes palavras a respeito d'elle!...» Deteve-se como que petreficada pela phrase que ousára proferir. Olharam-se mutuamente, sem que nenhum d'elles tivesse força para continuar uma tão tragica conversação, que a entrada d'um creado que vinha trazer uma carta tornou mais tragica ainda. Entregando-a, o creado disse:—«É do doutor Salvan, para o sr. marquez. A sua carruagem espera lá em baixo pela resposta.»—«Diz que fica entregue e que não tem resposta. A carruagem do doutor Salvan pode partir» accrescentou Chalinhy, depois de ter deitado um rapido olhar para o bilhete que entregou á esposa, logo que ficaram sós. Continha apenas dez linhas traçadas, rapidamente, a lapis, pelo medico, mas que linhas para ella que as lia, debaixo do olhar do infeliz a quem em vão tentara dissuadir: «Encontrei o sr. Dumont muito mal. Não pode fallar. Julgo, comtudo comprehender que deseja vel-o. A sua agitação é tal que tomo sobre mim a responsabilidade de lhe pedir que conclua a sua boa acção d'esta manhã, voltando á rua Lacépède, tambem. A minha carruagem o condusirá. Não abandonarei{148}o doente. Venha, se pode. Á noite talvez já seja tarde.»—«Ah! Norberto,» implorou Valentina, como n'um gemido, «não é possivel que o deixes morrer assim, que lhe recuses o que pede... Ainda é tempo. Vem. A carruagem de Salvan ainda não partiu. Vamos n'ella, mas vem! vem! Corramos!...»—«Não,» respondeu Chalinhy deixando-se cahir n'uma cadeira, e apertando a cabeça com as mãos, «não vou. Nada comprehendo, nada sei senão que esse homem e tudo quanto lhe diz respeito me causa horror.»—«Cala-te» gritou ella de novo, n'um accesso selvagem; e estreitando-o nos braços com uma especie de ardôr desesperado, arrastava-o dizendo: «Mas vem; vem de pressa. Vem. Ah! Queira Deus que não seja já tarde. Elle é teu pae. É teu pae!...»

Sahindo, pela fórma porque o fez, do pequeno compartimento em que recebeu o terrivel golpe da espantosa revelação, Chalinhy não pensou no que fazia. Sentiu que não teria força em si e que necessitava deixar passar algum tempo antes de proceder. Era sobre tudo necessario que não visse Valentina. Se a visse, não poderia conter-se, fallar-lhe-hia com certeza no assumpto e nãodeviafallar-lhe. Tinha dado a sua palavra a Joanna e, além d'isso era sua convicção que não surprehenderia a culpada se não procedesse com dissimulação.{116}

Sahiu do palacio, dizendo que não vinha jantar. Depois da scena d'essa manhã, a sahida de Chalinhy, sem se ter despedido da esposa, era de natureza a causar admiração a Valentina, mas elle calculou que se voltasse a casa não poderia ser superior aos seus nervos e provocaria uma explicação plausivel. Caminhava depressa, com receio de que Joanna de Node sahisse logo tambem, e não queria encontrar-se outra vez com ella. A presença da perigosa amante, n'aquelle momento, era-lhe physicamente intoleravel. Tinha-o ferido muito bruscamente, muito brutalmente, n'uma das mais intimas fibras do coração.

Por mais intelligentes e perspicazes que as mulheres sejam não medem com exactidão certas reacções da alma masculina, quando principalmente procedem do orgulho molestado. Onde iria o marido repentinamente ferido na sua dignidade de homem? Nem elle mesmo o sabia.

As palavras inolvidaveis resoavam-lhe ainda aos ouvidos. As imagens evocadas com intelligencia por a invejosa, fixaram-se no campo luminoso do seu pensamento em fórmas tão nitidas como se pessoalmente tivesse assistido á subida da mãe dos seus filhos para a carruagem furtiva, á descida na rua suspeita, e á entrada na casa equivoca. Esta serie de factos positivos, não deixaram a menor duvida no seu espirito suggestionado, sem que desse por isso, pela odiosa paixão que Joanna tinha desenvolvido.

Por uma invencivel e espontanea associação de idéas, as continuas impressões mal definidas que{117}experimentou durante a sua estranha vida conjugal e que tinham por base o silencio, reappareciam agora e coordenavam-se.

Toda a timidez experimentada na frente de Valentina lhe refluia ao coração. Tinham agora para elle perfeita explicação na força da hypocrisia d'essa mulher, tão reservada, tão retrahida, que não teria mesmo ousado julgal-a capaz da mais simples leviandade, e via-a sempre, n'essas duas scenas que Joanna observou com os seus proprios olhos: sua mulher, a marqueza de Chalinhy, deslisando por entre os frequentadores do grande armazem, para transpor d'uma a outra porta—do seucoupéá carruagem alugada—como uma adultera ignobil—sua mulher a pudica, a timida Valentina, aventurar-se a ir a essa rua do arrabalde.

A visão tornava-se precisa, uma verdadeira allucinação, e a revolta contra esse angelico e puro rosto que por tanto tempo o havia enganado, sob a impressão do qual tanto se havia enternecido ainda n'essa manhã, produzia no sangue do marido ultrajado a febre do homicidio. Tendo caminhado a direito, sem mesmo saber para onde ia, chegou, sem dar por isso, á estação do caminho de ferro de Montparnasse. Parou por algum tempo defronte dagaree depois, na incerteza de saber que direcção devia tomar, uma imperiosa tentação se apoderou d'elle, invencivel desde logo, a de ir até á rua Lacépède, cujo nome desde a vespera se associava ao seu d'uma maneira, que lhe pareceu tão ridicula quando leu a carta anonyma, e que, n'aquelle{118}momento, depois da conversa com Joanna, lhe parecia tão espantosamente insultante.

Para o inquerito a que ia proceder, até surprehender a esposa no flagrante delicto de adulterio, o grande, o unico dever da sua vida, não seria o primeiro ponto a illucidar a existencia da casa onde se realisavam as entrevistas amorosas?

E depois, mesmo sem esta rasão, não devia Chalinhy experimentar uma imperiosa necessidade de ver o local onde era arrastada a sua honra conjugal?

O ciume, uma vez despertado, tem sempre este apetite da realidade concreta e viva, que supplicia e satisfaz ao mesmo tempo. O irresistivel desejo do homem que se julga trahido é conhecer todos os detalhes da perfidia de que é victima; figurar com uma implacavel brutalidade cada episodio; experimentar o paroxismo da sua dôr ao contacto do immovel e indestructivel quadro que foi theatro do indelevel ultrage.

Começou para Chalinhy este paroxismo, quando o seu olhar encontrou pela primeira vez, sobre a placa da esquina da rua que procurava, o nome já tão detestado. A memoria do sabio naturalista e do sagaz cortezão que ella perpetuava n'este bairro de miseraveis, parecia bem mal escolhido para se associar a emoções d'esta ordem! Chalinhy tinha continuado a andar, parando, de quando em quando, como um provinciano perdido n'este grande Paris, perguntando informações sobre o caminho a seguir, umas vezes á policia e outras aos tranzeuntes.{119}

A pequena actividade animal do movimento abrandou um pouco o seu furor.

Augmentou quando os seus pés tocaram no pavimento da rua maldita. Entrou n'ella pelos quarteirões superiores, que a rua Monge separa dos inferiores, de maneira que, não vendo logo nas duas linhas de casaria nenhum predio que correspondesse aos signaes do pavilhão, teve um momento de duvida, e, portanto, de allivio.

A inspecção dos numeros bem depressa lhe fez comprehender o seu erro. Deu mais alguns passos e do lado dos numeros impares apparecia a casa mysteriosa, tal como Joanna lha havia descripto: com as grades de ferro das janellas do rez-do-chão pintadas de preto, a porta escura elevada por trez degraus, as sacadas do primeiro e do segundo andar burguezmente guarnecidas de bambinellas de musselina, e o muro do jardimsinho com as suas tilias.

Era mais de meio dia, e o sol d'esta bella tarde de novembro estava limpo do nevoeiro que o velára durante a manhã. O céo azul pallido, onde fluctuava uma humidade doce, banhava os ramos das arvores meio despidas.

O vento destacava d'ellas, de quando em quando, uma folha côr d'ouro, que volteava lentamente e vinha algumas vezes cahir para fóra do muro. A alegria da hora do almoço enchia com a sua expansão a modesta rua. N'uma casa de pasto, de má apparencia, em cujo frontespicio estavam escriptas as seguintes palavras, cheias de promessas: «Refeições baratas», vinham instalar-se varios operarios.{120}

Duas aprendizas, raparigas ainda, da lavandaria proxima, sahiam em cabello para irem comer, á pressa, a casa da familia, no fundo d'algum pateo de qualquer das travessas visinhas.

Algumas das janellas do pavilhão estavam abertas, e sahia fumo por dois tubos de chaminés. Se o honesto aspecto da casa havia surprehendido bastante o marquez de Chalinhy, estes indicios que mostravam ser ella habitada regularmente, mais o espantavam ainda. Não estava, então, deante da casa suspeita escolhida por dois amantes que querem ali encontrar-se, de vez em quando, durante algumas horas, occultamente. Mas, então, o desconhecido que Joanna viu chegar em carro de aluguer, era o habitante permanente d'aquelle casa? Era pouco provavel, em vista da sua attitude impaciente do homem que chega tarde a uma entrevista amorosa, e que manda esperar a carruagem para tornar a ir n'ella. Quanto mais o marido de Valentina estudava o aspecto mudo d'essa casa mais o seu frenesi dos primeiros momentos, misturado d'uma aguda curiosidade, acabava por o impellir aos actos mais oppostos ao seu caracter. Avistando um ferro velho que fumava no seu cachimbo á porta da locanda, que ficava a alguns passos de distancia, avançou bruscamente para elle e sem mais preambulos:

—«Queres ganhar uma nota de cem francos?» perguntou Chalinhy.

—«Ixonão se pergunta» respondeu o interrogado. Era um dos muitos ferros velhos que tanto abundam n'aquelle bairro, um Auvernhez de cara{121}redonda, que pronunciava oximclassico dos naturaes de Saint Flour, por o «sim», apezar de viver ha trinta annos em Paris. O seu olhar vivo denunciava a esperteza campesina tão peculiar n'essa classe de vendedores ambulantes, que se fornecem das casas de bric-á-brac. Com a prudencia innata d'um filho do Cantal, acrescentou logo—sempre com a mesma pronuncia tão pitorescamente caracteristica—«Ixodepende do trabalho que tiver de fazer.»

—«Tens apenas que me responder a uma pergunta», e indicou o pavilhão: «Quem móra n'aquella casa?»

—«N'aquella casa?» respondeu o futuro antiquario, com uma finura nescia, «é o seu dono, está claro!»

—«E quem é o seu dono?» insistiu Chalinhy, imperativamente: «Dou-te duzentos francos de gratificação se m'o disseres immediatamente, senão vou perguntal-o a outra pessoa...»

—«É o senhor Dumont», respondeu o auvernhez, depois de ter reflectido. Pensou, sem duvida, que um dos seus collegas da rua seria menos escrupuloso, e duzentos francos, em Paris como em Saint-Flour, era muito dinheiro!

—«É novo ou velho?...»

—«Velho,» repetiu o homem, «e muito doente. Está paralytico. O anno passado ainda sahia de carruagem; mas este anno vio-o só uma ou duas vezes...»

—«Recebe muitas visitas?» perguntou Chalinhy.{122}

—«Muito poucas», respondeu o provinciano a quem os duzentos francos pareciam estar já bem ganhos, e, por isso, deu a conversa por terminada com a seguinte phrase: «não posso dar mais informações, é raro chegar á porta, por isso, pouco sei. Tenho que fazer ali...,» e mostrou com o cachimbo—que para esse fim tirou da bocca—o montão de fragmentos de metal enferrujado que na sua industria pareciam ainda susceptiveis de venda.

O gentil homem conhecia não poder continuar o interrogatorio sem se deshonrar aos seus proprios olhos.

Tirou da carteira as notas promettidas e passou-as para a mão do ferro velho, que, com um grande espanto, que o seu largo rosto não dissimulou, o vio atravessar a rua e ir bater á porta do pavilhão.

O plano de Chalinhy era muito simples, concebera-o rapidamente, emquanto tirava as notas. Conheceu que tinha na carteira, misturados com os seus, bilhetes de visita da esposa, e que elle se havia encarregado de entregar, o que, por um contra tempo qualquer, não tinha podido fazer. Tomou um d'aquelles bilhetes e entregou-o á pessoa que veio á porta—um creado de quarto já velho, cuja physionomia e vestuario se harmonisavam mais com o aspecto da casa do que com o do bairro. A cara barbeada, o comprido avental branco de serviço e o fato proprio correspondiam perfeitamente á idéa d'um interior burguezmente confortavel, e ainda mais á escala e atrio que Chalinhy{123}estava observando e que devorava com o olhar. Sua mulher subiu aquellas escadas na vespera!

Guarnecia-as um espesso tapete. As paredes estavam adornadas com um estofo escarlate emoldurado por pedaços de tapeçaria expressiva e vulgarmente chamada «verduras».

Quando o recem chegado disse: «Venho da parte da marqueza de Chalinhy», a physionomia do creado ficou tão absolutamente inexpressiva como se nunca um tal nome tivesse sido pronunciado deante d'elle.

Valentina vinha então a essa casa sem que esse homem achasse a sua presença extraordinaria. Este novo indicio, d'um estranho mysterio, era de natureza a elevar ao auge a curiosidade do marido, que insistiu:

—«Entregae um bilhete ao sr. Dumont, e dizei-lhe que a senhora marqueza de Chalinhy me encarregou d'uma importante e pessoal commissão para com elle...»

O tempo que o creado demorou a ir e voltar—alguns minutos apenas—pareceu a Chalinhy tão longo que os mais desorientados projectos atravessaram o seu pensamento. Lembrou-lhe subir elle mesmo ao primeiro andar e forçar a porta do aposento d'esse tal Dumont que evidentemente o ia despedir, o que não era justo. Esta maneira de se apresentar pareceu-lhe impropria. Comprar o creado quando voltasse e obter sobre os frequentadores e frequentadoras da casa as informações que o ferro velho não tinha sabido dar; recusar-se{124}a sahir quando lhe viessem dizer que o senhor Dumont não estava em casa, tudo lhe passou pela imaginação.

Em breve o criado veio tiral-o de difficuldades, convidando-o a entrar n'um gabinete do primeiro andar, que servia de ante-camara. Depois retirou-se, dizendo:

—«O senhor Dumont pede desculpa de o fazer esperar algum tempo. Esteve muito incommodado esta manhã mas virá o mais breve possivel...»

Posto que a certeza d'uma explicação, que tinha para elle uma importancia tão tragica, concentrasse o espirito de Chalinhy n'uma unica e fixa idéa: «como forçar aquelle homem, quando entrasse, a confessar a verdade?» não poude furtar-se á tentação de olhar em volta de si. A sala em que se achava tinha uma janella para a rua. Na frente abria-se uma porta, que o criado com a precipitação, não fechou completamente. Chalinhy empurrou-a, com um gesto quasi machinal, e viu um segundo compartimento cujo aspecto causou a sua admiração: era uma especie de salão bibliotheca, illuminado por tres janellas que davam sobre o jardim, para o lado do qual o pavilhão tinha a fachada principal. Esta especie de galeria era vasta e estava mobilada com uma elegancia pessoal e sobria. Grandes cadeiras de espaldar, estofadas, ao estylo do seculo 17.º, mas que se via serem de construcção moderna. Os livros todos encadernados, estavam dispostos com ordem em estantes baixas, nas ultimas divisorias das quaes se viam fragmentos de marmore e de tijolo. Um buffete collocado proximo{125}d'uma das janellas do jardim tinha ao pé uma poltrona com rodas o que justificava a informação dada pelo auvernhez com respeito á doença do dono da casa, o qual devia permanecer de preferencia n'este salão, a julgar pela alcatifa já bastante usada. As paredes estavam completamente cheias de varios objectos; quadros a oleo, aguarellas, quadros em cobre, armas cinzeladas etc., etc. Deante da secretaria, um cavalete guarnecido d'um estofo antigo de côr rosa palida, com grandes flores de prata, sustentava um quadro oval.

Chalinhy approximou-se do quadro para o observar, e ao vel-o, teve que sentar-se, tal foi o seu espanto pelo inesperado, ao reconhecer a pessoa cujo retrato estava reproduzido na tela. Era sua mãe.

Sua mãe?... Sim, era ella, e pintada por um artista de que bem depressa conheceu a obra e a assignatura: Miraut. Existia um retrato della, de corpo inteiro, pintado pelo mesmo artista, no salão do palacio Chalinhy. Esse grande retrato tinha sido feito no mesmo anno—indicado n'um dos cantos da tela: 1875. Foi na epocha em que aquelle pintor, hoje velho, estava em plena voga. Os filhos não tinham nunca visto esta reproducção, que continha sómente a cabeça e o busto. Sim, era sua mãe, não tal como a havia contemplado no leito da morte, quatro annos antes, envelhecida prematuramente, pela terrivel doença que a victimou, um cancro no figado, com o rosto emmagrecido, amarellecido, e torturado pela dôr—mas a «mamã» da sua infancia, com os seus bellos olhos{126}avelludados d'então, tão negros e tão doces no seu olhar d'uma idealidade digna de Prudhon; com o seu sorriso feliz nos labios finos e flexiveis; com as madeixas escuras dos seus cabellos que apartava na frente em dois bandós ondulados, á moda d'então, com a linha correcta e cheia dos seus encantos, e com a dôr do seu rosto, que tinha a delicadeza da petala da rosa.

Porque estranho acaso este retrato se encontrava ali, deante d'esse «bufete», n'uma sala d'esta casa onde vinha, elle, o filho d'essa mulher, procurar a explicação d'um segredo que affectava a sua honra de marido? Um acaso? Não. Sobre o mesmo «bufete» existia tambem uma moldura de couro, com tres divisorias, onde se viam tres photographias de sua mãe, em epochas differentes,—uma mais nova do que o retrato, outra da edade de quarenta annos, e a terceira da edade de cincoenta; e, ao lado, n'uma moldura oval, escura, a reproducção d'uma outra photographia que elle, Chalinhy, lhe mandou tirar depois de morta.

Uma madeixa de cabellos se divisava através o vidro, e a data do anniversario para elle sagrado: «5 de setembro de 1897» lia-se a um canto do cartão. Estaria sonhando? Ainda mais, n'uma terceira moldura, que fazia «pendant» com a primeira, appareciam-lhe agora photographias suas: uma que o representava ainda creança, outra aos dezeseis annos, e ainda outra recente! ... Vendo, como em certos casos de allucinação, a reproducção da sua propria pessoa, não teria experimentado{127}uma impressão mais violenta, tão violenta, que chegava ao terror...

Onde estava?... Em casa de quem? Que occulta ligação, e de que nunca sequer suspeitára, o unia á pessoa que ali vivia entre esses objectos, e que o conhecia desde a infancia, que conhecia sua mãe desde muitos annos, que conhecia sua esposa—sem elle o saber?

Um novo indicio, que mais fez desvairar a sua razão, confirmava a denuncia que o conduzira áquella casa: n'um biombo de seda, collocado defronte da janella, e no qual se achavam suspensas varias miniaturas de familia, viu tambem pequenas photographias de Valentina e dos filhos.

A estranheza d'uma descoberta, tão completamente imprevista, que chegava a ser phantastica, o silencio d'esta sala tão reservada, que o ruido da rua já de si silencioso difficilmente ali chegava, o contraste entre o que procurava e o que vinha encontrar—tudo contribuiu para mergulhar Chalinhy n'uma especie de hypnose, de que o despertou de repente, a approximação d'um homem, ao qual dez minutos antes se preparava para exigir uma explicação, ainda mesmo pela ameaça.

Uma porta de dois batentes, que um reposteiro disfarçava entre duas estantes, se abriu repentinamente. O ruido d'uma pesada cadeira de rodas annunciou a chegada do doente. O senhor Dumont—porque era elle—estava immovel na sua cadeira mechanica, que um enfermeiro empurrava. O paralytico era um homem de sessenta annos, pouco mais ou menos, todo branco, e que devia{128}ter sido muito bello, porque o seu rosto, emaciado pelos longos soffrimentos, conservava as largas e nobres linhas que revelam a raça.

Ligeiras deformações: a bocca um pouco torta e o olho direito algum tanto elevado, marcavam na sua cara, de uma infinita melancholia, o stygma da inexoravel nevrose. O braço direito, que não podia mover, repousava, inerte, sobre a perna, emquanto que com a mão esquerda movia um punho de cobre ligado á cadeira e com o qual lhe dava a direcção desejada. O fato, muito apurado, revelava as minucias dos seus cuidados pessoaes, tão raros n'estes condemnados á morte, e que são como que um ultimo e pathetico protesto contra a sua inevitavel perda. O brilho dos olhos, tão notavel n'estas longas agonias, denunciava a lucta desesperada da energia animal contra a morte proxima.

Não exprimiam esses olhos, brilhantes e muito negros, emquanto as rodas da cadeira giravam deante da porta, nenhum presentimento da impressão que n'elles ia apparecer em breve. É necessario dizer—e é a explicação da facilidade com que o visitante foi recebido—que, na sua ultima visita á rua Lacépède, n'essa funesta segunda-feira a marqueza de Chalinhy falou ao doente d'um negociante que tinha lindas estatuetas do seculo XVIII.

A acquisição d'algum d'esses objectos raros, capazes de figurar n'uma das suas estantes ou na grande vitrine ao fundo da galeria, era a unica alegria do paralitico. Por um mal entendido, quiz{129}a fatalidade que o negociante que Valentina mandou a casa do sr. Dumont, se esqueceu de lá ir. Quando a sua cadeira rolante transpoz o limiar da porta e que viu, em logar do bric-a-braquista, a figura de Norberto de Chalinhy, a sua mão esquerda crispou-se no braço do movel, n'um movimento quasi convulsivo. Endireitou o busto e uma emoção d'uma intensidade extraordinaria lhe descompoz as feições. Da sua bocca offegante escapou-se um intenso grito e bradou aos creados que o acompanhavam, n'uma ancia angustiada: «parem, parem...». Pararam com effeito, a tempo de Chalinhy, immovel de surpresa deante d'esta tragica apparição, ver duas grossas lagrimas a saltarem dos seus olhos fixos e deslisarem pelas faces macilentas e cavadas. Em seguida o velho disse, como n'um gemido: «entre, mas entre, entre...». A angustia que se traduziu nas suas palavras causou, sem duvida, admiração aos creados, habituados aos signaes da approximação da crise. Fizeram recuar rapidamente a cadeira e fecharam a porta. Ainda Chalinhy estava sob a impressão do grande abalo que lhe produzira esta scena, tão terrivel como rapida, quando um dos creados, precisamente o que o recebeu, tornando a apparecer, a tremer todo e n'uma grande afflicção, lhe disse:

—«O patrão está com um ataque, e não ha ninguem em casa senão eu e o enfermeiro...»

—«Onde mora o seu medico?», perguntou Chalinhy. «Eu me encarrego de o ir chamar».

—«Oh! senhor», respondeu o creado, «não ousava{130}fazer-vos esse pedido!... Mas depressa, depressa. Ao meio dia e meia hora ainda o encontra em casa. É o doutor Salvan, e mora noboulevardde Saint-Germain, n.º 30.»

Da rua Lacépède á casa do extremo sul do interminavelboulevardde Saint-Germain, onde vivia o celebre especialista de doenças nervosas, para ficar mais proximo da Salpêtriére, seu hospital, a distancia não era grande. Durante os dez minutos que demorou em a percorrer, Chalinhy não tentou mesmo raciocinar a respeito da série de factos, para elle absolutamente incompreensiveis, que acabavam de dar-se. Na confusão de todo o seu pensamento em face do enygma a cuja decifração se entregou apaixonadamente, um ponto luminoso apparecia muito ao longe: recordava-se de ter visto já o rosto do paralytico surgido deante d'elle, no fundo d'essa bibliotheca estranha, onde com espanto encontrou o retrato de sua mãe, o seu, o da esposa e dos filhos... Mas quando? Aonde? Procurava, no mais recondito da sua memoria, a physionomia d'um homem ainda novo, no qual a mascara do velho e moribundo, se justapunha.{131}Era uma d'estas recordações longiquas, tão cheia de incertezas, em que a realidade se confundia com o sonho... «Dumont... Dumont...?» Chalinhy, repetia este nome mentalmente. Não conseguia associal-o ás imagens tão vagas e portanto indistinctas já, que se agitavam na sua reminiscencia.

Em scenas mal definidas, cujos detalhes inconscientes e incompletos se esfumavam na sua intelligencia, figuravam conjunctamente sua mãe e o marido de sua mãe—aquelle que sempre acreditára e que ainda hoje acreditava, ser seu pae. Mas como se chamava então esse homem que tinha os mesmos traços de nobresa e o mesmo olhar profundo do doente? E eis que, de repente, acudiam a essa reminiscencia syllabas indistinctas: «Magneville?...Raneville?...Layneville?...» Ao mesmo tempo—porque mysterioso trabalho do seu espirito angustiado?—via a figura de seu pae, do defunto marquez de Chalinhy, fallecido ha tanto tempo já. A que proposito se recordava, e por que sentia de novo, depois de muitos annos o indefinivel incommodo que sempre sentira na presença d'esse homem do qual nunca tivera a minima razão de queixa, a não ser talvez a preferencia que manifestava pelo seu irmão mais velho? Mas, apesar d'isso, elle e o irmão não tinham tido a mesma educação, e vivido, na casa paterna nas mesmissimas condições? Sem duvida, se seu irmão não tivesse morrido pouco tempo antes do pae, teria sido bem mais contemplado do que elle na herança paterna. Um documento encontrado entre{132}os papeis do marquez, provava bem que havia querido legar ao filho primogenito toda a parte dos seus haveres de que, em face da lei, podia livremente dispor. Mas Norberto conhecia muito bem as idéas do fallecido gentil-homem para se admirar d'esta tentativa de reconstituição do direito de primogenitura.

Que ligação estabelecia então, de repente, entre as manifestações de friesa por parte de seu pae e os acontecimentos em que a denuncia da esposa, feita pela amante, o tinha envolvido? Não saberia dizel-o, nem tambem que hypothese se esboçava dolorosamente, obscuramente, na sua imaginação, hypothese logo posta de parte, por ser tão sacrilega como insensata?... Absurdo pesadelo, que a paragem do trem em frente da casa do professor Salvan, fez dissipar!

—«Saberei alguma coisa por elle», disse comsigo. «Contanto que lá esteja!...»

O medico estava effectivamente em casa. Logo que Chalinhy lhe fez apresentar o seu cartão, no qual escreveu:Da parte do sr. Dumont, que está muito mal, foi immediatamente recebido. Ao primeiro golpe de vista, o marido de Valentina viu logo que o homem de 45 annos que a baroneza de Node vira chegar n'uma carruagem de aluguer ao pavilhão da rua Lacépède era o medico. O professor Salvan tinha na realidade mais dez annos; mas, perfeitamente conservado por uma existencia continuamente activa e quasi ascetica, não indicava tanta edade. Era magro e robusto, com uma cabeça pequena, e cujo rosto attrahente e imberbe{133}recordava a physionomia napoleonica do seu mestre Charcôt.

No mundo das grandes celebridades medicas e parisienses, onde os ultimos annos tantas notabilidades se tem manifestado, Salvan figurou sempre em separado, associando, como o seu amigo e condiscipulo Eugenio Corbiére, que voltou já ás antigas normas, o catholicismo mais accentuado ao mais solido talento de clinico e de anatomista.

Mais celebre do que conhecido, os seus immensos trabalhos conservaram-no sempre affastado dos salões e o gosto pelas investigações puramente scientificas, da clientela.

A morte do seu unico filho, em 1898, em circumstancias bem crueis—envenenara-se, longe dos seus, n'um hotel de Napoles, por desespero d'amor—tornou-o ainda mais concentrado.

Foi desde então que deixou a sua instalação no boulevard Malheserbes, para se refugiar ali, n'uma casa mais modesta, mas que não lhe recordasse constantemente a creança tão tragicamente perdida.

Este detalhe prova bem quanto um tal homem tanto em contacto com os soffrimentos da humanidade, era sensivel, apezar da sua apparente severidade e indifferença e da dureza do seu penetrante olhar. Eis tambem a justiça do motivo porque o brilho dos seus olhos feriu Joanna de Node, quando o observou ao descer da carruagem. O mesmo brilho agudo, como a lamina d'um bisturi feriu tambem Chalinhy, emquanto lhe descrevia o ataque que acommettera o sr. Dumont. O medico{134}estava assentado ao fogão, n'uma pequena sala que servia de gabinete de trabalho a sua mulher, vestia uma sobrecasaca preta, de luto, que não abandonou mais desde a morte do filho, e á medida que o marquez proseguia na descripção, o seu rosto, d'uma expressão tão energica, assombrou-se visivelmente:

—«Está muito doente, não é verdade?» perguntou Chalinhy.

—«Muito», respondeu Salvan. «Está á mercê do mais pequeno abalo. É mesmo espantoso como tem resistido a tanto, é espantoso!... Teve o primeiro ataque ha seis annos. Vinte vezes o tenho considerado perdido; mas tem uma tal vontade de viver!... E quando verdadeiramente se quer viver, vive-se... No entanto, devo dizer-lhe que sem os cuidados das senhoras de Chalinhy, não teria resistido. Teem sido admiraveis de dedicação as duas. As suas visitas é que o prendem á vida... Tambem se resolveu a ir vêl-o, fez bem. As dissensões de familia devem desapparecer deante da morte... Espero que não será ainda hoje, comtudo não ha tempo a perder, estarei lá dentro de vinte minutos. Póde annunciar-me.»

Deus! como Chalinhy, escutando estas palavras que mais escureciam ainda o enygma, desejaria interrogar o professor, convidando-o a explicar-se. O que aproveitaria com isso? Mesmo que a sua honra o não prohibisse de entrar n'um assumpto que envolvia uma mentira por parte de sua mãe e de Valentina, não era evidente que Salvan acreditava no pretexto de dissensões familiares, imaginado{135}pelas duas mulheres para justificarem a sua presença á cabeceira do leito d'este moribundo, em que outro homem da familia ali fosse? O que lhe era então esse senhor Dumont?

Que sagrado dever vinha cumprir junto d'este infeliz, n'um bairro escuso, primeiro sua mãe e depois sua esposa—occultando-se d'elle, como se tinham occultado, com a prudencia de criminosas?

Tinha sido necessario para que conhecesse o segredo d'estas visitas, um tal concurso de circumstancias! E eram innocentes estas visitas, demonstrava-o o testemunho do medico declarando-as nobres e da mais benefica caridade. De que tinham então receio as duas mulheres? Que elle, filho e marido, lh'as prohibisse? Não. Qual seria então a imperiosa razão que as dominou, a ponto de nem ao medico terem dito a verdade, visto que inventaram a fabula d'um parente malquisto.

E o doutor Salvan acreditou na existencia d'este parente, occulto, dos Chalinhy? Porque? Não entraria ahi o segredo profissional.

Por outro lado, não acontece muitas vezes que um membro deshonrado d'uma familia se esconde em Paris, mudando de nome? Com certeza que sua mãe e Valentina tinham contado esta historia ao doutor, mas a verdade é que tal historia era falsa. Se fosse verdadeira, elle Norberto, o actual chefe da familia, conhecel-a-hia... Estes retratos, porém, no salão do doente, representando-o a elle, á mãe, á mulher e aos filhos, em differentes idades, o que significavam?{136}

A perspectiva agora aberta deante do seu espirito infligia-lhe um tormento tão forte, que o impedia de sentir a consolação de ser livre d'uma outra suspeita, da que, duas horas antes, tinha a respeito da esposa.

A sua espectativa actual, por ser d'uma outra natureza, não era menos terrivel. Reconheceu-o no momento em que voltando á rua Lacépède, o creado lhe annunciou, com grande consternação, que o doente não recuperára ainda os sentidos.

Quando ha pouco o medico o felicitou por ter tambem ido visitar o enfermo, um intenso rubor lhe subiu ás faces pela immerecida saudação. Que atroz ironia, desde que, realmente, a sua apparição na sala, aonde nunca havia figurado, senão em effigie, é que produziu no dono da casa aquelle abalo terrivel, talvez mortal. Comtudo emquanto se affastava da pequena casa, sempre silenciosa, olhando as velhas tilias cujo ramos ultrapassavam o muro do jardim, um violento e inolvidavel remorso começava a perseguil-o. Disse ao cocheiro que o conduziu da rua Lacépède, aoboulevardSaint-Germain, e d'ali novamente á rua Lacépède, para o levar á rua Varenne, ao seu proprio palacio.

Uma unica pessoa podia auxilial-o na decifração do enigma que, de minuto a minuto, se lhe affigurava mais tremendo, e no qual figurava d'um lado o desconhecido, e do outro sua mãe, sua mulher, os filhos e elle proprio.

—«Não se recusará a fallar-me», dizia elle, «não deve fazel-o. Não pode deixar-me n'esta horrivel{137}incerteza... Tenho o direito de tudo saber, pois que se trata d'ella e de minha mãe...

Por maiores que fossem os seus esforços para mostrar a si mesmo a immutavel soberania do seu titulo de filho e de marido, não podia esquecer-se da scena com a esposa, duas horas antes, e da mudança operada na sua situação ao voltar de novo á presença de Valentina. Deixára-a, completamente desconcertada pelas suspeitas que o zelo perigoso d'uma parenta imprudente tinha insinuado no seu coração. Luctava contra essas suspeitas não acreditando na sua veracidade. Ella que não contava na sua vida um unico facto que merecesse censura, não tinha zelos, e, a par d'isso, elle que a atraiçoava, recorria, impellido pela mais calumniosa, pela mais gratuita denuncia, á mais insultante das investigações. Para iniciar com ella a conversa que lhe daria, emfim, a luz de que tanto necessitava, era preciso referir-se primeiro a essa investigação. O que entrevia no fundo d'aquella alma tão terna e tão reservada, produzia-lhe, n'esse momento, uma vergonha de si mesmo e do seu procedimento, muito superior ás outras perturbações do seu ser. Estas emoções de caracter bem diverso, tornaram-lhe horrivelmente dolorosa a entrada do gabinete aonde Valentina se encontrava depois de almoçar. Estava junto dos filhos, Francisco e Armanda—o filho tinha o nome do irmão mais velho de Norberto, morto tão novo ainda, e a filha o de sua avó. Quando o marido abriu a porta, a marqueza de Chalinhy acariciava os cabellos annelados das duas formosas{138}creanças, n'uma attitude muito semelhante á da photographia que estava no salão do doente, em que nunca as tinha visto.

Uma tal analogia, augmentando de novo em Chalinhy a sensação do mysterio, deu-lhe força para provocar uma tão dolorosa conversação. Além d'isso, se todos os signaes, o tremor das suas mãos brancas de mulher em volta dos cabellos das creanças, o rubor das faces, a expressão dos olhos, lhe denunciavam bem que ella, por seu lado estava agitada, vibrante, não sabendo ainda da sua acção recente, de que podia ella tremer senão do desgosto que lhe confiára pela manhã em termos tão claros, muito embora disfarçados? A «crueldade do mundo», como tinha dito, feriu-a, e, por isso, tentava esquecel-a ao contacto das duas almas candidas descendentes da sua, e cuja innocencia lhe sorria atravez dos lindos olhos azues e das boccas rosadas. A mãe sorria-lhes tambem, com um sorriso que nos seus labios nervosos se transformou em tremor, quando viu entrar Norberto; deixando ir as duas creanças ao encontro do pae, com a ligeireza e maneiras graciosas d'essas delicadas creaturas quando estão contentes. Em crises como a que atravessavam marido e mulher, estas festas tão expontaneas, tão innocentes do filho e da filha deviam incommodal-os. A antithese entre o pesar que os paes teem no coração e a alegria communicativa cheia dos encantos da vida, d'essas sensibilidades tão juvenis, constituem a parte tragica e pungente de certos dramas de familia. São tambem muitas vezes a sua unica consolação. É o rejuvenescimento,{139}é o porvir que annunciam esta alegria descuidada dos filhos ao homem e á mulher que soffrem. Norberto e Valentina experimentavam por vezes uma e outra impressão, e as suas primeiras phrases quando, de commum accordo mandaram as creanças embora, exprimiram essa tristeza e esse prazer.

—«Como estavam satisfeitos na tua companhia» disse Chalinhy, «deixaval-os gosar um pouco, e tinhas razão! Quando se não é feliz em creança, arrisca-se a gente a morrer sem nunca o ter sido...»

—«Não os distrahia», respondeu a mãe, «distrahia-me com elles. Quando tenho momentos de desanimo como aquelle que tive a fraqueza de te deixar perceber esta manhã, elles fazem-me readquirir a esperança. Mas, como vês, estou melhor, tive força sobre mim. Não me deitei. Almocei com elles, visto que me mandaste dizer que não almoçarias em casa, e acabámos ha pouco...»

Conservaram-se silenciosos durante algum tempo.

Deante d'esta nova prova da benevolencia e energia d'esta alma, que não queria mostrar-lhe quanto fôra violentamente magoada com a denuncia da carta anonyma, o marido, perfido e desconfiado, sentiu um remorso mais vivo ainda, a par d'uma recordação agudissima do mysterio contra que se debatia. Era forçoso que a esposa lhe ligasse uma importancia capital para que continuasse a manter a maior reserva sobre um tal mysterio, pela sua attitude, como uma mulher culpada,{140}quando é certo não tinha a occultar senão a mais pura dedicação!

Mas porque... E encontrando na sua crescente affeição, força para confessar o seu degradante accesso de ciume, disse:

—«Valentina venho da rua Lacépède.»

Emquanto pronunciava estas palavras de que só ella no mundo, visto que a mãe de Norberto tinha morrido, podia medir o tragico alcance, ditas pela sua bocca, olhou-o com espanto e assombro. Repetiu, como se não podesse acreditar nas palavras que tinha ouvido:

—«Vens da rua Lacépède... Foste lá depois de me deixares, tendo-te fallado da maneira porque te fallei! Foste lá...»

—«Sim,» respondeu em voz baixa e com a firmeza oppressa mas decidida d'alguem que, querendo reclamar um direito, se força a cumprir primeiro o mais doloroso dever. «Fui num momento de desvario... A carta anonyma, a indicação tão precisa do numero da porta, a tua perturbação quanto te fallei... Perdi a cabeça: apoderou-se de mim o ciume; quiz saber e fui...»

—«Ah!» disse ella com um modo que Norberto lhe não conhecia ainda.

«Podeste fazer-me uma cousa semelhante!... Não, não foi a carta anonyma que te fez ir lá, não foi a denuncia, nem a minha perturbação, foi... Meu Deus!» e levantou as mãos n'um movimento desesperado.

«E eu que estava tão enternecida com a tua delicadeza, esta manhã, e que dizia commigo: calumniaram-no!...{141}O que te obrigou a ir lá,» continuou Valentina, approximando-se do marido, com o seu bello e nobre rosto congestionado pela indignação: «foi a entrevista que tiveste com Joanna. Veio aqui, fallou-te; o que te disse não sei... Ouvi as vossas vozes atravez da porta, não quiz porém, escutar o que diziam... Mas depois que partiu, sem procurar ver-me, comprehendi logo que algum facto extraordinario se passou entre vós... Adivinhei tudo immediatamente. Tudo vi... Foi ella que escreveu a carta anonyma, que me seguiu, que me denunciou, que te indicou a pista que devias seguir tambem para me surprehenderes!... Ah! a infame! A infame!... Tinham n'esse caso razão. Ha entre ti e ella uma intriga. Porque lhe consentiste que falasse assim de tua esposa—da mãe de teus filhos—é que ella é tua...» Deteve-se deante da palavra amante, que lhe abrazava o coração, e, n'um grito de legitima revolta da esposa muito ultrajada, protestou dolorosamente:

«Não, não foste lá por teres ciumes de mim, mas sim porque me atraiçoas...

«Querias apenas ter uma prova para te tornares livre, para só te dedicares a ella.

«Mas que mulher julgas então que eu sou? Dei-te, por ventura, o direito d'assim me julgares? E ella!... Oh! É triste, profundamente triste! E eu não merecia tanta ingratidão!...»

—«É naturalissimo que assim penses», respondeu Chalinhy, em voz ainda mais baixa. Sentia-se incapaz, n'este momento, de discutir factos{142}evidentes que não eram nada moraes, incapaz de protestar a sua innocencia com respeito á ligação com Joanna de Node. Necessitava muito saber a verdade para poder mentir. E depois, como negar a conversa com a amante, junto da porta do quarto da esposa, e de que esta ouviu algumas palavras? Como justificar a mudança subita do seu procedimento, depois da visita de Joanna, precipitando-se na investigação, que se via obrigado a confessar, visto que entrára em casa sómente com o fim de a concluir? Accrescentou, solemnemente: «As apparencias são contra mim; e comtudo...» Hesitou um momento, e depois, em voz mais elevada como para confirmar a solemnidade do juramento, accrescentou:

«Juro-o sobre a cabeça dos nossos filhos! Não, o meu procedimento não foi dictado pelo desejo de me tornar livre, não teve uma tão abominavel intensão. Não obedeceu a um plano anteriormente concebido. Fui um louco, assevero-te... As tuas visitas a essa rua escusa, as precauções de que te rodeavas, este segredo da tua vida... Quando cheguei em frente d'essa casa não consegui dominar a duvida cruel que me torturava... Interroguei os lojistas da visinhança, e soube quem vivia ali... Não me interrompas. Era a espionagem, a infame espionagem, sinto-me aviltado pela ter exercido! Emfim, bati á porta: dei o teu nome para entrar, recebeu-me e vi o sr. Dumont. Quem é. Valentina dize quem é?...»

Á medida que o marido fallava, contando tudo, com as faces ruborisadas e com os olhos incendidos{143}pela febre de saber a verdade, o rosto da joven marqueza mudava de expressão.

Á colera indignada dos primeiros momentos, seguiu-se uma anciedade que se approximava do terror, quando ouviu a phrase irreparavel. «Recebeu-me...»

Soffreu uma emoção tão violenta que todo o seu corpo tremia convulsivamente. Depois, condensando a vontade n'um supremo esforço, teve a coragem de defender ainda o segredo, que não era seu, contra o apaixonado inquerito de Chalinhy.

—«Desde que viste o sr. Dumont, sabes já quem é... Um doente a quem fiz a esmola d'algumas visitas, em cumprimento d'uma promessa solicitada por pessoa que já morreu... Deixa-me cumprir este dever de caridade até ao fim. Não o cumprirei durante muito tempo; por isso tem tu tambem a caridade de mais nada me perguntares...»

—«Obedecer-te-hei», respondeu Chalinhy, «se me jurares tambem sobre a cabeça de nossos filhos, como eu fiz, que essa pessoa de quem fallas, essa morta que te exigiu o cumprimento de um tal voto não era...»

Hesitou um segundo, depois, muito baixo, murmurante:« não era minha mãe? Mas não jures, não pódes jurar... Sei que era ella... Não foi só o sr. Dumont que vi na casa da rua Lacépède. Vi tambem minha mãe... Está lá o seu retrato, um retrato que não conhecia, em casa d'esse homem que ainda conhecia menos! Não é só o seu retrato que lá se encontra, mas tambem o teu e o meu...»{144}

E, de repente, illuminando-lhe a memoria um d'esses clarões de reminiscencia que nos fazem recordar n'um instante promenores d'um facto esquecido ha annos. «Mas eu conheço muito bem esse homem: Recordo-me perfeitamente d'elle. É Raynevilhe.» E repetiu. «Raynevilhe. Raynevilhe vinha a nossa casa n'outro tempo e depois desapareceu... Sim, espera. Recordo-me agora... Um processo... uma condemnação... Desde que sei o nome reconstituirei tudo... Não era porem nosso parente» continuou elle seguindo o seu pensamento, «e minha mãe continuou a vel-o secretamente até fallecer?... Pediu-te depois que o visitasses tu, quando não podesse lá ir já?... A questão Raynevilhe?... Sim, foi condemnado... Mas qual o motivo? Qual o motivo? Não me recordo. Sabel-o-hei, vou já a casa do meu advogado. Elle consultará a collecção daGazeta dos Tribunaes. Quero saber...»

—«Supplico-te, meu amigo» disse a marqueza de Chalinhy, detendo-o. «Tranquilisa-te.» E com uma expressão de terror, sempre crescente, accrescentou ainda: «Não vás a casa do advogado. Não pronuncies o nome de Raynevilhe a ninguem. Reconheceste-o sim, pois é verdade ser esse o seu appellido. Emquanto ao processo de que fallaste, existiu tambem e elle foi condemnado... Mas, que vaes fazer? Queres obrigar os mortos a fallar?

«Sim. É um amigo d'infancia de tua mãe. Teve piedade d'elle depois que praticou uma enorme falta pela qual foi horrivelmente punido.{145}

«Quando se viu proxima da morte, teve ainda pena do desgraçado. Era um doente e vivia inteiramente só, por isso pediu-me para a substituir... Ah! meu amigo, não ultrages a memoria de tua mãe, depois de me teres ultrajado a mim! Respeita a sua ultima vontade, como eu fiz...»A marquesa esquecera por completo as recriminações do principio da conversa, esquecera Joanna de Node, não se lembrava mais de ciumes; n'aquelle momento sómente via que era forçoso obstar, por todos os meios, a que o marido proseguisse no inquerito, por isso concluiu por dizer: «Promette-me que tudo acabou, que ficarás por ahi! Que queres tu descobrir mais?»

—«O que quero descobrir mais? Quero saber porque motivo minha mãe me occultou esse acto de caridade, e porque motivo te pediu que m'o occultasses tambem.»

—«Valentina,» continuou Chalinhy, supplicante, «começaste a dizer-me a verdade; vae até ao fim... Como queres tu que acredite? Como queres que simples visitas de caridade para com um homem condemnado, expliquem a offerta d'um retrato como o que lá vi, feito tambem a occultas. Nunca ouvi fallar d'esse retrato, nem eu nem ninguem. Foi feito propositadamente para esse homem, percebes,para esse homem!... E a minha photographia! Porque a tem tambem sobre o buffete? Não me digas que é signal de reconhecimento para com a sua bemfeitora. Não, não e não. Ha outro motivo, forçosamente... Falaste de caridade e não a tens para commigo ajudando-me{146}a expulsar do espirito uma ideia que se começou a apoderar de mim, que me tortura, que não quer abandonar-me,—a repellil-a,» accrescentou com um modo sombrio, «ou a acceital-a.»

—«Qual ideia?» balbuciou Valentina.

—«Teria esse homem, a quem minha mãe proporcionou tantos cuidados até ao fim da vida, e ao qual tu os proporcionas tambem, depois d'ella, na sua mão meio de a perder, de nos perder a todos... Não queres que vá a casa do meu advogado, porque? Porque receias que o seu nome e o nosso sejam pronunciados juntamente. Figuram, por acaso, juntos ao processo, e occultavam-m'o sempre?... Não me impedirás de o saber...»

—«Fica sabendo que esse triste acontecimento nada tem de commum comnosco, respondeu a marqueza de Chalinhy. É sinistro, mas bem simples: O senhor de Raynevilhe tinha um tio, muito rico, e, achando-se um pouco embaraçado por falta de dinheiro, arrastado por esse meio parisiense, como tantos rapazes de boas familias, sendo os restantes herdeiros d'esse tio todos muito abastados tambem, concebeu a ideia de assegurar só para elle a herança, que tantos intrigantes invejavam, imitou a letra do tio e fez um testamento falso. Eis o seu crime. É grande, mas expiou-o com tantos annos de martyrio... Foi condemnado, e depois que cumpriu a pena, não viveu, n'esse bairro humilde, senão para os pobres e para Deus... Podes, em querendo, verificar se o que te digo é ou não verdade...»

—«Esse homem é, pois, um falsificador, um ladrão,»{147}respondeu Chalinhy, duramente, asperamente. «E pedes-me que não procure conhecer os motivos porque minha mãe o tornou a ver, quando sahiu da prisão—para que tu os conheças tambem? Pode-se ter consideração por um assassino, por não merecer o desprezo, mas por um falsario, um ignobil falsario!...»

—«Cala-te, meu amigo, cala-te, supplicou Valentina. Não quero ouvir-te pronunciar taes palavras a respeito d'elle!...» Deteve-se como que petreficada pela phrase que ousára proferir. Olharam-se mutuamente, sem que nenhum d'elles tivesse força para continuar uma tão tragica conversação, que a entrada d'um creado que vinha trazer uma carta tornou mais tragica ainda. Entregando-a, o creado disse:

—«É do doutor Salvan, para o sr. marquez. A sua carruagem espera lá em baixo pela resposta.»

—«Diz que fica entregue e que não tem resposta. A carruagem do doutor Salvan pode partir» accrescentou Chalinhy, depois de ter deitado um rapido olhar para o bilhete que entregou á esposa, logo que ficaram sós. Continha apenas dez linhas traçadas, rapidamente, a lapis, pelo medico, mas que linhas para ella que as lia, debaixo do olhar do infeliz a quem em vão tentara dissuadir: «Encontrei o sr. Dumont muito mal. Não pode fallar. Julgo, comtudo comprehender que deseja vel-o. A sua agitação é tal que tomo sobre mim a responsabilidade de lhe pedir que conclua a sua boa acção d'esta manhã, voltando á rua Lacépède, tambem. A minha carruagem o condusirá. Não abandonarei{148}o doente. Venha, se pode. Á noite talvez já seja tarde.»

—«Ah! Norberto,» implorou Valentina, como n'um gemido, «não é possivel que o deixes morrer assim, que lhe recuses o que pede... Ainda é tempo. Vem. A carruagem de Salvan ainda não partiu. Vamos n'ella, mas vem! vem! Corramos!...»

—«Não,» respondeu Chalinhy deixando-se cahir n'uma cadeira, e apertando a cabeça com as mãos, «não vou. Nada comprehendo, nada sei senão que esse homem e tudo quanto lhe diz respeito me causa horror.»

—«Cala-te» gritou ella de novo, n'um accesso selvagem; e estreitando-o nos braços com uma especie de ardôr desesperado, arrastava-o dizendo: «Mas vem; vem de pressa. Vem. Ah! Queira Deus que não seja já tarde. Elle é teu pae. É teu pae!...»


Back to IndexNext