[1]Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho que a pag. 254-255 dos seusApontamentos para a Historia contemporanea, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de Lisboa dacommissão alimenticia, 1.000 francos mensaes que com toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente lhe manda oduque de Modenae 6.000 francos doimperador Fernando d'Austria, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a 400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia domestica."Chegando apenas para a despeza domesticade D. Miguel, 72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.
[1]Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho que a pag. 254-255 dos seusApontamentos para a Historia contemporanea, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de Lisboa dacommissão alimenticia, 1.000 francos mensaes que com toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente lhe manda oduque de Modenae 6.000 francos doimperador Fernando d'Austria, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a 400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia domestica."Chegando apenas para a despeza domesticade D. Miguel, 72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.
Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel estava no seu reino, e—o que mais era—muito perto d'alli. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S. Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarcha legitimo—explicava. O major Bezerra era commendador da ordem e conhecia a cifra:—que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai:
—Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda...
O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho, muita aguardente, e desatou a berrar oRei-chegou.
O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou:
—Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!
Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou:—Valha-te o diabo, banaboia!
O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal empregado!—que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás caldas de Vizella á bomba quente.
Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidencias:—que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,—que o mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro, O fidalgo recusou:—que não estava auctorisado a receber donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita. Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S. Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos Antonio de Faria Rebello.[2]Que pouquissimas pessoas o tinham visto, porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exercito carlista, outros de Inglaterra.
Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que accrescentou:—e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes tu?—rematou o morgado—aqui anda marosca. O que tratam é de se abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo Christovão é um asno chapado.
—Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino—aconselhou o egresso—que digam alguma coisa.
Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu throno usurpado.
—Deixa-te de asneiras, Zeferino—dizia o fidalgo ao afilhado com as cartas na mão—el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que é uma comedella.
O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:
—Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda.
—O Cerveira Lobo! olha que borrachão!—disse o frade.
—Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle—accrescentou o morgado.
—Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle—objectou o pedreiro.—Ouvi-lh'o eu.
—Não duvido...—explicou o frade—que o snr. D. Miguel gostava de grandes patifes...
O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras graças a diversos clerigos e leigos.
—Que te parece isto?—perguntou o morgado ao frade.
—Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e que me perdôe sua magestade fidelissima...
Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um collaborador daNação. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella...
—Quer dizer—reflexionou o frade—que o tal impostor é um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o simulacro ... que palpem,—e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar á volta do outro. Que o que fosse soaria, e não cahisse o mano Zeferino na estulticia de se comprometter sem que os generaes portuguezes sahissem á rua.
Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem sahira das minas da casa-solar em Vermuim.
Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle, colerico:—que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E, apontando-lhe para os cinco filhos:
—Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem nojo!—Tinha estas equidades em jejum.
E ella:
—Mais nojo me fazem as borracheiras de você!
E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á garrafeira.
D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle. Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de Loulé.
Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o saudavam;—Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!—Tenha v. s.ª muito boas tardes, snr. morgado!—E elle, almofaçando as barbas conspurcadas de vomito:—Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os quadris, o grande coldre!—As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas commentavam:—Que levasse o diabo o piteireiro do fidalgo!—que a fidalga fizera bem era se pisgar com o doutor dos Pombaes.—Quer não—contrariava uma lavradeira idosa—foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! uma desgraça! Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao confêsso nem sabem a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se enfeitava para o estudante das Quintans que andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que desgraça, ó môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha tempos na taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o! E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava sempre cheia de frades das ordens ricas...
—Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas—dizia o José Dias de Villalva.—Muito cheias de frades aquellas fidalgas, hein?
—Ahi vens tu com as tuas alicantinas—retrucava, pronostica e solemne, a tia Rosa de Carude.—É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas d'hoje em dia presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e creavam os seus filhos.
—Os filhos dos frades?—perguntava o Dias.
—Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! Ainda bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo.
A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude, toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que mettia em casa—uma diversão á embriaguez, quando não exercia as duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada amiga.
Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dosDivodignospadeceram o supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em 38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem fazia prosa naGazeta litterariado Porto,—scenas dramaticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.
A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez eburnea, esmaecida,airs évaporés, um sorriso nobre de ironia rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;—que, se não fosse isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em se matar, mas...
—Os filhinhos...—atalhou Adolpho sentimentalmente.
—Não, snr.—acudiu a dama de Carlota Joaquina—não são os filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida—a aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.
Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos.
—Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!—dizia Adolpho á irmã.—Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a existencia?
Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães.
D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.
—Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella, requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao casal.—Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como se, depois de declamar umaContemplaçãode Lamartine, tivesse de recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse.
D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel:Jesus, Maria, José. Andava nos trinta a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne. O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a e dirigil-a na separação do marido por justiça.
O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca—e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios de religião, estragado por essas nações.
D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai! Pariz!—exclamava—Se eu então me passaria pela mente que havia de vir de Pariz para Amarante!
—Elle porta-se muito serio—dizia D. Andreza ao padre Rocha. Ella é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?
—Acho, acho...—confirmava o capellão.—D'aqui rebenta coisa, minha senhora; rebenta, v. ex.ª verá...
E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do sol nascente.
Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo, com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.
[2]Como seria de máo gosto inventar este episodio, imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo—D. Miguel, as revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a confiança.Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, preparando as suasMemorias, que devem esclarecer as obscuridades originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta:Eu apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso accrescentar...[3]
[2]Como seria de máo gosto inventar este episodio, imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo—D. Miguel, as revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a confiança.
Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, preparando as suasMemorias, que devem esclarecer as obscuridades originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta:Eu apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso accrescentar...[3]
[3]Carta de 11 de novembro de 1882.
[3]Carta de 11 de novembro de 1882.
Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro—um desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas grisalhas,—olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas, tinham amantes—uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães. Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos, possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com senhoras—canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe, chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher.
Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas. Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;—que bebesse, que se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com vaidade de fino:
—A quem elle o vem dizer!
Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel—«o meu velho amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto.
—Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de Chaves:—Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe tinha medo quando elle fazia aquellas partes.
—O vinho do Porto é o diabo!—dizia o alferes com uma grande experiencia d'essas façanhas incruentas—é o diabo!
O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á paizana.
Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada.
O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar.
Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões.
—Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste? Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não, trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.
Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana.
O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:—Idéas não me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se escreve, quero dizer...
—Ortographia?
—É como diz, padre Rocha, ortographia.
Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não se mettia n'isso; e accrescentava:—elle, o rei, aqui ha treze annos sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão no hombro:—E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia, S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim, pense lá... Nós cá estamos ás ordens.
O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua, julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;—por fim convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal, elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos.
A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta foi que escrevesse:—«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás ordens del-rei meu senhor.»
O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a D. Andreza,—porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio da esparrela que querem armar ao parvo do homem.»
A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios, explicações. Que estava uma obra profunda—dizia o fidalgo instruido em fim nas obscuresas do estylo.
E, tirando seis pintos do bolso do colete:
—Ahi tem para o seu rapé, merece-os.
O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás necessidades do snr. D. Miguel.
—É um realista ás direitas, padre, um grande realista!—E, guardando os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um calice de 1817.
—Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade—dizia o padre Rocha.
—Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai commigo, e póde logo vir despachado. Pois então?
—Está dito!—e o padre com um regosijo muito comico, e o calice aromatico de baixo do nariz:—Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó snr. tenente-coronel!
—Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não tenha duvida. Isto vai tudo mudar!—E carregava-lhe forte no 1817.—Arre! estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com a espada! Ha-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquillo não era bonito. Pois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! môcada de metter os tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles por uma vez! uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! meu camarada Telles Jordão! tu é que a sabias toda!»
O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O padre despediu-se.
Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras, macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril. Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios, esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias—o retrato de D. João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta, de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadioen bon point, um bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres brancos muito inchados e as azas abertas.
Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro, um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos. Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:
—Vossa magestade passou bem?
—Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.
—Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás nove e meia.
—Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu essas ordens e quem manda aqui é elle.
Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um grande tinteiro de chumbo com pennas de pato.
—Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, real senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a...
E o real senhor:
—Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer homem.
—Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
Ella descobriu a travessa a rir-se:
—Vossa magestade diz que gosta...
—Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a dizer—comei-me.
E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto, porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos—capellão-mór d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia particularmente ao abbade:—Este senhor, pelo que come, parece que tem passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha n'aquelle bandulho!—e dizia que lhe dava vontade de chorar, lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade contava que lêra noDeus o quer, do visconde de Arlincourt, que o snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade aquillo—que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que elle rejeitara.
Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S. magestade barrava-as de manteiga nacional,—preferia a manteiga do seu paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé do porco nas tripas tambem portuguezas—tudo do seu paiz. Que rei, que patriota!—meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.
No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de fumo que se espiralavam até ao tecto.
A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
—Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
—O...?
—Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
—Que suba.
O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:—Ó coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
E a outra, benzendo-se:—Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros, e por signal que nunca m'os pagou!
—Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem! Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.
—E que rico panno!
—Pois vês-ahi...
Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento—que levasse o diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas d'aquellas, para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E elle?—perguntava—almoçou bem?
—Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta pergunta á moça traz agua no bico.
—E tu que respondeste, moça?
—Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de confesso...
—Andaste bem.
Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva—um, aprumado na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto.
—Pede licença na sua casa, dom Prior?—disse el-rei.
O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se a erguel-o.
Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes.
—Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor!
—Póde e deve que o mando eu.
E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina:
—Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a quem vossa real magestade fez barão de Bouro...
—Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro...
—Perfeito cavalheiro—attestou o Nunes.
—Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa magestade.
El-rei leu alto:
Amigo Dom Prior de Guimarães.—Um realista do concelho de Famalicão chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util, já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira transmittir-m'as...
Amigo Dom Prior de Guimarães.—Um realista do concelho de Famalicão chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util, já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira transmittir-m'as...
—Estou-me recordando—dizia o principe pausando as suas reminiscencias—Cerveira Lobo...tenente-coronel de dragões... O Cerveira, o meu amigo Cerveira...
—Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o Albuquerque—lembrou o Nunes, o visconde Nunes—V. magestade lembra-se?
—Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira.
Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido do outro:
—Isto corre mal...
—Porque?!
—Se o homem cá vem, o meugrande amigo...
—Recebel-o como o teugrande amigo...
—Se me falla em particularidades ...
—Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas correm perfeitamente.—Ouviam-se os passos do abbade.—Tem dinheiro, elle tem muito dinheiro, ouviste?
Entrou o abbade.
—Só duas palavras. E leu:S. Magestade recebe com muito prazer a carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo.
—Muito bem,—approvou el-rei.—Hoje á noite, com todos os resguardos que urgem as cautelas.
—Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma carta—annunciou Senhorinha—só a entrega em mão propria ao snr. abbade.
—Que entrasse.
O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios.
Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas, de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor.
E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda escarlate. E o Caneta muito pontual.
—Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade.
—Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo.
Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi apalpar o embrulho, e muito baixinho:
—Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês?
O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi possivel. Nem parecia um rei!