Chapter 3

As sete da noite a soirée do monarcha de Calvos compunha-se do visconde Nunes, seu secretario privado e brigadeiro de infanteria, do abbade capellão-mór de el-rei, de dois reitores, conegos despachados, e o ex-sargento-mór de Rio Caldo nomeado capitão-mór de Lanhoso. Estavam todos em pé resistindo á licença de se sentarem. A cadeira de sola estava com o principe encostada ao relogio; e, na mesa central, papeis, o tinteiro de chumbo, oNovo Principe, de Gama e Castro, aBesta esfoladae oPunhal dos corcundas, do bispo fr. Fortunato. Em cima das caixas do milho estavam em meio alqueire com feijões brancos destinados ás tripas, e dois folles vasios que a Senhorinha tencionava encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos folles resbunava um gato enroscado.

Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.

Ás oito horas annunciaram-se os adventicios. O barão de Bouro entrou primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto n'uma gravata enchumaçada, preta, de cordãosinho de arame, sem laço, atacando os lobulos das orelhas, um pouco reintrante na altura dos gorgomilos. Usava oculos de oiro quadrados, e uma pêra grisalha; de resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; de cós das calças, côr de gemma de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha com o retrato de D. Miguel aos vinte e dous annos, a uma peça de oiro com a mesma real effigie. No peito da camisa, entre as lapellas do collete de velludo côr de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, em miniatura, enygma convencional dos cavalleiros de S. Miguel da Ala, obra patriota do ourives Novaes, pai do poeta Faustino.

De pés elle, entrou o Zeferino das Lamellas, muito enfiado, n'um spasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de niza de panno azul com botões amarellos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos do alhardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante.

O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco á mão esquiva de sua magestade. Por de traz d'elle, o Zeferino ajoelhára batendo com ambas as rotulas no taboado. O barão ia fallar, quando o rei, reparando no outro, disse:

—Levante-se, homem! Isto aqui não é capella.

O pedreiro teimava, achava-se bem n'aquella postura que o dispensava de procurar outra.

—Sua magestade manda-o levantar—disse o visconde Nunes.

Ergueu-se, e n'um impeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira, quando o capellão-mór lhe observou que as cartas se entregavam ao secretario.

O barão expoz que não pudéra resistir aos pedidos que aquelle honrado legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a entrar sósinho á presença d'el-rei, seu amo. Que era filho de um bravo alferes, o Gaspar das Lamellas, que em 1838, á frente de 300 homens, atacára a villa de Santo Thyrso, dando vivas a el-rei. Contou a façanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes, e que por causa d'isso entrévecera e nunca mais se levantou.

—Oh!—interjecionou compungidamente o monarcha.—Eu ignorava esse notavel ataque ... estava em Roma, sem noticias... Digno homem o meu honrado e bravo ... como se chama seu pai?

—Saberá vossa magestade que se chama Gaspar Ferreira.

E o rei:

—Visconde, escreva na lista.

O Nunes sentou-se á mesa, pedindo venia a sua magestade que ditou:

—Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infanteria, com vencimento desde 1838. Escreva á margem:Batalha de Santo Thyrso. E voltando-se para Zeferino que ladeava para a parede:

—Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá soldo dos sete annos passados.

O Zeferino abriu a bôca para dizer o que quer que fosse.

—A carta do meu velho amigo Teixeira?—perguntou o rei ao visconde Nunes.

—Cerveira, perdôe vossa magestade, Cerveira Lobo.

—Ah! sim ... Cerveira Lobo.

Abriu, leu para si, passou a carta ao secretario, e commentando exultante:

—Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens assim dedicados, o triumpho é certo. Posso dizer com o grande vate Camões:

E dir-me-heis qual é mais excellenteSe ser do mundo rei, se de tal gente.

E dir-me-heis qual é mais excellenteSe ser do mundo rei, se de tal gente.

Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas, olhou com espanto para o outro, que lhe disse á puridade, discretamente:

—Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim!

El-rei proseguiu:

—Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista:Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros. Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso, sentou-se a escrever—e que conversassem.

O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas.

Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas, muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa. Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto, troncos de giestas como a sua coxa—e mostrava—; tinha apanhado de raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na clareira; e mal elle apontou,pumba! metteu-lhe tres zagalotes no quadril.

—A gente a fallar incommóda talvez el-rei...—observou o barão de Bouro.

—Podem conversar á vontade, que não me incommodam.

—Aquillo é que é cabeça!—disse baixinho, tocado, um dos conegos a outro conego.

Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos, com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos.—A virar! a virar!—Carminavam-se os conegos. O dom Prior de Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia doispadres Marcos, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S. Gens de Calvos, dizia do outro:

—Forte bebedo!

O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e emquanto os padres n'um crescendo palavroso, expluiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o secretario privado curvou-se sobre o hombro de el-rei e segredou-lhe:

—Carrega-lhe!

—Ora!...

—Quanto?

—2.

—3. Anda-me. 3.

—Será muito!...

—Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.

E, em voz alta e voltado para o grupo:

—El-rei pergunta se o snr. Conde de Quadros tem familia, se tem senhora e filhos.

O Bezerra perguntou ao Zeferino.

—Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada; mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára.

—Desgraças!—disse o capelão-mór—desgraças! A corrupção dos tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se lhe ha-de dar.

Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto.

O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes.

Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes. Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente recortada.

O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em quatro a folha do almaço e sobrescriptou—Ao conde de Quadros, general do Exercito real.

N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes, fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua magestade.»

—Eu vou fallar a el-rei—disse Nunes com satisfatoria condescendencia.

Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco inclinado, e fallou-lhe baixo.

—Sim—respondeu o monarcha.

—Está servido, snr. barão—communicou o secretario, e foi registar no livro das mercês, proferindo em voz alta:Sua magestade há por bem nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em attenção aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.

—Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór—disse o barão de Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.

—Levante-se, amigo—disse o principe.—Aqui tem a resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo pessoalmente. Adeus.

A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não voltarem as costas á magestade.

A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a cela prompta, e que o frango com arroz não esperava—que era preciso comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre com el-rei e com o abbade.

O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma congestão de jubilo.

O Cerveira estava a dormir a sesta.

—Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!—informou um caseiro.—Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança, dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião. Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco que aturar a seu pai que tambem as agarra muitoprofeitas! Olhe você como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso! Aquillo só com meio almude no bucho!

—Não é tanto assim—atalhou o sargento-mór de Lamellas.—Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graieiro na aza; mas o que elle fez não era você capaz de o fazer, tio Manoel.

—Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par demelcruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou não é?

—Isso acabou—respondeu com desdem, irritado.—Agora não a queria nem que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu digo, tio Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas brevemente o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir.

—Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem capazorio, honrado...

—Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir uma janella—lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir.

E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo:

—Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!...

Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e lia:Ao conde de Quadros, general da exercito real.—Isto que diabo é?

—É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez. O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi despachado coronel por el-rei.

—O teu pai?! coronel!...

—É como diz.

—Ora essa! ... coronel! caramba!—disse despeitado; parecia-lhe iniqua a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos analogos d'el-rei; as injustiças d'algumas patentes superiores desde 1828 até á convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo. Parecia que a sua razão immergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da authenticidade de um D. Miguel que fazia sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes que passára das milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e plausivel em si as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as mercês feitas aos dous plebeus... Caramba!—Uma intermittencia de juizo. Emfim, abrira a carta e lêra para si com uma custosa interpretação, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.

A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito bem; era assim; e então a assignatura—Miguel, Rei—era tal qual. Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela mudança subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.

O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não estava assaz bebedo para confidencias.—Conta lá o que te aconteceu, Zeferino—e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda.

O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros tinha filhos.

O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer recebera a sua carta.

—Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o—esclareceu Zeferino.

—Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo.

—Prompto, senhor.

—Mas, se vais para casa, passa pelos Pombaes e dá parte ao padre Rocha que preciso fallar-lhe hoje á noite ou ámanhã cêdo.

O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes civicos do tenente-coronel. Repugnava-lhe o ebrio e professava uma sincera compaixão pelo homem.

Pouco depois do sol nado, o capellão de D. Andreza estava em Quadros com um grande interesse. Queria salvar o visinho d'uma ratoeira armada ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o principe proscripto estava no concelho da Povoa de Lanhoso.

Chegára um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho copiosamente, um bicho muito antigo, invulneravel, que não se afogava em pouca genebra.

—Não ha duvida, padre Rocha! Cá está o homem!—exclamou o fidalgo.

—Máo!—disse comsigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as inhalações alcoolicas do bafo.—Então é certo, snr. tenente-coronel?

—Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general a conde. Veja.

—Oh! sim? muitos parabens, snr. conde, muitos parabens! Quanto folgo!—e lia o sobrescripto.

—Póde abrir e leia alto.

—Muito boa fórma de lettra, sim senhor... É do proprio punho do snr. D. Miguel?

—Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?—perguntava com a botija inclinada sobre o calice.

—Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza ás dez horas.

—Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz aNaçãoque elle andava a estudar lá por fóra.

—Se dá licença, leio—interrompeu o padre com impaciencia curiosa.

—Vá lá!—e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão.

Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta.

Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta.

—Hein?—interrompeu o Cerveira.

—Muito bem—e proseguiu lendo:

Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me acompanhou nas alegrias da minha mocidade.

Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me acompanhou nas alegrias da minha mocidade.

—Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas rasgadas quando éramos rapazes?

—Sim, snr., v. ex.ª tinha-m'o dito.

—Ora ahi tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas!—e recordava-se com os olhos n'um spasmo entre a saudade e as iniciativas da borracheira.

—Continúo, se v. ex.ª permitte.

—Ande lá... Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo!—disse com tristeza, muito abatido. Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia ancias de abraçal-o, e dizer-lhe: «Regenere-se!»

—Ande lá. Leia, que o melhor está p'ra baixo.

Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem, emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome. Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos abraçar e chamar para meu lado.

Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem, emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome. Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos abraçar e chamar para meu lado.

O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lagrimas que destacavam no rubor da epiderme.

—Então que é isso? São lagrimas de alegria?—perguntou o padre.—Se são, deixe-as correr.

—Qual alegria! estou velho... Já não posso fazer nada a favor d'el-rei... Este pulso...—e retezava o braço. O padre assustava-se.—Ora leia para baixo, que está ahi uma passagem muito bonita.

Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição.

Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição.

—Foi assim!—exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar á sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre, eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as profundas dos infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D. Miguel I e que elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-meestupido. E eu, vai não vai, estive a mandal-o...

Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.

—Ande lá.

Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos como vós, bem poucos, mas que valem um reino.

Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos como vós, bem poucos, mas que valem um reino.

—Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha.

Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era qualquer pedaço de asno. Continuou:

Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar, comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria.Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo; mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de maio de 1845.Miguel, Rey.

Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar, comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria.

Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo; mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de maio de 1845.

Miguel, Rey.

Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. Quando o Cerveira lhe perguntou:—que tal? o que dizia elle?—dobrava a carta vagarosamente, encolhia os hombros e respondia:—Em fim ... não sei...

—Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre?

—Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza...

—De que é o rei que me escreve?

—Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo.

—O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como elle estar em Calvos.

—Bem!—atalhou o Rocha apressado, erguendo-se—quando vai v. exc.ª a Calvos?

—Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.

O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D. Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á mão armada.

—Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o dinheiro?—reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada.

—É o que eu vou saber.

N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção; deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S. Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa—não me recordo qual era a mitra.

A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade obsequiadora[4]; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi indecifraveis codices.

Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha, perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao reverendo dono da casa. Foi logo recebido.

—Que todas as horas eram livres para receber os amigos.

Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a exigir que lhe respondessem a verdade.

—Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra maneira. Que quer saber, padre Rocha?

—Se o snr. D. Miguel está em Portugal.

—Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.—E abrindo uma gaveta, extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um papel que mostrou.—Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito. Que mais quer saber?

—Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.

—Bem sei—preveniu o padre Luiz.—Essa mesma pergunta me fez ha dias o Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o snr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso. Propalam-o certos padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se não é para alarmar o governo ou lograr incautos...

—É isso mesmo: lograr incautos—interrompeu o Rocha e contou o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do supposto D. Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo tencionava levar no proximo sabbado ao impostor.

—Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido legitimista—alvitrou o paleographo.

—Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui irei para Braga entender-me com o governador civil.

—Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga, abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha, faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora, visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei. O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete: estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.

O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do conselheiro João Elias,—uma victima burlesca de troça dos setembristas—era o Marques Murta, uma gigantesca actividade phrenetica n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal, agradavel, com uns requintes de delicadeza de bom tom.

O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira Lobo com os tres contos.

—Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com os tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar ás necessidades da monarchia;—opinou o secretario sorridente.

O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel l.° ou de D, Maria 2.ª.

—Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso intelligente, habitual.—Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta hora ha-de estar na cadeia de Braga.

Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á porta principal, e uns berros formidaveis:

—Abra! abra! se não vai dentro a porta!

O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada.

—Que é?—regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito offegante.

—Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa magestade na adega antes que arrombem a porta.

As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro, muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santissima e a alma da tiaJacintra do Reimundlesque estava inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao Bom Jesus do Monte e aomartyle São Trocatles, se os livrassem d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O abbade muito afflicto:

—Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!

O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as, cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se escancaravam com estridor.

Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente os quartos e recantos.

—Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, oPilulado 8,—queremos o rei e algumas botijas de genebra. A garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr. D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude.

—O snr. está a mangar!—disse o abbade afinando pelo tom da chalaça.—Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.

—Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda tambem o az do mesmo naipe.

—Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu sargento!—propoz o 24.

—Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade, vamos á genebra, á adega. Mêxa-se.

—A genebra está cá em cima—observou o abbade um pouco enfiado.

—Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que temos pressa. Abra a porta da adega.

—Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer—resoluto, com um ar ironico de condescendencia, sem receio.—Os senhores tem coisas! Onde diabo procuram o snr. D. Miguel!—E descia, pedindo a chave á Senhorinha.

A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento:

—Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!

—Não é preciso, camarada—acudiu o abbade.—Aqui está a chave. Eu abro. Entrem, procurem á vontade.

O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da adega:—Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem um archote.

—Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa—disse o abbade Marcos, contrafazendo o seu terror.

E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na latrina, seu derradeiro refugio.

A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.

—Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você cá traz, mulher!

—É emquanto não péga bem a torcida—explicou a creada caminhando atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias.

E o 14:—Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco! Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na sachristia—e dava piparotes na barriga do padre.

O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz das pipas!

—Ha-de ser ratos—conjecturou o abbade, tremulo, engasgado.

—Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241—disse o sargento.

Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.

—Que diabo tem a velha?!—perguntou o Pilula.—Dão-lhe estupores, hein?

—É flato, costuma-lhe a dar—elucidou o abbade.—O 24 voltára-se a vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das pipas. O abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito:

—Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram enganados a minha casa.—E caminhou ara a porta com a luz.

—Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me esses ratos.

O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.

—Oh!—bradou o Pilula!—muito bem apparecido n'esta funcção, snr. D. Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de cima um bocado de cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra baixo, real senhor!

O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:

—Parece o padre eterno, ó meu sargento!

—Com quem elle se parece é com oRemexidodo Algarve,—affirmava o 14.

—Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do governador civil—concluiu o sargento com seriedade imponente.

—Este senhor?... não...—disse o abbade com as mãos postas.[5]

—Não seja asno!—volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de camisa.

—Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu quarto—supplicou o abbade.

—Sim, que se arranje com guardas á vista.—E acompanhou-os á saleta.

Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do paletó.

O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa. Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:

—Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E leu alto:

Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente.

E na primeira pagina.

Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos, capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães. E perguntava ao abbade:—Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens!

Em seguida:

Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado d'el-rei.

—Torquato Nunes! recordava o Pilula.—Eu parece-me que conheço este diabo de o vêr em Braga noCaféda Açucena na Cruz de Pedra.Nunes! um pelintra. Onde está o visconde que lhe queria dar um cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga—e enrolava os papeis. A gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar, amigo D. Prior de Guimarães.

Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro, com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das Botelhas de Braga.

—Que sim, que levára; pudéra não levar!

—Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem.

—Veja lá se o prendem, visconde—acautelou o abbade.

—O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu!


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