[4]O auctor teve relações muito saudosas com este venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona, gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.
[4]O auctor teve relações muito saudosas com este venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona, gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.
[5]São as textuaes palavras e a attitude do padre, significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo. (Informação deFerreira de Andrade).
[5]São as textuaes palavras e a attitude do padre, significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo. (Informação deFerreira de Andrade).
O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á hospedaria dosDous amigos. O Cerveira vestia casaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria, afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que pareciapantominice das comedias, dizia o Zeferino.
Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas mandavam-lhe bilhetes.
Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas, ratices suas em Braga, quando era rapaz.—Que fizera um destrôço nas primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira; e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde. Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se parecia bastante com elle.
O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou:
—E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso?
—Elle diz que é—respondeu o tenente—Veremos o que se averigua no governo civil.
—Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres falsos—disse emphaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do Zeferino, muito enfiados ambos.
—Está tudo perdido!—disse dolentemente o fidalgo—El-rei preso!... E não se levanta este Minho a livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se lhe posso fallar. Dentro de tres dias entro em Braga com dez mil homens e arrazo a cadeia.
Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar.
O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas—a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;—a liberal, muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga, o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois, commandante da brigada dos Seresinos.
Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava aos seus:—É?—uns encolhiam os hombros, outros negavam gesticulando. E elle, com intimativa:—Pois saibam que é!—O Manoel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire:
—Deixa-o fallar, que está idiota.
O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção rara:—Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao alcance da canalha. Descance vossencia.
Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da casaca azul com botões amarellos.
D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade afflictiva.—Que se parecia ... e ia jurar que era elle!—quando um realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde, disse com um desdem de achincalhação:
—Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
—Quem é? quem é?—perguntavam todos.
—É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas.
O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha:
—Ouviste, ó Zeferino?
—Estou banzado!—murmurou o outro.
—Olha que espiga! 3 contos! hein?
—Raios parta o diabo!—disse o pedreiro, n'uma synthese condensada da sua incommensuravel angustia.
Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de parte e dizia-lhe:
—Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr. Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo, então desembainhará a sua espada.
O Cerveira, abraçando-o:
—Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha...
O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte foi transferido para a Relação do Porto.
O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros: Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.[6]
Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai chamavam-lhe o Norbertodas facadas, quando já era velho, e meirinho geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunhafacadaslhe vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola.
Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa, concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle fazia n'uma toada monotona de quem reza.[7]
O Verissimo eraMesquitapela mãe, que não conhecera. Tambem florira da cêpa illustre dosMesquitas de Villar de Maçada; mas o Norberto, achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso.
Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e, apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado pelo desaire de coxear.
Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo, onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença, arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.
O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar.
A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites, n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca. Mandava cantarTe-Deumna egreja de Alvações assim que no paiz vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os realistas, a contar por cadaTe-Deumde Alvações, entravam no Porto ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra. D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques voltára a casaca.
Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado. Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira. Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos, tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis; um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas. Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma.
D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;—que seu sexto avô tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.
Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.
Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de Sousa Reis, oRemexido, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas carreiras abertas—uma que levava á gloria, outra á sepultura,—que tambem era uma gloria morrer pela patria.
José Joaquim, oRemexido, era um bem figurado homem de trinta e oito annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro, e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe multiplicavam o amor e os cuidados.
Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia, onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más, perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão affoita quanto cruel.
Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra, chamado aPortella da corte das velhas. Ahi o atacou uma columna de caçadores 5. ORemexido, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em Faro.
O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos generaes de que rezam os fastos militares.
O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa. Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os quatro vintens diarios e o vintem do municio!
Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28. D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade. Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com advogados miguelistas, que o estimavam muito.
A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho.
No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas, complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D. Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos annos de sua magestade.
Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelocapitão-Verissimo. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos na Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e as partes fugiam d'elle.
O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e, como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado. Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seuSosia, do snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra oMalagueta, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, uma raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas. Travaram-se de razões. OMalaguetacorreu sobre elle com um punhal. Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se.
A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado, não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de resvalar pelamontanha russa, dava umas risadas argentinas, batia as palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da argolinha.
Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha.
—Se os não tens—disse o Torquato—minha mulher tem um cordão que pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou buscal-o ámanhã.—E accrescentou, de excellente humor;—Deus permitta que na terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de dentes que não tenhas mãos nem queixos a medir.
Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e Orestes.
O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar, muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas, sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos.
Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito laraxenta—que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava; que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada.
—Nós deviamos ir todos para o Brazil—lembrou o Torquato, que tinha meditado n'um recolhimento extraordinario.
—E chelpa?—perguntou a Libania.
—Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis.
—Boa!...—disse o outro.—Bem se vê que as duas garrafas deram o que podiam dar—uma fantazia de um conto de réis. Por dous tostões é barato.
—Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não estou bebedo, palavra de honra!
Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade.
—Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?
—Começas bem. Temos asneira.
—Máo! não me falles á mão.
—Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei, e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta.
—Adeus minha vida!—retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã conversaremos.
—Deixa fallar o homem!—interveio a Libania.—Ora diga lá, ó sê Nunes.
O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos, removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho.
Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no Porto:—Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na cama.
O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de Lanhoso.
[6]Segundo as informações textuaes do já referido José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo a varias perguntas disse:"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito realista;"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o serviço;"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o convidára no fim para sua casa;"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra, depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle era em tudo um fac-simile);"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe respondêra com uma evasiva.Auctoridade"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão?Preso(cynico)"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da commodidade que se lhe offerecia;"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade de seu capellão-mór, ao que annuira;"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares, consummados realistas, no que concordara;"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute, um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão, commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até prelazias—o que elle tudo lhes concedeu de bom grado.AuctoridadeE depois?Preso"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella commoda situação,maximequando as suas finanças estavam no maior apuro."
[6]Segundo as informações textuaes do já referido José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo a varias perguntas disse:
"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito realista;
"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o serviço;
"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o convidára no fim para sua casa;
"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra, depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle era em tudo um fac-simile);
"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe respondêra com uma evasiva.
Auctoridade
"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão?
Preso(cynico)
"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da commodidade que se lhe offerecia;
"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade de seu capellão-mór, ao que annuira;
"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares, consummados realistas, no que concordara;
"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute, um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão, commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até prelazias—o que elle tudo lhes concedeu de bom grado.
Auctoridade
E depois?
Preso
"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella commoda situação,maximequando as suas finanças estavam no maior apuro."
[7]Nota erudita. A historia, aliás exacta, que o fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai vós primeiro."—Se vossa alteza me engana,—volveu o cortezão—ditoso engano é esse.—E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.E assim lhe foi debuxado o escudo:Em campo verde uma ribeira de prata ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos. A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas elegantes.
[7]Nota erudita. A historia, aliás exacta, que o fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai vós primeiro."—Se vossa alteza me engana,—volveu o cortezão—ditoso engano é esse.—E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.
E assim lhe foi debuxado o escudo:Em campo verde uma ribeira de prata ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos. A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.
Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas elegantes.
O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso, circumvagava uns olhares cautelosos:—se ninguem o ouviria?—perguntava ao abbade Marcos.
E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,—pôde fallar, que estou sósinho. Que é?
—D. Miguel I está em Portugal—disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com uma voz guttural.
—Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
—Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o levantamento ha-de começar por aqui.
—Que me diz você, amigo Torquato?—sacudia os braços, fazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação extatica—que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que apparecesse...—É preciso trabalhar, preparar os animos...
—Chiton!—acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o nariz. Nada de espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á lingua, esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus amigos quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem; não se dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do Bom Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece.
—Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein?
—É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa, que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei!
Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas palpebras inflammadas do abbade.
—Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude d'el-rei!
—Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!—Que ia vêr a mulher e que voltava já.
Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas.
Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado noMedico fingido, um entremez coisa rica, que era de um homem malhar de costas n'aquelle chão a rir—que se elle quizesse vêr as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira de casa do abbade.
O scenario para a representação doMedico fingidoarranjou-se na eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura de cruzinhas:—era obra de Chêta, um trôlha inspirado que já tinha pintado um painel dasAlminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que tinha vindo com ogalan, o filho do estalajadeiro da Povoa.
O Verissimo foi admittido aos camarins onde estavam sentados em caixas de milho e na salgadeira, os figurantes á espera da sua vez, já vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Mathilde, amante deAlmenio, uma ingenua, a protogonista da peça,a doente namorada, que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, omedico fingido. Este papel fôra confiado a um latagão official de carpinteiro, com os pulsos cabelludos e os nós dos dedos com umas protuberancias callosas que pareciam castanhas piladas antigas. Nas maçãs do rosto mascarrára duas zonas de carmim, que pareciam a distancia umas chagas de mendigo de romaria aperfeiçoadas. Trajava um vestido de setim branco da fidalga velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos annos de D. João VI. O peito chato do carpinteiro ficava á altura dos quadris da fidalga, e as claviculas espipavam as hombreiras do corpête, prendendo os movimentos ao desgraçadoMathilde. Posto que a scena fosse aCasa de Astolfo, pai da doente fingida, a velhaca estava de chapéu de palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito amarellecidas do môfo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso as pernas que se deixavam vêr até cima do jarrete, cingidas de fitas cruzadas que subiam d'uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de proposito e em concordancia com os angulos reintrantes e salientes dos pés. Era o grotesco do horror. A creada deMathilde, aLaberca, tambem vestia de setim azul-ferrete, um pouco menos antigo, emprestimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando para os entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque: obedecia mais á caracterisação natural. Na cabeça usava touca de folhos com laços de fita escarlate e nos pés os butes do amo com ponteira de verniz; elle era o creado do juiz de direito substituto; gosava creditos de representar papeis de lacaia fazendo rebentar a gente.
O Verissimo fez os seus cumprimentos ás duas damas, e manteve uma seriedade verdadeiramente real. OAlmenioera o filho do estalajadeiro da Povoa de Lanhoso, o Rêlhas. Calças brancas, quinzena de velludilho, bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e oculos. Disse ao Verissimo que punha os oculos para fingir de medico. Estava a um canto o gallego, oGonçalo, aguadeiro da casa. Como não havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trôlha ensaiador vestiu-o de almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa, com uma monteira comprada em Tuy. A cara era ao proprio, d'uma verdade typica. OPantufo, um saloio rico que queria casar comMathilde, e foi bigodeado pelo fingido medico, vestia a melhor andaina de fato do presidente da camara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade das suas funcções impedia de representar; mas emprestava a roupa e a intelligencia dramatologica. Havia mais duas figuras, oFalsete, e oAstolfo, que se estavam vestindo lá dentro, por detraz d'um ripado, que os deixava vêr em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, emquanto o trôlha lhes rebocava de vermelhão as caras.
O Nunes atravessára a eira, e endireitára para o palheiro, quando lhe disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe. Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o Verissimo, e sahiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma physionomia cheia de alvoroço, de surpreza.
Entrou pela residencia, muito esbofado:
—Ó abbade, já esteve na eira do Gonçalves?
—Não; estou a acabar de jantar, e lá vou vêr essa borracheira da comedia. Você vem aganado!
—Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fóra que lá está na eira.
—Aqui veio um rapazola da Povoa pedir-me uma cadeira ha coisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com elle. Perguntei-lhe quem era o fidalgo. Diga que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de casaco chama-lhe fidalgo.
—Venha já d'ahi comigo... Por quem é, não se demore... Ó abbade, lembra-se de vêr el-rei em Braga ha treze annos!
—Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão tres vezes.
—E, se o vir agora, conhece-o?...
—Parece-me que sim—o padre limpava á pressa os beiços amarellos dos ovos do arroz dôce.—Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?
—Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas.
—Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco?
—Venha de lá isso.—Bebeu d'um trago, e pediu outro:—Agora, á saude de el-rei! á saude d'aquelle que talvez esteja bem perto de nós! a cem passos!
—Toque!—exclamou o abbade.
Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião viesse muito a geito.
—Você está a sonhar, homem!
Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as fallas:—Canalha brava, calaide-vos ahi!—Uma balburdia que parecia um theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da eira, dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.
—É entrudo, dizia, é entrudo, senhor!
Quando appareceu o padre na cancella da eira, houve silencio com algumas fungadellas de riso das cachopas, e recomeçou a comedia em obsequio ao abbade e á Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao abbade, perguntando-lhe se conhecia aquelle senhor.
—Não conheço,—e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o disfarce:—Você adivinhou. É elle...
—Que me diz, abbade?
—É elle.
O Verissimo déra tres passos para accender um cigarro no de um musico que estava sentado n'um bombo.
—É elle!—repetiu o abbade.—Você não o viu coxear?
—Falle baixo, falle baixo, e não olhe muito para elle, que eu já o vi deitar-nos os olhos,—acautelou o Nunes.
—Também eu ...
Estalou n'este momento uma gargalhada geral. Verissimo tambem se riu, e deu palmas.
—Olha! olha! a dar palmas!—notou o abbade com transporte. Aquillo sensibilisou-o até ás lagrimas! O snr. D. Miguel I a dar palmas ás figuras doMedico fingidona eira do Gonçalves em S Gens de Calvos! Tocante!
A risada geral e as palmas e os apupos não eram rigorosamente uma ovação ao auctor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na scena l.ª oAstolfopede carinhosamente á filha que côma alguma coisa. Mathilde diz que não póde,que não está em si; que lhe acuda, que lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos.
O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica que diz:Finge desmaio, e Astolfo a sustem nos braços. Mas ou porque se antecipasse a desmaiar, ou porqueAstolfose demorasse a amparal-a,Mathildeescorregou de costas sobre o barro ainda fresco do palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão, arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até á cintura. Ora aMathildenão usava calcinhas. Um escandalo.
Verissimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente á sua pessoa. A natureza rebentou por elle fóra n'umas casquinadas convulsas que poderiam custar-lhe uma môcada, se a deflagração do riso não fosse geral.
Mathildefugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou á scena. O ensaiador, o trôlha, sahiu ao terreiro a explicar ao publico a suspensão do entremez n'estas palavras:—Aquelle alma do diabo despiu a farpella, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês póde ir á sua vida que não ha hoje treato.
Começou a debandar o auditorio em grande algazarra. Verissimo parecia esperar que o galã, o Rêlhas Junior, se despisse para se retirar. O Gonçalves perguntava-lhe:—e que tal esteve a chalaça, senhor! Má mez pr'ó homem, que se mais tivesse mais punha ó léo!—e voltando-se para o abbade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distancia:—ó snr. abbade! coisa assim não consta! Eu, se me succedesse uma d'aquellas, mettia a cabeça n'um folle.
—São acasos, disse Verissimo com indulgencia.—Não se lembrou que estava vestido de senhora.
O abbade ganhou animo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro cerimoniosamente, e disse:
—O entremez não presta para nada. Se o homem não cahisse, ninguem se ria.—Provavelmente...—assentiu o Verissimo, correspondendo á cortezia do Torquato Nunes que parecia aproximar-se mais acanhado.—Estes casos de escorregar, accrescentou o desconhecido, acontecem nos primeiros theatros do mundo e até nas salas onde se dança; e de ordinario as senhoras que desastradamente cahem são verdadeiras senhoras. É muito peor e mais melindroso.
O abbade e o Nunes com muitos gestos affirmativos—que sim, que era muito peor, e mais melindroso, muito mais.
Derivou a conversação para as bellezas naturaes do Minho. O desconhecido sentia ter vindo no inverno, quando apenas se adivinhavam as pompas da primavera.
Principiava a choviscar. O abbade offereceu a sua casa ao forasteiro, emquanto não estiava a chuva. Verissimo acceitou por momentos, visto que não se prevenira com guarda-chuva—um traste que detestava. Os aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadencias, varejados pelo sul; por fim, as christãs da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos declives como escarceus a despenharem-se, fechou-se o horisonte sem uma nesga, e a chuva não parava. O abbade não permittiu que o hospede sahisse com tal tempo e já perto da noite.
Durante a ceia, appareceram algumas raparigas mascaradas com lençoes, abraçando a Senhorinha que servia á mesa, e dizendo em falsete pilherias ao Nunes a quem chamavamTrocatleseprécurador de causas perdidas. Verissimo mostrava-se contente e dizia:
—Bom povo! excellente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal, e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por tributos, esmagados pelo peso dos empregados publicos que são o flagello de Portugal...
O padre escutava-o com religiosa attenção; o Nunes beliscava a côxa do abbade que tomára a presidencia da mesa e puzera o hospede á sua direita.
No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mão, e de pé, disse que fazia uma saude ao seu hospede, porque lhe parecia que tinha a honra de beber á saude de um realista, d'um partidario de sua magestade o snr. D. Miguel 1.° que Deus guardasse! O hospede agradeceu, declarando que mesmo n'uma roda de liberaes não negaria os seus sentimentos politicos: que era realista, e como tal brindava á saude de todos os amigos do principe proscripto.
O Nunes dava canelões intelligentes e ás vezes dolorosos no abbade, que o encarava de esconso como quem diz:—percebo; não faça de mim asno; sei que estou fallando com el-rei.
A creada deu parte que estava prompta a cama;—quandoVossoriaquizer—disse ella ao hospede. Verissimo sorriu-se agradavelmente:
—Que incommodo estou dando a esta excellente familia... Irei descançar, snr. abbade, e snr. Torquato ... parece-me que lhe ouvi chamarTorquato...
—Nunes Elias, um creado de vossa...—e susteve-se.
Dizia-lhe depois o abbade no quinteiro:—Você ia-se estendendo, Nunes! Esteve por um triz a dizer,um criado de vossa magestade, não esteve?
—Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que está el-rei n'esta casa!—E com transporte olhando para as janellas:—Onde está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei amado dos portuguezes, na pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto parece um sonho!
A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos, tratando-o sempre porsenhor,—osenhoristo, osenhoraquillo—entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já o conhecia.—Bom é que elle se vá persuadindo que não somos patêgos—dizia o abbade ao Nunes.—Sim, bom é que se persuada ... você percebe... E piscava com esperteza.
—Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu sangue!»
—Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a caça.
O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe oPunhal dos Corcundas, aDefesa de Portugaldo padre Alvito Buela, aBesta esfolada, osBurros, e oNovo Principe. O Verissimo levou-os para o seu quarto, excepto osBurros; disse que não gostava de poesia. Fallou com louvor do padre José Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura—columnas do altar e do throno, que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na phalange realista. Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido pessoalmente.—Que sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe proscripto, se lhe fizessem semelhante pergunta.
—Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse vêr el-rei!...—meditou o abbade com a sua grande perspicacia observadora.
—Decerto...—concordava o Verissimo indolentemente.—Mas quem tem agora esperanças de vêr D. Miguel em Portugal?
—Eu, senhor, eu!—respondeu o padre batendo na arca do peito com as mãos ambas—Eu!
O Verissimo folheava oPunhal dos Corcundas, e parecia não perceber a vehemencia do padre.
—Bons desejos, bons desejos do caro abbade...
—E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as suas reaes mãos!—Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos, chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo continuava a folhear oPunhal dos Corcundas.
—Então viu-o, abbade?
—Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.
—Ainda se recorda das suas feições?
—Perfeitamente.
—Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado...
—Conhecia, conhecia...
O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo. Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:
—Eil-o! eil-o!
—Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não sou quem pensa!
—Estou como devo estar deante do meu rei!—teimou o abbade, com os dous joelhos no sobrado.
—Levante-se que vem gente!—dizia o outro, ouvindo passos na escada.
Era o Nunes.
—Entre, amigo!—disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia licença.
Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por levantal-o.
—Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés d'el-rei!—exclamou o padre.
E o outro, ajoelhando:
—Eu já o sabia, real senhor!
Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos, segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde.