Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D. Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto, o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão.
O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do outro, considerava-se perdido.—Pobre Libania!—deplorava, quando ella souber que eu estou na Relação!
Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me não prenderem—accrescentava muito confiado na lei e na sua actividade.—Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo, porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis.
—Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de degredo—atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do seu quarto.
Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste, com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada.
Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até Almeida e d'Almeidap'ra dientealma sempre!
Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o Gravito para a forca—elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829.
A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D. Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores, suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as testemunhas citadas—os padres suspeitos de frequentarem a residencia de Calvos—nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do aggravante.
E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:—Que aggravado era o aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes, pois quenenhumatestemunha depozéra que o aggravante se inculcasseD. Miguelpara perturbar aordem constituida, chamando o povo á revolta; e das respostas do aggravante no interrogatorio a que procedeu a auctoridade administrativa constava que o preso quasi quefôra obrigadopor umclerigo estupido e esturrado miguelistaa deixar-se chamarD. Miguel l.°; mas não constava nem se provava que o aggravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir valores aos seusestupidos cortezãos;o que decertopraticaria umgamenhodecidido a fingir-seD. Miguelpara os espoliar. Que a pronuncia fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto quenadase colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuosalarvesa quem o suppostomonarchafazia mercês de commendas, de titulos, de patentes e até de mitras, sem que d'ahi resultasse alvoroto nemleve perturbaçãona ordem publica, nem mesmamente damno para os mencionadosburrosque pediam as mercês, e que deviam ser pronunciados em primeira instancia, se acôrte de S. Gens de Calvos, não fosse umafarça de entrudo.
E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator, addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras selvaticas do Minho se espalhassem muitosMigueisd'aquella casta e feitio até que os novosSebastianistasse convencessem de quesomente assimpoderiam arranjar umMiguelque lhes désse commendas, titulos, postos militares e prelazias.
Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram por unanimidade.
Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia, Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz, deixou-se ser mulher—chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso, no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens extraordinarios.
O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz.
O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas. Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o. O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava—que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato Leite, a rir:
—Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!
O Verissimo recuava muito agradecido.
O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes Elias.
Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações. Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias. Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia com as conspirações da viella da Neta—aquelle baluarte da Liberdade que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado, muito á franceza;—tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma loja de modas, d'um café e d'uma taberna,—o vitalismo soez e chato da decadencia.
Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade civica da rua das Flores e das Congostas.
Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque, José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhepatriota, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar, n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica.
Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de infanteria,—previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a gritos deViva a Rainhase abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dandovivas á Carta Constitucional. Eram a obra da prudencia e do conselheiro Fortunato Leite.
Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna do visconde de Vinhaes;—que tinham repugnancia de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque aos dinheiros das snr.ªs Botelhas.
Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco.
Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade. O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre—um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um chorão—publicava:
Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de consternação pede desculpa de cumprimentos.
Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de consternação pede desculpa de cumprimentos.
O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte, accrescentava:A exc.masnrª D. Libania, que todos choramos com seu exc.moviuvo, era uma senhora de esmeradissima educação, pertencia á illustre familia dos Covas;—modêlo no tracto insinuante com que captivava o respeito e a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que tiveram a fortuna de a conhecer. Receba s. exc.ª o snr. conselheiro-director os nossos mais sentidos pesames pela desgraça que acaba de o ferir implacavelmente.
Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e d'alma.
O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem. Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres, voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura—que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é o que elle sabia.
Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em quanto o velho tosquenejava a dormitar.
O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.
O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe—um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras.
O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa. Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai as palavras do amado e o Simeão:—Ora venha de lá esse abraço, amigo e sê Zé!—e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filhacomo se quer.
Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda, atirando-se ao rio Ave.
E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sidomá mulhera mãe de Martha.De má arvore mim fructo—era toda a sua philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo.
O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas dizia-lhe a ella em particular:—Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste? E ella:—Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo!
A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias, confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua mãe:—Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina. Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que não esperava nada da sua religião,—um habito de tregeitos de mãos e de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor d'ella.
As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas.
Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e estivera,vai não vai, ó pernas p'ra que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar;—era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar como um espelho.
O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamadoArmas da Castidade. O mystico filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra Martha.Conhecia-lhe o leito, dizia elle. É o mais que se póde dizer sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.
Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos. Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno seguinte—affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia crystallisou no pantheon dos martyres do amor.
Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma cantiga d'esse tempo:
Ó mar, se queres,Tem dó de mim.
Ó mar, se queres,Tem dó de mim.
Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um grande romantico—uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha lido asConfissões de um filho do seculo, aquella torrente de lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada.
Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias, espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as mãos ensopadas nas banhas da victima.
O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o exemplo á filha.—Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma calumnia.
Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de Prazins:—Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio. Pedia-lhe conselhos—que arranjasse modo de elle poder casar com a Martha.—Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria remediar o mal que fiz.
A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva, uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a miudo:—Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.—A Martha escondia-se a chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe—o suicidio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados.
O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.—Que o seu amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, e ralava-o:—que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andavaforgado, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar matto oito dias, que elle perdia o cio.
Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em emprezas mais difficeis.
Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada:
Ó mar, se queres.Tem dó de mim.
Ó mar, se queres.Tem dó de mim.
Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a mastigar os ligados do José Dias.
Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da canalha». Elle disseque os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres.[8]As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo.
O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro deNotre-Dame, agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de tres freguezias, e pegou a darmorrasaos Cabraes com applauso universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatistico com canastro:—que os Cabraes e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar-aspapelêtase matar os cabralistas.
Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão. Zeferino nomeára-sechefreda gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, pelo menos, preso e degredado como cabralista.
Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não—que nunca tinha feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que podiam fazer era tirar-lhe o governo.
José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra—que fugisse para Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso.
—Está você preso por cabralista!—intimou o pedreiro, deitando-lhe a mão á lapella da véstia; e voltado para a turba:—Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!
—Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:—Ah seu Zeferino, seu Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados, mestre Zeferino...
—Não me cante!—bradou o das Lamellas com furiosos arremêssos.—Está preso, e mexa-se já para a cadeia.
—Você não pôde prender-me, mestre Zeferino—contrariou a auctoridade dentro da lei—Vá buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do governador civil.
—Já não ha governador civil!—explicou o caudilho—Agora são outros governos, seu asno! Quem reina é o snr. D. Miguel l.° E você não me esteja ahi a fanfar, que eu já o não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com dez milhões de diabos!
O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares de homens e rapazes que davamvivasa D. Miguel, ás leis novas, á santa religião emorrasaos cabralistas. Quando queimavam os papeis, um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante que não convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessemmorrasao governo e vivas á religião. N'esta barafunda, o regedor preso entre meia duzia de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo, comprehendera um acêno do taverneiro e fugira pelos quintaes. Metteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O José Dias, receando que o perseguissem em Caldellas, refugiara-se também em Braga e alistou-se no batalhão dos serezinos commandado pelo conego Mont'Alverne.
N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:—que não se fosse sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle.
Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo de poeta sugado pelos vampiros dospleen. Dizia, porém, que tinha febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor d'ella os seus caixeiros, os feitores e—o que mais é—as suas escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o FelicianoPudicicio. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;—que trabalhava muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle diziaseixo. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet:Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres.
A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer amar de um homem de quarenta e sete annos—intacto de mais a mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio,se adregasse gostar d'ella. Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio, suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto, apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava. Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos, anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou.
Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai, protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o, ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai, em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.—Que a viuva, dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença, se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher, allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que elle levára para o casal não valia dois caracoes.—Emfim, concluia, se o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver, faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio.
—O vigario aprende opadre-nosso, dizia o de Caldellas.
Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude. Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia, e tambem com o oleo de figado de bacalháo.
A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, oMetro, tinha-o convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:—Que não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estavaethegoe mais mez menos mez esticava a canella.
Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma resolução suicida:—Se não casar com elle n'este mundo, casarei no outro.
—Que te leve o diabo!—resmungava o Simeão, riçando phreneticamente as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do leito:—Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo não póde ir longe. Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se quizeres...
—Valha-me nossa Senhora!—murmurava Martha, pondo os olhos na litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.—Quem me dera morrer.
A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle estaria rijo.
A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas concordavam:—que diabos levasse a mulher que o tolhêra!
O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas, incendido pela febre.
Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis esforços.
Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José lhe escrevia—poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres esperanças.
Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:—bem me fio eu n'isso.
Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro; mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não podia escrever.
Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou naIntroducçãod'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção, um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha, mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á alcôva.
Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao pai quem tinha morrido.
Elle respondeu serenamente:—Dizem que foi o Dias que está com Deus. Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.—Martha deu um grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a companhia d'elles algum tempo.
Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está bom», observava-lhe com azedumes:—Deixe-a chorar, deixe-a chorar!—E voltando-se para a irmã:—A estupidez é cruel!