A CAMISA
Os antros de Londres eram no entanto rebuscados, não tendo Cromwell achado carrasco que destroncasse a cabeça do bom rei Carlos.
Chegára a ultima noite do martyr, e nada de carrasco ainda. Todo o dia os guardas attonitos, os famulos curvados e os grandes personagens do paiz, tinham notado a lucta surda d’esse homem de ferro, que mudo e livido passeava no grande salão do palacio.
Á meia noite, o ultimo agente chegou sem ter encontrado o braço que se pedia para collaborador da forca, na obra do assassinato. Em tamboretes de carvalho forrados de Cordova com pregaria e relevos doirados, os grandes patriotas de negro empallideciam no silencio lugubre do recinto,seguindo na face do protector todo um cyclone de refreadas coleras.
E antes que elle fizesse um signal, um velho espadaúdo ergueu-se, e com tranquilla voz e gestos de bonhomia honesta, disse:
—Serei o executor da alta justiça!
Cromwell nem olhou para elle, e batendo na mesa:
—Ámanhã, ás cinco.
Como sombras solvendo-se n’uma tela branca, os patriotas abalaram lentamente, embuçando-se nas capas. Chovia, e do céo carbonoso, rasgado de torres e frontarias gothicas, uma melancolia funebre estendia as azas silentemente, n’esse mysterio pardacento que é terrivel como a morte. No dia seguinte ás cinco, o carrasco estava no seu logar, de vermelho, meia mascara no rosto, barba ponteaguda e branca sobre o peito. E a cabeça de Stuart cahiu, ante o Vaux-Hall apinhado de mundo e indeciso de nebrina.
—Bem, disse Cromwell; que desejas em paga do serviço que prestaste? Os erarios estão exhaustos, mas pede o oiro que te aprouver. A invernia destruiu as colheitas e matou de fome os servos, mas dize os dominios que pretendes. Em Londres ha palacios maravilhosos que não pertencem ao Estado, e serão teus se os escolheres. Falla pois!
O velho apenas queria uma cousa. E ao formular esse desejo unico, os patriotas tremiam, receando serem expoliados.
—Qual? disse Cromwell.
Elle esteve sem fallar algum tempo, e após:
—Dar-me-has a camisa do decapitado, ensopada como está no sangue que d’elle correu.
—Mais nada?
—Mais nada.
Cromwell não se conteve, que não dissesse:
—Como é que um homem da tua tempera é futil como uma mulher?
O velho córou sob a affronta, dizendo:
—Ingrato!
E sahiu. Mas no dia seguinte recebia a camisa ensanguentada do sangue real.
Esse tropheu de infamia foi encerrado n’um cofre lavrado, em cuja tampa uma inscripção latina commemorava o feito, n’uma solemnidade de estylo que turgecia toda anglicanamente, em versiculos da Biblia. E pelas edades fóra, a descendencia do carrasco teve a veneração da Inglaterra, por via do despojo guardado no cofre de oiro precioso. Foi esta veneração que mais tarde assentou um neto do excentrico sicario de Cromwell na Camara Alta, e cuspiu na farda ducal que lhe vestira, uma lista geral de condecorações e crachás. Em breve lord Wite, duque Clifton e representante directo da familia aristocratisada, chegou a ministro, a favorito e a cem vezes millionario.
Em certa quadra do anno, abalava de todos os pontos da Inglaterra uma chusma de eruditos, famintos de camisa, em direitura ao castello de Clifton,na esperança que a clemencia do proprietario lhe permittisse como graça inestimavel, uns segundos de contemplação ante a reliquia do rei santo. Senhores e servos se impunham a peregrinagem a Clifton, uma vez na vida ao menos. E sobre a côr e feitio do veneravel farrapo e suas nodoas, estranhas versões entraram a correr mundo. Brochuras referiam que era camisa de dormir; enormesin-folios, pejados de investigações pacientes e subtis, iam á affirmativa audaz, de que nem era de dormir nem de trazer, nem camisola ao menos, porém simples e honestamente, um par de ceroulas.
Foi de vêr a lucta que se travou então, apostas que se originaram do caso, duellos a murro, a pontapé, marrada e tiro que tiveram logar. Em Oxford e Cambridge, por todos os grandes collegios e clubs, a mocidade esqueceu ocrickete largou o remo, para se partir em facções—uma que arvorava a camisa, e outra que fazia fluctuar a ceroula na ponta de um chuço.
Nos claustros gothicos das universidades e embocadura das ruellas medievaes, entenebrecidas a deshoras, de cada vez que um vulto affrontava outro, de logo bramia n’um inglez furibundo:
—Quem vive? camisa ou ceroula?
E sendo contrarios os que altercavam, estabelecia-se de prompto o combate e corria sangue a golfões, de vencidos e vencedores.
Os que expiravam, diziam no estupor da ultima hora:
—Morro pela ceroula!
E narrando o caso, oTimesescrevia:
—Mais uma victima da roupa branca de Sua Graciosa Magestade...
Ora, estavam as coisas n’estes termos, quando uma commissão de sabios e philosophos, de mistura com alguns dos melhores camiseiros de Londres, foi pelo governo da rainha encarregada de precisar a questão, e restituir ao publico a tranquillidade para desejar, em tão tormentosas circumstancias. A camara dos lords votou milhares de libras ao trabalho pujante da sciencia e rouparia inglezas. Os jornaes publicaram retratos e biographias dos commissionados, animando-os com apostrophes estridentes; os clubs de nomeada abriam ao grupo eleito as suas salas de conferencia e de jantar; e em toda a linha as apostas repetiam-se e os duellos multiplicavam-se.
Ao mesmo tempo, choviam dos prelos as pesadas brochuras ricas de argumentação, inultrapassaveis de logica e até ricamente providas de certos promenores. Segundo o doutor Kater, a peça de roupa guardada no cofre era um par de ceroulas, attendendo á malha negra que demarcava a bifurcação das mangas,—maneira de vêr que mereceu uma sessão solemne aoCollegio dos Cirurgiões, de Londres. Conforme se inferiu das actas e boletins d’esta preciosa sociedade, a malha trahia a ceroula, por quanto a sciencia confirma a relaxação de certos musculos pela decapitação. Mas a alta chimica inglezaque tinha assistido em silencio ao debate, interveio pedindo um resquicio, infinitesimo que fosse da substancia, afim que os modernos processos de analyse lançassem oultimatumque o caso urgia. O publico inglez porém não consentiu, tal o respeito dos saxões pelos monumentos historicos! E n’uma solemne protestação, duzentosmeetingsfizeram sentir ao governo a sua vontade sobre a malha do bom rei Carlos Stuart.
Sir Bell, o tribuno, fez um discurso genial, clamando reprobo e criminoso aquelle que tocasse, com a ponta do nariz que fosse, no medalhão negro da reliquia.
«... Pois que é unico no genero, e o Martyr não poderá brindar os museus do Reino-Unido com outro de egual formato!» resumia elle no meio de um trovão de applausos.
Photographos e pintores vieram piedosamente com suas machinas e cavalletes ao castello de Clifton, reproduzir o singular endurecimento, que tamanhas duvidas provocava.
E vendendo cópias a doisschillings, enriqueciam-se em dia e meio, victoriados nas praças e ruas da grande cidade.
Lord Clifton abria com fidalga generosidade as suas portas, a romeiros e sabios. Fizera emmoldurar um vidro na tampa do cofre de oiro em que se conservava a santa roupa, orgulho de sua casa e alvo das attenções de um grande povo.
—Assim vos curvaes ante o precioso documentodo bom rei, dizia o duque do seufauteuildo parlamento. Que farieis então, se como a sempre chorada mão de meu illustre avô o houvesseis palpado fresco, n’um extasi, chegando-o aos labios para o oscular reverentemente!...
E pelas suas barbas veneraveis e brancas, fios de lagrimas corriam.
Ao fim de um anno de disputas, conferencias grandiloquas, e as mais cathedralescas hypotheses, a grande commissão de sabios recapitulou, que uma de duas:
1.º—Ou no tempo do rei Carlos, reinava como refinada elegancia o fazer-se das pernas braços, e em tal caso o farrapo de Clifton era sem duvida, camisa confeccionada para um decapitado, por não apresentar abertura entre as mangas, podendo-se a malha classificar de sanguinolenta... 2.º—... Ou caso contrario, era um par de ceroulas, e conseguintemente a malha...
Seguia-se um latinorio pudico, para explicar a composição da historica argamassa.
Alarme em toda a linha! Nas bibliothecas choviam archeologos e eruditos, a investigar se de facto constituira prodigio de galanteria europêa no tempo de Carlos, o trazer-se as mãos pelo chão.
Asladiesde tez purissima e olhos de saphira córavam, de pensar na renovação do requinte. Republicanos moderados, jacobinos de meia força ou vermelhos puros, berravam em conclaves secretos contra a devassidão e embrutecimento das realezase aristocracias, jurando que a Convenção Franceza e a Usurpação de Cromwell tinham sido providenciaes, no extirpar de collectividades que se esforçavam em trazer a humanidade aos habitos de locomoção dos verdadeiros brutos.
Novos discursos, novas sessões, novos duellos e novas brochuras. Do gabinete inglez radiou uma nota ás potencias, pedindo confrontações e parallelos minuciosos de costumes, no cyclo historico proposto.
A França declarou entre risos, que LuizXVIera um primate da melhor especie, e só das mãos fizera uso para assignar decretos que não lia, levar á bocca magnificas pastilhas de chocholate, ou pedir clemencia n’uma attitude de poltrão, em todo o seu doloroso captiveiro.
Italia e Hespanha viram no problema uma differença de raças, e encolheram desdenhosamente os hombros, orgulhosas do seu berço latino. A Allemanha pôz-se a meditar. E só Portugal n’um impulso de sympathia pelafiel alliada, respondeu que desde Ourique, sendo vivos Tareja e o gallego Transtamara seu amante, era uso separar-se a nobreza do povo, invertendo aquella os locomotores, e pondo-se deredor dos principes, de cabeça para a terra e pés para o firmamento, nos grandes saraus e recepções.
Inda sobre a questão pesaram annos, que ao mesmo tempo faziam curvar para a terra a espinha dorsal e a cabeça branca do lord de Clifton.
O duque não tinha descendentes directos. Era um velho austero e secco, solitario no seu ducado e possuidor da melhor fortuna rural da Gran-Bretanha.
Tinha uma governante velha que muito amava, e fôra ama da loira Ellen,—futura duquesa, se um garrotilho a não estrangula aos dezeseis, pobre bichaninha gata! Repetidas vezes o governo propuzera ao duque por sommas fabulosas, a venda da peça de roupa de Carlos Stuart. A rainha escrevera-lhe do seu punho uma longa carta de familiaridade affectuosa, sobre a reliquia de familia que seria crime deixar fóra dos archivos do paiz, perdida talvez nas mãos dos collecionadores particulares, e nosbric-à-bracdos estrangeiros maniacos. Mas Clifton recusára todas as propostas, allegando que o despojo era penhor de familia, a que andavam ligadas grandes recordações e legendas.
Sentindo-se alfim pender para o tumulo e já de oitenta e tantos, lord Clifton fez saber ao governo em certa manhã de gotta tenaz que a camisa, ceroulas ou quer que fosse, entrariam noSouth Kensington Museumno proprio dia em que elle, lord Clifton, fechasse os olhos ao mundo, para no craneiro do castello habitar o seu sarcophago de lapis-lazzuli, que dez leopardos sustentavam e dezenas de escudos revestiam. A nobre intenção do lord commoveu a orgulhosa e grande Inglaterra. Todos os clubs revotaram homenagens ao benemerito, o parlamento e a rainha encheram-no de honras, e por seu turnoo povo fez-lhe ovações formidaveis, sob as janellas do palacio.
E d’alli por deante, a ideia de todos era:
—Quando cerrará para sempre os olhos esse bom lord duque de Clifton?
No salão de honra deKensington, o director tinha já marcado logar á reliquia inestimavel, ao fundo da peça, sobre um estrado gothico, entre as estatuas exhumadas no Peloponeso e bandeiras tomadas aos francezes nas grandes batalhas do Imperio.
E uma tarde de inverno, os jornaes noticiaram a morte do lord.
Emquanto todas as classes sociaes vinham, luctuosas e graves, desfilar no enterro, uma deputação de sabios presidida pelo principe de Galles, subia as escadarias do solar para conduzir ao Museu a offerta do duque morto.
Ah, pobre gente!...
Desapparecera do estojo a peça de roupa de Carlos Stuart, camisa, ceroulas ou quer que fosse, que a governante, aceada mulher do paiz doshighlands, vendo para alli o lastimavel farrapo, atirára honestamente com elle á barrela da lavadeira!