O MORGADO
Na Casa Branca, quando o trem parou, despertei ao ruido da portinhola que se abria, e entrou um homem com uma creança de lucto.
—Tenha o senhor boas noites! disse elle, erguendo o chapeirão desabado. E desembaraçando-se da capa hespanhola, bandada de roxo, com alamares de corrente, poz-se a empurrar para baixo do banco a mala de tapete que trouxera. Gordo de mais talvez, barriga importante onde um grilhão de oiro escorria, ar compostamente sereno, barba toda. Depois de se sentar resfolegou do esforço que fizera a empurrar a mala, ergueu a gola do gabão ao pequenito, dizendo-lhe se tinha frio, se tinha somno, ou se tinha fome—não me lembro já. Acreança estava para um canto, e de dentro do gabão pardo, os seus grandes olhos tristes erravam curiosamente por mim, pensativos e humidos.
O homem correu-lhe a enorme mão pela carita fina, com uma ternura bondosa, e voltado para mim sorria-se, como a pedir desculpa de ser tão expansivo.
—É seu filho, hein? disse eu.
—Saberá que sim, tornou elle.
—Filho unico, talvez?
—Não tenho mais, infelizmente.
—É novito ainda.
—A fazer oito, pelo S. Miguel.
—Então padece?
Pareceu surprehendido do que eu dissera. Padece, o filho d’elle? Nunca tomára remedio de botica, nem soffrera de molestia. Em todas as creanças, os dentes põem abalo a romper, como o senhor sabe. Pois n’este vieram, semainemui! Padece, qual!...
Via-se um orgulho de progenitor n’essa maneira de dizer, distillando idolatria sobre a pequenina larva enroscada ao canto da carruagem, branca, magra, feita d’esse tecido molle que é senilidade na infancia, e faz de ordinario os filhos dos velhos ou dos debochados.
Era verão, viajavamos de noite.
Tudo negro ao largo. Apenas de longe em longe, ardiam moutas em plena charneca, com labareda que ás fumaradas davam tons rhembrandtescose baços. Nas ribanceiras da via, conforme se iam complicando os declives do terreno e os amontoados do arvoredo e do matto, as lanternas do trem alumiavam de imprevisto estranhas fórmas com todos os aspectos, troncos hirtos, cannaviaes em borborinho, grandes pinheiros abrindo parasol, estevas ondulando pelas escarpas da rocha a pique, e a terra esboroada verberando os calores accumulados durante o dia. De passagem pelo areal, poeiradas finas enchiam os ares, enfiando pelas janellas e cahindo ao de manso no fato. E continuamente, como aldraba gigantesca soando por um vasto corredor, otrac-tracdo trem ensurdecia na noite, subindo em formidavel algazarra se osrailsafundavam rasgando outeiro ou penhasco, ou apagando-se mais e mais, se iamos francamente correndo em planura.
De bocado a bocado casinholas rompiam da sombra, e debruçando-nos viamos o guarda postado de lanterna á banda, chapeirão cahido, immovel e negro, solvendo-se rapido no turbilhão de fórmas que desfilavam. Succediam-se estações contra estações, vastas savanas implacaveis como desertos, pinhaes cerrados, ou trunfas de mattagal hirsutas pelos cabeços. Ás vezes o homem erguia-se deitando a cabeça fóra da carruagem, e ficava nas trevas sorvendo o rumor das boiadas adormecidas na pastagem, os gritos dos ralos e grillos á bocca das regueiras mais providas de frescura. N’estas distracções podia então olhal-o melhor, vêr-lhe ofato, fixar-lhe a edade e estabelecer-lhe posição. Trazia jaqueta escura, calças muito chatas de fundilhos dizendo os habitos sedentarios da provincia. Nas botas cruas muito largas de tromba, havia saltos de prateleira com esporas, e todo o vasto abdomen coberto por uma cinta, com cadilhos profusos cahindo á banda.
No Poceirão, o pequeno que despertára do canto, quiz agua; e como eu tinha o frasco cheio, puzlh’o á bocca logo.
—É dormir outro somno, seu morgado! disse-lhe a rir. E elle sempre exprimindo-se pelos olhos penetrantes, com o seu narizinho afilado e a bocca fria, muito breve, encarava-me sem dar palavra. O pai disse então:
—Cansado da jornada, não falla. Maroto!...
Achegava-lhe o gabão com um geito meudinho de ama secca, endireitando-lhe as pernas, e pondo-lhe a capa enrolada em cochim por baixo do corpo. E aberta a bolsa do tabaco, preparou uma cigarrada desconforme. Estendeu-me as mortalhas depois de se ter servido.
—Fuma?
—Só depois de comer, obrigado, respondi.
—Como eu tal e qual, em rapaz. Agora fumo a toda a hora. Não incommodo, não?
—Á vontade! Essa é boa.
A charneca era rasa e nua; algum grupo de pinheiros erguia em preto a figura consternada, sobre o nascente esmaecido na commoção da antemanhã,onde a estrella d’alva dizia como um girasol de saphira, gottejando estames de luar.
—O senhor é alemtejano, disse eu, a vêr se entabolava palestra.
—Vivo ha muitos annos lá.
—Casado?
Elle apontou-me o camisote escuro em que eu ainda não tinha reparado, e tornou baixo:
—Casado?...
E de mansinho:
—Viuvo, ando de preto pela mulher, não vê? E respirou com força.
A sua voz era branda, sem os tons ingratos, intimativos e duros, do ricaço afeito a mandar ganhões e cavadores, a fazer contas á noite, a dar palestra nas abegoarias e nas eiras, e a pesar todos os homens na balança egoista dos contos de reis. Então encarando-o em cheio, vi que era pallido, com olheiras papudas, sobr’olho hirsuto, e a testa fugindo em dois fios de calva sobre as temporas luzidias.
—Ficou-lhe o pequenito, prosegui eu. É o que tem casar de certa edade; faz-se tarde para educar os filhos depois.
Elle abanou a sua grande cabeça com ar grave, e a olhar distrahido para fóra, quebrando a cinza do cigarro:
—Esse é um dos perigos, disse. Ha outros, se a mulher é nova...
—Ah, sim, tornei eu. Nova e leviana!—Eolhei-o a rir. Vi-o pôr-se em pé sob o impulso de uma mola interior, escarrar com ruido, dizer palavras incertas:
—Felizmente não tenho razão de queixa... Levava as mãos ao ventre, procurando o que fosse com gestos errantes.
—... sim, não tenho razão.
E pregava o camisote de lucto, ia ao pequeno, voltava á janella. Mas como eu olhava para elle fez-se branco, e affirmou com força:
—Palavra de homem de bem!
—Mas juro que acredito! disse eu admirado da singular insistencia. Na confusão tinha lançado fóra o cigarro, e buscava mortalhas pelos bolsos:
—Este mundo é uma comedia, olhe que é! Tenho-as soffrido boas, não ha que vêr.
—Nunca se é completamente feliz, opinei do meu lado, e elle fez que sim com a cabeça.
—O senhor está novo. N’essa edade os desastres não deixam mossa, vê a gente tudo côr de rosa. Mas em velho, creia, a coisa é outra.—Estendeu o braço para os campos que sahiam vagos da noite e da nebrina, sob o pallor do ceu matinal. E com intervallos absortos:
—Tudo isto é meu!—Riscava com o braço o horisonte—Além fica a herdade das Donas, além São Brissos que foi do Moira de Arrayollos, lá longe ainda se vê a Martineta, terra guapa para sementeira! Vida, vida!...
E mais longe:
—Podia metter-me a arrotear descampados por ahi, tudo terras gordas, virgens de colheita, aguas da mãe... Milhões em pouco tempo!
Riu-se com aspecto triste.
—Por ahi invejam-me a lavoira, gente feliz! Mette sempre cubiça aquillo que é dos outros. Olhe que é assim!
—E porque não tenta essa agricultura em grande? inquiri.
—Ora, deixal-a! fez elle com um gesto desalentado. Quem vier atraz de mim, fará o que entender.—E voltando-se:
—Cá o petiz... se chegar a homem, algum dia.
—Ha de chegar, porque não? tornei eu, e em resposta o velho disse-me:
—Muito obrigado ao senhor.
No Pinhal Novo, entrou gente de Setubal, encheram-se as carruagens, a familia de um coronel sentou-se entre nós, e não fallámos mais. Ás vezes olhava-o do meu canto, via-o espreitar o pequenito que dormia, com uma sollicitude terna, filtrada de passivas tristezas. E os cabellos brancos faziam-lhe corôa, abaixo das abas do chapeu. O coronel, enorme como um cyclope, todo feito a crista de gallo, o cabello já branco muito encarapinhado, rompia como uma torre sobre os mais passageiros, na fanfarrona postura dos hercules de chafariz. E o morgado mirava-o com humildades paisanas, de soslaio, sem se atrever a fital-o em frente,n’uma admiração pelas lunetas azues e rutilante coloração d’aquella magestosa senhoria, toda sonidos de esporas e espalhafatos de oiro nos canhões da vestimenta. De tamanho esqualo exsudavam aspeitos de sopeada bravura, fragores de carga e bramidos de commando. N’essa mão fechada sentia-se o nervosismo de quem marcialmente comprime punhos de durindana invencivel, na vanguarda dos esquadrões a toda a brida, e sob fumaças de canhões ululantes. Um respeito vergava a obesa corpulencia do morgado, quando um prior sacou farnel da mala, dizendo não ter almoçado capazmente. Perguntou á volta se alguns dos senhores ou madamas eram servidos. E patenteára um desconforme cabaz de provisões, fiambre, doze ovos cozidos, um gordo frangão de recheio, tangerinas, e marmelada para desenfastiar. O rubro coronel, que era um amigo pelos modos, não recusou a sua golada de Porto.
—Está bello! dizia o prior. Sirva-se de laranjas, snr D. Emma, são das nossas.—E a D. Emma, filha do coronel e zarolha, com plumachos brancos n’um chapeu de telha escarlate, volveu com mimicas fastientas que agradecia muito, mas não. O coronel pôz-se então a fallar. Era uma vozita de incomparavel meiguice, toda pastosa nosRR, sollicita, mansa, escorrendo falsetes de menino do côro. E com grandissima surpreza, o morgado ouviu esse guerreiro côr de lacre, tão babylonico de construcção, discreteando em tramas de cozinha,mal-o prior. Confessou-nos elle que daria tudo por um legitimo recheio, mas o que se chama tudo!
Só dava verdadeiro merecimento a recheios, quem os sabia preparar. A receita doCozinheiro dos Cozinheirosera uma burundanga de tasca. E com soberbia, alevantando as charlateiras flammantes n’um pavoroso jogo de omoplatas, desafiou alli quem lhe désse leis sobre a materia. E no mais! geleias, podins, cremes, toda a qualidade de molhos, e umas tripinhas doPoôrto, seu prior?
—Oh, isso é famosissimo! disse o reverendo, a mastigar fiambre com dentes de fradalhão. E investindo os circumstantes por cada vez, em cata de adversario, o famigero coronel gabava-se de ter lido tudo que andava escripto sobre o assumpto, até calhamaços vindo de França! Contava mesmo artigos seus noAlmanach Taborda, provando os inconvenientes do cidrão no podim d’ovos... o que lhe mereceu cumprimentos do prior, que não sabia estar fallandocom o illustre litterato. Tambem apreciava d’alma as invenções da pastelaria, os bons podins, as ricas geleias, o cremesinho de fructa alli na mesma da hora.
Bebericava com ruido de sorvos. E declarou ter em Azeitão uma moça, que sabia temperar isso celestialmente, o que fez abaixar os tortos olhos da D. Emma.
—Oh, disse uma azeitonada da familia, que estava de verde a um canto, com dentes sahidos—como o papá não póde haver, faz lá ideia!
—Com effeito, affirmou o guerreiro rejubilado, a cozinha é o meu fraco.
Retorcia os bigodes de Fritz, e referiu como abichára aTorre e Espadanas manobras de Tancos, por ter regalado sua excellencia o ministro da guerra, n’um jantar subscripto entre a officialidade, onde elle fizera tudo, desde uma certa sopinha de rabo de boi, que estava...—e com basofia, beijou as pontas dos dedos a encarecer—até ás compotas, que ficaram de estucha!
—Pois não lhe sabia, não lhe sabia da balda, snr. coronel Pureza! dizia o prior com deslumbramentos na grossa faceira de glotão. E o guerreiro deu receitas, como era a galantine, o sorvete de ananaz, e grande numero de geleias singulares. Explicou as fôrmas, e dos feitios que melhor serviam á boa apparencia dos preparados.
—Ora! ora! argumentava o prior, pasmado de tanta sabedoria.
—Inda não sabe o melhor, disse a de verde, com dentes rompendo um focinhito de lebre. Faz gaiolas mais lindas!
—Ah! fez o reverendo cahido de surpreza em surpreza. E que lhes mettem?
Ao darmos em Lisboa, eu e o morgado apertámos as mãos, creio que lhe disse alguma coisa affectuosa, e com a mesma voz funda e espaçada, tornou elle:
—José Maria Cardenes, conhecido em todo o districto. E querendo, a casa lá está.
Foi-se; já longe cumprimentou o Alvares, o amigo Alvares do Credito Predial, que eu conhecia tambem. Fui-me logo a elle.
—Como está vossê, bem, obrigado, disse eu. E sem delongas:
—Olha cá, quem é aquelle velhote, hein?
O Alvares poz os oculos, esteve a vêr um pedaço:
—Ah, o morgado das Olhalvas. Bom velho, meu rapaz, mas que corno!...
E passado um momento:
—A mulher bem boa, c’os diabos!...
—Conhecel-a tu?
—Dizem. Póde ser verdade.
Dois annos depois n’uma estação de banhos, já por outubro, fumava na praia uma tarde, quando um homem de lucto me veio cumprimentar, com um arenque de rapaz pela mão.
—Como vae indo o senhor?
Fallava-lhe sem me recordar de o ter visto alguma vez—bem, obrigado, como está? É seu filho, este pequeno? Doentinho, segundo parece...
—Nada, não senhor. Fraco. De maneira, que vim aos banhos. Diz o medico que é bom, para a frouxidão de nervos.
—Sim, sim, dizia eu bocejando.
Elle puxou o pequeno para mim, fêl-o fallar,fêl-o andar—estava mais crescido, não estava? mas pouco appetite... E afagava-o de leve, enlevado n’aquella sujidade amarellenta, molle, sem reacção, somnambula e ephemera como uma esponja do mar. A espaços, quando uma vela corria ao largo, o macaquinho alongava a mão chata, desengonçada, lembrando pelos deditos curtos um pé de ganso com palmouras, e gania:
—Oh pae! pae!
—Que é, Luiz?
—Olhe além uma embarcação.
Ficava a rir descóradamente o seu riso de esqueleto, em que jámais luzia a emoção desordenada e viva das creanças rijas. Por vezes mesmo, querendo fallar não sabia exprimir, esquecia as palavras, varriam-se-lhe as ideias, e engasgado punha-se a olhar feito parvo, de redor. O pae então ia-o ajudando, e vibravam na sua voz meiguices entretecidas com lagrimas.
Voltado para mim, resumia:
—Uma desconsolação, o que vê!
Animava-o cheio de sympathia por aquella dôr grave de velho, resignada e muda, e punha-me a dizer:
—Que o mettesse n’um collegio, longe dos mimos da familia. Já se desenvolvia! Os rapazes precisam encetar vida, pela dureza e pela lucta, entre alguem que os hostilise e alguem que os guie. Dão sempre resultado os habitos viris, ensaie isso—gymnastica gradual todas as manhãs, passear a cavallouma ou duas horas, corridas pela quinta, sobriedade na comida, cama dura, habitos madrugadores. Verá como faz d’elle um rapagão. Os rapazes, creia isto, só enrijam, torcendo-se como quem torce calabres.
Elle não se convencia, mostrava-me o corpinho do seu pequeno mollusco, que se alongava de mez para mez, e tinha de manhã os tons velhos do azebre, funestos e miseraveis.
—Se não tem mesmo síria p’ra nada! O senhor falla bem. E vamos que lhe rebentava uma veia...
Baixo, pondo-me na espadua a sua mão pelluda:
—Ataques, aos dois e tres por dia.
Fazia voz rude para dizer:
—Filho de má semente nunca vem a ser boa arvore.
—Tem mãe? disse eu por acaso.
Esteve sem responder; por fim:
—Morreu, coitada! Inda trazemos lucto, como vê.—E mostrava-me o camisote. Eu então reconheci o morgado do caminho de ferro, pobre homem! Estava mais velho, barba toda branca, a face cahida e sulcada. E d’alli por diante, ás tardes, davamos o giro da beira-mar, fumando cigarros na melhor camaradagem. Elle fallava-me chãmente da sua lavoura e da vida de provincia, quanto lhe rendia a cortiça, e como era mais barato pôr bacello de charrua.
Ás vezes concentrava-se, e de mãos atraz dascostas seguia-me sem rumor. Era de uma timidez exagerada e susceptivel, não querendo nunca incommodar, pedindo desculpa a cada passo, incapaz de pesar, dar ordens, ou fazer-se valer. E no hotel, aos creados que o serviam:
—Muito agradecido ao senhor.
E a pedir qualquer coisa:
—Faz-me o obsequio...
As mulheres envergonhavam-no, faziam-no triste, ia-se embora. Fugia dos grupos, evitava-me diante de gente, seguindo de cabeça baixa. Essa organisação bondosa, tinha o instincto da sua inferioridade provinciana, no mundo refinado que rodopiava em torno. E como eu teimava em lhe mostrar o club, quasi se zangou comigo, e desappareceu por dois dias.
Entre as familias a banhos, farrapos de aristocracia pobre, banqueiros absolvidos, camarilhas que se enrodilhavam comidas de hypotheca, infantes, diplomatas e mais appendices de côrte em villegiatura, andava um eleganteménage, fresco e jovial, sempre em evidencia, entrando em toda a parte e dando tu a toda a gente, que era para assim dizer, a impudencia da praia n’essa estação.
Todas as manhãs de braço dado os condes, marido e mulher, iam ao banho emtoilettesclaros, cochichando e rindo unidinhos, muito amigos, muitonoivos, dando a mão aos rapazes e olhando um pouco desdenhosamente as senhoras. O herdeiro presumptivo fazia saltar olorgnonem os vendo chegar, sorria o grande condestavel por baixo de um nariz em promontorio; a côrte rumorejava... E os dois muito frescos, jasmins na lapella, polaina escarlate sobre sapatos crus, debaixo de um guardasol japonez, direito e bordado de cegonhas brancas, pecegueiros e papoilas em flôr, deitavam o binoculo ao mar incendido na reverberação do sol, contra a espuma pulverisando nas rochas, ou espanejando-se pelas areias pallidas com felina indolencia, de envolta com a renda das algas, e o desenho glauco e singular dos caranguejos.
Aqui e além, havia pequeninas cidades de barracas, senhoras de claro, chapeus de palha, gente em trajos de banho, guigas embalando no vai-vem da maré, marujinhos de unhas côr de rosa—e aos pedaços, na franja das rochas, fortes desguarnecidos, bandos de cabeças palreiras, corpos vogando á flôr d’agua, os que sahiam do banho aos guinchos, os que iam de costas sobre a arfagem da onda...
E aquella vida de praia luzia ao sol alegremente, carros de palha á espera,chaletsemboscados no fundo das quintas e jardins, a fluctuação dos stores listrados sobre as sacadas abertas, heras trepando por torrelas de ardozia, e rapazes com raparigas fazendo o seu cricket antes de almoço, pelas aleas ensaibradas de fresco. E os jornaes que chegavam deLisboa, os japonezes do Domingo, á mistura com gelados de encommenda vindos na barafunda do mesmo carro, em grandes caixas de folha...
Na sua cadeira da ilha, isolada da colonia feminina, altas maneiras de andaluza petulante, a condessa libertava então os cabellos do bonezito de palha atufado n’uma blonde diaphana, e accendia um cigarro no charuto do conde, que na areia aos pés d’ella, como um Terra-Nova favorito, a fitava com os seus olhos de gato bravo, amarellos e inquietos. A espaços estendia a condessa o abanico para o mar, seguindo algum paquete fumegante já na ultima linha d’agua,—e tão graciosa a fumar, que até as velhas perdoavam!
Deitava-se para traz ao expellir fumo, n’um quasi espreguiçamento amoroso, esticando as pernas sob o vestido apertado, de cuja orla escarlate os pés sahiam batendo compasso na areia.
Ás vezes trazia na escarcella, cahindo á cinta por um cordão de oiro fosco, alguma ediçãobijou. E em quanto o conde lia, descahida, as mãos pendentes, uma ondulação por toda ella, a condessa sentia-se viver, rolando n’um torpor a sua sombrinha japoneza bordada de cegonhas brancas.
Paquerettes des prés, vos couleurs assortiesNe brillent pas toujours pour egayer les yeux...
Paquerettes des prés, vos couleurs assortiesNe brillent pas toujours pour egayer les yeux...
Paquerettes des prés, vos couleurs assortiesNe brillent pas toujours pour egayer les yeux...
Paquerettes des prés, vos couleurs assorties
Ne brillent pas toujours pour egayer les yeux...
Iam-se chegando então surrateiramente os gulosos da boa femea, os estouvados, e o resto. Elladistribuia cigarros toda rosea do calor, com uma sombra azulada por baixo das palpebras, feliz de ser o alvo, de attrahir e deslumbrar as que lhe roubavam o córte dos corpetes muito acertados nas costas, sem costura nos seios, modelando em graça hellenica a provocante expansão das pomas, e a curva divina do ventre que tinha sob o estofo, a lascivia escandente d’uma nudez de harem.
Conde e condessa de que? Um nome qualquer. Ninguem verifica titulos n’uma terra onde elles cahem sobre quem passa, como antigamente as aguas suspeitas. Elle um hespanhol da Andaluzia, trigueiro, nervoso, de olhos allucinados, e parecendo-se diabolicamente com um marcador de bilhar que eu conhecera em rapaz. E tinha os modos francos d’um senhor, ditos de graça pícara, essa originalidade dos paizes do sol, brusca, deslocada e jovial, onde parece retinir o turbilhão dos guizos e pandeiretas, de quando escoicinham fandangos.
O Alvares que tudo sabia, pouco me disse do conde.
—Tinha apparecido em Lisboa ia em quatro annos, montado n’um cavallo inglez e seguido d’um creado de farda e calção d’anta. Depois do cavallo, deitára carro; vendera o carro um dia, e disparou dois tiros n’uma casa de jogo. Pouco mais ou menos, percebes a coisa? Em seguida—o Alvares não se lembrava bem—bordoadas no Marrare, um entrudo; em resumo appareceu de condessa. Agorasério, trata de vendel-a por ahi, como vendeu o carro. E ella, uma real zorra, filho!...
Rebolava os olhos por traz dos oculos fixos, e com certo suspiro canalha, profundo e vicioso:
—Derrete-se a gente todo, só de pensar n’isso. Que fará... percebes a coisa?—E abalou muito atarefado, limpando o suor do cachaço apopletico.
Demoravam-se os frios em chegar, dias lindos, o mar um delicioso lago. No club, walsavam a toda a hora. Sob toldos e decorações, havia festas de côrte na esplanada; uns navios de guerra ancorados na bahia, simulavam defronte, no escuro das noites, bombardeamentos em regra, a fogos de bengala—e toda a gente se divertia, gabando o serviço da marinha nacional.
E todos os dias regatas, cavalhadas, o tiro constitucional ás gaivotas, um bazar de creches, o demonio! Nos primeiros logares, o conde e a condessa, ajoujados, os melhores amigos do mundo, appareciam aos commentarios da multidão—ella empompadourde sêda crua, bonnézito á banda envolto n’uma gaze ligeira; elle premindo na orbita petulantemente o monoculo, e impertigando o seu estomago alto de mundano. Faziam-se loucuras em volta d’essa mulher disputada, conhecedora do que valia, e pondo ao serviço do seu temperamento frio, as maneiras distinctas d’uma senhora de raça. Era d’estascocottesseverissimas em publico, artistas por intuição, com predilecções requintadas e nervos irritantes, amando a conversa, sabendo rir, excitandoe fingindo não dar por isso. Nos seus beiços havia um reflorir de romeira brava, humido e vivo, contrastando com a pallidez mate das feições ovaes, e umticvoluptuoso de narinas, que no riso lhe bordavascherzosde aristocratica finura.
Chegaram a apresentar-me o conde, que se convidou a jantar comigo n’esse dia, e me pediu para lhe trocar não sei quantas notas de ouro.
De resto adoravel, sua pontinha de obscenidade temperada em cynismos elegantes. Fallámos em rapaziadas, amores faceis, predilecções de vicios, as regiões da femea que mais nos agradavam. Elle bebia excellentemente, e a cada passo fazia revelações libertinas, de rapaz solteiro. Derivámos d’ahi na hieraldica, quanto era distincto ter brazão na carruagem, um ou dois castellos nas sierras, pomares em Andaluzia, e descender de wisigothicos monarchas. E a paginas tantas, perguntei que opiniões politicas tinha elle. Encolheu os hombros, gostava de reis, e de rainhas ainda mais. Nada como as côrtes historicas, para a fermentação do luxo artistico e do amor como prazer de gente fina. As monarchias não serviam sómente, segundo pensava, para tornar os Estados felizes, mas a requintar o gosto, fornecer ás artes assumptos nobres, e apurar a belleza patricia das mulheres.
E virando-se para o creado:
—Eh, passa-me essas ervilhas da decadencia.
Bebia sem conta, copos sobre copos, batendo murros na mesa. Perguntou de repente:
—Não haverá ahi com quem se walse?
—As senhoras estão todas no club, respondi eu.
Elle considerando a amphora de Estremoz cheia d’agua, que gottejava toda pelos poros:
—São um poucochinho como os vasos rachados, as damas, fez notar. Muito indiscretas pelas fendas.
Então cantarolando, bateu-me palmadas nos hombros, puxou fogo a um charuto, e pouco mais de bebedo, erguendo-se, disse-me assim;
—Não adivinha o que vou fazer agora?
Confessei que não adivinhava.
Elle ajuntou:
—Trahir o amante de minha mulher, que diabo!... É a missão social dos maridos.
—Oh, disse eu rindo, encantador!
Mas fui atraz d’elle rangendo os dentes de raiva, ganindo como um cão esfaimado, ganas de lhe encher a cara de bofetadas, de o arrastar pelos cabellos na immundicia das regueiras, de o deixar morto á pancada para alli vilmente, como a sua torpeza merecia. Esta intenção exaltava-me perante ella talvez—e o meu desejo crescia em tumulto com ideias aventureiras, fugir com ella, tel-a comigo noite e dia, chupar-lhe o sangue por uma punhalada, ou rolar agonisante de amor nos seus braços, entre os cachões de uma torrente. O vinho exagerava-metudo, a fórma das casas, a buracaria das janellas, os rumores do mar, os echos da rua, e os sons dos pianos.
Lá ao deante seguia elle a cambalear, cantarolando, e a sombra esguia do seu corpo era como um reptil enorme que ondula, escorregando sem ruido.
Umas poucas de vezes, perdida a cabeça, desatei a correr atraz d’elle, chave do bahu na mão, para lhe esmurrar as ventas. E de repente parava, que era isto, que tinha eu com elles?... Rasgava-me o peito a certeza de que os dois iam dormir, beijar-se, trocar juras, fazer promessas e escarnecer de mim talvez, inda por cima. E como se ella fosse minha, um ciume feroz golfava amarguras dentro de mim, bramindo vinganças desordenadas. Afinal dobrou a rua, não o vi mais. Começou então um desespero surdo, pela absoluta impotencia da desforra. Onde tinha elle entrado, quaes as janellas do seu quarto, como surprehendel-os, fazer escandalo, chamar-lhe a ella nomes infames?
A rua voltava bruscamente, havia uma rotundidade de largo, á esquerda a fachada de uma igreja, depois ruellas tortas convergindo. E eu ia e vinha escutando os passos, que ora soavam n’uma rua, ora na opposta, ora morriam, ora pareciam ir-se aproximando. E a sombra que oscillava cosida com as casas, uma vez se me afigurava á direita, outra á esquerda, e assim.
Então precipitava-me contra ella, suando em bica,cabellos ao vento, gravata ao lado—dava com um escuro de portal, sombras de arvores, algum cão vagabundo roendo lixos. Um pescador que passava abalroou comigo, dei-lhe um encontrão furibundo, quiz agarral-o tomando-o pelo outro.
—Desculpe, desculpe.
E corrido, atordoado, comecei a andar de cabeça baixa. Havia baile no club. Que tinha isso?
Era fechar os olhos, via-a dentro de mim côr de fogo, côr de rosa, de todas as côres. E cabellos turbulentos nas espaduas, pés nús, braços nús, hombros nús, seios nús, toda ella núa.
Essa nudez, eloquencia victoriosa da carne, fulminava-me, imbecilisava-me, fazia-me calafrios pela medulla abaixo. Nunca vira bocca mais vermelha, nem dentes mais lascivos, nem expansão de ventre mais deshonesta e divina. A tentação do asceta lendario evocada entre privações, nas febres nervosas da loucura, não tinha concentração mais calida, que o delirio em que eu fervia! E pela côr da sua face e das mãos, pela esculptura dos hombros, dedos afilados e cabellinhos espiralando no tom fulvo da nuca, eu reconstruia esse corpo de um jacto—seria alta, cinta elastica, uma expansão de tulipa invertida, dos quadris aos joelhos, rotulas macias, redondinhas, côr de rosa esvaído, e tornozêlos finos, um pé estreito e alto... Então sacudiria a camisa, friorenta, atirando os cabellos para as costas n’um geito colombino de cabeça—e sobre uma pelle de urso branco, ante o espelho cingido emlilaz e rosas pallidas, de Sèvres, sorriria namorando a propria belleza o pondo riz nos hombros, de mão na cintura, como as bellas estatuas delphicas.
Passos na escada, empurravam a porta da alcova, apparecia um homem aos tombos, chapeu para a nuca.
—Buenas noches!
E ahi despertava eu de novo, e me punha a correr pelas ruas, atraz do primeiro homem que via, e á cata da primeira janella alumiada, qualquer porta aberta, do menor rumor que despertasse os echos.
Umas poucas de horas andei n’essa vagabundagem furiosa, tropeçando, fallando alto, querendo investir com tudo. Mas a fadiga vencia-me, tinha os cabellos empastados de suor, vinha-me embriagando uma tristeza estupida, desopilante e brutal. Então sentindo ar fresco, penetrado dos cheiros acres do mar, ergui a cabeça para vêr á roda.
Estava na praia, deante das janellas do morgado, ainda alumiadas áquella hora da noite.
Subi as escadas a correr, dei com elle em mangas de camisa, cabeça amarrada n’um lenço da India, chinelos de mouro, um arquejar de soluços.
—Que é, velhote? disse eu surprehendido de o vêr afflicto. Alguma coisa de cuidado, más noticias?...
Elle rompeu a chorar, agarrado a mim n’um desalento profundo.
—Não sei do pequeno, desde esta manhã que o meu filho desappareceu.
—Descance, não ha perigo. Perdeu-se, procura-se. Está ahi a brincar n’alguma casa, com petizes da sua idade. Naturalissimo! Quando o largou o amigo?
Referiu atabalhoadamente que tinha ido ao banho muito cedo, mais gente na praia que o costume, uma algazarra do inferno, senhoras e homens em confusão. Foi a fallar com um amigo, largou a mão da creança quando ia por entre os grupos—o caso foi que o não viu mais.
Inda andou a procurar por todos os cantos, expediu banheiros pela praia fóra, foi perguntando a uns e outros se o tinham visto, correu á policia, ninguem soube dar-lhe razão de tal creatura.
Passeava desesperado pelo quarto, com suspiros oppressos, um peso no peito, forjando destinos tragicos do pequenito—podiam tel-o roubado os barqueiros, talvez morresse afogado, alguem lhe queria mal.
—Quem ha de querer-lhe aqui mal, homem de Deus? Nem o conhecem, descance. Foi passar o dia a uma quinta, é o que foi. Familia que o levou, creanças que o tomaram para amigo, e o não deixaram vir. Qualquer coisa natural, emfim. Ámanhã vem trazer-lh’o a casa. Succede todos os dias!
Mas elle não attendia, torcendo as duas mãos cruzadas, indo furiosamente de um lado para outrocom o ar hirsuto d’um lobo, e gestos phreneticos de quem debate algum problema interior.
—Eu morro, morro sem o meu filho!... dizia com o olhar extincto, parando bruscamente na casa—E como eu o abraçava compungido de o vêr penar assim, forçando-o a que descançasse no sophá, pretendendo distrahil-o com palestras de acaso, sobre a praia, as boas mulheres abandonadas no banho, noticias de jornaes, preços de gado ou qualquer coisa—de olhos no chão, elle remordia febrilmente o beiço, e em estribilho fazia de quando em quando:
—Valha-me Deus! Tive uma cruz bem pesada!
Eu fingia não ouvir os seus lamentos, e ia contando a scena do conde, o seu cynismo de bebedo, e dos meus appetites sobre a bella condessa da sombrinha japoneza. Que mulher, amigo morgado, que magnifica mulher! Uma cantharida! E livre do vinho abria-me com elle, tinha andado atraz do marido havia pouco, perdera-me d’elle sem saber, e que ciumes no meio da noite negra! Relembrando o talhe opulento d’essa mulher, a pallidez real da sua face, meneios estouvados, elegancia da cinta e dentes frescos, outra vez sentia renascer-me o phrenesi voluptuoso; insensivelmente a minha voz cahia, dizendo coisas libertinas ao ouvido do morgado. E a cada passo consultava-o:
—Vossê não acha? Eu cá fazia isto e aquillo, e vossê, morgado?...
Quando porem o pensava interessado no que eu dizia, esquecido do pequeno, e em repouso da aspera tormenta intima que havia tanto o minava, eil-o a chorar outra vez, um chôro amarissimo e fundo, que mettia dó. E da sua cabeça resignada, cahiam falripas algentes, n’uma aureola veneravel.
—Vê-se que é o filho unico, dizia-lhe eu contemplando-o. Tivesse o amigo outro, já não seria tão susceptivel. Mas admiravel, morgado! Imagine que é tudo atraz d’ella. Dizem-me até que um da familia real lhe fez propostas de archi-millionario. Aqui sabe-se tudo. Mas console-se, seja homem, aqui tem cigarros, distráia-se...
Que diabo, já se não roubam creanças para oleo! Estamos em paiz culto, e n’uma pequena terra onde fallamos todos. Póde tranquillisar-se, afianço-lh’o.
—E essa mulher, esse diabo, disse elle de repente, com uma especie de angustia, é esposa d’esse homem, talvez?
—Ah, bom maganão; já toma calor! De resto, umacocotte.
Mas esplendida, não imagina!
Esteve a olhar para mim, e furioso, como fallando para dentro de si proprio:
—Horas em que tenho mesmo vontade de arrebentar p’ra ahi!...—E n’um rir patibular que o transtornava: então é mesmo boa? Isto é lá vida, nem o inferno!
Eu encarava-o já surprehendido,—e as lagrimascahiam-lhe pelas barbas, tocavam-se de luz um momento, e vinham rolando algumas pelo peitilho, grossas e limpidas. Como encostava a cabeça á mão, vi-lhe na origem do annular uma alliança fina, muito apertada, brilhando a espaços sob a rosca carnuda do dedo. E aquillo recordou-me a esposa d’elle, morta, viva, sei lá!...
—Meu amigo, disse eu impudentemente, o seu caso é triste, adivinho-o. Mas tenha animo!
Vi-o pôr-se de pé subitamente, arquejante, moido do esforço, quasi sem me poder fallar. Mas alguem vinha na escada fallando devagarinho, uma voz disse muitas vezes:
—Pae! Pae!
—Ora ahi tem o Luizito. Não lhe dizia, piegas?
Veio abraçar-me pelas costas, quasi risonho, esquecido do mais, furioso por abrir a porta, e enxugando lagrimas á pressa. Agarrei no candieiro para alumiar, e elle como estava, de chinelos, em mangas de camisa, poz-se a descer a escada ingreme, frouxamente esclarecida de cima para mim.
O pequeno subia custosamente, carregado de bonito e bolos.
—Olhe, dizia com vozita espapada, um cavallo tão bonito! E estes soldados Espere ahi! E uma caixa de musica, toque lá, ande.
Sem responder, o velho estacára de braços cahidos, cachaço sem collarinho, os ignobeis chinelos mettidos nos pézorros de camponio, mangas arregaçadas como um taberneiro. Olhava á porta da escadaum vulto de mulher embuçado n’umasortie-de-bal, alto, fino e flexivel desilhouette, derrubando sobre a frente o capuz da cobertura, excentricamente talhada em dominó, de cujo bico cahia, sobre damasco e rendas, um laço de pontas fluctuantes.
Apenas appareci com a luz, a mulher recuára para a rua, e no meio da escada, irresoluto e tremulo, com um meio ar idiota, o morgado olhava para mim, para o pequeno, e para tudo, sem saber o que fazia.
—Sobe, filho, sobe...
Veio atraz da creança de cabeça baixa, pisando os degraus com dificuldade e todo pallido da apparição. Entrou a vestir á pressa o collete, pôz collarinho e gravata, calçou as botas dando gemidos dos callos magoados. E deante do espelho, coisa rara! olhava-se, mirava-se todo, passando n’um geito febril pelos cabellos e barba, o pente de vulcanite.
E tremulo, tacteando as coisas, dizendo:
—Já venho, o senhor desculpe, eu venho n’um instantinho, desculpe...—Chegou á escada amparado nos moveis, fechou a porta cuidadosamente, e sem phosphoros, desceu a cambalear.
Ouvi o portão de baixo cahir, atirado com estrondo, vozes que se afastavam cautelosas... E fiquei a sós com o pequenito. Então vieram-me á lembrança as vacillações do morgado n’aquella viagem para Lisboa, quando nos tinhamos visto pela primeira vez, o rigoroso lucto guardado por elle em tres annos, asua indole fugidia, a submissão que a todos mostrava, a sua vergonha entre as mulheres, e do que a lingua do Alvares insinuára.
E ligando aquelles dados ao pequenino annel que lhe vira no dedo, á graciosasilhouetteda dama embuçada, e singulares desalentos em que o via mergulhar, adivinhei a coisa toda. Nada mais simples! E para o patetinha que em silencio tasquinhavabon-bons:
—Então Luizito, grande passeio hoje?
Elle disse que sim com a cabeça.
—Gostas d’aquella senhora, gostas?
Mesma resposta.
—É a tia. Como se chama?
—É mamã, mamã, disse elle vivamente.
—É verdade, mamã. Não a vias ha muito tempo, hein?
—Não a via, repetiu elle, e a testinha comprimida, fugindo para traz, sem esphericidade e sem bossas, fazia sahir aguçado o focinhito de bruto, meudinho e pallido, com os buracos das ventas ranhosas, esmagadas a murro, e a bocca fria, inexpressiva e inerte, que tinha a brevidade d’um golpe.
D’alli a uma hora appareceu o morgado.
—Saiba o senhor que abalo ámanhã, exclamou elle com modos sacudidos, um tremor nas mãos. E em ar de explicação: Vou viver de todo nos mattos. Outro socego nas herdades! Queres, hein, Luiz?
Agarrei no chapeu para sahir, e apertando-o nos braços:
—Se precisar de mim escreva, adeus.
Elle abraçou-me convulsivamente, com angustia.
—E ahi está para que um homem é honrado sessenta annos! Olhe, palavra de honra. Queria antes que o senhor não soubesse. Perdão. É a minha vergonha! Não quiz crêr...
—É desgraça, vergonha não, disse eu gravemente. Que culpa póde ter o senhor d’essa...
O velho apontou-me o camisote de lucto, e duramente, em resposta:
—Que morreu, faz tres annos! Ai! o que eu tenho soffrido, o que eu tenho passado em quatro annos para cá!... Caramba, não esmigalho a cabeça por olhar á creança. Quem cuidaria d’ella n’este mundo, desinteressadamente? Diz que o dinheiro dá tudo; mentira! Talvez elle me roubasse a mulher. E não haver leis para degolar as adulteras, que deixam os maridos, os filhos, e debandam por esse mundo com miseraveis aventureiros! Ai, nenhuma foi mais amada que a minha, todas as vontadinhas, todas as creancices, todos os caprichos, até vinha doce de Lisboa em condeças, aos sabbados de tarde. Pois enganava-me, para se vingar do amor que eu lhe tinha! Vestidos todos os dias a chegarem, umrôrde libras só em musicas: e quando foi da exposição em Paris, e jornadas a Hespanha, mezes inteiros por Lisboa, os verões nas melhores praias de banhos... E eu sempre com uma boa vontade, uns cuidados, menina isto, menina aquillo, e a perder noites no theatro, a ir com ella ás regatas, a arriscar-meno mar, capaz de se virar o barco... Gostava d’ella, então, nunca se viu alguem gostar d’uma mulher? Que sou um rustico bem o sei, filho d’um triste creado, um reles homem de trabalho; ninguem me deu principios, não tinha obrigação de adivinhar certas delicadezas. Mas ella podia bem esperar que eu fechasse os olhos; para a não estorvar, até acharia meio de morrer mais cedo. Uma esmola que fazia. Pois nem isso, infeliz de mim! E inda aquillo vem reclamar o pequeno, que é muito meu! Pago-lhe as lettras, pago tudo, esse traste que descance. Mas o meu filho, nunca! Capaz de m’o envenenar, aquella perdida!
Tirar dos seus habitos um pobre velho; e ao cabo, fica-te para ahi deshonrado, sem ter quem te dê caldos na doença, e quem te reze na agonia. Pois foi o velho que a tirou da miseria, e da filha d’um reles almoxarife fez uma senhora. Inda essa mulher se gaba de ter sangue real nas veias. A mãe eragansade principe, não admira que a filha sahisse o que sahiu. O senhor não faz ideia dos meus tormentos, não faz! Basta dizer que apenas dormimos uma semana. E para nunca mais.—Tenho vertigens, está uma calma, e desculpas, desculpas, entrou a explorar-me, hoje tanto, ámanhã tanto, desprezos, más respostas, um ar de escarneo; e um dia, vou pedir-lhe perdão de joelhos, e expulsou-me, dizendo que eu era um labrego indigno d’ella, e que havia de fugir com o primeiro. Eu tinha já desconfianças horriveis; o senhor perdoe-me, é desafogo—mas uma noite acordo de repente e senti beijos. Desde essa hora foram-me a embranquecer os cabellos, de noites que passava a chorar, a passear na casa como doido, a morder a roupa para ninguem ouvir os gritos. Era um ciume, uma febre, uma raiva de a morder toda, de a arranhar no peito, de lhe puxar pelos cabellos, veja o senhor—mas que? se eu tinha dó de a magoar, pobresinha, que ahi anda agora sem ter quem na aconselhe, creança como é, ainda por cima maltratada de todos. Capazes são elles de lhe bater; que ha taes canalhas n’esse mundo!... Ai! um dia foram-se-me as duvidas, desgraçadamente vi. Expulsei-a, acabou-se; não sei como, expulsei-a! A gente perde a cabeça, tem momentos de não saber o que faz. Hoje, era differente. Emfim! Foi como se tivesse morrido. Até deitamos lucto, veja o senhor. Pois assim mesmo me explora. Sou-lhe preciso sempre, vem sollicitar o meu auxilio sem pejo, saca sobre o meu nome a quantia que quer, o Vianna tem ordem... E nem ao menos, muito obrigado. A perdição faz as mulheres crueis e sofregas. Tanto que fiz por evitar esta desgraça, tanto! Perdoava-lhe a primeira, seria com ella um pai, como d’antes.
Mas vicios, tenha paciencia, santa paciencia, em minha casa não!
Não! não! não! Antes degredado, antes cahir por esses barrancos bolindo de bichos, antes a morte sem sacramentos. Adeus, disse elle, pondo sobre mim os seus olhos supplicantes; não me despreze,não me queira mal, no fundo todos somos uns podres, mas vem-me um phrenesi por ella ainda hoje, ainda agora, sentil-o-hei toda a minha vida. É uma cegueira, é um castigo, é um destino, de noite levanto-me como doido, vejo-a em toda a parte, onde quer que vá, e por mais que faça para a esquecer. Fez saltar a tampa do cofre hispano-arabe, tartaruga e oiro, onde estava uma photographia sobre esmalte indestructivel. E n’uma especie de allucinação arquejante, de furia nervosa, ficou a olhar longamente o retrato, como se o visse brotar do medalhão, e pouco a pouco ir avultando, tornar-se palpavel... Fallava-lhe com palavras doces, como a uma creança, em voz baixa, cobrindo a figura de beijos, o olhar flambando d’amor.
—Que linda! Mesmo santa!—E n’um choro afflictivo, gaguejando: podias vir, vês tu, eu tinha lá coragem de te mandar embora! E assim, nunca mais, nunca mais!
Instinctivamente então, commovido por aquelle phrenetico amor de septuagenario, que o absorvia, tão grutesco de feitio, tão vil de expansão, cheguei-me ao cofre para vêr. Pobre velho ludibriado, assim bom de maneiras, com delicadezas de instincto a espaços rompendo da rude casca exterior! pensava eu... e n’isto dei um solavanco inesperado, reconhecendo a anonyma condessa da sombrinha japonesa, successo da praia na estação que ia, cocagna de toda essa mocidade roida e palaciana que dandynava fazendo cæcum á corte em villegiatura,raro e fino animal que o hespanhol andava mostrando, apreçando, explorando, offerecendo cynicamente, interesseiramente, como n’um bazar asiatico d’escravas. No espanto em que ficára, nem achei uma boa palavra que dizer ao morgado. Que? Era então a condessa, aquelle impudor de raça, aquelle alegre vicio vestido nosmagasins du Louvre, cheio de attitudes Robida, com elasticidades de cobra cascavel, tão provocadora a fumar nas frescas manhãs de praia, entre as risonhas banalidades da alta gomma, assim descaradamente distincta, fina, e espirituosa como uma parisiense de Duez; era então ella a esposa de similhante alarve? Quegaucheriede debute, realmente! E vinha-me o escarneo de tão desprezivel origem. Uma morgada da provincia, com creações de coelhos e magustos de bolota ás chaminés da herdade... Singular, como ellas cursam de repente a alta escola doquartier Breda, com uma canalhice tão chic, e sem largar o palminho de terra parvoneza. Vão lá descobrir n’essesourire chapeau rose, um laivo sequer do gaspacho trastagano, vão! Francamente bom homem, ia mentalmente confessando para mim, ao considerar na obesidade amorosa do morgado—se fosse outra, condemnava-a por haver atraiçoado essa tua molle bondade de porco gordo. És uma bella pessoa, sem offender quem está. Todavia, eternisando comtigo a lua de mel dos bem casados, aqui para nós, a condessa ficava d’um grutesco... Ha coisas, tu comprehendes, que uma mulher de gosto não pódefazer sem compromettimento. Imagina tu, que ella entrava a nutrir matrimonialmente em parallelo comtigo, conforme é uso nosménagespatriarchaes do teu districto. Diabo, diabo! Era obsceno n’uma senhora.
Punha-me então a imaginar a condessa no segundo dia de esposa, de pé no seu palacete de provincia, ainda em trajos de noiva, e acordando do seu somno de virgem, para repellir o amor d’esse homem vulgar com rebelliões de princeza captiva, transfigurada, inflammada, pedindo alguem que tivesse espirito, um ideal de cultura, e fosse bravo, dedicado e doce, com largas maneiras de senhor. E aquelle homemzinho de charrua, tão singelo e tão gebo, filho d’um creado, gerado n’um ventre de mulher de monte, herdeiro das boçalidades, grosserias moraes e joanetes paternos, tendo virtudes previstas na Carta, um compadre em Lisboa, e explorando o trabalho das aldeias com o ar de as proteger, terror dos candidatos, emprestando a juro, senhor de mãos grossas, com as unhas esmagadas, cabellos nos ouvidos e uma dôr sciatica pelas mudanças de tempo, pronunciando sem graça e rindo com dentes verdes; esse homem estaria ajoelhado aos pés d’ella, braços febris contra a sua cinta ondulosa, suores na careca, e tartamudeando monosyllabos de satyro decrepito. E via-o cheio de pretensão, fato novo, arrotando contos, dominado por um vicio de rapariguinhas novas e endurecido no egoismo dyspeptico dos viuvos, fazer cerco áquellapobre filha do almoxarife de coutada real, ambiciosa como todas as engeitadas de principe, cheia dos formilhamentos d’um luxo entrevisto em caçadas de côrte, espreitado pelas fechaduras, aspirado no rumor das festas reaes, no telintim das baixellas, em musicas de camara dominadas d’uma austera graça, nastoilettesdas grandes damas, scintillas derivièrese voejos das ventarolas pintadas por Greuze e Galland, todos os requintes da alta vida, exagerados na pragmatica de palacio e fazendo cyclone n’esse espirito de gazella vaidosa.
E a vida de casados n’um horror de herdade, as janellas da camara nupcial abrindo sobre algum pateo de lavoura, cheio de carretas do captiveiro de Israel, ganhões em mangas de camisa assobiando ao gado que bebe, cães errando de lingua fóra, e a raza campina ao largo, ceifada, pellada, sem guarida, sem pascigo, sem arvores, anesthesiando a vista, carbonisada de sol, e pondo um oceano de separação entre esse insidioso caracter de mulher bella, e a nevrose scintillante das capitaes, por elle tão ardentemente sonhada. Por mais que fizesse, e por escrupulosa que fosse, essa mulher devia fatalmente vir a detestar o marido, tendo-o sempre deante de si, nodeshabiléedo rendeiro que tem gazes e teme a apoplexia.
Depois o seu modo de ser amavel, de a abraçar mettendo de permeio um grande ventre tympanico, de lhe passar na cara tão branca e susceptivel, a torpe mão que mexia nos patacos da feria ena lanugem das crias; e uma falta de intuição, de nascimento, de gosto, que davam mesmo vontade de lhe ser hostil. Ella soffreu porventura estas coisas pacientemente, reconsiderava eu, com a esperança de Lisboa onde a tinham educado como uma princeza, interessada nas obras da intelligencia, recebendo todos osvient de paraîtreda litteratura e da musica, vestida em Paris no meio d’aquelle deserto, cultivando plantas de estufa, fazendo Chopin a uma pequena galga que tinha, pela necessidade d’uma alma poetica que ao seu lado soffresse tambem, as inhospitas tristezas do abandono. Uma das coisas, vim a sabel-o depois, que a fizeram receber altas horas por primeiro amante, o secretario geral d’Evora, foi o vicio que o morgado tinha de arrotar, emquanto ella esmaltava de Nocturnos e bocados biblicos de Rubinstein, o religioso silencio perfumado da sua camara. Além de que, mettia-se-lhe em chinelos nos aposentos. Tamanho odio a ganhou desde então, que uma tarde, como elle não entendia as allusões, as ironias, os chascos, ella pôl-o fóra com um gesto de rainha. E a desvergonha de a querer a certa hora, nas satyriases da digestão, e sempre referencias de pae Grandet ás contas pagas, aos vestidos de seda postos de parte ao outro dia de recebidos, ás rendas de libra rasgadas em rompantes de surda colera; por fórma que a pobre ave sabia quanto custava por anno, quanto valia em cortiça, queijo grande ou lã de ovelha, o que era um tormento! E successivamente,mordida de irritabilidades hystericas, entrou a não sahir dos quartos, a não fallar ás creadas, a emmagrecer e a tornar-se pallida, com elasticidades de cobra, tons azulados de mãos, e essa deslumbrante alvura de lymphatica, sob cuja estatua tão fragil ha contensões singulares de caprichos, requintes de graça nervosa, e subitaneos repellões de impudor.
Desci a escada muito devagarinho, para não perturbar a adoração em que elle ficára, fui um bocado ao club. Passava um pouco das duas. Ninguem walsava; sobabat-joursjaponezes, as velas derretiam nas bobeches dos candelabros, em mesas de jogo abandonadas com fadiga, momentos antes; havia grupos nos vãos das janellas, grandes risos nos terrados, uma animação de homens fallando ao mesmo tempo. Na sala de leitura, o amigo Alvares gesticulando forte para um grupo de rapazes que esperneavam de riso. Perguntei:
—Que diabo ha?
—Ah, meu rapaz, que escandalo mais catita! Perdeste em não estar, perdeste tudo, vae carpir para o deserto a tua pouca fortuna, que não estás em graça.
—Mas é por força caso espantoso!
—Imagina tu que o Castro enfia pelo baile mais a condessa hespanhola emtoilettede espavento, uma sucia de brilhantes. Estava tudo cheio de senhoras, o melhor. Ora filho, mal a viram apparecer foi uma debandada geral! O director deserviço quer expulsar a mulherzinha, o Castro vae-lhe tomar satisfação, levanta-se algazarra... Ah, gostei immenso, que pagode! O caso é que isto anima-se. Nos mais annos uma semsaboria. Mas muito bom! E vou interpellar a direcção.
—E eu dormir, respondi apertando as mãos á volta.
Na rua vi Guimarães pae, thesoureiro do Banco, fallar devagarinho ao visconde Paredes, director e casca-grossa ventrudo, com meio kilo de berloques, que alcunhava a litteratura de peste publica, e enriquecera fornecendo mesclas ao exercito e falsificando os rapés. Quando passei tinha o Guimarães umas notas na mão, que mostrava ao Paredes, confrontando-as minuciosamente.
E ouvi de relance a voz ronronada do director:
—Está muito bom. Telegraphou?
—Vem reforço esta noite. Ámanhã de manhã, estamos-lhe em cima.
No dia seguinte, havia borborinho na praia, ninguem se interessava nos mergulhos da corôa, de grupo em grupo ia gente informar-se, tomar parecer, ou rir da indignação dos mais austeros patricios. Tinham-se descoberto notas falsas em circulação, consideraveis depositos nas malas do hespanhol, que meia hora antes fôra preso mais a condessa, deliciosa traquinas que se divertia em pagar com ellas compras principescas, por esses armazens de modas e novidades. Além d’isso, corria que muitoboa gente se compromettera na empreza, algumas cinco prensas surprehendidas n’um palacio á Lapa, duas fabricas subterraneas que estavam trabalhando á entrada da policia; muitas pedras lithographicas com modelos de notas, carimbos de firmas falsas, ferramentas, tintas, uma escripturação montada, chapas de mil feitios... Vinham já os primeiros calamitosos ensaios de quebras fraudulentas com capitalistas fugidos, roubos mysteriosos que a policia tinha ordem de deixar impunes, o contrabando em grande escala, e duzias de moratorias especando uma geral desorganisação do credito. E a essa hora o morgado com o filhito pela mão, quita-sol entre os joelhos, de forro verde, um solideu de seda por baixo do feltro desabado, lá ia para a sua lavoira, recolhido no camisote de lucto, silencioso, cheio de ceremonias, e tendo o pensamento na bella codorniz que acabavam de engaiolar no Aljube.—Pobre homem! dizia eu, vendo-o partir no carrão. Ir para a herdade logo nos mezes em que não ha pastagem...