MADONA DO CAMPO SANTO
Um temperamento, este Arthur! Côres biliosas, intractaveis cabellos extraordinariamente negros, talhados á ninivita conforme a moda romantica dosateliers. Na estatura composta e nos hombros largos, uma reserva trahia a alma dura, violencias, e insoffridos orgulhos. Nasciam d’elle langores e enthusiasmos de indole calida, pueris alegrias, terrores, fluctuações, desesperos e lacunas de caracter, que lhe tinham ficado d’uma mocidade escusa, e da educação cortada de contratempos. Abandonando astroupesdo café e os cenaculos de tabacaria e camarim, que fazem opinião sem a ter, de tudo riem e de tudo fallam, tudo julgando e em todos vendo meritos secundarios, elle afizera-se a illuminar o silencio da sua vida, com a luz d’um talento extraordinario e profundo.
Não tinha admiradores, nem amigos, nem discipulos. E incomprehendido, desconhecido, casmurro, sem a audacia de se impôr, nem paciencia de supportar o insuccesso, o seu coração desconhecia os lances da abnegação desinteressada, e sequestrado, intransigente, com os feros orgulhos do pão secco, e a tristeza furiosa dos que soffreram na infancia, mordia a gloriola dos favorecidos, comparando a sobriedade heroica da sua vida, aos ruidos de encommenda e prosperidade crescente de todos esses inuteis.
Assim, na impetuosa edade em que a vida do artista se inflora n’umbouquetde impulsos cavalheirescos e espontaneos, sem calculos, agiotagens ou reservas, aquelle velho de vinte annos não dava passo sem palpar o terreno deredor, olhando as coisas com um sentimento de atroz analyse e ambição egoista. Um diabo apenas, sabia levar este solitario, interessar-lhe, insinuar-se, fazel-o rir.
Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso, sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas, desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado, esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas das calças.
Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor cheio depochades, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas, essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias, ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já sibilava ironia.
—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que escandalos?
Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas, romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia bulir.
Encontrára uma noite o Arthur naBrasserie, palavras trocadas a respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.
E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos naBrasseriepara o cavaco.
Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas. E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinicesex-cathedra, e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas, dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos, n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salascom oleographias, e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em quando.
Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças, em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.
—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até restaremsó ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos que não sei explicar.
—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?
—Mas de faca.
—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?
—Que diz o senhor?
—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia para o enterro.
N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro, mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac. Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral e a Symphonia Heroica.
Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas, deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo dos fastigios ás vergonhas,sublimes e vis como a carne em que se insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem. Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas torradas?
O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.
—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?
—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.
—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice, que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.
Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam, vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias, se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade, um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma satisfação radiosa e sincera.
E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.
Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos, encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores, dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia dos fortes, com ribaldarias cynicas detriolet. Era Albano quem fallava quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez, o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde; enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.
—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.
—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra, estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é maravilhoso, simples e facil.
—Ahi está o genio, notava Arthur.
—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha, nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse alto-relevod’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez. Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e oOccidentemesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que fezateliere residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal, recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho ecricketdos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam para alli as janellasdos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava, vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra em gorgeios, e fazer cauda dex x xaos pluraes—ox olhox,ox cabellox,já sabemox... que encantavam a perder o rude trabalhador de blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação etoilette, tel-o-hia fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios, dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo, Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça, que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente, que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa, agitadiça, sem falsos pudores de palpebrasdescidas ou perturbadas, que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne, toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos, risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o seucorsagede madona, nopri-pi-pimatinal das andorinhas na cimalha dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza, pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas, sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura tinha assim uma distincção demiss, doirada pelos olhos de loira, cujas fibrilhas clarastorvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa, que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança, fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo, rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana, alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.
Por vezes, de relance, n’essa conflagração de phases vitaes que não tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a fazia nervosa,e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia viver tão só.
Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria, vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas, cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas mortes,um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos, obras-primas do bello horrido que a phantasia dosreporter-yankeesa meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas, dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos! Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem, parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi fica tudo ao desamparo...—seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo, bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco, sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado.O sentimento de quasi paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos, beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada, ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente, emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do trapesio, acabando nomoinho, grande trabalho de destreza, que exige olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto, pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle, se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.
O habito de tecer mundos de chimera e bizarrias d’espirito onde residir a maior parte do anno, dava ao estudante a mais completa indifferença, ou apenas alguma ligeira attenção, para as coisas triviaes que lhe giravam á roda. A familia merecia-lhe uma especie de benevolencia, sem effusões nem longos entretenimentos; para designar as duas senhoras dizia—as mulherzinhas, lá em casa; e apenas ás horas da comida, nas preguiças depois do jantar, se demorava a conversar um pouco em coisas que lhe não inspiravam interesse, e deixava correr para o não acharem antipathico. Quasi sempre as suas palavras eram breves n’esses cavacos domesticos, sim, não, está visto, está claro; ou aquelle interminavel—Bem bom! Bem bom! que servia para exprimir tudo, tedio, satisfação interior, fome, desgosto de viver, necessidades de fazer a barba, e assim. Para se não dar ao trabalho de explicar um ponto controverso, estava sempre d’accordo no que a mãe e a irmã diziam. Por vezes fazia á mesa silencios de pensador, sorvia a sopa bruscamente, cortava os pedaços n’uma gravidade de sabio, cabeça baixa, camarinhas de suor no coronal marbreado de calva. Jámais n’esses momentos, ellas lhe interrompiam a meditação, o jantar corria triste. Tinham-se affeito áquella reservade velho juiz as duas senhoras, e já não estranhavam. A mãe vendo-o calado, pensava no marido que fôra assim toda a vida, macilento, sorvido, com os seus oculos verdes, nevralgias singulares, e cheio de excentricidades. E Judith amava o irmão como um avô, vendo-o sempre benevolo apesar de casmurro, dedicado no fundo, e com pequeninos presentes de quando em quando. Por vezes, os olhos d’elle sondavam-na por cima dos oculos com sollicitudes antigas, n’uma satisfação de a verem galante, com a sua bata de rendas cingida á cintura fina. E as duas foram-lhe descobrindo virtudes tocantes, uma virgindade de gostos, traços de caracter generoso, e pieguices mascaradas n’aquella selvageria. Levava noites a traduzir romances por uma miseria, no intento d’augmentar a modesta renda de que vivia a familia, afim de nada faltar em casa. Nos dias de annos, começos de estação, ou pelas festas, calado sempre, com a sua nisa parda de seis annos, uma corrente de latão no relogio, descia alta noite em meias, do seu antro de doutor Fausto, quando ellas dormiam; e como a boa fada do Natal deixava-lhes á porta dos quartos, na mesa de jantar, sobre cabides, ou nas mais reconditas gavetas do guarda-vestidos, pequenas peças detoilette, quinquilharias namoradas semanas e semanas n’umavitrine, regateadas, ambicionadas, e por fim adquiridas com a feria, que aos sabbados recebia pelos fasciculos traduzidos. Furtava-se então aos prazeres da surpreza, aos agradecimentos e aos beijos, sahindo logode manhã como um ladrão. Bem bom! Bem bom! Porque o seu odio pelas effusões domesticas, pelas ternuras choramigadas, ia á ferocidade. Certascalineriesde paes para filhos e irmãos para irmãs, envergonhavam-no; nunca tinha dado um beijo; e comsigo mesmo, considerando as femeas, vinham-lhe honestidades de Antonio entre as bacchanaes nocturnas da Thebaida. A rabeca porém era o seu confidente linguareiro, que tudo ia contar, exprimir, soluçar. E o que ella dizia d’esse magricella envelhecido, que doçuras de temperamento lhe sondava, que profunda bondade punha em jogo, que frescura interior deixava vêr, e que indomavel paixão de juventude! Do quintal, Arthur e quem estava, applaudiam deslumbrados; Judith tinha soluços nervosos, toda vibrante na emoção magnetica d’um arco assim movido; Albano apenas, impassivel, limpando a calva apostolica, bem bom! bem bom! sorria um pouco do successo.
Percebera elle o que se estava passando entre a irmã e o artista.
E com um certo riso fazia reservas prudentes, ficando calculadamente a distancia d’aquellas expansões. A rabeca sómente, nas passagens idyllicas de Judith com o esculptor, por Albano adivinhadas ou surprehendidas, ousava em surdina fazer o seu commentario ironico, e dar o seu parecer disfarçado, traduzindo pela vibração chorosa ou risonha, o pensamento occulto do rabequista. As conversas de Judith mais o esculptor, ella da janella, elle doquintal, eram o que ha de primitivo em arte de amar.
—Bons dias, que lindo tempo hoje, não está?
—Está, dizia elle.
—Rico para um passeio ao campo.
—Eu gostava mais no rio.
—Podia virar-se o bote...
E Judith fazia um adoravel gesto de medo.
Tornava o Arthur:
—Então o nosso homem, inda dorme?
—Qual! Foi para a escóla já.
—E a visinha nunca sahe d’ahi...
—Muito pouco! Com esta vista da janella, é como se todos os dias andasse duas leguas de campo.
Ou derivavam no eterno motivo:
—Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!
—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e só lá vejo agora as paredes das lojas.
O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista decorativo de quando ella fosse cheia de construcções, o palacio de crystal com as suas naves radiando da rotunda em cupula, torres nos angulos com janellas de balaustres marmoreos, arvores de sombra, palacios de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d’agua...
—Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva, que pena!
Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre parques, desenhado por Garnier, umcoupétirado por cavallos brancos, um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S. Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade emlandeau, na primavera, ás tres horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas, sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre deménage, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondobalayeusenos vestidos usados, marchando como umIpara se dar o aspecto imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações, projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus dentesd’algum dia,a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos, como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã. Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas d’esmalte tão vivas, walsando no oiro dasbonbonnières, fugaces, illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma risadita, e quebrado o encanto, reappareciana sua graça plumosa e ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas, desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenosticsd’onde resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados, os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os pelitrapos eva-nu-piedsdo trabalho, as fortes linhas harmonicas dos modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas, estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre; torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin; pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem ordem nem logica, por figuras vulgares,amortecidas nos excessos da labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer aoatelierqualquer d’esses donos de um trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de ociosidade.
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero, formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego, contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores,ártistapintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste e o seu chapéo de pluma derrubado ábanda. Era um sêr filiforme de cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto, republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro. Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo e dizer-me assim, obrigado, querido pae.
Em mimicas de sagui, todo esguedelhado á moda romantica, com tremuras d’ebrio e palavras jactitantes, amigo Flores fallava então nos trabalhos dos pretendidos clubs revolucionarios, as soalheiras apanhadas na via dolorosa da propaganda, portas que lhe atiravam ás ventas pelas eleições, mil ingratidões bebidas sem queixa. Fazia arremedos de quem investe o toureiro—Sim, que fallasse Alcantara! E Alcolena, e Ajuda, e essa rapaziada dos Terremotostoda, para contarem do que elle João Maria Guedes Flores, sósinho e solitario, tinha feito e conseguido. Por sua energia se levára a cabo no Pateo da Galé, o famoso comicio de 24, onde Ajuda nas barbas da policia mandada por ordem dotyranno, tinha posto as coisas em pratos limpos. E uma data de clubs fundados por elle, oMortalha e Onçade Alcolena, com duas Liberdades de gesso na sala das sessões, e um realejo alli tocando a Marselheza noite e dia, para arreliar o paço, apre! Se tinham visto o artigo doTrinta, todo escamado? Ninguem tinha visto. Arthur pretendia chamal-o pacificamente aos pinceis então, para discretearem antes sobre taboletas dephantesia, e bellas gallinheiras da Praça, por uma das quaes, Barbara de Loures, ruiva maritornes que enchia o mercado com os seus uberes de turina, entre raspões de hortaliceiros, oártistaandava morto. Mas Albano queria vêr por força como era feito um jacobino, investigar das conquistas do partido popular, metter sonda na obra da revolução. Que não rebatessem as asserções do homem! E amigo Flores ia dizendo que o rei ficava de cal em o encontrando na rua, o Fontes mesmo pensára em subornal-o, dar-lhe posta afim de lhe calar o bico. E d’uma vez na calçada da Ajuda, ia muito bem, matutando sim senhor, e ouvepst! pst!E volta-se, era D. Fernando fazendo-lhe signaes. Podia hoje estar n’uma posição independente, mas não era como esses pandilhas monarchicos que se vendiam por um logar;preferia seguir as suas ideias, ser fiel á causa do povo. Enchia a bocca de povo, a vontade do povo, a soberania do povo, o veto do povo, o suor e mais excreções do povo. E batendo nos peitos concavos, olho acceso, gambia fina, um ar chimerico de walsa, deixava desconfiar pela attitude que o povo fosse elle, grão senhor d’arraia miuda, chefe dos sediciosos, e vingador futuro de mil torturas soffridas. A cada passo, a sua arenga vinha infectada com essas phrases demeeting, tympanicas pela falta de sentido, escorrendo indignações de bacharel faminto, a que os jornalistas vermelhos teem dado voga entre as classes ignorantes, ensinando-lhes a fanfarronada, sem lhes ensinarem coisa melhor. E vinham os direitos do homem, o corpo social, a dignidade humana, as liberdades d’este seculo, tiradas sobre a podridão da corôa, e mil allusões contra o que cada qual fazia por mez... Por vezes, ao atirar da malha contra o paulito do jogo, a vehemencia doártistaera tão soberba, que se ficava n’um panico, á espera de lhe vêr sahir dos bolsos, hordas de federalistas, communistas, todo o arraial d’opprimidos em linha de guerra, brandindo armas, formando barricadas, cantandoÇa ira!e roubando lenços d’assoar. Albano mirava-o como um animal curioso, todo grave e compenetrado; e secretamente, como um irmão da seita escarlate, fazia-lhe pequenos signaes de adhesão, applaudia em risinhos, como quem sabe de tudo, na mira de lhe inspirar confiança.
Aquelle apoio vehemente, endoidecia oártista, que nos dias de loquela entrava n’uma quantidade de revelações d’alta politica. A coisa marchava! Um trunfo dos republicanos dissera-lhe na redacção doFacho:
—Dez como vossê, Flores, e a realeza não dura tres semanas! Tinham mesmo chegado a pedir-lhe artigos de fundo, d’aquelles damnados, d’aquelles fortes. A provincia dava-lhe vivas;Sola e Vira, um directorio do bairro central, chegára a lançar-lhe nas actas, votos de louvor. Isso lá muito fallado! Abria um riso mysterioso para confessar que havia incredulos que se punham a dizer aos seus botões, a republica está ainda para tarde. Não aconselhava ao povo portuguez aquella falta de confiança nos que andavam á testa do movimento. Já o tinha dito no famoso comicio de 24. Na proxima legislatura, seis é que cantavam na urna.
—Seis que? disse Albano.
—Mas deputados! Um d’elles, e amigo Flores descia o olhar, nunca acceitaria o mandato de tão illustres irmãos d’armas.
—Mas Flores, implorava Albano, mau irmão, acceita por obsequio.
—A coisa está séria! dizia Arthur. E a voz de João Maria Guedes Flores, baixava.
NoFachopensava-se em comprar o exercito, havia aguardente para adhesões espontaneas... E agora shut! nada de darem á lingua, hein?
—Eu cá ouvi fallar n’um subterraneo de polvoraaté ao paço, segredava Albano tendo primeiro fechado as portas, e lançando ás paredes olhares tresvairados.
Amigo Flores recuou theatralmente.
—C’os diabos! Mas é a anarchia! Mas vão-se lançar no puro nihilismo! Isso sempre eu temi! A soberania popular não quer sangue!—Mas Albano atropellava revelações com revelações, tendo oártistaseguro por um braço, arquejante, magnetisado, escutando por todos os póros.
—E depois, não é tudo, homem. Entrou um navio com armas pela Figueira dentro; Celorico agita-se; Santa Comba diz que não paga; Moita poz barrete phrygio; todo o paiz vae levantar-se como um homem...
—Quando?
—Ámanhã talvez!...
—Bem m’o dizia o Guerra! fez amigo Flores, como se prophecias biblicas viessem de realisar-se.
—Quem viver verá as grandes coisas, ponderou Arthur. Inglaterra jámais nos perdoa. E a Russia, a Austria, Hespanha...
—Hespanha, disse oártista, com os seus males intestinos...
—Infeliz! fez compungidamente o estudante. Mas coragem! Grevy escrevera a Magalhães, dizendo-lhe contassem com elle; havia mesmo umas certas palavras do presidente Grant...
Emfim, qualquer manhã, a monarchia acordava pela barra fóra, caminho do desterro.
—Pois vou já convocar oMortalha e Onça, clamava possesso amigo Flores, rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.
Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião, o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para modêlo de Herodes n’umaDegolação de Innocentes; o gallego avaro, e quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas, frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e damas de azul empic-nicsna relva. Se lhe observavam tal destempero n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...
—Não rebata as minhas asserções!
E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar, e trabalhasse para ser umártista!...
Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra, pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.
—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna,que cheguei á verdade e tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!
Arthur ria benevolamente, dava-lhe cigarros, ia jantar com elle ás hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.
—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora, paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina, concertando os oculos.
Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que o bohemio não vinha ábrasserie, coisa de espantar o esculptor, affeito como estava á regularidade desesperante do companheiro.
—Mas que florido elle vem, que primaveril!disse Arthur com grandes expansões. Farçante! Vem perpetrarbouquetsfóra de portas, para ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado, hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas, saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil. As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo capricho das volutas petalares, exquisitasnuancesde tecido, e caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina se embotava e perdia.Uma graça aristocratica idealisava as amarellas, perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua, que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra, e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis umacoquetteriede donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava, mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica paraalguma irmã hospitaleira da tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves faz falta.
—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi exclusivamente feitos de musculo, e nãote são estranhas por certo essas maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa? Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes, trezentas mil enfermidades,tres enfermidades por habitante. Velhas molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam, multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.
—Exige-se em resumo que o medico intervenha, vamos, disse Arthur que não tinha prestado attenção.
—Tal qual! affirmou o estudante. Hygiene em scena, para refazer o homem senil, couraçal-o n’uma energia d’aço, estriar-lhe musculos, engrossar-lhe os ossos, agigantar-lhe a estatura, e pôr-lhe o cerebro alli bem lucido. As exhuberancias da saude fal-o-hão moralmente grande, sagaz e leve, com o sentimento viril da honra, susceptibilidades no brio, benevolencias para os fracos, e olho vivo para descortinar ao longe os perigos. Emfim, hygiene, para garantir o futuro do mundo. Até aqui os governos tem posto cada miseravel que nasce, entre o padre e o cabo de policia. O padre faz d’elle um idiota e um cobarde—o cabo de policia reverte a coisa que fica n’um contribuinte. Precisamos mandar á tabúa o reverendo, e pôr a distancia o esbirro; depois do que, o medico dará o braço ao misero explorado, para lhe ensinar a ser um homem. Constituido em dictador, o medico crearia a phalange lacedemonica da Hellade, adaptada á vida moderna, prescrevendo aos fortes o programma d’educação de Gargantua, e pondo o resto em tratamento.
—Esse resto, por signal que te havia dar cuidados, disse Arthur bocejando.
—Não conseguiria talvez regenerar engoiados, mas havia de pôr embargos á propagação dos aleijões e contagio dos virus. Antes de lançar o quechamam tributo de sangue, a lei diz ao conscrito: despe-te! Eis o que eu faria tambem, antes de dar ingresso na vida social a qualquer trocatintas.
—Vago, disse o artista. Em conclusão, pareces-te diabolicamente com o menos fluente dos parlamentares que achincalhas. Escusas de proseguir, sei o que vaes dizer—e foi volubilmente arengando—que o problema era fazer sabios em hercules; d’ahi para cima não custava crear sociedades modêlos. Admittamos! Uma vez extremados os fracos dos fortes, creada a tal guarda lacedemonica com o seu espirito de casta assente na força e no saber, urgia só pôr de observação os sêres inferiores, para lhes extrahir pacientemente, as parcellas de utilidade que os desalmados tivessem a habilidade de dar. A vêr como? Vigiando de perto esse burgo suspeito, como a Judeia vigiava os leprosos. Fazendo essas entidades mortificadas voltar pela descendencia ás fórmas modêlos, que a hygiene houvesse imposto em craveira, antes de conferir diplomas de cidadão a alguem. Oh! dirias tu, nada mais simples de conseguir. A sciencia é muito explicita n’este ponto. E citarias apparatosamente. Se por um lado, os principios morbidos de dois sêres que procriam, vão multiplicar-se no feto e não sommar-se; por outro, os elementos morbidos de qualquer dos progenitores pouca preponderancia alcançarão na progenie, se o progenitor restante possuir em excesso perfeições, que por hereditariedade fossem capazes de neutralisar a doentia acçãod’aquelles elementos. Seguir-se-hiam exemplos tirados de fontes insuspeitas e puras. Conta Chiara que M.elleX, 38 annos... O grande Perroud constata que n’um logar dos Alpes, umcoupleda melhor saude... E mais o doutor este, e alienistas, hygienistas, facultativos militares, um pandemonio de principes da medicina! Podias mesmo aproveitar de Balzac, trechos arrancados á Physiologia do Casamento, sobre o instincto da mulher procurar marido nos temperamentos oppostos ao seu, a sua habilidade genetica de corrigir nos filhos a saude dos paes, e certos vicios mesmo de conformatura, a menos que se não trate de qualidades exclusivas ao homem, como fórmas d’esqueleto, estreitura nas cadeiras, pernas direitas, força muscular, coragem... E para cortejo, sendo preciso, versos de Horacio espremidos no proposito de escorrerem fulminantes conceitos sobre os maus cruzamentos, nebulosas do Hamlet ditas a Ophelia no mesmo sentido, emfim a cavalgata de logares communs que os eruditos gostam de vêr piaffar nas memorias e conferencias.
—Bem bom! dizia Albano, bem bom!
—D’aqui, um mundo de leis a catalogar para uso dosvauriensdo teu lazareto. Exemplos. Quanto germina, quer solo estrangeiro. Brada aos ceus propagar monstros, até as artes soffrem com isso. Assim, ordenarias pelas allianças, grandes transfusões de sangue primitivo, rutilante, fecundo em ímpetos. Angariar colonos nas boas raças estranhas e novas, magnificos escocezes de seis e sete pés,camponios do Wurtemberg, lombardos e tyrolezes filhos dos colossaes modêlos de Buonaroti e Bandinelli, e negralhões do Cabo, que tu affirmas serem brancos engraxados, por birra de fazer divergir, na fachada ao menos, a civilisação africana das mais. E punir de morte casamentos entre primos ou individuos com elemento anatomico do mesmo signal, já que de constituições identicas só brotam degenerados e monstros. Nervoso que desposasse nervosa, zás! cabeça fóra. Primo que aza arrastasse á prima, costa d’Africa com elle, não é verdade? Mas, notou Arthur com modulações comicas de phrase, palavra de honra que não vejo em tudo isto, coisa que justifique a tua ignobil avareza de rosas brancas para um velho amigo, que tem por essas maravilhosas flores uma fraqueza das mais irresistiveis. Calculaste mal, meu velho! A divagação de hygiene não deu para me engodares até casa, e eu não vou d’aqui com a lapella desmobilada. Uma rosa, vá!
—Meu pae, proseguiu tranquillamente o estudante parecendo não ter ouvido o que o esculptor dissera, era um nervoso de humor oscillante, cheio de feítios bizarros, susceptivel d’estomago, vivendo de palpitações bruscas, e com dias de não fallar a ninguem.
Confesso-te que me custava a soffrer ás vezes, pobre homem! Então repentes, um domingo rasgou o papel da sala, escarlate, porque diz que lhe estava a arrancar os olhos por dentro do craneo, e eram dôreshorriveis. Superficies polidas, muito vastas, allucinavam-n’o, punha-se aos gritos, inteiriçado n’uma convulsão; e em cincoenta annos de vivo não foi senhor de correr a mão por velludo, que a syncope logo o não castigasse. Só a musica domava esses estados, cahia em somnolencias, lingua traçada, era atroz! Quanto a minha mãe, é a mulherzinha que tu sabes, semanas inteiras preoccupada com as mentiras lugubres dos jornaes, chorando o infortunio de toda a gataria dos visinhos, psalmejando rezas nos dias aziagos, e não comendo carne por ser crime matar animaesinhos de Deus. Accrescenta a isto irritabilidades e niquices do mais doloroso hysterismo, explicadas sempre pelo que a superstição tem de mais phantasmagorico no sacco; terás a pobre senhora! Ouve agora a descendencia d’este casal singular: entre a Judith e eu, viram a luz tres pimpolhos. Um que morreu á nascença; outro surdo-mudo, com uma cabeça medonha, esteve doze annos n’um grande berço de verga, até que se foi. Mas o terceiro está vivo e escorreito, e vae deitando um corpo! Por exemplo, fez dezeseis annos hoje. Vemol-o tres vezes por semana, pódes vir comnosco um dia, é aqui perto...
Estavam a meio da avenida Estephania, escurecera—e corriam terras de cada banda, alteando aqui, socavando alem, esfumadas n’um vapor sepulchral que o gaz estrellejava. Á esquerda, na planura que declina cingida em altos gradeamentos, como iam entrando na cidade, viram a mole do hospitalEstephania boquiaberta de janellas, flambar por dentro a vida lugubre da enfermaria, como um Molloch punico, digerindo ao rubro algum sacrificio humano. Da direita era um muro de hospicio, fechando terrenos carcomidos, onde muito para lá, na impassivel sombra, um gigantesco dado dormia. N’isto vieram de lá grandes vozes de clamor, elles tinham-se parado a ouvir. Eram cantigas n’um tom destoado, arrastando-se, esguichando em uivos, rouquejos sanguisedentos, brados de gente que pede soccorro, e esse rir imitando o rir humano, sardonico mas inconsciente, que faz arripiar os cabellos. Arthur surprehendido, perguntou que seria.
—São as jaulas de Rilhafolles, disse Albano, é talvez meu irmão a festejar os dezoito. Deixei-o agitado hontem, o director mesmo fallou em lhe reprimir as vivacidades com um certo collete, que me parece ter grandes sympathias na casa. É a primeira vez que lh’o vestem. Nem admira, a gente está em uso de estreiar fato novo pelos anniversarios. Elle põe um bello collete. Bem bom! pobre rapaz, bem bom!
—Que? Está além doido? disse o outro.
—Sim, fez com uma affectação de indifferença o estudante; mas ha já tempos, tanto que nos acostumámos. O vaidoso persuadiu-se uma occasião que era el-rei D. Diniz, e ateimava que era, e partia tudo apesar de o acreditarmos; d’uma vez lá em casa, teve uma furia que ia estrangulando asmulherzinhas. De então para cá, essas convicções teem descido com o hospital. Agora imaginando-se milho, foge das gallinhas para não ser tragado. Mas cuido que as metempsicoses não param aqui, porque se declara amphora de vidro, chá preto, uma infinidade de coisas, conforme as luas. Ora não me chamarás orgulhoso, ouvindo da minha propria bocca que sou o filho mais bem conformado de meus paes. Olha bem p’ra mim, tens por amigo um velho de nascença. Quanto a minha irmã...—Arthur pozera-se pallido, e por seu lado Albano mirava cuidadosamente o esplendido ramo de rosas.
—Essa tem saude, ao menos, aventurou o esculptor.
—Saude! Terá; o certo é que fazemos prodigios todas as manhãs, para ella tomar uma chicara de leite e dois biscoitos. Porque nunca tem vontade de comer, nunca!—Mas logo, mas ao jantar, mas eu não posso, mas se me faz mal; um desespero, homem! A outra mulherzinha chora, e eu alli feito carrasco, para ella ter medo e almoçar. Hein? Se elles me vissem a metter pedacinhos de biscoito pelo bico do canario a dentro...
—Que ha de a gente fazer, disse Arthur.
—Sim, tornou Albano, toma-se amor a estas bagatellas, por mais que se não queira. A Judith, tu não imaginas, pesa tanto como uma penna. Depois seccuras sempre, noites de ficar anichada n’um capote meu, ao pé da mãe, com medos de tudo. Eallucinações então, não se falla. Enfia altas horas pelo quarto da outra, por um estalo que ouviu no sobrado, os olhos do gato ás escuras, qualquer badalada na Estrella; precocidades, umas melancolias que eu nem sei... São os paes conspirando no sangue para darem com ella na cova, como acabaram com os outros!
E ahi está no que dão allianças degeneradas. Aquillo vae-se definhando, definhando, e verás que me morre um dia, ámanhã, sei lá, quando mal me descuide...
—Diabo, disse Arthur fazendo ares joviaes para lhe afastar os maus sonhos, estás lugubre como um cangalheiro. Sabes lá que vae succeder, sabes lá nada! Ora fallemos d’esse ramo de rosas que evitas como um escolho de palestra, e eu persisto em não largar. Desde que nos encontrámos, te fiz saber que não passaria sem uma grande rosa branca esta noite. Tens cinco minutos, vá!
—Ah, sim, as rosas, tornou o estudante. Aquillo é antes um insecto que uma rapariga, não queres saber? Vive de rosas.
—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.
—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo comer: tudo tem assuas compensações. Desde que está nubente, nos periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre, aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...
E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado, aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia verde, as cinco côres de Ming, e revestidurascraquelées, e as cascas d’ovo, epotichesdu Barry, e um labyrintho de classificações, de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão. Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito de rosas?—Oh, sempre!—Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves? Inda gosta muito, pobre menina! Vá,mandemos-lhe um bom ramo, que fazem as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca, muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia. Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias. Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco, casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr,scintillantes de gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado. Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias, todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.
Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.
—Não, fez o esculptor bruscamente.
—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para a ceia d’ella.
—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!
Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.
O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica, que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da edade gothica, em fundo de oiro byzantino.
Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha a bocca em sede.
Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das walsas doFreyschutz, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos doPurgatorio. Adejaria entre rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola d’ella as colher na passagem.
Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria austera da tunica; lilazes ejasmins de neve viriam pelos seus cabellos rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.
E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre, sempre...
Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.
Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha espessa.
—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e Arthur necessitava de fallar aoártista, foi-lhe na esteira com grandes brados—Eh Flores! Eh Flores!
Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.
—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?
—Quem vem a ser aquella nau?