MEPHISTOPHELES E MARGARIDA

MEPHISTOPHELES E MARGARIDA

Domingo de entrudo. Alguma chuva, lama, poucas mascaras nas ruas.

A Clara vendera poucas flores, não por falta de canceiras, que a viram onde circulava a turba, á porta da Trindade, pelas tabacarias e pasteleiros, ao Passeio Publico, na Alta, na Baixa... Pouca sorte! Não era bonita, não era gaiata, nem tinha fatos garridos; e pobre!... Era o peor, palavra.

Quem ia agora fazer caso de similhante diabo, e comprar as violetas fanadas e as tristes rosinhas murchas, dosbouquetsdo seu açafatinho de vimes?

Embalde baixou ella os preços, mettia o seu commercio ás ventas de quem passava, apregoou, gemeu, supplicou, tentando dizer as miserias da suavida negra, dias sem comer, renda da casinhola a pagar, os filhos, frio, doença... Mas encolhiam os hombros. Antes de tudo, os importunados olhavam-lhe p’ra cara. E viam um estafermo amarellento e picado de variola, covas nas faces, olhos mortos, sem brincos nem meias, o lenço da cabeça amarrado adeante, um casibeque com remendos nos cotovêlos, a saia desbotada, e gasnete com essa côr de burel, carcomida e velha, que deixa adivinhar um corpo de arenque, chupado e ossoso.

E vendendo flores tão servidas como ella, inda por cima!

Um marujo que ia tocando com outros em guitarras, ferros velhos e caçarolas arrombadas, n’esse carnaval de tabernas e bairros lugubres, atirou-lhe um encontrão, dizendo:

—Vossê enrica com o estabelecimento. Oh laré!

E matulões em chinellos, cobertos de trapos, luzindo de papeis doirados, todos sujos de vermelhão, dançando ao som das castanholas n’uma alegria ignobil, gallegos, cabos de policia, vegetes de facalhão em riste e dedos immundos, ao passar por ella beliscavam-na, dizendo-lhe ao ouvido recados torpes, fufia, rainha das iscas e fandangueira de escada, convidando-a para dormir em hospedarias de má nota. Quanto a vender flores, nem uma! Um dia triste, esse domingo de carnaval. E passando pelos armazens de comida, mercearias, pastelarias e restaurantes, á hora em que accendiam o gaz, ella sentia um surdo desespero da sua penuria,ante esses rumores de gente que apressava, comprava e comia, dizendo—não póde ser!—aos que esmolavam na rua. Em todas as lojas ia um movimento de festa, sahia gente com embrulhos de doces, cabazes de provisões festivas. Através os vidros embaciados das casas de pasto, passavamsilhouettesde moços servindo as mesas, ouvia-se o tinir dos talheres e das louças, vozes dizendo:

—Salta isto! salta aquillo!

As montras provocavam pela ostentação das peças frias, perús de recheio, salchichas enroladas n’um leito de salsa e rodellas de limão, pinhas de fructa afogadas em flores, os camarões, lagostas de patas hirsutas, e as cabeças de vitella crúa, escanhoadas e tenras, que fazem pensar na risonha Herodiade, mostrando em prato de oiro, a cabeça livida de João Baptista.

—Flores baratas, oh freguezes, aqui estão ricas flores, muito baratas!...

Cahiu a noite, cada qual gosava. Iam bebedos caracollando na rua. E o ceu tinha serenidades no alto, sob o frio luar de fevereiro... Clara foi para casa doente.

—Ámanhã veremos, dizia ella esperançada ainda, borrifando com agua fresca o cabazinho de ramilhetes já murchos. O filho mais novo estava em prantos no berço, grunhindo talvez de fome. Clara deu-lhe a teta, mas a creança recusou-se a pegar-lhe, sentindo o leite ruim, da febre, da caminhada, da debilidade e má alimentação.

Ás quatro horas do dia seguinte é que Gabriel, o mais velho dos garotos, appareceu em casa todo empoado, amarellento da noite perdida, e com uns ares de pandego, que deixaram a pobre mãe boquiaberta. Nem uma unica cautela vendera, das cinco com que abalára de casa, um dia antes. E a situação carregou-se!

Visinhas, não as havia alli tão perto. O antro em que viviam, dava de uma banda sobre quintalorios alagadios, emquanto da outra ia abrir n’um desvão de muralha aluida, entre cocheiras fétidas, onde a toda a hora moços esqualidos diziam maroteiras, ou repicavam fadinhos langorosos. Aquella solidão punha incommunicaveis com o resto do mundo, os farrapos e as fomes d’esses despreziveis.

Mesmo de dia, fazia noite na caverna, e gottejava do muro um pranto deleterio, que Clara nunca conseguia estancar.

Esta existencia de privação e sobresalto, subterranea, quasi proscripta, era de continuo sob a ameaça de tentações singulares, companheiras da miseria e do abandono. Mesmo estruida e esqualida, a pobre era ambicionada, espiada, accommettida. Em volta da sua toca, girava esperando o instante critico, a cambada immunda das cocheiras perto, homens sem edade, corcovados, rotos, batendo tamancos e batendo fados, n’um asco de estrume que os degenerava em ratazanas de esgoto. Essa gente cahida na ultima torpeza, serenos de noite guiando trens suspeitos, moços deestrebaria limpando o gado e as immundicias do estabulo, sabendo crimes, conhecendo os vagabundos, ladrões, assassinos e meretrizes, tinha na cara em sulcos terrosos um attestado lugubre de infamia. Dois ou tres tinham a Clara de olho, e se a viam recolher da venda, diziam-lhe maroteiras, roncando de luxuria bestial. Nem se imagina a teimosia d’essa canalha narcotisada para toda a especie de brio! Pela noite, sentindo a viella deserta, vinham bater-lhe surdamente na porta, ou cantar-lhe fados de alcouce, n’uma aravia baixa, onde esguichavam os erotismos do degredo e sardanapalicas com pretos. E d’uma vez acordando a deshoras, Clara sentiu-se abraçada pelas costas; e uma voz trescalando a podridão, dizia-lhe em jactos de ancia—volta-te! volta-te! Havia entre todos um corcunda que lhe inspirava terror. Era talvez um velho, ossudo e luzidio, com voz guttural, o vinho carniceiro, typo de impudencia que nada teme e nada respeita. Na cocheira chamavam-lhe oTromba, pela montanhosa constructura do nariz leproso e uma dentuça obliqua, asquerosa de carie. Para bem dizer, era a ultima phase do homem degenerado em besta, especie de gorilla sem força nem agilidade, conservando todavia nos meneios cambados e nos traços physicos, evidente a herança do quadrumano-rei. Os outros da cocheira inda conservavam algumas regalias de homem, guiavam de noitecoupésfechados, podiam transportar-se uma vez ou outra na almofada dos trens á laia de trintanarios,ou dormir fóra e guardar-se de certos serviços. OTrombanão. Era um pedaço da cocheira, uma dependencia do estrume em que dia e noite se atascava o empedramento do casebre, não podendo sahir mais que para dar agua ás cavalgaduras, dormindo na palha pôdre pelas bestas esfocinhada das manjadouras, sob os cheiros da urina, entre guinchos e pulos das argamassas, cuja voracidade por vezes lhe espetava dentes na pelle sarnosa das canellas. O alcool, as doenças obscenas e esse rachitismo larvado tão frequente no sopé das cordilheiras altivolas, tinham-no imbecilisado a ponto de lhe fazerem esquecer a maior parte dos termos, irracionalisando-o de um modo assustador. No fundo das suas orbitas lugubres, uns olhos aguados, mortos, cheios de uma especie de gomma de amido, jámais boliam para vêr. Fallava por gritos, imprecações e monosyllabos, a homens e a bestas, n’uma toada sorna, que apenas sifflava forte nos vortilhões de cólera. Incapaz de commoções intermedias, era terrivel e extraordinario nas tempestades interiores, que difficeis em salteal-o eram difficilimas de esvaír, convulsionando-o assim por horas, n’um fluxo e refluxo de doido furioso. Serviam-se d’elle os moços da cocheira como d’um macaco de recreio ou d’um urso habilidoso; e em circulo no pateo á hora do almoço, muitas vezes a Clara os surprehendeu embebedando oTrombapara rirem depois, vendo-o cabriolar entre farrapos, com uivos de animal feroz. OTrombatinhauma paixão pela Clara, fez-lh’o entender umas poucas de vezes, explicava-o a quem queria ouvir. Essa paixão repellente e sordida permittia á risota soez dos malandrões de cavallariça, uma serie de partidas da mais original obscenidade.

O subterraneo de Clara tinha fresta sobre o pateo da cocheira, abertura oblonga, estreita, sem postigo nem vidraça, onde a horrivel focinhada doTrombase collava atrozmente, nos dias vorazes de satyriase. E a pobre não era senhora de andar na casa, arregaçar as mangas, pentear os cabellos, curvar-se, dizer alto qualquer palavra, que essa voz mecanica do idiota, feita de sopros de folle sobre uma palheta relaxada, não uivasse de amor deshonesto, subindo e arquejando, conforme a sobrexcitação despertada. Clara buscava furtar-se quanto era possivel ao campo de visão da fresta. Arrumára as camas a um canto, fazia a comida n’outro, tinha a louça no reconcavo de outro canto. E se fugia das palavras d’elle, dos seus olhares chammejantes e propostas desavergonhadas, era vêr a raiva do idiota impotente para a chamar a si, como batia nas paredes murros de possesso, como enfiava os braços pela setteira do covil, agitando as longas mãos de sapo á busca de coisa que esfarrapasse e destruisse. Outras vezes mais quebrado, limitava-se a ficar de sentinella ao buraco, a rondar a porta da rua com sollicitudes de cão faminto. E Clara sentia os tamancos d’elle batendo as pedras, via-lhe a face unida á hombreiracom humildade sombria, risos de pergaminho, uma magreza hoffmanica, e pela camisola em rasgões, a cabellugem amarellenta do peito, empastada e fria, como pêllos de cão morto ao relento. Os pequenos tinham um medo funebre de vêl-o, choravam em o sentindo vir, recusando tudo o que elle, nos seus momentos generosos de dinheiro comprava para lhes dar. Uma noite, oTrombaenfiou bruscamente pelo subterraneo antes que Clara tivesse tempo de gritar, descalço, cansado, mais livido que de costume—e sem palavra estendeu-lhe na mão aberta, umas poucas de libras. Ella ia talvez tocar-lhe, deslumbrada, sem mesmo dar por isso. Mas oTrombarecuára, e em convulsos sobresaltos onde estralejava a dentuça com ruidos algidos de ossadas, n’um turbilhão de walsa macabra:

—Se queres, vem-te deitar.

E como ella não dizia nada:

—Furtei ao patrão, não digas a ninguem. Tem lá muito, eu sei onde está.

Clara estremeceu de horror.

Elle disse:

—Anda dormir.

E do seu queixo em cornucopia, áquella ideia de prazer, uma baba hydrophoba pingava-lhe em grandes gottas turvas. Em lagrimas, voltada para um passado melhor, a pobre mulher recordava então o homem tão forte e moço, a quem se entregára confiante, cheia de ventura e varrida de quaesquer receios,e que depois de a beijar, de a gozar, cansar, infamar e servir, tornado em fera se aborrecera um dia, fementindo quanto de leal e socegado lhe promettera.

Ia em dois annos que elle abalára de casa, um dia de festa, no verão, cantando rua abaixo de a ouvir chorar abraçada aos pequenos, véstia ao hombro, n’uns fumos de bebedeira da vespera. Aquelle convivio de homem vicioso que a opprimira tanto vendo-a fraca e dedicada, e a deshoras arrastava para casa os rufiões e bebedos da sua laia, transformando em prostibulo o antro em que os filhos viviam, exigindo baixezas da mulher, explorando-lhe os cobres da labuta cruel que a derruia, pondo-a muitas vezes pelos cabellos fóra da porta e para o meio da lama, mumificára em pouco a mocidade d’ella, tornando-lhe carantonha o riso, fallindo-lhe as carnes, esburgando-lhe as mãos, chuchando-lhe os seios, e pondo-a para alli estupida, supersticiosa e megera. E por isso talvez ella o amava ainda, e receberia se voltasse—ai quem dera!—o pae dos seus pequenos, que partilhára do seu leito, e lhe tinha communicado na primeira scentelha do desejo, o primeiro impulso da maternidade.

Pela noite nada havia de comer, e a pobre que se sentia peor, deu ao mais velho os restos do dinheiro,a que fosse comprar ceia, um bocado de pão, conductos, queijo, e manteiga para fazer papa ao pequerrucho. O garoto sahiu, levando tres tostões na ponta do lenço. E antes de ir ao padeiro, como era cedo ainda, alongou-se a passeio pela cidade. A correr subiu os Paulistas, entrou no Calhariz, e foi indo, indo, até á praça de Camões. Além da gente ociosa que flanava aos magotes, largando a officina, altercando ás esquinas, entrando nas lojas de bebidas, ou embasbacada seguindo na esteira das mascaras e musicatas burlescas, as ruas arquejavam no viver dos dias de semana.

Estavam abertas as lojas, havia gaz nasvitrines, lanternas sobre as taboletas dos armazens, barbeiros caros, postos medicos e photographias. Rolavam os pregões enchendo a noite de vozes irregulares, noticias da ultima hora, cautelas, a rica agua do Carmo...

E em fiadas, salpicando de lama os transeuntes, as carruagens iam em todas as direcções, cruzando-se, serpenteando, cheias desorties-de-bal, mascarados finos, e pandegos com desavergonhadas. Gabriel era um moreno de olhos avidos, presentido, precoce, e de uma indolencia irritante. E por quanto se lhe deparava de bello, as danças, rumas de costumes doirados pendendo nas sacadas dos guarda-roupas de Entrudo, asvitrinesprofusas de bijouterias, os bonecos, as porcelanas pintadas, cofres de facetas irientes, terras-cotas, caraças, crystaes e estojos, sentia uma cubiça invadil-o, e dentroem si proprio, na fogosa imaginação dos primeiros annos, turbulenta e ingenua, creava um mundo de folgares e extravagancias, a cada passo modificado, refundido, remendado, feito de novo, e nunca definitivo, pelo que ia vendo na passeata das ruas. Começou por exemplo a desejar os soldados, cavallinhos e carros que via em exposição nos armazens de quinquilherias, á porta do Bernard, defronte no Seixas, e mais abaixo ainda, na rua do Almada, navitrinedaAguia de Ouro, em toda a parte afinal.

Depois, ambicioso já de projectos, subia a um trem, botas á Frederica e cabelleira de anneis, ou vestido de azul ao lado de um grande cão senhoril, como aquelles lindos meninos que acabavam de passar, n’um altolandeaua quatro.

E de porta-machado, de bombeiro, de pagem, de velho, de diabinho e de policia, dizendo adeus e esguichando toda a gente com uma borracha de gomos verdes e encarnados, como via fazer a essa variedade de pequenos e grandes, que se cruzavam nas ruas, tumultuando a pé ou de carruagem. E percorreria as casas dos amigos, o Caetano da mercearia, o cabo Ferreira, o primo Innocencio e os mais, levado pela mão das suas aias, ao collo do papá, ou no carro do tio, entre criados de farda, velhos e graves, que dessem excellencia, todos curvados de respeito. Recebel-o-hiam então n’um côro extatico, sob saraivadas de beijos, na insolencia dos mimos prodigalisados.

—Não te conheço, mascara, não te conheço! diria o Caetano intrigado, aflautando a voz.

Á esquina do Loreto, Gabriel deteve-se um instante, aturdido pelo rodopio da multidão. Vinham em duzias os trens do Calhariz, de S. Roque, do Alecrim, Santa Catharina e toda a banda, sobre o Chiado que se alagava em luz, incendindo ao fundo da rampa oGibraltar, e cortando claros de gaz na serpente humana, que nos asphaltos se agitava penosamente. O tom dos gritos e vozes, ganhava sobre a respiração geral da cidade, uma extraordinaria altura. A cada momento, grupos de mascaras rompiam da gentana lugubre com o arsenal de chacotas sabidas, aos saltos, enfiando em tumulto por esses armazens.

Eram pastorinhas com faces a vermelhão, marafonas de cigarro ao canto da bocca, cuia disforme, guitarra á banda e olho frascario—epierrots, dominós de monco cahido, toda a sucia que escoicinha entre farrapos e vinho.

Através os vidros das portinholas viam-se dentro dos carros, senhoras empoadas, vestidos brancos, decotes de flores e laços, luvas de canhão molle até ao cotovêlo, scintillações de joias, espumas de renda, braceletes, leques e esmaltes nacarados de risos. Entre os amontoados de fórmas brancas e fofas, como flores rompendo da neve, ás vezes immergiam as cabecitas das creanças, em costumes de setim e oiro.

Dois passos adeante, Gabriel extasiou deantede certa montra com mascaras, onde estava muita gente parada. Deslumbrante de graça, malicia, colorido e contraste, essa exposição de caras grutescas, pelo cartão moldadas nas mais bizarras visagens. Gabriel, mesmo infeliz e penetrado de um surdo ciume pelos prazeres que não podia gozar, teve de rir com os mais em frente de muitas d’essas carrancas ensopadas de vermelhão apopletico, branco declown, amarello e até verde, com barbaçanas de talhe demoniaco, os olhos vazios e spasmos, narizes em ponta de alambique, verrugas medonhas aqui e além, e dentuças de javali, cornamentas mephistophelicas, barretes imitando comadres eabat-jours... Havia um gallo petulantissimo, enlevo e pasmo de quantos seguiam. De bico aberto e olho vivo, o mariola dir-se-hia querer cantar. E na rua em adoração á montra da loja, quem passava detinha-se a commentar todas essas physionomias de cartão e encerado. Descobriam-se então analogias eroticas—aquella parecia o fulano, a outra o sicrano, aquell’outra era mesmo o jagodes tal... Saltavam risadas da turba, como crepitação de vinho n’um copo. E uma ovarina cheia de vergonha abalou, no meio da grita geral. Oh, a tal cabeça de gallo com a sua crista escarlate tão finamente cortada no rebordo, o bico amarello, olhos espertos e o todo invencivel de um guerreiro, fascinavam Gabriel, aparafusando-o alli no chão, attrahindo-lhe as vistas, e fazendo-o perder a memoria de tudo omais. Como seria espirituoso enfial-a como um barrete, deitar a correr rua fóra...

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!

Có-có-rócó!

Ririam das janellas, as meninas atirar-lhe-hiam ovos e rebuçados, e toda a gente teria desejos de saber quem era o gallinho gaiato, que tão petulantemente cantava.

E sabendo-se que era elle, o Gabriel da Clara, que vendia cautelas e dera um premio de 100$000 reis aos freguezes tendo ainda nove annos, que successo não seria, que de bolos lhe não atirariam as senhoras! Fluctuando n’estes castellos rendilhados de auroras e sonho, tinha machinalmente levado as mãos ás algibeiras. E olhava sempre a radiante cabeça de gallo, em desejos que lhe nascessem pennas pelo corpo, bellas azas de côres nos hombros, e um admiravel rabo coberto de plumagens.

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!Có-có-rócó!

Có-có-rócó!

Có-có-rócó!

Sentiu alguma coisa dura no bolso. E veio-lhe de repente um repellão interior—eram os tres tostões em patacos. Diabo! E encarando-o com ar de provocação, a cabeça de gallo parecia escarnecel-o, armar-lhe fosquinhas, dizendo-lhe a espaços:

—Compra-me, não és capaz... Não tens cheta, pobretão! Então marcha, zt, rua!...

Isto agoniava Gabriel, que de olhos errantes, um abalo de crime, ia tocando successivamente os patacos no bolso, ao acaso. Entrou na loja—ó meu senhor!

O lojista remexia caraças, provava-as um instante na cara dos freguezes, desenrolando crepes, dizendo preços, indo e vindo muito atarefado.

—Ó meu senhor! repetiu Gabriel mais humildemente.

—Que temos? disse o homem sem olhar.

—Quanto é aquelle gallo, faz favor?

O lojista dobrou-se por cima do balcão a ver quem fallava; e riu-se. Aquelle riso era terrivel. Gabriel baixou a vista, arrependido de ter entrado.

—Quinze tostões, disse o homem.

O pequeno recuou aterrado, como se o obrigassem a comprar, querendo ir-se embora e ficando-se, pegado no chão de medo. N’isto, um senhor que veio com tres lindos meninos, deu-lhe um encontrão casualmente, ao passar, e vendo o gesto do pae, um d’esses anjinhos côr de rosa, embonecado e loiro, ergueu a mãosinha para lhe puxar os cabellos. Os manos vieram logo a empurrar tambem o mendigo, puxar-lhe os andrajos, varrendo a loja n’uma colera frenetica e fria.

Vinham em velludo azul, fachas de setim pallido cingindo-lhe os saiotes, meia perna nua, rebordos metallicos nas botas, e chapéos revirando á maruja.

O maior era um delgadito de olho auctoritario, bocca frenetica estancando um d’esses narizes unciformes, que a gente depois vê entre aros de oiro no parlamento e na opera, com a aggressão de uma proa de guerra entre lucarnas de beliches.

Eram desenxabidos os tres, d’uma magreza fina côr de pingo de tocha, desfibrada e molle, que vem das ligações consanguineas e da chlorose dos salões, mas vivamente incendida pela chamma inquieta dos olhos, luzidios como dois onyx molhados. E á bocca da loja, bem firmados na lagea do portal sobre tacões impertinentes, os tres manos rechaçavam Gabriel em linha de batalha, tendo os braços estendidos, mãos retracteis e promptas a espatifal-o, e esse tranquillo ar de victoria desdenhosa que serve a humilhar de morte o vencido.

Gabriel corrido, humilhado, e com medo que elles levassem a cabeça de gallo, estava fóra da porta com os punhos fechados, capaz de morrer de vergonha. E abrindo temerosamente a boccarra, deitou fóra contra os insolentes, talvez meio palmo de lingua.

—Estesgajos, lá por serem ricos... disse elle no meio da rua.

Mas sentia-se infeliz, desamparado como um cão, e roido de miseria, no fundo da sua pequenez e da sua orphandade.

Em casa, roendo o pão mal-o queijo da ceia, aos pés do catre em que a mãe se estirára, disse n’um vago de saudade:

—A esta hora, mãe, toda a gente está ahi areinar, e a comer ricas comidas. Sea gentefossemos ricos...

Clara mascava os miolos do pão sem vontade, seguindo a penumbra errante, que na muralha carbonosa e humida, a luz do candieiro sem petroleo, fazia dançar vagarosamente.

Como não respondia, o Gabriel olhou-a.

—Não é verdade, mãe? Não é verdade?

—Viste o teu pae por ahi? perguntou ella.

Gabriel fez com a cabeça, que não.

—Tambem, nunca vê nada, o diabo! disse ella com mau modo, e ficou-se absorta em não sei que lembranças reconditas.

Nem cinco reis em casa, cada vez mais exigentes os estomagos, a doença cortando-lhe o recurso do trabalho, e no dia seguinte, o seu cordão de oiro tão fallado, posto em leilão na casa de penhores, por atrazo de juros.

Não havia muito que ouvira no pateo da cocheira, um moço contando aos mais o crime do Largo da Paschoa—no dia anterior, um malvado que se escondera debaixo da cama d’um merceeiro, e alta noite o degolára, depois de com elle rolar n’uma lucta horrivel, de que o cadaver expunha os mais atrozes signaes.

Surprehendido em fuga com um sacco de cobre, o assassino tinha confessado tudo, brandindo o punho ensanguentado, n’um sardonismo altivo que lançára terror por toda a cidade.

E outra vez oTrombaviera com dinheiro, a fazer-lhe propostas! Aquellas coisas lançavam Clara n’um desvario. Vinham-lhe presentimentos tragicos, medos de tudo, da noite, do idiota, dos ladrões e de morrer de repente, deixando ao desamparo as suas tristes creancinhas. E esse que ella amára, em que sitio parava?

Por tabernas talvez com moças de faca, na prisão ou no hospital. E as suas lagrimas corriam!

No dia seguinte, Clara não pôde sahir, sentindo-se mais alquebrada e dorida. Mandou Gabriel á venda dos ramilhetes, com recommendações para que não sujasse o açafatinho de vimes.

Os ramos eram uma desgraça de amachucados, murchos, sem aroma e sem côr. Quem compraria aquelle esterco todo? Mas era entrudo... E a mulher ensinou ao pequeno o itenerario a seguir—praça de Camões, Chiado, com estações demoradas onde estivessem muitos senhores, na Havaneza, nas pastelarias, á porta da Trindade por causa do baile infantil, esquinas do Rocio, Passeio...

Foi-se Gabriel mais o precioso açafate de vimes, apregoando, offerecendo a uns e a outros, dez reis o ramo, ramos grandes, era o resto! Ás tres da tarde, desde a praça de Camões ao Rocio, era penoso o transito, passeios apinhados de gente, mascaradas cruzando a via, trens cobertos de caixeiros,homens a cavallo, policia em renques, muito chapeu amachucado. Entre a Havaneza e o candelabro do largo, a concorrencia ia furiosa e compacta, de janotas e vagabundos, cujo gaudio consistia em fazer parar os trens para lhes lançar immundicias dentro, esguichos de varios liquidos, cartuchos de pós, feijões e más palavras. Quem se indignava soffria apupos, os dichotes do alto estylo, e triplicada dóse de porcaria annexa.

Convergindo alli no antecipado intuito de gosar o mais possivel, cada primate tratava de expedir berros furibundos e gargalhadas de bebedo. Alguns ardentes e ratões tinham-se empoado em casa; outros armados de borrachas com pipo esguio, regavam as golas e espinhaços da sociedade; varios desabotoavam-se, beliscavam-se, aos abraços nas mulheres do povo e pedindo desculpa do engano.

E a cada vegete galopando heroicamente na pileca derrancada, a aurea juventude da casa Garrett nomeava-o pelo nome, chamava-o, fazia-o parar para um segredo.

Em carros descobertos e camisa, de mascara microscopica e luva branca, braços nus, pescoços nus, altas meias de sêda desenhando pernas nervosas, as hespanholas appareceram ao alto, batendo palmas.

Houve na massa um urro. E o berreiro avassallando os ares, expluiu de toda a banda, n’um triumpho indescriptivel. O elegante Ricardo até, da primeirasociedade, saltando a um dos carros, lançou ás raparigas uma alta contribuição de beijos. A esse tempo achava-se Gabriel á porta da Trindade. Sahia gente do baile infantil.

Quanto Lisboa tinha de creanças radiosas, perfumadas, illuminadas e frescas, vinha descendo d’aquelle baile findo, todos os tamanhos e todos os vestuarios, n’uma riqueza inultrapassavel de estofos, bordaduras e agaloados. Uma especie de gravidade e pedanteria, aprumava alguns dos pequeninos heroes; viam-se grandes damas de quatro palmos roçagando caudas pelo braço de adoraveis fidalgos de LuizXIV,coquettese roseas, rindo com as suas boquinhas em flexa. Havia polichinellos microscopicos como illuminuras, preoccupados das marrecas, chapeu de guizos á banda, beicinho em momo desdenhoso, e um azul cheio de sol no olhar. Os pequerruchos de collo eram os mais diabolicos e vivos, gesticulavam por cima do hombro das amas com as mãositas de covinhas, as unhas chatas, mechas de cabello na testa, e babando sem respeito os ricos fatos coloridos. Nas familias fecundas e ricas, quando a ninhada iriente se ajoujava no fundo doslandeauxdescobertos, profundos e ovaes, bulindo as cabelleiras luminosas, vestida das côres mais puras, cingindo-se com os bracinhos curvos, trilando as divinas coisas da alma balbuciante, atirando beijos a primos e primas nas pontas dos dedinhos frescos, desinquieta, teimosa, ensolada, dir-se-hia uma familia de aves do paraiso exercitando forças á bordado ninho, para debandar pipiando e rindo, na vida musical das florestas.

Em cada detalhe de costume, setim, brocados, cachemira, rendas e plumas, todo o bazar de estofos destinado a moldar os tenros corpinhos de uma graça divina, se ia surprehender a passagem de dedos brancos e delicados, e construir sem esforço a paixão das mães pelos seus bebés, a dedicação das irmãs mais velhas, os orgulhos talvez de toda a familia, que se impozera collaborar na pequenina obra prima, dando o estofo uns, cortando outros no modelo, e cosendo a legião feminina, por algum d’esses tranquillos serões em que as cabeças deredor da mesa n’um mimo se retocam, sob a luz velada do candieiro.

E Gabriel de cabeça baixa, cheio de uma inveja lugubre, esguedelhado como um monstro de conto, todo roto e todo sujo, pés descalços na lama, calçotas recomidas na orla e incrustadas a remendos de côr, o ar bisonho de um rapozinho engaiolado, estendia machinalmente o açafate de vimes, vendo passar tantos principes e fidalgos; marquezitos de casaca a matiz e caixa de rapé esmaltada; pastoras do Trianon levando papoilas e espigas nos chapelitos de palha; poetas e cardeaes tasquinhandobon-bonsde chocolate e baunilha; frageis judias de olhos pudicos, com pantalonas de sêda clara, chapins de oiro e véos de lhama espumosa; os abbades de côrte, tricorne á banda e bengalão ferrado—e Mephistopheles de quatro annos, MariasAntoniettas de seis, Sakespeares de oito, de envolta com alsacianas morenas e loiras, com magicas, primaveras, auroras e noites, Margaridas de mãos cruzadas no collo e escarcella á banda, todo o mundo celebre da historia e da arte, reduzido em escala infinitesima, alado de petulancias vivas, rindo em graça virginal, tão scintillante de côr e adoravel de pequenez, que dispersando em tribus pela rua, era como uma chuva de flores em cachos, vertida de alguma cornucopia de deusa prodiga, n’um dia de nupcias celestes.

—Flores a dez reis, flores a dez reis! É o resto, bons ramos...

E para Gabriel, ninguem olhava! Muitos ramilhetes estavam completamente seccos, havendo perdido o aroma e as côres. Uma vez ou outra casualmente, os olhos de uma senhora caridosa ou de um velho conde, detinham-se um instante sobre a mercadoria reles do gaiato; mas passavam logo, sorrindo alguns da miseria da pobre creatura, exprimindo outros uma sympathia triste, e nenhum dando a esmolinha suspirada—não erachic!...

Por fim Gabriel atirava os ramilhetes sobre quem passava, e ainda assim ninguem se condoia.

Algumas meninas zangaram-se, e uns poucos de senhores o repelliram com dureza. Quando de repente um cocheiro, magnifico como um elephante, cabeção de pelles e pescoço curto gritou á bruta—hé homem!

Conduzia um carro balanceado em molas, fofoe caricioso como uma alcova, puxado a cavallos brancos.

E Gabriel que virára machinalmente a cabeça, viu ao alto da escadaria do theatro, n’um cortejo de senhoras fidalgas e cavalheiros, os tres meninos da loja de mascaras. O mais espigado ia de gallo, Gabriel reconheceu a famosa cabeça davitrine, de crista rutilante e alta como um penacho de couraceiro, as barbas pendentes, bico amarello entreaberto... Para ser completa a illusão, tinham vestido os braços do pequenito em azas de ave, verdadeiras azas de pennas, recortadas, retracteis, cheias de cambiantes e matizes. E se o menino cantavacó-có-ró-có! agitando as azas e debicando graciosamente as brancas mãos das senhoras, era uma risada de todas as boccas, um frenesi de beijos, um triumpho sem exemplo...

Aquillo parecia a Gabriel uma affronta. Mas atirou ao gallo as ultimas flores, sentindo a garganta presa de lagrimas, e os olhos turbados de uma especie de vertigem. Um dos ramilhetes apanhou o mais pequeno dos fidalguinhos, que se virou furioso do desacato, e dando com o descalção da loja de caraças, sobre elle rompeu de mão erguida. Oh, nem alli o poupavam! Gabriel então, não foi mais senhor de si—atirou-se a elle como um leão, e tamanho socco lhe arrumou, que o sorvado petiz foi cahir longe nas pedras, berrando despropositadamente. Prenderam-no. Esteve dois dias n’uma estação, levaram-no ao tribunal depois. Foi ahi que aClara o encontrou, esfomeado, escaveirado, sem o cesto, sem flores e sem cautelas, vazio de reacção, incapaz de se mexer e de fallar. A pobre mulher olhou-o por um momento de olhos seccos, dizendo:

—Deus te faça differente de teu pae!

E esteve todo o tempo severa, concentrada, quasi indifferente ao que ia. Gabriel nunca a tinha visto assim. Quando o mandaram com Deus, a mãe disse-lhe seccamente:

—Anda!

E foram. A desgraçada encontrára no caminho uma leva de facinoras, que ia embarcar para o degredo; n’essa enxurrada tinha reconhecido o amante.

E sempre atraz d’ella sem descanso, corcovado, lazarento e leproso, batendo os enormes tamancos na calçada, cahindo de immundicia e frangalhos, e em phrases cerradas ejaculando desejos, que de asquerosos parecem violar a serenidade da natureza e do ceu, oTrombapersegue-a com os seus olhos de gomma suja, estudando avidamente as fadigas, as fomes, desalentos e lagrimas da desgraçada, com o dinheiro do roubo apertado na pata de reptil, e á espera que ella se entregue sem queixa, um dia que não está longe talvez!


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