A JULIO CESAR MACHADO
MEU CARO JULIO
Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade.
Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez offerecer flor mais fragrante do que esta pobreFlor Secca, secca e sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria.
PINHEIRO CHAGAS.