IX
Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava, como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e que traziam um supplemento de illuminação.
—Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da cavalgadura, como está você?
—Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de quinze annos a não hão de invejar?
—Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu sobrinho.
Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso.
—Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando nós andavamos com o Claudio ao collo...
—Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você, eu era uma creancinha n’esse tempo!
—Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha, tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça?
—Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato ensopado, e ainda não tinhamospassado do fundo da escada, tal era o enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira.
—Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida, não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia. Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo!
—Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam! alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens?
—As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus!
—Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada. E o que havemos de fazer?
—Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas, e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é...
—O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario.
—Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.
—E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo da lareira está-me convidando.
—Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.
E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario, que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico.
—Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os criados, que haviam assistido mudos á precedente scena.
—P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma, apressando-se a mostrarem-me o caminho.
Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e achei-me na cosinha.
A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos espectros.
A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto, que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso.
A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha, a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos palacios, desterrados agora pelosfauteuils, pelos sophás, e pelascauseusespara as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção.
Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela Maria do Rosario, que nos viera receber.
Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha, reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de vinho.
Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de Bellas.
Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos,que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e murmuraram ao ouvido uns dos outros:
—É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida.
—Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me enxugar?
—Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda, e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.
—Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com bem maus agoiros. Que tempestuosa noite!
Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a recem-chegada Lisboeta.
O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos ligeiras da velha.
Reinava silencio profundo.
Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados e olhos fitos em mim.
—Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado, ao ouvido de um rapaz seu visinho.
—Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se conversava quando eu entrei?
—Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada abaixando os olhos negros e travessos.
—Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?
—Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...
—Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?
A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá fóra a trovoada.
—O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiuo burriqueiro com a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba.
—Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos.
Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas das portas, fazer vacillar a chamma da lareira.
Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da cosinha.
O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu, chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda.
—E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. João?
—Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas, responderam todos com voz unisona.
—Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação, e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.
—Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz.
—Se a nossa ama dá licença...
—Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir.
—Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas.
«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.
«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto. Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno, quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos lugubres, a que respondiaao longe o funebre piar do mocho...»
—Credo! murmuraram os assistentes.
«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem perturbar-lhe o repouso.
«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; mas apezar d’isso estava tempestuosa a noite como esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e os relampagos illuminavam os campos inundados de agua. O vento acamava as espigas de trigo, e fazia-as sussurrar lugubremente.
«João metteu-se em casa e esperou que soasse a hora fatal. Não direi que não estivesse um tanto pallido e trémulo, mas continha o receio involuntario, e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente.
«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez ouvir aquelle barulho que precede nos antigos relogios de parede o bater das horas, e logo depois deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se para escutar o signal dado pela voz mysteriosa do tempo, mas, apenas vibrou a ultima pancada, o furor da procella, por um instante refreado, redobrou de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões bramiram com tal violencia, que tremeu toda a casa como se a sacudissem as garras de invisiveis demonios. Logo, por entre os rugidos confusos da procella, sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar da chuva, começou João a ouvir uns flebeisgemidos, que se prolongavam indefinidamente, um arrastar de algemas, que de cada vez se approximava mais.
«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; mas tomou animo, e levantou-se da cadeira onde estivera. Não teve porém tempo de dar um passo. Abriu-se a porta e...»
N’este momento abriu-se com estrondo a porta da cosinha.
—Jesus! bradaram os circumstantes.