VIII

VIII

Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel despotismo de D. Antonia.

Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos, que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere tenebroso.

A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia,O amigavelshake-handsque trocavamos á despedida, não explicavam senão sincera e cordial sympathia mutua.

Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia na aldeia de ***, junto de Bellas.

Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.

Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que, assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as portas da cidade.

Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo os seus arcos magestosos e sombrios.

Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo docoupé. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco a minha imaginaçãonão se poude conter, engolphou-se na região dos devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos nossos visinhos do campo.

Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento, com o seu instantaneo colorido.

Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa.

A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia.

Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.

Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz de D. Antonia.

—De que se ri? perguntou logo.

Como que acordei sobresaltada.

—De nada, retruquei.

—De nada? Só a pessoas que não teem todo ojuizo, acontece semelhante coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por entre os dentes.

Encolhi os hombros.

—Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito sério. Provavelmente nem sabe o que foi.

—Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem.

—Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira.

Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto.

Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse para bem longe d’aquella atmosphera turvada.

Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras.

O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia, mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos.

Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno, e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente, como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem vivos, bem claros os vultos que imaginava.

Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente, representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos, que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.

Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno.

As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem, affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se exhalavam das suas ramas, eramo bramir longinquo e indiscreto dos vivas de um povo inteiro.

Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir.

D. Antonia olhou-me com espanto.

—Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.

Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras inintelligiveis.

—Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque estamos em Bellas.

Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de creança, que estava prompta sempre a lançar mão daclef de champs, eram causa muitas vezes dos meus dissabores.

Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de Pombeiro.

O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio do campo.

Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante, resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo.

Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo. Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a cabeça dizendo:

—Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras.

Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes.

Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua desabou em cima de nós.

—Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que noite que vamos ter!

—Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.

—Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao jumento para lhe apressar o passo vagaroso.

—E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?

—Agora vamos nós atravessar uma.

—Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o temporal?

—Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas, assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva!

Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava. Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.

Por isso, para remediar quanto em mim coubessea falta de delicadesa de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro saloio.

D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um homem de baixa esphera, e lhe dizia:

—Como estávocê? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo! Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte alguma.

Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos, incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a nossa residencia.

O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e uma criadavelha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia:

—Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia! Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste!


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