XVI

XVI

Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que se passara na vespera. Foi então que me espantei de D. Antonia não ter tornado a apparecer na sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, não podia ter durado tanto tempo. Demais lembrou-me então que a tinha sentido voltar meia hora ou tres quartos de hora depois de ter saido. Por que motivo não viera para a sala? Havia n’isso o projecto de alguma infernal armadilha? Ia dentro em pouco sabel-o.

D. Antonia não me deu palavra durante esse dia todo, coisa com que eu folgava bastante; mas no outro dia, sem me ter prevenido da sua chegada, appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a sua mascara de gelo.

Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento intimo por ter cumprido o meu dever. Estava satisfeita comigo mesma, o que já concorre muito para se estar satisfeito com os outros.

Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo depois encerrou-se com D. Antonia, e teve com ella uma larga conferencia.

Depois appareceu ainda mais agitado, passeou algum tempo, pegou no chapéo e saiu.

D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se no seu quarto.

Á noite appareceram as visitas do costume, coisa que me espantou sobremaneira, porque julgava que não voltariam tão breve.

Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha a nossa casa em attenção a Claudio, e só em attenção a elle.

Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia dava-me novas forças para luctar com intrepidez.

Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada produziu sensação. Claudio recebeu-o com uns modos meio frios, meio cordiaes. A condessa mostrou-se distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina extremamente amavel.

Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o traiu o seu espirito brilhante e jovial. Esteve desembaraçado no meio de todos aquelles constrangimentos. Eu, que tambem não tinha motivo algum para estar constrangida, auxiliei-o; a conversação animou-se. A condessa não tomou parte n’ella; Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas poucas de insinuações, em que não reparamos; Carolina entrou na palestra com finas observações, que se resentiam da sua indole essencialmente sarcastica.Assim se passou uma noite muito agradavel.

Claudio que ao principio se mostrara nimiamente reservado, foi-se pouco a pouco tornando mais expansivo.

Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe de novo na fronte as nuvens, que se haviam por instantes dissipado.

Comtudo comecei a notar uma grande differença no procedimento de D. Antonia, a meu respeito. Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até ahi para que eu não estivesse um instante só com Alberto, quanto era o desejo que parecia ter agora de nos proporcionar os mais prolongadostête-à-tête.

Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse n’algumas excursões que faziamos pelos arredores. Depois aproveitava um pretexto qualquer e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, apparecia-nos de subito meu marido, pallido, com o olhar sombrio, com a fronte annuviada. A cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos todos tres para casa, rindo e conversando como bons amigos.

Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella rede de intrigas, que eu sentia confusamente, caminhava tão desassombrado como se não estivesse pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido podia perder a sua lealdade, e a minha reputação.

Não se ausentava porque via perfeitamente quea sua retirada daria á calumnia o pretexto que ella anciosamente procurava: mas acceitava tão desconstrangidamente o papel falsissimo que esta situação lhe impunha, que parecia não ter o minimo conhecimento do trabalho subterraneo, emprehendido pela devota sociedade de D. Antonia e companhia.

Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade inalteravel, e suppunha que fôra um sonho a scena que se passara n’essa noite, que tão profunda impressão me causara. Precisava de admirar a rosa murcha, que trazia no seio, para de novo me convencer da realidade de tudo isso.

Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre: um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom d’uma respeitosa familiaridade.

Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle, ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado.

É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal não pude resistir, e aventurei a pergunta.

—Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de responder.

—Porque? tornei eu espantada.

—Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamentea minha historia. Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos ante-diluvianos?

Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não intentei resolvel-o.

Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com muita urgencia.

Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me contando o que o obrigara a mandar-me chamar.

—A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha (permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha, conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que seanda tramando lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua innocente cabeça.

Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel para mim, porque não podia adivinhar que mal teria eu feito áquella gente, para que me tivessem declarado uma guerra tão encarniçada. Foi isso mesmo o que eu disse a Theodoro, que me respondeu, sorrindo-se:

—Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime imperdoavel, o de ter vinte annos, uma formosura esplendida, uma indole boa e sympathica, uma alma enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude immaculada. Que mal fez a rosa ao caracol, para que este lhe entorne nas petalas a repugnante baba? A luz, minha filha, não attrae unicamente as borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para de despeito a apagarem, aquellas para se queimarem na chamma, que as enleva. Satanaz, ao sair das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada? Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? Arraste-se como as serpentes. Mas não; soffra antes, e levante a fronte acima d’essa turba vil. Tenha sobretudo confiança em seu marido. É um espirito fraco, mas um nobre coração. D. Antonia domina-o, porque a minha querida menina ainda não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, seja forte. Não permaneça na inacção, desça á liça para onde a chamam, e calque aos pés a suamesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a, a sua energia dissipar-lhe-ha os brios.

—Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei eu.

—Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe explico o mysterio da sua vida. Claudio é um homem timido, acanhado, que precisa que lhe estendam a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe um profundo amor, e viu coroados os seus votos d’um modo completamente inesperado. A minha querida menina, creança que nada comprehende da vida, acceitou das mãos de seus paes um marido, como acceitaria um vestido novo. Nenhum dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade conjugal, que funde n’uma só duas almas, duas vontades, dois pensamentos: elle porque não ousava, a minha querida menina porque não sabia. D. Antonia apossou-se com habilidade d’esse espirito fluctuante, que julgara por um momento que lhe escaparia indo-se prender n’outros laços. Animada por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu triumpho. N’aquelle coração angustiado e hesitante semeou a duvida; transformou em calculo o que era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade com que a minha filha acceitara o casamento com um homem a quem não amava era resultado da corrupção prematura, que despresava os deveres do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, desenvolveu com uma sagacidade infernal os mais subtis indicios. A entrada em scena de Alberto veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu maridoresiste ás suggestões continuas de D. Antonia, mas ha de chegar um instante em que succumba. D. Antonia, combinada tacitamente com as suas boas amigas, quer apressar o desenlace, espera que um momento de fraquesa leve a minha querida menina a dar um passo errado, que se ha de logo aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa não faz um movimento só, que a Maria do Rosario lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios com Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por traz de cada sebe ha um ouvido á escuta. Seu marido está n’uma posição intoleravel; o coração reage-lhe contra a evidencia apparente, que D. Antonia lhe mostra; mas, atormentado por uma duvida incessante, vagueia como o espectro do ciume procurando uma certesa material, que, ainda que o fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo facilmente do que a boa Quiteria me disse; porque a pobre velha tem praticado por sua conta um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria do Rosario está com o ouvido collado á porta do seu quarto, vae ella escutar as palestras de Claudio e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que a impelle a proceder assim, é a amisade que lhe tem.

—E o que me aconselha então? acudi eu baixando a cabeça, que me vergava ao peso d’aquellas revelações.

—O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade e a franquesa. Deixe essa gentalha extraviar-se pelos atalhos, e caminhe desassombradamente pela estradareal, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, e vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos pela alvorada. Entre na intimidade de seu marido, não se envergonhe de tomar a iniciativa, conte-lhe com franqueza a historia de todas essas intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua purissima consciencia, porque assim a tem, não é verdade?

—Oh! sim! tornei eu com exaltação.

Mas depois não sei que pensamento importuno me acudiu ao espirito, e me incendeu as faces em vivo rubor.

—Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me com ternura na fronte. Não vacille nem um instante, não vergue ao peso da cruz.

—Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. Não me assusta o soffrimento.

E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio.Que symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.

Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D. Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam. Ia ser feliz emfim!

Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente.

Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco, e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.

Eram Alberto e Carolina.


Back to IndexNext