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Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto, passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel. Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio; e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o fizesse.

Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo; Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me, juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse, era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que nenhumasenhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores, com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos adulteros e criminosas tentações.

O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo, confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação, se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite na mesa do voltarete.

Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia com a dignidademeticulosade que tanto blasonava. Só emmudecia quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.

Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta» com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria indolentemente resvalar para o abysmo.

Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as perfidas suggestões do coração.

Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella, assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida, entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-mea flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde, nas azas da viração.

Assim passou uma semana.

Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo, um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor, o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das noites rescendem n’essa hora mysteriosa.

Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho daLuiza Miller, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite; não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou Alberto, como já disse.

Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas presentes, disse logo:

—Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa excellencia.

—Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois, cante-nos a romanza.

—Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes? Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae cantar admiravelmente a aria que me pede.

—Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura, de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão disponiveis para acompanhamentos.

—Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto a obedecer ás ordens de vossas excellencias.

Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequenasim, mas dramatica, se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou oAh! perché non posso odiar-tidaSomnambula, ou oMentré contemplodasVesperas Sicilianas, ou oQuesta o quelladoRigoletto.

Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das teclas as notas graves da introducção.

A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento, silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico, melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida, mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava:

Quando le sere, al placidoChiarore d’un ciel stellato

O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos, adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando, n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol. Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando, todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito immenso de amor e de jubilo:

Allor parea l’EmpireoAprir-se all’alma mia

não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos olhos e inundarem-me as faces.

Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Albertoum olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?»

—Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que me surprehendeu, mas que já me passou.

—No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade.

—Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já.

—Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam.

—Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.

Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.

—A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de coração, que não admira que produzisse este effeito.

—Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um instante, e voltarei restabelecida.

—Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de fazer bem.

Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da salvação e do martyrio. Ouentregar-me á paixão fatal, que me domina, fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações, que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente. Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.»

Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe que me facilitasse o sair d’ella.

Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.

Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade, julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume de Carolina parece que fôra excitado pela scena dopiano, de forma que não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou sós nem um instante.

Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para buscar alguma coisa, que lhe esquecera.

Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:

—Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave.

Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto.

Era a Maria do Rosario.

—Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação.

—Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha apagar as luzes.

E entrou effectivamente para a sala.

Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava disposta a confiar-me cegamente ao destino.

Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha, precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha, que tão desinteressadamente se dedicara amim. Só d’ella me podia valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era indispensavel para a nossa ultima entrevista.

Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração, mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe.

—Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos,quando a pilhava a espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem...

—Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da oração principal.

—Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora, que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando, não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle sempre viu a alma do pae...

—Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente.

—Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada.

—Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...

—Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito, e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D. Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos, ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê enganado nas horas.»—«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e fazem-lhe alguma.

Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão,a que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo, relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante, pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico? Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali, saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D. Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos?

Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vidauma longa noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar:

.... Mas é vidaEsse viver que se alimenta em lagrimas?

Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma, senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme, e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem.

Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter, tão pouco proprio para as luctas da existencia.

Por isso respondi á boa mulher:

—Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar, melhor. Estou anciosa pelo descanço,ainda que seja o repouso do tumulo, ou o do opprobrio.

—Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal. E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é, como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos.

Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:

—Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa, nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim?

E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga.

—Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando;pobre pombinha sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria socegada, e todos a haviam de estimar, como merece.

—Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes, no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o martyrio sem causa.

—Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa.

—Qual é?

—Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á meia noite.

—Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas.

—Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D. Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.

—Oh! isso sei eu.

—Então está combinado?

—Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.

—Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.

E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a levantar o fecho, parou, comose lhe houvesse esquecido alguma coisa, e disse:

—Ah! já me não lembrava!...

—O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.

—O João...

—Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do frade.

—Ora, qual João! o que viu a alma do pae...

—Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu?

—No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr. João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.

E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia Quiteria abriu a porta e saíu.


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