SANTA MARGARIDA

SANTA MARGARIDAPRIMEIRA PARTEIEra adoravel no berço pela sua tranquillidade feliz: esse primeiro anno de existencia passou-o a mammar e a dormir, deixando de mammar para dormir, e interrompendo o dormir só para mammar. Nos curtos intervallos d'estas occupações sérias mostrava pouca vivacidade de caracter: para tudo e para todos olhava com tal incomprehensão, que se julgou que fosse doente, ou de somenos intelligencia. Pouco mais do que a planta que vegéta apegada á terra, e que só estima a terra que a nutre; pois o unico apego ou affeição manifestado n'este primeiro periodo de vida, foi pela ama, a Antonia, mulher do caseiro, e desdenhava os afagos da mãe verdadeira, preferindo-lhe os d'aquella que a sustentavade leite. A boa creatura ufanava-se com isto e no intimo julgava-se com melhor parte na maternidade de Margarida do que a propria D. Claudina, que a déra á luz. Este ciume levou-a a dizer ao seu homem, que mais queria aquella menina do que ao seu Zé, cuja creação entregara a uma irmã, para tomar conta da filha dos patrões, como estava assente e ajustado que fosse, mesmo antes dos dois partos. E justificava-se:—Pois se ella é tão minha amiga, que não póde estar um só instantinho sem mim!... Meu rico anjo!... Se accorda e me não vê, logo chora que é grande matação. Lá o meu rapaz era muito mais bravo e até ruim. Dava-me cada dentada!... Havia noites, que eu não pregava olho por causa d'elle.Assim correu o primeiro anno; mas quando se entrou no seguinte e pela volta dos quatorze mezes, começaram para a misera Antonia noites difficeis e tormentosas com o rompimento das presas. Tudo que até ahi fôra doçura de caracter, se transformou em rabugem insupportavel. Quantas dôres não soffreria a pobre creança para chorar continuadamente, de dia e de noite, que nem se comprehendia como tivesse folego para tanto!... A ama aguentava com heroicidade e lagrimas as mordeduras no peito, que chegavam a fazer-lhe sangue. Os medicos prohibiram o desmamme n'esta grave crise, que foi tão violenta e alarmante, como qualquer perigosa molestia. Esperava-se que istopassasse; decerto havia de passar e passou, depois de ter durado tres longos mezes, com a creança entre a vida e a morte. Não lhe faltaram com nenhuma coisa que podesse minorar aquelle soffrimento horrivel: além dos medicos que vinham ambos todos os dias, foram requeridos os mais afamados e milagrosos santos da visinhança; e consultadas as feiticeiras mais sérias, que predisseram com grande tino e sagacidade, sobre cueiros e camisinhas da innocente Margarida. Mas n'esse periodo atroz dos tres mezes tudo parecera infructifero: as convulsões eram aterradoras, a febre continuada, o emagrecimento implacavel! As honras da victoria, por fim, couberam a santa Margarida, padroeira da capella da casa, cujo valimento imploraram, adiantando-lhe uma illuminação de velas de cera em oito dias e oito noites contadas hora a hora. As primeiras reconhecidas melhoras declararam-se exactamente no fim d'este espaço de tempo, e por tal motivo houve depois missa cantada em acção de graças e sermão, em que o padre José Pitança disse coisas maravilhosas ácerca do incontestavel milagre.Passara o perigo e com elle todas as afflicções n'aquella casa. A creança melhorou, entrando n'uma phase de saude regular. Voltaram-lhe asbellas côres do rosto. Acordou d'esta especie de lethargia com vivacidade irrequieta nos olhos e signaes de esperteza em todo o semblante, o que até ahi se lhe não tinha notado. Os paes viviam mais contentes do que nunca, pois que a filha lhes fôra restituida accrescentada em espirito e saude. Antonia é que não seria completamente da mesma opinião, visto que a sua querida menina já não era tão meiga e docil de caracter. Estava uma insupportavel traquina: tinha muito genio, um frenesi permanente lhe dominava a vida infantil, custava muito a aturar. Os nervos ainda se lhe exacerbaram e o querer tornou-se mais irascivel, quando aos sete annos veio uma segunda crise de doença. Aquelle pequenino rosto, uma oval delicada que podia conter-se na exigua mão d'uma fada; aquella bocca pequenina e vermelha como um botão de rosa; os dois olhos negros como duas amoras... tudo se transformara a ponto de parecer um rosto feio, com dentes transitoriamente deseguaes e em posição cahotica, beiços grossos da inflammação, e olhares violentos e maus. A misera Antonia passou n'este periodo amarguras desconhecidas: eram mordedellas, beliscões e pancadas com que a mimoseava esta sua filha de leite. Não socegava, nem de dia nem de noite. O seu dormir d'agora, era tão vario e turbulento, que mesmo durante o somno seguia a encarniçada batalha da vida, com gargalhadas, choros, gritos, gestos e palavras de violencia, como se estivesse acordada. A paciente amaandava constantemente a pé com um frio de lobo, para a cobrir; pois considerava, que, se a pequena lhe apanhasse algum resfriamento, ella mais do que ninguem pagaria o mal com vigilias e canceiras. Durante essas longas horas de silencio, á luz tremula da lamparina que havia no quarto commum, escutando o vento que uivava nas carvalheiras da matta e a chuva que grazinava no telhado e nas vidraças, é que a humilde serva tinha os seus desabafos deante da imagem da Virgem, que estava no oratorio:—Mesmo uma cabrita!... Não é do meu leite... não! Isto... trocaram-m'a por outra. Se esta Nossa Senhora a levasse para a sua companhia...Mas vinham-lhe logo idéas de arrependimento, por causa de taes arrenegos. Creara-a ao seu peito e lembrava-se com amor das consolações, que Margarida lhe dera no primeiro anno de amammentação, quando era meiga como um cachorro recem-nascido, formosa como um anho de lã branca. Não se lhe desvanecera ainda da pelle a sensação deliciosa d'aquelle contacto setinoso; no mamillo sentia ainda o sugar angelico que lhe inebriara de caricias todo o corpo e até, por vezes, a tinha adormecido com deleites (como dizem que produz a cobra manhosa, que magnetisa a teta ubere de que se sustenta ás furtadelas). Então Margarida era uma bolinha de carne, que dava gosto mostrar a toda a gente, e com quem appetecia dormir quando ella se mettia pelo corpo da ama dentro, feitan'um novello, os joelhinhos proximo do queixo, as mãosinhas agarradas na mamma com medo que lhe fugisse. Taes coisas nunca esquecem, deixam, na memoria de todo o corpo, impressão de suavidade e doçura tal, que impossivel é olvidal-as, mesmo quando surjam novos factos de natureza varia a contradizel-as. Foi por causa da primeira crise de dentição, que Margarida mammou muito para além do anno; e ainda para maior mal, Antonia continuara-lhe este vicio bem mais tempo do que se suppunha. Já o peito estava sêcco; a menina, que dormia com ella, não pegava no somno sem que tivesse a chucha na bocca e fazia-o com tanto geito e goso que a ama lhe dizia:—Sua lambona! No dia em que se casar ainda ha de pedir d'isto... Caso é que parece correr-lhe...E corria e ella deixava correr, pois que n'esse sugar improficuo e vicioso, a boa mulher, além de não querer contrariar Margarida, encontrava a lembrança de tantas meiguices passadas, que até lhe vinham lagrimas de contentamento. Se ao despegar a creança a bocca, por cahir em somno, ella reconhecia no bico do peito algumas gottas tiradas do seu sangue, vinham-lhe assomos de ternura, em que perdoava todas as rabinices do dia. Foram n'este viver defezo até aos cinco annos da pequenita, pois Antonia só assim encontrava meio de lhe dominar as crises de genio violento. Quando a via com o diabo no corpo, fechava-secom ella no quarto ás escuras e lá perpetravam o seu crime. Mal pensava a ama, que com tal proceder, concorria para tornar aquelles nervos (já de sua natureza vibrantes e sempre álerta para explodirem como centelhas electricas) exigentes e melindrosos, logo no começo da vida! Pois assim se formou aquelle cerebro excentrico e phantasioso: ora illuminado de alacridade estrondosa e communicativa, ora obscurecido por tristeza bronca e inconvivente; hoje da suavidade doentia da rola amorosa, ámanhã da rudeza do milhafre accommettendo com as garras e o bico. Quando presa de melancolia, procurava escuras sombras nos arvoredos da matta contigua á habitação, secrestando-se assim do convivio de todos; n'outras occasiões, com a mente jubilosa praticava innumeras temeridades—subindo a arvores e a telhados, provocando os viçosos bezerros que pasciam no prado, soltando os sanhudos cães de guarda para accommetterem pacificos transeuntes e os pedintes que vinham ao portal. Porém alegrias ou tristezas eram-lhe de pouca dura: simples fulgurações de nervos, que logo se apagavam após ephemero clarão. Appareciam frequentes e ligavam-se taes estados de sentir contrarios, mostrando, no emtanto, accentuado pendor para tudo que fosse bulha. Traziam tambem essas rebeldias de nervos caracter de contagiosas ou suggestivas para as outras creanças, que a imitavam e seguiam com enthusiasmo e obcecação, collaborando com ella emobras destruidoras contra animaes, flores ou mobilia. Esta pequena imperatriz da maldade impunha auctoritariamente a imitação do seu procedimento tyrannico e contundente. Os paes eram ricos, queriam-lhe muito e consentiam-lhe tudo; por isso encontrava sempre como victimas para esgotar a turbulencia da sua alma um velho creado paciente e tonto, um cão gottoso e indefeso que dormia juncto da lareira, um pobre jumento aposentado, que soltavam para comer nos vallados. Porém a passividade soffredora, que taes entidades lhe offereciam, mais lhe fazia referver o sangue; não se ressentirem das suas provocações tomava-o como de pouca consideração pelo seu poder; o soffrimento alheio causava-lhe regosijos de que dava mostras com animo contente e satisfeito. Quem podia, evitava-lhe o contacto; mas os creados e dependentes faziam-lhe vontades e muitas festas deante dos paes; diziam-lhe palavras de carinho e agradaveis; louvavam-lhe a docilidade de genio e animo dadivoso; porém, não poucas vezes, Margarida lhes commentou os dizeres com esta que tal rabinice:—Tu dizes isso para a mamã te ouvir...E D. Claudina sempre a corrigia assim:—Bem sei que és ruim como as cobras; mas és minha filha...IIOs doze annos de Margarida, coincidindo com o domingo de Paschoela, em que se celebrava o orago da capella da casa, foram festejados com demasiada pompa. Quem primeiro lembrou o ajustado d'essas duas datas foi Antonia, e D. Claudina assignalou a importancia do facto, por serem os doze annos a edade que marca a transicção da inconsciencia infantil, para a responsabilidade de quem já repara na sombra. Talvez ambas tivessem o pensamento reservado de pedir a collaboração da santa, com o fim de conseguirem qualquer mudança favoravel no caracter irrascivel da creança!... Tem-se visto milagres d'estes e maiores; nunca se deve desesperar da possibilidade da intervenção do poder divinonos destinos humanos. Posta a questão de assim conseguirem para a alma de Margarida uma correlação de belleza com a do seu rosto, que era, em certos instantes, d'uma belleza seraphica, não se pouparam os paes a larguesas. Formaram plano grandioso: haveria missa a tres padres, com Gloria e Credo cantados por côro escolhido; haveria sermão de circumstancia pregado por qualquer padre de nomeada, que viesse de Braga, onde os ha bons; haveria fogo preso e musica de vespera; romaria e procissão com anjinhos no dia. Isto pelo que toca ao divino: no que diz respeito ao profano, grande jantar com numerosos convivas, uma especie de baile no domingo á noite, que se realisaria na grande sala de ordinario destinada a estendal e armazem das fructas, batatas e feijão, que se guardavam para todo o anno.Quanto mais se martellava n'isto, mais se estendia e melhorava a primitiva idéa. João da Costa assentou em que, para celebrar condignamente a juncção da festa da padroeira da sua capella com os doze annos de sua filha, devia attrahir muito povo de perto e de longe e por tanto encommendou ao Zé Osti, o mais afamado fogueteiro do Alto Minho (onde se conhecem dos primeiros) um fogo preso chibante! Sabia elle muito bem que sendo conhecido este promenor, não ficariam em casa senão os muribundos; porque até os cegos e paralyticos haviam de concorrer.Não se enganara: era de vêr como dos camposem lavrada, se levantavam alaridos de alegria no dia em que atravessaram as aldeias visinhas o proprio filho do Zé Osti, capitaneando uma duzia de mulheres, que á cabeça transportavam as diversas figuras e o abundante fogo do ar. Tambem João da Costa se não esqueceu de mandal-os esperar pela musica que tinha contractada, e que á frente vinha annunciando o caso com o estrondo dos seus metaes, tocando grandiosa marcha. A galhardia dos trombones, figles e cornetins, lardeados pelos alegres clarinetes e flautas soprados com alma e coração, e tudo esfuziado por um soberbo requinta que fôra musico do tres de Vianna, formavam um tal conjuncto alegre e ostentoso, adeante dos bombos e pratos, que era de deixar bois, charrua e arado, para vir ao caminho gozar, admirar e applaudir! Tudo merecia a imaginação copiosa e deslumbradora do afamado fogueteiro! As formosas moçoilas que abandonavam, por momentos, as sacholas e vinham acompanhadas dos namorados ver as ricas peças, bem o demonstravam exclamando:«Olha a chieira d'aquella macaca de chapeu de flôres! Veremos se terá a mesma, quando lhe rebentarem as bombas por baixo da saia de balão.»«Olha o barbeiro a amolar as navalhas! No sabbado á noite é que as hade amolar depressa!...»«Olha o janota de chapeu alto, que grande charuto leva na bocca! Aquillo é que hade esguichar fogo, quando lh'o accenderem.»«E o painel de Santa Margarida cheio de lagrimasde côres á roda! É obra apilarada! Não vêdes gentes, como se parece com a morgadinha?!...»Do fogo do ar é que se presumiam coisas de espavento, pelo que se vira na passada romaria da Agonia. Então deitaram-se foguetes com cabeças maiores do que as de gente, e houve por momentos receio de que pudessem estremecer e toldar os vinhos que ainda estavam envasilhados, ou aluir qualquer penedo mal seguro! Todos tinham tamanho respeito aos monstros, que o Zé Osti, não encontrando nas localidades homem bastante corajoso para lhes chegar a murraca, nas occasiões se fazia acompanhar por um especial, que tinha o craneo por forma duro e resistente, que não haveria receio de que lhe rebentasse o sangue pelos ouvidos, ou se lhe voltasse a mioleira, se por acaso um dos foguetes não subisse e lhe estalasse aos pés.Era um sugeito atarracado e musculoso, que para exercer o mister tinha de arroxar o craneo com tres lenços em volta. No intuito de prevenir desgraças esses foguetes gigantes, deitavam-se sempre longe do ponto da romaria, e para agora haviam escolhido o conjuncto especial de penedos chamados o Castello, com o fim de que o estrondo não encommodasse.Á chegada da musica e do fogo, a creadagem de João da Costa, logo appareceu no largo da entrada a distribuir copos de vinho, por toda aquella gente que vinha suada. Foi um despejar como nunca se vira: «e vivam os senhores fidalgos, por muitos annos e bons», «e viva a senhora morgadinha que ha de arranjar um namorado de truz!». Em quanto houve mollete nos cestos foi estacinhar e beber; achando-se já fartos, recomeçou a musica com tanta furia, que até parecia que se estava no dia da festa. O fogueteiro para mostrar a sua fazenda descarregou-a ali mesmo no quinteiro, pondo as figuras em correntesa, para que todos as vissem e admirassem. Havia realmente progresso e modernice quer nas attitudes, quer no vestuario, pois tudo era mais humano e natural. Os corpos com outros geitos e menos rigidos; nas roupas, os papeis semelhavam fazendas—de seda pareciam as saias e os corpetes, de casemira as calças e casacas. Até era pena que tão bellas coisas fossem destinadas a rasgões violentos de bombas e a arderem no meio da alacridade do povo! Tudo tinha, porém, o fim de augmentar a magnificencia da festa em honra de Santa Margarida e dos formosos doze annos da sua afilhada. João da Costa desceu com alguns amigos a apreciar de perto tanta maravilha e perfeiçãoe com um gesto orgulhoso de cabeça, indicando um monte especial de foguetes perguntou:—São os taes?—Sim, senhor—respondeu o Osti.—Parecem cabeças de toiro! Subirão?—Como perdises que encastellem, verá! Iriam ao ceu se fosse preciso.Eram as faladas maravilhas, timbre e gloria do famoso artista. Os creados da casa, com as canecas vasias na mão pasmavam deante d'ellas, considerando absortos, que alma damnada teriam dentro, para com o estrondo ao rebentar, metterem medo a quem estivesse mesmo a grande distancia.Como fosse dia de sexta feira a musica retirou-se depois do beberete, para voltar na noite seguinte, que era a do arraial. Antes havia a ultimar os trabalhos de ornamentação da capella e escolher bem o sitio do fogo preso, para que fosse gosado por toda a gente. Porém com o fim de não haver descontinuidade no enthusiasmo pela apregoada festa, chegaram n'este dia pela volta das onze da manhã os tres zabumbas, as seis caixas e a respectiva gaita de folles, que João da Costa encommendara, e entraram na freguezia d'um modo ovante, tocando com verdadeira imponencia, para despertar a alegria nos corações. Atravessando o povoado em passo lento, solemne e compassado enchiam os ares com o estrondo magnifico dos seus instrumentos, e logo se dirigiram á casa de habitação dos festeiros para os saudar. Então ali é que foi o bome o bonito, depois de despejarem mais de um cantaro de vinho sobre uma boa duzia de postas de bacalhau e brôa!... Como ficassem alegres e satisfeitos, quizeram mostrar melhor a sua gratidão e artes; por isso se proposeram a exhibir todos os segredos dos seus instrumentos. Bombos a um lado, caixas ao outro e gaita no centro, começou o grande apparato! Os zabumbas formavam um fundo de quadro de paisagem colossal e montanhosa; os seis tambores pareciam alegres comadres a chasquear e a ralhar; o da gaita de folles pavoneava-se desvanecido com ella nos braços, encostada ao hombro como um tropheu!... Veio a familia e vieram os convidados á janella; o rapazio gaudiáva dando cabriolas. N'um certo momento dois dos caixas, que andavam sempre em rixa, separaram-se dos companheiros para repenicarem com todo o primor, dobrando o rufo com elegancia e mestria. Era um florear de baquetas em tom cadenciado e tremulo sobre a pelle distendida das fallecidas cabras. Mostravam prestesa, pulso rijo e flexibilidade de musculos. Havia em tudo aquillo enthusiasmo e coração de valentes, o que se tirava da energia facial com que se combatiam, procurando reciprocamente cançar-se. No mais vivo da sequestra, um dos de zabumba, que tambem presumia de sua fama, saltou para o meio do terreiro e principiou muitas variações, saltando e pulando com mil requebros. Era homem agil e physionomia viva de olhos bugalhudos. Com abaqueta da mão direita feria o instrumento em todas as posições imaginaveis: por cima da cabeça, com elle horisontal á ilharga, suspenso nas costas, deitando-se no chão com elle sobre o ventre! Os companheiros seguiam-lhe a destresa de athlecta, com sorriso sceptico e molle, tirando dos seus bombos sons mais baços.O gaiteiro vendo applaudidos por todos os assistentes aquellas galhardias, não lhe consentiu o animo ficar em obscuridade. Era homem baixo e grosso, physionomia ossea, mas esperta. Filho d'outro de Compostella, herdara de seu pae o instrumento e a prenda de o tocar com distincção. Afastando-se dos zabumbas e caixas triviaes, principiou a rabear entre os tres que já se exhibiam com apparato e luxo de ademanes. Quiz tambem chamar sobre si a attenção dos festeiros. Com o ventre do instrumento impando, requebrava-se em passo cadenciado e dolente de dança gallega: tirava; ora sons plangentes e maguados como gemidos tristes; ora um psalmear monotono e roufenho, que ondulava no ar como o vôo pesado d'um ganço; ora guinchos agudos como estylêtes ou espinhos que entrassem nos ouvidos. Saracoteava-se com o instrumento ao collo, mechendo os dedos n'uma especie de canudo de flauta e soprando-lhe no ventre por um bico de cegonha.Os bombos a falar grosso, as caixas a rufar certo, o gaiteiro a tocar variado, tudo n'uma paisagem primaveril de folhas tenras, um bom e carinhososol de primavera a aquecer, era deveras divertido e excentrico! Uma atmosphera empregnada dos aromas de mil plantas, tornava esta sexta feira de Paschoela risonha e feliz, o que bem se reconhecia dos semblantes de toda essa gente, pois tinha alma para o sentir.IIIPor todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e incondiccional,d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo, andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre os braços perguntou-lhe:—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma coisa?—Não sei... Falta!...—O que?...—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa, homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria, disse ao filho do Zé Osti:—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se qualquer coisa, entendes?...—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos ares, emquanto o diabo esfrega um olho...Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar n'estas coisas.O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, coberturado modesto cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro susteve-a, dizendo:—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:—Ó filha! Nem te approximes sequer!...—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e risonhos fitos no Osti.—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.—Então havia de ser bonito...—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:—Toma-a, que és o responsavel.O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria, nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os companheiros de brinquedos e alise quedou com a vista absorta na cal branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera, que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços. Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:—Pois hei de ir lá vêr o que é!...Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar! Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada, e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio, e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber! Descobriria o segredo d'essesdeslumbramentos, que recamavam o negro manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira, a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz, variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no espaço comoespiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita, e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis; alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta gente?! Mal se podia acreditar,pois toda a apparencia era de objectos vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande, propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica, maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no meio de lavaredas, quevomitavam raios, esfusiando de todos os lados!... Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz! talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a primeira nota d'um canto de gloria!...IVO pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celereao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:—Jesus!... A menina a arder!...O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço...desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margaridapoderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava.Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.

Era adoravel no berço pela sua tranquillidade feliz: esse primeiro anno de existencia passou-o a mammar e a dormir, deixando de mammar para dormir, e interrompendo o dormir só para mammar. Nos curtos intervallos d'estas occupações sérias mostrava pouca vivacidade de caracter: para tudo e para todos olhava com tal incomprehensão, que se julgou que fosse doente, ou de somenos intelligencia. Pouco mais do que a planta que vegéta apegada á terra, e que só estima a terra que a nutre; pois o unico apego ou affeição manifestado n'este primeiro periodo de vida, foi pela ama, a Antonia, mulher do caseiro, e desdenhava os afagos da mãe verdadeira, preferindo-lhe os d'aquella que a sustentavade leite. A boa creatura ufanava-se com isto e no intimo julgava-se com melhor parte na maternidade de Margarida do que a propria D. Claudina, que a déra á luz. Este ciume levou-a a dizer ao seu homem, que mais queria aquella menina do que ao seu Zé, cuja creação entregara a uma irmã, para tomar conta da filha dos patrões, como estava assente e ajustado que fosse, mesmo antes dos dois partos. E justificava-se:

—Pois se ella é tão minha amiga, que não póde estar um só instantinho sem mim!... Meu rico anjo!... Se accorda e me não vê, logo chora que é grande matação. Lá o meu rapaz era muito mais bravo e até ruim. Dava-me cada dentada!... Havia noites, que eu não pregava olho por causa d'elle.

Assim correu o primeiro anno; mas quando se entrou no seguinte e pela volta dos quatorze mezes, começaram para a misera Antonia noites difficeis e tormentosas com o rompimento das presas. Tudo que até ahi fôra doçura de caracter, se transformou em rabugem insupportavel. Quantas dôres não soffreria a pobre creança para chorar continuadamente, de dia e de noite, que nem se comprehendia como tivesse folego para tanto!... A ama aguentava com heroicidade e lagrimas as mordeduras no peito, que chegavam a fazer-lhe sangue. Os medicos prohibiram o desmamme n'esta grave crise, que foi tão violenta e alarmante, como qualquer perigosa molestia. Esperava-se que istopassasse; decerto havia de passar e passou, depois de ter durado tres longos mezes, com a creança entre a vida e a morte. Não lhe faltaram com nenhuma coisa que podesse minorar aquelle soffrimento horrivel: além dos medicos que vinham ambos todos os dias, foram requeridos os mais afamados e milagrosos santos da visinhança; e consultadas as feiticeiras mais sérias, que predisseram com grande tino e sagacidade, sobre cueiros e camisinhas da innocente Margarida. Mas n'esse periodo atroz dos tres mezes tudo parecera infructifero: as convulsões eram aterradoras, a febre continuada, o emagrecimento implacavel! As honras da victoria, por fim, couberam a santa Margarida, padroeira da capella da casa, cujo valimento imploraram, adiantando-lhe uma illuminação de velas de cera em oito dias e oito noites contadas hora a hora. As primeiras reconhecidas melhoras declararam-se exactamente no fim d'este espaço de tempo, e por tal motivo houve depois missa cantada em acção de graças e sermão, em que o padre José Pitança disse coisas maravilhosas ácerca do incontestavel milagre.

Passara o perigo e com elle todas as afflicções n'aquella casa. A creança melhorou, entrando n'uma phase de saude regular. Voltaram-lhe asbellas côres do rosto. Acordou d'esta especie de lethargia com vivacidade irrequieta nos olhos e signaes de esperteza em todo o semblante, o que até ahi se lhe não tinha notado. Os paes viviam mais contentes do que nunca, pois que a filha lhes fôra restituida accrescentada em espirito e saude. Antonia é que não seria completamente da mesma opinião, visto que a sua querida menina já não era tão meiga e docil de caracter. Estava uma insupportavel traquina: tinha muito genio, um frenesi permanente lhe dominava a vida infantil, custava muito a aturar. Os nervos ainda se lhe exacerbaram e o querer tornou-se mais irascivel, quando aos sete annos veio uma segunda crise de doença. Aquelle pequenino rosto, uma oval delicada que podia conter-se na exigua mão d'uma fada; aquella bocca pequenina e vermelha como um botão de rosa; os dois olhos negros como duas amoras... tudo se transformara a ponto de parecer um rosto feio, com dentes transitoriamente deseguaes e em posição cahotica, beiços grossos da inflammação, e olhares violentos e maus. A misera Antonia passou n'este periodo amarguras desconhecidas: eram mordedellas, beliscões e pancadas com que a mimoseava esta sua filha de leite. Não socegava, nem de dia nem de noite. O seu dormir d'agora, era tão vario e turbulento, que mesmo durante o somno seguia a encarniçada batalha da vida, com gargalhadas, choros, gritos, gestos e palavras de violencia, como se estivesse acordada. A paciente amaandava constantemente a pé com um frio de lobo, para a cobrir; pois considerava, que, se a pequena lhe apanhasse algum resfriamento, ella mais do que ninguem pagaria o mal com vigilias e canceiras. Durante essas longas horas de silencio, á luz tremula da lamparina que havia no quarto commum, escutando o vento que uivava nas carvalheiras da matta e a chuva que grazinava no telhado e nas vidraças, é que a humilde serva tinha os seus desabafos deante da imagem da Virgem, que estava no oratorio:

—Mesmo uma cabrita!... Não é do meu leite... não! Isto... trocaram-m'a por outra. Se esta Nossa Senhora a levasse para a sua companhia...

Mas vinham-lhe logo idéas de arrependimento, por causa de taes arrenegos. Creara-a ao seu peito e lembrava-se com amor das consolações, que Margarida lhe dera no primeiro anno de amammentação, quando era meiga como um cachorro recem-nascido, formosa como um anho de lã branca. Não se lhe desvanecera ainda da pelle a sensação deliciosa d'aquelle contacto setinoso; no mamillo sentia ainda o sugar angelico que lhe inebriara de caricias todo o corpo e até, por vezes, a tinha adormecido com deleites (como dizem que produz a cobra manhosa, que magnetisa a teta ubere de que se sustenta ás furtadelas). Então Margarida era uma bolinha de carne, que dava gosto mostrar a toda a gente, e com quem appetecia dormir quando ella se mettia pelo corpo da ama dentro, feitan'um novello, os joelhinhos proximo do queixo, as mãosinhas agarradas na mamma com medo que lhe fugisse. Taes coisas nunca esquecem, deixam, na memoria de todo o corpo, impressão de suavidade e doçura tal, que impossivel é olvidal-as, mesmo quando surjam novos factos de natureza varia a contradizel-as. Foi por causa da primeira crise de dentição, que Margarida mammou muito para além do anno; e ainda para maior mal, Antonia continuara-lhe este vicio bem mais tempo do que se suppunha. Já o peito estava sêcco; a menina, que dormia com ella, não pegava no somno sem que tivesse a chucha na bocca e fazia-o com tanto geito e goso que a ama lhe dizia:

—Sua lambona! No dia em que se casar ainda ha de pedir d'isto... Caso é que parece correr-lhe...

E corria e ella deixava correr, pois que n'esse sugar improficuo e vicioso, a boa mulher, além de não querer contrariar Margarida, encontrava a lembrança de tantas meiguices passadas, que até lhe vinham lagrimas de contentamento. Se ao despegar a creança a bocca, por cahir em somno, ella reconhecia no bico do peito algumas gottas tiradas do seu sangue, vinham-lhe assomos de ternura, em que perdoava todas as rabinices do dia. Foram n'este viver defezo até aos cinco annos da pequenita, pois Antonia só assim encontrava meio de lhe dominar as crises de genio violento. Quando a via com o diabo no corpo, fechava-secom ella no quarto ás escuras e lá perpetravam o seu crime. Mal pensava a ama, que com tal proceder, concorria para tornar aquelles nervos (já de sua natureza vibrantes e sempre álerta para explodirem como centelhas electricas) exigentes e melindrosos, logo no começo da vida! Pois assim se formou aquelle cerebro excentrico e phantasioso: ora illuminado de alacridade estrondosa e communicativa, ora obscurecido por tristeza bronca e inconvivente; hoje da suavidade doentia da rola amorosa, ámanhã da rudeza do milhafre accommettendo com as garras e o bico. Quando presa de melancolia, procurava escuras sombras nos arvoredos da matta contigua á habitação, secrestando-se assim do convivio de todos; n'outras occasiões, com a mente jubilosa praticava innumeras temeridades—subindo a arvores e a telhados, provocando os viçosos bezerros que pasciam no prado, soltando os sanhudos cães de guarda para accommetterem pacificos transeuntes e os pedintes que vinham ao portal. Porém alegrias ou tristezas eram-lhe de pouca dura: simples fulgurações de nervos, que logo se apagavam após ephemero clarão. Appareciam frequentes e ligavam-se taes estados de sentir contrarios, mostrando, no emtanto, accentuado pendor para tudo que fosse bulha. Traziam tambem essas rebeldias de nervos caracter de contagiosas ou suggestivas para as outras creanças, que a imitavam e seguiam com enthusiasmo e obcecação, collaborando com ella emobras destruidoras contra animaes, flores ou mobilia. Esta pequena imperatriz da maldade impunha auctoritariamente a imitação do seu procedimento tyrannico e contundente. Os paes eram ricos, queriam-lhe muito e consentiam-lhe tudo; por isso encontrava sempre como victimas para esgotar a turbulencia da sua alma um velho creado paciente e tonto, um cão gottoso e indefeso que dormia juncto da lareira, um pobre jumento aposentado, que soltavam para comer nos vallados. Porém a passividade soffredora, que taes entidades lhe offereciam, mais lhe fazia referver o sangue; não se ressentirem das suas provocações tomava-o como de pouca consideração pelo seu poder; o soffrimento alheio causava-lhe regosijos de que dava mostras com animo contente e satisfeito. Quem podia, evitava-lhe o contacto; mas os creados e dependentes faziam-lhe vontades e muitas festas deante dos paes; diziam-lhe palavras de carinho e agradaveis; louvavam-lhe a docilidade de genio e animo dadivoso; porém, não poucas vezes, Margarida lhes commentou os dizeres com esta que tal rabinice:

—Tu dizes isso para a mamã te ouvir...

E D. Claudina sempre a corrigia assim:

—Bem sei que és ruim como as cobras; mas és minha filha...

Os doze annos de Margarida, coincidindo com o domingo de Paschoela, em que se celebrava o orago da capella da casa, foram festejados com demasiada pompa. Quem primeiro lembrou o ajustado d'essas duas datas foi Antonia, e D. Claudina assignalou a importancia do facto, por serem os doze annos a edade que marca a transicção da inconsciencia infantil, para a responsabilidade de quem já repara na sombra. Talvez ambas tivessem o pensamento reservado de pedir a collaboração da santa, com o fim de conseguirem qualquer mudança favoravel no caracter irrascivel da creança!... Tem-se visto milagres d'estes e maiores; nunca se deve desesperar da possibilidade da intervenção do poder divinonos destinos humanos. Posta a questão de assim conseguirem para a alma de Margarida uma correlação de belleza com a do seu rosto, que era, em certos instantes, d'uma belleza seraphica, não se pouparam os paes a larguesas. Formaram plano grandioso: haveria missa a tres padres, com Gloria e Credo cantados por côro escolhido; haveria sermão de circumstancia pregado por qualquer padre de nomeada, que viesse de Braga, onde os ha bons; haveria fogo preso e musica de vespera; romaria e procissão com anjinhos no dia. Isto pelo que toca ao divino: no que diz respeito ao profano, grande jantar com numerosos convivas, uma especie de baile no domingo á noite, que se realisaria na grande sala de ordinario destinada a estendal e armazem das fructas, batatas e feijão, que se guardavam para todo o anno.

Quanto mais se martellava n'isto, mais se estendia e melhorava a primitiva idéa. João da Costa assentou em que, para celebrar condignamente a juncção da festa da padroeira da sua capella com os doze annos de sua filha, devia attrahir muito povo de perto e de longe e por tanto encommendou ao Zé Osti, o mais afamado fogueteiro do Alto Minho (onde se conhecem dos primeiros) um fogo preso chibante! Sabia elle muito bem que sendo conhecido este promenor, não ficariam em casa senão os muribundos; porque até os cegos e paralyticos haviam de concorrer.

Não se enganara: era de vêr como dos camposem lavrada, se levantavam alaridos de alegria no dia em que atravessaram as aldeias visinhas o proprio filho do Zé Osti, capitaneando uma duzia de mulheres, que á cabeça transportavam as diversas figuras e o abundante fogo do ar. Tambem João da Costa se não esqueceu de mandal-os esperar pela musica que tinha contractada, e que á frente vinha annunciando o caso com o estrondo dos seus metaes, tocando grandiosa marcha. A galhardia dos trombones, figles e cornetins, lardeados pelos alegres clarinetes e flautas soprados com alma e coração, e tudo esfuziado por um soberbo requinta que fôra musico do tres de Vianna, formavam um tal conjuncto alegre e ostentoso, adeante dos bombos e pratos, que era de deixar bois, charrua e arado, para vir ao caminho gozar, admirar e applaudir! Tudo merecia a imaginação copiosa e deslumbradora do afamado fogueteiro! As formosas moçoilas que abandonavam, por momentos, as sacholas e vinham acompanhadas dos namorados ver as ricas peças, bem o demonstravam exclamando:

«Olha a chieira d'aquella macaca de chapeu de flôres! Veremos se terá a mesma, quando lhe rebentarem as bombas por baixo da saia de balão.»

«Olha o barbeiro a amolar as navalhas! No sabbado á noite é que as hade amolar depressa!...»

«Olha o janota de chapeu alto, que grande charuto leva na bocca! Aquillo é que hade esguichar fogo, quando lh'o accenderem.»

«E o painel de Santa Margarida cheio de lagrimasde côres á roda! É obra apilarada! Não vêdes gentes, como se parece com a morgadinha?!...»

Do fogo do ar é que se presumiam coisas de espavento, pelo que se vira na passada romaria da Agonia. Então deitaram-se foguetes com cabeças maiores do que as de gente, e houve por momentos receio de que pudessem estremecer e toldar os vinhos que ainda estavam envasilhados, ou aluir qualquer penedo mal seguro! Todos tinham tamanho respeito aos monstros, que o Zé Osti, não encontrando nas localidades homem bastante corajoso para lhes chegar a murraca, nas occasiões se fazia acompanhar por um especial, que tinha o craneo por forma duro e resistente, que não haveria receio de que lhe rebentasse o sangue pelos ouvidos, ou se lhe voltasse a mioleira, se por acaso um dos foguetes não subisse e lhe estalasse aos pés.

Era um sugeito atarracado e musculoso, que para exercer o mister tinha de arroxar o craneo com tres lenços em volta. No intuito de prevenir desgraças esses foguetes gigantes, deitavam-se sempre longe do ponto da romaria, e para agora haviam escolhido o conjuncto especial de penedos chamados o Castello, com o fim de que o estrondo não encommodasse.

Á chegada da musica e do fogo, a creadagem de João da Costa, logo appareceu no largo da entrada a distribuir copos de vinho, por toda aquella gente que vinha suada. Foi um despejar como nunca se vira: «e vivam os senhores fidalgos, por muitos annos e bons», «e viva a senhora morgadinha que ha de arranjar um namorado de truz!». Em quanto houve mollete nos cestos foi estacinhar e beber; achando-se já fartos, recomeçou a musica com tanta furia, que até parecia que se estava no dia da festa. O fogueteiro para mostrar a sua fazenda descarregou-a ali mesmo no quinteiro, pondo as figuras em correntesa, para que todos as vissem e admirassem. Havia realmente progresso e modernice quer nas attitudes, quer no vestuario, pois tudo era mais humano e natural. Os corpos com outros geitos e menos rigidos; nas roupas, os papeis semelhavam fazendas—de seda pareciam as saias e os corpetes, de casemira as calças e casacas. Até era pena que tão bellas coisas fossem destinadas a rasgões violentos de bombas e a arderem no meio da alacridade do povo! Tudo tinha, porém, o fim de augmentar a magnificencia da festa em honra de Santa Margarida e dos formosos doze annos da sua afilhada. João da Costa desceu com alguns amigos a apreciar de perto tanta maravilha e perfeiçãoe com um gesto orgulhoso de cabeça, indicando um monte especial de foguetes perguntou:

—São os taes?

—Sim, senhor—respondeu o Osti.

—Parecem cabeças de toiro! Subirão?

—Como perdises que encastellem, verá! Iriam ao ceu se fosse preciso.

Eram as faladas maravilhas, timbre e gloria do famoso artista. Os creados da casa, com as canecas vasias na mão pasmavam deante d'ellas, considerando absortos, que alma damnada teriam dentro, para com o estrondo ao rebentar, metterem medo a quem estivesse mesmo a grande distancia.

Como fosse dia de sexta feira a musica retirou-se depois do beberete, para voltar na noite seguinte, que era a do arraial. Antes havia a ultimar os trabalhos de ornamentação da capella e escolher bem o sitio do fogo preso, para que fosse gosado por toda a gente. Porém com o fim de não haver descontinuidade no enthusiasmo pela apregoada festa, chegaram n'este dia pela volta das onze da manhã os tres zabumbas, as seis caixas e a respectiva gaita de folles, que João da Costa encommendara, e entraram na freguezia d'um modo ovante, tocando com verdadeira imponencia, para despertar a alegria nos corações. Atravessando o povoado em passo lento, solemne e compassado enchiam os ares com o estrondo magnifico dos seus instrumentos, e logo se dirigiram á casa de habitação dos festeiros para os saudar. Então ali é que foi o bome o bonito, depois de despejarem mais de um cantaro de vinho sobre uma boa duzia de postas de bacalhau e brôa!... Como ficassem alegres e satisfeitos, quizeram mostrar melhor a sua gratidão e artes; por isso se proposeram a exhibir todos os segredos dos seus instrumentos. Bombos a um lado, caixas ao outro e gaita no centro, começou o grande apparato! Os zabumbas formavam um fundo de quadro de paisagem colossal e montanhosa; os seis tambores pareciam alegres comadres a chasquear e a ralhar; o da gaita de folles pavoneava-se desvanecido com ella nos braços, encostada ao hombro como um tropheu!... Veio a familia e vieram os convidados á janella; o rapazio gaudiáva dando cabriolas. N'um certo momento dois dos caixas, que andavam sempre em rixa, separaram-se dos companheiros para repenicarem com todo o primor, dobrando o rufo com elegancia e mestria. Era um florear de baquetas em tom cadenciado e tremulo sobre a pelle distendida das fallecidas cabras. Mostravam prestesa, pulso rijo e flexibilidade de musculos. Havia em tudo aquillo enthusiasmo e coração de valentes, o que se tirava da energia facial com que se combatiam, procurando reciprocamente cançar-se. No mais vivo da sequestra, um dos de zabumba, que tambem presumia de sua fama, saltou para o meio do terreiro e principiou muitas variações, saltando e pulando com mil requebros. Era homem agil e physionomia viva de olhos bugalhudos. Com abaqueta da mão direita feria o instrumento em todas as posições imaginaveis: por cima da cabeça, com elle horisontal á ilharga, suspenso nas costas, deitando-se no chão com elle sobre o ventre! Os companheiros seguiam-lhe a destresa de athlecta, com sorriso sceptico e molle, tirando dos seus bombos sons mais baços.

O gaiteiro vendo applaudidos por todos os assistentes aquellas galhardias, não lhe consentiu o animo ficar em obscuridade. Era homem baixo e grosso, physionomia ossea, mas esperta. Filho d'outro de Compostella, herdara de seu pae o instrumento e a prenda de o tocar com distincção. Afastando-se dos zabumbas e caixas triviaes, principiou a rabear entre os tres que já se exhibiam com apparato e luxo de ademanes. Quiz tambem chamar sobre si a attenção dos festeiros. Com o ventre do instrumento impando, requebrava-se em passo cadenciado e dolente de dança gallega: tirava; ora sons plangentes e maguados como gemidos tristes; ora um psalmear monotono e roufenho, que ondulava no ar como o vôo pesado d'um ganço; ora guinchos agudos como estylêtes ou espinhos que entrassem nos ouvidos. Saracoteava-se com o instrumento ao collo, mechendo os dedos n'uma especie de canudo de flauta e soprando-lhe no ventre por um bico de cegonha.

Os bombos a falar grosso, as caixas a rufar certo, o gaiteiro a tocar variado, tudo n'uma paisagem primaveril de folhas tenras, um bom e carinhososol de primavera a aquecer, era deveras divertido e excentrico! Uma atmosphera empregnada dos aromas de mil plantas, tornava esta sexta feira de Paschoela risonha e feliz, o que bem se reconhecia dos semblantes de toda essa gente, pois tinha alma para o sentir.

Por todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e incondiccional,d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo, andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre os braços perguntou-lhe:

—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma coisa?

—Não sei... Falta!...

—O que?...

—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa, homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria, disse ao filho do Zé Osti:

—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se qualquer coisa, entendes?...

—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos ares, emquanto o diabo esfrega um olho...

Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:

—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar n'estas coisas.

O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:

—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...

As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, coberturado modesto cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro susteve-a, dizendo:

—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...

João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:

—Ó filha! Nem te approximes sequer!...

—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e risonhos fitos no Osti.

—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.

—Então havia de ser bonito...

—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.

Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:

—Toma-a, que és o responsavel.

O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria, nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os companheiros de brinquedos e alise quedou com a vista absorta na cal branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera, que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços. Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:

—Pois hei de ir lá vêr o que é!...

Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar! Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada, e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio, e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber! Descobriria o segredo d'essesdeslumbramentos, que recamavam o negro manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira, a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.

Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz, variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no espaço comoespiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita, e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis; alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta gente?! Mal se podia acreditar,pois toda a apparencia era de objectos vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande, propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica, maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no meio de lavaredas, quevomitavam raios, esfusiando de todos os lados!... Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz! talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a primeira nota d'um canto de gloria!...

O pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celereao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:

—Jesus!... A menina a arder!...

O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço...desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margaridapoderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava.Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.


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