SEGUNDA PARTE

SEGUNDA PARTEIPassaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter: antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.O padecer raro e profundo, poderá transformara sensibilidade e o pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo; chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida. Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia. Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam o convivio pelo exemplo que dava de umexistir sereno e venturoso no meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto, principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se, quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava, nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa, a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebrasdensas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes renascia no peito a doce esperança e logo quesentiam a doentinha acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:—Sentes-te melhor, filha?—Sinto, minha mãe.—E já me vês?—Vejo.—Com a tua vista?—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava sorrindo.Era consolador ouvir-lhe isto, quando o sol raiava no ceu! Que affecto e que amor taes palavras continham! Porém amargava-lhes no final o desengano, ainda que suavisado pela ternura da voz. A dolorosa realidade permanecia. Era triste ver Margarida, com os dois olhos baços e leitosos como duas enormes perolas a moverem-se lentamente na busca de claridade e sem deixarem passar a vista, que estava por tras da nevoa! Compensava-os (bem insufficientemente) o reconhecerem que na larga cicatriz da ascosa chaga, havia uma vida nova e uma luz nova de vida superior. Quando a doentinha falava era de ver que as suas palavras semelhavam lampejos de luar n'um abysmo de trevas. Habito ou idealisação, certo era que esse rosto, sem feitio de rosto, tinha alguma coisa de raro e sublimemente espiritual. D'esta fórma suave, lenta e dôce, subtil como se fôra um sopro vital, em todos ia entrando a convicção de que a mente de Margarida, após a cegueira se sublimara, illuminando-se de divinos clarões, que a predestinavam paraaltissimos fins. Denunciava-o os seus conceitos serem de sentimento e bondade infinitas, e isto maravilhava pela precocidade. N'aquella voz percebia-se musica de suavidade angelica, cheia de ternuras e modolações aprasiveis. Encantava estar junto d'ella, escutal-a, conhecer como ella recebia a inspiração divina, que vinha como pomba esvoaçar-lhe sobre a cabeça. Não balbuciava uma queixa, nem uma saudade do mundo de que se conhecia separada para sempre. Ao contrario: confessava-se mais feliz e ditosa n'esta densa noite, do que o era na luz do tempo em que irrequieta, nervosa, exigente rebentava em lagrimas de cólera, á menor contrariedade. Agora nunca chorava!... Não saberão os cegos chorar? As lagrimas são a belleza dos olhos, quando como diamantes deslisam pelas faces dos que morrem d'amor; porém, as lagrimas tambem são signaes d'infortunio, se, como pingos quentes de chumbo escaldam a pelle de infelizes atormentados. Margarida não tinha nem edade para amar, nem experiencia para os grandes infortunios; por isso não precisava de lagrimas. Aquella mente, lago sereno em calma ventura, não tinha a encrespal-a ventos que só entram por ambiciosas e prescrutadoras pupillas.Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que a physionomia de Margarida,outr'ora tão harmonica das combinações que dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém, pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que ainda vos hade fazer milagres?»Era realmente o que todos viam, com verdadeirojubilo e devocção. Já na mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios, juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha. Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande Ventura. Assim se consolavam os corações dos amarguradospaes, que n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava, necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir, domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio, perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho, voltada para o officiante.Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio. Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e vidente, pois aosantigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias. Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle tivessem medrado.IIOs paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova e signal de que deviam submetter-se ao quererdo Altissimo. E por ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra junctas?Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeramentão a necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima, nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham? Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação que a mortecarnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade. Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e delicado corpo.Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro, atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz, amando-lhe o explendor; que viessevisitar a paisagem que tencionava gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando. Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar nas hervas!»Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do dos santos nos extasiscontemplativos da magestade divina. Esses globos de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos, como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de Preste?»[1]Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavampiamente n'esse divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes. Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu. Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores, traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido, que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhosdos medicos tinham auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e exigente, para que a não separassem das suas queridas flores. Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares, em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e juncavam-lhe comflores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes. E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena, fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...[1]Amores, amores...IIIPorém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta; no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e desesperos, desalentos e esperanças vivas!...Os carinhos maternos e a dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano, a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido, improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos passeiosaconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial. Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de Deus!...Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as florescampestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos ecomo branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediucom palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na testa.—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...Lisboa, Abril de 1899.

Passaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter: antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.

O padecer raro e profundo, poderá transformara sensibilidade e o pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo; chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida. Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia. Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam o convivio pelo exemplo que dava de umexistir sereno e venturoso no meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto, principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se, quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava, nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa, a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebrasdensas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes renascia no peito a doce esperança e logo quesentiam a doentinha acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:

—Sentes-te melhor, filha?

—Sinto, minha mãe.

—E já me vês?

—Vejo.

—Com a tua vista?

—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava sorrindo.

Era consolador ouvir-lhe isto, quando o sol raiava no ceu! Que affecto e que amor taes palavras continham! Porém amargava-lhes no final o desengano, ainda que suavisado pela ternura da voz. A dolorosa realidade permanecia. Era triste ver Margarida, com os dois olhos baços e leitosos como duas enormes perolas a moverem-se lentamente na busca de claridade e sem deixarem passar a vista, que estava por tras da nevoa! Compensava-os (bem insufficientemente) o reconhecerem que na larga cicatriz da ascosa chaga, havia uma vida nova e uma luz nova de vida superior. Quando a doentinha falava era de ver que as suas palavras semelhavam lampejos de luar n'um abysmo de trevas. Habito ou idealisação, certo era que esse rosto, sem feitio de rosto, tinha alguma coisa de raro e sublimemente espiritual. D'esta fórma suave, lenta e dôce, subtil como se fôra um sopro vital, em todos ia entrando a convicção de que a mente de Margarida, após a cegueira se sublimara, illuminando-se de divinos clarões, que a predestinavam paraaltissimos fins. Denunciava-o os seus conceitos serem de sentimento e bondade infinitas, e isto maravilhava pela precocidade. N'aquella voz percebia-se musica de suavidade angelica, cheia de ternuras e modolações aprasiveis. Encantava estar junto d'ella, escutal-a, conhecer como ella recebia a inspiração divina, que vinha como pomba esvoaçar-lhe sobre a cabeça. Não balbuciava uma queixa, nem uma saudade do mundo de que se conhecia separada para sempre. Ao contrario: confessava-se mais feliz e ditosa n'esta densa noite, do que o era na luz do tempo em que irrequieta, nervosa, exigente rebentava em lagrimas de cólera, á menor contrariedade. Agora nunca chorava!... Não saberão os cegos chorar? As lagrimas são a belleza dos olhos, quando como diamantes deslisam pelas faces dos que morrem d'amor; porém, as lagrimas tambem são signaes d'infortunio, se, como pingos quentes de chumbo escaldam a pelle de infelizes atormentados. Margarida não tinha nem edade para amar, nem experiencia para os grandes infortunios; por isso não precisava de lagrimas. Aquella mente, lago sereno em calma ventura, não tinha a encrespal-a ventos que só entram por ambiciosas e prescrutadoras pupillas.

Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que a physionomia de Margarida,outr'ora tão harmonica das combinações que dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém, pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que ainda vos hade fazer milagres?»

Era realmente o que todos viam, com verdadeirojubilo e devocção. Já na mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios, juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha. Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande Ventura. Assim se consolavam os corações dos amarguradospaes, que n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.

Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava, necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir, domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio, perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho, voltada para o officiante.

Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio. Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e vidente, pois aosantigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias. Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle tivessem medrado.

Os paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova e signal de que deviam submetter-se ao quererdo Altissimo. E por ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra junctas?

Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeramentão a necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima, nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham? Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação que a mortecarnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade. Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e delicado corpo.

Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro, atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz, amando-lhe o explendor; que viessevisitar a paisagem que tencionava gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando. Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar nas hervas!»

Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do dos santos nos extasiscontemplativos da magestade divina. Esses globos de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos, como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de Preste?»[1]

Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavampiamente n'esse divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes. Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu. Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores, traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido, que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhosdos medicos tinham auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e exigente, para que a não separassem das suas queridas flores. Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.

Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares, em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e juncavam-lhe comflores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes. E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena, fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...

[1]Amores, amores...

Porém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta; no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e desesperos, desalentos e esperanças vivas!...Os carinhos maternos e a dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano, a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido, improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos passeiosaconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial. Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de Deus!...

Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as florescampestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos ecomo branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.

Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediucom palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:

—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...

Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.

—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na testa.

—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...

Lisboa, Abril de 1899.


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