DUAS PALAVRAS

DUAS PALAVRASA primeira edição d'este romance saiu de uma typographia do Rio de Janeiro. Parece que houve proposito em desdourar os prelos brasileiros! Poderá parecer tambem que se intentou desdourar o auctor; mas semelhante suspeita não vingaria, attendendo a que não é coisa verosimil alguem escrever assim. O que mais depressa poderia crer-se seria que o escriptor mais fleumatico morresse de fulminante desgosto, vendo a sua obra tão damnificada, e suja de todas as nodoas, para lavagem das quaes se crearam as quatro partes constitutivas da grammatica.Imprime-se o livro, como o auctor escreveu o manuscripto, e chama-sesegunda edição, porque o titulo e substancia da obra está no livro publicado no Brasil.Porto, janeiro de 1865.AGULHA EM PALHEIROIEm 1803, o sapateiro de Manuel Maria Barbosa du Bocage era Francisco Lourenço Gomes, estabelecido na calçada do Sacramento, em Lisboa.Francisco Lourenço era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas, por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a gerencia da loja, grandemente afreguezada.Os poetas notaveis do tempo calçavam todos de casa de Francisco Lourenço; um só, porém, o maioral de todos, o repentista Bocage, calçava gratuitamente.Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal entrajado de casacas, pantalonas e chapéos: mas, no tocante a botas, dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saía á rua com ellas sem muito lustro de fina graxa.Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distincção das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do botequim Nicola: Francisco Lourenço, o sapateiro dos casquilhos d'aquelle tempo, era amante de versos. Principiára saboreando as trovas chôchas de José Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto poetrasto, em quanto a admiração do sapateiro lhe foi prodiga de botas; quando, porém, o moço ouviu Bocage improvisar na festividade de Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor doAlmocreve das Pêtas, que nunca mais encontrou graça no seu Mecenas de bezerro e sola.O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitação de dois remontes que lhe devia. O poeta, não vezado a taes galhardias do vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade doclaro auditorio seu, retribuiu a generosidade do moço com prosa chan, mas muito mais sincera e cordeal que os versos.Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhãs buscar o calçado do poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e, apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para um novo dia dos seus desvairados prazeres de praças e tavernas.A repetição d'estes brindes abriu, no animo generosoe popular do poeta, as portas á confiança timida do artista. Francisco Lourenço teve a honra de almoçar com Bocage nobotequim das Parras, e d'aqui sairam juntos a jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e costumes, bebeu á tripa fôrra, e poetou, consoante o auditorio lhe beliscou a musa escandecida.O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixão, e pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada. Esta confidencia rebentou do coração do moço alli pelas alturas de S. Sebastião da Pedreira. Bocage, sem mais averiguações, entrou n'uma tenda, pediu papel, disse a Francisco Lourenço que escrevesse, e improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel almaço. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cáem nas mãos bem ageitados.Francisco Lourenço, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do collete uma peça. Que bizarria de animo! Uma peça seria hoje o primeiro dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade de um volume!Bem empregados seis mil e quatrocentos réis! Aprima de Francisco, ao ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada emMarilia, ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar um coração varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder do primo, que o beijava em transporte de jubilo.Bocage via a seus pés o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus versos devia a immensa felicidade, que lhe não cabia no peito. Esta situação, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um soneto divino caiu no coração do reconhecido moço, que foi logo d'ahi leva-lo ao coração de Marilia.Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e esperançada em bom patrimonio—que seu pae, tio materno de Francisco Lourenço, passava por abastado. Além d'isso Maria Luciana era galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de devoção, e oAlmocreve das Pêtas, e oAnatomico jocoso, obras do engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mãos nas ilhargas, era todo elle então uma risada, que não ha conta-lo.Depois, porém, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura, quando a mãe lhe tirava das mãos as rimas de Bocage, e a obrigava a lêr oRetiro espirituale aNovena de Santa Ursula, zangava-se tanto lá no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua mãe tivessem senso-commum!Não desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, além da acreditada loja na calçada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente limpa, com quem elle se relacionava. Porém, estas boas predisposições eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moço algumas vezes almoçar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a saude e amarellasse, o colchoeiro, que não tinha outra filha, deixou-a casar, dotando-a com seis mil cruzados.No fausto dia do casamanto, Francisco Lourenço foi convidar Bocage para jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se não morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade. As portas da eternidade, porém, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo tantos os inspirados e desditosos á competencia de desgraça com elle!Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage.Francisco Lourenço chorou-o, como se ás lavaredasd'aquelle incendio d'alma tambem elle tivesse aquecido os embriões do seu talento. O artista não era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque adorava Bocage. O que elle tinha era a paixão do bello, com a entranhada magua de não ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa desgraça. Bem sabia elle que Luiz de Camões morrera sem lençol em que amortalhar-se, e Antonio José da Silva n'uma fogueira, e Maximiano Torres nos presidios da Trafaria, e Garção na cadeia, e Quita na indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento rojavam aos pés dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para não emparelharem na invejavel miseria com os Camões e os Bocages.Quando acontecia Francisco Lourenço dar largas a sua candida alma, lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes, que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear á custa do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante, grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, ás chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem á costumada dissertação. Muitos o ouviam discorrer tão de sizo em tal materia, que saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade do moço. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastião da Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o coração de sua mulher de todo em todo se rendera.Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala, impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia assim em linguagem de anjos:«Elmano! oh!vate! A abelha em teu moimento,Sempre o seu mel componha!Manná dos céos, e balsamos da ArabiaAlli distillem; louros enverdeçam,Heras, nevados lirios!Basto rosal, com mil botões o abrace!Mangerona, tomilho e a flôr vermelhaQue annuncia em queixumesDe Ajax a dôr, n'um ai tinto em seu seio!Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo TejoE as indicas NereasCom lagrimas a campa lhe humedeçam!»............................................Francisco Lourenço recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e como thema os tomava para maldizer a nação e o governo que deixavam morrer de fome de pão e da patria o auctor de tão doridos queixumes, o exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo nome ninguem sabe, e cujos netos a gente não conhece, quando os topa ahi por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avós, umas risadas alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua pasagem sobre o globo, que é d'elles e das moscas.O pae de Francisco Lourenço afez-se a ouvir ofilho fallar de poetas, e achava-lhe razão. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educação litteraria que tivera, e sentia sinceramente não ter aproveitado as tendencias de Francisco. Dizia elle:—Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As obras d'elle andam impressas por esse mundo á custa da academia; mas isso não remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como tinha este exemplo na familia, resisti á tua e á minha inclinação. Achei que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com bom estipendio, e vida socegada. Já agora, Francisco, o remedio é conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, lê, que eu não te levo isso a mal; mas bom será que olhes sempre para o essencial, que é a loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de dar-te mau pago. Trago cá as minhas desconfianças de que muitas pessoas veem aqui fallar comtigo em poesias, e vão lá para fóra zombar de ti. Eu, que t'o digo, é por que alguem m'o disse. Lê os teus livros no teu quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como estás casado e pódes ter filhos, farás o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que eu, graças a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja, e cuidar n'outro modo de vida.Desde este dia Francisco Lourenço comediu-se nas palestras litterarias. Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Camões, Bocage ou Filinto, o ajuizado Francisco lançava mão da craveira, e dizia:—Já não conheço de versos; agora o que sei é medir pontos de pés.—Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste.—Pés de toda a casta, replicou Francisco, pés mesmo dos que são a quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria.O farçola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem cabida, mas não cabalmente averiguada.O certo é que este freguez deixou de o ser de Francisco Lourenço; e outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava a ser pasto de seus ocios.Que selvagens tempos aquelles!Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras: começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta,um charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas. Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria, portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares accidentes da reformação social.Isto assim é que é bom.IIPosto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite, Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa. Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes, quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no Cartaxo, onde ia formando deposito de livros,amigos da velhice, como elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida, empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia conhecendo.A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do arrumamento das coisas domesticas.Maria sentava-se a costurar, nas noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou espirito. ACantata de Dido, a pagina mais maviosa entre as mais inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia, vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha.Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava.—Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem—disse o festivo pae a sua mulher.—Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma de meu filho uma boa porção da minha essencia.Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume lhe rescendia em tudo. O seu permanenteprivar com poetas, ou com a natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros arrobamentos de pae.Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho, afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar.No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e Violantes doCéo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de Horacio e Ovidio.Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem á cara, como despique de inveja dos progressosd'elle, o seu nascimento humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos, conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos, desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais que outro qualquer—sem podermos dar razão do porque—se presta á zombaria nas facecias dos chocarreiros.Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.—Porque?!—perguntou Francisco Lourenço.—Porque...—tartamudeou o filho—se meu pae quer formar-me... não me parece...—Diz, homem!—acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante transtornado—não te parece o que?—Que seja bom ter loja de...—De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavrasapateiro! Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu pae?Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a mais eloquente das confirmações.—Está bom—disse Francisco—descança que se ha de remediar tudo o melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos.Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a consternada mulher não sabia como explicar nem consolar.Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou Fernando e disse-lhe:—Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!... Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar? Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha, para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando.A resposta foi um calado despeito, e uma visagemde desdem, que Maria viu com os olhos humidos.Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma. Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:—Irás frequentar outra aula.—Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo desabrimento deshumilde.—Emquanto o pae estiver n'este modo de vida, hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em Lisboa, como em Coimbra.—Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde Fernando estudava, e disse-lhe:—Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como teu pae e teu avô.Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a intervallos:—Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!... Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle; tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do mundo, que m'o ha de perder!Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do artista.—Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei de recommendar a Fernando que não diga emCoimbra quem é seu pae, ou consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes, Maria? ...Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu maior engrandecimento?Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae, se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.—E porque não hei de eu ir?!—respondeu placidamente Fernando, com grande assombro da mãe.—Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero sê-lo quando m'o chamarem.—E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?—tornou a mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho.—Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio que me humilhem na loja.Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle, devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo.N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disseao pae que lhe talhasse o seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:—Vá para cima!Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes. Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o ofidalguinho, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas, o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado. Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas ás amarguras dos paes.Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu quarto, Fernando disse com muita brandura:—Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio: se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo.—Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!—atalhou o pae.—Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso.—Tens dezesete annos, Fernando!—disse o pae—É tarde para recomeçares nova carreira.—Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae.—E queres ser sapateiro?—Serei...Como estesereifoi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra! Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz de extrahir d'aquelleserei! Da accentuação que Francisco Lorenço deu á palavrasapateiro, tambem podia formar-se outro volume psycologico, physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas variantes desde a sinceridadedo santo, até á ironia do demonio de Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e homem!IIIAquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho. Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso ás chufas dos condiscipulos.O que a mulher quer, Deus quer: é o titulo de um livro francez, que póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do filho, tão de longe pensada e afagada; oraMaria Luciana, em termos brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho á rasão e consciencia de verdadeiros brios.Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e concluir lá os estudos preparatorios.Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem ir entregue a si mesmo.Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se apregoar filho d'um sapateiro.Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-seo batalhão academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz, arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire, e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a demora da primeira batalha.Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa, cogitando em mandar soccorros a Fernando.Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias de Bonaparte,que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo, quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo—energumeno panegyrista das forcas—bastaria a fazer d'elle um acerrimomalhado.Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de gloria, nenhuma consideraçãode obediencia o retinha em seu posto. Lá, os camaradas, denominavam-n'o opequeno diabo, termos que se conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos novos.Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil, Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito.Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides da intelligencia!Sublime engano!Os seus mesmos camaradas, quer invejosos dacondecoração, quer da intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem! Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe dizia:ne sutor ultra crepidam; outractent fabrilia fabri, que tudo quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.»Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus condiscipulos, o academico respondia:—Tratam-me bem.—Os tempos mudaram—accrescentava o pae.—Mudaram; os homens é que não—dizia Fernando; e de salto, aventava assumpto que désse córte na conversação penosa.Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-acom ser premiado no ultimo anno, como em todos tinha sido.Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes.Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o rosto de tristeza inconsolavel.Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente.Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos. Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os, pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funestoresultado em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer com lagrimas.Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu com o assentimento do marido.Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso, ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço, que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas, economias com que comprava livros de recreio.Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente. Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e contemplação que as obras primas de Miguel Angelo.Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo, que tem as chaves do céo, não sabemosse teve fome: as chronicas contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes, que umas sopas diarias aos principes proscriptos.Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano, espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais compassiva e generosa.Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'ondese lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas, e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei noNacionaldo Porto. Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das liberdades patrias!Agora é de mais!

A primeira edição d'este romance saiu de uma typographia do Rio de Janeiro. Parece que houve proposito em desdourar os prelos brasileiros! Poderá parecer tambem que se intentou desdourar o auctor; mas semelhante suspeita não vingaria, attendendo a que não é coisa verosimil alguem escrever assim. O que mais depressa poderia crer-se seria que o escriptor mais fleumatico morresse de fulminante desgosto, vendo a sua obra tão damnificada, e suja de todas as nodoas, para lavagem das quaes se crearam as quatro partes constitutivas da grammatica.

Imprime-se o livro, como o auctor escreveu o manuscripto, e chama-sesegunda edição, porque o titulo e substancia da obra está no livro publicado no Brasil.

Porto, janeiro de 1865.

Em 1803, o sapateiro de Manuel Maria Barbosa du Bocage era Francisco Lourenço Gomes, estabelecido na calçada do Sacramento, em Lisboa.

Francisco Lourenço era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas, por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a gerencia da loja, grandemente afreguezada.

Os poetas notaveis do tempo calçavam todos de casa de Francisco Lourenço; um só, porém, o maioral de todos, o repentista Bocage, calçava gratuitamente.

Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal entrajado de casacas, pantalonas e chapéos: mas, no tocante a botas, dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saía á rua com ellas sem muito lustro de fina graxa.

Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distincção das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do botequim Nicola: Francisco Lourenço, o sapateiro dos casquilhos d'aquelle tempo, era amante de versos. Principiára saboreando as trovas chôchas de José Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto poetrasto, em quanto a admiração do sapateiro lhe foi prodiga de botas; quando, porém, o moço ouviu Bocage improvisar na festividade de Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor doAlmocreve das Pêtas, que nunca mais encontrou graça no seu Mecenas de bezerro e sola.

O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitação de dois remontes que lhe devia. O poeta, não vezado a taes galhardias do vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade doclaro auditorio seu, retribuiu a generosidade do moço com prosa chan, mas muito mais sincera e cordeal que os versos.

Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhãs buscar o calçado do poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e, apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para um novo dia dos seus desvairados prazeres de praças e tavernas.

A repetição d'estes brindes abriu, no animo generosoe popular do poeta, as portas á confiança timida do artista. Francisco Lourenço teve a honra de almoçar com Bocage nobotequim das Parras, e d'aqui sairam juntos a jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e costumes, bebeu á tripa fôrra, e poetou, consoante o auditorio lhe beliscou a musa escandecida.

O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixão, e pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada. Esta confidencia rebentou do coração do moço alli pelas alturas de S. Sebastião da Pedreira. Bocage, sem mais averiguações, entrou n'uma tenda, pediu papel, disse a Francisco Lourenço que escrevesse, e improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel almaço. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cáem nas mãos bem ageitados.

Francisco Lourenço, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do collete uma peça. Que bizarria de animo! Uma peça seria hoje o primeiro dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade de um volume!

Bem empregados seis mil e quatrocentos réis! Aprima de Francisco, ao ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada emMarilia, ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar um coração varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder do primo, que o beijava em transporte de jubilo.

Bocage via a seus pés o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus versos devia a immensa felicidade, que lhe não cabia no peito. Esta situação, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um soneto divino caiu no coração do reconhecido moço, que foi logo d'ahi leva-lo ao coração de Marilia.

Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e esperançada em bom patrimonio—que seu pae, tio materno de Francisco Lourenço, passava por abastado. Além d'isso Maria Luciana era galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de devoção, e oAlmocreve das Pêtas, e oAnatomico jocoso, obras do engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mãos nas ilhargas, era todo elle então uma risada, que não ha conta-lo.

Depois, porém, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura, quando a mãe lhe tirava das mãos as rimas de Bocage, e a obrigava a lêr oRetiro espirituale aNovena de Santa Ursula, zangava-se tanto lá no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua mãe tivessem senso-commum!

Não desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, além da acreditada loja na calçada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente limpa, com quem elle se relacionava. Porém, estas boas predisposições eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moço algumas vezes almoçar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a saude e amarellasse, o colchoeiro, que não tinha outra filha, deixou-a casar, dotando-a com seis mil cruzados.

No fausto dia do casamanto, Francisco Lourenço foi convidar Bocage para jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se não morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade. As portas da eternidade, porém, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo tantos os inspirados e desditosos á competencia de desgraça com elle!

Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage.

Francisco Lourenço chorou-o, como se ás lavaredasd'aquelle incendio d'alma tambem elle tivesse aquecido os embriões do seu talento. O artista não era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque adorava Bocage. O que elle tinha era a paixão do bello, com a entranhada magua de não ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa desgraça. Bem sabia elle que Luiz de Camões morrera sem lençol em que amortalhar-se, e Antonio José da Silva n'uma fogueira, e Maximiano Torres nos presidios da Trafaria, e Garção na cadeia, e Quita na indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento rojavam aos pés dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para não emparelharem na invejavel miseria com os Camões e os Bocages.

Quando acontecia Francisco Lourenço dar largas a sua candida alma, lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes, que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear á custa do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante, grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, ás chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem á costumada dissertação. Muitos o ouviam discorrer tão de sizo em tal materia, que saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade do moço. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastião da Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o coração de sua mulher de todo em todo se rendera.Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala, impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia assim em linguagem de anjos:

«Elmano! oh!vate! A abelha em teu moimento,Sempre o seu mel componha!Manná dos céos, e balsamos da ArabiaAlli distillem; louros enverdeçam,Heras, nevados lirios!Basto rosal, com mil botões o abrace!Mangerona, tomilho e a flôr vermelhaQue annuncia em queixumesDe Ajax a dôr, n'um ai tinto em seu seio!Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo TejoE as indicas NereasCom lagrimas a campa lhe humedeçam!»............................................

Francisco Lourenço recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e como thema os tomava para maldizer a nação e o governo que deixavam morrer de fome de pão e da patria o auctor de tão doridos queixumes, o exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo nome ninguem sabe, e cujos netos a gente não conhece, quando os topa ahi por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avós, umas risadas alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua pasagem sobre o globo, que é d'elles e das moscas.

O pae de Francisco Lourenço afez-se a ouvir ofilho fallar de poetas, e achava-lhe razão. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educação litteraria que tivera, e sentia sinceramente não ter aproveitado as tendencias de Francisco. Dizia elle:

—Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As obras d'elle andam impressas por esse mundo á custa da academia; mas isso não remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como tinha este exemplo na familia, resisti á tua e á minha inclinação. Achei que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com bom estipendio, e vida socegada. Já agora, Francisco, o remedio é conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, lê, que eu não te levo isso a mal; mas bom será que olhes sempre para o essencial, que é a loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de dar-te mau pago. Trago cá as minhas desconfianças de que muitas pessoas veem aqui fallar comtigo em poesias, e vão lá para fóra zombar de ti. Eu, que t'o digo, é por que alguem m'o disse. Lê os teus livros no teu quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como estás casado e pódes ter filhos, farás o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que eu, graças a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja, e cuidar n'outro modo de vida.

Desde este dia Francisco Lourenço comediu-se nas palestras litterarias. Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Camões, Bocage ou Filinto, o ajuizado Francisco lançava mão da craveira, e dizia:

—Já não conheço de versos; agora o que sei é medir pontos de pés.

—Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste.

—Pés de toda a casta, replicou Francisco, pés mesmo dos que são a quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria.

O farçola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem cabida, mas não cabalmente averiguada.

O certo é que este freguez deixou de o ser de Francisco Lourenço; e outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava a ser pasto de seus ocios.

Que selvagens tempos aquelles!

Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras: começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta,um charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas. Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria, portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares accidentes da reformação social.

Isto assim é que é bom.

Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite, Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa. Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes, quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no Cartaxo, onde ia formando deposito de livros,amigos da velhice, como elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida, empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia conhecendo.

A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do arrumamento das coisas domesticas.Maria sentava-se a costurar, nas noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou espirito. ACantata de Dido, a pagina mais maviosa entre as mais inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia, vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha.

Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava.

—Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem—disse o festivo pae a sua mulher.—Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma de meu filho uma boa porção da minha essencia.

Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume lhe rescendia em tudo. O seu permanenteprivar com poetas, ou com a natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros arrobamentos de pae.

Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho, afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar.

No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e Violantes doCéo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.

Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.

N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de Horacio e Ovidio.

Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.

O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem á cara, como despique de inveja dos progressosd'elle, o seu nascimento humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos, conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.

É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos, desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais que outro qualquer—sem podermos dar razão do porque—se presta á zombaria nas facecias dos chocarreiros.

Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.

—Porque?!—perguntou Francisco Lourenço.

—Porque...—tartamudeou o filho—se meu pae quer formar-me... não me parece...

—Diz, homem!—acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante transtornado—não te parece o que?

—Que seja bom ter loja de...

—De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavrasapateiro! Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu pae?

Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a mais eloquente das confirmações.

—Está bom—disse Francisco—descança que se ha de remediar tudo o melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos.

Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a consternada mulher não sabia como explicar nem consolar.

Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou Fernando e disse-lhe:

—Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!... Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar? Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha, para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...

Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando.

A resposta foi um calado despeito, e uma visagemde desdem, que Maria viu com os olhos humidos.

Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma. Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:

—Irás frequentar outra aula.

—Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo desabrimento deshumilde.—Emquanto o pae estiver n'este modo de vida, hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em Lisboa, como em Coimbra.

—Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.

A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde Fernando estudava, e disse-lhe:

—Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como teu pae e teu avô.

Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a intervallos:

—Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!... Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle; tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do mundo, que m'o ha de perder!

Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do artista.

—Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei de recommendar a Fernando que não diga emCoimbra quem é seu pae, ou consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes, Maria? ...

Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu maior engrandecimento?

Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae, se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.

—E porque não hei de eu ir?!—respondeu placidamente Fernando, com grande assombro da mãe.—Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero sê-lo quando m'o chamarem.

—E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?—tornou a mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho.

—Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio que me humilhem na loja.

Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle, devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo.

N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disseao pae que lhe talhasse o seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:

—Vá para cima!

Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes. Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o ofidalguinho, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas, o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.

A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.

Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado. Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas ás amarguras dos paes.

Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu quarto, Fernando disse com muita brandura:

—Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio: se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo.

—Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!—atalhou o pae.

—Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso.

—Tens dezesete annos, Fernando!—disse o pae—É tarde para recomeçares nova carreira.

—Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae.

—E queres ser sapateiro?

—Serei...

Como estesereifoi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra! Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz de extrahir d'aquelleserei! Da accentuação que Francisco Lorenço deu á palavrasapateiro, tambem podia formar-se outro volume psycologico, physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas variantes desde a sinceridadedo santo, até á ironia do demonio de Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e homem!

Aquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho. Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso ás chufas dos condiscipulos.

O que a mulher quer, Deus quer: é o titulo de um livro francez, que póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do filho, tão de longe pensada e afagada; oraMaria Luciana, em termos brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho á rasão e consciencia de verdadeiros brios.

Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.

Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e concluir lá os estudos preparatorios.

Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.

Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem ir entregue a si mesmo.

Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se apregoar filho d'um sapateiro.

Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-seo batalhão academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz, arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire, e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a demora da primeira batalha.

Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa, cogitando em mandar soccorros a Fernando.

Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias de Bonaparte,que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo, quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo—energumeno panegyrista das forcas—bastaria a fazer d'elle um acerrimomalhado.

Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.

Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de gloria, nenhuma consideraçãode obediencia o retinha em seu posto. Lá, os camaradas, denominavam-n'o opequeno diabo, termos que se conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos novos.

Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.

Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil, Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito.

Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides da intelligencia!

Sublime engano!

Os seus mesmos camaradas, quer invejosos dacondecoração, quer da intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.

Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem! Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe dizia:ne sutor ultra crepidam; outractent fabrilia fabri, que tudo quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.»

Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus condiscipulos, o academico respondia:

—Tratam-me bem.

—Os tempos mudaram—accrescentava o pae.

—Mudaram; os homens é que não—dizia Fernando; e de salto, aventava assumpto que désse córte na conversação penosa.

Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-acom ser premiado no ultimo anno, como em todos tinha sido.

Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.

O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes.

Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o rosto de tristeza inconsolavel.

Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente.

Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos. Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os, pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funestoresultado em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer com lagrimas.

Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu com o assentimento do marido.

Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso, ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço, que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas, economias com que comprava livros de recreio.

Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente. Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e contemplação que as obras primas de Miguel Angelo.

Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo, que tem as chaves do céo, não sabemosse teve fome: as chronicas contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes, que umas sopas diarias aos principes proscriptos.

Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano, espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais compassiva e generosa.

Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'ondese lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas, e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.

E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei noNacionaldo Porto. Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das liberdades patrias!

Agora é de mais!


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