IV

IVTransferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações livres!—dizia entre si Fernando Gomes.—Eu sei cá o que são livres! nem homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e vedando o accesso de seus gabinetes aosoperarios suados, calejados e sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos redimidos por elles!»Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio. Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que se anojava em Paris!Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no rumo da patria.Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos. Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem mulheres... (cemsenhoras, emendareieu, se vossa excellencia permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes santa, do bello ideal!?Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem: eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel. Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do edificio, que é museu de si mesmo.Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes apontamentosque me dirigem, encontro o capitulo intitulado:primeira e ultima paixão de fernando gomes.Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é tragica a paixão!Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos pelo theor seguinte:Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que, no dizer do accordão,iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante regente pela sua feliz chegada a estes reinos.Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza,dizia-se que Bartholo possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o que eu não averiguei por me parecer desnecessario.O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas alfaias e baixella. Ovassallode D. Miguel de Bragança pompeava faustos de rei, em quanto seusenhor, o tão chorado principe dos seus amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas... (Cá em Portugal já se não diz varas: émetros: camisa de quinze metros e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania não se ha de perder o anexim que é expressivo).Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem, e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro relanço das suasNoites de Italia: «Entende-se facilmente que homens e mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, enão pelos viajantes—que o magistrado não lia viajantes—deu comsigo na formosa Toscana.Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres, em nascimentos, artes e sciencias.Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre emPoggi Bonzi, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas, aVal d'Arno, áPoggia Imperiale, e a quantos pontos convergia a nobreza toscana.Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi, Strozzino.A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma, na gloria do seu Creador.A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos,quando, em Lisboa, reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a mãe não fôra mais linda que ellas.O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella. Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem, porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos, andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o andassemprocurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo.N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles Jordão foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu rei, enfardelou á pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito cabedal em moeda que tinha herdado de avós, prescreveu ordens aos seus mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado no Tejo, com as duas meninas palidas de susto.Horas depois, saía barra fóra, quando já em Lisboa repicavam os sinos á fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse tempo estalavam apedrejadas todas as vidraças do palacio de Bartholo de Briteiros, ás Amoreiras, e a populaça, a brava e briosa gentalha, apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista.VEstava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar, dizia elle.O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suasMemorias: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assimas chaves de ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o pela conquista d'aquella cidade.Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza.Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica, derrengada e aleijadinha.Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz, das Pyramides e de Friedland.Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort, a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A educação acanhara-o; e os dissabores,suggeridos por causa de seu nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a do sceptro hereditario.Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e perguntou ao hospede se conheciaFernando Gomes. O fidalgo franziu a testa, e disse:—Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. OsGomesem Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido obscurecido, ou se perdeu.—Póde ser que o seu patricio achasse oGomesperdido!...—disse o principe com ar de riso.—O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a minha estima agrade ao seu patricio.Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido á sala em que já estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e tão perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra de Camões, que quantos diplomatas nos andam lá por fóra engrandecendo.Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e lá entre si disse: «Não conheço: isto é homem ordinario.»—Tem aqui um patricio—disse o principe a Fernando.—É emigrado, e pae das duas meninas, que o senhor além vê, que parecem madonas. Ditosas revoluções as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros é um pae ditoso, que se revê nos seus dois cherubins, dignos de Florença mais que de Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo é que vivam em Italia, que é o céo das artes e das maravilhas. Não conhecia o senhor de Briteiros?—Não, senhor—respondeu Fernando.—De onde é o cavalheiro?—perguntou Bartholo.—Sou de Lisboa.—Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua familia.—Vossa excellencia não conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de um homem do povo.—De onde saem os reis do genio—ajuntou Jeronymo Bonaparte.Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabeça, e disse, passados minutos:—Veio de Portugal ha muito tempo?—Ha vinte e tres mezes.—Como estão as cousas por lá? Quem governa a canalha?—Governa-se ella, presumo eu—disse Fernando.O principe sorriu e murmurou:—A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em Portugal...—Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte onde as nacionalidades se dissolvem—accrescentou Fernando.—Diz muito bem!—acudiu Briteiros—Portugal está em dissolução. O senhor é necessariamente realista!—Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa não foi minha.—Mas enganou-se...—atalhou Bartholo com má cara—A canalha é que reina.—Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e arminhos—ajuntou Fernando Gomes.—E isso é bom?—redarguiu o fidalgo.—É bom como lição, como experiencia...—E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal...—Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo—disse Fernando.—Ahi está o patriotismo dosmalhados—exclamou Briteiros.—Basta de politica—interveio o principe de Monfort, a quem destoara a violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alçada.Fernando ficou pensativo a um canto do salão, meditando no appellidoBriteiros. Sabia de cór os nomes dos signatarios do accordão que enforcou os academicos. Não lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais façanhudo dos algozes vivia em Florença, com grande luxo, e segura posse de seus bens na patria. Odiou-o; não poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse:—Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o portuguez... Mas tome tento em não argumentar com o pae. O senhor de Briteiros é contumaz inimigo do povo e da liberdade. Cá entre os meus hospedes francezes é conhecido porLuiz XI. O homem é um apologista das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade. Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeiçoada á maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita inepcia: gente emigrada não póde desprezar estes perrexis do riso, por isso o senhor de Briteiros é muito procurado. Agora vamos ver que duas flores saíram d'aquelle bravio matagal.Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina.—Aqui está o seu patricio, minhas senhoras—disse elle, indicando a Fernando uma cadeira—conversem; espaireçam saudades da sua terra.Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço penosamente enleiado.—Está ha muito em Florença?—perguntou Eugenia.—Ha dois mezes, minha senhora.—Lisboa é mais linda, não é?—Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo—disse Fernando.—Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e, com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo. Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as thermas de Antonio, os...Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que, no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta? Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas donosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as flôres que ellas tinham?—Tem muitas saudades de Portugal?—disse Fernando.—Sempre...—respondeu Paulina.—E quem priva seu pae de voltar á patria?—Elle não quer!—disse Eugenia—Tanto lhe temos pedido! Responde nos sempre que só volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando irá o sr. D. Miguel, sabe?—Não sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel não pensa em lá voltar...—Não?!—atalhou Paulina—E o papá a dizer que sim!... Então nunca lá tornaremos!—Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a companhia do sr. D. Miguel, e supponho até que elle póde viver tranquillo sem a protecção do principe. As pessoas, que serviram o partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurança em Portugal; d'isto deve estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia.—Diga-lh'o, sim?—tornou Eugenia.—Não me atrevo a aconselhal-o; porém, se o sr. Bartholo de Briteiros quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal só persegue os seus proprios amigos.As meninas não entenderam a doble intenção d'estas ultimas palavras. Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras, compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso,como se as estivesse palestrando com philosophos ou politicos.A mim, comtudo, o que mais me espanta é a facilidade com que Fernando Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis ás pessoas com quem falava! Não o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia, como ella é no Oriente, e como os hebreus a saberiam lêr no cantico dos canticos! Pois não tinha elle olhos, á mingua de coração! Acaso o temperamento lymphatico póde tanto que as imagens objectivas se não espelhem na retina, e o coração não tome conta dos filtros que os olhos lhe côam como arames abrazeados de electricidade?!Eu sei cá!...Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e eruditos de differentes paizes.O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe:—Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi: as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras, não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta Grecia?—disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.—São formosas como portuguezas—respondeu Fernando Gomes—mas em Londres seriam mediocrementegraciosas. Os typos gregos eram menos correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou, exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias, Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da infancia lhe aquilatasse o merecimento.—Parece-me porém—interrompeu o principe de Monfort—que as vantagens são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para se amarem sem inveja de gregas e romanas...—Certamente.—E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanhaficasse sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado, se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!...Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco depois, do baile.No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios; flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de Paulina Briteiros.VITinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa, e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundofestas. O apartar-mede meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria, pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te estremecem...»Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém, n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta linha:Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença. Isto vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como Horacio a respeito de tudo mais:nihil mirari. Maiores desatinos que o de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro, que dispara no mesmo.Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade. Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no dizer do author deAndré Chénier, «é como a Circe que maneata os forasteiros de invisiveis liames, elhes dá continuada festa de musica, paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o esquecimento do seu paiz!...»Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra. O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontecetantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos, chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais longe o menos preço dos parvos.Paulina via todos os dias Fernando napiazza di Dome, sobre a qual se abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando pressurosa:—Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!Assentavam os cotovellos no peitoril do balcãode marmore, e alli se quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez! Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um santo anachoreta.Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no palacio Orlandini.—Que terá elle que nos não procura?!—dizia Paulina a sua irmã—Mas repara que não dá preferencia a ninguem!—É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?—dizia Eugenia.—Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã:—Chamemo-lo, sim? não parecerá mal?—Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio?Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.—Senhor Leopoldo Roberto—disse ella—conhece aquelle portuguez que está falando com a princeza Carlota?—Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença—respondeu o palido mancebo.—Achei-o um desgraçado.—Desgraçado?!—atalhou Paulina.—Que infortunios são os d'elle?—Os extremos: os do amor sem esperança—respondeu o pintor.Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?»Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos, aventurou-se o artista a perguntar:—Pois não conheciam o seu patricio?—Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort—disse Eugenia—mas dos seus infortunios não sabiamos.—É de Florença a senhora que elle ama?—perguntou Paulina.—É de Portugal.—E elle está em Italia?!—accrescentou Eugenia—porque não vae então para Portugal?—Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia—disse Paulina.—A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.—Eu!...—Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que o salve.O pintor ia retirar: Paulina exclamou:—Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora portugueza que Fernando ama?!—Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?—replicou Leopoldo—Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!As meninas não proferiram um monosyllabo.Leopoldo, o ascetico amante de Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza. Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o pintor disse a Fernando:—Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito, arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz «matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu fazer-te, amigo?Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos do medo. O pintor não o seguiu, dizendo:—Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha ainda está imperfeita.Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão, peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chamaHoras de Trabalho. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historiados amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do pintor.Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçadorimpossivel, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial. Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado pela bala?Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas florestas que perpetuaste em teus quadros!E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do bello!Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero immorredoiro!E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um anjo!VIIQueremos agora vêr como procede o portuguez.A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem.Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se comona Italia, e entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia, leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e peculiarmente naPhysiologia do amor. Eu gosto de indicar as fontes limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis.Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se.Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.—Sou o portuguez Fernando—disse o moço.—As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os cuidados das senhoras de Briteiros.Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.—Patricio e amigo—disse este a Fernando—não fuja da gente. Amigos, amigos, politica á parte.—Eu não fujo de vossa excellencia—disse o moço côr de rosa, quanto rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.—Pois o senhor sabe—tornou Bartholo—que está um portuguez em Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!—Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar tamanha honra.—Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez que honrou sua patria!—Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa, ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam em muito amor ás filhas.Fernando respondeu:—Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.—São a pintura da mãe—atalhou Bartholo.—Minha mulher foi a dama mais linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe avultava de bronze á phantasia.Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou:—E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços de dezoito annos, que lance de si as suasjoias, a luz dos seus olhos, o ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados, que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser! As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las, quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para, assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo. Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambasellas sabem que me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres, Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!... Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo que estou falando com um soldadomindeleiro...—Não, senhor—atalhou Fernando—não posso gloriar-me da façanha do Mindello...—Façanha!... Ora essa! que façanha?!—Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...—Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea... Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello, que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:—A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!...—Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.—Creia o que eu lhe digo, que tenho o segredoda rebelião desde mil oitocentos e dez. O senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar moscas...Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás galhofas algum tanto colericas do fidalgo.Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:—Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos. Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe, que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros de ser examinada com o microscopio!Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo Bonaparte, o irmão predilecto do imperador.O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra. Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem, d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém, com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas. Eugenia chamou-o, e disse-lhe:—O papá affligiu-o com as suas rabugices?—Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de Briteiros.—Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem—disse Paulina.—Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim?—Com o maior prazer...—balbuciou Fernando.—Demora-se em Florença? tornou Paulina.—Não sei dizer a vossa excellencia...—Depende o demorar-se da vontade de sua familia?—perguntou Eugenia.—Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.

Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações livres!—dizia entre si Fernando Gomes.—Eu sei cá o que são livres! nem homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e vedando o accesso de seus gabinetes aosoperarios suados, calejados e sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos redimidos por elles!»

Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.

Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio. Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que se anojava em Paris!

Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no rumo da patria.

Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos. Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.

E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem mulheres... (cemsenhoras, emendareieu, se vossa excellencia permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes santa, do bello ideal!?

Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem: eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.

Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel. Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do edificio, que é museu de si mesmo.

Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes apontamentosque me dirigem, encontro o capitulo intitulado:primeira e ultima paixão de fernando gomes.

Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é tragica a paixão!

Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos pelo theor seguinte:

Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que, no dizer do accordão,iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante regente pela sua feliz chegada a estes reinos.

Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza,dizia-se que Bartholo possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o que eu não averiguei por me parecer desnecessario.

O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas alfaias e baixella. Ovassallode D. Miguel de Bragança pompeava faustos de rei, em quanto seusenhor, o tão chorado principe dos seus amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas... (Cá em Portugal já se não diz varas: émetros: camisa de quinze metros e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania não se ha de perder o anexim que é expressivo).

Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem, e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro relanço das suasNoites de Italia: «Entende-se facilmente que homens e mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»

Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, enão pelos viajantes—que o magistrado não lia viajantes—deu comsigo na formosa Toscana.

Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres, em nascimentos, artes e sciencias.

Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre emPoggi Bonzi, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas, aVal d'Arno, áPoggia Imperiale, e a quantos pontos convergia a nobreza toscana.

Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi, Strozzino.

A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma, na gloria do seu Creador.

A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos,quando, em Lisboa, reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a mãe não fôra mais linda que ellas.

O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella. Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem, porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos, andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o andassemprocurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo.

N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles Jordão foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu rei, enfardelou á pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito cabedal em moeda que tinha herdado de avós, prescreveu ordens aos seus mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado no Tejo, com as duas meninas palidas de susto.

Horas depois, saía barra fóra, quando já em Lisboa repicavam os sinos á fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse tempo estalavam apedrejadas todas as vidraças do palacio de Bartholo de Briteiros, ás Amoreiras, e a populaça, a brava e briosa gentalha, apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista.

Estava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.

Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar, dizia elle.

O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suasMemorias: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assimas chaves de ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o pela conquista d'aquella cidade.

Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza.

Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica, derrengada e aleijadinha.

Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz, das Pyramides e de Friedland.

Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort, a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A educação acanhara-o; e os dissabores,suggeridos por causa de seu nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a do sceptro hereditario.

Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e perguntou ao hospede se conheciaFernando Gomes. O fidalgo franziu a testa, e disse:

—Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. OsGomesem Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido obscurecido, ou se perdeu.

—Póde ser que o seu patricio achasse oGomesperdido!...—disse o principe com ar de riso.—O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a minha estima agrade ao seu patricio.

Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido á sala em que já estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e tão perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra de Camões, que quantos diplomatas nos andam lá por fóra engrandecendo.

Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e lá entre si disse: «Não conheço: isto é homem ordinario.»

—Tem aqui um patricio—disse o principe a Fernando.—É emigrado, e pae das duas meninas, que o senhor além vê, que parecem madonas. Ditosas revoluções as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros é um pae ditoso, que se revê nos seus dois cherubins, dignos de Florença mais que de Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo é que vivam em Italia, que é o céo das artes e das maravilhas. Não conhecia o senhor de Briteiros?

—Não, senhor—respondeu Fernando.

—De onde é o cavalheiro?—perguntou Bartholo.

—Sou de Lisboa.

—Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua familia.

—Vossa excellencia não conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de um homem do povo.

—De onde saem os reis do genio—ajuntou Jeronymo Bonaparte.

Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabeça, e disse, passados minutos:

—Veio de Portugal ha muito tempo?

—Ha vinte e tres mezes.

—Como estão as cousas por lá? Quem governa a canalha?

—Governa-se ella, presumo eu—disse Fernando.

O principe sorriu e murmurou:

—A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em Portugal...

—Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte onde as nacionalidades se dissolvem—accrescentou Fernando.

—Diz muito bem!—acudiu Briteiros—Portugal está em dissolução. O senhor é necessariamente realista!

—Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa não foi minha.

—Mas enganou-se...—atalhou Bartholo com má cara—A canalha é que reina.

—Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e arminhos—ajuntou Fernando Gomes.

—E isso é bom?—redarguiu o fidalgo.

—É bom como lição, como experiencia...

—E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal...

—Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo—disse Fernando.

—Ahi está o patriotismo dosmalhados—exclamou Briteiros.

—Basta de politica—interveio o principe de Monfort, a quem destoara a violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alçada.

Fernando ficou pensativo a um canto do salão, meditando no appellidoBriteiros. Sabia de cór os nomes dos signatarios do accordão que enforcou os academicos. Não lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais façanhudo dos algozes vivia em Florença, com grande luxo, e segura posse de seus bens na patria. Odiou-o; não poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse:

—Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o portuguez... Mas tome tento em não argumentar com o pae. O senhor de Briteiros é contumaz inimigo do povo e da liberdade. Cá entre os meus hospedes francezes é conhecido porLuiz XI. O homem é um apologista das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade. Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeiçoada á maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita inepcia: gente emigrada não póde desprezar estes perrexis do riso, por isso o senhor de Briteiros é muito procurado. Agora vamos ver que duas flores saíram d'aquelle bravio matagal.

Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina.

—Aqui está o seu patricio, minhas senhoras—disse elle, indicando a Fernando uma cadeira—conversem; espaireçam saudades da sua terra.

Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço penosamente enleiado.

—Está ha muito em Florença?—perguntou Eugenia.

—Ha dois mezes, minha senhora.

—Lisboa é mais linda, não é?

—Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo—disse Fernando.—Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e, com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo. Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as thermas de Antonio, os...

Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que, no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta? Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas donosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as flôres que ellas tinham?

—Tem muitas saudades de Portugal?—disse Fernando.

—Sempre...—respondeu Paulina.

—E quem priva seu pae de voltar á patria?

—Elle não quer!—disse Eugenia—Tanto lhe temos pedido! Responde nos sempre que só volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando irá o sr. D. Miguel, sabe?

—Não sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel não pensa em lá voltar...

—Não?!—atalhou Paulina—E o papá a dizer que sim!... Então nunca lá tornaremos!

—Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a companhia do sr. D. Miguel, e supponho até que elle póde viver tranquillo sem a protecção do principe. As pessoas, que serviram o partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurança em Portugal; d'isto deve estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia.

—Diga-lh'o, sim?—tornou Eugenia.

—Não me atrevo a aconselhal-o; porém, se o sr. Bartholo de Briteiros quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal só persegue os seus proprios amigos.

As meninas não entenderam a doble intenção d'estas ultimas palavras. Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras, compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso,como se as estivesse palestrando com philosophos ou politicos.

A mim, comtudo, o que mais me espanta é a facilidade com que Fernando Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis ás pessoas com quem falava! Não o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia, como ella é no Oriente, e como os hebreus a saberiam lêr no cantico dos canticos! Pois não tinha elle olhos, á mingua de coração! Acaso o temperamento lymphatico póde tanto que as imagens objectivas se não espelhem na retina, e o coração não tome conta dos filtros que os olhos lhe côam como arames abrazeados de electricidade?!

Eu sei cá!...

Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e eruditos de differentes paizes.

O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe:

—Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi: as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras, não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta Grecia?—disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.

—São formosas como portuguezas—respondeu Fernando Gomes—mas em Londres seriam mediocrementegraciosas. Os typos gregos eram menos correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou, exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias, Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da infancia lhe aquilatasse o merecimento.

—Parece-me porém—interrompeu o principe de Monfort—que as vantagens são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para se amarem sem inveja de gregas e romanas...

—Certamente.

—E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanhaficasse sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado, se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!...

Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco depois, do baile.

No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios; flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de Paulina Briteiros.

Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:

«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.

«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa, e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundofestas. O apartar-mede meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria, pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te estremecem...»

Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém, n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta linha:Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença. Isto vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como Horacio a respeito de tudo mais:nihil mirari. Maiores desatinos que o de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro, que dispara no mesmo.

Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade. Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no dizer do author deAndré Chénier, «é como a Circe que maneata os forasteiros de invisiveis liames, elhes dá continuada festa de musica, paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o esquecimento do seu paiz!...»

Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra. O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.

Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontecetantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos, chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!

Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais longe o menos preço dos parvos.

Paulina via todos os dias Fernando napiazza di Dome, sobre a qual se abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando pressurosa:

—Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!

Assentavam os cotovellos no peitoril do balcãode marmore, e alli se quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez! Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um santo anachoreta.

Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no palacio Orlandini.

—Que terá elle que nos não procura?!—dizia Paulina a sua irmã—Mas repara que não dá preferencia a ninguem!

—É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?—dizia Eugenia.

—Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.

N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã:

—Chamemo-lo, sim? não parecerá mal?

—Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio?

Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.

—Senhor Leopoldo Roberto—disse ella—conhece aquelle portuguez que está falando com a princeza Carlota?

—Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença—respondeu o palido mancebo.—Achei-o um desgraçado.

—Desgraçado?!—atalhou Paulina.—Que infortunios são os d'elle?

—Os extremos: os do amor sem esperança—respondeu o pintor.

Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?»

Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos, aventurou-se o artista a perguntar:

—Pois não conheciam o seu patricio?

—Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort—disse Eugenia—mas dos seus infortunios não sabiamos.

—É de Florença a senhora que elle ama?—perguntou Paulina.

—É de Portugal.

—E elle está em Italia?!—accrescentou Eugenia—porque não vae então para Portugal?

—Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia—disse Paulina.

—A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.

—Eu!...

—Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que o salve.

O pintor ia retirar: Paulina exclamou:

—Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora portugueza que Fernando ama?!

—Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?—replicou Leopoldo—Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!

As meninas não proferiram um monosyllabo.Leopoldo, o ascetico amante de Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza. Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o pintor disse a Fernando:

—Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito, arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz «matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu fazer-te, amigo?

Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos do medo. O pintor não o seguiu, dizendo:

—Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha ainda está imperfeita.

Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão, peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chamaHoras de Trabalho. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historiados amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do pintor.

Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçadorimpossivel, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial. Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?

E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado pela bala?

Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!

Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas florestas que perpetuaste em teus quadros!

E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do bello!

Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero immorredoiro!

E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um anjo!

Queremos agora vêr como procede o portuguez.

A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem.

Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.

Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se comona Italia, e entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia, leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e peculiarmente naPhysiologia do amor. Eu gosto de indicar as fontes limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis.

Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se.

Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.

—Sou o portuguez Fernando—disse o moço.

—As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os cuidados das senhoras de Briteiros.

Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.

—Patricio e amigo—disse este a Fernando—não fuja da gente. Amigos, amigos, politica á parte.

—Eu não fujo de vossa excellencia—disse o moço côr de rosa, quanto rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.

—Pois o senhor sabe—tornou Bartholo—que está um portuguez em Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!

—Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar tamanha honra.

—Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez que honrou sua patria!—Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa, ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!

Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam em muito amor ás filhas.

Fernando respondeu:

—Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.

—São a pintura da mãe—atalhou Bartholo.—Minha mulher foi a dama mais linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!

Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe avultava de bronze á phantasia.

Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou:

—E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços de dezoito annos, que lance de si as suasjoias, a luz dos seus olhos, o ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados, que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser! As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las, quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para, assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo. Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambasellas sabem que me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres, Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!... Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo que estou falando com um soldadomindeleiro...

—Não, senhor—atalhou Fernando—não posso gloriar-me da façanha do Mindello...

—Façanha!... Ora essa! que façanha?!

—Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...

—Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea... Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello, que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...

Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:

—A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!...

—Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.—Creia o que eu lhe digo, que tenho o segredoda rebelião desde mil oitocentos e dez. O senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar moscas...

Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás galhofas algum tanto colericas do fidalgo.

Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:

—Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos. Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe, que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros de ser examinada com o microscopio!

Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo Bonaparte, o irmão predilecto do imperador.

O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra. Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem, d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém, com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.

Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas. Eugenia chamou-o, e disse-lhe:

—O papá affligiu-o com as suas rabugices?

—Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de Briteiros.

—Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem—disse Paulina.—Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim?

—Com o maior prazer...—balbuciou Fernando.

—Demora-se em Florença? tornou Paulina.

—Não sei dizer a vossa excellencia...

—Depende o demorar-se da vontade de sua familia?—perguntou Eugenia.

—Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...

Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.


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